segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Gênesis Nada Tem a Ver com Isso, Imbecil

 


Eu fico a pensar: isso é verdadeiro?


Quando comecei  a fazer teatro... eu comecei a pensar na existência em si. E eu comecei a perguntar sobre a autenticidade. Aprendi que o ensaio é sobre a espontaneidade e a espontaneidade é sobre ser verdadeiro. Atualmente, eu olho pra cada cena e pergunto se isso é verdadeiro. Tudo o que eu faço está sendo ditado por isso. Eu pergunto a verdade de cada cena que fiz. Durante o dia. Durante a tarde. Durante a noite. Quiçá até mesmo dormindo, se eu lembrasse do que eu sonho.


Essa pergunta ("isso é verdadeiro?") tornou-se um crivo constante, um fio condutor da minha consciência. Hoje eu creio que socialmente representamos muito. Muitas vezes fazemos o que não precisamos fazer até mesmo quando não é necessário ou obrigatório fazer. Esse é o peso que acredito que a maioria das pessoas carrega sem nomear: o teatro desnecessário. É como se estivéssemos em um ensaio eterno de um personagem ruim que ninguém pediu.


É interessante que o que mais eu faço, dentro das aulas de teatro, não é o performático no sentido que Judith Butler diria, mas dentro de outro sentido. Para Judith Butler, o performático é a repetição de atos que constroem o sujeito social. Ou seja, é a matriz, é o discurso, é o gênero, é o reconhecimento do outro. É um "fazer que inscreve" no universo a cultura. Nas aulas de teatro, vejo o oposto: existe um ato de rasgar a repetição para desconstruir o sujeito. A arte do ensaio, pelo que tenho notado, envolve dissolver as camadas sociais para encontrar um impulso que vem antes da linguagem. Aquilo que éramos, o ser essencial, antes do reconhecimento do outro.


O que tenho tentado, quando estou sozinho com minha mente agonizante, é entender um estado de presença onde a máscara social cai e o que sobra é um gesto cru e irrepresentável. O "se mágico" de Stanislavski leva a um questionamento: o que eu faria se estivesse nessas circunstâncias? Esse questionamento carrega um "EU", é uma pergunta pessoal e que só você, compreendendo a si mesmo, pode responder. Não é sobre trazer outra pessoa para dentro da cena, mas sim trazer a si mesmo dentro da cena. Não se trata de um comportamento social genérico que é transmitido por uma máscara, mas sim a radicalidade da realidade do eu que se manifesta a cada circunstância que é dada. O "se mágico" pressupõe a radicalidade ontológica de um ser que verdadeiramente se manifesta.


Isso me leva a pensar a respeito de Grotowski. Para Grotowski, o ator não deve interpretar, mas deve se sacrificar através da exposição. O treinamento teatral é uma via negativa, um processo de tirar tudo o que não é essencial. Se, nas aulas de teatro, aprendemos a ser "verdadeiros dentro da cena", a questão teatral que o ator leva, para todos os cantos, é se ele é verdadeiro fora da cena. Grotowski chamará isso de "ato total", esse é o ato de transformar a própria vida em matéria de investigação.


Tenho pensado nisso todos os dias. É uma espécie de obsessão. Desde que, enquanto eu ia pro metrô, me deparei com o seguinte pensamento:

— Mas o SE MÁGICO pressupõe um EU. Ele é um TRAZER A SI MESMO. O "eu" nunca está ausente do sistema. O sistema Stanislavski é pensado a partir da autenticidade.


A radicalidade grotowskiana, que também é tão fantástica quanto a de Stanislavski, envolve uma pergunta: "o que sobra de mim quando eu arranco toda a ficção, toda máscara social, todo o adereço cultural?" 


Para Grotowski, o treinamento do ator era um exercício espiritual, um ascetismo. Para Grotowski, o ator precisa ser santo. Para Grotowski, o ator deve se despir. Esse "se despir" não é para exibir o corpo, mas a alma. Isso casa bastante com o que li há muito tempo atrás. Mesmo sendo agnóstico, mesmo não sendo judeu, esse é um dos meus livros prediletos. Lembro-me que, há muito tempo atrás, li Nilton Bonder. O livro se chama "A Alma Imoral". Nesse livro, é dito que no livro de Gênesis, Adão e Eva colocam a vestimenta da racionalização diante de Deus. No fundo, roupa que estão usando é a roupa da falsidade. Também é dito, na Bíblia, que "Deus é". Ao mesmo tempo em que o ser humano é, em sua natureza, vacilante. Logo o ser humano "está". Essa questão me toca profundamente, mesmo não sendo cristão. Quando eu sei que eu sou de fato eu? Quando estou em um estado? Quando eu sou? Isso lembra o diálogo que aparece em Hamlet de Shakespeare: "ser ou não ser, eis a questão".


Acabo de virar a noite pensando em Stanislavski e Grotowski. O que é extremamente engraçado: a minha mente explodiu em múltiplas ideias que não consigo sequer organizar. Não sinto ter, nesse momento, a capacidade de colocar em palavras a sucessão de sensações tresloucadas que tive do domingo para segunda-feira. Repare nisso: sensações, não pensamentos. O que vinha na minha mente era uma porrada de memórias antigas, mas eu via tudo com várias sensações. Memórias de amores, de perdas, de vitórias, de derrotas. Tudo junto e misturado.


Stanislavski pensava em como trazer a verdade interior para o palco, Grotowski pensava no ser humano nu e verdadeiro diante do outro. Pra Grotowski, o teatro era ato sacro de confronto total. Grotowski via na teatralidade a sacralidade.


Sinto que, durante anos, estive a dançar uma ilusão pornográfica de uma sinfonia lunática que só eu podia ouvir. Ontem, pela primeira vez, eu tive uma revelação tão estranha quanto aquela que Gregory Hill e Kerry Thornley tiveram quando fundaram o discordianismo. Talvez isso seja, como não poderia deixar de ser, efeito de uma mistura não tão saudável entre teatro e filosofia. Tal como se eu casualmente convidasse Dionísio e Apolo para uma festa. Apolo é o deus da ordem, da forma, da razão, da técnica, das palavras organizadas. Dionísio, por sua vez, é o deus do êxtase, do descontrole, do instinto, da sensação que escapa à lógica. Como juntar isso harmonicamente sem entrar em contradição ou criar um produto que seja uma síntese dialética de naturezas tão avessas?


Hoje comecei a ler um livro sobre Stanislavski. Estive lendo compulsivamente. E fiquei percebendo que Stanislavski era completamente perturbado... não falo no sentido de perturbação ruim. Falo em outro sentido. Falo perturbado no sentido de buscar uma progressão diante de uma inquietação. Para ele, a vida teatral era uma questão agônica e contínua. Quanto mais eu lia, mais calafrios eu sentia. A vida dele era uma inquietação que não se aquieta. Stanislavski era um homem em crise permanente que passou a vida inteira corrigindo a si mesmo. Stanislavski reescrevia o próprio sistema o tempo todo. Estava até mesmo disposto a se contradizer para não parar. Ele sabia que a verdade não é um destino, mas um movimento. 


Quanto mais eu penso, mais eu me vejo. Eu me olhei em diferentes cenários. Nesses diferentes cenários, pelos quais eu passei, durante toda a minha vida, eu fiquei a pensar: isso é verdadeiro? Quantas vezes eu disse "eu te amo" para uma pessoa que não mais amava? Quantas vezes eu fingi me importar com um emprego que simplesmente queria largar? Quantas vezes omiti meus sentimentos reais em relação a alguém ou a algo? Não sei por qual razão senti necessidade extrema de escrever esse texto, não sei se ele será compreendido. De qualquer forma, a questão ainda martela na minha cabeça, e eu fico a pensar: "isso é verdadeiro?"