domingo, 16 de agosto de 2026

Leftypol, Renan Santos e Ameaça de Morte



Esse texto é uma resposta a um amigo, mas como esse Blogspot recebe cerca de quarenta mil visualizações mensais, acredito que seja de interesse público essa mensagem. Disponibilizarei o texto no Medium também. Creio que notarão um  "excesso de texto" a respeito do comportamento do militante médio; esse "excesso de texto" é a chave para a interpretação real. Já que ele aponta para um problema maior e mais cruel. Algo que muitos, a esse ponto, já notaram. Eu não vou dizer diretamente o que é, mas quem observou esse caso friamente sabe que há um padrão quase misterioso, algo que pode parecer muito com o que foi escrito no passado. Esse padrão misterioso me levou a temer o que o militante médio está a realizar em prol de fazer o Renan Santos ter mais presença midiática.


Sua pergunta é muito difícil de responder. Sendo sincero, estou afastado da militância da Missão desde abril/maio. Muitos dos meus amigos também estão afastados. Muita gente que conheci simplesmente caiu fora. Algumas pessoas que conheci querem esquecer que "ainda fazem parte", sumir gradualmente de cada vista e serem esquecidas por todos os outros. Confesso que não acompanho muito de perto o que se passa com essas pessoas. O MBL e o Partido Missão, quanto mais se conhece de perto, têm um gostinho de cidade pequena. Creio que posso aderir a um estilo que soe demasiado "afastado", "frio" ou "monótono". Se assim for, peço-lhe desculpas.


Sempre fui bastante frio e sempre tive uma linha interpretativa bastante própria. Nunca parei de ler autores de esquerda, de centro e de direita ao mesmo tempo; sempre faço isso antes da formulação de qualquer linha de raciocínio. O blogspot Cadáver Minimal é a prova disso. Isso pode soar desagradável para movimentos que possuem uma linha comportamental mais estrita e uma hierarquia mais forte. É graças a isso que sempre me mantenho afastado. Gosto de ler até mesmo quem se encontra no ponto contrário ao meu; isso me possibilita chegar a visões mais complexas e completas.


Tenho recusado falar do MBL e do Partido Missão, sobretudo no Blogspot e no Medium. A razão é simples: não quero ser visto como um estorvo para o Partido Missão/MBL nem quero que o público do Blogspot ou Medium acredite que exista alguma conexão profunda que nunca existiu. Repito mais uma vez: estou afastado desde abril/maio. Venho vivendo um afastamento progressivo. Isso foi algo que foi bom para mim e também para eles. Os outros que se afastaram, não sei como estão. Nem tenho informações suficientes para afirmar coisa alguma. Se o tivesse, também não afirmaria nada. Mas juro-lhes que não tenho contato algum e foi por escolha mútua. Cada um foi para o próprio canto e foi viver a própria vida.


Isso faz parte de uma "lore", de uma temporada que passou. Conheci gente do MBL, até mesmo pessoalmente. Gente que tirou foto com candidatos e até era conhecida por setores amplos da militância. Tem muita gente boa, tal como há gente boa em cada partido e movimento. Já saí para tomar cerveja e até ver um jogo da Copa com alguns. Havia algumas pessoas que eu conhecia de longa data na internet. Também pude ver como muitos se comportavam em determinadas situações e como eles se comportavam conforme acusações de traições eram soltas ou simplesmente quando era mais conveniente todo mundo se afastar de um incômodo.


Sendo sincero, houve gente que foi afastada como se tivesse lepra no mundo antigo. Acredito que, dentro de um movimento, existam figuras que possam ser mais sacrificáveis e outras que não possam ser sacrificadas de nenhuma maneira. De qualquer modo, a maneira ríspida com que isso ocorreu, atingindo até algumas pessoas que nem sabiam muito do que se passava, passou-me a impressão de existir uma diferença entre esotérico e exotérico no nível de informação que cada membro da militância recebia. Compreendo, contudo, que houve uma grande perturbação interna, que em parte justificou comportamentos mais extremos em relação à vigilância e às teias relacionais. De qualquer modo, essa separação entre conhecimento exotérico e esotérico parece ser, dentro do partido e do movimento, algo muito estranho e que não existe para fins meramente estratégicos, mas como uma lógica muito anômala a um partido e um movimento político. Tal estrutura comportamental parece assumir um espaço cada vez maior, lado a lado com o emprego estético cada vez mais excêntrico, gerando a internalização de uma lógica oculta e misteriosa que tem um fim não muito claro. As conexões que se traçam através do tempo parecem não só se somar, mas assombrar. A estrutura comportamental e a estética se somam assombrosamente.


O problema é que para muitos militantes, o mundo do MBL e do Partido Missão, além da revista Valete, era uma parte fundamental da identidade que possuíam e não queriam perdê-la. Isso fez com que muitos, apesar do que se passasse, seguissem comportamentos que, por muitas vezes, acreditei serem tóxicos. Não concordo com legiões que atacam mulheres de forma misógina ou que possuam um comportamento amplamente LGBTfóbico. É bastante evidente o costume de setores da militância de atacarem os adversários dessa forma. Não só adversários, mas ex-integrantes também. Toda crítica é válida, mas deve ser feita de uma forma honrosa. Um dos maiores exemplos é um desafeto do movimento que é chamado de "travequeiro". Mesmo que ele curtisse mulheres trans, o que me parece não ser o caso, qual seria o problema? Uma pessoa adulta ter relacionamento com outra pessoa adulta não é problema de ninguém. Não há provas de adultério. Nem existe qualquer motivo para celebrar violência física contra opositores políticos.


Outra coisa importante, que cabe ressaltar, é que a estrutura do movimento e do partido, em si, parece comportar a defesa só da radicalidade comportamental dos membros mais notórios e não daqueles que são da base. Em outras palavras, caso um membro individual, de pouca importância para o partido e para o movimento, seja pego em ações misóginas ou LGBTfóbicas, ele não gozará de proteção real. A mesma linha de observação cabe à acusação de determinadas figuras sem provas cabíveis por causa de humores momentâneos e conclusões triunfais falíveis. Isso pode ser errôneo e inadequado, além de juridicamente irresponsável. Os militantes menores, apegados à lógica da identidade, deveriam ser mais estratégicos em seus feitos.


O MBL e o Partido Missão são atentamente monitorados por diversos grupos. Os seus membros, até mesmo aqueles considerados menos importantes, são observados por pessoas de diversos partidos e movimentos. Muitos deles podem printar, fazer dossiês, fazer denúncias ou até mesmo tomar ações mais concretas contra esses membros. É por isso que considero que são necessárias mais precaução e mais estratégia e menos ânimo nas tomadas de decisão que os militantes, não importando quem eles sejam, tomam. Além disso, o costume de brigar com todos os outros grupos pode levar a um afastamento do movimento e do partido de outros setores sociais importantes para o seu crescimento.


Lembrem-se de que, na estrutura moderna, seria muito fácil encontrar diversos perfis menores envolvidos em LGBTfobia e misoginia. Esses perfis, embora estejam permanentemente na vacilação, são úteis para amplificação das mensagens do partido e do movimento. Se algum grupo decidisse fazer reportagem em massa, denunciar ao Ministério Público ou simplesmente encadear matérias jornalísticas envolvendo a atuação nociva de setores da militância, o ataque poderia levar a uma boa perda da capacidade de articulação digital em momentos sensíveis. Se diversos perfis caem, a capacidade de amplificar as mensagens do movimento e do partido diminui. Isso deve ser pensado, sobretudo quando temos em mente as regulamentações que aumentam dia após dia. Embora eu seja da linha que defenda um corpo menor de leis para uma aplicação mais funcional delas, ainda é necessário pensar no impacto jurídico de cada ação de acordo com as leis que foram ou serão aprovadas.


Preciso dizer isso em figura de linguagem, mas para bom entendedor, meia palavra basta. Entenda que quando o parquinho pega fogo em nome da revolução burguesa contra a nobreza, apenas as crianças da burguesia serão resgatadas. Tome cuidado, caro plebeu, caso se reúna com essas crianças adinheiradas em suas andanças revolucionárias. A revolução custa muito para quem pode ser sacrificado e menos para quem não pode. O comportamento de um líder é protegido pelo escudo de seus seguidores e da sua estrutura, todavia, o comportamento de um seguidor não apresenta o mesmo escudo nem a mesma estrutura. Dito isso, preste mais atenção nos próprios passos antes de andar no vulcão do mundo; a fumaça é alucinante e as caídas podem ser mortais.


Sinto muito por ter tido que entrar em tantos meandros para só então entrar no que ocorreu com Renan Santos. Eu sou uma daquelas pessoas que estão afastadas ou simplesmente sumiram. Para ser mais exato, estou preferindo me abster de qualquer confronto e me dedicar aos estudos. Já escrevi isso várias vezes, mas sempre acabo por ressaltar esse ponto de novo e de novo. É custoso obter a paz, porém é mais custoso ainda perdê-la logo após obtê-la. Se eu aprendi algo, olhando de perto e de longe, é que essas aventuras eleitorais são radicais e muito custosas, sobretudo para quem está na base.


A ameaça sofrida por Renan Santos: creio que é importante dizer que qualquer ameaça ou tentativa de intimidação deve ser tratada com seriedade, sobretudo pelas vias adequadas. Isso não é controverso nem discutível; é necessário. Por favor, leia esse parágrafo duas ou três vezes se necessário. Leia até cinco vezes, conforme a necessidade. Volte a lê-lo toda vez que for necessário.


Não creio, contudo, que tenha sido correta a exposição generalizada que o Leftypol sofreu em decorrência do comportamento de um único membro. E tenho dúvidas quanto à excepcionalidade desse membro radical em um fórum historicamente pacífico. O pânico midiático tendeu a criar um marketing em torno de um fórum que tem o costume e o longo histórico de ser pacífico, até mesmo pacato. Sou uma pessoa que tende a acreditar que o jornal cria parte do imaginário social, tornando o escrito em uma realidade através de uma repetição. A repetição pode criar familiaridade e a familiaridade pode ser psicologicamente assumida como fato.


Confesso que tive um pouco de desinteresse em estudar e acompanhar o caso, sobretudo por viver um período de recolhimento e de estudo. Além disso, tenho me mantido afastado de qualquer tipo de informação política a respeito do Brasil por motivos de saúde mental.


Uma postagem anônima detalhando a intenção de atentado, apresentando local, data e alegada posse de arma justifica a investigação policial, independentemente da plataforma em que ocorreu. Esse aspecto não é debatível. A generalização a respeito do Leftypol, contudo, não faz sentido em termos de proporcionalidade. No Leftypol, tal como em qualquer chan, as postagens individuais não se vinculam a uma organização como um todo. Até porque não há hierarquia formal, partido ou estrutura de comando. O conteúdo é gerado por usuários anônimos. Logo é impossível presumir que uma postagem individual represente todos os seus usuários.


O que acho extremamente enganoso é que a exposição midiática e política transformou um post isolado em representação coletiva; isso é um padrão recorrente em cobertura de chans e é algo que sempre critiquei. Um caso extremo não pode nem deve virar metonímia do espaço inteiro. Esse julgamento é válido para chans mais à direita e para chans mais à esquerda. Além disso, criar todo um pânico envolvendo assassinos misteriosos em fóruns anônimos em pleno período eleitoral me parece algo perigoso e que deveria ser feito com mais cautela. Esse tipo de mensagem costuma levar mais pessoas perigosas para dentro desses fóruns.


Existe algo no meu estômago. Sinto a necessidade de colocar essa linha de raciocínio aqui. No Brasil, períodos eleitorais costumam apresentar bastante exposição midiática. Nesses períodos, a notícia serve como amplificação de imagem. Isso atrai tanto os partidos quanto quem quer aparecer. Recentemente tivemos um caso em Brasília, onde um grupo planejava um atentado. Quando as notícias explodiram em pleno período eleitoral, isso pode ter levado a um efeito duplo: de um lado, o pânico social; de outro lado, grupos que mimetizam a lógica do caos e querem ver uma chance para sombriamente brilharem. Toda notícia a respeito desse tipo de ação pode levar à amplificação desse fenômeno e isso deveria ser visto com mais cuidado. Não podemos, enquanto sociedade, normalizar tamanho comportamento violento, mesmo que inconscientemente.


Acredito que esse tipo de conteúdo não deve ser reproduzido em massa. Não deve ser utilizado para fins políticos. Não deve levar a múltiplas acusações. Não deve ser levado como prova contra adversários de longa data. Existem tenebrosos efeitos contraproducentes nisso. É evidente que Renan Santos ganhou maior atenção midiática, mas a chuva de ânimos levou a acusações indesejáveis. Além disso, grupos que visam estabelecer pânico social agora possuem uma fórmula atitudinal, seja a fórmula vista no Leftypol, seja a fórmula vista em Brasília. Isso é extremamente indesejável e perigoso. Estamos abrindo territórios hostis e normalizando-os em nosso imaginário social.


É válido lembrar: ameaças explícitas de violência real são contra as regras da maioria desses espaços e costumam ser removidas ou banidas quando detectadas, embora possa se alegar que a moderação de um chan é muitas vezes inconsistente e a natureza anônima dificulte a prevenção. Até onde pude pesquisar, não há registro público de campanhas de violência ou atentados originados do Leftypol como coletivo. Isso é uma realidade extremamente diferente de alguns outros chans que já tiveram vínculos documentados com ataques reais.


Uma coisa, meus caros, é noticiar uma ameaça específica, investigar a sua autoria e eventual capacidade de concretização. Outra, de natureza bastante diferente, é transformar essa mesma ocorrência em uma caracterização abrangente de todo o espaço de discussão. Não estou dizendo que a postagem é, em si, inofensiva. Ela não é. Acontece que não creio, pelo longo histórico do Leftypol, que ele seja uma espécie de hub de radicalização operacional. Isso é, para mim, um marketing político com fins eleitorais movido à falsa equivalência.


A dinâmica de pânico midiático e marketing involuntário é clássica: "fórum de extrema-esquerda planeja assassinato de Renan Santos". Isso serve para criar um imaginário que se autorreforça, atraindo curiosos e novos radicais e, paradoxalmente, solidificando a própria narrativa de vitimização de um lado e de demonização de outro. O jornalismo de impacto, cabe lembrar, frequentemente privilegia o excepcional e o ameaçador sobre o cotidiano discursivo do espaço. O que, mais uma vez, não anula a gravidade da ameaça, todavia, explica a razão de um post isolado ter ganho escala nacional em pouquíssimas horas.


Digo, mais uma vez, que não venho acompanhando o caso de maneira aprofundada. Como já dito anteriormente, tenho me afastado do noticiário político brasileiro. Repito novamente que por motivos de saúde mental, preferi me afastar desse tipo de informação. É por essa razão que não pretendo apresentar como certeza aquilo que não pude verificar pessoalmente.


É importante dizer: acredito que há muito sensacionalismo nas reportagens a respeito de chans. Usualmente os episódios mais extremos são tratados como regra. Isso cria um imaginário social que pode levar, ao contrário do que muitos pensam, a esses ambientes se tornarem desejáveis figuras patologicamente indesejáveis. Termino meu argumento da seguinte forma: acredito que a responsabilidade por uma ameaça específica deve ser investigada, mas a atribuição dessa ameaça a uma coletividade inteira precisa ser demonstrada e não presumida.

sábado, 15 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #55 — Cansado do Brasil

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no Telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


Quanto mais o tempo passa, mais eu arrumo meios de esquecer que vivo no Brasil. É preferível, sei lá, colocar France 24 e ver um noticiário todo em francês do que abrir um jornal brasileiro.


Recentemente, também aplico um retardo temporal até mesmo no que leio em português. O único livro que estou a ler em português é "A Falecida", de Nelson Rodrigues. Faço por causa do curso de teatro.


Também leio "El Loco" de Juan Luis González, mas esse está em espanhol. O livro do Juan é interessante, mas confesso que por vezes me sinto um pouco enfadado de acompanhar qualquer coisa política e faço mais por obrigação do que por gosto.


Em inglês, leio "Supreme Courtship" de Christopher Buckley. Um livro fantástico, com uma protagonista incrível. Já dei boas risadas no metrô.


Atualmente faço aulas de mandarim. O mandarim é, para mim, outra excelente oportunidade de esquecimento do meu país.


A última vez que vi brasileiros interagindo intensamente foi em uma notícia sobre um professor texano que chorou ao perceber que os rapazes que formava não conseguiam ler quase nada. Eram rapazes de 17, 18 anos. A sessão de comentários era cheia de bolsonaristas. Todos culpando o Lula e o Paulo Freire pela educação que era dada no Texas. Vi, a partir disso, que sentia um enfado cada vez maior com o brasileiro médio.


Também não me interessei muito pelos rumos políticos nacionais. O que vejo é que, apesar de tudo o que se diz, Lula reeleger-se-á. Com alguma dificuldade, mas vai. O governo federal pertencerá à esquerda, mas os estaduais tenderão à direita. O centrão também terá uma fatia. Em 2028, creio que teremos mais novidades políticas. Em 2030, um direitista eleger-se-á.


Cremos que vivemos uma tendência de transição gradual. A esquerda perde a nível municipal e estadual. A direita vai ganhando municípios e estados. Creio que nessas eleições, o domínio legislativo e o executivo de nível estadual serão da direita. O governo federal, à direita, é um sonho que ela terá que esperar por mais quatro anos.


Digo isso, é claro, sem remorso algum. O Brasil não há de me surpreender muito. Os personagens muitas vezes soam caricatos. Eu não espero quase nada do Lula IV. Tampouco espero alguma coisa de algum governo de direita que se eleja em 2030.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #54 — A vantagem econômica da esquerda

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


(Censurado), eu nunca entendi essa mania da direita de fazer coisas inacessíveis e caras. Os malucos literalmente fazem coisas só pra quem tem grana. Até mesmo as festas são só onde gente que tem dinheiro pode ir. Os eventos do PT, do PSOL, qualquer eventozinho de esquerda. São infinitamente mais baratos e acessíveis ao brasileiro médio. Rolês de esquerda são mais econômicos e a possibilidade de você pegar alguém são infinitamente maiores.


Eu disse "eventozinho" não no sentido de diminuir a parada no sentido qualitativo. Falo da diferença quantitativa entre um "pequeno evento" e um "mega evento". Mas até os mega eventos da esquerda, os chamados eventozões, são infinitamente mais baratos que os da direita.


Se continuar assim, mesmo com a queda do Lula, a direita não vai conseguir ampliar a base por causa do preço absurdo. A esquerda tem a vantagem econômica.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!

 


A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente republicano: desprezo completamente as suas pretensões monárquicas.


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente protestante: desprezo completamente as suas pretensões de ser um papado conservador.


Imagine a seguinte situação:


Você é um conservador que cresceu lendo Russell Kirk, Nelson Rodrigues, Michael Oakeshott, Gustavo Corção, Antonio Paim, Carlos Rangel, Stuart Stevens, George Grant, Rick Wilson, David Frum, Eric Voegelin, Christopher Buckley, Christopher Lasch, Bruno Tolentino, Patrick Deneen, Paulo Francis, Carlos Nougué, G. K. Chesterton, Yuval Levin, etc., etc., etc.


Você leu teóricos de esquerda também, já que é um sujeito ilustrado. Sejam os clássicos marxistas, sejam os clássicos anarquistas, sejam até social-democratas.


Você se lembra de conversar com seus amigos. Falar emocionado que está trazendo escolas de pensamento da direita pro Brasil:


— A Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo da American Compass;


— O Anglican Tory;


— O Red Tory;


— O pensamento de Charlie Kirk;


— Os chamados Never Trumpers;


— O movimento Reformicon;


— O pensamento de Alain de Benoist.


Aí você tem que parar. Parar e olhar. Olhar para uma família. Essa família se chama Bolsonaro. Os seus seguidores se chamam "bolsonaristas". Eles, que estudam o movimento intelectual conservador de um modo infinitamente inferior ao seu, devem ditar como você deve pensar e como deve se comportar. Aliás, eles acusam todo mundo que discorda deles de "serem um bando de esquerdistas".


No Brasil, estamos em um ponto agoniante. Nesse ponto de desespero, até figuras como Pondé se tornaram de esquerda segundo a mentalidade bolsonarista. Afinal, a direita é uma monarquia em que a família real é a família Bolsonaro. Ou seja, eles têm monopólio do que a direita pode pensar e ditam, tal como numa espécie de "infabilidade papel bolsonarista", tudo o que a direita pode ou não pode fazer.


Se Flávio Bolsonaro for ao segundo turno, voto em qualquer um que for contra ele. Meu voto não será, pura e simplesmente, de esquerda, de centro, de direita ou o que quer que seja. Meu voto será triunfalmente um voto antimonárquico, no sentido de ser contra a monarquia bolsonarista. Meu voto será radicalmente um voto antipapista, no exato sentido de ser um voto contra o papado da família Bolsonaro.


sábado, 8 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #53 — O Brasil não é um país LGBTfóbico; o Brasil é um país CRONICAMENTE LGBTFÓBICO!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originalmente publicado no Reddit.


O Brasil não é um país LGBTfóbico; o Brasil é um país CRONICAMENTE LGBTFÓBICO!


Alerta central:


Repare que no texto todo eu não proponho nenhuma lei e isso não é um debate entre o "tá na lei" e/ou "tem que ter uma lei". Isso é uma argumentação, não uma proposição legal. Logo não venha com essa ideia absurda do "ai, você quer usar o Estado malvadão pra proibir as pessoas de". Não, não é disso que o texto trata. Pode-se criticar algo sem propor uma lei.


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A LGBTfobia no Brasil não é uma ocorrência esporádica. Ela é estrutural, ela é sistemática, ela é enraizada na história e nas instituições brasileiras. 


Uma das principais forças de vetorização de lgbtfobia hoje é o "humor". Você reparará em uma quantidade incomensurável de vezes em que aparece o meme "pessoa que faz isso 🏳️‍🌈".


Esse meme consiste na pessoa dizer:


— "Algo de que eu não gosto/algo que acho desprezível"= coisa que um LGBT faz/faria.


Esse aspecto do "humor brasileiro", que acho essencial mencionar, é nele que vemos que, no fundo, as pessoas atribuem tudo de que não gostam aos LGBTs.


O humor deveria ser uma forma de libertação, algo que transcende e critica a sociedade em que se está. Um dos principais lemas da sátira é o "Ridendo castigat moris" (rindo, corrigem-se os costumes). Creio que dois dos melhores exemplos de um conservadorismo crítico são Nelson Rodrigues (Brasil, sobretudo na parte teatral) e Christopher Buckley (Estados Unidos, em suas novelas). Eles provam que não é necessário ser "anti-LGBT" para se ter um "humor conservador".


Voltando à centralidade do assunto, percebo que ao vestirem o ódio LGBTfóbico em forma de piada, esse ódio escapa da crítica. Qualquer um que questiona esse "humor" é colocado como "sem senso de humor" ou como "militante chato". Isso é um meio de deixar a violência simbólica ser reproduzida pela massa.


Ao associar todo aspecto negativo ou algo que claramente desgosta as pessoas LGBT, você faz uma associação automática de tudo o que for LGBT ao negativo. Isto é um silogismo cultural. Esse silogismo cultural ensina, de forma repetitiva, que ser LGBT está no campo semântico do erro, do nojento, do ridículo, do patético.


Para uma pessoa heterossexual, isso pode soar comum. Mas para uma pessoa LGBT, tudo o que isso indica é que ela está diretamente ligada ao erro, ao nojento, ao ridículo e ao patético. Quem gostaria, de tal forma, de ser LGBT, sendo que é isso que a sociedade revela a ela?

Penumbrário #2 — Quando o Inverno Cinza Passar

 



Desculpa, moça, mas você está completamente enganada! Está errada! Está torta! Sua percepção é cheia de fagulhas ilusórias de um passado de ampulheta de areia contaminada!


Sabe, ontem, quando você me disse que eu era um sujeito compreensivo. Então, moça, na verdade eu estava tendo insights após insights devido aos efeitos da psilocibina. Em linguagem vulgar, eu não estava sendo compreensivo por causa de um cogumelo mágico. Hoje eu estou em um estado de recuperação neurológica e emocional depois dessa trip e posso ver as coisas com mais clareza. A psicodelia se foi, sobrou a dor do real. Isso também prova, isso também demonstra que sou humano, pateticamente humano.


Não sei como eu pareci pra ti, mas eu via o mundo todo em cores mais vibrantes, em formas geométricas mais distintas; eu via o mundo com cada objeto respirando; eu ouvia as cores e via os sons. Quando eu olhava para ti, também olhava para a distorção do espaço-tempo. Hoje, após a trip, o mundo me parece extremamente frio e cinza.


Atualmente eu só sinto o cansaço mental e físico. A vontade de chorar. A sensação de um grande vazio no meu peito. Além de, é claro, uma crônica dificuldade de concentração.


Desculpa, moça, quando eu te vi, eu já tinha tomado chopp, eu já tinha tomado cachaça com limão, eu já estava no terceiro gin de dez. Eu tinha fumado maconha também. Por algum acaso, encontrei um colega que esteve no ensino médio comigo e a gente comeu cogumelo mágico.


Posso ter passado a impressão errada, mas eu não sou tão compreensivo e mágico quanto você pensa que eu sou. Pra você, eu sou fofo e acolhedor. Isso é mentira. Eu estava doido. Na verdade, eu sou um homem terrivelmente patético e vagabundo. A única coisa que faço na vida é ler livros estranhos que ninguém conhece, ser estudante de teatro, participar de um podcast de saúde mental e jogar videogame. Você não pode amar alguém assim; você precisa amar quem realmente possa te levar pra algum lugar e atualmente o único lugar a que eu posso te levar é a uma ressaca psicodélica de cogumelo.


É sério, eu não estou brincando. Ressaca de cogumelo existe. Essa ressaca não é a dor física do álcool, é a exaustão química, é a sensação de que meus neurônios pediram demissão e foram viajar sem mim. Tudo parece irritantemente cinza demais. Eu não quero que você veja os lados mais negativos e tóxicos da minha personalidade. Se a minha imagem anterior, criada pela ilusão da droga, é infinitamente superior, para que dar o gosto da agonia do dia a dia?


Eu não sei em que ponto, naquele dia, eu era eu. Eu sei que a psilocibina não inventa sentimentos; ela amplifica o que já está no coração. O cogumelo afrouxou as travas do meu ego. Mas, hoje, após tudo, vejo-me tão patético como o Incolor Tsukuru no livro do Haruki Murakami.


Hoje eu sou a valsa de uma química cansada. Cada expressão de exaustão é uma sinfonia de comedown. Cada batida da bateria do meu sistema nervoso é um grito de desespero pedindo por pausa. Espero que você compreenda, espero que você possa esperar até o inverno cinza passar...

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Penumbrário #1 — Eu gosto de um tipo muito específico de mulher e por isso não tenho namorada

 


Eu gosto de um tipo muito específico de mulher e por isso não tenho namorada


Sabe, eu preciso ser cru e corajoso. A vida toda eu tentei namorar outras mulheres, mas eu descobri uma coisa. Eu gosto de mulher que me faz de puta. Quanto mais uma mulher me faz de puta, mais eu amo ela. Isso não é a descrição de um fetiche, isso não é um "eu gosto de um femdom no BDSM", isso é a poética da minha existência. 


Eu não quero me sentir mais homem perante uma mulher, eu não sou um Dom Casmurro de Machado de Assis, eu quero uma mulher que usurpe e destrua toda masculinidade que há em mim. Quando uma mulher me faz isso, me sinto mais mulher e eu gosto de mulheres que me fazem mais mulher. Pois ciúme não é prova de amor, é tédio de si mesmo.


Dom Casmurro era possessivo, Dom Casmurro queria controlar a mulher para se sentir seguro. Ele não percebia que ele mesmo adoecia de ciúmes quando perdia o controle. Eu não quero ser dono, quero ser a posse. Prefiro a entrega total à vigília paranoica. Já que é mais gozoso ser objeto de desejo do que sujeito de desconfiança. Ao trocar a vigília pela entrega, troco a ansiedade pela existência plena.


Quero uma mulher que deconstrua a minha masculinidade para me libertar do peso dela. Já que a masculinidade cansa, quero ser receptáculo e não performar como ativo. Quero parar de performar e passivamente experiencer. Eu troco o fardo da performance pelo prazer da passividade ativa. Quero o ócio do ser, deixar de agir para permitir-se ser agido.


Mulher boa é aquela que me faz sentir mais mulher. Não falo no sentido identitário, falo no sentido da mulher me pôr no polo simbólico da posição de receptor de desejo. Mulher boa é aquela que me atravessa, que me invade, que me faz moldado pela força do desejo dela. Quero que ela me faça admirar tanto o seu feminino que o feminino dela transborde e o oculpe todo espaço do meu ser em uma forma de adoração pagã. Quero mulher como força telúrica, quero dar pra uma mulher pra ela me pôr cada epifania feminina dela.


Eu quero me desmontar inteiro perante uma mulher que saiba femininamente cuidar de cada pedaço afeminado meu. Quero desenterrar o não-homem que a cultura me ensinou a enterrar. Quero que ela organize minhas partes num formato efeminado que mais confortavelmente me cabe.