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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Penumbrário #1 — Eu gosto de um tipo muito específico de mulher e por isso não tenho namorada

 


Eu gosto de um tipo muito específico de mulher e por isso não tenho namorada


Sabe, eu preciso ser cru e corajoso. A vida toda eu tentei namorar outras mulheres, mas eu descobri uma coisa. Eu gosto de mulher que me faz de puta. Quanto mais uma mulher me faz de puta, mais eu amo ela. Isso não é a descrição de um fetiche, isso não é um "eu gosto de um femdom no BDSM", isso é a poética da minha existência. 


Eu não quero me sentir mais homem perante uma mulher, eu não sou um Dom Casmurro de Machado de Assis, eu quero uma mulher que usurpe e destrua toda masculinidade que há em mim. Quando uma mulher me faz isso, me sinto mais mulher e eu gosto de mulheres que me fazem mais mulher. Pois ciúme não é prova de amor, é tédio de si mesmo.


Dom Casmurro era possessivo, Dom Casmurro queria controlar a mulher para se sentir seguro. Ele não percebia que ele mesmo adoecia de ciúmes quando perdia o controle. Eu não quero ser dono, quero ser a posse. Prefiro a entrega total à vigília paranoica. Já que é mais gozoso ser objeto de desejo do que sujeito de desconfiança. Ao trocar a vigília pela entrega, troco a ansiedade pela existência plena.


Quero uma mulher que deconstrua a minha masculinidade para me libertar do peso dela. Já que a masculinidade cansa, quero ser receptáculo e não performar como ativo. Quero parar de performar e passivamente experiencer. Eu troco o fardo da performance pelo prazer da passividade ativa. Quero o ócio do ser, deixar de agir para permitir-se ser agido.


Mulher boa é aquela que me faz sentir mais mulher. Não falo no sentido identitário, falo no sentido da mulher me pôr no polo simbólico da posição de receptor de desejo. Mulher boa é aquela que me atravessa, que me invade, que me faz moldado pela força do desejo dela. Quero que ela me faça admirar tanto o seu feminino que o feminino dela transborde e o oculpe todo espaço do meu ser em uma forma de adoração pagã. Quero mulher como força telúrica, quero dar pra uma mulher pra ela me pôr cada epifania feminina dela.


Eu quero me desmontar inteiro perante uma mulher que saiba femininamente cuidar de cada pedaço afeminado meu. Quero desenterrar o não-homem que a cultura me ensinou a enterrar. Quero que ela organize minhas partes num formato efeminado que mais confortavelmente me cabe.







sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Acabo de ler "Psicología evolucionista, el caso de las fobias" de Vários Autores (lido em espanhol)

 




Nome completo do artigo: PSICOLOGÍA EVOLUCIONISTA, EL CASO DE LAS FOBIAS

Autores: Troglia, Marisa; Gillet, Silvana Ruth; Fasciglione, María Paola

A teoria da evolução é uma teoria que afirma que existe um princípio de adaptação ao meio que se marca a partir da luta pela sobrevivência. É a luta pela sobrevivência que promove, não só a humanidade como todos os outros animais, a adaptação ao meio. A psicologia evolucionista, surgida a partir da teoria da evolução, propõe uma perspectiva integradora. Ela sintetiza a teoria evolucionista, a psicologia cognitiva e a psicologia aplicada. Ela serve para o estudo – e também o diagnóstico – da normalidade e da patologia.

As emoções têm um valor adaptativo para o indivíduo. Elas fazem parte dele por serem úteis e por facilitarem a sua sobrevivência. Uma explicação psicológica evolucionista da ansiedade é a de que ela é útil para detectar perigos no meio ambiente e promover respostas adaptativas. A ansiedade pode ser natural (advinda de perigo real) ou uma disfunção (advinda de defeitos genéticos ou uma variação). A função genética do medo é a de ativar e movimentar o organismo para enfrentar o perigo. Atualmente muitas das questões desenvolvidas por nós fazem parte de nossas características filogenéticas, mas não possuem muita validade numa sociedade em que o homem já domina muito do meio em que vive.

Somos preparados pela nossa história evolutiva (filogenética) para associar certos estímulos a certas respostas. A história evolutiva das espécies (seleção natural) tem inegáveis vantagens adaptativas, todavia ela sempre é uma incógnita. O ambiente é móvel, isto é, está sujeito a alteração. Logo podemos estar em vantagem ou desvantagem de acordo com nossa adaptabilidade.

Existe o conceito de preparação, no qual é apresentada a ideia de que o organismo está filogeneticamente preparado (através do processo evolutivo da sua espécie) para associar certos estímulos com relativa facilidade ou dificuldade (um mecanismo de cálculo), esses podem ser:
  • Seletividade: são ativadas quando entramos em contato com perigos que foram importantes na história da humanidade;
  • Fácil aquisição: são adquiridas num único ensaio e sem necessidade de um estímulo traumático;
  • Resistência a extração: é uma característica da "aprendizagem preparada", isto é, nossa disposição para aprender acerca de um perigo;
  • Irracionalidade: desproporção entre um perigo real e sua resposta proporcional em ansiedade.
As reações fóbicas, isto é, o medo ante a determinada situação ou objeto, foram transmitidas geneticamente. A razão é pelo fato de que os indivíduos portadores de certos medos foram mais capazes de sobreviverem e se adaptarem. Quando um evento acontece, uma reação emerge no organismo para esse evento. Essa é a linha da aprendizagem preparada. As variações genéticas, por sua vez, traçam que certos indivíduos tem maior potencialidade de adquirirem certas fobias do que outros. 

quinta-feira, 7 de março de 2024

Acabo de ler "El Túnel" de Ernesto Sábato (lido em espanhol)

 



"había un solo túnel, oscuro y solitario: el mío, el túnel en que había transcurrido mi infancia, mi juventud, toda mi vida"


Juan Pablo é um homem que a tudo vê de forma obscurecida. Seus pensamentos, infinitos e variados, impedem-lhe de enxergar algo que vá além de sua subjetividade. É como se existisse, em sua percepção, uma espécie de sobrecarga mental que o próprio pensamento impedisse a percepção do mundo ao redor. Um pensamento atropela o outro, a sua ansiedade marca páginas e páginas do livro, projetando psicologicamente a angústia do personagem no cenário.


Imagine que um livro seja projetado psicologicamente: nada escapa à sobrecarga psíquica do protagonista. E o leitor, lendo o livro, se vê ficando sem ar. É tanta ansiedade, é tanto detalhamento neurótico, é tanto pensamento atrás de pensamento que nem o leitor e nem o personagem central conseguem ter sossego. A leitura do livro pode ser descrita numa única fala que traduz todo esse passeio mental: asfixiante.


Não posso negar que me sinto semelhante ao protagonista da obra: toda essa incompreensão, toda essa neurose, todo esse desprezo pela maioria, toda essa capacidade de sentir por não se integrar e, além disso, a própria noção de que há uma barreira mental, projetada pelo próprio protagonista, entre o ser e o mundo. Tudo isso não me é estranho, é até mesmo comum.


Essa leitura, a não ser em excepcional caso, adentrará como uma das melhores leituras do ano. Eu certamente me apaixonei pela forma que Ernesto Sábato escreve. Vejo aqui um homem brilhante que usa o espanhol com a grandeza dum mestre.