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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Memória Cadavérica #39 — Antissemita?


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta deixada a um grupo católico.


>vocês 


Eu estou apenas traçando a origem do termo.


Não estou dizendo algo que eu particularmente acredite, mas explicando como o termo surgiu dentro da lógica interna do grupo.


Se a teoria é antissemita, eu explico a lógica antissemita que está dentro do discurso. Do mesmo modo, se a teoria é feminista, conservadora, progressista, whatever. E é basicamente o que eu sempre fiz como intelectual. Seja analisando teologia judaica, teoria queer, islamismo, anarco-capitalismo, feminismo, catolicismo, etc.


Até porque o que eu sempre trabalhei foi a "engenharia mental reversa" adotada dentro da esfera da interpretação intelectual.


Se toda vez que eu fizesse alguma análise sobre algo, explicando como dada cosmovisão surge dentro de um universo própio, eu teria que ser ao mesmo tempo feminista, machista, judeu, católico, queer, tradicionalista, progressista, neopagão, anti-conspiracionista, pró-conspiracionista, antissemita, sionista, reacionário, comunista, etc.


Quando eu escrevo algo sobre o Olavo de Carvalho, estaria eu sendo olavista? Quando eu escrevo algo sobre Deng Xiaoping, estaria eu sendo um socialista de mercado? Duas coisas ao mesmo tempo? Do mesmo modo, quando eu explico o conspiracy warfare (guerra conspiratória), estaria eu sendo um teórico da conspiração?


Quando eu trago a obra do intelectual norueguês Egil Asprem, que é CRÍTICO DO ESOTERISMO A EXTREMA-DIREITA, seria eu um PROGRESSISTA DE ESQUERDA ATUANDO CONTRA A CONSPIRITUALIDADE SOMBRIA?


Aí é que está. Existe diferença entre a análise intelectual e a promoção doutrinária de algo.


Do mesmo modo, quando eu trago o Alain de Benoist, da direita francesa, eu teria que ser pagão e de direita, mas, no dia seguinte, ao trazer um artigo do Journal of Bisexuality, eu teria que ser um bissexual militante lutando contra o monossexismo de homossexuais e héteros. As duas hipóses teriam que ser dadas como verdadeiras.


Se formos adiante, ao analisar Nick Land eu seria um neorreacionário querendo o aceleracionismo ultracapitalista ao mesmo tempo que, no dia seguinte, eu teria que ser um tomista ao analisar os cursos tomistas.


Essa é a capacidade de sair do dogmatismo que o próprio Olavo de Carvalho falava. É a investigação livre dos demais diversos temas e a capacidade de formar um raciocínio não dentro de um prisma teológico (onde há a aceitação doutrinária), mas de uma análise filosófica do debate público (vendo o que concorda ou discorda pontualmente).


Leia Agnosticismo Metodológico:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2021/10/agnosticismo-metodologico-ou-da.html

domingo, 11 de janeiro de 2026

Recomendações Cadavéricas #6 — Três Faculdades Cristãs com CURSOS GRATUITOS



Recomendações Cadavéricas: uma série de postagens de recomendações do escritor do blogspot Cadáver Minimal.

Nota: é necessário compreender inglês para entender o conteúdo dos cursos.

Conteúdo encontrado nessas faculdades de forma geral:

Esses três recursos são excelentes opções complementares para quem busca formação intelectual clássica/cristã sem custo: a Hillsdale que é mais ampla e "americana", a Christendom que é mais diretamente católica e pastoral, e a Aquinas 101 que é mais filosófica e profunda no tomismo.

— Hillsdale College:


Breve resumo do seu conteúdo:

Cursos online gratuitos (autoestudo) com foco em educação clássica liberal, incluindo a Constituição americana, história dos EUA, grandes obras literárias, filosofia, economia, arte, música clássica, cristianismo e Bíblia. Ênfase em princípios fundadores da liberdade, civilização ocidental e formação moral/cívica. Milhões de alunos já se inscreveram.

— Christendom College:


Cursos online gratuitos voltados para aprofundar a fé católica através da própria tradição intelectual católica. Aborda temas como teologia do corpo, bioética católica, natureza humana, história centrada em Cristo, Novo Testamento, virtudes/santidade, entre outros. Material produzido por professores da faculdade, com foco em crescer na fé e na compreensão da doutrina católica.

Breve resumo do seu conteúdo:

— The Thomistic Institute:


Breve resumo do seu conteúdo:

Plataforma gratuita Aquinas 101 com dezenas de vídeos curtos e cursos estruturados sobre o pensamento de Santo Tomás de Aquino. Aborda temas fundamentais como existência de Deus, fé e razão, felicidade, natureza humana, problema do mal, ciência e fé, Jesus Cristo e muito mais. Formato acessível (vídeos + leituras + podcasts) feito por frades dominicanos e professores, para introduzir o tomismo no mundo contemporâneo.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Memória Cadavérica #38 — A Revolução do EU TE AMO



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.



Contexto: relato deixado em um grupo católico, corrigi e expandi o texto para deixá-lo mais preciso.

Você irá orar por sua família, ela irá orar por ti. Você irá malhar, e ignorar a cultura não cristã. Você será cristão. E abandonar o passado. Tal como disse o cristão  pro pagão que se convertia: queimas o que adorastes e adoras o que queimastes. Foi o que disse um missionário cristão. É o que eu digo.


Queimas a cultura channer e torna-te cristão. Queimas a cultura neoconservadora e torna-te cristão. Queimas o que te separas de Cristo. Tudo o que te separou de Cristo. E adoras a Cristo. Somente a Cristo. E a Igreja que ele criou. Estou falando com minha mãe. Pela primeira vez. Em anos. Falando de verdade.


Ela fala que estou no caminho correto. Que devo me entregar a Cristo. E isso basta. Antes de entrar nesse grupo. Eu não orava. Não dizia eu te amo. Nem pro meu pai. Nem pra minha mãe. Hoje eu sempre digo.  Te amo, pai. Te amo, mãe. Claro preciso melhorar ainda mais. Preciso ir pra igreja regularmente. Preciso me integrar a minha paróquia. Tal como diz o Little Jhon (CAT)⁩. Minha mãe  me vê, diz que eu estou mudando. Antes eu só ligava pra minha mãe para pedir dinheiro. Pra teste de gravidez. Sempre de uma mulher aleatória. Hoje eu acordo. Rezo o terço. E falo pra minha família: eu te amo.


Uma coisas que eu aprendi, nesses tempos. É dizer "EU TE AMO". Claro, eu sou desorganizado, negligente, mas estou melhorando. Tudo por causa desse grupo. E de outras coisas também. Muito obrigado! Minha mãe até estranhou. Hoje foi a primeira vez que liguei para ela. Não para pedir dinheiro. Para uma balada aleatória ou para mais um teste de gravidez ou pílula do dia seguinte. Mas para eu dizer "Eu te amo". Eu não sei o quanto ela estava decepcionada comigo, mas eu sei que ela se sente mais confortável até porque eu não sou mãe e nem sou pai, mas tô por causa disso, digo obrigado!


O engraçado é que liguei pra um amigo meu. Ele se tornou CLT e disse como é mágico pra ele dizer "Eu te amo pra mãe dele" e que outro amigo ligou pra ele. Ligou para dizer que estava dizendo "eu te amo" pra mãe dele. É impressionante como estamos na sincronia. É impressionante como aprendemos a dizer "Eu te amo" para nossas mães ao mesmo tempo.


Por todo esse tempo, buscamos teoria para tudo. Além disso, buscamos vadiagem e revolução para tudo. Porém o que aprendemos é que "dizer eu te amo", de forma sincera e honesta, para nossa família e os nossos amigos, era tudo que precisávamos. Estava até feliz por eu ter aprendido a dizer "Eu te amo". E eu estava feliz que ele aprendeu a dizer "Eu te amo" também. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Memória Cadavérica #37 — A Mística, O Desespero e O Abandono

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: relato deixado em um grupo católico, corrigi e expandi o texto para deixá-lo mais preciso.


Eu lembro do que ocorreu uma vez. Há um tempo atrás. Falo há um tempo atrás e fazem dois anos, visto que foi em 2024. Namorava uma mulher árabe, uma comunista. Era uma comunista de primeira, visto que treinada por anos de militância. Por algum motivo, caminhávamos pelo centro de São Paulo. E eu vi uma Igreja. Senti que precisava entrar lá. Não saberia dizer a razão, apenas sentia que precisava. Perguntei se ela queria entrar.


É interessante. Hoje vejo que dizer que quer entrar em uma Igreja pra uma comunista de carteirinha é algo muito estranho, mas ela me acompanhou. Pouco tempo depois, e de algum modo, eu me pus de joelhos ali. Fechei os olhos, queria orar. Por um momento, rapidamente. Eu vi que flutuava em um espaço. Em um estranho céu azul límpido e claro. Ele era pacífico e cheio de nuvens. Então uma lança atravessou meu coração. Ela me atravessava por baixo, eu flutuava por cima. O sangue do meu coração foi descendo pela lâmina. Descia infinitamente. E o sangue que escorria, tal como uma nascente, criava uma catedral.


Por algum motivo isso me fazia chorar. Hoje, contando tudo, vejo que não foi a minha primeira visão. Já me vi ajoelhado perante Maria, chorando copiosamente. Já vi a Igreja, do teto, e uma estanha luz azul que parecia ser a conexão com Espírito Santo.


Diante do incompreensível de tais visões, decidi não ir mais. Senti medo. Medo real de estar enlouquecendo toda vez que pisasse numa Igreja. É algo que, se por um lado, é belo. Tão belo que me faz chorar. Também é algo que me dá medo de estar enlouquecendo. Talvez seja só um motivo estranho de um homem estranho.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Understanding Human Nature - Note #1


 

The course is offered by Christendom College. The professor is Dr. John A. Cuddeback.


Link to this course:

https://online.christendom.edu/courses


God give us:

1. Natural light (natural reason);

2. Supernatural light.


Human nature = the rational animal. What is being a human? What is being a rational animal? The question is: what is a man and what is the difference between a man and the rest of creation?


Man is both: rational and spiritual. Rationality is a strong philosophical question. We have some philosophers who talked about it:

- Socrates;

- Plato;

- Aristotle;

- St. Thomas Aquinas.


What is rationality? Rationality is: the activity that is most characteristic of this kind (rational animal/human).

What can humans do?

- Taking care of things;

- Ruling;

- Rationality is a way of having reality too.


The human soul can become all things. Rationality is a means of possessing things, but it is also a means of becoming all things. This is a fundamental difference: we can transcend, in a sense, the limitation of the body to being other things.


We have the second light, the supernatural light, the theology. Because of it, we can understand God's plan and the integration of natural reason and supernatural reason.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Acabo de ler "Palavras para Desatar Nós" de Rubem Alves

 



Ler Rubem Alves é, para mim, algo terapêutico. Isto é, serve-me de auxílio nos momentos mais complicados de minha vida. Este homem tem uma escrita pacífica e bastante densa. Consegue, por meio de tons suaves, traduzir toda uma realidade complexa. Essa capacidade extraordinária é algo invejável.


Rubem Alves é um homem bastante interessante. Vindo do meio protestante, escreveu um livro falando sobre como o catolicismo teve mais protagonismo na cena progressista do que o protestantismo, natural detentor desse termo. O que chega até mesmo a soar uma incógnita: como uma hierarquia dita como altamente hierarquizada e não sujeita à mudanças poderia ser palco duma revolução? Talvez seja pelo inerente costume das massas de terem apego às tradições, mesmo quando elas não consigam sistematizá-las. Sou da tese que o catolicismo foi mais progressista pelo fato de que os sacerdotes, freis e monges têm maior formação acadêmica.


De qualquer modo, esse livro apresenta toda a característica de uma crônica: ele é suave e faz referência a vida cotidiana de Rubem Alves. Sem cair numa gigantesca abstração tipicamente acadêmica ou num vazio de futilidade tipicamente mundano ou corriqueiro.


Em Rubem Alves, simplicidade e academicidade aparecem lado a lado de forma harmônica, sem que uma acabe por ferir uma a outra. Sua erudição, que aparece de forma simples, continua a ser assustadora e encantadora. Um livro que qualquer um poderia ler, mas que também edificaria a vida de qualquer pessoa que lesse.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Acabo de ler "Em Defesa de Stalin" de Vários Autores (Parte 2)


O que gera um homem tão hipnótico quanto Josef Stalin?   Sua figura é apresentada diversas vezes e nas mais variadas facetas que se alternam ad infinitum. Após tantas e tantas versões, com tantos e tantos detalhes, há uma certa contrariedade narrativa, um sentimento de auto-anulação pela absoluta oposição de diferentes teses e antíteses em efeito cascata. Seja como for, a maioria das impressões históricas se manifestam contrariamente a ele. Todavia, após tantas batalhas narrativas - de esquerda ou de direita -, ficamos no disse-me-disse: sem saber o que dizer ou o que pensar.


Stalin teve uma vida como a de muitos habitantes da União Soviética e, de semelhante maneira, muito próxima ao cidadão de terceiro mundo: moralidade rígida, um pai alcoólatra e de figura turva, pobreza e a noção de que o mundo era como uma profunda inquietação promovida pelas hordas de intempéries que se sucediam dia após dia. Mesmo com toda essa junção de complexidade trágica, Stalin tirava boas notas e isso levou a ele entrar no seminário. Assim feito, esperava-se que ele se juntasse à hierarquia da Igreja Ortodoxa.


Como um menino tão inteligente, de notas tão boas e de comportamento asceticamente exemplar poderia, então, desviar-se dum caminho tão bom e tão bem planejado? As cenas lamentáveis de pobreza que se manifestavam como uma espécie de ritualística da vida cotidiana despertaram em seu peito uma necessidade. Necessidade revolucionária, diga-se de passagem. Stalin não poderia conviver perfeitamente bem com o que via, com o que testemunhava. Isso fez com que o pobre menino da Geórgia se convertesse, mesmo que lentamente, num agitador revolucionário.


Seu comportamento tinha uma natureza dual: ao mesmo tempo em que mantinha o rigor estoico da vida dum católico ortodoxo exemplar questionava a autoridade da estrutura hierárquica da Igreja Ortodoxa e se dispunha mais na leitura da assim chamada "literatura subversiva", gastando o seu tempo em atividades de agitação revolucionária. Seu estudo, por sua vez, foi edificado tendo como base o drama russo e o drama universal.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Acabo de ler "La Rusia contemporánea y el mundo" de Carlos Taibo (lido em espanhol)

 



O debate pró-Rússia e anti-Rússia se tornou, graças à guerra atual (Rússia x Ucrânia), um dos mais aguerridos do mundo atual. Não raro, vários grupos decaem numa análise extremamente parcial e pouco factível. E muitos posicionamentos são calados por não serem compreensíveis ao intelectual médio do Brasil: tal qual a famosa direita pró-Rússia, produto intelectual mais recente e de menor notoriedade dentro do campo acadêmico nacional.


É preciso dizer que a Rússia contemporânea não é como a Rússia soviética. Há uma mescla de fatores distintos: preocupações da esquerda clássica, nacionalismo russo, cristianismo católico ortodoxo de caráter oriental, mentalidade europeia clássica (por assim dizer cristã). Esses fatores, alguns de direita e outros de esquerda, entram numa síntese que escapa, em muito, dos possíveis diagnósticos parciais tão comuns e tão raros aos comportamentos dos grupos ideológicos. Rússia tem, ao mesmo tempo, uma disposição reacionária e revolucionária visto que nutre a mentalidade reacionária anticapitalista - ou, melhor dizendo, antiliberal - ao lado duma mentalidade revolucionária.


A retórica e símbolos culturais soviéticos, a ideia dum império que faz frente a uma amalgama de outros, se junta a retórica e símbolos culturais do Império Russo. O Império Soviético, mais o Império Russo, mais as pretensões nacionalistas e cristãs católicas ortodoxas. Ah, que impressionante e sintética mescla de fatores prontas para levantar uma série de confusões mentais nos mais distintos agrupamentos sociais.


Os direitistas pró-Rússia falam da Rússia ser um país autenticamente cristão, que adota uma linha moral condizente com os pressupostos morais do cristianismo, ao mesmo tempo que faz frente ao progressismo do Ocidente contemporâneo que é contrário ao cristianismo. Já os esquerdistas pró-Rússia falam da resistência anti-EUA e, igualmente, das políticas soberanistas da Rússia que vão contra a mentalidade econômica liberal. De semelhante modo, direitas anti-Rússia falarão da economia não-liberal da Rússia como forma de atacá-la. Esquerdistas anti-Rússia do seu reacionarismo.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Acabo de ler "Historia Mínima de la Guerra Civil española" de Enrique Moradiellos (lido em espanhol)




Escrever sobre um conflito tão exaustivo e marcante nas poucas palavras que o Instagram permite é uma certa espécie de martírio. Porém não falho ao meu compromisso intelectual de estudar e analisar, mesmo que sem a minúcia necessária, o universo hispânico (seja este em sua origem ou em suas variações).


Quem estudar espanhol terá um mundo a se abrir diante de teus olhos. A história de inúmeros países e, igualmente, muitíssimos autores aparecer-lhe-ão em companhia para que amadureça em visão de mundo, relativizando a estreita visão de outrora e abarcando um novo grau de horizonte de consciência. A história marcar-lhe-á a alma a ferro e fogo, para que tu crenças na medida do mar imenso e profundo que desbrava.


A guerra civil espanhola teve uma configuração muito importante. A  Alemanha e a Itália estiveram ao lado de Franco, porém a União Soviética manifestou-se a favor do regime republicano. A participação de anarquistas, comunistas (marxistas) e socialistas também foi de suma importância. A neutralidade da Inglaterra e a permissividade da França foram pontos graves.


Tratava-se duma guerra entre um lado tradicionalista (católico e monárquico), de tendências fascistas e outro lado de tendências mais laicas, dominado por uma mentalidade mais própria da modernidade ou até mesmo do socialismo ou do anarquismo. Um lado vendo o outro como intolerável.


Todos já sabemos o fim que levou. A vitória de Franco não seria estrategicamente um grande auxílio ao Eixo (Itália, Japão e Alemanha), todavia afastaria a Espanha duma posição energicamente contrária aos seus interesses. Já a União Soviética, neste tempo ainda sem seu gigantesco arsenal militar, não seria suficientemente capaz de sustentar uma revolução socialista ali com sua baixa capacidade produtiva e produtos fora do padrão de excelência que um dia conquistaria. Mesmo que se possa dizer que outra república socialista ser-lhe-ia de grande ajuda.


Uma luta tão multifacetada, tão demonstrativa das contradições históricas não pode ser ignorada por qualquer um que goste e queira estudar seriamente o mundo.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Acabo de ler "Vida de um homem: Francisco de Assis" de Chiara Frugoni

 



O que leva a um jovem de família burguesa, sobretudo um conhecido pela sua vida festeira, largar a riqueza e a vida boêmia e seguir o evangelho de Jesus Cristo da maneira mais radicalmente vívida possível?


Francisco de Assis é uma figura obrigatória, sendo referenciado por pessoas das mais diversas religiões e até mesmo por cristãos não-católicos. Um homem que tomou ações impensáveis e levou a uma imersão dialógica que a Igreja, por demasiado institucionalizada e petrificada, não poderia chegar.


Francisco quis, por muito tempo, ser cavalheiro e se envolveu em diversas tramas para adquirir tal posição. Porém ficaria marcado não como um burguês que virou nobre cavalheiro, mas sim como um burguês que ficou tão nobre que se tornou um dos maiores santos da história.


Poeta nato, teve várias lutas espirituais e viu todo um ataque estrutural por onde passava. Nem aqueles que entravam em sua ordem queriam segui-lo de fato. E a própria Igreja Católica conseguiu, pouco a pouco, arrefecer a potencialidade do seu projeto evangélico.


Esta não é uma biografia romantizada, ela demonstra a várias faces de um santo que também era um homem e todos os meandros dum mundo que não poderia compreendê-lo e nem abarcá-lo. Não caindo numa simples apologética, seja para com o próprio Francisco e tampouco com a Igreja Católica.


É sempre entusiasmante ler biografias de homens notáveis, é ainda mais notável quando lemos sobre um dos homens mais notáveis de toda a história universal.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Acabo de ler "A Igreja no Brasil-colônia" de Eduardo Hoornaert

 



O livro, escrito por um sacerdote católico, traz uma abordagem bastante crítica da história da Igreja no Brasil colonial. Sendo bastante contundente, traz uma diferenciação entre o tratamento dados aos povos indígenas e aos povos africanos. Além de estabelecer diferenças entre as diferentes ordens e como atuavam dentro do território do Brasil colonial.


A missão da Igreja no Brasil se confundiu com os objetivos colonizadores portugueses muitas vezes, levando até mesmo a perda de seus critérios messiânicos e evangélicos em prol do empreendimento português. Um exemplo claro disso é a forma com que parte da sociedade requeria o trabalho escravo indígena e como se posicionaram as diferentes ordens católicas frente a esse posicionamento. Os jesuítas tenderam a desfavorecer essa iniciativa, já outras ordens se posicionaram com favorecimento dessa causa.


Por outro lado, houve uma diferença de tratamento bastante clara entre o indígena e o africano. O africano tendeu a ser abandonado a sua própria sorte e o indígena gozou do privilégio de algum respaldo das instituições religiosas. Houve também uma utilização maléfica da fé para fins de submissão, como um grande veículo cultural que implantava mensagens alienantes em prol da subserviência dos outros povos não-europeus. Diferenças de tonalidade de pele também foram usadas como critérios hierárquicos nas instituições eclesiásticas.


O mais interessante é que o autor da mensagem, bastante crítica para com a história da Igreja no Brasil, é um sacerdote e como ele se propõe a uma leitura imparcial e autêntica. Provando a capacidade modernizadora da própria Igreja Católica como instituição e como doutrina cristã.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Transformei "A Palavra de Deus, Nossa Única Regra" de João Calvino em Audiolivro!




Olá, meus caros amigos. Estive a transformar mais um pequeno livro em audiolivro. Com a intensão de expandir a playlist cristã do canal, peguei um pequeno livreto de João Calvino. Como o outro livro cristão era de um autor católico (Raimundo Lulio), optei dessa vez por um autor protestante consagrado. Mais uma importante "produção" do projeto Latir contra os Grandes.

No livro em questão, Calvino fala sobre a Palavra de Deus em contraste com as tradições humanas. Há críticas direcionadas aos chamados judaizantes (cristãos que assumem tradições judaicas) e aos católicos (também chamados de papistas). O livro também aborda a questão da pureza de coração, que torna tudo puro.

Veja em fragmentos no YouTube:

Ou veja num único áudio no Spotify:

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

TRANSFORMEI "O LIVRO DA INTENÇÃO" DE RAIMUNDO LULIO EM AUDIOLIVRO!

 



É com prazer que anúncio que acabo de transformar mais um livro em audiolivro. Sinta-se convidado(a) para ouvi-lo no Spotify ou no YouTube pelo canal "Latir contra os Grandes"!

Nesse livro, Raimundo Lulio trabalha sobre o ordenamento da vida em si e como mortificar os maus gostos e ascender na aspiração das coisas celestes. Um livro excelente a quem busca um maior relacionamento com o divino. Um grande clássico teológico da Idade Média. O livro poderá ser ouvido em estado completo no Spotify e em fragmentos no YouTube.

Spotify:

YouTube:

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Prelúdios do Cadáver #10 - Bissexualidade, Conservadorismo e Cristianismo

Texto publicado em 30/08/2018


Estou no Contra os Acadêmicos desde que vi o Vitor Matias anunciar o grupo. Quando entrei, em meu perfil antigo, o grupo não tinha nem cem usuários se não me engano. Vejo que a sexualidade é um importante assunto no grupo, quase nunca comentei nada nesse longo tempo que estou aqui e, então, agora resolvi falar um pouco de minha orientação sexual, de minha religião (cristã) e do movimento LGBT.

Esclareço, desde já, que isso não é uma apologética ao movimento LGBT e também não é uma apologética ao movimento anti-LGBT. Essa minha "argumentação" mais parece uma confissão de uma pessoa enlouquecida com a própria condição que lhe foi posta e que fica oscilando entre o bissexualismo e o heterossexualismo forçado. E ficando-se com a questão: é mais natural seguir meus impulsos e ser plenamente bissexual ou viver numa luta interna para reprimir meu lado homossexual e viver numa heterossexualidade forçada?

Sou bissexual. Minha orientação sexual é motivo de angústia para mim e para meus familiares. Meu desejo sexual é, para mim, um pecado que não consigo me retirar. Resumidamente: minha sexualidade é uma maldição. Muitas vezes, caio numa contradição brutal: quero e não quero ser bissexual. Por vezes, tomo a minha orientação sexual por natural; por outras, como inatural e pecaminosa. Sei que nasci com ela, não sei o que fazer com ela. É-me uma sorte ser bissexual, pois assim posso ignorar uma “parte de mim” e ter uma “vida normal”. Todavia estou sempre em contradição comigo mesmo: nunca sei o destino que tenho que dar a minha orientação sexual.

Como disse, eu oscilo demais. Muitas vezes, há um instinto que me leva a pensar que devo achar a minha orientação sexual normal e cometer atos sexuais que me são, ao mesmo tempo, uma gratificação e um pecado mortal. Noutras vezes, uma razão ressoa alertando-me para que eu não pratique a sodomia. Vivo na constante exitação, ora achando o bissexualismo normal, ora achando-o doentio.

Sou bissexual e quem está a me acompanhar há um bom tempo sabe disso. Houve um tempo em que eu falava de minha sexualidade abertamente, hoje quase nunca falo – falei recentemente, mas para atacar argumentativamente um militante LGBT. Isso, minha omissão a respeito de minha sexualidade, acontece por causa de meus desentendimentos para com a “tribo urbana LGBT”. Não quero ser associado a superficialidade e militância que ela, a tribo urbana LGBT, faz. Então prefiro não falar de minha orientação sexual pois evita qualquer tipo de estereotipação.

Escrevi “tribo urbana LGBT” ao invés de “comunidade LGBT”. Há uma razão para isso: existe dentro da comunidade LGBT uma tribo urbana LGBT que tem a sua própria gíria, a sua própria pauta e o seu próprio modo de ser e de se vestir. Como acho tosco a tribo urbana LGBT e odeio as suas imposições, prefiro não tomar partido falando de minha sexualidade abertamente. O fato é que, como toda tribo urbana, ela é uma seita composta por uma microideologia.

Por que uma seita e por que uma microideologia? Fácil. Uma seita pois ela isola-se em si mesma, não permitindo o contato com pessoas fora de sua bolha. Como toda bolha, ela é agressiva com desertores e contra pessoas que não se encaixem nela. Uma microideologia pois a mesma releva-se em sua particularidade, a pauta LGBT, e tenta suas ações baseadas nesse microcosmo. Tal como o movimento negro é uma microideologia, o movimento feminista também é uma microideologia, o movimento LGBT também deve ser considerado uma microideologia.

O pecado distorce a visão. Como cristão, não sei como enxergar a minha orientação sexual. Sei que, desde novo, tenho-a como fiel acompanhante. Se a minha orientação sexual de fato é um pecado e o pecado corrompe a visão, como posso enxergar a Verdade? Sempre acabo caindo instintivamente no desejo pelos dois sexos. Sempre que penso em combater o LGBTismo, penso que estou a combater a mim mesmo. No fim, sempre acabo por realizar a minha perversão.

Como cristão, não sei qual argumentação teológica devo seguir. A minha orientação sexual é um dos motivos pelos quais oscilo entre o catolicismo e o protestantismo, aplicando ora uma modelo tradicional, ora um modernista que compactue com a minha sexualidade. Frequento a missa semanalmente e ainda fico para o grupo de jovens. Sinto-me, então, um hipócrita perdido na tibiez. O fato é que nunca poderei ser plenamente católico se eu continuar assim.

Sobre a “cura gay”, já ouvi relatos de homossexuais que queriam ser, no mínimo, bissexuais para poderem engravidarem uma mulher e terem filhos. Também vi muitos que queriam serem heterossexuais pois não gostavam do comportamental dos outros homossexuais.

Os chamados “grupos homossexuais ou LGBTs”, sejam eles virtuais ou reais, são imersos numa promiscuidade, numa liberalidade e numa superficialidade que faz com que certos membros da comunidade LGBT sintam-se enojados consigo mesmos e com o restante da comunidade. O sexo fácil é, para todo integrante da comunidade LGBT, não um mero jargão e sim uma prática incrivelmente documentada pela internet indicando vários “points de pegação”; tal liberalidade sexual é muito equidistante da liberalidade heterossexual. Dito isso, é natural ficar enojado com tamanho indiferentismo para com o afeto. O sexo puro não é sinal de liberdade, mas sim dum impulso bestialógico que escraviza corpos e almas. Então, em minha sincera opinião, querer ver-se livre duma comunidade tão bestializada pelos impulsos é muito natural e, até mesmo, uma virtude.

Se eu pudesse escolher, não seria bissexual. Sempre tratei a minha parte homossexual com uma profunda angústia e arrependimento. Sempre que praticava a sodomia, sentia-me abismado e cortado ao meio. Minha consciência moral diz-me que estou a praticar um ato criminoso, um ato imoral. Para mim, minha sexualidade não é motivo de orgulho e sim de dor e sofrimento.

Já tentei falar com minhas psicólogas sobre a sexualidade, elas tomaram como algo natural e que devo agir “naturalmente” com a minha orientação sexual. Muitas vezes, como já escrevi, entro por essa linha de raciocínio. Por outras, culpo-me.

Dito tudo isso, esse é um dos meus maiores dramas existenciais. Uma questão que resumir-se-ia no “Ser ou Não-ser: eis a questão!” de minha existência. Deixo, convosco, as admoestações e argumentações a respeito disso. Agradeço, antecipadamente, a todos que lerem e que responderem essa publicação.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Acabo de ler "O Inconsciente" de Rudolf Allers

 



Pensar a partir de diferentes pontos de vista pode ser uma tarefa difícil, sobretudo para aqueles que se enraízam num modo de pensar. Só que é sempre importante uma abertura, sobretudo para aquele que quer pensar com real liberdade - o condicionante é o que afeta a liberdade de inteligir.

Esse é o primeiro texto que leio de Rudolf Allers. Ele foi algo de diferente, já que o autor tem um posicionamento contra Freud, porém me abriu espaço para um entendimento maior da própria obra de Freud. Rudolf Allers fez parte do primeiro grupo do fundador da psicanálise, é por isso que suas críticas são, para mim, de vital importância. Embora eu tenha visto um caráter religioso como "fator afetante". Allers afastou-se de Freud tal como Alfred Adler. Outro dado importante: Allers foi mestre de Viktor Frankl, figura intelectual que me é de maior referência.

O que se pode dizer do livro? Allers critica a forma que Freud vê o mundo, talvez por causa do catolicismo e, por outro lado, pela sua percepção da teoria do inconsciente sendo encontrada - mesmo que sem maior capacidade teorética - em outros pensadores bem mais antigos que Freud. Ele vê um caráter inovativo na obra de Freud, só que não o vê como absolutamente novo. Mesmo que a teoria antiga do inconsciente não seja tão bem formada como a de Freud. Uma de suas principais críticas a Freud e Jung, por exemplo, está na postura naturalista - por excelência, antirreligiosa - que relativiza o grau de verdade religiosa (Jung) ou mesmo "exclui o pensamento religioso" (Freud).

Mesmo não sendo tão apegado ao pensamento religioso de forma confessional ou até mesmo relativizando a religião como adesão subjetiva, vejo que Rudolf Allers consegue explicar com certa clareza as ideias de Freud e elegantemente tentar refutá-las utilizando-se de seu arcabouço erudito. Não só isso, compreendi mais Freud e a psicanálise com a ajuda dele e nisso lhe sou grato.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Acabo de terminar o curso "A Cristandade Medieval" de Carlos Nougué

 



A lógica catedrática que representa o profundo sentido da Idade Média é algo que fugimos, não só pelo horror que temos de coisas que consideramos fantasiosas. É também pelo simples fato de que tal padrão de vigor não é encontrado em nosso tempo atual em larga escala. Foge-se não só pela pequenez, foge-se igualmente pela grandeza.

Pressupor que somos superiores é ir contra o passado, só que num nível meramente reativo. Obscurece-se dada imagem para que ela não nos atordoe, leva-se a um nível em que a imagem obscurecida não pode mais ser levada a sério. Assim se conquista, através de gerações de alienidade, uma coisa de valor abjeto: desprezo pelo o que não se superou. Não por acaso, os filósofos do medievo tinham um grau técnico e harmonia lógica que hoje, com todo nosso aparato científico e pedagógico, não conseguimos superar.

A catedral é mais do que algo arquitetônico no sentido físico do termo, é um esforço arquitetônico de ordenabilidade em que o ser se eleva. Criar sistematicamente, progredir até os mais altos céus, esse era o lema do medievo e construções de nível abismal como a Suma Teológica e a Divina Comédia trazem esse significado.

Como sempre, impressiono-me com o grau que Carlos Nougué consegue colocar as coisas. Aspirando sempre aquilo que há de mais alto, não se deixando anuviar pelo o que há de supérfluo. Um grande curso que me ensinou o valor da busca diária pela elevação intelectualizante.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Verdetextomania #1 - MEU DEUS DO CÉU, COMO EU ODEIO TEOLOGIA!

 


>abra um livro de um teólogo

>comece a ler

>"pô, que legal o pensamento teológico"

>frases legais, maneiríssimas

>de repente, uma citação

>aparece um número: "1", "2", "3"

>cada um desses números fazem referência a um capítulo e versículo da Bíblia

>"lá vamos nós, né, mêo?"

>abre a sua bibliazinha

>procura o capítulo

>procura o versículo

>lê

>menos de dez palavras depois, outra citaçãozinha da Bíblia

>"ah, mas ele vai citar a Bíblia diretamente, não é?"

>NÃO

>vamos lá, pega a Bíblia de novo

>a primeira citação foi ao antigo testamento

>essa é do novo testamento

>vai lá, vamos pro Novo Testamento, lê o versículo

>"ah, mas eu não entendi direito"

>lê todo capítulo então, por que não?

>volta pro livro do teólogo

>menos de cinco palavras depois, outra citação

>"ah, tá muito chato esse negócio de abrir a bíblia o tempo inteiro"

>beleza, pega a Bíblia do app do seu celular

>mas eu não tenho a Bíblia no meu celular

>baixa lá o aplicativo

>pô, mas o livro bíblico citado não aparece no aplicativo da Bíblia

>você baixou a Bíblia protestante, baixe a Bíblia católica

>leia o capítulo e o versículo

>na Bíblia do celular é mais rápido

>foi mais rápido, né?

>tá pegando o jeito, safadinho

>você passou da primeira página do livro do teólogo

>agora pega a segunda página

>sete citações indiretas a bíblia

>você olha no campo de referências

>elas indicam cada capítulo e versículo específico

>você terá que ir no seu celular de novo

>vai e olha cada um

>dez minutos depois, você sai da segunda página após ter lido cada capítulo da Bíblia citado indiretamente

>faça isso na terceira, quarta, quinta, sexta página

>meu Deus do céu, que burocracia sem fim

>uma hora e meia de leitura

>você só leu dez páginas do livro

>"por que esse santíssimo autor não citou a Bíblia diretamente?"

>"ah, ele é um erudito na Bíblia, né, mêo?"

>você acaba desistindo do livro do seu querido teólogo

>você joga álcool no livro

>você queima o livro

>você para tudo após xingar o autor mil e quinhentas vezes

>agora você vai lá e assiste um anime

>é menos burocrático, é mais fácil

SIM, EU ODEIO TEOLOGIA!

sábado, 29 de janeiro de 2022

Éramos dois, e daí?

 Você me contava do seu desejo de virar socióloga. Era de esquerda juvenil, adolescente lutando contra o tédio. Tão desafiadoramente bonita quanto inteligente e simpática. Revelei a ti o meu amor quando já era tarde, tinha vergonha metódica de mim e não queria lhe envergonhar com minha obscura imagem social. Por um momento, éramos dois, mas depois de alguns meses, já não éramos nada.


Eu te diverti com meu humor adolescente de anarquista niilista e rebelde sem causa. Pagando-lhe bebidas na esperança que transfigurasse a sua lesbicalidade e bissexualidade. Me aproximando com distâncias calculadas e passos patéticos que geraram tragédias insensatas. Eu sumi por sete anos, em crises sem fim, falei-lhe que era teu amigo, mas e daí? Eu sumi. Sumi e voltei transfigurando proximidade em distância abjeta e sem explicação sensata.

Você jogava videogame em minha casa. Na doce infância era tão bom, só que eu era idiota e inadequado demais para a pré-adolescência. Como consequência de meu desenquadro, criei em você a vergonha que lhe permitiu o afastamento adequado. Éramos dois, e daí? Daí que sumi sem nunca mais falar contigo. Daí que lhe achei um cara que preferiu a sociedade a amizade dourada.

Nos pegamos três ou duas vezes. Dormi contigo, em teu quarto. Sua mãe trouxe pizza, sem pensar em sexo homossexual de dois caras bissexuais que não davam pinta de nada. Éramos dois, éramos dois amigos e coloridos adolescentes numa época de liberalidade sexual. Quem você é agora? Você se assumiu ou ainda isola o fato sexual de sua família com ocultamentos constantes de sua inconstância inata?

De pastor você foi a ateu convicto. Íamos ao puteiro em apostasia à faculdade. Conversávamos muito. Você voltou a ser pastor, traiu o puteiro, o anarquismo, o ateísmo e a mim. Éramos dois, e daí? Daí que nunca mais falamos e eu até hoje não me lembro de seu sobrenome.

Eu era tão católico quanto um católico deve ser. Num retiro vocacional buscando irmão ser. Te vi algumas vezes em conversas doutrinais que foram fáceis de esquecer. Lia "Ordem Nova", o reacionarismo era moda, a monarquia voltava em mentes e não em regimes. Sempre quis te comer, sobretudo quando bebíamos na igreja. Eu fiquei sabendo, você beijou garotas e eu beijei rapazes. Éramos perfeitamente heterossexuais e completamente bissexuais.

Em Santa Catarina foi um horror, afastado da família e da cidade que morei com louvor. Identidade em choque em novo mundo cultural. Você foi padre, agora era homossexual e casado. Eu? Eu era o cara que ia em retiros vocacionais e militava no movimento negro. E mesmo você sendo casado com outro homem, desejei que fosse meu próprio homem. Treinamos juntos, sugeri poliamor e um dia no pós-treino você me chupou. Eu fui pra São Paulo, você lá permaneceu. Ficou onde fui, para permanecer de onde era. Eu voltei pra São Paulo, para permanecer de onde vim. Éramos dois, e daí? E daí que ainda penso em você.

Eu lia Olavo de Carvalho, você lia Nietzsche. Eu era Apolo e você era Dionísio. Só que eu tinha um Dionísio oculto e você tinha um Apolo oculto. Pegamos duas mulheres, mas quando a pegamos, uma das duas não estava presente e nem conhecíamos a outra que estava por vir. Pegamos a mesma flor e depois a outra flor, em perfeita conformância com a igualdade do sabor. Você me apresentou a social, eu te apresentei a transexual. Você me apresentou a Dionísio e eu te apresentei ao tradicionalismo. Éramos loucos sem tirar e nem pôr, talvez seja por isso que você foi um dos únicos que ficou.

domingo, 24 de outubro de 2021

Acabo de ler "Dante Alighieri - o Poeta Filósofo" de Carlos E. Zampognaro.




    Acabo de ler "Dante Alighieri - o Poeta Filósofo" de Carlos E. Zampognaro.
 
    A pergunta que sempre se faz acerca de Dante é: "quem era esse homem?". E a resposta habitual é: "um grandioso poeta" e, aparentemente, isso basta como classificação a um homem tão conhecido como desconhecido. Posso dizer que, hoje, conheço mais Dante do que outrora conhecia.

    Dante, meus amigos, não era somente um poeta. Ele era um homem de vasta erudição e um erudito que não se afastava do povo e de sua simplicidade. Várias vezes, Dante foi um "democrata" que levou filosofia para aqueles que não sabiam latim - língua intelectual utilizada amplamente por acadêmicos, conquanto que desconhecida pelo povo mais humilde. Dante, além de ser uma pessoa que se aproximava do povo, não fez só isso: ele foi um grande linguista que defendeu a língua popular. Quis estar ao lado do povo.
 
    Dante foi profundamente cristão. Só que não era daqueles cristãos puristas que queriam uma literalidade cristã pura e sim um cristão com grande capacidade de entender obras de "pensamento pagão" - leia-se: obras do período pré-cristão - e, até mesmo, concordar com elas em múltiplos pontos. Dante foi um teólogo de marca maior e um filósofo profundamente filosofante. Dante não era um teólogo por pura intelectualidade, mas por profunda crença e por profundo amor. Dante não foi filósofo por pedantismo, mas por amor real ao conhecimento e por busca real pela verdade - até mesmo pela verdade mais inconveniente.
 
    Dante, sendo alguém de nobreza, nobreza como realidade atitudinal e não como mera herança de sangue, foi perseguido a vida toda e defendeu a pauta da separação da Igreja do Estado. Graças a isso, viveu a vida como exilado, só que mesmo exilado não se entregou a uma posição acovardada que aceitava por medo aquilo que discordava. E é por essa série de coisas que hoje eu gosto mais de sua obra e não só de sua obra: gosto também de sua pessoa, de como ele foi como humano.