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sábado, 1 de agosto de 2026

O Necrológio Cadavérico #12 — Tempo de Isolamento

 



Se eu morresse hoje...


Essa seria a primeira vez que não me sinto como parte de absolutamente nada. Parece que estou a navegar por um oceano profundo em que a única sensação é a de um buraco negro, uma espécie de vazio devorador. Algo como uma gigantesca bola de sucção anuladora de existências. Eu tento me conectar com grupos, pessoas e coisas, mas parece que a única conexão que consigo de fato ter é com a distração.


Eu passo o dia jogando Palia e lendo livros.  Houve um período em que marcava encontros casuais ocasionais pelo centro de São Paulo para me distrair. Meu ápice foram três pessoas. Uma depois da outra. Não que eu tivesse vontade daquilo ou apetite por esse tipo de experiência. Estava tentando preencher o vazio com o orgasmo. Não funcionou.


Hoje foi a primeira aula do curso profissional de teatro. Tentei dar o meu máximo mesmo com o humor estando depressivo. Continuarei fazendo o curso até o final, mesmo que o meu humor permaneça o mesmo. Também continuarei estudando mandarim. Isso é um compromisso comigo mesmo. É pelo meu futuro. Quero me esforçar e evoluir. Meu estado mental, todavia, é um estado de retração.


Meus colegas me convidaram para beber. Tive que recusar. Beber tem me deixado depressivo e raivoso, com um imaginário detestável. Tal como se a minha sombra assumisse o controle e me controlasse. Eu não quero passar por isso socialmente. Prefiro que uma imagem, mesmo que melancólica, preencha esse espaço. 


Eu não creio que seja hora de romances, nem de sexo e nem de novas socializações. É tempo de recolhimento, estudo e meditação.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Estudos Lunáticos #2 — Como seitas recrutam?

 


Nota: esse texto é produzido com base no conteúdo de Chris Shelton.


Seitas utilizam meios psicológicos e físicos para obter controle e isolamento. As três características centrais são:

1. Love Bombing (bomba de amor/afeto);

2. Isolamento;

3. Exploração de vulnerabilidades (desejos e medos).


Em uma seita, a primeira coisa que te transmitirão é a sensação de que você é amado, especial e importante. Isso é uma estratégia calculada para reduzir a sua defesa e criar dependência. Para tal, a estratégia de love bombing (bomba de amor/afeto) é utilizada constantemente. Esse love bombing é usualmente excessivo, intenso e falso. Ele ocorre verbalmente ou fisicamente.


O que as seitas querem te transmitir é a noção de que finalmente alguém te entende. Alguém finalmente compreende o quanto você é inteligente, o quanto você possui potencial e quais são as suas qualidades únicas. Isso cria, dentro de ti, que o seu lugar é ali. 


Após o estabelecimento da conexão, você será mais apto para ouvir, confiar e se juntar à seita. Essa estratégia não é, por assim dizer, exclusiva das seitas. Movimentos políticos e grupos de marketing multinível também fazem isso. Elas criam floods de suporte para dizer o quanto você é especial e como não está mais só. Isso cria um sistema tóxico de pertencimento e identidade que segue o seguinte fluxo:

1. Love Bombing;

2. Aceitação de uma ideia;

3. Criação de uma conexão para o estabelecimento de uma dependência emocional;

4. Sensação de valoração profunda dentro do grupo;

5. Confiança;

6. Investimento temporal e atitudinal;

7. Seguir as regras;

8. Controle;

9. Isolamento.


Quando chega o isolamento, vemos o desencorajamento de qualquer relação exterior ao grupo. Isso fará com que o membro passe mais tempo dentro do grupo do que fora dele. Nesse período, a ideia de que aqueles que não acreditam são perigosos começa a subir. É também onde começa a mentalidade de "nós x eles". No meio disso, constrói-se a ideia de que você está certo (por pertencer ao grupo) e que as outras pessoas são estúpidas. Além disso, sobem questionamentos sobre traições.


Aqui a exploração de vulnerabilidades cresce. A seita fornece tudo:

- Sentido;

- Propósito;

- Solução. 

A seita aparecerá como a portadora da solução. A sociedade aparecerá como corrupta. A mídia aparecerá como mentirosa. O único caminho seguro é a lealdade total. Nisso se encorajam o ativismo extremo, as teorias conspiratórias e as ideologias radicais. Quem for contra é um inimigo.


Seitas não começam com controle; elas começam com amor, com pertencimento e com solução. Se você ver alguém querendo insistentemente a sua atenção, desencorajando relações exteriores ou clamando ter respostas para tudo... questione-se se você está sendo recrutado.


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Prelúdios do Cadáver #9 - Confissões do Subsolo

Texto publicado em30/08/2018


Escrevo com o objetivo de me livrar da culpa. Farei uma sequencialidade de confissões, como um ato penitente e cristão. Espero não chatear-lhes.


Sempre fui um homem melancólico. Perdoem-me por isso, mas tenho que desabafar. Espero que sejam compreensivos; mas peço-lhes para que sejam ásperos comigo. Eu não mereço perdão pelas coisas que fiz e que faço, todavia espero uma redenção e uma oportunidade de vida nova.


Omitirei nomes. Não falarei de tudo expansivamente, falarei de tudo genérica e contidamente. Eu vim a vós confessar-me. Meu peito agoniza em agonia. Preciso dizer o que reside dentro dele, preciso contar-lhes sobre o lamaçal que há tempos me perturba. Contar-lhes-eis coisas que para vocês, podem ser banais; conquanto que para mim, são abissais.


Estar comigo é estar numa permanente competição. Tudo o que quero é monopolizar tudo em minha volta. Por vezes, por egolatria. Por outras, por auto-desprezo. O fim é a atenção, o meio pode ser alternado conforme a necessidade. Corto agora meu coração, para que os senhores possam sentir o gosto de minha torpe alma corrompida. Eu, desde já, peço-lhes desculpas pela minha podridão e espero que os senhores não sejam tais como eu.


Quando eu tinha uma namorada, tomava-a como um objeto de poder e de valorização social. Não amava-a, amava o sentimento que ela nutria por mim pois isso aumenta o autovalor que tinha por mim mesmo e meu valor social. Tinha-a por objeto de redenção, seja pessoal, seja social. Manipulei-a com as frases e poesias de amor, de modo que ela acreditou que eu realmente a amava. No fundo, ela era uma ideia, mais um deleite intelectual.


Quando uma garota que conheci foi presa, notabilizei-me por dar palavras de apoio e por falar quanto eu a amava. Na verdade, não nutria por ela sentimento algum. Só queria simular uma grande dor para que eu obtivesse a dita atenção. Tudo para mim, ronda sobre isso. Só que egoisticamente ter o mundo me glorificando. Meu impulso é podre, minha alma é doentia, meus fins são vis. Tudo em mim é corrupção.


Toda vez que frequento um maldito grupo social, vou-me embora. Quando vou embora, ninguém terá de mim mais mensagem alguma. Isso acontece por eles não me serem mais úteis. Minha vida é um constante fugir. Encaro tudo como fases que se acabam e não voltam mais. Eu tento não retornar a tudo em que estive antes. Sinto que isso pode ser resumido em uma palavra: covardia. Quero acreditar que sou melhor do que antes, quando na verdade estou pior do que antes.


Quando uma colega virtual minha suicidou-se, tratei de fazer alarde. Queria demonstrar o quanto a minha dor era grande e, novamente, só queria atenção. Sou um magnetizador depressivo, sou uma escória ululante. Eu sinto muito, ó doces humanos, que precisam estar ao meu lado, que saciam-se do mesmo ar que respiro.


Peço a Deus e a todos vós que perdoem os meus pecados.

Abraços.