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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!

 


A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente republicano: desprezo completamente as suas pretensões monárquicas.


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente protestante: desprezo completamente as suas pretensões de ser um papado conservador.


Imagine a seguinte situação:


Você é um conservador que cresceu lendo Russell Kirk, Nelson Rodrigues, Michael Oakeshott, Gustavo Corção, Antonio Paim, Carlos Rangel, Stuart Stevens, George Grant, Rick Wilson, David Frum, Eric Voegelin, Christopher Buckley, Christopher Lasch, Bruno Tolentino, Patrick Deneen, Paulo Francis, Carlos Nougué, G. K. Chesterton, Yuval Levin, etc., etc., etc.


Você leu teóricos de esquerda também, já que é um sujeito ilustrado. Sejam os clássicos marxistas, sejam os clássicos anarquistas, sejam até social-democratas.


Você se lembra de conversar com seus amigos. Falar emocionado que está trazendo escolas de pensamento da direita pro Brasil:


— A Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo da American Compass;


— O Anglican Tory;


— O Red Tory;


— O pensamento de Charlie Kirk;


— Os chamados Never Trumpers;


— O movimento Reformicon;


— O pensamento de Alain de Benoist.


Aí você tem que parar. Parar e olhar. Olhar para uma família. Essa família se chama Bolsonaro. Os seus seguidores se chamam "bolsonaristas". Eles, que estudam o movimento intelectual conservador de um modo infinitamente inferior ao seu, devem ditar como você deve pensar e como deve se comportar. Aliás, eles acusam todo mundo que discorda deles de "serem um bando de esquerdistas".


No Brasil, estamos em um ponto agoniante. Nesse ponto de desespero, até figuras como Pondé se tornaram de esquerda segundo a mentalidade bolsonarista. Afinal, a direita é uma monarquia em que a família real é a família Bolsonaro. Ou seja, eles têm monopólio do que a direita pode pensar e ditam, tal como numa espécie de "infabilidade papel bolsonarista", tudo o que a direita pode ou não pode fazer.


Se Flávio Bolsonaro for ao segundo turno, voto em qualquer um que for contra ele. Meu voto não será, pura e simplesmente, de esquerda, de centro, de direita ou o que quer que seja. Meu voto será triunfalmente um voto antimonárquico, no sentido de ser contra a monarquia bolsonarista. Meu voto será radicalmente um voto antipapista, no exato sentido de ser um voto contra o papado da família Bolsonaro.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Acabo de ler "The Fractured Republic" de Yuval Levin (lido em inglês)

 


Nome:

The Fractured Republic: Renewing America's Social Contract in the Age of Individualism.


Autor:

Yuval Levin


O que une um povo? Essa é uma questão que o livro trabalhará do início ao fim. Existirá, contudo, uma crítica às ideias que os baby boomers tiveram. Essa crítica decorrerá do fato de que grande parte do que se pensa dos Estados Unidos vem da mentalidade desenvolvida pelos baby boomers. Uma das principais noções que marcam essa mentalidade é a de que os Estados Unidos apresentavam uma alta estabilidade pós-guerra (Segunda Guerra Mundial).


O livro fala bastante de como as novas tecnologias transformam a mentalidade de um país. Hoje em dia, falamos de um tempo em que as redes sociais se tornaram dominantes. Nelas todos os tipos de encontro são possíveis. Com elas, a troca de conhecimento, sobretudo para quem tem acesso a mais de um idioma, torna-se uma característica marcante. O mundo tem um maior conhecimento a respeito de si mesmo e traduções se aceleram devido ao acesso às IAs. A construção de noções majoritárias, isto é, os consensos sociais, atualmente é mais intermediada por mecanismos globais do que de fato pensamos ou estávamos acostumados.


Nos Estados Unidos, o desenvolvimento da mídia de massa não foi só um desenvolvimento tecnológico. Ele não foi um ponto em que uma mídia se generalizou. A mídia de massa trouxe a cultura de massa e a cultura de massa trouxe a homogeneização da cultura. Essa homogeneização da cultura, por sua vez, trouxe uma espécie de unidade nacional. Essa unidade nacional era ditada por quem detinha os meios de produção cultural. Isso é também uma realidade no Brasil. 


Uma crítica bastante pertinente que o livro apresenta é que, no período de relativa estabilidade, havia o consenso sobre o papel que o governo exercia na vida dos cidadãos. Esse consenso dava uma certa unidade entre as visões políticas republicanas e democratas. Outro é o fato do racismo e do sexismo serem características determinantes daquele período, logo, a unidade e estabilidade não eram tão grandes quanto se imagina. Muitos empregos e posições de poder eram dados tão somente a homens brancos. A visão que usualmente é estabelecida como real é a visão gerada por homens brancos em posição de poder. É válido lembrar que esse livro foi escrito por um conservador, logo alegar que isso é uma percepção meramente progressista é incorrer em erro.


Grande parte da chamada "era progressista" foi marcada pela centralização. Podemos compreender os esforços dos neoconservadores, que chegariam ao seu ápice na Revolução Reaganiana, como uma tentativa de descentralização. Antes dela, o movimento governamental ia em direção a uma tentativa de tecnicizar a gestão governamental por meio de mecanismos que já eram comuns à gestão privada. A iniciativa centralizadora começou com a grande crise de 1929, que levou a uma militarização da sociedade civil e à expansão contínua do Estado. Essa harmonia social, contudo, não durou eternamente: os movimentos socioculturais, tempos depois, começaram a pregar a individualidade em vez de uma identidade nacional. Houve um período em que os Estados Unidos estiveram divididos entre um forte apego ao individualismo contraposto a um forte anseio de centralização governamental.


Uma das características mais marcantes é o surgimento do conservadorismo fusionista. Conservadorismo esse mesclaria tradicionalismo, libertarianismo e anticomunismo. Os conservadores souberam utilizar o anticomunismo crescente com o espírito libertário antiestatizante. Foi nessa época em que o discurso conservador parecia extremamente revolucionário e uma espécie de antítese à burocracia estatal soviética. Esse libertarianismo era econômico e político, mas não adentrava perfeitamente os aspectos culturais. 


Os Estados Unidos passariam por um período de liberalização econômica. A liberalização econômica viria lado a lado com a atomização cultural. Os novos imigrantes não eram devidamente integrados às comunidades locais. É evidente que a ausência de integração plena dos novos imigrantes não é uma justificativa para o crescente racismo e xenofobia nos Estados Unidos.


Também é preciso lembrar que a crise de identidade nos Estados Unidos também se encontra na ausência de grande crescimento e coesão social pós-Guerra Fria. Quando a Guerra Fria terminou, os cidadãos dos Estados Unidos tinham plena confiança no que faziam e no futuro do seu país. Atualmente tal confiança foi abalada. Não existem pontos de unificação para o que os cidadãos dos Estados Unidos devem crer. Eles não sabem pelo que estão lutando ou pelo que deveriam lutar.


Uma das características mais marcantes do livro é a de falar do crescente individualismo e da polarização. A solução proposta pelo autor é a subsidiaridade e as instituições intermediárias em vez do poder central. O autor também falará que conservadores precisam entender que a sociedade é muito diversa para ser controlada por instituições antigas. Logo, conservadores deveriam entender subculturas morais. É preciso lembrar isso novamente: o autor é conservador. É preciso que os conservadores compreendam que o mundo de hoje é marcado por diferentes subculturas morais e que o próprio tradicionalismo social é uma subcultura moral dentro de uma sociedade complexa, diversificada e descentralizada.


Durante todo o livro, Yuval Levin defenderá as instituições intermediárias como solução para todos os problemas. Isto é, o localismo e o federalismo são meios de descentralização, soluções intermediárias. Em vez da centralização em Washington ou do individualismo extremo, existe um caminho do meio. Um dos maiores argumentos favoráveis ao seu posicionamento é o fato de que hoje em dia a própria social-democracia precisa ser repensada para estar par a par com a complexidade do mundo. Se o mundo das políticas públicas exige maior adaptação às situações locais, o localismo e o federalismo ligados às instituições intermediárias dão respostas melhores ao mundo contemporâneo. Quanto mais complexo e diversificado é o mundo, mais descentralizada deve ser a gestão política, visto que é mais difícil compreender os múltiplos cenários, como o conhecimento está disperso pelo corpo social, é melhor distribuir a gestão política para múltiplos agentes do que concentrá-la em poucos especialistas.

sábado, 23 de maio de 2026

Memória Cadavérica #47 — William F. Buckley Jr. e o destino do conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa com um amigo judeu sobre o futuro do conservadorismo no Brasil e a ação histórica de William F. Buckley Jr.


Amigo⁩, nos primeiros anos da Ressurreição Conservadora, William F. Buckley expulsou antissemitas, conspiracionistas, malucos e pessoas que não coadunavam bem com o conservadorismo letrado. Necessitamos de um conservadorismo respeitável. Precisamos expulsar todos os antissemitas, conspiracionistas e malucos do movimento de novo. Só que atualmente a direita já é composta por conspiracionistas e malucos. Atualmente antissemitas crescem mais a cada dia em nossas redondezas.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Memória Cadavérica #46 — Aprovação de Donald Trump e conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa que ocorreu no grupo de WhatsApp de que faço parte a respeito do Donald Trump, do conservadorismo dos Estados Unidos e do conservadorismo no Brasil.


— MAGAtards will be the last group on the scene. Amigo, venho alertando que Trump é um imbecil há um ano e pouco. Quem leu os Never Trumpers e os Reformicons sabe disso.

— É o último mandato da vida del, você acha que ele realmente se importa com aprovação?

— Mesmo que ele não se importe, graças à excelente participação dele, o conservadorismo como movimento foi sacrificado em prol de seu nacional-populismo. Com os escândalos de Epstein, isso se torna ainda pior. Stuart Stevens falou com um homem endinheirado, ele disse isso em seu livro, esse homem lhe disse que gastaria uns milhões para salvar o conservadorismo depois do Trump. Já que os conservadores mais graudos e inteligentes já esperavam que ele destruísse tudo ao redor. No Brasil, isso não precisaria ser feito: quase não há um movimento conservador ilustre, acadêmico e institucionalizado para se preocupar.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Acabo de ler "On being conservative" de Michael Oakeshott (lido em inglês)

 


Livro:

On being conservative


Autor:

Michael Oakeshott


O conservadorismo não é uma ideia geral. O conservadorismo não é um credo nem uma doutrina. O conservadorismo é uma disposição. Enquanto os reacionários se perguntam o que foi, enquanto os revolucionários perguntam o que poderia ser, os conservadores se questionam o que está disponível. O que o conservador busca estimar é o presente. O presente, por sua familiaridade, é melhor do que o risco de perder tudo. O conservador valoriza o passado, mas como fonte de familiaridade e recursos presente, não como um modelo a ser restaurado rigidamente. Essa diferença entre conservadores e reacionários é algo que muitos poucos sabem.


O conservador é o sujeito que prefere o familiar ao desconhecido, o que prefere o que foi tentado pelo que não foi tentado, o que prefere o fato ao mistério, o que prefere o atual ao possível, o que prefere o limitado ao ilimitado, o que prefere o próximo ao distante, o que prefere o suficiente ao superabundante, o que prefere o conveniente ao perfeito, o que prefere a risada do momento do que a graça utópica. A condição conservadora é uma inclinação a apresentar o que é presente e o que está disponível. E é por essa razão que um conservador prefere pequenas e lentas mudanças do que mudanças grandes e súbitas. Quanto mais for assim, mais assimilável algo é.


O conservador é um homem que calcula. Ele olha para cada inovação mensurando o seu risco e visando um equilíbrio. Ele quer ver qual a perda e qual o ganho. Ele pensa que mudanças pequenas e limitadas apresentam menos riscos. O problema que ele tem com progressistas é esse: progressistas buscam por um bem desconhecido. O que os progressistas chamam de covardia conservadora, o conservador chama de prudência racional, o que os progressistas chamam de timidez, o conservador chama de cautela. Para o conservador, a segurança do presente é melhor do que o perigo de uma mudança radical.


O conservadorismo é mais comum nos mais velhos. A razão é pelo fato de o conservadorismo exigir a construção de uma identidade. Quanto mais a identidade se matura, maior a possibilidade do conservadorismo surgir junto a ela. A disposição conservadora surge em quem já está com sua personalidade mais bem estabelecida. No entanto, saliento que isso não é uma questão de idade cronológica. Essa disposição conservadora, segundo Oakeshott, pode aparecer em qualquer idade. Todavia, ela ocorre mais facilmente conforme existe um cultivo da experiência. 


Michael Oakeshott estabelecerá que o conservadorismo na política não tem a ver com a lei natural (jusnaturalismo), nem com uma ordem providencial, tampouco com uma moral ou uma religião. O conservadorismo tem a ver com o nosso estado atual de vida e um governo limitado. O governo, na visão conservadora de Michael Oakeshott, deve possibilitar às pessoas a perseguirem suas próprias atividades e escolhas. Isso deve ocorrer com poucas frustrações. Ou seja, um indivíduo deve ser livre para perseguir a sua disposição. Um indivíduo deve seguir o seu próprio caminho. Isso levará a outro problema que Michael Oakeshott encontrará em progressistas: é o fato de que eles tornam sonhos privados em um compulsório jeito de vida. O Estado ideal, na visão de Oakeshott, deve manter as regras do jogo, as associações civis livres, em vez de propor um propósito comum. 


O conservadorismo de Michael Oakeshott acredita que adultos não precisam justificar as suas preferências e as suas escolhas de vida. O governo, por sua vez, não deveria particularmente se objetar a escolhas individuais. Em outras palavras, não é função do governo modificar o estilo de vida de alguém. É por essa razão que conservadores rejeitam projetos de engenharia social, isto é, projetos de uniformidade substantiva. Um governo que segue pela paz é um governo melhor que um que tenta colocar uniformidade substantiva. Governos que tentam a segunda escolha, a da uniformidade substantiva, entram facilmente em colisão de interesse e em frustração mútua. O governo, em vez disso, deveria aceitar o estado corrente de atividades e crenças, ou seja, aceitar a diversidade de crenças e escolhas individuais. A política conservadora, em Oakeshott, se traduziria pelo ceticismo em relação a planos racionais grandiosos, tendo por preferência por ajustes incrementais e rejeição pela chamada política da fé (sonho e governança lado a lado).


Michael Oakeshott tem uma frase brilhante: a conjunção entre governar e sonhar gera a tirania.

terça-feira, 10 de março de 2026

NGL #58 — Eu tomei posições mais centristas?

 



Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Eu me considero pragmático, pessimista e cético. Não alguém "ao centro", mas parte de uma tradição conservadora e reformista, não alinhada ao tradicionalismo moral.


Quanto ao suposto "centrismo", sempre fui alguém que gostava de ler muito. Livros de esquerda, de direita, de centro. Também sou alguém que gosta de ler publicações acadêmicas e científicas. Creio que quando você lê de tudo, você aprende a ver os mais diversos meios e as mais diversas pessoas. Isso impede que você cai numa desumanização do outro.


Creio que ter lido os Never Trumpers me marcou profundamente em tempos recentes. De algum modo, eu pude ver a toxicidade de tudo isso. Do mesmo modo, o mesmo pude ver ao estudar grupos radicalizados, guerras mentais e outros tantos assuntos. Também vejo a seitização social, que se enquadra na estrutura da guerra fria civil, como uma das maiores crises civilizacionais do século XXI.


Recomendo que leia essa análise em específico:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/acabo-de-ler-make-russia-great-again-do.html


Acho que as pessoas enxergam "centrismo" onde há aquele conservadorismo lento, construído por pragmatismo, pessimismo e ceticismo. Mas, de algum modo, a minha definição de conservador se parece muito com a definição de um centrista e a definição de conservador do brasileiro médio se parece muito com um tradicionalista ou um reacionário.


Também existem múltiplos outros pontos. Eu percebi o quanto teorias da conspiração, câmaras de eco, seitização, narrativismo em bolhas... eram nocivas para a sociedade. O pacto social se torna cada vez menos possível e as pessoas estão cada vez mais doentes.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Memória Cadavérica #39 — Antissemita?


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta deixada a um grupo católico.


>vocês 


Eu estou apenas traçando a origem do termo.


Não estou dizendo algo que eu particularmente acredite, mas explicando como o termo surgiu dentro da lógica interna do grupo.


Se a teoria é antissemita, eu explico a lógica antissemita que está dentro do discurso. Do mesmo modo, se a teoria é feminista, conservadora, progressista, whatever. E é basicamente o que eu sempre fiz como intelectual. Seja analisando teologia judaica, teoria queer, islamismo, anarco-capitalismo, feminismo, catolicismo, etc.


Até porque o que eu sempre trabalhei foi a "engenharia mental reversa" adotada dentro da esfera da interpretação intelectual.


Se toda vez que eu fizesse alguma análise sobre algo, explicando como dada cosmovisão surge dentro de um universo própio, eu teria que ser ao mesmo tempo feminista, machista, judeu, católico, queer, tradicionalista, progressista, neopagão, anti-conspiracionista, pró-conspiracionista, antissemita, sionista, reacionário, comunista, etc.


Quando eu escrevo algo sobre o Olavo de Carvalho, estaria eu sendo olavista? Quando eu escrevo algo sobre Deng Xiaoping, estaria eu sendo um socialista de mercado? Duas coisas ao mesmo tempo? Do mesmo modo, quando eu explico o conspiracy warfare (guerra conspiratória), estaria eu sendo um teórico da conspiração?


Quando eu trago a obra do intelectual norueguês Egil Asprem, que é CRÍTICO DO ESOTERISMO A EXTREMA-DIREITA, seria eu um PROGRESSISTA DE ESQUERDA ATUANDO CONTRA A CONSPIRITUALIDADE SOMBRIA?


Aí é que está. Existe diferença entre a análise intelectual e a promoção doutrinária de algo.


Do mesmo modo, quando eu trago o Alain de Benoist, da direita francesa, eu teria que ser pagão e de direita, mas, no dia seguinte, ao trazer um artigo do Journal of Bisexuality, eu teria que ser um bissexual militante lutando contra o monossexismo de homossexuais e héteros. As duas hipóses teriam que ser dadas como verdadeiras.


Se formos adiante, ao analisar Nick Land eu seria um neorreacionário querendo o aceleracionismo ultracapitalista ao mesmo tempo que, no dia seguinte, eu teria que ser um tomista ao analisar os cursos tomistas.


Essa é a capacidade de sair do dogmatismo que o próprio Olavo de Carvalho falava. É a investigação livre dos demais diversos temas e a capacidade de formar um raciocínio não dentro de um prisma teológico (onde há a aceitação doutrinária), mas de uma análise filosófica do debate público (vendo o que concorda ou discorda pontualmente).


Leia Agnosticismo Metodológico:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2021/10/agnosticismo-metodologico-ou-da.html

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Is American Democracy in Crisis?" de The Munk Debates (lido em inglês)

 


Nome:

Is American Democracy in Crisis?


Debatedores:

E. J. Dionne Jr.

Andrew Sullivan

Newt Gingrich

Kimberley Strassel


Intermediador:

Rudyard Griffiths


(Por favor, não reclamem da falta de análises. É fim de ano e eu ando um pouquinho bêbado demais pra ler tanto. Tenho compensado muito bem a falta de conteúdo)


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX


Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtube.com/playlist?list=PLjdgXaecKQuFCXNEKtHkEC_RmfYbJR3ZY&si=tGpCetTZ0USRhi2Z


Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Uma breve introdução das figuras:


— Pro (a favor da resolução: contra Trump):


- E. J. Dionne Jr.:

Jornalista, colunista do Washington Post, professor na Georgetown University e fellow sênior no Brookings Institution. Autor de livros como "Why Americans Hate Politics" e "One Nation After Trump".


- Andrew Sullivan:

Escritor, blogueiro e editor britânico-americano, ex-editor da The New Republic e colaborador da New York Magazine. Conhecido por defender o casamento gay e ser um conservador independente. Ele apoiou Obama, Clinton e Biden em eleições passadas.


(Nota cínica: daqui a pouco recebo mais uma mensagem no meu NGL me acusando de usar friend fire contra conservadores, esmagando a direita nacional e americana :v)


— Con (contra a resolução: pró-Trump ou defensores):


- Newt Gingrich:

Político republicano, ex-presidente da Câmara dos Representantes dos EUA (1995-1999), autor e comentarista. Foi um dos arquitetos do "Contract with America" e é uma figura influente no Partido Republicano. 


- Kimberley Strassel:

Jornalista e colunista conservadora do Wall Street Journal, onde escreve a coluna "Potomac Watch". Membro do conselho editorial do jornal, autora de livros como "Resistance (At All Costs)". 


Sempre me questionam a razão de eu trazer tantos ares de fora. A razão é bem simples: o debate brasileiro é asfixiante. Se não pegamos um ar, morremos em nosso circle jerk.


Uma coisa que tenho percebido é que não vemos nada além do mainstream em nosso "consumo cultural". Fiquei surpreso quando me deparei com o triste fato de que ignorávamos amplamente vários setores da intelectualidade americana. Não só isso, da intelectualidade inglesa e canadense também. Exemplo disso é o já repetido tema do Red Tory, tema esse que o(a) leitor(a) desse blogspot já deve ter cansado de me ver repetir. Pretendo ir, pouco a pouco, trazendo mais e mais conteúdo para quebrar o grande silêncio que está entre nós e o mundo. Procurando mais listas e mais diferentes autores, seja da esquerda, seja da direita, seja do centro.


Não é como se eu fosse ter um grande impacto. Creio que a média atual é entre 100, 200 ou 300 visitas diárias para o blogspot. Grande parte dos visitantes nem são brasileiros. Atualmente, perdi completamente a capacidade de sabee quem estou supostamente influenciando. Teve um dia que eu olhei e vi que o maior acesso vinha dos Países Baixos. Não conheço ninguém de lá, mas agradeço a visita e espero que apreciem o conteúdo. Creio que vários usam o tradutor dos seus navegadores para consumirem o conteúdo do blogspot.


Em relação ao debate, achei interessante o começo citando as contas a respeito da quantidade de mentiras que Trump espalhou em suas redes sociais (ou em discursos formais). Confesso que ri um pouco disso.


Os debatentes demonstraram pontos muito interessantes. Posturas de ruptura democrática são comuns em governos de democratas e de republicanos. Uma das grandes curiosidades é essa: Obama, por exemplo, tentou governar sem o congresso. Trump seguiu uma trilha semelhante em seu modo de agir, embora de uma maneira mais truculenta. Quando analisam Trump, lembram de dois presidentes em particular: Andrew Jackson (um democrata populista, inegavelmente racista e disruptivo) e do Richard Nixon (um republicano que ficou conhecido pela Watergate e pela "maioria silenciosa"). 


Concordo com as duas partes:

1. Trump mente muito mesmo, isso é evidente;

2. A defesa da soberania nacional é importante.


A questão é: as contumazes passadas de pano aos democratas se tornaram o comportamento predileto da mídia mainstream, ao mesmo tempo que a "defesa da soberania" não pode vir de um populismo irresponsável e estrategicamente tolo. Também preciso mencionar, e é sempre bom mencionar, a forma "bastante amigável" que Trump é com os russos, a forma com que ele enriqueceu em seu primeiro mandato e, muito provavelmente, enriquecerá muito mais nesse segundo.


O brasileiro médio, por sua vez, olha com espanto o que digo. Tenho vários amigos de direita, vou em suas festas. Quando eu digo que existem conservadores antitrumpistas, eles se escandalizam. Eles ainda acreditam na ideia de uma direita que canta num coral inteiramente harmônico. Quando eu falo o mesmo para esquerdistas, a conclusão é que são pessoas tão "maldosas e malignas" quanto Donald Trump. Percebo que sou uma pessoa imensamente solitária por causa disso. Mentira, chamem-me mais festas.


Outra questão picante: James Comey. James Comey foi um diretor do FBI que investigou o Russiagate — o caso da Rússia interferir nas eleições americanas para favorecer Donald Trump. Em 2017, ele foi demitido pelo próprio Trump. Atualmente, em 2025, ele enfrenta uma vingança de Donald Trump. O caso de Trump contra James Comey é um que seus críticos apontam como exemplo concreto de obstrução de justiça. Trump não poderia, e nem deveria, demitir o homem que investigava a relação dele com a Rússia, visto que isso era uma questão de segurança nacional. Do outro lado, James Comey pediu para um amigo passar um memorando ao The New York Times, o que viola políticas internas do FBI.


Os debatentes falam também de Joe Arpaio (ex-xerife). Joe Arpaio tinha métodos que eram julgados controversos. Racialmente controversos para ser mais exato. Quando Trump perdoou ele (perdão presidencial), muitos julgaram isso como uma sinalização racista. Ou, em outras palavras, uma sinalização de que as pessoas poderiam usar meios duros e rudes de forma racista contra imigrantes. É válido lembrad que Trump tentou, em primeiro lugar, obstruir a investigação.


Charlottesville (Virginia) é outro caso emblemático. Uma manifestação ocorreu para tirar a estátua de um ex-confederado (Robert E. Lee). Na manifestação, encontravam-se nacionalistas brancos e neonazistas. A manifestação, que ocorreu em 2017, foi chamada de "Unite the Right". Grupos antirracistas entraram nela em uma lógica de confrontamento. Trump teve o seu pronunciamento, condenou o racismo, mas a briga surgiu quando Trump falou que existia gente legal em ambos os lados.


Creio que a própria questão que se desloca nesse debate é a natureza da democracia horizontal (onde qualquer um pode se eleger presidente). As redes sociais e a internet possibilitaram a ascensão sem fim de populistas. Anteriormente as mídias tradicionais eram mais questionadas a respeito da sua credibilidade informacional. Atualmente múltiplas mídias possuem pouca ou baixa credibilidade. Fora isso, a guerra fria civil proporciona um ambiente de maximização de vieses ideológicos. A questão que entra é: como a democracia horizontal pode impedir a entrada dos piores se ela mesma é responsável pela entrada dos piores? A democracia horizontal destrói ou corrói os mecanismos que deveriam garantir a sua própria existência. Isso não foi levantado no debate enquanto tal, mas me permito a licença poética de questionar a funcionalidade atual da democracia horizontal na qual grande parte do Ocidente se ancora.


Quando nos perguntamos a respeito da entrada de líderes populistas que destroem os mecanismos institucionais, deveríamos nos questionar sobre o que possibilitou a entrada dos líderes populistas no poder. Se estamos colocando gente despreparada e autocrata... a questão recai no: "o que permite que NÓS coloquemos no poder gente despreparada e autocrata?". É evidente que não falo em "nós" enquanto um povo que vota 100% no mesmo candidato, mas sim no fato de que parte de nós votou neles. Talvez grande parte do problema não seja, pura e simplesmente, a entrada de líderes populistas, talvez seja o próprio sistema que legalmente permite a sua população votar em seu processo de autodestruição.


Muitos falam da democracia vertical ou de mecanismos que impeçam líderes corruptos. O fato de termos, por exemplo, a Lei Ficha Limpa já garante uma salvaguarda diante disso. Todavia deveríamos ter mecanismos legais — ou até mesmo uma reestruturação ou criação de um outro sistema — que impeçam políticos que levem a corrosão entrem no poder. Isto é, um mecanismo técnico que leve a uma saúde política. Enquanto isso não for seriamente pensado, o risco de sermos governados por representantes que colocam teorias conspiratórias como pauta (e arma) política é uma constante que dificilmente vamos conseguir suportar turno após turno. O que é interessante: se ao mesmo tempo temos que garantir que só os melhores vençam, caímos no risco de criar uma tecnocracia pura que também destrua toda e qualquer autonomia individual.


O que ocorre nos Estados Unidos deve servir de lição para o brasil. Veja a atual situação:

- Sentimentos e mensagens separatistas aparecendo;

- Campanhas xenofóbicas entre múltiplos grupos brasileiros;

- Rivalização cada vez maior entre regiões do país;

- Crescimento entre mensagens de ódio e campanhas de desinformação;

- Aumento da rivalidade e tensões de gênero.


Eu poderia citar muitos mais fenômenos que ocorrem no Brasil, mas é evidente que estamos em uma guerra fria civil e que várias mensagens só aumentam isso.


O ano está acabando. Nesse ano, o blogspot Cadáver Minimal cresceu 2.277.6% em número de visualizações. O Brasil mudou muito. Eu mudei muito. Espero estar conseguindo trazer um bom conteúdo para todos vocês. Peço-lhes que me acompanhem também em 2026. Continuarei a me esforçar para trazer conteúdo para todos.


Feliz ano novo!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Trumpocracy" de David Frum (lido em inglês)

 



- Livro:

Trumpocracy: the corruption of the American Republic


- Autor:

David Frum


— Considerações sobre a escrita:


Creio que venho me tornado um autor mais lento. Não sei se é o peso da idade. Antigamente era mais apressado. Atualmente gosto de ler e reler, escrever e reescrever. Gosto de revisitar certas coisas também.


O motivo de eu ter inaugurado o "Memórias Cadávericas" foi o fato de que tenho tomado um cuidado maior com os meus escritos, mas ainda sim trazer novos conteúdos. O "Memórias Cadavéricas" permite conteúdo rápido, visto que pego textos pequenos e relanço de forma expandida. Já os conteúdos que requerem maior análise, como as análises de livros, sigo o esquema de escrever, ler, reescrever e ler de novo. A série principal de análise de livros e artigos acadêmicos segue intacta.


Tenho escrito uma série de textos, já em inglês, a respeito das guerras meméticas e suas táticas. Gosto de diversificar o que escrevo. A abordagem que sigo no Medium e no Blogspot são diferentes. Sei que são dois públicos distintos.


Anteriormente escrevia tudo em uma tacada só. Atualmente não faço mais isso. Como uso o blogspot como um armazenamento da minha memória intelectual, acabo por crer que a melhor forma de agir é sempre possibilitar que eu tenha um acervo grande de textos para sempre usar quando for necessário.


Faço isso pois não quero jogar o jogo moderno. As pessoas esperam acelerar o nosso raciocínio para torná-lo frágil. Querem que tomemos reflexões cada vez mais curtas e decisões cada vez mais rápidas. Isso gera grande parte da adesão a discursos fáceis e não embasado em dados sérios. A reflexão deve ser lenta, ela deve digerir os dados e absorver os nutrientes da informação para gerar compreensão. Múltiplas vezes, a pesquisa é substituída pela adesão grupalista a ideias prontas.


O populismo do mundo moderno, sobretudo no Ocidente moderno, é fruto de um despreparo educacional da população. Uma população que pouco lê e o que lê é ligado a uma lógica grupal, acaba por estudar pouco os múltiplos pontos necessários antes da tomada de uma decisão. O populismo que ameaça o futuro ocidental é fruto do abandono educacional que foi dada as populações.


Infelizmente, grande parte da educação midiática que deveria ser dada, dificilmente será disposta para a população. Muito pelo contrário, a guerra fria civil muito provavelmente aumentará e todo fragmento informacional será grupalizado e posto como bala dentro de metralhadoras giratórias da guerra informacional.


Estudar mais, escrever vagarosamente e refletir abundantemente é um antídoto e uma vacina ao moderno tempo. O primeiro passo para fugir do populismo é sair da corrida, caminhar devagar e ver que os corredores estão esbarrando em tudo visto que querem tomar decisões em tempo recorde.


— Irrevogavelmente pessoal:


As análises vem trazido um tom mais pessoal. A resposta para tal condição é simples: sempre me vi como um marginal dentro do cenário intelectual. Não gosto de escrever em terceira pessoa, sinto-me mais impactado quando escrevo em primeira pessoa.


Para mim, a vida intelectual se manifesta por uma intimidade. Estudo pois amo estudar. Não é por diploma (ou validade institucional formal), não é por consagração social. É por um simples amor a vida de estudos. Nunca ganhei "grana" alguma por ser um intelectual. Do mesmo modo, nunca tive que fazer alguma aliança que comprometesse a liberdade analítica que hoje disponho.


É por essa razão que o número de visualizações do blogspot sempre foi, na melhor das hipóteses, tíbio ou baixo. O blogspot Cadáver Minimal existe mais por uma birra minha do que por qualquer outra coisa. Você não vê gente anunciando nada aqui por conta disso. Do mesmo modo, não sou benquisto nem pela esquerda e nem pela direita. O que me surpreende é o fato de às vezes eu ter oitocentos leitores em um único dia.


Além disso, escrever em primeiro pessoa me ajuda a perceber "onde estou" dentro do problema todo. Ao me ver no quadro, vejo que não sou só uma vítima ou um narrador onisciente, mas também, e em grande parte, culpado pelo o que ocorre. A escrita adquire um tom confessionalista e expurga os pecados da alma.


— O que vem me levado até aqui?


No presente momento, as pessoas vêm me dito: "Gabriel, você escreve muito a respeito dos Estados Unidos". De fato, tenho escrito muito a respeito dos Estados Unidos. 


Essa estranha obsessão surge por causa da época transição da hegemonia americana para a hegemonia chinesa. Quero compreender o que está levando os Estados Unidos a decaírem e o que está levando a China a crescer. Além disso, há o chamado "Project 2025", um tema de amplo debate global.


Muitos pesquisadores brasileiros vêm trazido as suas reflexões a respeito disso. Poucos são os que leram os conservadores antitrumpistas. Isso é uma coisa que me traz um certo cansaço para com o debate brasileiro: esquerdistas só leem esquerdistas, direitistas só leem direitistas. É tedioso e enfadonho.


Sim, eu quero entender o que está rolando. Quero entender onde os Estados Unidos estão indo. Ler todas essas pessoas faz parte disso. Preciso entender o que está levando a queda da hegemonia americana, isso traz uma grande lição política. Se não estudarmos isso, enquanto brasileiros, corremos risco de seguir políticas que naufragam o país graças a um modelo que está falindo.


— O estranhamento com a política:


Tenho a vantagem de ser solitário. Amizades corroem a vida intelectual na medida em que impedem as pessoas de fazerem certas investigações e tomarem outras posições na medida em que precisam agradar as suas alianças.


Decisões cada vez mais absurdas, menos baseadas em dados e menos baseadas em estudos. Um afastamento cada vez maior da academia do restante da população. Junto a isso, o apelo popular de políticos antiacadêmicos e anti-intelectuais.


A democracia é o poder popular ou o consentimento da população. Todavia há uma questão: pode o poder ou o consentimento popular estar acima da própria necessidade de uma boa gestão baseada em dados e estudos? Se a população é cada vez menos educada, maior é a possibilidade dela votar e consentir ser governada por políticos "fanfarrônicos" que possuem um forte desprezo pelo letramento. Não só isso, movemo-nos a uma grande época de rupturas institucionais constantes.


O ódio aos especialistas, aos acadêmicos e aos intelectuais condecorado lado a lado com a expansão de teorias conspiratórias como armas políticas se tornou uma constante histórica. Muitos buscam posar de "anti-establishment" para conseguirem atenção popular. A imagem do "sou contra tudo o que está aí" leva a ascensão contínua de autocratas no mundo inteiro.


Nossa vida política não está ligada na expansão de obras de longo prazo, mas na caça de pautas identitárias que surgem como cortina de fumaça. Uma das maiores é o reforço crescente a masculinidade e a feminilidade tradicional. Poderíamos ter passado tempo pensando a respeito da alfabetização, saneamento básico e ferrovias, mas estamos pensando no reforço aos padrões de gênero.


Além disso, devo somar que a tribalização da política leva a uma rigidez de pensamento cada vez maior. Nada é questionado, tudo deve ser enquadrado em uma construção doutrinária-identitária onde pautas são vistas em preto e branco. Logo as políticas não são pensadas de acordo com uma análise sistemática de múltiplos modelos, mas sim em qual "time" estamos jogando e qual é o nosso grau de fidelidade para esse time. 


— Era da Informação:


Um dos grandes erros que as pessoas possuem em relação a era da informação é que a "era da informação" é, por si mesma, a era da "boa informação". A era da informação é, nada mais, nada menos, a era da divulgação de qualquer informação com mais facilidade, pouco importando a qualidade dela.


A questão é: o que aparece com mais facilidade? Informações mais facilmente digeríveis, com retórica simples e narrativas fáceis, ou informações de alta complexidade que requerem uma série de estudos prévios? Esse é um dos motivos pelos quais memes usualmente tomam espaço gigantesco na estrutura narrativa moderna.


O trumpismo e o bolsonarismo, diga-se de passagem, gozam de uma ampla estrutura memética e de um amplo uso de táticas de guerra memética. O meme é facilmente reproduzível, diga-se de passagem. Para a maioria das pessoas, é mais fácil ter uma escolha simples. O meme simplifica.


Essa questão de simplicidade e complexidade sempre abarca o debate público moderno. Tudo deve ser fácil para ser democrático ou deveríamos pedir para que as pessoas se esforcem mais? É estranho como os eventos são. A direita, usualmente vinculada a mentalidade mais meritocrática, utiliza mais amplamente a guerra memética para gerar uma aproximação popular e facilitar o entendimento das suas mensagens. A esquerda, mais naturalmente vinculada a mentalidade mais popular, tenta se vincular a um pensamento crítico (naturalmente mais complexo).


1. Mais pensamento crítico = mais complexidade = elitização da mensagem;

2. Mais memética = menos complexidade da mensagem = mais popularização da mensagem.


Estratégias não são tão simples de entender. E a disposição dos grupos usualmente está mais em "ir com o grupo" do que em uma fidelidade a um aspecto ideológico/doutrinário primário. Primeiro vem o movimento do grupo, depois vem a adaptação intelectual que justifica o movimento do grupo. O livro "The Myth of Left and Right" de Verlan Lewis e Hyrum Lewis explica bem isso.


— O que poderia servir para parar movimentos populistas?


Creio que algo que poderia servir como grande freio seria a leitura e reflexão. Imagino que um brasileiro que constantemente lê e estuda múltiplos livros, com múltiplas lógicas e linhas distintas, é mais capaz de perceber quais políticas são mais necessárias para o bem comum do Brasil. Do mesmo modo, o mesmo é válido para o americano.


Ler múltiplas fontes intelectuais distintas permite uma depuração da informação e capacidade de raciocinar através de múltiplos exemplos. Isso permite pensar sobre "o que eu exatamente concordo ou discordo?". É preciso largar a paixão dos automatismos mentais. Visto que isso leva a um enfraquecimento da capacidade de percepção.


A China consta com uma educação pública cada vez mais forte e bem estabelecida. Enquanto isso, a população dos Estados Unidos conta com uma educação cada vez pior. Fora isso, quem se arrisca a estudar ganha uma enorme dívida estudantil, que é um fator desmotivador.


Quando as pessoas aparecem sendo "pró-China" ou "pró-Estados Unidos", pergunto-me: "você é a favor do quê?". A mesma questão me aparece em relação quem é contra a China ou contra os Estados Unidos: "você é contra o quê?". Em qual parte a pessoa é a favor e em qual parte a pessoa é contra. Isso é importante. Outra coisa importante é saber que nossas opiniões individuais não impactam nos regimes de outros países.


Por exemplo:


- Você é contra a engenharia chinesa?

- Você é contra o churrasco texano?

- Você é contra o modelo educacional americano? Em qual parte?

- Você é contra a culinária chinesa?

- Você é contra a arquitetura americana?

- Você é contra os jogos de videogames chineses?


É evidente que existem, em todos os países, coisas que podemos gostar, amar, odiar ou ser completamente indiferentes. Um sujeito pode ter um Windows (sistema operacional americano produzido pela Microsoft) e jogar Genshin Impact (jogo RPG chinês produzido miHoYo).


O que eu quero dizer é que: não se trata de ser contra ou a favor da China ou dos Estados Unidos, mas equilibradamente pontuar o que gostamos ou não gostamos sem automatismos tribalizados. Não somos uma torcida organizada, somos um país diverso e plural que pode e deve ser aberto para o mundo e se beneficiar do que o mundo tem a nos oferecer.


— Oposição a China:


Grande parte do trumpismo se direciona numa oposição a China. A decadência americana é muitas vezes encarada com um pessimismo simplificador. Em vez de um pessimismo que se recolhe e pergunta "onde eu errei?", há sempre um escape que pode ser feito.


Teorias da conspiração usualmente aparecem como formas de dar uma "simplificada" em acontecimentos complexos. Elas aparecem como um círculo perfeito de culpados pelas crises que se anunciam. A percepção da realidade é, muitas vezes, densa e cheia de erros. Nunca captamos a sua inteireza. Além disso, é mais fácil culpar fatores externos do que a nós mesmos.


É interessante observar como os Estados Unidos impacta o Brasil. Vários brasileiros não só se opõem a China de forma irrefletida, como não estudam as políticas públicas que lá foram usadas. Que importa se uma política bem sucedida seja chinesa, vietnamita, americana, russa, inglesa ou francesa? É preciso olhar para todos os quadros, pegar o que é bom e traduzir para a realidade nacional. Hoje em dia, a China é uma excelente referência em planejamento a longo prazo e poderíamos aprender, e muito, com os chineses.  Não só isso, nosso país é parceiro da China, visto que fazemos parte do BRICS.


A China deveria ser mais lida e mais estudada. Hoje em dia ela vem apresentado grandes avanços que dificilmente serão contidos pelas forças narrativistas. Qualquer um pode ver o milagre da engenharia e arquitetura chinesa. Muitas vezes vejo ingleses e americanos comentando acerca da beleza das cidades chinesas. Não só isso, hoje a China não é só mais a "fábrica do mundo", ela também é o laboratório do mundo, com avanços significativos até em áreas antigamente dominadas por americanos. Nunca canso de avisar isso, embora avise com grande frequência, deveríamos estudar mais a forma com que a China brilhantemente faz planos de longo prazo. 


Muitos dos nossos políticos estão brigando com a China para favorecer interesses de outros países em detrimento dos interesses nacionais. Isso é péssimo para o crescimento do país. Podemos ter críticas ao governo Lula, mas é certo que precisamos olhar mais atenciosamente para NIB (Nova Indústria Brasil). Além disso, o projeto da Ferrovia Bioceânica demonstra que a China é uma forte aliada na infraestrutura nacional. A China tem um importante "know how". Ela tem sido, apesar das visões de múltiplas pessoas, uma aliada enorme. É válido sempre recordar: somos membros do BRICS. 


O que eu entendo é: eu não preciso concordar ou discordar de assuntos internos dos Estados Unidos, China, Rússia, Índia, França, Reino Unido ou qualquer outro país. O que eu preciso ver é o que é melhor para meu país. Bolsonaristas usualmente apelam para "os interesses do Ocidente", mas os interesses dos diversos países ocidentais, em suas diversas diversidades, não podem ser resumidos aos interesses dos Estados Unidos. Exemplo disso é a quantidade de vezes em que a União Europeia se contrapôs as decisões americanas. Um exemplo cabal disso foi a criação do euro que se contrapôs ao dólar.


O Brasil é, por exemplo, um dos líderes mundiais na exportação de comida halal (comida permitida pela lei islâmica). O alienamento e a separação do Brasil dos países islâmicos em prol dos interesses americanos — e também os interesses geopolíticos de Israel — não seria benéfico ao nosso país. Do mesmo modo, exportamos muita soja para a China, para quem o nosso agronegócio exportaria se brigamos com a China em prol do interesse americano? As pessoas que adoram o agronegócio nacional, muitas vezes identificadas com a direita, esquecem-se que uma das nossas maiores compradoras é a China. Além disso, sem países islâmicos, para onde venderíamos a comida halal? Precisamos ter em mente quais são os reais objetivos estratégicos do nosso país.


— Plagiar os Estados Unidos (inclusive em seus defeitos):


A guerra fria civil, que sempre vem acompanhada de boas doses de guerra cultural, vem servido para seitizar e emburrecer o debate público brasileiro. Pesquisas enormes já demonstram a capacidade da mídia em gerar percepções paralelas na qual não se predomina o pensamento crítico e o distanciamento necessário, mas sim a narrativa coletiva que se escolherá como filtro perceptivo para cada fato (ou literal mentira) que se acreditará. 


Grande parte do debate público brasileiro é marcado pela absoluta inépcia de se ter um quadro amplo de referências de todos os quadros. Exemplo disso é ausência de estudo em relação a tradição conservadora Red Tory. Num país onde a desigualdade predomina absurdamente, a tradição conservadora Red Tory possibilitaria um anteparo aos mais pobres e quebraria a noção de que a direita não liga pro pobre. A tradição conservadora Red Tory apresenta suas diferenças nas matrizes do Reino Unido e do Canadá, mas dariam um bom oxigênio ao debate da direita brasileira e do debate brasileiro como um todo.


A grande questão que se apresenta diante de nós é a de um conhecimento mais robusto das tradições conservadoras. Os Estados Unidos construíram uma série de institutos e centros de formação mais conservadores, o que favoreceu o desenvolvimento de uma direita mais letrada e capaz de se lidar com os problemas nacionais. Os conservadores estão acostumados a lerem uma série de livros e pesquisas.


Posso elencar algumas:

- The Heritage Foundation;

- Hillsdale College;

- Hoover Institution;

- American Compass;

- Intercollegiate Studies Institute.


Para termos uma noção disso, basta olhar qualquer episódio do "Uncommon Knowledge" e comparar com qualquer discurso da direita nacional. A disparidade de nível intelectual é absurda. Não há, no Brasil, uma preocupação tão alta de gerar conservadores fortemente letrados. Além disso, o movimento conservador brasileiro poderia ser descrito como Blue Tory, neoconservador ou conservatário em poucos casos. Outras referências e tradições intelectuais conservadoras são massivamente ignoradas.


Conservadores, não raro, orgulham-se de ter um número cada vez maior de jovens de direita. Todavia não se perguntam qual a qualidade formativa desses jovens. Políticas reais devem ser embaladas em estudos, em dados, em produção acadêmica séria. Uma geração de "jovens conservadores" pode ser um desastre se não existir uma formação e cultura acadêmica necessária. Para se estar preparado para os problemas nacionais é preciso de gente que estude e tente resolver os problemas nacionais através de políticas públicas orientadas por dados concretos.


Há no debate conservador brasileiro uma ausência de abertura para outras vertentes conservadoras não americanas. Um dos maiores descasos da nossa direita é a falta de pessoas falando sobre a tradição Red Tory em sua versão inglesa e canadense. Esse empobrecimento termina levando a uma perda de qualidade em nossa compreensão das várias vertentes do conservadorismo.


— Por que tantos brasileiros são trumpistas?


Leio e assisto bastante o debate americano. Tendo uma boa leitura de democratas, republicanos, conservadores e liberais, uma grande pergunta que sempre vem é: por qual razão tantos brasileiros são trumpistas?


Qualquer um que tenha lido conservadores como David Frum, Stuart Stevens, Christopher Buckley e Rick Wilson sabe que Trump não é um consenso nem entre os meios conservadores. O brasileiro, em grande parte, não sabe ler em inglês. Duvido que muitos brasileiros se dediquem ao estudo do debate público americano.


Creio que o que leva o brasileiro a ser trumpista é esse:

Trump = é de direita = é bom.

(O mesmo poderia ser aplicado a grande parte dos antitrumpistas [Trump = é de direita = é mau]).


Um grande questionamento deveria surgir: a direita apresenta múltiplas escolas de pensamento. Um Red Tory não quer o mesmo nível de intervenção estatal do que um Blue Tory, na verdade, ele quer mais intervenção estatal. Do mesmo modo, um paleoconservador não é tão semelhante a um neoconservador, eles são muitas vezes rivais. Conservadores reaganianos muitas vezes se oporam aos conservadores trumpistas em múltiplos casos. Não raro, institutos conservadores americanos divergem entre si.


Trump não é uma unanimidade na direita americana. O fato é: as políticas econômicas de Donald Trump, a sua geopolítica e a sua geoeconomia, aceleram a queda da hegemonia americana e levam a corrosão do império americano. Isso poderia ser motivo suficiente para a esquerda, usualmente antiamericana, ser pró-Trump e a direita, usualmente pró-americana, ser anti-Trump. Só lembrarmos que de janeiro a novembro de 2025, a China registrou um superávit de 1 trilhão de dólares graças ao desastre geopolítico e geoeconômico que está sendo o governo Trump.


Grande parte da comoção pró-americana recente se dá pela aliança histórica que os Estados Unidos construíram com atores que se posicionassem contra a União Soviética durante o período da primeira guerra fria. Ser pró-americano e ser de direita foi algo que foi colocado como natural, óbvio e intríseco. O oposto também era verdadeiro, se a direita apoiava os Estados Unidos (e o regime capitalista), a esquerda apoiava a União Soviética (e o regime socialista). Múltiplos setores da direita profissional — isto é, não meros militantes que não possuem vínculos reais — buscam uma aliança com os Estados Unidos, ou a aparência de uma aliança, para projetar na imaginação pública o antigo cenário da primeira guerra fria. Do mesmo modo, especulam que isso pode dar uma potencial ajuda americana quanto aos seus (potenciais) projetos de poder.


Podemos dizer que o "bloco ocidental" e capitalista, por assim dizer, ainda assume grande importância. Se de fato vivemos na segunda guerra fria, a questão é mais sobre uma ordem multipolar contra uma ordem unipolar. O Brasil, ao integrar o BRICS, faz mais parte do lado multipolar. O bloco multipolar, por sua vez, não é um bloco que é "socialista", mas daqueles que querem uma gestão global pautada em uma maior igualdade entre as nações e, até mesmo, uma maior soberania dos países em correlação aos seus interesses internos (como qual sistema político e econômico adotam ou querem adotar).


Muitas vezes, o brasileiro tem em conta que os democratas estão mais próximos da esquerda e os republicanos mais próximos da direita. O que leva a um adesismo quase automático. Se o brasileiro for de direita, torna-se automaticamente a favor dos republicanos. Se o brasileiro for de esquerda, torna-se automaticamente a favor dos democratas. Essa análise política simplória ignora que existem profundas divisões na política americana, seja na esquerda, no centro e na direita. Além disso, some ao fato de que a esquerda e a direita de lá possuem uma formação e uma forma de agir diferentes das nossas.


O que o brasileiro de direita usualmente não conseguiria explicar é o carnaval de conservadores antitrumpistas. Usualmente o conservador brasileiro segue a tendência que está em voga e aplica sem se questionar as múltiplas variações que existem no conservadorismo americano.


— Um olhar cauteloso para a informação:


O Brasil tem pouco cuidado com as informações. Muitas críticas contra países aliados (como os membros do BRICS), países muito semelhantes a nós (como os países latino americanos) e tantos outros, estão sendo rotineiramente atacados com base em exercícios livres de xenofobia recreativa por interesses políticos excusos.


Vivemos em uma época em que a guerra informacional não é algo episódico, mas cotidiano. Na época da quinta geração de guerra, todo campo é campo de guerra. Uma atenção mais prolongada as múltiplas narrativas e as suas origens não é só uma questão de estudo, mas também de segurança nacional.


Múltiplos países vêm lidado com diferentes guerras informacionais. Essa questão não é uma grande novidade para europeus, russos, chineses, americanos ou canadenses. O Brasil parece estar atrás nessa questão. O que deixa a gente mais vulnerável a todo tipo de ataque. Qualquer tipo de regulamentação parece soar como um ultraje a chamada "liberdade de expressão". Todavia essa "liberdade de expressão" não deveria acolher fábricas de troll ou países estrangeiros manipulando a percepção pública.


Nos Estados Unidos, já é sintomático o poder midiático alternativo. No Brasil, tal tendência está apenas a crescer. O número de seitas disfarçadas de veículos midíatico alternativos ainda não pipocou o suficiente, mas é evidente que o poder público e a opinião pública não estão maduros o suficiente para se lidarem com elas.


O ódio direcionado a estrangeiros ou outros países está aumentando. O ódio entre diferentes regiões do país também. Nos Estados Unidos, as diferenças culturais e as mudanças demográficas são consideradas assustadoras por alguns (e isso foi um fator decisivo para a vitória de Donald Trump).


Quando as pessoas entenderem que a guerra fria civil não é uma única, mas múltiplas, podemos compreender melhor o que nos divide. No Brasil, a guerra fria civil adquire várias expressões. Posso citar algumas:


1. Ideológica: briga entre diferentes grupos de esquerda e direita;

2. Religiosa: briga entre diferentes religiões;

3. Regional: briga entre diferentes partes do Brasil;

4. Geopolítica: briga entre quais são os reais aliados do Brasil;

5. Gênero: a disparidade entre as visões de homens e mulheres;

7. Cultural: o que é percebido como uma cultura de esquerda e de direita;

8. Midiática: alinhamento dos diferentes setores da mídia.


O apaziguamento nacional parece estar distante. Muito pelo contrário, estamos radicalizando a nossa guerra fria civil lado a lado com os americanos.


— Um olhar para o futuro:


Não quis voltar aos mesmos pontos das análises anteriores, visto que seria fazer mais do mesmo. Vocês muito provavelmente leram as duas análises que fiz do Rick Wilson e do Stuart Stevens. Muito provavelmente leram as análises que fiz do Kevin Roberts e Charlie Kirk. Vocês muito provavelmente leram as análises que fiz do Christopher Buckley. Também escrevi análises a  respeito de obras de Mencius Moldbug e Nick Land. Quis voltar meus olhos ao Brasil enquanto lia esse livro para dar um senso de complementaridade e sair da rotina.


Estamos apenas no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, segundo o Project 2025 Observer, o Project 2025 já foi 50% implementado. Nada, por enquanto, indica que a situação será melhor em 2026. Mesmo com o trumpismo aparentemente tendo rompido com o bolsonarismo. O fato da agenda do Project 2025 ter continuado em voga enquanto quase ninguém a olha é a prova disso.


Os Estados Unidos, em sua posição de perda hegemônica, apresenta muitas lições tristes para todos nós. Devemos olhar mais cautelosamente o que ocorre por lá e impedir o mesmo movimento aqui. Sei que isso pode soar chato e que os ânimos estão fervendo, mas chegou a hora de parar isso e chegarmos a uma reconciliação nacional em prol de um Brasil mais maduro e preparado para a arena do século XXI.


Estamos em ondas de ataques revisionistas, revisões evidentes na institucionalidade, ódio em múltiplos grupos, guerras frias civis em multissetoriais. Passando pano para grupos de esquerda e de direita que vivem a base de odiar um ao outro em vez de compreender um ao outro.