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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Memória Cadavérica #39 — Antissemita?


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta deixada a um grupo católico.


>vocês 


Eu estou apenas traçando a origem do termo.


Não estou dizendo algo que eu particularmente acredite, mas explicando como o termo surgiu dentro da lógica interna do grupo.


Se a teoria é antissemita, eu explico a lógica antissemita que está dentro do discurso. Do mesmo modo, se a teoria é feminista, conservadora, progressista, whatever. E é basicamente o que eu sempre fiz como intelectual. Seja analisando teologia judaica, teoria queer, islamismo, anarco-capitalismo, feminismo, catolicismo, etc.


Até porque o que eu sempre trabalhei foi a "engenharia mental reversa" adotada dentro da esfera da interpretação intelectual.


Se toda vez que eu fizesse alguma análise sobre algo, explicando como dada cosmovisão surge dentro de um universo própio, eu teria que ser ao mesmo tempo feminista, machista, judeu, católico, queer, tradicionalista, progressista, neopagão, anti-conspiracionista, pró-conspiracionista, antissemita, sionista, reacionário, comunista, etc.


Quando eu escrevo algo sobre o Olavo de Carvalho, estaria eu sendo olavista? Quando eu escrevo algo sobre Deng Xiaoping, estaria eu sendo um socialista de mercado? Duas coisas ao mesmo tempo? Do mesmo modo, quando eu explico o conspiracy warfare (guerra conspiratória), estaria eu sendo um teórico da conspiração?


Quando eu trago a obra do intelectual norueguês Egil Asprem, que é CRÍTICO DO ESOTERISMO A EXTREMA-DIREITA, seria eu um PROGRESSISTA DE ESQUERDA ATUANDO CONTRA A CONSPIRITUALIDADE SOMBRIA?


Aí é que está. Existe diferença entre a análise intelectual e a promoção doutrinária de algo.


Do mesmo modo, quando eu trago o Alain de Benoist, da direita francesa, eu teria que ser pagão e de direita, mas, no dia seguinte, ao trazer um artigo do Journal of Bisexuality, eu teria que ser um bissexual militante lutando contra o monossexismo de homossexuais e héteros. As duas hipóses teriam que ser dadas como verdadeiras.


Se formos adiante, ao analisar Nick Land eu seria um neorreacionário querendo o aceleracionismo ultracapitalista ao mesmo tempo que, no dia seguinte, eu teria que ser um tomista ao analisar os cursos tomistas.


Essa é a capacidade de sair do dogmatismo que o próprio Olavo de Carvalho falava. É a investigação livre dos demais diversos temas e a capacidade de formar um raciocínio não dentro de um prisma teológico (onde há a aceitação doutrinária), mas de uma análise filosófica do debate público (vendo o que concorda ou discorda pontualmente).


Leia Agnosticismo Metodológico:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2021/10/agnosticismo-metodologico-ou-da.html

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Is American Democracy in Crisis?" de The Munk Debates (lido em inglês)

 


Nome:

Is American Democracy in Crisis?


Debatedores:

E. J. Dionne Jr.

Andrew Sullivan

Newt Gingrich

Kimberley Strassel


Intermediador:

Rudyard Griffiths


(Por favor, não reclamem da falta de análises. É fim de ano e eu ando um pouquinho bêbado demais pra ler tanto. Tenho compensado muito bem a falta de conteúdo)


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX


Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtube.com/playlist?list=PLjdgXaecKQuFCXNEKtHkEC_RmfYbJR3ZY&si=tGpCetTZ0USRhi2Z


Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Uma breve introdução das figuras:


— Pro (a favor da resolução: contra Trump):


- E. J. Dionne Jr.:

Jornalista, colunista do Washington Post, professor na Georgetown University e fellow sênior no Brookings Institution. Autor de livros como "Why Americans Hate Politics" e "One Nation After Trump".


- Andrew Sullivan:

Escritor, blogueiro e editor britânico-americano, ex-editor da The New Republic e colaborador da New York Magazine. Conhecido por defender o casamento gay e ser um conservador independente. Ele apoiou Obama, Clinton e Biden em eleições passadas.


(Nota cínica: daqui a pouco recebo mais uma mensagem no meu NGL me acusando de usar friend fire contra conservadores, esmagando a direita nacional e americana :v)


— Con (contra a resolução: pró-Trump ou defensores):


- Newt Gingrich:

Político republicano, ex-presidente da Câmara dos Representantes dos EUA (1995-1999), autor e comentarista. Foi um dos arquitetos do "Contract with America" e é uma figura influente no Partido Republicano. 


- Kimberley Strassel:

Jornalista e colunista conservadora do Wall Street Journal, onde escreve a coluna "Potomac Watch". Membro do conselho editorial do jornal, autora de livros como "Resistance (At All Costs)". 


Sempre me questionam a razão de eu trazer tantos ares de fora. A razão é bem simples: o debate brasileiro é asfixiante. Se não pegamos um ar, morremos em nosso circle jerk.


Uma coisa que tenho percebido é que não vemos nada além do mainstream em nosso "consumo cultural". Fiquei surpreso quando me deparei com o triste fato de que ignorávamos amplamente vários setores da intelectualidade americana. Não só isso, da intelectualidade inglesa e canadense também. Exemplo disso é o já repetido tema do Red Tory, tema esse que o(a) leitor(a) desse blogspot já deve ter cansado de me ver repetir. Pretendo ir, pouco a pouco, trazendo mais e mais conteúdo para quebrar o grande silêncio que está entre nós e o mundo. Procurando mais listas e mais diferentes autores, seja da esquerda, seja da direita, seja do centro.


Não é como se eu fosse ter um grande impacto. Creio que a média atual é entre 100, 200 ou 300 visitas diárias para o blogspot. Grande parte dos visitantes nem são brasileiros. Atualmente, perdi completamente a capacidade de sabee quem estou supostamente influenciando. Teve um dia que eu olhei e vi que o maior acesso vinha dos Países Baixos. Não conheço ninguém de lá, mas agradeço a visita e espero que apreciem o conteúdo. Creio que vários usam o tradutor dos seus navegadores para consumirem o conteúdo do blogspot.


Em relação ao debate, achei interessante o começo citando as contas a respeito da quantidade de mentiras que Trump espalhou em suas redes sociais (ou em discursos formais). Confesso que ri um pouco disso.


Os debatentes demonstraram pontos muito interessantes. Posturas de ruptura democrática são comuns em governos de democratas e de republicanos. Uma das grandes curiosidades é essa: Obama, por exemplo, tentou governar sem o congresso. Trump seguiu uma trilha semelhante em seu modo de agir, embora de uma maneira mais truculenta. Quando analisam Trump, lembram de dois presidentes em particular: Andrew Jackson (um democrata populista, inegavelmente racista e disruptivo) e do Richard Nixon (um republicano que ficou conhecido pela Watergate e pela "maioria silenciosa"). 


Concordo com as duas partes:

1. Trump mente muito mesmo, isso é evidente;

2. A defesa da soberania nacional é importante.


A questão é: as contumazes passadas de pano aos democratas se tornaram o comportamento predileto da mídia mainstream, ao mesmo tempo que a "defesa da soberania" não pode vir de um populismo irresponsável e estrategicamente tolo. Também preciso mencionar, e é sempre bom mencionar, a forma "bastante amigável" que Trump é com os russos, a forma com que ele enriqueceu em seu primeiro mandato e, muito provavelmente, enriquecerá muito mais nesse segundo.


O brasileiro médio, por sua vez, olha com espanto o que digo. Tenho vários amigos de direita, vou em suas festas. Quando eu digo que existem conservadores antitrumpistas, eles se escandalizam. Eles ainda acreditam na ideia de uma direita que canta num coral inteiramente harmônico. Quando eu falo o mesmo para esquerdistas, a conclusão é que são pessoas tão "maldosas e malignas" quanto Donald Trump. Percebo que sou uma pessoa imensamente solitária por causa disso. Mentira, chamem-me mais festas.


Outra questão picante: James Comey. James Comey foi um diretor do FBI que investigou o Russiagate — o caso da Rússia interferir nas eleições americanas para favorecer Donald Trump. Em 2017, ele foi demitido pelo próprio Trump. Atualmente, em 2025, ele enfrenta uma vingança de Donald Trump. O caso de Trump contra James Comey é um que seus críticos apontam como exemplo concreto de obstrução de justiça. Trump não poderia, e nem deveria, demitir o homem que investigava a relação dele com a Rússia, visto que isso era uma questão de segurança nacional. Do outro lado, James Comey pediu para um amigo passar um memorando ao The New York Times, o que viola políticas internas do FBI.


Os debatentes falam também de Joe Arpaio (ex-xerife). Joe Arpaio tinha métodos que eram julgados controversos. Racialmente controversos para ser mais exato. Quando Trump perdoou ele (perdão presidencial), muitos julgaram isso como uma sinalização racista. Ou, em outras palavras, uma sinalização de que as pessoas poderiam usar meios duros e rudes de forma racista contra imigrantes. É válido lembrad que Trump tentou, em primeiro lugar, obstruir a investigação.


Charlottesville (Virginia) é outro caso emblemático. Uma manifestação ocorreu para tirar a estátua de um ex-confederado (Robert E. Lee). Na manifestação, encontravam-se nacionalistas brancos e neonazistas. A manifestação, que ocorreu em 2017, foi chamada de "Unite the Right". Grupos antirracistas entraram nela em uma lógica de confrontamento. Trump teve o seu pronunciamento, condenou o racismo, mas a briga surgiu quando Trump falou que existia gente legal em ambos os lados.


Creio que a própria questão que se desloca nesse debate é a natureza da democracia horizontal (onde qualquer um pode se eleger presidente). As redes sociais e a internet possibilitaram a ascensão sem fim de populistas. Anteriormente as mídias tradicionais eram mais questionadas a respeito da sua credibilidade informacional. Atualmente múltiplas mídias possuem pouca ou baixa credibilidade. Fora isso, a guerra fria civil proporciona um ambiente de maximização de vieses ideológicos. A questão que entra é: como a democracia horizontal pode impedir a entrada dos piores se ela mesma é responsável pela entrada dos piores? A democracia horizontal destrói ou corrói os mecanismos que deveriam garantir a sua própria existência. Isso não foi levantado no debate enquanto tal, mas me permito a licença poética de questionar a funcionalidade atual da democracia horizontal na qual grande parte do Ocidente se ancora.


Quando nos perguntamos a respeito da entrada de líderes populistas que destroem os mecanismos institucionais, deveríamos nos questionar sobre o que possibilitou a entrada dos líderes populistas no poder. Se estamos colocando gente despreparada e autocrata... a questão recai no: "o que permite que NÓS coloquemos no poder gente despreparada e autocrata?". É evidente que não falo em "nós" enquanto um povo que vota 100% no mesmo candidato, mas sim no fato de que parte de nós votou neles. Talvez grande parte do problema não seja, pura e simplesmente, a entrada de líderes populistas, talvez seja o próprio sistema que legalmente permite a sua população votar em seu processo de autodestruição.


Muitos falam da democracia vertical ou de mecanismos que impeçam líderes corruptos. O fato de termos, por exemplo, a Lei Ficha Limpa já garante uma salvaguarda diante disso. Todavia deveríamos ter mecanismos legais — ou até mesmo uma reestruturação ou criação de um outro sistema — que impeçam políticos que levem a corrosão entrem no poder. Isto é, um mecanismo técnico que leve a uma saúde política. Enquanto isso não for seriamente pensado, o risco de sermos governados por representantes que colocam teorias conspiratórias como pauta (e arma) política é uma constante que dificilmente vamos conseguir suportar turno após turno. O que é interessante: se ao mesmo tempo temos que garantir que só os melhores vençam, caímos no risco de criar uma tecnocracia pura que também destrua toda e qualquer autonomia individual.


O que ocorre nos Estados Unidos deve servir de lição para o brasil. Veja a atual situação:

- Sentimentos e mensagens separatistas aparecendo;

- Campanhas xenofóbicas entre múltiplos grupos brasileiros;

- Rivalização cada vez maior entre regiões do país;

- Crescimento entre mensagens de ódio e campanhas de desinformação;

- Aumento da rivalidade e tensões de gênero.


Eu poderia citar muitos mais fenômenos que ocorrem no Brasil, mas é evidente que estamos em uma guerra fria civil e que várias mensagens só aumentam isso.


O ano está acabando. Nesse ano, o blogspot Cadáver Minimal cresceu 2.277.6% em número de visualizações. O Brasil mudou muito. Eu mudei muito. Espero estar conseguindo trazer um bom conteúdo para todos vocês. Peço-lhes que me acompanhem também em 2026. Continuarei a me esforçar para trazer conteúdo para todos.


Feliz ano novo!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Trumpocracy" de David Frum (lido em inglês)

 



- Livro:

Trumpocracy: the corruption of the American Republic


- Autor:

David Frum


— Considerações sobre a escrita:


Creio que venho me tornado um autor mais lento. Não sei se é o peso da idade. Antigamente era mais apressado. Atualmente gosto de ler e reler, escrever e reescrever. Gosto de revisitar certas coisas também.


O motivo de eu ter inaugurado o "Memórias Cadávericas" foi o fato de que tenho tomado um cuidado maior com os meus escritos, mas ainda sim trazer novos conteúdos. O "Memórias Cadavéricas" permite conteúdo rápido, visto que pego textos pequenos e relanço de forma expandida. Já os conteúdos que requerem maior análise, como as análises de livros, sigo o esquema de escrever, ler, reescrever e ler de novo. A série principal de análise de livros e artigos acadêmicos segue intacta.


Tenho escrito uma série de textos, já em inglês, a respeito das guerras meméticas e suas táticas. Gosto de diversificar o que escrevo. A abordagem que sigo no Medium e no Blogspot são diferentes. Sei que são dois públicos distintos.


Anteriormente escrevia tudo em uma tacada só. Atualmente não faço mais isso. Como uso o blogspot como um armazenamento da minha memória intelectual, acabo por crer que a melhor forma de agir é sempre possibilitar que eu tenha um acervo grande de textos para sempre usar quando for necessário.


Faço isso pois não quero jogar o jogo moderno. As pessoas esperam acelerar o nosso raciocínio para torná-lo frágil. Querem que tomemos reflexões cada vez mais curtas e decisões cada vez mais rápidas. Isso gera grande parte da adesão a discursos fáceis e não embasado em dados sérios. A reflexão deve ser lenta, ela deve digerir os dados e absorver os nutrientes da informação para gerar compreensão. Múltiplas vezes, a pesquisa é substituída pela adesão grupalista a ideias prontas.


O populismo do mundo moderno, sobretudo no Ocidente moderno, é fruto de um despreparo educacional da população. Uma população que pouco lê e o que lê é ligado a uma lógica grupal, acaba por estudar pouco os múltiplos pontos necessários antes da tomada de uma decisão. O populismo que ameaça o futuro ocidental é fruto do abandono educacional que foi dada as populações.


Infelizmente, grande parte da educação midiática que deveria ser dada, dificilmente será disposta para a população. Muito pelo contrário, a guerra fria civil muito provavelmente aumentará e todo fragmento informacional será grupalizado e posto como bala dentro de metralhadoras giratórias da guerra informacional.


Estudar mais, escrever vagarosamente e refletir abundantemente é um antídoto e uma vacina ao moderno tempo. O primeiro passo para fugir do populismo é sair da corrida, caminhar devagar e ver que os corredores estão esbarrando em tudo visto que querem tomar decisões em tempo recorde.


— Irrevogavelmente pessoal:


As análises vem trazido um tom mais pessoal. A resposta para tal condição é simples: sempre me vi como um marginal dentro do cenário intelectual. Não gosto de escrever em terceira pessoa, sinto-me mais impactado quando escrevo em primeira pessoa.


Para mim, a vida intelectual se manifesta por uma intimidade. Estudo pois amo estudar. Não é por diploma (ou validade institucional formal), não é por consagração social. É por um simples amor a vida de estudos. Nunca ganhei "grana" alguma por ser um intelectual. Do mesmo modo, nunca tive que fazer alguma aliança que comprometesse a liberdade analítica que hoje disponho.


É por essa razão que o número de visualizações do blogspot sempre foi, na melhor das hipóteses, tíbio ou baixo. O blogspot Cadáver Minimal existe mais por uma birra minha do que por qualquer outra coisa. Você não vê gente anunciando nada aqui por conta disso. Do mesmo modo, não sou benquisto nem pela esquerda e nem pela direita. O que me surpreende é o fato de às vezes eu ter oitocentos leitores em um único dia.


Além disso, escrever em primeiro pessoa me ajuda a perceber "onde estou" dentro do problema todo. Ao me ver no quadro, vejo que não sou só uma vítima ou um narrador onisciente, mas também, e em grande parte, culpado pelo o que ocorre. A escrita adquire um tom confessionalista e expurga os pecados da alma.


— O que vem me levado até aqui?


No presente momento, as pessoas vêm me dito: "Gabriel, você escreve muito a respeito dos Estados Unidos". De fato, tenho escrito muito a respeito dos Estados Unidos. 


Essa estranha obsessão surge por causa da época transição da hegemonia americana para a hegemonia chinesa. Quero compreender o que está levando os Estados Unidos a decaírem e o que está levando a China a crescer. Além disso, há o chamado "Project 2025", um tema de amplo debate global.


Muitos pesquisadores brasileiros vêm trazido as suas reflexões a respeito disso. Poucos são os que leram os conservadores antitrumpistas. Isso é uma coisa que me traz um certo cansaço para com o debate brasileiro: esquerdistas só leem esquerdistas, direitistas só leem direitistas. É tedioso e enfadonho.


Sim, eu quero entender o que está rolando. Quero entender onde os Estados Unidos estão indo. Ler todas essas pessoas faz parte disso. Preciso entender o que está levando a queda da hegemonia americana, isso traz uma grande lição política. Se não estudarmos isso, enquanto brasileiros, corremos risco de seguir políticas que naufragam o país graças a um modelo que está falindo.


— O estranhamento com a política:


Tenho a vantagem de ser solitário. Amizades corroem a vida intelectual na medida em que impedem as pessoas de fazerem certas investigações e tomarem outras posições na medida em que precisam agradar as suas alianças.


Decisões cada vez mais absurdas, menos baseadas em dados e menos baseadas em estudos. Um afastamento cada vez maior da academia do restante da população. Junto a isso, o apelo popular de políticos antiacadêmicos e anti-intelectuais.


A democracia é o poder popular ou o consentimento da população. Todavia há uma questão: pode o poder ou o consentimento popular estar acima da própria necessidade de uma boa gestão baseada em dados e estudos? Se a população é cada vez menos educada, maior é a possibilidade dela votar e consentir ser governada por políticos "fanfarrônicos" que possuem um forte desprezo pelo letramento. Não só isso, movemo-nos a uma grande época de rupturas institucionais constantes.


O ódio aos especialistas, aos acadêmicos e aos intelectuais condecorado lado a lado com a expansão de teorias conspiratórias como armas políticas se tornou uma constante histórica. Muitos buscam posar de "anti-establishment" para conseguirem atenção popular. A imagem do "sou contra tudo o que está aí" leva a ascensão contínua de autocratas no mundo inteiro.


Nossa vida política não está ligada na expansão de obras de longo prazo, mas na caça de pautas identitárias que surgem como cortina de fumaça. Uma das maiores é o reforço crescente a masculinidade e a feminilidade tradicional. Poderíamos ter passado tempo pensando a respeito da alfabetização, saneamento básico e ferrovias, mas estamos pensando no reforço aos padrões de gênero.


Além disso, devo somar que a tribalização da política leva a uma rigidez de pensamento cada vez maior. Nada é questionado, tudo deve ser enquadrado em uma construção doutrinária-identitária onde pautas são vistas em preto e branco. Logo as políticas não são pensadas de acordo com uma análise sistemática de múltiplos modelos, mas sim em qual "time" estamos jogando e qual é o nosso grau de fidelidade para esse time. 


— Era da Informação:


Um dos grandes erros que as pessoas possuem em relação a era da informação é que a "era da informação" é, por si mesma, a era da "boa informação". A era da informação é, nada mais, nada menos, a era da divulgação de qualquer informação com mais facilidade, pouco importando a qualidade dela.


A questão é: o que aparece com mais facilidade? Informações mais facilmente digeríveis, com retórica simples e narrativas fáceis, ou informações de alta complexidade que requerem uma série de estudos prévios? Esse é um dos motivos pelos quais memes usualmente tomam espaço gigantesco na estrutura narrativa moderna.


O trumpismo e o bolsonarismo, diga-se de passagem, gozam de uma ampla estrutura memética e de um amplo uso de táticas de guerra memética. O meme é facilmente reproduzível, diga-se de passagem. Para a maioria das pessoas, é mais fácil ter uma escolha simples. O meme simplifica.


Essa questão de simplicidade e complexidade sempre abarca o debate público moderno. Tudo deve ser fácil para ser democrático ou deveríamos pedir para que as pessoas se esforcem mais? É estranho como os eventos são. A direita, usualmente vinculada a mentalidade mais meritocrática, utiliza mais amplamente a guerra memética para gerar uma aproximação popular e facilitar o entendimento das suas mensagens. A esquerda, mais naturalmente vinculada a mentalidade mais popular, tenta se vincular a um pensamento crítico (naturalmente mais complexo).


1. Mais pensamento crítico = mais complexidade = elitização da mensagem;

2. Mais memética = menos complexidade da mensagem = mais popularização da mensagem.


Estratégias não são tão simples de entender. E a disposição dos grupos usualmente está mais em "ir com o grupo" do que em uma fidelidade a um aspecto ideológico/doutrinário primário. Primeiro vem o movimento do grupo, depois vem a adaptação intelectual que justifica o movimento do grupo. O livro "The Myth of Left and Right" de Verlan Lewis e Hyrum Lewis explica bem isso.


— O que poderia servir para parar movimentos populistas?


Creio que algo que poderia servir como grande freio seria a leitura e reflexão. Imagino que um brasileiro que constantemente lê e estuda múltiplos livros, com múltiplas lógicas e linhas distintas, é mais capaz de perceber quais políticas são mais necessárias para o bem comum do Brasil. Do mesmo modo, o mesmo é válido para o americano.


Ler múltiplas fontes intelectuais distintas permite uma depuração da informação e capacidade de raciocinar através de múltiplos exemplos. Isso permite pensar sobre "o que eu exatamente concordo ou discordo?". É preciso largar a paixão dos automatismos mentais. Visto que isso leva a um enfraquecimento da capacidade de percepção.


A China consta com uma educação pública cada vez mais forte e bem estabelecida. Enquanto isso, a população dos Estados Unidos conta com uma educação cada vez pior. Fora isso, quem se arrisca a estudar ganha uma enorme dívida estudantil, que é um fator desmotivador.


Quando as pessoas aparecem sendo "pró-China" ou "pró-Estados Unidos", pergunto-me: "você é a favor do quê?". A mesma questão me aparece em relação quem é contra a China ou contra os Estados Unidos: "você é contra o quê?". Em qual parte a pessoa é a favor e em qual parte a pessoa é contra. Isso é importante. Outra coisa importante é saber que nossas opiniões individuais não impactam nos regimes de outros países.


Por exemplo:


- Você é contra a engenharia chinesa?

- Você é contra o churrasco texano?

- Você é contra o modelo educacional americano? Em qual parte?

- Você é contra a culinária chinesa?

- Você é contra a arquitetura americana?

- Você é contra os jogos de videogames chineses?


É evidente que existem, em todos os países, coisas que podemos gostar, amar, odiar ou ser completamente indiferentes. Um sujeito pode ter um Windows (sistema operacional americano produzido pela Microsoft) e jogar Genshin Impact (jogo RPG chinês produzido miHoYo).


O que eu quero dizer é que: não se trata de ser contra ou a favor da China ou dos Estados Unidos, mas equilibradamente pontuar o que gostamos ou não gostamos sem automatismos tribalizados. Não somos uma torcida organizada, somos um país diverso e plural que pode e deve ser aberto para o mundo e se beneficiar do que o mundo tem a nos oferecer.


— Oposição a China:


Grande parte do trumpismo se direciona numa oposição a China. A decadência americana é muitas vezes encarada com um pessimismo simplificador. Em vez de um pessimismo que se recolhe e pergunta "onde eu errei?", há sempre um escape que pode ser feito.


Teorias da conspiração usualmente aparecem como formas de dar uma "simplificada" em acontecimentos complexos. Elas aparecem como um círculo perfeito de culpados pelas crises que se anunciam. A percepção da realidade é, muitas vezes, densa e cheia de erros. Nunca captamos a sua inteireza. Além disso, é mais fácil culpar fatores externos do que a nós mesmos.


É interessante observar como os Estados Unidos impacta o Brasil. Vários brasileiros não só se opõem a China de forma irrefletida, como não estudam as políticas públicas que lá foram usadas. Que importa se uma política bem sucedida seja chinesa, vietnamita, americana, russa, inglesa ou francesa? É preciso olhar para todos os quadros, pegar o que é bom e traduzir para a realidade nacional. Hoje em dia, a China é uma excelente referência em planejamento a longo prazo e poderíamos aprender, e muito, com os chineses.  Não só isso, nosso país é parceiro da China, visto que fazemos parte do BRICS.


A China deveria ser mais lida e mais estudada. Hoje em dia ela vem apresentado grandes avanços que dificilmente serão contidos pelas forças narrativistas. Qualquer um pode ver o milagre da engenharia e arquitetura chinesa. Muitas vezes vejo ingleses e americanos comentando acerca da beleza das cidades chinesas. Não só isso, hoje a China não é só mais a "fábrica do mundo", ela também é o laboratório do mundo, com avanços significativos até em áreas antigamente dominadas por americanos. Nunca canso de avisar isso, embora avise com grande frequência, deveríamos estudar mais a forma com que a China brilhantemente faz planos de longo prazo. 


Muitos dos nossos políticos estão brigando com a China para favorecer interesses de outros países em detrimento dos interesses nacionais. Isso é péssimo para o crescimento do país. Podemos ter críticas ao governo Lula, mas é certo que precisamos olhar mais atenciosamente para NIB (Nova Indústria Brasil). Além disso, o projeto da Ferrovia Bioceânica demonstra que a China é uma forte aliada na infraestrutura nacional. A China tem um importante "know how". Ela tem sido, apesar das visões de múltiplas pessoas, uma aliada enorme. É válido sempre recordar: somos membros do BRICS. 


O que eu entendo é: eu não preciso concordar ou discordar de assuntos internos dos Estados Unidos, China, Rússia, Índia, França, Reino Unido ou qualquer outro país. O que eu preciso ver é o que é melhor para meu país. Bolsonaristas usualmente apelam para "os interesses do Ocidente", mas os interesses dos diversos países ocidentais, em suas diversas diversidades, não podem ser resumidos aos interesses dos Estados Unidos. Exemplo disso é a quantidade de vezes em que a União Europeia se contrapôs as decisões americanas. Um exemplo cabal disso foi a criação do euro que se contrapôs ao dólar.


O Brasil é, por exemplo, um dos líderes mundiais na exportação de comida halal (comida permitida pela lei islâmica). O alienamento e a separação do Brasil dos países islâmicos em prol dos interesses americanos — e também os interesses geopolíticos de Israel — não seria benéfico ao nosso país. Do mesmo modo, exportamos muita soja para a China, para quem o nosso agronegócio exportaria se brigamos com a China em prol do interesse americano? As pessoas que adoram o agronegócio nacional, muitas vezes identificadas com a direita, esquecem-se que uma das nossas maiores compradoras é a China. Além disso, sem países islâmicos, para onde venderíamos a comida halal? Precisamos ter em mente quais são os reais objetivos estratégicos do nosso país.


— Plagiar os Estados Unidos (inclusive em seus defeitos):


A guerra fria civil, que sempre vem acompanhada de boas doses de guerra cultural, vem servido para seitizar e emburrecer o debate público brasileiro. Pesquisas enormes já demonstram a capacidade da mídia em gerar percepções paralelas na qual não se predomina o pensamento crítico e o distanciamento necessário, mas sim a narrativa coletiva que se escolherá como filtro perceptivo para cada fato (ou literal mentira) que se acreditará. 


Grande parte do debate público brasileiro é marcado pela absoluta inépcia de se ter um quadro amplo de referências de todos os quadros. Exemplo disso é ausência de estudo em relação a tradição conservadora Red Tory. Num país onde a desigualdade predomina absurdamente, a tradição conservadora Red Tory possibilitaria um anteparo aos mais pobres e quebraria a noção de que a direita não liga pro pobre. A tradição conservadora Red Tory apresenta suas diferenças nas matrizes do Reino Unido e do Canadá, mas dariam um bom oxigênio ao debate da direita brasileira e do debate brasileiro como um todo.


A grande questão que se apresenta diante de nós é a de um conhecimento mais robusto das tradições conservadoras. Os Estados Unidos construíram uma série de institutos e centros de formação mais conservadores, o que favoreceu o desenvolvimento de uma direita mais letrada e capaz de se lidar com os problemas nacionais. Os conservadores estão acostumados a lerem uma série de livros e pesquisas.


Posso elencar algumas:

- The Heritage Foundation;

- Hillsdale College;

- Hoover Institution;

- American Compass;

- Intercollegiate Studies Institute.


Para termos uma noção disso, basta olhar qualquer episódio do "Uncommon Knowledge" e comparar com qualquer discurso da direita nacional. A disparidade de nível intelectual é absurda. Não há, no Brasil, uma preocupação tão alta de gerar conservadores fortemente letrados. Além disso, o movimento conservador brasileiro poderia ser descrito como Blue Tory, neoconservador ou conservatário em poucos casos. Outras referências e tradições intelectuais conservadoras são massivamente ignoradas.


Conservadores, não raro, orgulham-se de ter um número cada vez maior de jovens de direita. Todavia não se perguntam qual a qualidade formativa desses jovens. Políticas reais devem ser embaladas em estudos, em dados, em produção acadêmica séria. Uma geração de "jovens conservadores" pode ser um desastre se não existir uma formação e cultura acadêmica necessária. Para se estar preparado para os problemas nacionais é preciso de gente que estude e tente resolver os problemas nacionais através de políticas públicas orientadas por dados concretos.


Há no debate conservador brasileiro uma ausência de abertura para outras vertentes conservadoras não americanas. Um dos maiores descasos da nossa direita é a falta de pessoas falando sobre a tradição Red Tory em sua versão inglesa e canadense. Esse empobrecimento termina levando a uma perda de qualidade em nossa compreensão das várias vertentes do conservadorismo.


— Por que tantos brasileiros são trumpistas?


Leio e assisto bastante o debate americano. Tendo uma boa leitura de democratas, republicanos, conservadores e liberais, uma grande pergunta que sempre vem é: por qual razão tantos brasileiros são trumpistas?


Qualquer um que tenha lido conservadores como David Frum, Stuart Stevens, Christopher Buckley e Rick Wilson sabe que Trump não é um consenso nem entre os meios conservadores. O brasileiro, em grande parte, não sabe ler em inglês. Duvido que muitos brasileiros se dediquem ao estudo do debate público americano.


Creio que o que leva o brasileiro a ser trumpista é esse:

Trump = é de direita = é bom.

(O mesmo poderia ser aplicado a grande parte dos antitrumpistas [Trump = é de direita = é mau]).


Um grande questionamento deveria surgir: a direita apresenta múltiplas escolas de pensamento. Um Red Tory não quer o mesmo nível de intervenção estatal do que um Blue Tory, na verdade, ele quer mais intervenção estatal. Do mesmo modo, um paleoconservador não é tão semelhante a um neoconservador, eles são muitas vezes rivais. Conservadores reaganianos muitas vezes se oporam aos conservadores trumpistas em múltiplos casos. Não raro, institutos conservadores americanos divergem entre si.


Trump não é uma unanimidade na direita americana. O fato é: as políticas econômicas de Donald Trump, a sua geopolítica e a sua geoeconomia, aceleram a queda da hegemonia americana e levam a corrosão do império americano. Isso poderia ser motivo suficiente para a esquerda, usualmente antiamericana, ser pró-Trump e a direita, usualmente pró-americana, ser anti-Trump. Só lembrarmos que de janeiro a novembro de 2025, a China registrou um superávit de 1 trilhão de dólares graças ao desastre geopolítico e geoeconômico que está sendo o governo Trump.


Grande parte da comoção pró-americana recente se dá pela aliança histórica que os Estados Unidos construíram com atores que se posicionassem contra a União Soviética durante o período da primeira guerra fria. Ser pró-americano e ser de direita foi algo que foi colocado como natural, óbvio e intríseco. O oposto também era verdadeiro, se a direita apoiava os Estados Unidos (e o regime capitalista), a esquerda apoiava a União Soviética (e o regime socialista). Múltiplos setores da direita profissional — isto é, não meros militantes que não possuem vínculos reais — buscam uma aliança com os Estados Unidos, ou a aparência de uma aliança, para projetar na imaginação pública o antigo cenário da primeira guerra fria. Do mesmo modo, especulam que isso pode dar uma potencial ajuda americana quanto aos seus (potenciais) projetos de poder.


Podemos dizer que o "bloco ocidental" e capitalista, por assim dizer, ainda assume grande importância. Se de fato vivemos na segunda guerra fria, a questão é mais sobre uma ordem multipolar contra uma ordem unipolar. O Brasil, ao integrar o BRICS, faz mais parte do lado multipolar. O bloco multipolar, por sua vez, não é um bloco que é "socialista", mas daqueles que querem uma gestão global pautada em uma maior igualdade entre as nações e, até mesmo, uma maior soberania dos países em correlação aos seus interesses internos (como qual sistema político e econômico adotam ou querem adotar).


Muitas vezes, o brasileiro tem em conta que os democratas estão mais próximos da esquerda e os republicanos mais próximos da direita. O que leva a um adesismo quase automático. Se o brasileiro for de direita, torna-se automaticamente a favor dos republicanos. Se o brasileiro for de esquerda, torna-se automaticamente a favor dos democratas. Essa análise política simplória ignora que existem profundas divisões na política americana, seja na esquerda, no centro e na direita. Além disso, some ao fato de que a esquerda e a direita de lá possuem uma formação e uma forma de agir diferentes das nossas.


O que o brasileiro de direita usualmente não conseguiria explicar é o carnaval de conservadores antitrumpistas. Usualmente o conservador brasileiro segue a tendência que está em voga e aplica sem se questionar as múltiplas variações que existem no conservadorismo americano.


— Um olhar cauteloso para a informação:


O Brasil tem pouco cuidado com as informações. Muitas críticas contra países aliados (como os membros do BRICS), países muito semelhantes a nós (como os países latino americanos) e tantos outros, estão sendo rotineiramente atacados com base em exercícios livres de xenofobia recreativa por interesses políticos excusos.


Vivemos em uma época em que a guerra informacional não é algo episódico, mas cotidiano. Na época da quinta geração de guerra, todo campo é campo de guerra. Uma atenção mais prolongada as múltiplas narrativas e as suas origens não é só uma questão de estudo, mas também de segurança nacional.


Múltiplos países vêm lidado com diferentes guerras informacionais. Essa questão não é uma grande novidade para europeus, russos, chineses, americanos ou canadenses. O Brasil parece estar atrás nessa questão. O que deixa a gente mais vulnerável a todo tipo de ataque. Qualquer tipo de regulamentação parece soar como um ultraje a chamada "liberdade de expressão". Todavia essa "liberdade de expressão" não deveria acolher fábricas de troll ou países estrangeiros manipulando a percepção pública.


Nos Estados Unidos, já é sintomático o poder midiático alternativo. No Brasil, tal tendência está apenas a crescer. O número de seitas disfarçadas de veículos midíatico alternativos ainda não pipocou o suficiente, mas é evidente que o poder público e a opinião pública não estão maduros o suficiente para se lidarem com elas.


O ódio direcionado a estrangeiros ou outros países está aumentando. O ódio entre diferentes regiões do país também. Nos Estados Unidos, as diferenças culturais e as mudanças demográficas são consideradas assustadoras por alguns (e isso foi um fator decisivo para a vitória de Donald Trump).


Quando as pessoas entenderem que a guerra fria civil não é uma única, mas múltiplas, podemos compreender melhor o que nos divide. No Brasil, a guerra fria civil adquire várias expressões. Posso citar algumas:


1. Ideológica: briga entre diferentes grupos de esquerda e direita;

2. Religiosa: briga entre diferentes religiões;

3. Regional: briga entre diferentes partes do Brasil;

4. Geopolítica: briga entre quais são os reais aliados do Brasil;

5. Gênero: a disparidade entre as visões de homens e mulheres;

7. Cultural: o que é percebido como uma cultura de esquerda e de direita;

8. Midiática: alinhamento dos diferentes setores da mídia.


O apaziguamento nacional parece estar distante. Muito pelo contrário, estamos radicalizando a nossa guerra fria civil lado a lado com os americanos.


— Um olhar para o futuro:


Não quis voltar aos mesmos pontos das análises anteriores, visto que seria fazer mais do mesmo. Vocês muito provavelmente leram as duas análises que fiz do Rick Wilson e do Stuart Stevens. Muito provavelmente leram as análises que fiz do Kevin Roberts e Charlie Kirk. Vocês muito provavelmente leram as análises que fiz do Christopher Buckley. Também escrevi análises a  respeito de obras de Mencius Moldbug e Nick Land. Quis voltar meus olhos ao Brasil enquanto lia esse livro para dar um senso de complementaridade e sair da rotina.


Estamos apenas no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, segundo o Project 2025 Observer, o Project 2025 já foi 50% implementado. Nada, por enquanto, indica que a situação será melhor em 2026. Mesmo com o trumpismo aparentemente tendo rompido com o bolsonarismo. O fato da agenda do Project 2025 ter continuado em voga enquanto quase ninguém a olha é a prova disso.


Os Estados Unidos, em sua posição de perda hegemônica, apresenta muitas lições tristes para todos nós. Devemos olhar mais cautelosamente o que ocorre por lá e impedir o mesmo movimento aqui. Sei que isso pode soar chato e que os ânimos estão fervendo, mas chegou a hora de parar isso e chegarmos a uma reconciliação nacional em prol de um Brasil mais maduro e preparado para a arena do século XXI.


Estamos em ondas de ataques revisionistas, revisões evidentes na institucionalidade, ódio em múltiplos grupos, guerras frias civis em multissetoriais. Passando pano para grupos de esquerda e de direita que vivem a base de odiar um ao outro em vez de compreender um ao outro.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Memória Cadavérica #32 — Por que jogo Hogwarts Legacy apesar das opiniões da autora?


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta a uma amiga.


Uma das principais técnicas intelectuais é a utilização de múltiplos fragmentos de sistemas distintos.


Uma das principais vantagens da cristandade foi a utilização e adoção de tecnologias e de autores que os islâmicos empregavam.


Paralelamente, a queda do Império Otamano se enquadra na rigidez intelectual. Isto é, não adotavam as novas tecnologias inventadas por cristãos por eles serem cristãos.


Se o Renascimento Islâmico esteve correlacionado ao conhecimento de Aristóteles, o Renascimento Cristão no século XII e o aumento de produtividade ocidental posterior ao livre exame e o crescimento do pensamento burguês (livre pensamento)... A decadência do mundo islâmico correlacionou-se com a rigidez intelectual.


Do mesmo modo, a direita perdeu a guerra cultural de 1968, mas aprendeu com os erros estudando intelectuais de esquerda. De semelhante maneira, a decadência da União Soviética está intrinsecamente correlacionada ao ortodoxismo marxista.


Enquanto que a ascensão chinesa se correlaciona a adesão de múltiplos modelos internos de forma heterodoxa. Os Estados Unidos, por outro lado, adota a perseguição ideológica e proibição de livros.


A longo prazo, o fechamento intelectual da esquerda é uma estratégia de emburrecimento coletivo e alienante, que dá margem para conservadores assumirem caminhos mais amplos...


A guerra fria civil brasileira, isto é, tensão cultural alimentada sem conflito civil direto, termina numa longa vitória cultural da direita. Mesmo que o poder político da esquerda seja remanescente.


Dito isso, a melhor estratégia cultural é o gozo e usufruto de múltiplos produtos, não importando de onde venham. Visto que a vitória cultural depende da abarcância e penetração das mensagens em múltiplos áreas distintas. E é a vitória cultural que ditará, posteriormente, a vitória política.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Running Against the Devil" de Rick Wilson (lido em Inglês)

 



Livro:

Running Against the Devil: a plot to save America from Trump — and Democrats from themselves


Autor:

Rick Wilson


Faz bastante tempo que digo que leio Rick Wilson. E, de fato, ele é uma pessoa extremamente interessante de se ler. Ele é um ex-estrategista republicano e um conservador, isso chama bastante atenção. Há, também, outro denso fato: Rick Wilson é engraçadíssimo. Ele consegue amontoar referências, construções intelectuais extremamente elaboradas e piadas que aparecem magicamente para tornar a leitura saborosa. Isso é um talento intelectual raro.


Um dos maiores encantamentos desse livro é: "como um dos maiores estrategistas republicanos de todos os tempos ajudou na derrota de Trump em 2020?". Esse livro nos dá várias pistas sobre o assunto. Ele foi uma espécie de guia interno do castelo draculariano (fãs do Castlevania vão sacar essa) do inimigo. 


Falar de um conservador antitrumpista (ou antibolsonarista) é como falar de um Atari Jaguar: pouca gente conhece e quem conhece não jogou e nem jogaria. É algo que afasta os direitistas que vivem na miséria dos bandos, mas também é algo que afasta os esquerdistas que, por sua vez, entrelaçam-se no gozo cósmico do próprio universo.


Quem é Rick Wilson? Ele é o estrategista no exílio. Ele vive numa irônica tragédia: a de um arquiteto do moderno Partido Republicano usando o próprio conhecimento íntimo para desmontar a própria criação. Isso é uma missão que é vista como uma traição necessária. O que gera uma dúvida: para Rick Wilson, o Partido Republicano traiu os ideais sólidos do conservadorismo. Para múltiplos republicanos e conservadores, foi o Rick Wilson que traiu. As questões que podemos ter são:

1. Quem é o herege?

2. Quem é o ortodoxo?

3. Quem é o iconoclasta?

4. Isso realmente importa?


Enquanto escrevo percebo o quão engraçadas as coisas são. Terminei de ler "Running Against the Devil" recentemente. E agora já estou lendo "Trumpocracy" do conservador antitrumpista David Frum. Isso talvez possa soar monótono, não é? Leio vários conservadores antitrumpistas, um atrás do outro. Faço isso pois aprender sobre a política americana é sempre delicioso. Além disso, me encanta a forma que os conservadores americanos escrevem. Eles são mais parecidos comigo. Ao menos é isso que sinto enquanto leio.


Muitas pessoas, sobretudo bolsonaristas, compreendem muito pouco sobre Trump. Petistas sabem um pouco mais, mas quando chegamos em tópicos mais obscuros como "Project 2025", "Network Propaganda" e "Cold Civil War" (guerra fria civil)... eles se perdem todinhos. De qualquer forma, sou eu e a minha solidão. Pessoas não me acompanham em nenhum raciocínio. Isso não tem a ver com inteligência, tem a ver com universo compartilhado. Estou condenado a ler o que ninguém lê, estudar o que ninguém estuda, e, por fim, escrever o que ninguém lerá. Um ciclo tragicamente repetitivo em minha vida.


Pensei em dois livros enquanto lia esse livro: "American Psychosis" (de David J. Morris) e "Network Propaganda" (que vou ter o prazer de ler posteriormente), esses dois livros demonstram  como ecossistemas midiáticos fechados criam realidades alternativas. Isso não é no sentido puramente mágico de criar um novo universo, mas no sentido de criar uma percepção alternativa da realidade. Como conservador, valorizo a realidade concreta e a prudência. É por isso que me oponho a esse movimento. Esse movimento que aparece, dia após dia e crescentemente, abraçando teorias conspiratórias me parece antitético com o conservadorismo. Ao mesmo tempo que cheira mofo e enxofre.


Aqui está uma das marcas maiores que essa leitura me passou. Quando li Rick Wilson, senti solidão. Rick Wilson está afastado do partido que ajudou a construir. Pior do que isso, está a colaborar com os seus antigos rivais em prol de um objetivo maior. Penso nível de tensão psicológica que ele tinha quando escreveu isso e penso no tipo de tensão psicológica que eu sinto diante da minha solidão e isolamento constante.


Quando você está sempre com uma nova pesquisa em mente, a solidão sempre te acompanha. Eu tento sair desse vazio que me acompanha. Eu tento. Tento de novo. Todavia sou sempre engolido pelo meu desejo artístico de inovação. Quanto mais tento chegar em caminhos que ninguém chegou antes, mais eu vejo que estou irremediavelmente só. Quanto mais eu lia esse livro, mais o abismo me olhava com um gosto de Nietzsche. Rick Wilson deve ter sentido isso, vendo-se incompreendido pelos mesmos republicanos que eram seus amigos. Christopher Buckley deve ter sentido o mesmo, mas só que bem antes. Se bem que ele esteve envolvido em "polêmicas" por causa do livro "Make Russia Great Again".


Tenho tomado um outro ponto de distância daa outras pessoas. Explico: muita gente costuma a olhar para essa mudança política como se a prática política mesma estivesse ficando mais agressiva, mas há algo de substancialmente errado nessa análise ou visão. O que estamos vendo na política não é, pura e simplesmente, um aumento da agressividade na chamada prática política. Há um outro fator: esse é o da seitização crescente da política. Tal como no livro "American Psychosis", o que eu vejo não é apenas um simples aumento de agressividade, mas sim uma psicotização massiva da política e um número cada vez maior de teorias da conspiração circulando pela internet. Rick Wilson já escreveu sobre isso no "Everything Trump Touches Dies", um outro clássico do conservadorismo antitrumpista.


Outra condição vem aparecido dentro de mim. Essa é a condição de uma pergunta. E a pergunta que ressoou em minha mente podia ser descrita como uma união de duas perguntas:

— Quem eu sou e por qual razão ninguém está do meu lado?


Aqui volto a analisar o conservador antitrumpista. Sociologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito isolado. Psicologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito que vive numa vida dupla: salvar o legado do seu movimento ao mesmo tempo que é acusado de traidor. Penso que o conservador antibolsonarista tem uma luta similar. É como dizer: "ei, grande parte do movimento é um punhado de conspiracionistas, racistas, machistas, misóginos, simpatizantes do fascismo e do nazismo... mas eu não sou como os outros rapazes!". Ou, quem sabe, uma formulação assim: "vocês que não entenderam a essência mesma do movimento conservador, pouco importando que eu seja a menor minoria dentro desse estranho movimento que foi apossado por conspiracionistas e criptofascistas!".


Lembro-me dos meus anos iniciais lendo Luiz Felipe Pondé e Nelson Rodrigues, tal como se eu devorasse pedaços mágicos de carne literária. Eu finalmente podia ver um rigor de um pessimismo, ceticismo, pragmatismo e prudência. Todos articulados de forma dançante. Aquela sensação fantástica rimava como uma risada na estrutura psicológica de toda a minha alma. Naquele instante, eu não me sentia só. Tudo parecia se encaixar. Quando leio esses grandes conservadores, posso ainda sentir o mesmo. Quando eu vejo os conservadores populistas, sinto um misto de nojo e repulsa. Menos, é claro, do ilustre Kevin Roberts (presidente da Heritage Foundation). Posso compreender parte das suas conclusões, mas não consigo concordar com todas elas.


Lembro-me que fui adolescente bastante festivo, mas extremamente solitário. Estive em vários eventos, porém a constante era a sensação de que nada e nem ninguém podia compreender a forma insólita que eu via o mundo. Encontrei em Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Luiz Felipe Pondé uma espécie de escritura pessimista, mas que via visceralmente bem a alma humana, de um modo que, ao menos inicialmente, nem podia conjecturar. Eu podia ler Karl Marx, Bakunin, Proudhon, Kroptokin, Montesquieu, mas não encontrava neles tudo o que rimava com minha rima. O estado de empolgação, ou ressonância de alma, não era o mesmo.


O problema que eu tenho com o bolsonarismo e o trumpismo é que eles transformam o conservadorismo em uma terra de slogans e de identidade tribal. Eu, como conservador, sou profundamente pessimista quanto a natureza humana — inclusive contra a minha própria natureza. Não sou do tipo que odeia tudo menos a si mesmo. Eu sou do tipo que odeia tudo inclusive a mim mesmo. Do mesmo modo, sou cético quanto a utopias. Porém ainda sou capaz de rir de toda a tragédia que estou acometido. O bolsonarismo e o trumpismo substituíram a ironia pela raiva, o ceticismo pela certeza dogmática e o nuance pelo maniqueísmo. Isso profunda e extremamente anticonservador. É como se todas as virtudes cardiais do conservadorismo fossem, da noite para o dia, invertidas em prol de mundo invertido que se constrói tal como o castelo reverso do Castlevania Symphony of the Night.


Como esse texto aborda identidade, volto-me para minhas memórias. Nos anos da minha adolescência, tudo borbulhava. O conservadorismo ia lado a lado com minha vida festiva. Tentava me encaixar em grupos progressistas devido a minha bissexualidade... Não me encaixava de modo algum. Pergunto-me hoje se Bruno Tolentino, esse bissexual libertino e conservador, não sentia o mesmo deslocamento. De qualquer modo, não havia ali, naquele momento de minha adolescência, um movimento de massas que poderia ser dito "conservador". O problema inicial é que: naquele momento, era um senso comum entre os conservadores que o movimento de massas era naturalmente emburrecedor e desindividualizador. Quando esse movimento de massas, dito conservador, surgiu com a face do trumpismo e do bolsonarismo, comecei a achar estranho. Pensei que todos os outros sentiriam o mesmo. A maior parte não sentiu absolutamente nada. Anos depois, já na vida adulta, comecei a ler Christopher Buckley, Christopher Lasch, Rick Wilson, Stuart Stevens e, nesse momento, David Frum. Agora vejo que eles veem o que eu vejo, agora sei que eu não fui o único que vi essa monstrificação que aparece no Carnaval do Populismo.


Essa é uma das principais lições do livro do Rick Wilson: o conservadorismo antitrumpista e antibolsonarista não é antitrumpista e antibolsonarista no sentido de ser um anticonservadorismo, mas no sentido exato de ser conservadorismo. É precisamente por ser antitrumpista e antibolsonarista que é verdadeiramente conservador.


Voltando aos fragmentos do passado. Da adolescência à vida adulta, continuei um bissexual festivo. Sempre escrevi um amontoado de coisa. Todavia a solidão continuou a minha marca permanente. Nunca consigo dizer o que realmente penso. As pessoas simplesmente não entendem ou não me acompanham. Para ser mais preciso, quanto mais leio e quanto mais escrevo, mais solitário eu me sinto. Ler e estudar é aumento de complexidade e aumento de complexidade carrega consigo o deslocamento social. É por isso que eu não creio muito nessa história de "intelectual popular". Quanto mais ideias você estuda, quanto mais ideias você internaliza, menos você é compreendido pelas outras pessoas. Rick Wilson não é compreendido pelos trumpistas pelo fato de ser fácil e acessível, mas sim pelo fato de ser mais complexo. Ele não se enquadra na odisséia do fanatismo e reducionismo.


É por causa de minha vivência que carrego comigo a certeza íntima de que há algo além nesses conservadores antitrumpistas. Não acho que o Stuart Stevens, Christopher Buckley, Rick Wilson ou David Frum não sejam mais conservadores. Acho que eles são conservadores extremamente complexos. Eles escrevem, poucos os entendem e, no fim, resta-lhes tão apenas o deslocamento.


Hoje em dia, eu posso dizer que sinto um imenso descolamento cognitivo do debate público brasileiro. Gosto de ver, por algum acaso, o Pedro Daher (um socialista) e o Rasta News (um humorista da Brasil Paralelo). Já na mídia americana, vejo Second Tought, um marxista finíssimo. Man Carrying Things é bom, cético e irônico. Content Machine também é engraçado. Sei que isso soa contraditório: vejo e leio de tudo. Foi assim que aprendi a pensar. Acontece que eu gosto de absorver múltiplos pontos antes de ter um posicionamento oficial. Leio jornais bem raramente, visto que sou mais atado aos bons e velhos livros.


Creio que todos têm sentido isso: é uma questão de crise de identidade e de lealdade. O "movimento" foi tomado por uma onda irracional, emocional e conspiratória. Ainda sou fiel à liberdade individual, ainda sou cético em relação a mudanças radicais, ainda creio no pragmatismo. Não acredito e não aceito culto a um líder, negacionismo factual e mitologia política. Por tal razão, estou duplamente alienado: os meus supostos pares me odeiam e do mesmo modo não estou próximo do campo oposto.


Sempre vi no conservadorismo uma defesa da racionalidade contra o irracionalismo coletivo. A solidão não é um acidente biográfico, é uma consequência lógica da complexidade.


Achar maneiras de combater a moderna manipulação digital é uma das preocupações mais urgentes da modernidade. Estamos indo a pontos de manipulações cada vez mais complexas e dificilmente captadas pelos métodos defensicos atuais. E é exatamente nisso que eu tenho trabalhado.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Memória Cadavérica #24 — ConVERsadorismo Brasileiro


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta a um usuário do Threads.


Conservadorismo ≠ tradicionalismo moral


Exemplo são: Rick Wilson, Stuart Stevens, Christopher Buckley, Nelson Rodrigues, Pondé, conservatários.


Pare de pegar esse reacionarismo pop e achar que tem conservadores, VOCÊ NÃO TEM. Não existe conservadorismo no Brasil, ninguém estuda múltiplas escolas conservadoras por aqui. O que há aqui é, no máximo, um conVERsadorismo de reacionários estultos e sem compreensão do que falam. A maior prova disso é: quase 100% da direita nacional atual é uma DIREITA WOKE.


Ninguém sabe SEQUER a diferença entre:

- um hamiltoniano;

- um Red Tory;

- um federalista;

- um neohamiltoniano (leia American Compass);

- um neoconservador;

- um conservatário.


Leia:

https://www.perplexity.ai/search/2a512747-8387-4cf2-89ff-20f6c03c2e60

(Política da empresa Meta para promover reacionarismo pop)


No máximo, o que há no Brasil é:


- Uma direita woke (pesquise woke right no google, termo que foi inventado pelos próprios conservadores para definir gente mau caráter que se arroga do nome "conservador" pra promover wokismo de direita);

- Um reacionarismo pop;

- Um tradicionalismo hipócrita, burro e capanga.


Ninguém aqui sabe o que é conservadorismo. Ninguém aqui leu múltiplas escolas de pensamento conservador. Ninguém aqui sabe COISA ALGUMA de conservadorismo. Ninguém sabe quem é Christopher Lasch e quem é Patrick Deneen, tampouco chegou a conhecer o conservadorismo anticapitalista que eles representam. Ninguém leu as críticas conservadoras ao Donald Trump de Rick Wilson e Stuart Stevens.

sábado, 4 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #8 — Isolacionismo Pessimista

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Após ver as críticas negativas que se apresentam em quantidade nauseabunda e volumosa, questiono-me a respeito dos (des)caminhos que nosso país toma.


Acusam-me de ser uma nova espécie de Bruno Tolentino, por causa da bissexualidade, da libertinagem e da polêmica. Confesso que sou os três: um bissexual, um libertino e um polemista. Esse tipo de "ofensa comparativa" soa-me como um elogio. Um grande elogio, diga-se de passagem. Bruno Tolentino era cultíssimo. Um dos maiores intelectuais conservadores da nossa história. Tendo sido tristemente esquecido por essa geração de entusiastas que o único modelo de conservadorismo que conhecem é o reaganismo e o trumpismo.


Digo, em minha defesa — ou para mais uma acusação dos meus odiadores —, que quem lê Gustavo Corção, Nelson Rodrigues e Antônio Paim não precisa de figuras extravagantes como Bolsonaro. Estive trazendo mais conteúdo para o debate público do que múltiplos membros da chamada "direita nacional". Embora eu prefira chamá-la de "lobby americano" ou "geringonça tresloucada".


Até o presente momento, creio que eu fui o único que procurou trazer mais sobre a Tradição Red Tory (Conservadorismo Vermelho), sobre o neohamiltonianismo, sobre o distributismo de Chesterton, sobre o rurbanismo de Gilberto Freyre, além de análises mais completas sobre a UDN. Com essa ampla jornada, destaco-me como um dos mais odiados, com desafetos múltiplos na esquerda e na direita. Mesmo que, por algum motivo absolutamente aleatório, minhas últimas três namoradas eram todas comunistas. O que significa que já posso pedir música no Fantástico.


Por influência do meu pai, que era anarquista, e do meu tio, que era comunista, li muitos livros de Marx, Lênin, Bakunin, Proudhon, Kroptokin. Tudo isso já na minha adolescência. Um dos meus vira-latas chama-se Lênin em homenagem ao meu comunista favorito. Enquanto outros rapazes se preocupavam apenas em álcool e mulheres, preocupava-me com o renascimento, com o iluminismo, com as revoluções. Devo dizer que me tornei abstrato. Demasiadamente abstrato. Leio e converso com comunistas e anarquistas até hoje. Deng Xiaoping é pouco lido pelos comunistas brasileiros. Creio que canais como Second Throught e Red Pen demonstra que existem bons comunistas americanos, ambos canais com excelente qualidade.


Em meio a biblioteca, fui descobrindo vários livros. Li Pondé por acaso, depois li Nelson Rodrigues por causa do Pondé. Foram sendo apresentados outros: Theodore Dalrymple foi um que mais li. Natsume Soseki e Haruki Murakami, dois intelectuais fantásticos, foram descobertos por acaso em um passeio na biblioteca — embora não se possa chamá-los de conservadores, são grandes referências para mim. Atualmente leio bastante Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens foram de grande importância para minha formação mais recente.


Quanto as análises da América Latina, José Luis Romero, Carlos Rangel e Ernesto Sabato foram cruciais para para desenvolver muito do que presentemente penso. Carlos Taibo apresenta uma versão fascinante da história da União Soviética, tudo com uma lente anarquista de excelentíssima qualidade. Gilberto Freyre, excetuando-se as questões raciais, apresenta o rurbanismo que é uma das principais formas de redução das desigualdades regionais que já vi.


Em relação as polêmicas, faço todas elas em forma de ato filosófico. A filosofia é, em primeiro lugar, um ato de confissão. Confessar verdadeiramente e sinceramente o que pensa é elementar antes de qualquer construção filosófica. Sem esse requisito, constrói-se uma prisão mental que encarcera a alma nas paredes de uma linguagem que se constrói tão somente para se proteger das agonias do mundo real.


Escrever é, para mim, altamente terapêutico. Um hábito de higiene mental. Todo conservador deve ser, antes de tudo, um conservador da consciência pessoal. Aqueles que pretendem destruir a sinceridade ontológica jamais poderiam ser verdadeiramente conservadores. Muito pelo contrário, atentam contra o principal fator. Juntam-se ao coro que matou Sócrates e depois Jesus.


De qualquer modo, hoje em dia converso mais conservadores americanos, europeus e canadenses do que com conservadores brasileiros. Pouco me importo para os rumos do movimento, também não espero nada de bom. As gestões me parecem mais uma repetição monótona da fórmula reaganiana em economia (neoliberal), uma cópia discursiva da retórica beligerante de Trump e táticas militantes da direita woke. Muito longe do pessimismo, ceticismo e pragmatismo dos grandes conservadores.


Cresci na época em que o politicamente incorreto era predominante na Internet. Via-se uma direita que amava mais livros do que qualquer outra coisa.  O mais odiável era a redução do ser em prol dos bandos. Hoje em dia, a direita brasileira torna a si mesma numa cópia da direita woke americana. Por causa do grande atraso que há no nosso debate público, o termo "woke right" (direita woke) ainda não chegou. A direita de hoje se torna quase tudo que criticou.


Lembro-me que muitos concordavam com a ideia de que só imbecis andam em bandos. E vejam só como é: hoje a direita é uma cópia nefasta da esquerda das massas.