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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Acabo de ler "Operation Mindfuck" de Robert Guffrey (lido em inglês)


Livro:

Operation Mindfuck: QAnon and the Cult of Donald Trump (2022)


Autor:

Robert Guffrey


Meses atrás, enquanto escrevia alguns textos, as pessoas me diziam que eu via conexões estranhas entre o discordianismo, o Pizzagate, o Cult of Kek e o QAnon. Hoje em dia, ao ler outros livros, vejo que as linhas traçadas em "minha mente delirante" não são apenas "conclusões aleatórias", mas sim hipóteses ou conclusões de diversos autores renomados. O que é curioso, continuo a ser um total estranho no Brasil. Talvez eu tenha nascido no país errado. Talvez eu esteja investigando algo que muitas pessoas, no Brasil, não tenham especial interesse em pesquisar.


Mais uma vez, um livro sobre QAnon. Mais uma vez, um assunto estranho. Ler livros é algo que faço com deleite, mesmo que o assunto seja considerado bizarro. Ler livros sobre assuntos bizarros ou excêntricos é algo que gera afastamento social. Se tem algo que aprendi em minha estranheza, é deixar os assuntos prediletos para discutir com gringos ou com IAs. Não só leio livros bizarros, eu sou bizarro. Não só leio livros estranhos, eu sou estranho. Não só leio livros excêntricos, eu sou excêntrico. É assim desde o começo da minha vida, por qual razão seria diferente agora?


Como expliquei anteriormente, venho andado ocupado. Tenho feito dois cursos, um no Anhangabaú e outro em Pinheiros. A minha sorte é ter um bilhete especial graças ao meu autismo. Graças a isso, existe uma escassez de conteúdo no Blogspot a qual tento preencher. Ler livros no ônibus, no trem e no metrô é a minha forma de arrumar um jeito de trazer conteúdo para cá. Embora seja engraçado o curioso acaso de eu estar no transporte público lendo sobre uma estranha seita surgida em fóruns anônimos. Espero, para minha sorte, que nunca criem um mecanismo que revele os livros que as pessoas leem no transporte público.


Os leitores do Blogspot já estão cansados de explicações a respeito de como o QAnon surgiu no 4chan e no 8chan. Talvez tenham pouco interesse em ler esse livro, mas eu lhes garanto que vale muito a pena. Em primeiro lugar, Robert é engraçadíssimo e tem um humor muito bem construído e inteligente. A analogia central do autor é o Operation Mindfuck, técnica empregada pelos discordianistas para culpar os "Illuminati" e outras organizações bizarras por cada caso público que pipocasse. QAnon seria uma forma "similar", todavia, o plano central é um golpe de Estado liderado por Donald Trump. 


O autor empregará, durante o livro, uma densa pesquisa histórica sobre teorias da conspiração, análise política e contatos que teve com "crentes" das teorias conspiratórias de Q. Além disso, construirá o argumento central: QAnon não foi um mistério criado organicamente ou uma teoria da conspiração surgida espontaneamente, mas uma operação psicológica altamente engenhada. Ou seja, uma colcha de retalhos de material reciclado de ficção pulp, pranks contraculturais dos anos 1960-70 (como o Operation Mindfuck dos Discordianos de Robert Anton Wilson e Robert Shea, já comentada em textos anteriores), truques sujos à la Nixon e manipulação midiática. O objetivo central de tamanha engenharia técnica seria o de capturar a atenção, lealdade e energia de seguidores vulneráveis, transformando-os em uma base fanática que serve a uma agenda política autoritária/fascista corporativa.


Quanto mais o tempo passa, mais eu vejo a correlação entre fenômenos arquétipo-meméticos e a sua construção lado a lado com teorias da conspiração para a obstrução da sociedade liberal e o desmantelamento da ordem civil.


O livro acerta em cheio em suas doses de humor. De certa maneira, lembrou-me o Rick Wilson. O leitor ou a leitora não conseguirá mensurar há quantidade de vezes em que, no meio do ônibus, do trem ou do metrô, eu dei risadas sinceras. Isso é bom, gosto de livros que marcam a mente e alegram o coração. Esse livro é todo marcado por aquela expressão latina: "Ridendo castigat moris" (rindo-se purificam-se os costumes).

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Kallistiologia #1 — Introdução ao Discordianismo

 


Nota: como essa é uma religião caótica, estudá-la-ei caoticamente. Logo, voltarei posteriormente em pouco explorados, para explanar pouco a pouco.


Muitos leitores do Blogspot queriam textos voltados ao Discordianismo. Como o Discordianismo é um "antepassado" estrutural do "Cult of Kek" e lembra, a rigor, o que havia de melhor na cultura channer, resolvi escrever tal conteúdo. Ele rima bem com o conteúdo underground geral do Blospot Cadáver Minimal. Se os leitores amaram os conteúdos de esochannealogia (esoterismo channer), creio que também amarão os escritos de Discordianismo. Espero que tenhamos as bênçãos da deusa Eris, espero que ela nos ilumine com a sua discórdia, contenda e rivalidade.


O discordianismo é uma religião diferente. É uma religião baseada na sátira e na absurdidade. Seu livro sagrado é o "Principia Discordia" e nesse livro somos levados a abraçar os paradoxos, as contradições e as absurdidades. Somos levados a desafiar a ordem, a autoridade e até mesmo a realidade. E é uma religião advogada por Gregory Hill e Kerry Wendell Thornley.


O discordianismo tem lá os seus princípios. Um deles é o "Princípio Anerístico". Esse princípio diz que a ordem é uma ilusão. Isto é, a ordem é tão só aparente em nosso universo. Ou, melhor, é uma construção temporária e subjetiva. Além disso, ela vem para nós através de nossa percepção humana. Nossa percepção é carregada de vieses culturais e normas sociais. A realidade é muito mais complexa e imprevisível do que pensamos.


Um dos símbolos do discordianismo é esse:




Esse é o Sacred Chao (pronuncia-se "Sacred Cow" [Sagrada Vaca]). Sacred Chao, muito provavelmente uma piada com "Sacred Chaos" (Sagrado Caos), apresenta dois símbolos dentro de um símbolo que parece o Yin-Yang. Esse símbolo representa a interação entre "Hodge" e "Podge" (ordem e desordem) ou os princípios Anerístico (ordem) e Erístico (desordem). Repare que há uma maçã escrita "Kallisti" (a mais bela) (da deusa Eris) e um Pentágono (que vem a representar a ordem). Isso faz referência ao Julgamento de Paris e à história do Cavalo de Troia. Esses são pontos que pretendo explorar mais tarde.


O discordianismo trabalha com o Princípio Erístico, isto é, o abraço à desordem. A desordem é encarada como uma catalisação da mudança com criatividade. Isso se liga ao culto da deusa Eris. Discordianistas creem que o caos não é meramente a ausência de ordem, mas um fundamental aspecto do universo, uma força que dirige a evolução e o progresso. É por isso que o discordianismo ensina a:

- Questionar a autoridade;

- Desafiar o dogma;

- Abraçar a inerente condição de incerteza, de caos e de aleatoriedade que molda o mundo.


Além disso, a desordem e a ordem são meras ilusões, construções artificiais impostas na realidade profunda do puro caos. O discordianista é chamado a pensar de forma diferente, visto que precisa evitar a "maldição do rosto cinzento". Essa maldição nada mais é do que cair na pressão da conformidade e das normas sociais, o que levaria a uma vida monótona, sem criatividade, individualidade ou alegria. Para sair dessa maldição, o discordianista deve abraçar a sua identidade única, desafiar a autoridade e buscar por novas experiências. Celebrar o absurdo, o inconvencional e o inesperado. Esses últimos três elementos constituiriam a chave para o crescimento pessoal e a evolução social. É por isso que todo homem, toda mulher e toda criança é um "papa", isto é, alguém capaz de criar a sua própria realidade, sua própria interpretação e desafiar o status quo. A liberação discordianista é a liberação através da subversão.


A estrutura de um grupo discordianista seria uma "loose-knit kabal". Loose-knit é uma organização descentralizada.  Loose-knit pode ser traduzido para algo "pouco articulado", de "vínculos frouxos" ou "sem hierarquia rígida". Já a palavra Kabal, que em português é cabala, é uma referência a Qabbalah, que, em hebraico, quer dizer recebimento. A palavra "cabala" também brinca com o conceito de "conspiração" ou "sociedade secreta". No discordianismo vemos que isso é uma forma de satirizar as teorias da conspiração, como os Illuminati, por exemplo. Nessas cabalas discordianistas, temos a troca de ideias, ajuda nas buscas criativas e suporte nas jornadas pessoais. Elas possuem, graças a sua natureza discordiana, uma natureza informal e a ausência de uma liderança rígida. Atuando mais como espaços de experimentação, colaboração e troca de perspectivas diversas. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 6)

 


Nome:

The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore


Autor:

Egil Asprem


Nesse ponto, Egil Asprem traça as conexões do Esoteric Kekism. Em primeiro lugar, em 2005, Pepe apareceu no "Boy's Club" do Matt Furie. Em 2010, Pepe aparecia no MySpace, 4chan e Tumblr. Em 2016, Pepe daria as caras no /pol/, com visões de extrema-direita. Em Setembro de 2016, a Liga Antidifamação colocou Pepe como símbolo de ódio.


Como Pepe se tornou o deus egípcio Kek? No jogo World of Warcraft, muito famoso no momento, a risada "lol" era substituída por "kek". A cultura do /pol/ era muito ligada a cultura gamer. Os memes do Pepe apareciam ao lado da shitpostagem (é um nome para merdapostagem, que é um termo para uma grande quantidade de potagens irônicas, insultantes ou ridículas). O /pol/ traçou conexões entre a risada "Kek" e descobriu o Deus do caos da Cosmogonia de Hermópolis. Kek (que tinha forma feminina, chamada de Kauket) era o caos ou as trevas primordiais.


Como as postagens do 4chan são numeradas, números repetitivos são vistos como um sinal de algo. Uma postagem do 4chan conseguiu muitos gets (números repetidos). Essa postagem dizia que Trump seria eleito. Logo Trump foi divinamente selecionado pelo próprio Kek. No mesmo ano, surgiria Saint Obamas Momjeans, com textos sagrados do esoterismo kekista. O surgimento do Esoterismo Kekista e do Esoterismo Trumpista estão intimamente conectados.


Duas organizações online foram criadas "The Sacellum Kekellum" e "The Knights Keklars". O autor conecta essa forma organizacional como inspirada na religião brincalhona e anti-autoritária (também de origem americana) Discordianismo. Essa é uma religião que surgiria no final dos anos 50 por Greg Hill e Kerry Thornley. Outras relações são o tradicionalismo de Julius Evola e o Hitlerismo Esotérico de Savitri Devi e Miguel Serrano.