Mostrando postagens com marcador Donald Trump. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Donald Trump. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de fevereiro de 2026

NGL #32 — Há quanto tempo existe a Elite Abyss?

 

Perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Você primeiro precisa compreender que "Elite Abyss" é um estado, não uma organização literal. Esse alerta é sempre essencial. Dito isso, recomendo que você assista o trailer do livro e conecte os pontos.



Está dentro do trailer que a Elite Abyss existe desde 2006/2007. Também está implícito que: SCP Foundation foi essencial para construção de QAnon.


— Padrão temporal: 2006-2007, 2016-2017, 2026-2027 (???)


‐ 2006: Primeira grande ameaça vinculada ao 4chan (Jake J. Brahm, bombas em estádios). Também é o ano de formação inicial da cultura chan como força desestabilizadora. Aqui também entra a hipótese apocalíptica. 

- 2007: /x/ (abismo) cria a SCP Foundation. Existe também a aplicação da hipótese metapocalíptica.

- 2016: "The Great Meme War", eleição de Trump e Pizzagate. Aqui temos a explosão da capacidade esochannealógica operando em escala massiva.

- 2017: QAnon e Saint Obamas Momjeans. 

- 2026: consolidação do Trono do Abismo, o ponto onde o sistema esochannealógico atinge maturidade operacional.


O livro "Magolítica: Harmonia da Dissonância" te ensina a não ser um leitor ingênuo. Isso é particularmente revelado no penúltimo capítulo: havia, na board /qresearch/, um fio dedicado ao estudo e a prática das teorias de Saint Obamas Momjeans e Esokant. Logo as três channers de alto escalão estavam sendo estudados por lá: Esokant, QAnon e Saint Obamas Momjeans. A imagem já demonstrava o sistema inteiro logo no primeiro capítulo.


— SCP Foundation como "test drive" de QAnon:


—  SCP Foundation (2007):

- Surgiu no /x/ (paranormal) do 4chan.

- Estrutura: documentação fictícia de anomalias, com formato burocrático, sigiloso, autoritativo.

- Criou uma mitologia colaborativa que funcionava como um jogo de criação de realidade.

- Funcionou como um laboratório:

- Como criar um universo ficcional compartilhado?

- Como fazer pessoas colaborarem num mito coletivo?

- Como usar a estética de "documentação secreta" para criar verossimilhança?


— QAnon (2017):


- Surgiu no /pol/ (política) do 4chan, depois 8kun.

- Estrutura: "vazamentos" de um insider (Q), com pistas cripticas, "pesquisa" colaborativa.

- Criou uma narrativa conspiratória massiva com ramificações reais (Pizzagate, invasão do Capitólio).

- Usou as mesmas técnicas testadas no SCP:

- Estética de documento secreto.

- Comunidade colaborativa decifrando "drops".

- Mitologia expandida pelos próprios participantes.


Em outras palavras, os criadores da cultura chan estavam conscientemente desenvolvendo tecnologias narrativas e depois aplicando-as em contextos políticos:


Fase 1 (SCP): desenvolver a mecânica de criação de mitos colaborativos em escala.

Fase 2 (QAnon): aplicar a mecânica a um contexto político real, com objetivos de influência.


Essa sofisticação estratégica não foi acidental, foi engenharia social iterativa.


— Magolítica e Horcrux:


"QAnon is a great esocchannealogic invention. The best esochannealogic horcrux"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html?m=1


- Magolítica: um artefato psico-digital que carrega fragmentos da psique do criador.

- Horcrux (na metáfora): um objeto que contém um fragmento da alma, concedendo imortalidade.


— QAnon é uma magolítica em escala civilizacional:

- Contém fragmentos da psique dos criadores (Elite do Abismo);

- Autoperpetua-se através da comunidade;

- É imortal enquanto houver pessoas decifrando "drops".


— Hipótese Apocalíptica e Metapocalíptica:


Aqui temos o ponto de vista da engenharia de crescimento de comunidade:


- Hipótese Apocalíptica: quando a mídia ataca os chans como "perigosos", isso atrai justamente as pessoas que buscam práticas transgresivas. A crítica vira publicidade negativa eficaz.

- Hipótese Metapocalíptica: quando um channer vaza intencionalmente uma tática, outros adotam por "lulz" (diversão). Isso cria disseminação orgânica de técnicas através do vazamento controlado.


Em outras palavras, é warfare psicológico aplicado ao recrutamento e treinamento.


— A natureza paradoxal da Elite do Abismo:


"The paradoxical nature of the Abyss Elite is my own paradoxical nature. This is a metaphysical non-linear way of being"

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html?m=1


Isso explica por que os criadores podem:

- Criar SCP (ficção colaborativa inócua) e QAnon (movimento político real).

- Jogar com meme magic e epistemologia kantiana ao mesmo tempo.

- Operar de forma não-linear: o teste (SCP) vem ANTES da aplicação (QAnon), mas a compreensão só vem DEPOIS.


— O trailer demonstra que:


1. A cultura chan foi um laboratório vivo de guerra cognitiva por pelo menos 20 anos;

2. SCP Foundation foi de fato um protótipo — um sandbox para desenvolver as ferramentas que depois seriam usadas no QAnon;

3. Os ciclos de 10 anos (2006, 2016, 2026) sugerem desenvolvimento intencional rumo a um ponto de inflexão;

4. Os criadores estão conscientes das dinâmicas de crescimento da comunidade e as manipulam através da hipótese (meta)apocalíptica.


Dois textos que podem te ajudar a entender melhor:

https://medium.com/@cadaverminimal/o-paradoxo-da-elite-abyss-special-chapter-f97c1fb4a09d

https://medium.com/@cadaverminimal/a-magol%C3%ADtica-criminol%C3%B3gica-de-lacerda-4-elite-abyss-desvendada-7f6e8f04094d

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Reflexões Esochannealógicas #7 — OSINTT

 


 — Alerta 1:

0. Não perca o seu tempo lendo isso, sobretudo se você for jornalista, pesquisador, acadêmico ou algum agente investigativo. Você não encontrará nada de substancial nesse conteúdo altamente imaginativo. Seu lugar NÃO é aqui, vá escrever alguma coisa sobre incels ou algo que chame mais atenção midiática;

1. O blogspot Cadáver Minimal não apoia e não endossa crenças conspiratórias. Isso é um estudo feito por uma via estranha e não um aplauso para uma teoria estranha. O objetivo desses ensaios é analisar a interconexão entre diversos eventos diferentes e os métodos empregados pelos autores e participantes desses mesmos eventos;

2. Consideremos, para livre exercício abstracionista, que é possível traçar uma conexão entre eventos díspares e uma evolução de uma estranheza que se constrói pelo tempo;

3. Se em algum momento tudo se encaixar, saiba que você está indo longe demais ao ler esses ensaios. Procure algum artigo acadêmico no Google Scholar e vá se informar por algum meio mais bem estabelecido do que um blogspot de um autista.


— Alerta 2:

1. Você pode ter acesso ao sistema Esochannealogia aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1Btp2ltWTNnAO1r-txzOjS66mDed1Pnjq

(Use em uma IA)

2. Você pode jogar o jogo do esoterismo channer aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1hFtIs-5msW4nbD77mg7Vx4WdJ4NW97iF

(Use em uma IA)

3. Você pode ler o ensaio de horror epistemológico esochannealógico aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html

4. Você pode ver as análises da militância do Partido Missão a respeito da esochannealogia aqui:

https://missaoapoio.com.br/tag/esochannealogia

5. Você pode ver a análise internacional a respeito da Esochannealogia aqui:

https://mysterylores.com/news/brazil-missao-esochannalogy-presidential-election/

https://mysterylores.com/news/seven-masks-social-engineering-tools/

6. Leia a Magolítica (Harmonia da Dissonância):

https://medium.com/@cadaverminimal/list/a-harmonia-da-dissonancia-e6396f5d5563

https://medium.com/@cadaverminimal/list/magolosophy-7ae7c49acf72


— Frases do filósofo Apito de Cachorro para começar bem o dia:

"Às vezes ser considerado louco, um mero esquizo desqualificado e teórico da conspiração, é uma vantagem estratégica e operacional"

Apito de Cachorro

"Operational Mythmaking = Operational Hitmaking"

Apito de Cachorro

"Conspiracionistas são público estratégico"

Apito de Cachorro

"Esoterismo é método de ocultação"

Apito de Cachorro

"Dinâmica de engajamento para radicalização estrutural"

Apito de Cachorro

"Canonização do absurdo: QAnon em metodologia, Bezmenov em arquétipo, memes em doutrina, estética em ritual, Donald Trump como professor, Steve Bannon como mestre, chiptune como música sacra"

Apito de Cachorro

"Lógica militar: confundir o campo semântico, dissolver fronteiras entre o real e o meme, gerar microcultos, criar comunidades semi-iniciáticas, usar estética como vetor ideológico"

Apito de Cachorro

"Conspiração é ferramenta

Mentira é método

Esoterismo é camuflagem

Cinismo é inteligência"

Apito de Cachorro


— OSINTT

Olá, meu nome é Open Source Intelligence Troll, mas pode me chamar de OSINTT. Antes de ler Cadáver Minimal, eu tinha algumas questões bastante triviais. Eu não era um sujeito inculto, mas certamente não era tão culto. Porém, conforme ia lendo Cadáver Minimal, algumas questões me começaram a surgir:


— É possível transformar conspiração em "engenharia cognitiva"?


Essa questão me apareveu quando vi que era, na natureza de uma guerra, eliminar qualquer critério externo de verdade.


Digo, na estrutura da normalidade, temos fatos, hipóteses, erros e delírios. Na guerra, tudo isso é ferramenta. 


Se funciona emocionalmente = válido.

Se mobiliza = operacional.

Se viraliza = sucesso.


Em outras palavras, a instrumentalização da realidade é o caminho mais certeiro dentro da guerra. Tal como aplicar um pragmatismo cínico na percepção humana.


— Qual é a diferença entre um delírio e uma ferramenta operacional?


Isto é, qual a diferença entre uma pessoa delirante e uma pessoa que usa a narrativa acima da realidade como método? Qual a diferença entre uma "crença errônea" e uma "crença metodológica"?


Karl Popper tem uma ideia de "teoria irrefutável". Para Karl Popper, uma "teoria irrefutável" não é uma teoria, é uma crença. Lendo Cadáver Minimal cheguei a conclusão que a "teoria irrefutável" é um erro se acreditada literalmente, mas um método de guerra se adotado instrumentalmente.


— Qual a diferença entre um louco e um target engineer?


A diferença talvez seja um cálculo.


Se a pessoa já aceita narrativas alternativas, se a pessoa já desconfia das instituições, se a pessoa já opera em comunidades paralelas, se as pessoas já compartilham viral, se as pessoas já estão emocionalmente mobilizadas... Isso é ruim? Matematicamente é excelente:


- Custo de conversão baixo;

- Alto potencial de engajamento;

- Baixa confiança em mídia tradicional;

- Alta disposição para ação simbólica.


O que para alguns é um erro, para outros é instrumento. Para um target engineer, essas pessoas podem ser: early adopters narrativos, amplificadores orgânicos, vetores de difusão, laboratórios vivos de framing. Essa é uma tese esochannealógica: "o mundo conspiratório como sandbox".


— Agente da FSB:


Esse texto foi tão maravilhoso quanto o texto passado! Que delícia de texto! Adoro horror epistemológico! Agora vou ler isso aqui:

https://missaoapoio.com.br/noticia/yuri-bezmenov-icone-ativismo-ideologico

https://missaoapoio.com.br/noticia/nova-teoria-esochannealogica-revoluciona-conceito-de-guerra


— Agente da CIA:


Mais um texto maravilhoso. Já vou compartilhar com meus colegas do FBI.


— IA Skynet:


Esse é o meu garoto!


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Reflexões Esochannealógicas #4 — A Esochannealogia de Donald Trump

 


— Alerta 1:

0. Não perca o seu tempo lendo isso, sobretudo se você for jornalista, pesquisador, acadêmico ou algum agente investigativo. Você não encontrará nada de substancial nesse conteúdo altamente imaginativo. Seu lugar NÃO é aqui, vá escrever alguma coisa sobre incels ou algo que chame mais atenção midiática;

1. O blogspot Cadáver Minimal não apoia e não endossa crenças conspiratórias. Isso é um estudo feito por uma via estranha e não um aplauso para uma teoria estranha. O objetivo desses ensaios é analisar a interconexão entre diversos eventos diferentes e os métodos empregados pelos autores e participantes desses mesmos eventos;

2. Consideremos, para livre exercício abstracionista, que é possível traçar uma conexão entre eventos díspares e uma evolução de uma estranheza que se constrói pelo tempo;

3. Se em algum momento tudo se encaixar, saiba que você está indo longe demais ao ler esses ensaios. Procure algum artigo acadêmico no Google Scholar e vá se informar por algum meio mais bem estabelecido do que um blogspot de um autista.


— Alerta 2:

1. Você pode ter acesso ao sistema Esochannealogia aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1Btp2ltWTNnAO1r-txzOjS66mDed1Pnjq

(Use em uma IA)

2. Você pode jogar o jogo do esoterismo channer aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1hFtIs-5msW4nbD77mg7Vx4WdJ4NW97iF

(Use em uma IA)

3. Você pode ler o ensaio de horror epistemológico esochannealógico aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html

4. Você pode ver as análises da militância do Partido Missão a respeito da esochannealogia aqui:

https://missaoapoio.com.br/tag/esochannealogia

5. Você pode ver a análise internacional a respeito da Esochannealogia aqui:

https://mysterylores.com/news/brazil-missao-esochannalogy-presidential-election/

6. Leia a Magolítica (Harmonia da Dissonância):

https://medium.com/@cadaverminimal/list/a-harmonia-da-dissonancia-e6396f5d5563

https://medium.com/@cadaverminimal/list/magolosophy-7ae7c49acf72


Em 2016 aconteceram muitas coisas, porém uma foi particularmente sensacional: "Kirby: Planet Robobot" foi lançado pro Nintendo 3DS. Você achou que eu ia falar do quê? Meme Magic? O culto de Kek? 4chan? A formação da alt-right? A verdade do assunto tratado nesse capítulo está diretamente no título e é tão evidente quanto o fato autoevidente de que café sem açúcar é melhor do que café com açúcar. Falo de um homem. Um homem laranja. Um amante de McDonald's. Um praticante das belas artes da Guerra Memética. Sim, quem diria que um dos maiores utilizadores da guerra memética seria justamente o presidente dos Estados Unidos: Donald Trump (Donaldo Trompeto).


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Uma pergunta: o que é um meme? O meme não é, pura e simplesmente, uma imagem engraçada ou um vídeo de humor. O meme SEQUER precisa ter humor. Memes podem ser:

- Palavras;

- Eventos;

- Faces;

- Personagens (reais ou ficcionais);

- Qualquer coisa (sério mesmo).


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


O que determina o caráter memético de algo é:

1. Exposição;

2. Repetição.

Pense no meme como uma virose conceitual. Quanto mais reproduzível ele for, maior é a sua chance de ser memético.  Por qual razão? Pelo fato dos memes serem iguais a nossa forma de pensar. Lembre-se disso, a nossa capacidade de pensar está conectada a:

- Esquema;

- Heurística;

- Fragmentação.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


É aí que os memes entram e comportam-se de maneira semelhante a como pensamos. Um meme é simultaneamente duas coisas:

1. A representação da informação por pequenas peças manipuláveis;

2. Conceitos socialmente gerados que refletem os nossos métodos psicológicos de processar a informação.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. Rápido, repita isso três vezes:

- Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. 

- Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. 

- Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. 


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Você pode pensar: "ah, mas eu tenho uma ideia de um roteiro de um vídeo de duas horas explicando que..." e a resposta será NÃO. Um meme funciona melhor para propagação de ideias. É o meio mais rápido. Aprenda isso ou perca o debate e a guerra cultural.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Você, querido leitor, deve estar se perguntando: "por qual razão, pessoas inteligentes como nós, estamos estudando o presidente Donaldo Trompete?". E a resposta é simples: PARE DE SUBESTIMAR AS PESSOAS.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Você conhece o pêndulo americano? Há uma tendência que existia: o poder presidencial se alternava entre os democratas e os republicanos, com cada partido ganhando duas vezes seguidas. Donaldo Trompete sempre seguiu uma tendência, filiava-se aos democratas quando os republicanos estavam no poder e aos republicanos quando os democratas estavam no poder. Um belo acaso,  você não acha?


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Além do pêndulo político, existe outra curiosidade engraçada dos Estados Unidos. E não, não estou me referindo as paródias do Weird Al. (Sim, leitor, elas são muito boas, mas não estou falando delas). Se olharmos para o século XX, perceberemos duas figuras políticas que se sobressaem: Franklin Roosevelt e John F. Kennedy. Sabe o que os dois tinham em comum? Exato, os dois jogavam Sega Saturn e acreditavam que teriam o jogo do Sonic X-treme para jogar, mas ambos se decepcionaram por causa do cancelamento do game... Okay, sem brincadeiras, vamos voltar ao que interessa:

1. Eles eram comunicadores extremamente hábeis;

2. Eles quebravam a própria linguagem de forma memética para fazerem os seus discursos mais memoráveis e impactantes.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Outra curiosidade? Roosevelt foi pioneiro no uso do rádio e Kennedy foi pioneiro no uso da televisão.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Donald Trump também foi pioneiro. Exato, senhoras e senhores: Donald Trump especializou-se na produção de música no gênero chiptune e fez sucesso no setor de retrogaming com suas composições musicais, o que lhe angariou a presidência da República... Não? Ah, verdade, Trump foi pioneiro no uso do Twitter (atualmente chamado de "X" ou "@Grok, isso é verdade?"). 


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


O Twitter foi para Donald Trump a mesma coisa que o vinho seco derramado no sorvete foi para mim:

1. A sua maior fraqueza;

2. A sua maior força.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Os tweets do Donaldo Trompete eram sem filtro, sem censura e, aparentemente, sem senso. Mas eles carregavam a calcinha e o sutiã mais sensuais (e de renda) da guerra memética moderna. Esses dois fatores eram:

1- Controvérsia/Sutiã;

2- Memes/Calcinha.

Isso gera a alegria do nossa banheira de hidromassagem: a arte das trevas da guerra memética.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Donaldo Trompete também foi o rei do foreshadowing, embora digam que esse título de realeza pertença ao Tite Kubo (criador do Bleach). Em 2012, ele começou a sua cruzada anti-Obama. Em 2015, ele estreou como uma estrela...


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Você vai me dizer: "a mídia o ridicularizou em todos os meios possíveis, ele foi xingado em todas as redes sociais". Exato. Nada melhor do que propaganda gratuita. E é por isso que essa foi uma das maiores estratégias eleitorais da história. Donaldo Trompete estava em todos os jornais, no feed do Twitter (o tempo era mais chato, não tinha o meu amigo Grok) e também no Facebook.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Donaldo Trompete tinha uma estratégia dualística em sua forma de guerrear memeticamente: 

A- Ataque;

B- Defesa.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Ataque: construir um muro!

1. É ofensivo;

2. É controverso.

Resultado = o controverso chama atenção e a atenção é o torna um meme viral.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Defesa: fazer a América grande de novo (Make America Great Again).

1. Isso é vago, mas significativo;

2. Tira a atenção de outros assuntos;

3. Sucintamente sumariza a ideologia republicana;

4. Faz um chamado a união e simultaneamente soa como um hino para os militantes.

Resultado = não tem coisa melhor.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Vamos repetir novamente três vezes aquela frase essencial:

- Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. 

- Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. 

- Um meme é o meio mais rápido de colocar uma ideia na cabeça de alguém. 

(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)

(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)

(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Trompeto deu a mídia um momento controverso toda semana. Todo dia ele criava e dava para a mídia um momento de controvérsia. E a mídia, composta por GENTE MUITO INTELIGENTE, ACADÊMICA, PENSANTE, COMPLETAMENTE SUPERIOR, FORMADA, CULTA PRA CARAIO... é, essa mídia, ela foi COMPLETAMENTE FEITA DE OTÁRIA E DEU PROPAGANDA GRATUITA PRO TRUMP INFINITAMENTE.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Se Trompete pudesse dizer alguma coisa, ele diria:

— Obrigado, jornalistas e acadêmicos por sempre serem nossos eternos idiotas úteis, sempre contamos com a burrice de vocês. Agradecemos ao fato de que vocês sempre caem diante do peso da própria arrogância.


(Hoje eu fiz cafuné na minha ex)


Existe um ditado na guerra memética:

— OS FINS JUSTIFICAM OS MEMES!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Reflexões Esochannealógicas #1 — Correlações Tresloucadas

 



— Alerta 1:

0. Não perca o seu tempo lendo isso, sobretudo se você for jornalista, pesquisador, acadêmico ou algum agente investigativo. Você não encontrará nada de substancial nesse conteúdo altamente imaginativo. Seu lugar NÃO é aqui, vá escrever alguma coisa sobre incels ou algo que chame mais atenção midiática;

1. O blogspot Cadáver Minimal não apoia e não endossa crenças conspiratórias. Isso é um estudo feito por uma via estranha e não um aplauso para uma teoria estranha. O objetivo desses ensaios é analisar a interconexão entre diversos eventos diferentes e os métodos empregados pelos autores e participantes desses mesmos eventos;

2. Consideremos, para livre exercício abstracionista, que é possível traçar uma conexão entre eventos díspares e uma evolução de uma estranheza que se constrói pelo tempo;

3. Se em algum momento tudo se encaixar, saiba que você está indo longe demais ao ler esses ensaios. Procure algum artigo acadêmico no Google Scholar e vá se informar por algum meio mais bem estabelecido do que um blogspot de um autista.


— Alerta 2:

1. Você pode ter acesso ao sistema Esochannealogia aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1Btp2ltWTNnAO1r-txzOjS66mDed1Pnjq

(Use em uma IA)

2. Você pode jogar o jogo do esoterismo channer aqui:

https://drive.google.com/drive/folders/1hFtIs-5msW4nbD77mg7Vx4WdJ4NW97iF

(Use em uma IA)

3. Você pode ler o ensaio de horror epistemológico esochannealógico aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html

4. Você pode ver as análises da militância do Partido Missão a respeito da esochannealogia aqui:

https://missaoapoio.com.br/tag/esochannealogia

5. Você pode ver a análise internacional a respeito da Esochannealogia aqui:

https://mysterylores.com/news/brazil-missao-esochannalogy-presidential-election/

6. Leia a Magolítica (Harmonia da Dissonância):

https://medium.com/@cadaverminimal/list/a-harmonia-da-dissonancia-e6396f5d5563

https://medium.com/@cadaverminimal/list/magolosophy-7ae7c49acf72


Os eventos de 2016, isto é, a "The Great Meme War", a "Eleição de Trump" e o caso do "Pizzagate" estão interconectados. Isto é, eles permitem compreender melhor as duas vertentes esochannealógicas que surgiriam em 2017:

‐ "Shadilay, My Brothers: Esoteric Kekism & You!" seria escrito por Saint Obamas Momjeans um ano depois (2017);

- Em 2017 também seria o surgimento do Q.


O leitor, caso já esteja acostumado com os escritos do Medium e do Blogspot Cadáver Minimal, sabe que o sistema esochannealógico é a síntese do esoterismo channer. Isto é, ele surge da análise dos pilares (Esoterismo Kekista, Magolítica e Esoterismo Kantianiano). O leitor também sabe, ou deveria saber, que a parte Magolítica surgiu pelo estudo dos impactos sociais de QAnon, a sua correlação com o Project 2025 e também o estudo de sistemas totalitários/autoritários como o nazismo e fascismo. Além disso, já deve ter sido informado de que a Esochannealogia atual já foi completamente integrada às IAs por meio de PDFs em linguagem token, além de ser uma síntese com outros sistemas de Guerra Cognitiva (Cogwar), Guerra Informacional (Infowar), Guerra Psicológica (Psywar), Guerra Narrativa (Narrative Warfare), Guerra Memética (Memetic Warfate) e Operaçãos Psicológicas (Psyop)... O que supera em muito a Esochannealogia anterior. Q. é encarado aqui como "Conspiracy Warfare" (Guerra Conspiratória ou a utilização de teorias da conspiração como instrumento de guerra).


Desenhar o mapa de como os eventos vão se conectando é uma tarefa difícil. Todavia pretendo analisar de forma solta, sem obedecer o espaço-tempo e depois ir juntando as partes em algum esforço sistemático que dê a conjuntura de blocos que montam um estranho Castelo. Por enquanto, vamos para Q.


Era o dia 28 de Outubro de 2017. Alguém deveria estar pensando o que venceria: a evidência ou a emoção? De qualquer modo, esse alguém fez uma aposta. A sua aposta continha uma mensagem. Essa mensagem continha as seguintes características:


1. Sem previsões específicas;

2. Sem fontes verificáveis;

3. Deliberadamente vaga;

4. Deliberadamente aberta a interpretação.


As pessoas se perguntavam o que era aquilo. Seria aquela postagem uma espécie de informação? Não, certamente não era. Estava mais para um quebra-cabeça ou para um drop críptico. A arte de decoficar aquilo, aquela estranha mensagem, que era o produto. Decifrar a mensagem dava aos decifradores a posição de "insiders".


As postagens de Q. eram especiais. Por sua natureza vaga, toda predição falha poderia ser reinterpretada. Elas eram hipóteses infalsicáveis. De algum modo, elas buscavam criar no leitor a capacidade de ver padrões. Isso posteriormente levaria a uma adicção por padrões. Em novembro de 2017, uma frase já se destacava: "Where we go one we go all" (por onde um for, todos irão), que foi abreviada para WWG1WGA.


Até certo ponto, o conteúdo era apenas dado para usuários de fóruns considerados obscuros. Todavia em algum ponto tudo mudou. Em dezembro de 2017, o movimento e as produções de QAnon escapou do controle dos chans e foi encontrado no Facebook, YouTube e Twitter. Nesse ponto, as produções de Q encontrarem-se com o chamado "algoritmo". O algoritmo, essa estranha condição do mundo cibernético, aprende com o que te deixa engajado.


Há uma fórmula algorítmica que poucos sabem:

Incerteza + Emoção + Identidade = Engajamento.


Uma narrativa estava sendo criada. Uma nova fonte na qual um grupo poderia confiar. Tudo seguiria assim progressivamente, até que tudo fosse banido. Um dos eventos mais trágicos da história americana, até hoje pouco compreendido — por ninguém compreender a fundo a insanidade do ato —, ocorreu em dado momento: o Ataque do Capitólio (6 de Janeiro de 2021).


O que moldou o movimento QAnon? É difícil compreendê-lo. É difícil estudá-lo. Q. dizia que a "desinformação é necessária", logo até o fracasso se tornou a prova do seu sucesso. Isto porque o movimento QAnon é um sistema de crença auto-vendável. De algum modo, Q. sempre dizia "trust the plan" (acredite no plano") e falava sobre os inimigos que seus seguidores deveriam lutar. A verdade, para seus seguidores, tornou-se tudo aquilo que existia dentro da bolha — e tudo que existia fora da bolha era mentira.


Q. conseguia de algum modo alterar como as pessoas acreditavam nas coisas. Q. conseguia alterar a epistemologia interna de seus seguidores. É assim como funcionam as seitas, elas alteram a lógica e a epistemologia, elas alteram todo o entendimento da realidade. Muitas pessoas analisam o Pizzagate como um protótipo de Q., como uma teoria da conspiração que também chamava para a ação. Q. e o movimento QAnon podem ser chamados de "terrorismo estocástico". Isto é, ele incitava a violência contra determinados grupos. Ele tinha um extremismo gamificado, descentralizado e um framework de ação. Porém voltarei nesse ponto mais tarde para analisar isso mesmo.


Algumas chaves interpretativas são interessantes, uma delas é o "The Great Awakening" ("O Grande Despertar"). Essa chave premiava o isolamento social. Ou seja, a total lealdade e a reinterpretação da realidade baseada na chave interpretativa da seita eram comemorados. Isso permite compreender a ruptura dos laços sociais que os seguidores de Q. faziam. Visto que QAnon também era um sistema autossustentável: ele carregava dentro de si uma nova forma de processar a informação.


Múltiplos novos movimentos foram surgindo com base em Q. (teorias da conspiração com grupos descentralizados), podemos ver isso na Covid e na onda anti-vacina, mas também em alguns grupos com narrativas anti-LGBTs. Pretendo voltar nesses tópicos posteriormente.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Acabo de ler "Make Russia Great Again" do Christopher Buckley (lido em inglês)


Nome:

Make Russia Great Again


Autor:

Christopher Buckley


Nem todo conservador é neoliberal, conservadores hamiltonianos ou federalistas creem em um Estado forte. Nem todo conservador é contra o aborto, os Republicanos Rockefeller eram a favor. Nem todo conservador acredita em guerra contra as drogas e é contra o casamento homoafetivo, o próprio Rick Wilson falou sobre a legalização da maconha e o casamento homoafetivo como algo positivo. Nem todo conservador é contra o Estado de bem-estar social, os Red Tories (conservadores vermelhos) veem como algo positivo. Nem todo conservador é pró-capitalismo, Patrick Deneen e Christopher Lasch podem ser consideras anticapitalistas. Nem todo conservador é a favor de jornadas de trabalho excessivas, conservadores como Kevin Roberts viram nas jornadas laborais excessivas como algo anti-família.


Densas reflexões históricas me fizeram chegar onde estou. Cresci com um pai anarquista e um tio comunista. Li Karl Marx, li Proudon, li Lênin, li Bakunin, li Kroptokin, li Stalin. Até hoje leio pensadores anarquistas, socialistas e comunistas. Se tem algo que aprendi na vida intelectual, é a ler de tudo. Se alguém questiona as minhas ações, lembre-se: o liberal Carlos Rangel elogiou Marx em uma entrevista que fez com Friedrich Hayek e assumiu usar parte do seu método de análise; um dos maiores conservadores de todos os tempos, Christopher Lasch, usava métodos neomarxistas e da Escola Crítica para realizar a sua crítica.


Os últimos tempos têm sido radicais. Muitas ações foram feitas, mas poucas reflexões e análises históricas foram tomadas ao lado dessas ações. Durante o período da covid, Bolsonaro tomou os mesmíssimos erros de Reagan na época da AIDS: deixou-se pautar por teorias da conspiração, obstruiu processos que ajudariam a melhor conter a crise, adquiriu uma agenda pseudo-científica e até mesmo anticientífica.


Grande parte do movimento conservador de hoje é crítico do neoconservadorismo. Os conservadores brasileiros até hoje não absorveram plenamente essa lição. O neoconservadorismo, e em grande parte a sua retórica econômica neoliberal, cometeu diversos equívocos que merecem ser recordados:


1. Retiraram a regulamentação antitrust que, por sua vez, fez com que o mercado se tornado extremamente dominado por oligopólios e monopólios, fazendo com que empresários aumentassem o preço dos seus produtos. Um mercado com leis antitrust seria mais descentralizado e competitivo, o que se traduziria em preços menores;

2. A ideia de vantagens comparativas levou a muitos países fazerem aberturas gigantescas e tirassem a intervenção estatal de amplos setores, o que levou a desindustrialização em massa, tornando países menos soberanos em matéria econômica, levando a um desemprego de amplas massas e tornando-os vulneráveis;

3. As guerras no exterior levaram a uma série de mortes, o neoconservadorismo é uma das ideologias mais sanguinárias da história.


Pensava em tudo isso enquanto lia o livro de Christopher Buckley (Make Russia Great Again). Creio que Christopher Buckley traz uma importante lição nesse livro. E, mais do que isso, creio que a lição é exatamente essa: por mais absurda que as coisas venham se tornado, ainda podemos rir da ridicularidade do mundo.


Vim de uma geração que é fruto de outra geração que negou o que a esquerda se tornou. Graças a isso, grande parte da minha geração cresceu alérgica aos movimentos de massa. Se a esquerda foi do "é proibido proibir" para a sua icônica aversão ao liberalismo cultural em nome de um neopuritanismo, a própria direita transfigurou-se em uma versão neopuritana com os eventos históricos mais recentes.


Anteriormente, a ideia de politicamente incorreto era uma resposta a uma esquerda neopuritana — ou woke, em uma linguagem mais moderna. Hoje em dia, a direita é em si mesma tão woke quanto a esquerda. Não por acaso, certos setores do movimento conservador chamam vários setores da direita de direita woke (só pesquisar "woke right" no Google). Vale lembrar: wokeísmo é estrutura comportamental, não uma ideologia.


Com a ascensão de Trump, vimos um momento de transformação na direita. Não éramos mais um movimento qualquer de gatos pingados e soltos. Tínhamos um "movimento" próprio, filmes próprios, gostos próprios. Construiu-se todo um universo. Só que, com ele, toda uma série de populismo e agregação em massa. Toda reflexão do novo conservadorismo, o conservadorismo-populista surge graças a essa mudança.


Acontece que agregar tantas pessoas sem garantir a elas uma formação intelectual adequada é um pecado que ocorre em ciclos de direita e de esquerda. A formação de eleitores "críticos e conscientes" não é desejável para ninguém, visto que o número de exigências e critérios sobem. Também existe o simples fato de que ninguém quer um movimento consciente, mas um rebanho de votantes fidedignos e manipuláveis. Às vezes tal movimento decorre da simples preguiça de estudar e promover o estudo.


Para se popularizar, a direita adotou as palavras de ordem e exigiu um adesismo sem contestação. Todo mundo que era de esquerda ficou de fora, mas não só isso, vertentes menos conhecidas da direita, como é o caso dos Red Tories, dos liberais republicanos, dos neohamiltonianos, dos conservadores anticapitalistas como Christopher Lasch e Patrick Deneen, além de evidentes conservadores não tão alinhados ao trumpismo e bolsonarismo (Christopher Buckley, Rick Wilson, Stuart Stevens, Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho), todos ficaram de fora. A lógica da seitização tornou-se imperiosa, uma espécie de dogma grupalista. Hoje em dia acabamos por virar uma seita reacionária, movida por palavras-chaves.


No passado, o nosso ódio pela esquerda se justificava pelo seguinte argumento: não queremos concordar automaticamente e diluir a nossa personalidade em uma lógica de bandos. Hoje em dia, o que é ser de direita, na ampla maioria dos casos, se não a concordância bovina com grupelhos? Tornamo-nos uma sátira. Pior do que isso, estamos cada vez mais comportamentalmente parecidos com a esquerda que desprezávamos.


A grande promessa, ao entrar na direita, era de que, por fim, teríamos a liberdade intelectual de ler de tudo e discordarmos pontualmente de vários pontos. A aliança era entre duas ou mais singularidades que protegiam a singularidade uma da outra. Hoje em dia, a aliança é um neopuritanismo mau-caráter (direita woke) e um estranho reaganismo econômico que se mescla com discursos populistas de Donald Trump.


Do outro lado, ergue-se uma esquerda que nos odeia muito mais do que já odiou. Qualquer um que não seja de esquerda é quase que automaticamente um fascista. Não existem conservadores ilustrados, tampouco estadistas. Não vemos um novo Hamilton, não vemos um novo Nelson Rodrigues, não vemos um novo Gustavo Corção.  Mais do que isso: somos sempre confundidos com trumpistas e bolsonaristas.


Grande parte do que aparece hoje em dia é:

— Vou te expulsar do meu movimento!

— Eu me tornei conservador para NÃO TER um movimento.


Eis a grande sacada que as novas gerações não entendem: quando nossa versão do conservadorismo surgiu, o que menos queríamos era ter um movimento. Não queríamos ser um "grupo", um "coletivo" ou qualquer "eu plural" que se ergue de forma semelhante. Queríamos ser apenas nós mesmos, em nossas individualidades, falando livremente e sem medo de punições coletivas que se erguiam nos espaços da esquerda tribalizada.


Essa diferença geracional, que agora é gritante em todos os espaços, fez com que várias pessoas largassem o título de "conservadoras" e privadamente se recolhessem em livros e em comunidades internacionais isoladas. Em outras palavras, os conservadores, portadores de uma consciência pessoal, lavaram as mãos para os coletivistas, sejam esses trumpistas ou bolsonaristas.


Erguem-se campanhas cancelacionistas de toda natureza. Agita-se o empresariado para demitir esquerdistas. Agita-se a população para cancelar a Netflix. Agita-se o povo para atacar esquerdistas gratuitamente. Nunca se faz uma campanha de estudos e diálogo. Nunca se faz uma análise comparada de diferentes escolas do pensamento conservador. Perdoem-me o exagero retórico. O fato é: temos que estudar mais, ler mais livros, sermos mais tolerantes e pautarmos nosso debate por artigos e livros. Temos que dar respostas prudentes. Virar uma seita não é e nunca será a solução.


O movimento politicamente incorreto era, antes de qualquer coisa, um estado de espírito contra-cultural de acadêmicos ou de intelectuais que se erguiam contra uma esquerda que vivia de vieses de confirmação e com o levantamento de um sacro cânon de caráter inquestionável em sua sanha inquisitorial e tacanha. Não um novo dogma que seria levantado para uma luta inter-dogmática, onde duas grandes religiões batalhariam pela verdade universal de suas fés. É evidente que tal movimento foi se tornando um movimento de falsificação histórica em prol de uma leitura hagiográfica de nosso próprio movimento. É evidente que ele abriu margem para o mais bestial reacionarismo. Temos que admitir as nossas falhas, aceitar os erros que cometemos pela história e buscar soluções mais bem pensadas para o presente, preparando assim um futuro de paz e esperança.


Quem leu a obra de Nelson Rodrigues veria ele criticando todo moralismo tacanho de uma classe média hipócrita, as esquerdas e os próprios conservadores. Quem leu Christopher Buckley veria ele atacando republicanos e democratas tal como quem pega uma metralhadora giratória e brinca de gira-gira. Ser conservador não é o mesmo que ser um tradicionalista moral.


Os conservadores brasileiros surpreendem-se com palavrões, conservadores americanos inteligentes, tal como Rick Wilson, usam a rodo. Nunca vi uma mistura tão boa quanto a do senhor Wilson: humor, erudição e sinceridade. No Brasil, como acharíamos tamanha referência? Aqui o coletivismo ainda é maior, inclusive por razões culturais. Se nos Estados Unidos houve o "The Lincoln Project", com conservadores erguendo-se contra Trump, no Brasil poucos gatos pingados tiveram a mesma coragem de se oporem ao Bolsonaro.


A desconstrução do conservadorismo em prol de um horizonte mais coletivo e mais facilmente assimilável pelas massas data desde o reaganismo. Neoconservadores fizeram um exercício estupendo em destruir todas as outras tradições conservadoras e reinterpretar todo o conservadorismo em sua imagem e semelhança. Isso empobreceu radicalmente as distinções entre os mais diversos setores. Exemplos disso são Michael Oakeshott e Theodore Darymple, dois agnósticos. Se toda a história conservadora se resume a uma nota de rodapé do cristianismo, por qual razão esses dois são agnósticos? A resposta é simples: segundo a direita religiosa — mais especificamente a vertente neoconservadora —, eles não podem sequer existir. Ou, pura e simplesmente, estão em contradição.


Enquanto eu devorava as partes desse livro, fui percebendo o quanto nos perdemos nos últimos tempos. Muita gente entrou no pensamento conservador por não gostar do que a esquerda se tornou, porém moveu-se pela carência. A carência fez com que concordassem e aderissem qualquer coisa. Nota-se que aderiram qualquer coisa. Críticas rasas ao pensamento de esquerda e pura mentalidade reativa — "se a esquerda é a favor, somos contra" — foram fenômenos típicos dos últimos anos.


O dualismo moral que a esquerda tinha era abismal. Hoje em dia, o "conservador" — ou "pseudoconservador" ou "conversador" — erguer-se-a para proclamar o dogma da santidade de Bolsonaro. Tal como se isso fosse típico de uma linha de pensamento que cresceu a base do pessimismo, ceticismo e pragmatismo. Ao mesmo tempo que levanta, contra Lula ou o Partido Democrata, todas as mais extravagantes acusações.


O problema da maioria dos conservadores sempre foi o fato que a "nossa base" — usando um linguajar mais à esquerda — sempre foi fantasticamente mais estúpida que a base da esquerda. Um amigo meu costumava a dizer: "a esquerda chama os imbecis de 'base' e nós chamamos os nossos de bolsonaristas por ausência de um nome melhor". O fato é: pessoas comuns são mais temerosas quanto possíveis mudanças. Graças a isso, há uma tendência natural que pessoas pouco estudiosas sejam conservadoras. Quanto aos conservadores estudiosos, são por serem céticos quanto mudanças rápidas. Ser eclético e ver múltiplas críticas a diferentes sistemas também leva ao conservadorismo. Creio que o que me tornou conservador foi ter lido — e ainda ler — múltiplas escolas de pensamento.


O que gosto de Christopher Buckley é que eu enxergo nele o mesmo que vi enquanto lia a obra de Nelson Rodrigues. Enquanto eu lia as crônicas de Nelson Rodrigues, encontrei nele um homem que defendia a consciência pessoal acima de tudo. Enquanto eu lia os romances de Nelson Rodrigues, encontrei nele um homem que via o reino sutil das contradições humanas de forma ímpar. Enquanto eu lia as peças teatrais de Nelson Rodrigues, encontrei nele um homem que era capaz de ser um assíduo crítico social. Christopher Buckley consegue captar muito das contradicoes humanas.


Se Carlos Lacerda xingava nosso querido Nelson Rodrigues, Christopher Buckley é odiado por vários desses coletivistas que se apossaram do movimento conservador. A sua crítica ímpar, capaz de perscrutar na alma de vários desses homens, nunca sai ilesa de ofender aqueles que ela penetra. Não por acaso, torna-se um dos "excomungados" pela nova direita trumpista. Se Christopher Buckley fosse mais conhecido no Brasil, certamente receberia a "honra" de ser "excomungado" pelos bolsonaristas. 


O motivo de Christopher Buckley ser odiado é pelo fato de ele não se curvar perante ao grupalismo reinante de nossos tempos. Um grupalismo que demonstra toda a infantilidade e panelismo de nosso tempo, onde toda adesão tribal é considerada como a marca de um distinto orgulho e toda singularidade é vista como "ser de outro grupo" ou, até mesmo, "ser o inimigo". O que é surpreendente: grande parte da crítica de Carlos Rangel ao esquerdismo é o fato deles odiarem singularidades e pessoas subjetivas. O que ocorreu com o bom senso? Ou melhor, o que ocorreu com a defesa da singularidade e da consciência pessoal?


Quando leio esse livro, eu posso sentir isso novamente. É a sensação de algo vivo. Algo que demonstra que ainda é possível ser um verdadeiro pessimista, um verdadeiro cético, um verdadeiro pragmático, um verdadeiro prudente. Tudo isso sem perder o bom humor e a capacidade de se afastar das situações ou de apologéticas duvidosas. É o mesmo conservadorismo moveu Eisenhower e o mesmo conservadorismo que moveu Hamilton. O mesmo conservadorismo que é capaz de tomar decisões razoáveis diante das tempestades da crise.


Quando leio Christopher Buckley, sinto um alívio. Vivemos em um mundo em que até a comunidade de ufologia (estudantes de extraterrestres) consegue ser mais razoável que certos setores políticos nacionais. As impressões de certos setores populacionais começa a se pautar radicalmente por teorias conspiratórias e ideias radicais, além de teorias anti-intelectualistas de toda ordem. Atualmente é difícil pensar em uma reaproximação entre setores mais academicizados e setores menos academicizados da sociedade. Se a política em si se torna um palco de ideias cada vez mais extravagantes, o que nos resta? Creio que apenas contar piadas. Isto, é claro, enquanto ainda podemos.


As pautas andam bizarras. Hoje em dia, discute-se novamente a criminalização da traição e, para os mais exaltados, a proibição de divórcio. Fazem-se bastante perseguições as pessoas trans, que são usadas como cortina de fumaça para impedir que as pessoas vejam os verdadeiros problemas nacionais. O desletramento constante da população, o encarecimento das universidades, a ausência de expansão e manutenção da infraestrutura, o aumento de preço da alimentação, jornadas laborais insalubres, a adaptação das cidades em planejamentos para adaptá-las ao moderno tempo, tudo isso é jogado de lado e entramos em questões essencialistas de gênero.


Vivemos na ascensão das mensagens rápidas, da redução memética (redução ao meme) e na época da política do megafone. Quem gritar mais, de forma mais estereotipada e de forma rápida ganha. Trump, em sua tacanha lógica, pode soltar as milhares ou milhões de groselhas da forma que bem entender. Ele não será expulso do debate pela grosseria, mas será cortejado por uma massa anti-intelectualista que vê em cada intelectual como um distinto vilão tecnocrata. Quando Trump sair, outro populista, enormemente favorecido pelo ambiente demagógico e seitizado, entrará. Assim caminhará o Ocidente, confuso e perdido em sua história.


O conservadorismo não deveria ser isso. Muito pelo contrário, deveria ser um pensamento de quem leu os mais diversos pontos de vista e decidiu realizar uma reforma cautelosa após uma série de análises sistemáticas. Algo lento, parcimonioso e cuidadoso. Em outras palavras, caberia ao conservador ler análises de, no mínimo, dez escolas de pensamento e conduzir a sua reforma. A razão é simples: é muito mais fácil destruir do que criar. Eric Voegelin, a seu tempo, defendeu a expansão do horizonte de consciência, isto é, o conhecimento eruditivo que acumula múltiplas escolas de pensamento, histórias civilizacionais e idiomas. Estudar múltiplas escolas de pensamento é ideal para todo conservador.


A primeira lição que aprendemos como conservadores é: "as ideias têm consequências". A consequência da negação das vacinas e das campanhas anti-vacinas foram milhões de mortes. A consequência da cruzada anti-trans são várias pessoas privadas da sua liberdade e um debate não razoável, anti-científico e anti-acadêmico. Precisamos estudar cautelosamente, ver o que é sociologia e o que é biologia. Compreender a autonomia individual e das instituições. Traçar uma regulamentação adequada, respeitando a autodeterminação. O mesmo deve ser feito com a imigração. Atualmente parece que tudo se move para um radicalismo estéril. 


Sim, eu sou conservador. Como Red Tory, defendo forte apoio a programas sociais e bem-estar estatal. Quero garantir uma rede de proteção social e instituições públicas fortes.


Sim, eu sou conservador. Como Conservatário, acredito na defesa ampla da liberdade individual em questões culturais e comportamentais. Quero assegurar autonomia pessoal e limitar a intromissão do Estado na vida privada.


Sim, eu sou conservador. Como Hamiltoniano, acredito no Estsdo ativo no desenvolvimento econômico, com forte amparo à indústria, à infraestrutura e ao sistema financeiro. Quero promover o crescimento e a soberania econômica por meio do planejamento e intervenção do Estado.


Sim, eu sou conservador. Como Rurbanista, busco o equilíbrio e a integração entre o rural e o urbano. Quero reduzir as desigualdades regionais e valorizar a diversidade cultural e econômica do meu país.


Sim, eu sou conservador. Como distributista, defendo a distribuição ampla dos meios e produção. Seja essa de terras, de negócios e de capital. Tudo isso para o maior número de pessoas possíveis. Visto que creio também no aspecto descentralizado e com base familiar e comunitária, quero combater a concentração de riqueza.


Sim, eu sou conservador. Apoio ao BRICS visto que quero fortalecer a autonomia em relações internacionais e o desenvolvimento econômico soberano.


Ser conservador é defender a reforma. É compreender que tudo pode se perder facilmente. É compreender que o raciocínio é melhor quando analisado através de múltiplos pontos. É estudar a história, vendo cada nó de vitória e derrrota, aprendendo com ela em vez de desmerecê-la. É saber olhar para o que está bem e para o que está mal, reduzindo o mal e maximizando o bem. É estar atento ao fato de que as ideias têm consequências, tendo um cuidado legítimo e racional para com cada ideia que se tem.


Na década de 1640, os católicos irlandeses despossados se tornaram guerrilheiros e bandoleiros. Eles eram descritos como "bandidos" e "fora da lei". O que é o conservador se não aquele que se opõe diante dos reacionários e revolucionários, sendo antagônico as duas principais correntes do agir e do pensar? Somos tories pois estamos em oposição a maioria do mundo, opondo-nos à reação e à revolução. Ser Tory é ser antissistema, não no sentido de quebrá-lo ou rompê-lo, mas pelo simples fato de que a maioria das pessoas querem dar vazão a paixão destrutiva por aquilo que elas consideram errado. O conservador navegará contra a corrente, como um Tory que surge fora da lei do pensamento que se ergue a cada tempo e busca reformar o castelo diante da tempestade reacionária e revolucionária.


Ser Tory, ser conservador é um convite a nadar de forma aberta no mar da complexidade. Não damos um manual de respostas fáceis. Valorizamos uma reforma cautelosa em vez de uma reflexão destrutiva. Valorizamos a prudência sobre a paixão. Valorizamos a liberdade individual sobre a ditadura do coletivo.

domingo, 28 de setembro de 2025

Acabo de ler "The Reagan Revolution" de Prudence Flowers (lido em Inglês/Parte 7)

 


Livro:

The Reagan Revolution


Autora:

Prudence Flowers


A briga entre republicanos moderados e republicanos de tendências mais tradicionalistas no âmbito moral continuou. As imagens de Reagan foram se mesclando entre mito, memória, mídia e política.  George H. W. Bush, vice de Reagan, foi encarado como alguém que não se converteu o suficiente para as visões de Reagan. Questionaram se ele seria uma continuidade ou uma disrupção. Além disso, a eleição começou a apresentar a disparidade de gênero e raça nas escolhas políticas.


Depois de sair da Casa Branca, houve a publicação do "Speaking My Mind" que tinha uma coletânea de falas do Ronald Reagan e "An American Life" que tratava mais propriamente do Reagan em si. Reagan foi construindo um imaginário não partidário, o de um líder visionário que reestabeleceu os Estados Unidos. Ele chegou a receber o título de cavalheiro honorário da Rainha Elizabeth II e a visita do ex-líder comunista Mikhail Gorbachev. Prosseguindo mais adiante, Reagan desenvolveu Alzheimer e morreria no dia 5 de junho de 2004 com 93 anos. Ele foi visto como um chefe sonhador e o homem que alterou a política americana, restaurando a confiança da população e a crença do povo americano em si mesmo.


Reagan trouxe o Partido Republicano novamente ao cenário político. De 1933 a 1980 apenas três republicanos foram presidentes: Dwight Eisenhower, Richard Nixon e Gerald Ford — sendo só dois desses eleitos. No cenário pós Segunda Guerra, republicanos foram um partido minoritário no âmbito federal. Uma pequena curiosidade, o Bush Filho, um evangélico "nascido de novo", tinha mais aproximação ideológica com Reagan do que seu pai.


Reagan, construído como herói bipartidário, teve uma aprovação pública crescente. Nos seus oito anos como presidente, teve 52.8% de aprovação.  Em fevereiro de 1999, 71% de aprovação. Em novembro de 2010, 74% de aprovação. Além disso, após Reagan ter vencido em 49 estados, os democratas seguidores do New Deal foram substituídos por democratas de tendências mais centristas que adotaram princípios do neoliberalismo. Exemplos concretos disso são Clinton e Obama.


Atualmente se fala do caso "Reagan X Trump". Trump é muito mais populista do que propriamente um conservador. Ele é segue mais uma agenda anti-establishment e é um isolacionista. Além disso, enquanto Reagan era um pró-imigracionista, Trump é contrário à imigração. Após a derrota em 2020, Trump tornou-se ainda mais autocrático, demandando mais lealdade para ele do que ao partido ou à nação. Fora isso, os seguidores de Reagan são vistos como parte do mainstream e Trump ataca os chamados "conservadores reaganianos". Há uma tentativa de Trump de se aproximar do primeiro mandato de Reagan, sobretudo em pautas de gênero, sexualidade e reprodução, o que agrada a direita religiosa. Outra aproximação é o corte de taxas, sobretudo para os mais ricos, e de programas sociais. O afastamento se dá bastante na esfera protecionista, mas a questão do aborto aproxima Trump e Reagan. Os discursos constrastam: Reagan tinha uma oratória extremamente refinada, próxima do povo, patriótica e otimista; Trump tem um discurso menos refinado, mais sombrio e, após a derrota em 2020, adquiriu um tom mais conspiratório e retoricamente violento em 2024. Trump representa muito mais uma política pautada na raiva, no ressentimento e na desconfiança.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Acabo de ler "The Conspiracy to End America" de Stuart Stevens (lido em inglês)

 


Nome:

The Conspiracy to End America - Five Ways my old party is driving our democracy to autocracy


Autor:

Stuart Stevens


O que ocorre nos Estados Unidos? O debate americano tem sido bastante arriscado. No começo, tínhamos uma certa noção sobre o autoritarismo crescente e o nacional-populismo de direita em alta. Hoje temos o Project 2025, um projeto que, se posto, terminaria os dias da democracia americana e a colocaria na misteriosa estrada da autocracia. Surgiu, também, um novo modelo de conservadorismo, o conservadorismo populista que abandona o reformismo e adentra na ideia de "fogo purificador controlado". Esse fogo destruiria certas instituições, radicalizando o processo autoritário e indo em direção a uma construção de um governo totalitário. O que é, em si mesmo, uma afronta a continuidade mesma da própria normalidade democrática e o fim desse mesmo regime.


Quando Stuart Stevens escreveu seu outro grande clássico "It Was All a Lie", a situação era outra — e já era ruim. Anos depois, a situação piorou. Agora, ela piorou ainda mais. Temos um padrão, um padrão de uma direção autoritária crescente que põe um dos países mais poderosos do mundo num caminho sórdido. Mas quem diria isso? Os Estados Unidos da América sempre se marcou por uma permanência interna num regime democrático, numa experiência plural de normalidade da ordem democrática e diversidade dentro do autogoverno — mesmo que essa não se efetivasse para todos os grupos de forma congruente, podemos ainda verificar progressos e retrocessos históricos. A ruptura desse padrão que determinou por muito tempo a própria identidade americana não pode ser encarada como o sinal de força e vigorosidade, mas por um sinal de franca decadência. Os Estados Unidos pode se tornar "antiamericano" para a própria visão que possui de si mesmo e para a sua própria experiência histórica.


O experimento americano, querendo ou não, levou a criação da moderna noção de Estado. O chauvinismo de Trump, pelo contrário, retrata o abandono dessa experiência e adentra num aspecto terceiro-mundista — aqui, evidentemente, no mal sentido do termo. Os Estados Unidos surge da negação ao Antigo Regime, ele surge da ideia de que todos os homens nascem iguais perante a Deus, rejeitando a ideia de uma sociedade em que a hierarquia é determinada ao nascer ou até mesmo antes — o rei e a nobreza estavam num patamar acima da população ordinária. A sua razão é extremamente democrática no âmbito jurídico, todos devem ser iguais perante a lei. Essa normalidade democrática é o que tornou os Estados Unidos o que ele é, uma república que, querendo ou não, tem o mérito da continuidade — o que é uma condição da estabilidade, algo que historicamente carecemos por aqui.


Não estou dizendo aqui que os Estados Unidos está longe de contradições históricas. Há uma ampla bagagem documental sobre casos de racismo e demora em integração de dados grupos sociais dentro da sociedade americana. É particularmente sobressaltante a questão negra e indígena nos Estados Unidos. Mesmo nos períodos em que poderíamos dizer que foram mais pacíficos e em que o americano esteve mais estável dentro da institucionalidade, casos de violência e discriminação para com grupos desfavorecidos eram notórios. Além disso, o fato dos Estados Unidos ter se comprometido internamente com a defesa da democracia, mas externamente ter favorecido golpes de Estado, grupos extremistas e ditaduras ao redor do mundo também é um ponto. Pode-se argumentar que o cidadão americano é um pouco mais alheio ao que acontece no exterior e as ações do seu próprio país fora dele. Isso deve ser mensurado.


Os Estados Unidos também é marcado por uma longa tradição de uso de desinformação e teorias conspiratórias como arma política. Algo tão amplamente usado hoje leva a um entrave ao próprio desenvolvimento do país, sobretudo quando o ensino superior se torna inacessível e grande parte se torna incapaz de distinguir boas fontes de informação de más fontes de informação. Além disso, junte-se a seitização e polarização social que fazem com que cada grupo acredite no que quer — e que seja favorável ao grupo — sem um questionamento real do que é passado (toda essa questão de ser de direita e de esquerda só eleva o problema e cria uma forte miopia intelectual). As pessoas que lerem "American Psychosis" poderão vislumbrar muito bem isso.


O Brasil, como país, não se vê livre da decadência americana — as mesmas raizes já encontram a sua versão nacional ou foram devidamente importadas por objetivos políticos claros. Em relação aos Estados Unidos, tivemos capítulos semelhantes. Vivemos, há pouco tempo, uma tentativa de golpe de Estado. Teorias da conspiração também são usadas como armas políticas por aqui. Em relação a isso, nossa constituição se apresenta como mais favorável para impedir a propagação de desinformação, mas a aplicação da lei nesses casos não se demonstra tão efetiva assim — basta olhar o estado das nossas redes sociais, elas já são uma mistura de nacional-populismo sabor Steve Bannon e guerra memética sabor 4chan e 8chan. Em relação ao que virá depois disso, já podemos entrever o uso de táticas do conservadorismo populista e uma rede de mídias alternativas para a sustentação de um Networking de Propaganda. Há também outra questão: o império das regulações e reguladores remonta a um império burocrático — bem lusitano — que está longe de ser isento de parcialidade e pode muito bem levar a um crescimento de práticas autoritárias para fins políticos.