terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Cinicália #3 — PL, Flávio Bolsonaro, LGBTs e a Direita Bafônica
domingo, 4 de janeiro de 2026
Cinicália #1 — Alinhamento Político por NECESSIDADE de MERCADO!
— Intelectuais se alinham pelo "puro gozo" da busca pela verdade e desejo sincero do coração!
Mas pense bem...
Por qual razão a maioria dos intelectuais tomam ações questionáveis? Muitas vezes o alinhamento vem por MERCADO. Isto é, a oportunidade e a possibilidade de crescimento no mercado intelectual.
— Exemplos notáveis:
1. Direita consegue pegar votos da classe média, esquerda vai nas favelas e consegue criar votos (e toda uma mentalidade) com a população periférica;
2. Direita vê que a esquerda está tomando pautas que desagradam religiosos, direita vai nos setores religiosos, sobretudo cristãos, e converte os setores cristãos para a sua causa política;
3. Esquerda tenta criar um cristianismo de esquerda e leva as religiões de matriz africana junto.
Existem várias pessoas que, navegando pelo mercado intelectual, percebem que não conseguirão ascender nesse mercado sem uma boa base de apoio. Tudo que um intelectual quer é que as suas ideias se tornem comercialmente viáveis (ele quer crescer e se desenvolver, além de impactar pessoas). Por muito tempo, ser intelectual tinha muita correlação com ser de esquerda. De fato, se você olhar bem, a maioria da galera "intelectual" é de esquerda pois NÃO conseguiria viver sem se aliar à esquerda por condições de mercado.
Pense bem:
1. Quero ser literato;
2. Descubro que todos os ambientes de produção literária da minha região são de esquerda/direita;
3. Alinho-me por necessidade de mercado.
(Bônus: políticos financiam obras intelectuais dos seus intelectuais de estimação).
Quando grande parte das instituições intelectuais e culturais viraram à esquerda, isso fez com que muitos intelectuais e artistas se tornassem de esquerda. Esse fato levará a uma super oferta de intelectuais de esquerda. Só que isso levará os intelectuais a perceberem uma coisa: se há uma super oferta de intelectuais de esquerda, logo a possibilidade de ascender nesse mercado é difícil. O que isso fará? Com que surjam cada vez mais intelectuais para a direita chamar de seus. Grande parte da direita intelectual surgiu pela DEMANDA de intelectuais de direita. Do mesmo modo, com a super oferta de modernistas, surge um gigantesco grupo de tradicionalismo católico e pagão.
Esquerda recruta LGBTs > cria uma super oferta de LGBTs de esquerda > LGBTs intelectuais não conseguem mais achar vaga dentro do mercado > surgem elegantes LGBTs de direita que finalmente conseguem cargos como intelectuais públicos.
Direita recruta a maioria dos cristãos > cria uma super oferta de cristãos de direita > cristãos não conseguem mais achar vaga dentro do mercado > surgem elegantes cristãos de esquerda que finalmente conseguem cargos como intelectuais públicos.
Muitos "intelectuais de direita/esquerda" sequer se importam em estudar alguma coisa do seu espectro. O papel deles sequer é pensar, é apenas concordar e discordar com base na escolha política do grupo que lhes acolheu. Grande parte da "galerinha" está ali para apoiar tudo que grupo A/B diz e odiar tudo o que grupo A/B diz. Qualquer coisa, só botar uma narrativa no meio e seguir com a vida.
Mesmo aqueles que discordarem pontualmente, escolherão manter as posições majoritárias e as críticas para si mesmo, visto que assim não perderão mercado. É por essa razão que intelectuais de esquerda ou de direita se recusam a discordar do Lula ou do Bolsonaro, visto que isso levaria a perda de consumo das suas obras e até mesmo colocaria em risco a sua capacidade de viverem só das suas obras intelectuais. O que pode levar até uma prostituição e um estímulo da falsificação em vez do posicionamento intelectual crítico e honesto a respeito do que se pensa. O espetáculo de "intelectuais prodiosos" que usam as suas cabeças apenas para passar pano para o próprio lado e para atacar tudo o que o outro lado diz é cada vez maior. O revisionismo histórico, de esquerda e de direita, se tornou uma indústria bastante lucrativa.
Toda vez que ver um "intelectual", que diga ser "parceiro e amigo" da sua causa, pergunte-se: "essa pessoa está lendo uma série de livros sobre o assunto e até produzindo conteúdo que passe o legado intelectual para frente?". A resposta será, na maioria dos casos, um sincero e singelo NÃO.
Existem, no Brasil contemporâneo, inúmeros "intelectuais de esquerda/direita" que são completamente inúteis e que não constroem absolutamente nada. Eles também podem mudar de lado conforme as flutuações que o mercado apresenta.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Desmistificando a Cultura Channer
— A cultura channer é de direita!
Não, não é. Existem chans de esquerda. Um exemplo disso é o leftypol (esquerda politicamente incorreta), cuja dona é uma mulher trans de esquerda. Outro fato: o 4chan não proibe discursos de esquerda. Ele é um local com várias pessoas de esquerda. Tanto que foi hackeado por membros da Soyjak Party por ser progressista demais.
— A cultura channer é misógina!
Falsa correlação. Existem chans criados por mulheres. Um exemplo disso, já nacional, é o magalichan. Esse chan é um chan de mulheres onde homens são proibidos.
— A cultura channer é LGBTfóbica!
Falsa correlação. O próprio 4chan tem uma board /LGBT/ onde vários usuários estudam teoria queer e feminismo.
— A cultura channer é radical!
Mais ou menos. A cultura channer é um espectro. Existem membros mais radicais, membros menos radicais. Claro, é evidente que já ocorreram crimes provindos de chans. Porém isso não é um fato absoluto. Hoje em dia, cometer crimes — tenha em mente a constituição dos Estados Unidos — no 4chan (o maior chan do mundo) é proibido.
— A cultura channer é limitada!
A resposta é não. A cultura channer apresenta uma diversidade de gêneros textuais, uma quantidade enorme de criadores de conteúdo, um universo inteiro. Tenha em mente que channers contam com um aplicativo/site de namoro chamado Duolicious. E um ponto importante: uma grande parte da userbase do Duolicious é trans e bissexual/pansexual.
Além disso, a cultura channer criou histórias épicas como a SCP Foundation, memes e tantas outras coisas. Fora isso, conta com uma filosofia esotérica triádica:
Kekismo Esotérico;
Magolosofia;
Kantianismo esotérico.
Esse sistema de pensamento é um sistema gnóstico operacional de originalidade e complexidade ímpar. Sem estudá-lo, você perde 99% da compreensão channealógica. Jogue esses arquivos numa IA para compreender:
https://drive.google.com/drive/folders/1XrJj772czH4OPLsUZjLDwZlh6vszzcOo
— A cultura channer contém fóruns perigosos!
Sim, toda comunidade apresenta conteúdos perigosos, mas não pode ser resumida a isso. Além disso, a cultura channer não se resume a fóruns:
Fórum: imageboard ou outros tipos de fóruns (vide o fórum da Encyclopedia Dramatica);
Grupos do Facebook, Discord, Telegram, Teleguard, (entre no /soc/ do 4chan), etc;
Perfis individuais de channers;
Canais do YouTube: Pezle, Midnight Broadcast e It's Rucka (Rucka Ali) são exemplos notórios;
Cartunistas (Stonetoss é o mais famoso);
Servidores piratas de jogos;
Bibliotecas;
Comunidades no Reddit como r/greentext, r/4chan e o r/4tran;
Wikichans como Encyclopedia Dramatica e Wikinet;
Centros educacionais como o /lit/, o /mu/ e tantos outros;
Centros operacionais como /qresearch/.
Ser channer é mais um espectro identitário do que ser membro de um fórum, visto que existem vários locais de atividades channealógicas. Logo é um ecossistema. Se você não vê esse ecossistema, você não vê a cultura channer em si.
— A cultura channer é burra
Não, não é. Vejas as wikis educacionais do 4chan:
https://lit.trainroll.xyz/wiki/Recommended_Reading/Non-fiction
https://4chanmusic.miraheze.org/wiki/Sticky
https://4chanint.miraheze.org/wiki/The_Official_/int/_How_to_Learn_A_Foreign_Language_Guide_Wiki
— É muito fácil ser um channer
Errou feio. Para ser um channer real você precisa estudar a cultura channer, aprender os estados channealógicos (channealogia, antichannealogia/mesochannalogia, esochannealogia), dominar as oito máscaras, dominar a esochannealogia (kekismo esotérico, magolosofia e kantianismo esotérico), os gêneros textuais, navegar pelos diversos espectros channealógicos, dominar os gêneros literários channealógicos (greentext, copypasta, creepypasta, GT, SCP, wiki, satirical wiki, etc), aprender a arte da ironia channer, aprender a usar várias escolas de pensamento, etc.
Você não aprende isso facilmente.
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
Acabo de ler "Teologia do Domínio" de Eliseu Pereira (Parte 6)
Nome:
TEOLOGIA DO DOMÍNIO: UMA CHAVE DE INTERPRETAÇÃO DA RELAÇÃO EVANGÉLICO-POLÍTICA DO BOLSONARISMO
Autor:
Eliseu Pereira
“O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias” (Jair Messias Bolsonaro)
A ideia de que uma maioria cristã pode colocar "leis compatíveis com as suas crenças" é bastante falha. Em primeiro lugar, não há uma unidade doutrinal dos cristãos brasileiros. Em segundo lugar, isso feriria a própria laicidade do Estado. Em terceiro lugar, isso fere o Brasil enquanto país plural. Em quarto lugar, os não-cristãos seriam oprimidos por uma maioria.
O objetivo dos evangélicos no Brasil é colocado numa frase bastante esclarecedora:
“Eles desejam ‘restabelecer’, por meio da conversão individual, da inculcação da moral cristã, do uso da mídia e da participação direta nos poderes políticos constituídos, uma espécie de neocristandade, a dominação cristã do Estado e da vida privada” (Mariano)
O objetivo de construir uma nação evangélica e construir uma neocristandade é um objetivo totalitário. O maior inimigo dos humanistas e democratas no Brasil não é, como muitos creem ser, o fascismo ou nazismo. Esses grupos (fascistas e nazistas) são meramente minoritários e estão perdidos em algumas células de radicalidade. Não entram na maioria da população. Se há um inimigo poderoso o suficiente para arrombar as portas do Estado e remodelar o país num projeto totalitário, esse inimigo seria a Teologia do Domínio.
A Teologia do Domínio se utiliza do chamado "cristianismo cultural". Essa "cultura cristã" se oporia radicalmente aos seus "inimigos mais notórios". Esses inimigos notórios seriam humanistas e comunistas. Entram aí uma série de movimentos que estariam travando a cristianização total da sociedade. Para vencer, se faria necessário uma frente que atacasse os inimigos da "civilização judaico-cristã". É evidente que entre eles estariam LGBTs, comunistas, liberais, sociais-democratas, conservadores céticos e tantos outros.
O Estado seria pouco a pouco dissolvido e em seu lugar o poder seria distribuído a uma série de igrejas que desempenhariam o antigo papel do Estado. A minimalização do Estado se daria em paralelo a maximização das igrejas cristãs em poder e influência política. Logo a velha questão teológica (poder espiritual e poder temporal) seria "resolvida" com as igrejas assumindo o poder temporal.
As ideias da Teologia do Domínio são socialmente complicadas. Uma série de grupos se veriam ameaçados pelo seu poder crescente. Só as ideias de teocracia já ameaçam o Estado Democrático de Direito, criminalizando a própria noção de que a democracia se faz com diferentes ideias. Calar as diferentes ideias é uma forma de calar a própria possibilidade de democracia. Além dessa problemática, nos separamos com o fato de que as igrejas assumiriam o poder ao lado de um patriarcado. O patriarcado é uma ameaça as mulheres e aos seus direitos e liberdades. Com o antagonismo crescente de cristãos e LGBTs, vemos também uma ameaça a minorias de gênero e sexualidade.
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
Acabo de ler "INVISIBLES: PROBLEMÁTICAS DE SALUD-ENFERMEDAD-ATENCIÓN DE PERSONAS BISEXUALES" de Osmar e Edgar (lido em espanhol/Parte 1)
Nome:
INVISIBLES: PROBLEMÁTICAS DE SALUD-ENFERMEDAD-ATENCIÓN DE PERSONAS BISEXUALES
Autores:
Omar Alejandro Olvera Muñoz;
Edgar Carlos Jarillo Soto.
Nota:
Essa pesquisa foi feita no México.
A problemática da saúde da pessoa bissexual se insere em um contexto bastante específico. Esse contexto específico é um processo sociohistórico em que a invisibilização e valoração negativa operam como mecanismos antagônicos para regular o exercício da sua sexualidade. O que faz com que indivíduos bissexuais apresentem maiores danos mentais a sua saúde mental que gays e lésbicas.
Os problemas advindos da bissexualidade são particulares. Se a invisibilização das pessoas bissexuais implica em problemas de saúde específicos, então essa deveria ser tratada a partir de um cuidado com a consciência social. Essa questão deveria entrar no âmbito da psicoterapia. O reducionismo nas práticas dos profissionais de psicoterapia pode levar a um agravamento da questão, levando ao fortalecimento das situações de crise.
Os profissionais de saúde devem compreender que estão dentro de uma estrutura social. Essa estrutura social dá suporte a comportamentos adoecedores. Não tratar essa questão de fundamentação sociológica pode fazer com que os adoecimentos continuem por motivos sociais, levando a um empobrecimento das técnicas e avanços dos próprios profissionais de saúde. O profissional de saúde tem, para si, um dever dentro da sociedade. E esse dever não é puramente biológico, mas também sociológico, psicológico e filosófico: o de combater efeitos sociocolaterais de dados comportamentos sociais. A neutralidade – se furtar ao combate intelectual numa sociedade marcada pela injustiça – é uma forma de fugir do próprio dever enquanto profissional. Em outras palavras, a compreensão sociohistórica da formação patológica e seu combate as desigualdades e opressões reinantes não é um mero acessório ou um esforço adicional, mas deve ser uma prática dentro do próprio ofício do profissional de saúde.
Um olhar de ahistoricidade da formação patológica pode fazer com que se preserve uma sociedade adoentada e adoecedora, levando a inutilidade do próprio exercício e função da saúde. É combater os efeitos e não as causas – e grande parte delas são sociais. A saúde é uma necessidade humana, e essa necessidade de saúde não é só física, ela também é mental. É por isso que a saúde tem que ter um esforço para compreender e assimilar explicações sociohistóricas do estado mental das pessoas.
A questão da saúde da pessoa bissexual se aprofunda em múltiplas vias, são essas:
– Invisibilização:
Bissexuais são tratados como inexistentes, o que impossibilita uma identidade socialmente reconhecível. Sendo julgados como homossexuais ou heterossexuais.
– Rechaço na comunidade heterossexual e LGBT:
Bissexuais são atacados por héteros e outros integrantes da sigla LGBT. Seja sendo vistos como traidores, seja sendo vistos como incapazes de um relacionamento monogâmico, seja sendo considerados como "instáveis" por não entrarem no sistema binário (monossexual).
– Inferiorização e Sexualização:
A mulher bissexual corre o risco de entrar na "caçada aos unicórnios" – casais procurando uma terceira pessoa para ménage – ou homens procurando uma "mulher liberal". O homem bissexual pode ser enquadrado como gay ou ser tido como "menos homem" – a masculinidade hegemônica é um esforço contínuo para reforçar a masculinidade o tempo todo, mas essa masculinidade hegemônica é heterossexual, ativa e "macho" (estereótipo) –, o que pode levar a complicações sociais.
A saúde mental das pessoas bissexuais é atacada sempre. Todos os dias. Em todos os locais. Seja no hegemônico (heterossexual), seja no não-hegemônico ou contra-hegemônico (LGBT). A não compreensão desse fator, além de casos mais graves como tentativa de "cura", pode levar ao desencadeamento de crises.
segunda-feira, 2 de setembro de 2024
Acabo de ler "What Is Hegemonic Masculinity?" de Mike Donaldson (lido em inglês/Parte 3)
Em relação ao hétero-patriarcado se pode afirmar que a hegemonia é marcada por uma superioridade, essa superioridade recompensa quem é (heteronormativos) ou quem se assemelha (homonormativos) ao padrão de masculinidade hegemônica. A homossexualidade é condenada em três vias: o homem heterossexual vê como fundamental odiar o homem homossexual; a homossexualidade está ligada a efeminização e vivemos numa sociedade machista; o desejo homossexual é considerado subversivo por si mesmo.
O comportamento homofóbico, bifóbico, lesbofóbico e transfóbico provindo de homens heterossexuais é comum e, até mesmo, recompensado. Desde criança, o homem heterossexual é ensinado que será recompensado por ser hétero e atacado se desviar desse padrão. Ser hétero é uma forma de autojustificação e esse comportamento deve ser ressaltado o tempo todo. Não por acaso, uma das principais brincadeiras é acusar outro homem de não ser "homem suficientemente", acusação do qual o homem acusado deve imperiosamente se livrar. Esse mecanismo, feito a exaustão e todos os dias, leva a um condicionamento mental em que o homem deve ter uma vigilância constante em relação a própria masculinidade – e não uma masculinidade qualquer, mas sim a hegemônica.
O comportamento homossexual é considerado um desvio duplo. Um desvio se encontra no gênero (homossexuais são considerados efeminados) e outro na sexualidade (homossexuais possuem relação com o mesmo sexo). O antagonismo entre heterossexuais e homossexuais é claro: se o poder heterossexual advém do hétero-patriarcado, advém por sua vez da masculinidade e heterossexualidade. O homem homossexual é a antítese do homem heterossexual, ele representa a negação sistêmica dos seus valores e modo de vida. Tal radicalidade, sobretudo em nosso meio cultural, leva a um choque óbvio.
A cultura do homem heterossexual é uma cultura da exaltação da força e do domínio. Essa cultura, nociva e tóxica por si mesma, requer uma constante descarga energética entre si e em outros grupos. A "descarga interna" é um meio de regulamentação comportamental entre os próprios heterossexuais, para reforçar o comportamento hétero-patriarcal. Já a "descarga externa" é correlacionada a demonstração de superioridade do homem heterossexual em relação aos outros grupos, sobretudo mulheres e LGBTs.
domingo, 25 de agosto de 2024
Acabo de ler "Afeminação, hipermasculinidade e hierarquia" de Mozer e Helder (Parte 2)
No Brasil, existe uma hierarquização de performática de gênero. Essa hierarquização tem algumas camadas. Se em primeiro lugar se encontra o homem heterossexual e másculo, em lugares inferiores se encontrariam o homem heterossexual de índole mais tímida e o homem heterossexual menos encaixado nas definições de masculinidade exuberante. Logo viriam os bissexuais que esconderiam a bissexualidade e tomariam uma vida dupla, marcada pela contradição e ocultamento. Também haveria o binarismo do macho/bicha, onde os ativos estariam acima dos passivos, os efeminados estariam abaixo dos machos. Ser macho e ativo seria tudo.
A questão problemática que vemos aí não se revela logo de cara. Ser efeminado não é o mesmo que ser passivo. Ser passivo não é o mesmo que ser efeminado. Aliás, hoje em dia existem muitos heterossexuais que curtem inversão de papéis. Essa ligação entre passividade-feminilidade revela uma inconsciente construção social acerca dos papéis de gênero e, até mesmo, a ideia de que mulheres são inferiores aos homens, visto que são, quase em totalidade, "passivas". A ideia de passividade-feminilidade também traduz um importante conflito de gênero: quanto mais longe um homem estiver duma mulher, mais hierarquicamente bem posicionado ele está. Essa é uma misoginia oculta muito bem estudado pela militância feminista. O que vemos é a valorização de uma figura bem clássica em nosso imaginário social: heterossexual, ativo, masculino e macho.
Como podemos vislumbrar, muitas das vezes o imaginário do homem homossexual ou bissexual se confunde com o imaginário do homem heterossexual. A ideia de superioridade do homem másculo e ativo contraposta à inferioridade do homem efeminado e passivo representa uma reprodução, mesmo que inconsciente, do machismo hétero-patriarcal. Esse inconsciente é fundamentalmente misógino e é um ponto que serve para alienação e incapacitação não só dos homens bissexuais e homossexuais, como da comunidade LGBT como um todo. Ela é uma misoginia internalizada que servirá sempre para se curvar à heteronormatividade. Representa também uma estratificação social em que o macho bi/gay se encontra acima do efeminado, levando a choques internos – além de comportamentos tóxicos – no seio da comunidade.
Acabo de ler "Reflexiones sobre el feminismo y la diversidad de género" de Villón e Cedeño (lido em espanhol/Parte 3 Final)
Nome do Artigo: "REFLEXIONES SOBRE EL FEMINISMO Y LA DIVERSIDAD DE GÉNERO: EL PODER DEL DISCURSO EN LA POLÍTICA PÚBLICA"
Escritores:
Villón Rodríguez Nadia Wendoline
Cedeño Astudillo Luis Fernando
quinta-feira, 22 de agosto de 2024
Acabo de ler "Reflexiones sobre el feminismo y la diversidad de género" de Villón e Cedeño (lido em espanhol/Parte 2)
Nome do Artigo: "REFLEXIONES SOBRE EL FEMINISMO Y LA DIVERSIDAD DE GÉNERO: EL PODER DEL DISCURSO EN LA POLÍTICA PÚBLICA"
Escritores:
Villón Rodríguez Nadia Wendoline
Cedeño Astudillo Luis Fernando
Acabo de ler "Reflexiones sobre el feminismo y la diversidad de género" de Villón e Cedeño (lido em espanhol/Parte 1)
Escritores:
Villón Rodríguez Nadia Wendoline
Cedeño Astudillo Luis Fernando
A justiça de gênero se propõe a eliminar as desigualdades entre mulheres e homens que se produzem e reproduzem na esfera da comunidade, da família, do mercado e do próprio Estado. O projeto feminista não inclui só a luta contra a desigualdade de gênero, como inclui notoriamente a própria comunidade LGBT como uma espécie de pauta conjunta. O projeto feminista é um projeto de promoção das diferentes identidades e orientações sexuais em direção a uma sociedade mais justa. Ela quer não só a igualdade, mas a igualdade diferenciada que equipare outros gêneros e orientações sexuais na esfera do poder.
Para o movimento feminista existe um papel do Estado na organização do poder. O Estado pode ser direcionado, por meio de políticas públicas, a alcançar os objetivos sociais ou pode adquirir um papel de reforçador de desigualdades estruturais. Ou o Estado se dirige para uma direção (mudanças estruturais) ou se conecta com as desigualdades existentes reforçando o polo hegemônico. É preciso reconhecer que historicamente se constrói uma desigualdade em relação as mulheres e aos grupos LGBTs. Um Estado mal direcionado pode ser um Estado que se propõe ativamente na perpetuação da injustiça.
Também é preciso considerar que as mulheres são atacadas por causa da cultura beligerantemente centrada na exaltação da masculinidade e no poder masculino. A exclusão e o ataque a homens homossexuais e homens bissexuais perpassa a violência de gênero: odeiam homossexuais e bissexuais pelo fato deles não serem considerados como adequados as normativas do gênero masculino. Isto é, odeia-se a possível feminilidade – ou o que se crê como feminino – dentro do homem. Logo a violência contra o homem homossexual e o homem bissexual esconde inconscientemente o ódio a mulher. É evidente que, nessa questão, o ódio à comunidade LGBT e à mulher passam por diferentes pontos, mas existem vários cruzamentos que tornam as pautas próximas e permitem uma unidade que, se não completa, dialogicamente enriquecedora.
sábado, 30 de março de 2024
Acabo de ler "Dramaturgia Coletiva no Teatro para Crianças: comunicação em processo" de André Ferraz Sitônio de Assis
Muitas vezes concebemos o teatro para crianças como um produto menor, o objetivo é meramente um entretenimento que deixe as crianças temporariamente quietas e, quiçá, alienadas. Outra forma de concebermos o teatro para crianças é a do espectador-receptáculo que absorve o conteúdo didático de que lhe passamos doutoralmente.
Há algo estranho nessa relação, e aí adentram três questões:
1- Queremos que o teatro infantil seja apenas uma distração para nos dar um descanso a nossa responsabilidade para com as crianças?
2- Vemos as crianças como seres fora da complexidade do mundo em que vivemos e que, por isso, são incapazes de compreenderem os dramas humanos?
3- Queremos gerar pessoas subordinadas às nossas cosmovisões, meros seres-receptáculos que, na medida em que crescem, tornam-se nossa imagem e semelhança no âmbito das ideias?
Indo na contramão dessa tendência, há uma outra opção que no fundo é uma opção política: o teatro para crianças como veículo transmissor dum processo dialógico entre a criança e o adulto. Onde os anseios humanos são tratados como universais e a própria criança está envolta neles. E o processo de construção cênica se dá numa relação de liberdade e construção coletiva em vez de uma programação pregada antecipadamente por um adulto visto como ser superior e condutor do processo.
Se queremos uma sociedade mais libertária e autônoma, onde padrões não são previamente estabelecidos como superiores aos outros, temos que retirar esse "aspecto subordinativo" que sempre aparece: adulto X criança, hétero X LGBT, saudável X doente, branco X negro, são X louco.
Quando criamos um "modelo" ou aceitamos esse "modelo" como critério normalizador, pressupomos uma relação subordinada em que tudo deve copiar exemplarmente esse modelo. A criança se torna melhor quando se torna mais adulta, a pessoa LGBT quanto mais se aparenta com os critérios de heteronormatividade, o negro quanto mais se branquifica, o "louco" quanto mais se aparenta com o "são". Essa relação modelar é uma relação de submissão que deve ser quebrada pela liberdade.











