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domingo, 4 de janeiro de 2026

Acabo de ler "Is this the end of the Liberal International Order?" de The Munk Debates (lido em inglês)

 



Debatedores:

Niall Ferguson

Fareed Zakaria


Intermediador:

Rudyard Griffiths


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX


Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtu.be/pMCiPssEi4Q?si=xwdManw8KtBok6U_


Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Vamos olhar para nossos debatedores brevemente para termos um breve panorama intelectual.


- Niall Ferguson:

Historiador britânico-americano, nascido em 1964 na Escócia. É considerado um dos mais influentes e controversos historiadores contemporâneos. Atualmente é Milbank Family Senior Fellow no Hoover Institution (Stanford) e senior fellow no Belfer Center (Harvard). Autor de mais de 16 livros, entre eles The Pity of War, Empire, Civilization, a biografia de Kissinger (em dois volumes) e Doom: The Politics of Catastrophe.


- Fareed Zakaria:

Jornalista, comentarista político e autor indo-americano, nascido em 1964 em Mumbai (Índia). É o apresentador do programa Fareed Zakaria GPS na CNN (desde 2008), colunista semanal do The Washington Post e autor de best-sellers como The Future of Freedom e The Post-American World. 


Gosto do The Munk Debate. É nele que posso perceber como o debate brasileiro dá voltas em círculos. Muito do debate brasileiro sequer poderia ser classificado enquanto debate. Hoje mesmo, enquanto dei uma olhada em vídeo, vi uma jornalista emitindo uma série de piadas de quinta-série. Ela emitia opiniões, visivelmente bobas, enquanto se considerava o grande auge da direita brasileira. Era como se, no auge da total ausência de criatividade e elegância, ela se julgava de igual para igual a um Gustavo Corção e a um Christopher Lasch.


Não pense você que o "jornalismo" de esquerda não se resume majoritariamente a uma série de posistas que colocam o nariz para cima e julgam-se mais cultos por repetirem padrões mentais do próprio grupo. Grande parte da direita brasileira e da esquerda brasileira se resume a uma série de posistas que repetem o que há de mainstream em seus respectivos grupos.


O blogspot Cadáver Minimal não é underground pois a sua busca é fazer o menor sucesso comercial ou atingir a menor quantidade de pessoas possíveis. O blogspot Cadáver Minimal é underground pois se recusa a se curvar no oceano de mediocridade que se tornou o país. Se vou escrever textos falando de José Luis Romero e Phillip Blond sendo odiado por esquerda e por direita, tanto faz. Aqui o que manda é o interesse REAL pela vida intelectual e não servir aos interesses dos bandos.


Sim, seria muito mais fácil escrever tudo o que agrada a esquerda ou a direita. Seria muito fácil dizer que concordo com tudo que é mainstream na esquerda e na direita. Só que não se trata disso. Não é sobre isso. O leitor já deve ter lido minhas mil e uma críticas ao trumpismo e ao bolsonarismo. Do mesmo modo, já leu eu tirando o sarro da esquerda. Ele já deve ter lido que sou conservador — e de fato sou —, para depois ler eu fazendo elogios a China em alguns aspectos. Trata-se de complexidade. Não sou contra ou a favor em automático e doutrinariamente, eu analiso e digo o que achei bom e o que não achei tão bom assim. É desse modo que aprendi a pensar.


Eu estou aqui para cumprir um irritante papel: o de dizer que existe algo além do que está aí. Essa possibilidade me foi oferecida pela mudança tecnológica ou pela democratização dos meios de produção cultural por causa do avanço tecnológico. Os meus opositores hão de argumentar: esse homem é apenas um channeiro inculto e iletrado que se arroga da liberdade democrática para escrever textos em formato de shitposting conceitual. De fato, graças a Deus. Eu não levo tão a sério as merdas que eu cago. O que me torna, no mínimo, uma pessoa mais autoconsciente do que 99,9% dos paladinos dos bons costumes e da justiça social. No Brasil, todo mundo faz a mesma porcaria. A diferença é que nem todos sabem que o escoamento vai pro mesmo mar. (Leia sobre o saneamento básico no Brasil).


A ordem liberal pressupõe uma cultura liberal onde uma multiplicidade de perspectivas coexistem. A ordem liberal pressupõe uma democracia liberal onde múltiplas linhas de pensamento coexistem. A ordem liberal pressupõe múltiplos meios midiáticos. A ordem liberal pressupõe um Estado de Direito. Se a ordem liberal está naufrando, a estrutura comportamental antiliberal já previamente se estabeleceu a isso. 


Isso nos leva a centralidade: se ninguém quer uma ordem liberal pautada pela multiplicidade de visões, como podemos viver em uma? A ordem liberal, assunto do debate, sempre aparece por aqui. A questão é: existe ou existiu uma ordem liberal de fato? Sim, houve a globalização. Todavia a ideia de várias ordens liberais que compartilhavam o mesmo Estado de Direito e sociedades livres não é algo que se correlaciona em automático com a globalização. Um grande comércio entre as nações? Sim. Um comércio aberto entre as nações? Mais ou menos. Vários países de pessoas livres que possuem um governo baseado em contratos e regras? Não, de vez em quando talvez. Ao mesmo tempo, vivemos em um mundo com menos violência e com mais regras. A ordem — se é que é uma ordem — não é boa, tem seus defeitos e as suas qualidades. Abandoná-la sem saber o que nos espera é tomar um risco. Aceitá-la sem pensar em seus pontos críticos é tolice.


A forma que os adversários debatem é bastante. Se por um lado a globalização trouxe maior qualidade de vida para muitos países, não houve paralelamente uma redistribuição de renda e também não houve um aumento radical da ordem liberal como se pressupunha. Anteriormente, a distribuição de riqueza, a ordem liberal e a globalização eram tidos como fenômenos correlacionados ou parte do mesmo processo. Ao mesmo tempo, as rápidas mudanças sociais geraram ansiedade em muitos povos que encontraram um mundo que lhes parecia instável e incontrolável. Não estou dizendo que a ordem liberal é boa por si mesma ou que a ordem internacional liberal é boa por si mesma. O sistema político democrático, aqui no senso de democracia representativa horizontal, vem sido questionado em prol de uma democracia representativa vertical por causa das constantes cruzadas populistas que invadem a cena pública e depois a cena política.


Falamos sobre mundo cosmopolitano, aberto e plural. Ao mesmo tempo, estamos em um mundo onde se impera uma guerra fria civil. Se a ordem liberal é caracterizada pela convivência não violenta, e até harmoniosa, de diferentes crenças com transferência pacífica de poder... como podemos ter em paralelo a essa ordem liberal uma sociedade que é caracterizada por uma profunda cisão social onde setores da sociedade estão extremamente incomodados um com o outro mesmo que sem um confrontamento direto?


Se voltarmos um pouco mais atrás, vivíamos o período da Guerra Fria (fenômeno essencial para compreender o que é uma guerra fria civil), onde os Estados Unidos e a União Soviética disputavam a hegemonia. Nesse período, houve uma série de conflitos violentos entre as diversas esferas de influência desses dois impérios (mesmo que eles dissessem não serem impérios). Várias revoluções e contra-revoluções foram feitas. No Brasil, tivemos o regime civil-militar, por exemplo.


Ao mesmo tempo, precisamos pensar as seguintes questões:

1. O que substituiria esse arranjo imperfeito? Um modelo hipoteticamente perfeito que pode dar errado?

2. Devemos forçar um sistema político ocidental em países que não querem adentrar nesse modelo?

3. Qual a diferença entre as elites políticas antiliberais e o povo que elas conduzem?

4. A ordem liberal é um bem em si mesmo?

5. O problema é a ordem liberal internacional ou a ausência de ordem liberal nos países que compõem a ordem liberal internacional?

6. O que queremos dizer por "ordem liberal"? Se ordem liberal for só capitalismo e livre comércio, qualquer país pode entrar mesmo que seja antiliberal no sentido político, institucional, jurídico?


A discussão sobre o fim da ordem internacional liberal passa e sempre passará sobre o que definimos como "ordem internacional liberal". Quando os dois debatedores discorrem sobre o tema, eles têm uma posição de conflito a respeito sobre o que é uma ordem internacional liberal. Como já escrevi anteriormente: a ordem internacional liberal pode ser descrita como capitalismo e livre comércio ou como um país com sistema político, judiciário e econômico liberal. Mas aí vem outra questão: a China pode ser descrita como país liberal? Se olharmos para a China, ela não é um país liberal no sentido político ou jurídico. Do mesmo modo, o regime da China é um capitalismo de Estado, um modelo (neo)keynesiano ou aquilo que chamam de socialismo de mercado? Quando entramos em países próximos, como Vietnã e Laos, entramos nessas mesmas questões.


Se olharmos o Brexit, quando o Reino Unido caiu fora da União Europeia, poderíamos pensar em duas hipóteses para ilustrar o caso:

A- A saída do Reino Unido da União Europeia é um caso de ascensão antiliberal, visto que contraria o comércio multilateral como norma;

B- A saída do Reino Unido da União não é um caso antiliberal, visto que ainda é um país com instituições liberais e integrado ao comércio global.


Só que disso surgem outras questões:

1. O multilateralismo é sinônimo de ordem econômica liberal ou um país que faz acordo bilaterais, mas que seja suficientemente aberto, pode também ser considerado como liberal?

2. Estar na União Europeia é o mesmo que estar na ordem internacional liberal e estar fora é o mesmo que estar fora dessa ordem no caso dos países europeus?

3. A União Europeia fortalecer a ordem internacional liberal ou cria um bloco que defende seus interesses que muitas vezes vão contra a ordem internacional liberal?

4. Quando o Reino Unido sai da União Europeia temos uma possibilidade dele se integrar mais a ordem internacional liberal ou temos uma possibilidade oposta?

5. Um país pode ser liberal no sentido político e econômico internamente sem fazer parte da ordem internacional liberal?

6. Um país pode ser integrado comercialmente a ordem internacional liberal ao mesmo tempo que possui uma economia iliberal?


A Ordem Internacional Liberal também traz várias excelentes oportunidades. Isto é, ela possibilita que possamos atuar coletivamente em crises globais. Tratamento de epidemias, crises financeiras, troca de know-how. Muitas pessoas que se opõem a Ordem Internacional Global são mais velhas, mais rurais e menos educadas. Todavia não podemos incorrer no risco de pensar que os opositores a ordem liberal global são automaticamente de esquerda. Muitos dos maiores fundadores e mantedores da ordem eram/são neoconservadores.


Outro argumento central é: pessoas cosmopolitas são favoráveis a ordem liberal internacional. O que seria, então, ser cosmopolita? Um sujeito que lê e estuda conservadores e tradicionalistas americanos, ingleses, espanhóis, italianos, canadenses (e tantos outros) que se opõem a ordem liberal internacional seria um cosmopolita? O que define ser um cosmopolita e o que define ser anti-cosmopolita? Do mesmo modo, a Coreia do Norte não faz parte dessa ordem e é de extrema esquerda.


A conexão com a Internet e o mundo interconectado também trazem várias possibilidades. Estamos consumindo um universo cultural maravilhoso em uma parte. Eu posso ver conteúdo da Argentina, do Canadá, da França, dos Estados Unidos, de Portugal, do Reino Unido. Tudo isso é maravilhoso e okay. De fato, tenho até me tornado mais cosmopolita com o passar dos anos. Porém surgem dúvidas quanto ao sucesso ilimitado dessa fórmula. Fábricas de troll de outros países aparecem para influenciar eleições, radicais ideológicos e religiosos convertem novos membros, países engajam em conflitos xenofóbicos pela Internet. O lado bom e o lado mau precisam ser mensurados nisso tudo.


Outra questão que surge é: o abandono da ordem liberal internacional não é o caminho mesmo da demolição dessa ordem? Quando os Estados Unidos fecha o seu comércio e adota postura nativistas, isso não leva a um posicionamento em que posturas antiliberais — das quais ele mesmo tents evitar — se tornem um padrão? Essa questão é central: se o abandono da ordem liberal internacional representa acidental ou substancialmente abandono da própria ordem liberal interna, é proveitoso, útil e agradável seguir esse caminho? Se acreditamos que o fim da ordem liberal internacional é útil, visto que isso pode levar a preservação da ordem liberal interna, mas paradoxalmente isso leva a destruição da própria ordem liberal interna, não decaímos em uma contradição e autodestruição?


Aqui preciso colocar uma pontuação extremamente necessária a respeito da China. Eu não creio que as falas dos americanos a respeito da China estão inteiramente corretas. O sistema político chinês é, para nós que estamos longe dela, algo que desconhecemos muito e, por outro lado, algo que damos muitos palpites. O que eu vi em canais como o Rise of Asia, recomendado recentemente aqui no blogspot (https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/recomendacoes-cadavericas-4-rise-of-asia.html), é bem diferente do que é conversado no debate. Vale lembrar que a leitura e o entendimento de múltiplos pontos de vista é sempre válida. O "Ocidente" deveria impor o seu modelo político e tomá-lo como universalmente válido? Se sim, até que ponto?


Outra questão que entra é a crise da imigração. Atualmente existe uma dificuldade de integração dos imigrantes. Se a Europa, e recentemente o Canadá e os Estados Unidos, não se lidarem com isso, será difícil que a ordem liberal internacional resista. Outro ponto é: após Estados Unidos e Europa abandonarem a África, a China vem fornecido parceria em infraestrutura e construído um imenso soft power. Muitos falam sobre o "imperialismo chinês", mas quando vamos as incursões da Europa na África, vemos que a Europa agiu violentamente no continente africano. A China está fazendo uma troca tecnológica importante para a África. Até pouco tempo atrás, diga-se de passagem, dizia-se que os europeus e americanos deram importante infraestrutura para países latinos e africanos. Qual seria o problema? Latinos e africanos não aproveitaram para desenvolver as suas próprias capacidades com planejamento de longo prazo. Do mesmo modo, a China aparece na América Latina e na África, de modo absolutamente menos violento, e é acusada de imperialismo. Isso me fez lembrar de uma conversa com um amigo meu. No qual eu disse:

— Esse imperialismo chinês é foda, ele chega com a arma da ferrovia, da troca tecnológica e de parcerias de longo-prazo. Se a China continuar com esse imperialismo todo, logo logo o mundo enfrentará a tragédia de não ter mais fome da África.


Caso recente foi o das tarifas aplicadas ao Brasil — que ferrou mais americanos do que brasileiros —, enquanto os Estados Unidos aplicavam tarifas ao Brasil, a China estava fazendo uma série de projetos no nordeste brasileiro que levavam a sua industrialização. Além disso, a China está em parceria conosco para ferrovias e industrialização. Compreendo que os brasileiros vejam nossos irmãos anglos como dotados de alguma semelhança e parceria estratégica, mas nos últimos tempos a nossa história política vem demonstrado solidamente que a China vem sido uma parceira extremamente mais ousada e solidária.



sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #7 — Erros Históricos




Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Nota: texto expandido para efeito de melhor compreensão.


A direita precisa começar a aprender com os próprios erros.


O bolsonarismo tentou trazer o neoconservadorismo, que havia sido atacado por conservadores-populistas e neohamiltonianos nos Estados Unidos. No período em que há o auge do neoconservadorismo no Brasil (Bolsonaro eleito), o neoconservadorismo é massivamente rejeitado pelos próprios ciclos conservadores americanos.


Do mesmo modo, no período da covid, o bolsonarismo trouxe a mesma prática embusteira de Reagan na gestão da AIDS: teorias conspiratórias a rodo e ausência de forte base científica em suas decisões. A mesma procedência duvidosa de uma direita que cresce a margem da academia e se ancora no populismo e no reacionarismo. Os resultados foram milhares de mortes e o afastamento de vários acadêmicos do conservadorismo.


A UDN errou a trazer um liberalismo do século XIX, datadíssimo, nas eleições contra Vargas. Quando perdeu, contestou as eleições. Isso remete ao bolsonarismo trazendo o neoconservadorismo em vez do conservadorismo populista ou neohamiltoniano e ao Aécio e Bolsonaro rejeitando os resultados das urnas. Se a UDN trouxe um liberalismo do século XIX no século XX, Bolsonaro trouxe um conservadorismo do século XX no século XXI.


Existe um nuance: o discurso bolsonarista é populista, estilo trumpista. A prática governamental é neoconservadora e a militância bolsonarista é associada à direita woke. De resto, em relação econômica, ele foge da Nova Doutrina Econômica Conservadora (American Compass), que é um retorno ao conservadorismo hamiltoniano (o chamado neohamiltonianismo).


O bolsonarismo pega os piores elementos da direita do passado e junta com os piores elementos da direita do presente.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Sociologia Iuris #2: História e Jusfilosofia


 

Diferentes sociedades possuem diferentes normas jurídicas e métodos de procedimento. Só que uma mesma sociedade apresenta diferentes períodos históricos, o que impacta também em sua forma de ver a lei e de aplicar a lei.


— Leis pré-modernas:


— Sistema Inquisitorial (período medieval e renascença):

- Magistrado inicia, processa e julga os casos;

- Acusado é culpado até que prove a inocência;

- Acusações podem ser secretas;

- Torturas eram usadas para extrair confissões.


O magistrado, naquele período, tinha poder em todos os processos. O que lhe dava um poder excepcional. Além disso, o acusado muitas vezes não sabia do que estava sendo acusado. A confissão era a rainha das provas, uma espécie de alto padrão naquele período. Além disso, não era incomum torturar alguém de forma extremamente dura ou longa o suficiente até ela confessar qualquer coisa que ela tenha feito ou não.


— Sistema Adversarial:

- Juízes e jurados ouvem argumentos dos dois lados;

- Acusados eram inocentes até que se provasse o contrário;

- Acusações tinham que ser públicas;

- Torturas eram menos frequentes.


Esse sistema é o ancestral do sistema Britânico e Americano moderno. O poder durante todo o processo não era completamente concentrado. Tinha-se a crença de que era melhor deixar uma pessoa culpada ir livre do que acidentalmente punir uma pessoa inocente.


Os dois sistemas (inquisitorial e adversarial) continham punições brutais, execuções frequentes e várias formas de tortura.


— O Iluminismo  (anos 1600, 1700):

- Mudanças culturais significativas;

- Razão e Racionalidade;

- Equidade Social;

- Liberdade individual.


Foi nesse período em que a ciência realmente começou a crescer e a se desenvolver rapidamente. Além disso, vários questionamentos sociais surgiram. As distinções entre nobres e plebeus foi sendo apagada e uma sociedade de caráter mais fluido foi surgindo. Os direitos se tornaram mais iguais entre as diferentes classes e distinções entre elas foi atenuada. A liberdade individual começou a ser valorizada, com pessoas tendo mais liberdade para escolher como gostariam de viver.


A Declaração da Independência, nos Estados Unidos, baseou-se em ideais iluministas. É por isso que havia a crença de que todos os homens eram criados iguais, que o governo deveria reforçar os direitos individuais e protegê-los. Além disso, as pessoas teriam a liberdade de se rebelar caso os seus direitos não estivessem sendo protegidos pelo governo.


— Cesare Beccaria (1764)


Nesse período, Cesare Beccaria, importante jurista italiano propôs as seguintes reformas:


1. Somente legisladores, não juízes, podem criar leis;

2. A lei será aplicada igualmente para todas as classes sociais;

3. A lei escrita deve ser clara e compreensível;

4. Os acusados são inocentes até que se prove o contrário;

5. Acusações devem ser publicas, não secretas;

6. Punição apenas para dissuasão.


Vale lembrar que, nesse período, aristocratas tinham direitos diferentes. Os documentos religiosos e administrativos estavam em latim, língua não falada pela maioria do povo. Os juízes podiam criar novas leis. Punições não raramente ocorriam por vingança e para entretenimento. As reformas propostas por Cesare Beccaria eram extremamente necessárias para corrigir uma série de imperfeições e injustiças daquele período.


— Jusfilosofia Liberal:


1. Universalismo: a lei é aplicada igualmente para todos;

Não importa a condição de nascimento, não importa a classe social, não importa o lugar de onde se veio.


2. Formalismo: casos são determinados por regras;

As pessoas devem conhecer as regras. Assim elas podem prever acuradamente o resultado de cada lei. A lei deve ser previsível, assim uma pessoa razoável será hábil para antecipar os resultados de suas ações, sabendo quando estão violando e quando não estão violando as leis.


3. Devido Processo Legal: proteções contra falsas acusações.

Separação das acusações verdadeiras das acusações falsas.


Tudo isso faz parte da sociedade moderna. Porém, no momento em que foram propostas, eram radicalmente inovadoras. Agora um pequeno raciocínio:


Jusfilosofia: diz como a lei deve operar;

Ciência (Sociologia Jurídica): descreve como a lei de fato opera.


O quanto da lei moderna, em nossa sociedade, está de acordo com a jusfilosofia?

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Acabo de ler "Teoria Geral do Estado e Ciência Política" de Cláudio e Alvaro (Parte 5)


 

Nome:

Teoria Geral do Estado e Ciência Política


Autores:

Cláudio de Cicco;

Alvaro de Azevedo Gonzaga.


A soberania vem de soberano que, por sua vez, remete ao suserano (senhor). Quando dizemos que o Estado é soberano quer dizer que ele possui o direito de fazer firmar a sua vontade (Direito positivo) em seu território de modo incontestável e sem obedecer a uma instância superior.


Na Idade Média, não havia o poder soberano de um Estado tal como conhemos. A razão é o fato de que o poder era dividido com a Igreja. Logo tínhamos o poder temporal — representado pelo Estado — e o poder espiritual — representado pela Igreja.


É válido lembrar que a soberania busca a adesão dos governados sem o uso de força, usando filosofia, sociologia, teologia ou qualquer forma de justificação teórica para as suas ações. O uso de força, por sua vez, demonstra a sua debilidade e o seu desgaste.


Outro assunto abordado nesse capítulo é a contraposição do direito divino contra a soberania popular. É preciso recordar que o Papa, por exemplo, ainda é empossado pelo direito divino, mas anteriormente tínhamos mais exemplos de direito divino, o absolutismo era justificado teologicamente.


A ideia de soberania popular, criada por intelectuais do século XVII e XVIII faziam referência a República Romana e a Democracia Ateniense. Para eles, o poder vinha do povo e o governador era indicado pela delegação popular (democracia). É nesse período em que a crença religiosa é separada da doutrina política.


Contrapõe-se a ideia de soberania absoluta do governador (absolutismo) e a ideia de soberania popular (democracia) a ideia de que o Estado é por si mesmo soberano. Essa ideia gerou o Estado fascista e nazista, por exemplo.


Hoje existem dois freios centrais as pretensões absolutas do Estado: os direitos do homem (um resgaste do direito natural) para frear o Estado internamente e a ONU para frear o Estado internacionalmente.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Acabo de ler "DEMOCRATIE REPRESENTATIVE ET DEMOCRATIE PARTICIPATIVE" de Alain de Benoist (lido em francês)

 


Nome:

DEMOCRATIE REPRESENTATIVE ET DEMOCRATIE PARTICIPATIVE


Autor:

Alain de Benoist


Nesse texto, Alain de Benoist dá uma verdadeira aula sobre os diferentes tipos de democracia e defende a democracia direta. Alain de Benoist compreende a democracia representativa como a democracia liberal ou a democracia burguesa.


Para ilustrar o caso, os defensores da democracia representativa são Locke e Hobbes. Em Locke, a delegação do poder é parcial, resguarda-se as liberdades individuais. Em Hobbes, a delegação do poder é total. O defensor da democracia direta ou orgânica é Rousseau, para Rousseau a democracia é antagonista de regime representativo. Toda representação representa uma dissolução ou abdicação do poder democrático e da soberania popular.


No regime democrático, a identidade dos governados é a dos governantes, a vontade popular é a lei, há a igualdade substancial dos cidadãos, todos são membros de uma mesma unidade política e observa-se a vontade geral da nação. Essa descrição parece ser abstrata pois está longe da realidade vivencial das pessoas do mundo em que vivemos. Falamos muito da política, mas estamos virginalmente longe dela.


O que temos hoje, nas democracias liberais, é um déficit democrático e uma crise de representatividade (gerada pela lógica mesma da democracia liberal). Ao mesmo tempo, a classe política se tornou uma oligarquia com interesses próprios e indiferente aos fins específicos da atividade política (o de servir aos interesses orgânicos da população). 


Ao mesmo tempo, cresce-se a fala a respeito da legalidade do sistema. As regras jurídicas formais são reforçadas pelo seu mero aspecto legal e/ou formal. O fim específico da atividade política — servir ao interesse orgânico da população — é completamente ignorado. As instituições devem ser respeitadas para existirem por si mesmas, pouco importando se cumpram a sua devida especificação e correlação com os anseios populares. Aparece a legitimidade pela legitimidade, onde cada instituição é respeitável por si mesma pouco importando se ela cumpre a sua devida funcionalidade. A funcionalidade de uma instituição, num país verdadeiramente democrático, não é ditada tão somente pelo seu aspecto legal, visto que é a vontade popular que modifica e controla o seu funcionamento, podendo modificar e controlar até mesmo o seu aspecto legal.


A democracia, quando substancial, correlaciona-se com quatro fatores intrinsecamente correlacionados:

1. A vontade geral;

2. Constituição;

3. As leis;

4.  Servir ao bem comum.

Todavia adiciona-se um fato: a constituição, as leis e o serviço ao bem comum são determinados e modificados pela vontade geral.


A democracia liberal e/ou representativa vem apresentado vários defeitos.  Esses defeitos são de natureza inerente a própria democracia liberal e/ou representativa, mas também gerados em parte pela situação do mundo moderno. Vivemos num mundo de constante mundialização, de transnacionalização, de desintegração das ideologias da modernidade e em que a legalidade institucional vem se tornado um mero simulacro. Os poderes políticos se direcionam para a mundialização e transnacionalização sem se importar com os anseios do próprio povo.


A democracia de base, ou a democracia orgânica, apresenta-se como uma solução: ela aumenta a iniciativa pública e a responsabilidade para com a coisa pública (espírito republicano). A democracia de base ou orgânica pertence a um povo republicano, e um povo republicano é consciente e soberano. Ele pode se manifestar a favor ou contra, dar ou recusar consentimento.


Atualmente, vivemos num mundo com um sistema político liberal. E o sistema político liberal estimula indiretamente uma apatia política, uma abstenção da vontade em prol de gestores, de experts e de técnicos. O que é, em si mesmo, desejável para elites que querem governar sem a anuência e sem a perturbação do povo, visto que atualmente elas não se veem como parte dele.


Alain Benoist apresenta uma possibilidade de resolução de conflitos: a democracia participativa, direta. Visto que participação é um ato individual de um cidadão como membro de uma coletividade populacional. O pertencimento justifica a cidadania, a cidadania justifica a participação.



quarta-feira, 26 de junho de 2024

Acabo de ler "DICTADURAS MILITARES Y LAS VISIONES DE FUTURO" de Gabriela Gomes (lido em espanhol/Parte 1)

 


Chile e Argentina passaram por períodos turbulentos. Esses períodos foram propiciados pelo ambiente inóspito e radicalizado da "Guerra Fria". Para combater a possibilidade duma "revolução comunista", muitos países latino-americanos sofreram golpes militares que propunham uma visão oposta ao regime socialista em vigor na União Soviética. Esse também é o caso do Chile e da Argentina.


No Chile e na Argentina houve a criação da "Doutrina da Segurança Nacional", essa doutrina com tinha uma tentativa de criação de uma "futurologia". Essa "arte" criaria um ambiente propício para uma nação estável e não sujeita a instabilidades em períodos posteriores. Isto é, criaria um ambiente de uma nação que tem estabilidade contínua e não é ameaçada pelas forças do tempo. Essa ideia da criação de um "futuro melhor" norteou as políticas tomadas pelos regimes que então se instalaram e forneceram bases para a sua autolegitimidade.


A ideia de criar uma "nova legalidade" em que os regimes instalados conduziriam pedagogicamente o povo para que esse amadurecesse e pudesse tomar decisões por conta própria não é um capítulo recente da história. Projetos refundacionistas onde o poder é concentrado nas mãos de poucos e esse poucos conduzem o desenvolvimento nacional são capítulos recorrentes na história da humanidade. A questão está na "legitimidade" conquistada através dessa narrativa: a ideia central de que o poder pararia temporariamente nas mãos de tecnocratas iluminados que desenvolveriam o Estado, o povo e a própria infraestrutura em prol dum futuro em que o próprio povo fosse capaz de tomar essas decisões por conta própria.


É evidente que mesmo com isso em mente não havia uma precisão completa nesse arranjo. Os autores desses movimentos não tinham uma unidade doutrinal precisa. Alguns eram mais ligados a ideia de um Estado mais centralizado e dirigente, outros defendiam a iniciativa privada como principal motor da atividade econômica. É evidente que, sobre esse aspecto, existiram lutas internas antes do "programa" ser instalado nesses dois países.

sábado, 15 de junho de 2024

Acabo de ler "En Corea del Norte" de Florencia Grieco (lido em espanhol)

 



O que dizer da Coreia do Norte? Usualmente chamada de "Melhor Coreia", é a queridinha dupla. Isto é, desde a ascensão da Nova Direita Cultural, ela se tornou admirada pelos setores tradicionalistas da QTP e, ao mesmo tempo, ainda é admirada por comunistas de todos os países. Existe até mesmo a noção de que a Coreia do Norte tem valores mais apegados à tradição, à hierarquia e aquilo que usualmente predomina na direita tradicionalista ao mesmo tempo que promove ideias de índole esquerdista. De qualquer modo, isso é assunto para outro texto.


A jornalista escolheu um caminho turvo. Suas noções intelectuais rimam bem com a retórica ocidental moderna, muito mais liberal do que comunista. Graças a isso, vemos o livro com um ar atmosférico duma psicologização que atinge arroubos meteóricos de thriller. Até mesmo quando a jornalista fala sobre a limpeza, organização e ausência de crimes na Coreia do Norte, sente-se no compromisso vital de criticar os aspectos totalitários do país. O país é muitas vezes descrito como "reino ermitão" pelo seu absoluto isolamento. O que o torna de difícil compreensão teórica.


De qualquer modo, a experiência que nossa escritora passou lá é bastante pendente a uma noção bem negativa. Sobretudo quando essa negação se deu previamente através duma linha de pensamento. Não a condeno, visto que também tenho um ar dialético que afasta a maioria das pessoas pelas nuances que minhas análises possuem. A autora fala bastante sobre a hierarquização social e os privilégios da elite, além da separação da sociedade que é fragmentada pela dedicação e apoio que dá ao regime. Como se fosse uma espécie de França pré-revolucionária de três estados, só que agora atipicamente estruturada numa sociedade declaradamente socialista.


A existência de elementos pré-capitalistas em "sociedades comunistas" – encaradas como fechadas – e até mesmo a recriação de fenômenos sociais anteriores às revoluções liberais é amplamente estudada por conservadores e liberais do século XX. Se você juntar os estudos de Eric Voegelin, de Vladimir Tismaneanu e teóricos da Quarta Teoria Política, saberá disso.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Acabo de ler "Em Defesa de Stalin" de Vários Autores (Parte 11)


Essa é a penúltima parte de Emil Ludwig, indo da página 169 à 184. Nesse capítulo, Ludwig analisa o fenômeno bolchevista. Podemos dizer que a sua análise é bastante positiva e ele via com olhos bem treinados a esse fenômeno. Isto é, embora considerasse o empreendimento totalitário e coletivista, acreditava que muitos de seus aspectos eram renovadores e positivos.


Ludwig chega a traçar uma linha de desenvolvimento histórico, colocando o bolchevismo – uma expressão do marxismo – como parte da linha evolutiva das ideias humanas e, por conseguinte, uma concretização das  aspirações da humanidade. Ludwig também dirá que muitas vezes as ideias surgem mais como teses e só posteriormente adquirem forma concreta por meio de uma prática política. Também deixará claro que a forma radical usualmente cai pouco a pouco e é gradualmente implantada por meio de reformas.


De qualquer forma, se pegarmos a Revolução Francesa e os seus lemas, veremos uma incapacidade de realização plena daquilo que a revolução se propôs a fazer. A Revolução Francesa tinha três ideias: liberdade, igualdade e fraternidade. A única que ela pode conceber – e não de modo pleno – foi a da liberdade. E essa liberdade era circunscrita à própria capacidade econômica do sujeito que a exercia. Logo era válida perante a lei e inválida perante a realidade do universo de possibilidades da maioria absoluta das pessoas.


Fundamentalmente falando: a Revolução Francesa fracassou por causa de sua tendência abstrata. A liberdade, a igualdade e a fraternidade professadas eram falhas a partir do momento em que a liberdade era unicamente garantida pela lei e a igualdade era só perante essa mesma lei. A fraternidade em si mesma é impossível no regime econômico liberal. Não há como garantir liberdade sem garantir a igualdade econômica. Uma igualdade meramente perante a lei é uma abstração: o próprio poder econômico corrompe e distorce essa mesma igualdade. Ou seja, o regime burguês falsifica a si mesmo enquanto o regime proletário tenta efetivar concretamente aquilo que se propõe a fazer.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Acabo de ler "Homo Ludens" de Johan Huizinga

 



Essa versão é apenas um recorte que li especialmente para minha licenciatura em teatro. Mesmo não sendo o livro inteiro, deu-me um sabor bastante apreciável e ressignificou muitas de minhas crenças. Creio que até a minha visão de muito sobre "jogos" e "brincadeiras", além de seu funcionamento social e psicológico, foi bastante alterada por essa breve leitura. Pretendo algum dia, quando tiver maior disposição de tempo, ler a versão completa do livro.


Johan trabalha com uma hipótese bem diferente da habitual, mas ela está em paralelo com grandes escritores e intelectuais de sua época. Creio que com a sanha racionalista e o desempenho desmesurado duma crença excessiva pela razão e o seu uso acabamos por perder a própria capacidade do bom uso da razão. Muitos intelectuais levaram os mitos e as religiões para as portas da frente da academia (aqui no sentido de universidade), exemplos esses são:

- Claude Lévi-Strauss;

- Eric Voegelin;

- Johan Huizinga;

- Mircea Eliade.


A sanha racionalista acreditou que poderia desmistificar o homem e traduzir, na Terra, uma forma de homem de razão pura. Um homem absorvido pela atmosfera duma racionalidade objetiva e que encarava o mundo dum modo completamente imparcial. Tal intenção motivou várias escolas de pensamento: positivismo, anarquismo, marxismo, liberalismo, dentre tantas outras. Todavia a ideia de um homem absorvido inteiramente pela potência do intelecto e capaz de dar juízos racionais em absoluta concordância com os critérios da razão suprema nada mais é do que uma construção da própria imaginação humana e, como tal, incapaz de ser realizada na prática – sobretudo tendo-se em conta a própria humanidade inerente ao homem enquanto homem.


Esse texto, por sua vez, apresenta não uma linha de pensamento que defende o aspecto religioso inerente ao pensamento do homem – mesmo que em escala inconsciente –, mas a inerente ludicidade do homem. Ou seja, somos algo além do que seres inconscientemente religiosos, somos seres que brincam inconscientemente. Dar-se conta disso é, mais uma vez, libertador. E espero que um dia que essa percepção seja academicamente mais levado a sério.

sábado, 29 de abril de 2023

Acabo de ler "Marx y los socialismos reales y otros ensayos" de Carlos Rangel (lido em espanhol)

 



De onde vem o ódio a personalidade? Provavelmente de um lado primário e pouco desenvolvido dentro de nós. Historicamente - e biologicamente, aposta o autor - estamos mais acostumados com uma mentalidade coletiva do que com uma capacidade de tomar decisões individualmente. A consciência individual é de origem muito recente.


Sendo a humanidade socialmente forjada, a adequação social se tornou um importante mecanismo para a sobrevivência. Essa busca constante por aceitação se liga claramente com um instinto. E é por isso que, ao buscarmos convalidação, caímos numa retórica tribalista e socialmente idólatra, tipicamente mundana.


Internamente, em sua estruturação primária e primitiva, a humanidade buscará um reforço a unidade primordial em que a coletividade se justificava por si mesma. Onde o peso da escolha individual era inexistente. A liberdade agoniza o ser e o faz buscar instintivamente um passado não tão longínquo onde a consciência individual era inexistente. O peso de ser pode ser diluído na tribalização em que a carga da escolha é, por obrigação, socialmente dividida.


Essa asserção, que talvez seja bastante herética para alguns, é o que guia muito do pensamento de Carlos Rangel. E a sua retórica é muitas vezes guiada por uma defesa da liberdade e da consciência individual, indo contra as fantasias reacionárias tribais de direita ou de esquerda, que sempre ameaçam a liberdade em nome duma fuga coletivista e totalitária.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Acabo de ler "El tercermundismo" de Carlos Rangel (lido em espanhol)

 



O que faz um país ser de "terceiro mundo" ou adotar uma ideologia terceiro mundista? Um livro, escrito quando a União Soviética ainda existia, tenta responder essa questão pela visão de mundo liberal. A forma com que ele encara é distinta: em sua visão, o capitalismo é sempre uma revolução permanente nos meios de produção, muito mais radical que a do socialismo.


Já tinha lido anteriormente um livro de Carlos Rangel, todavia este se encontrava em português. Resolvi ler um livro em que o autor escreve em sua língua nativa. É até estranho pensar que Carlos Rangel, Nicolás Maduro e Hugo Chávez nasceram no mesmo país: a Venezuela. Como uma terra, hoje conhecida por seu socialismo bolivariano, criou esse liberal? Quiçá uma ironia da vida. 


Segundo o autor, o socialismo surge da mentalidade coletivista e tribal anterior ao pensamento individualista atual. Isto é, o socialismo seria uma forma de retornar ao estado primário em que a individualidade ainda era inexistente. As pessoas buscam apenas subterfúgios sociais para não encarar o peso de sua própria existência e caem em tribalismos coletivistas (socialismo e fascismo), desta forma: o socialismo seria uma fantasia reacionária.


Segundo Rangel, o capitalismo é ditado por círculos - e isto também acreditou Marx - e quando esses chegam em sua saturação, faz-se necessário uma revolução brutal na forma com que se produz. Essa seria, por sua vez, a forma com que o capitalismo revoluciona permanentemente a forma de produzir. Isto é, não há e nem haverá capitalismo afastado da revolução. Desta forma, o capitalismo será uma mentalidade eternamente revolucionária.


Um livro bastante interessante que não poderia ser inteiramente captado por uma análise tão diminuta, recomendo a leitura do livro. Gosto muito da forma com que Rangel escreve.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Acabo de ler "Governo Lula e Dilma: O Ciclo Golpeado" de Vários Autores

 



O debate nacional é sempre, para mim, instigante e necessário. A vida intelectual serve para um "acúmulo assombrativo" que traz uma maior percepção das nuances que estamos dentro, sobretudo de forma inconsciente. Com o acúmulo eruditivo, adentramos num reino de sutilezas que nos dão maior afinidade com a realidade que estamos imersos.

Eu nunca poderia ter compreendido com maior maestria o governo Lula e Dilma sem esse livro. E é interessante observar que as informações dos mais diversos pontos, opostos ou amigáveis entre si, locupleta a nossa capacidade de assimilar a densidade do real. O projeto de conscientização intelectual, além de aumentar a capacidade assimilativa dos movimentos do mundo, também proporciona uma maior palatividade da realidade conforme nos deixa encantados com os processos dinâmicos do universo.

É importante frisar que o projeto de Lula e Dilma se situava numa localidade de maior amplitude das ações do Estado no desenvolvimento nacional. Para tal, o Estado era visto como estratégico na posição do Brasil como nação mais desenvolvida. Graças a isso, o protagonismo do investimento estatal foi colocado como uma das prioridades norteantes dos dois governos.

Também é preciso colocar que: o governo de Temer e de Bolsonaro se pautaram pela menoridade da ação do Estado brasileiro no âmbito do desenvolvimento nacional. Se os dois governos predecessores, de Lula e Dilma, pautaram-se pelo acréscimo da intervenção do Estado: os governos sucessores, Temer e Bolsonaro, fincaram raízes num movimento propriamente oposto em que a atuação estatal era de natureza diminuta.

Outro ponto de importante natureza: os governos petistas se colocaram fortemente na integração regional e numa espécie de bloco contra-hegemônico. A ideia era diminuir o poder dos países dominantes e criar uma ordem de caráter multipolar em que houvesse maior autonomia dos países em desenvolvimento em sua autodeterminação. Disso surge, é claro, uma maior unidade do BRICS como bloco, a integração da América Latina e o contato crescente com países africanos.

sábado, 22 de outubro de 2022

Acabo de ler "Mitos e Falácias sobre a América Latina" de Carlos Angel

 



Achei esse livro ao acaso na biblioteca. Ao contrário do que indica a capa, o fenômeno petista não é analisado. O livro evita muito falar sobre o Brasil, vê o Brasil como algo diferente da américa hispânica. Tanto que, na absoluta maioria das vezes, o termo "América Latina" refere-se quase que exclusivamente ao território hispânico.

Em relação ao conteúdo do livro em si, pude observar uma tendência de crítica voraz não só aos socialistas radicais, mas igualmente aos conservadores caudilhos gerados pela própria desintegração da sociedade hispânica. O autor chega até a se conciliar e defender sociais democratas, muitas vezes sendo altamente elogioso as suas políticas e gosto pela democracia. A sua proximidade para com a esquerda moderada pode ser vista até maior do que pela direita enquanto tal em certos pontos.

O trabalho nesse livro é determinar as raízes dos problemas da américa hispânica. Isso o autor fará metodicamente, procurando razões que precedem até mesmo a descoberta da America. Uma das principais era a busca dos europeus por um local impoluto em que a pureza original prévia ao pecado original tinha permanecido intacta. Local que se pensou ter achado com a descoberta da América. Vem daí o indigenismo latino americano. Há também críticas sobre a fragmentação territorial da America Hispânica e a forma com que a ausência de integridade das instituições gerou um vácuo de poder que só poderia ser preenchido por quem tivesse maior força bruta (o que explica a origem dos caudilhos).

Um dos pontos que o autor baterá é a forma com que se sucedeu a revolução anglo americana (para preservar direitos) e a revolução hispânica americana (para conquistar direitos que não estavam acostumados a exercer). Parte também daí diferenças substanciais que marcam seus percursos políticos.

No geral, achei um livro bastante interessante e de argumentação rica. Pode ser um pontapé para quem quer aprender mais sobre nossos queridos companheiros.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Acabo de ler "Trinta Anos esta Noite" de Paulo Francis

 



Nada mais memorável do que aprender com um mestre morto. A memória dos contemporâneos é fantástica, mas não chega a ter o grau e estatura de inteligibilidade de alguém que viveu, de fato, o período histórico analisado. Embora que se deva recordar: a vivência não condiciona um modo de se ver o mundo de forma uniforme.

No livro, Paulo Francis conta-nos de suas ilusões. Como a sua mentalidade foi mudando, da esquerda para direita, conforme ia envelhecendo e vendo os efeitos da iniciativa privada nos países desenvolvidos. Fora as suas ilusões com o socialismo, sistema esse carregado de mortes que pipocavam junto com as suas mazelas totalitárias - no final, implodiu-se devido a própria fragilidade de sua economia e baixa adesão do povo ao sistema. Não só isso: vemos como Paulo Francis acompanhou as mudanças do país, sentindo-as na pele.

Quem não se apaixonou pela situação política? Quem não se encantou por ideologias? Ah, o eterno amor por essa religião civil, temporal e que sempre nos encanta com a possibilidade dum paraíso terrenal via imanentização escatológica. Coisa bem diagnosticada por aquele que foi um dos maiores conservadores de todos os tempos (Eric Voegelin). Francis nos demonstra, apaixonadamente, como se sentiu em cada momento e como reagiu ou agiu em cada condição.

Francis vai nos falando de sua simpatia por Brizola, que logo descambou em desapoio conforme mudava a sua visão de mundo. O nacionalismo foi algo que perdeu com o tempo também. Reclama da forma estatista que o regime militar adquiriu e como o voto obrigatório mata a democracia brasileira - gente completamente desinteressada pela política nacional vota sem o menor preparo teórico simplesmente por ser obrigada a votar.

Francis fala como é difícil ser brasileiro. Usualmente somos provincianos demais e incapazes de ver o rumo internacional. Além do fator constante de estarmos com ideias abandonadas pelo mundo, sempre pegando o que já foi usado e descartado como referência máxima. Diz-nos que é difícil ser brasileiro sem virar alcoólatra, doido ou acreditar em devaneios. O gosto final da leitura é um enriquecido pessimismo.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Acabo de ler "Dossiê China" do jornal Gazeta do Povo

 



Quando vi esse PDF sendo anunciado, logo pensei que seria uma boa baixá-lo, apesar de eu não ser lá tão chegado ao "conservadorismo-liberal" que domina o jornal Gazeta do Povo. Só que como era um "livro" sobre a China, a curiosidade bateu mais forte.

Pensar sobre a China é sempre algo difícil. Ela vive um regime bem diferente daquele que é vivenciado no "Ocidente" - entre aspas, já que não há um consenso sobre o que seria o "Ocidente" e eu não tenho tempo para discutir sobre isso - e tem valores diferentes dos nossos. Não por acaso, sofro por uma imensa curiosidade pelo o que ocorre lá, informando-me por múltiplas fontes. Não sou um sujeito impressionável, só que a China sempre me impressiona.

Algo interessante de se observar, é que quase a maior parte do livro se passa pelo "regime comunista inicial" da China, sobretudo na era de Mao Tsé-Tung. Talvez seja pelo fato de que nesse período, ela tenha sido mais ferozmente anticapitalista e, posteriormente, tenha aderido a um hibridismo econômico. De qualquer forma, vários planos de Mao Tsé-Tung foram um desastre em níveis gerais: econômicos, humanos, alimentares e ambientais.

Ao terminar o livro, tendo a uma tendência de condenar umas partes do regime chinês atual. Só que não tudo, visto que o livro nem de longe me convenceu a adentrar no universalismo liberal e eu ainda acredito que o regime político depende da autodeterminação dos povos e não em fetiches ocidentais que adquirem tons de universalidade. De qualquer forma, o livro me abriu ao entendimento de alguns erros do regime chinês e até mesmo um tanto de sua história presente e passada.

quinta-feira, 24 de março de 2022

TOLERÂNCIA MODERNA É AUTOMARKETING MORAL DE CHARLATÃES!




Só existe um tipo de aceitação: aquele que você aceita o que rejeita. Quando um esquerdista ou liberal abre a boca para falar de "aceitação", só fala em coisas que ele aceita e quer que sejam aceitas, mas nunca de coisas que não aceita e que, para processos de abertura fática, deveria aceitar. Logo isso não é aceitação, é imposição. Longe de ser uma alteridade, é um imposição em que se força algo que já se crê. Todo discurso se estrutura numa falsidade: além de não ensinar tolerância real, ensina-nos intolerância. Uma pessoa que crê num estado laical, onde a religião é puramente privada e de deliberação pessoal não é uma pessoa tolerante por defender isso, já que defende algo que já aceita e acredita. Tolerância seria ele aceitar que existem estados de índole religiosa e que isso depende da autodeterminação do povo que assim o quis. Seria tolerância se ele aceitasse pessoas de índole monárquica religiosa e aceitasse a ideia de que pessoas podem viver num estado religioso confessional.

TOLERÂNCIA É DIFERENTE DE ACEITAÇÃO!

Toleramos só aquilo que não gostamos, não existe tolerância para aquilo que já aceitamos. Um homem que come tortas de limão por gostar delas não é uma pessoa tolerante com tortas de limão, já que as ama. Do mesmo modo, um homossexual que diz ser tolerante com a comunidade homossexual está em contradição consigo mesmo - como tolera algo que faz parte? Quem pede tolerância, quer que as pessoas que não aceitam o que elas são ao menos a ignorem. Quem quer aceitação, quer que as pessoas que a odeiam as aceitem. Só que quem quer tolerância e aceitação quer, usualmente, uma condição passiva do próximo: ela só recebe o ordenamento daquele que exige, sem que haja um feedback de sua parte.

NÃO CAIA NAS BOBAGENS MODERNOSAS!

Qualquer pessoa que se diz aberta, está fechada. Abertura é um processo de negação de si mesmo, depois da abertura vem a integração: aquilo que se era rejeitado passa a integrar o horizonte de consciência do sujeito. Só que depois que foi aceito, não é mais abertura: tornou-se parte integrante do sujeito. Abertura é sempre negação de si, alteridade para com aquilo ou a pessoa que se nega. O resto é falsidade pura, automarketing moral. E o que define o automarketing moral é a própria falsificação do discurso que altera as coisas do que são para o que gostaria que se fosse. Quando você ver grupos "tolerantes" e "abertos", saiba que não têm nada de tolerância ou abertura.

A COMPREENSÃO DE ATO E POTÊNCIA!

Ato é aquilo que já foi realizado, potência é aquilo que pode ser. Uma árvore é potencialmente uma cadeira até que se torne uma cadeira em ato. Quando se tem uma abertura, "atualiza-se a potência". Aquilo que "poderia ser" torna-se aquilo que "se é". É por isso que a abertura começa com uma negação de si mesmo e depois uma integração que se torna parte constitucional de si mesmo. Só que depois que se integra, não é mais aceitação. Aceitação é processo, depois dela não é mais aceitação, é um enraizamento. Quem fala de tolerância, aceitação e abertura usualmente não defende esse processo para si mesmo: defende-o para o outro, o outro que sempre deve subordinar-se a sua "visão superior de mundo". É um processo de dominação com duplipensar (1984), onde se defende exatamente o oposto do que se defende: "fechamento é abertura", "tolerância é o que se aceita". Uma loucura conduzida em larga escala por charlatães.

sábado, 17 de julho de 2021

SERÁ QUE ME JUSTIFICO DEMAIS?

    

    Acho que um dos pontos que me fizeram recair na pornografia no passado foi o fato de eu me justificar demais para uma aderência normativa.

  1. Já me justifiquei para dizer que "não estudo o tempo todo", como se estudar o tempo todo era algo ruim, como se alguém não pudesse gostar e se divertir estudando;
  2. Isso me levou a uma coisa que me afastou da vida intelectual foi o fato de eu ter contado que às vezes eu chorava quando estudava, tal fato ocorria por eu buscar uma introspecção profunda que me ligasse pessoalmente a vida intelectual. Quando busquei me afastar disso, para supostamente "ser mais homem", afastei-me da vida intelectual;
  3. Já me justifiquei para dizer que não sou religioso - o que anteriormente levou-me à apostasia;
  4. O martírio social é um saco, e todos os dias somos martirizados socialmente para sairmos da autenticidade;
  5. Já me justifiquei dizendo que não sou tão "radical" contra a pornografia.

    Só que eu vi que essa tendência "liberal" e "descomprometida" só me faz voltar atrás. Recentemente percebi que minha cabeça tava tocando funk, uma música de funk sobre sexo por muito tempo - era uma forma de meu cérebro voltar a tendência pornográfica. Agora percebo que certos ambientes levam-me ou induzem-me a comportamentos errôneos. Eu preciso me afastar de coisas que me levem a um comportamento tóxico, tal como alguns fóruns que eu anteriormente frequentava. Parei de seguir uma pá de gente para ter uma vida mais normal e um ambiente mais rico.

AÍ VEM UMA PÁ DE PROBLEMA:
  1. Não pode parar de ver pornografia, pois virou normal pessoas verem pornografia, é só "não exagerar";
  2. Não há problema algum em ver uma mulher como um objeto, já que a visão deturpada pela pornografia se tornou normal;
  3. Certos fatores ficam ainda mais inconscientes do que deveriam, fomos animalizados sem o saber;
  4. Você deve buscar e dizer que gosta de sexo, em todos os momentos, para ser "cool XD";
  5. Se você frequenta fóruns de games, animes ou qualquer outra coisa, você deveria aceitar a galera "liberalniilistaconservadora" (sic) que quer pôr pornografia em tudo e te leva sempre a gatilhos e mais gatilhos de pornografia - saia desses fóruns agora mesmo.

NO FIM, CAÍMOS NA IDOLATRIA SOCIAL!

    Idolatria social? Sim, leiam a "Alma Imoral" do teólogo judeu Nilton Bonder (aliás, é um excelente livro de teologia judaica). A idolatria social é deixar de fazer algo, é deixar de ser, por medo da coação social que muitas vezes parece inofensiva. Você deixa de estudar, mesmo gostando de estudar, por achar que tem que "curtir a vida" - e desde quando estudar não é curtir a vida? -, você deixa de ser religioso por achar que todo religioso é burro e não quer ser mal visto - alô, Santo Agostinho? - e por aí vai. Se seus amigos postam semipornografia no facebook, pare de segui-los. Se você frequenta esses fóruns idiotizantes, caia fora deles.

    Eu tô lendo duas ou três vezes mais do que antes. E tenho lutado contra mim mesmo todos os dias. Esse é o conselho: seja autêntico e sincero para fugir da pornografia. Seja autêntico e sincero para não viver uma vida falsa.