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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Necrológio Cadavérico #7 — O Onanismo Pornográfico dedicado ao Grande Nada

 


Se eu morresse hoje...


Eu percebo atualmente como grande parte das experiências são vazias e grande parte das conquistas se dedicam a uma nadificação. Isso tem muita correlação com o método confessional que resolvi adotar como formato textual dessa série de textos. Eu queria me purificar dos meus pecados e não enaltecer narcisicamente o meu ego frágil. Costumo dizer que às vezes é preciso de que as coisas se quebrem. Às vezes sinto vontade de me quebrar.


Uma pergunta central: "por qual razão escrever em primeira pessoa?". A centralidade aqui está no método: escrever em terceira pessoa, tal como um narrador onisciente e onipresente, cria uma ilusão intelectual de absoluto controle e ausência de erros. O que leva a uma ideia de onipotência e capacidade de corrigir os problemas do mundo. O intelecto, em si, passa a não perceber nada e, inconscientemente, acreditar que percebe tudo. Isso cria uma condição de narcisismo intelectual: bastava fazerem isso que o mundo não seria assim. Eu preferi escrever dum modo em que todas as feridas da minha alma são expostas, completamente nuas, para que o leitor ou a leitora pudesse rir de mim e dos meus pecados. Ou, se tivesse um quê de caridade, compadecer-se da minha dor.


Eu sei se algo da ilusão pornográfica: ela cria a impressão, completamente falsa, que temos mais parceiros sexuais do que realmente temos. O nosso cérebro, dizem alguns especialistas, não diferencia a pessoa da tela e a pessoa que está do nosso lado.  O resultado? Dopamina como recompensa. A pornografia está correlacionada com a falsidade de acreditar inconscientemente que se tem algo que em última instância não se tem. Mas, no fim de tudo, isso não é o mesmo em tantas outras correlações? Do mesmo modo que o intelectual ao escrever em terceira pessoa ele cria inconscientemente a ilusão de ser onipresente, onisciente e onipotente, tal como Deus, o onanista inconscientemente acredita que tem mais pessoas ao seu lado do que de fato possui.


Esse onanismo pornográfico, dentro da sociedade moderna, atinge uma proporção ainda maior. Uma série de relações românticas se constroem visando o bem estar ou um aspecto burocrático qualquer, sendo que o bem estar (que não pode ser confundido com felicidade) é algo passageiro e a burocracia estatal devora o amor com a sua teia de relações jurídicas que atordoam todos os viventes. Quando vejo alguém, vejo em sua sombra a figura do Leviata que a tudo devora, a tudo regula e a tudo dita. Não me parece a busca de construir algo a dois apesar de todas as dificuldades que se erguem e apesar dos momentos de mau-estar que certamente terei.


No mundo moderno, diga-se de passagem, há em nós — em mim, em ti —, a busca por Deus substituída. Deus muitas vezes é substituído pelo romance. Disso surge a paixão que busca na pessoa um retrato perfeito de Deus. O que nos leva — a mim e a ti — a odiar qualquer defeito que aparece e estraga o que deveria ser perfeitamente divino. Esse tipo de relação, tal como observa Robert A. Johnson, está condenada a falhar. Acreditar que está namorando alguém quando na verdade está buscando a Deus de forma completamente deturpada, ao mesmo tempo que pune qualquer desvio do objeto divino indesejado foi o que me fez escrever aquele texto do Funk Buda (https://medium.com/@cadaverminimal/funk-buda-6-paquera%C3%A7%C3%A3o-namoricagem-e-namoricose-dfb84c3b90b9).


Creio que muito da minha vida foi ligado a falsa impressão de ter. Ou a inconsciente impressão de ter, quando na realidade nada tinha. Digo isso de todas as minhas relações passadas. Eu acreditava, de fato, estar namorando aquelas pessoas quando, na verdade, era eu e elas num eterno masturbacionismo infinito até que o castelo de cristal quebrasse com a tormenta do vento da vaidade. Mesmo que o leitor ou a leitora tenha achado que, por algum momento, eu que não sou virgem nem do buraco das orelhas e das narinas, fosse um redpill, incel e MGTOW por ter sido um channer bastante ativo. O que é engraçado: vivo em mais festas do que deveria e me arrependo de 100% das minhas relações sexuais passadas — incluindo as orgias que estive desde os meus dezesseis anos de idade. Essa vida desregrada de bissexual boêmio carregou meu coração de vazio e amargura, agora cai em mim a chuva do arrependimento.


Uma amiga disse para mim que estou me tornando um boomer. De fato, o peso da idade vem me tornado mais conservador, mais religioso, menos apressado com as ideias e menos empolgado para com as novidades. Respondi-lhe ironicamente que escreveria um ensaio filosófico chamado "A boomerização do homem" e cá estou eu ignorando as minhas promessas. Estou realmente pensando cada vez mais em Jesus Cristo, olhando mais para o mundo como um texano republicano olha para um californiano democrata que migrou para o seu estado — e que, por algum infortúnio, votará em democratas para deixar o churrasco texano com sabor da defumação lenta da maconha progressista da Califórnia.


Sim, torno-me eu irremediavelmente mais boomer, mais religioso e mais conservador. Estou com mais gosto de festa junina/julina dentro de uma Igreja do que de um carnaval regado a lança-perfume. Tenho um pessimismo metafísico diante dessas novidades que me aparecem como o novo cajuzinho do verão. Acho uma tolice grande parte dos movimentos que despertam nos jovens alguma atenção, pescarias como redpill, MGTOW e cultura incel são, para mim, cigarros estragados com fumaças intragáveis.


Conforme o tempo passa, vejo que minhas experiências não eram tão geniais como outroramente apareciam. Em vez disso, aparentam-me como um gigantesco onanismo. Tanto que não faço quase nada de novo. Não perderia meu tempo entrando em outra relação frustrada, não perderia meu tempo adentrando em um outro grande movimento, não perderia meu tempo acreditando no marketing e nem perderia meu tempo lendo tanto jornal. Os fatos políticos noticiados pelos jornais usualmente não alteram a percepção de ninguém hoje em dia, visto que há em todo jogo político uma lógica tribal que serve como lente interpretativa de todos os fatos. Além disso, como já escrevi, nada posso mudar visto que sou irrelevante.


Eu fico aqui, lentificando meus passos, lendo assuntos que a ninguém interessa, jogando poucos jogos de videogame ou estudando em cursos de universidades americanas sem dever nada para ninguém. Estou me tornando, pouco a pouco, mais fantasmagórico para os grandes públicos e, por algum motivo, sendo lido por mais gente.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Erotismo, Pornografia e Nofap



   
    Muito se fala acerca do erotismo e da pornografia, creio que seja necessário algumas pontuações para um melhor entendimento dessa questão. Esse texto é um compilado de comentários que reestruturei, adicionando mais comentários, tornando alguns mais elaborados e outros mais explicativos para se tornarem de fato um texto coeso e esse tipo de "coisa" é algo que pretendo fazer mais vezes para fins de maior ilustração. Antes da leitura, já afirmo: esse texto é antipornográfico e tem como fim um afastamento da pornografia. Mais do que uma busca só pelo aumento do entendimento, é uma busca pela luta antipornográfica. Espero que gostem. 

    Erotismo e pornografia estão dentro da sexualidade, mas erotismo está ligado a um enredo em profundidade, enquanto a pornografia é algo mais superficial e direto. Se eu pudesse  simplificar, simplificaria na seguinte forma: imagine, por exemplo, um enredo de curto prazo e um enredo de longo prazo. Cada um terá um nível de complexidade necessária. Ilustrando:
A- (Pornografia): um engenheiro chega na casa de uma mulher, a mulher fica "feliz" com ele e dá para ele.
B- (Erotismo): o percurso seria um desenvolvimento de personalidade centrada nas dificuldades e anseios humanos, em que as relações tornam-se cada vez mais completas  e complexas, o desejo é explorado várias vezes até chegar em pontos culminantes de sexo - que não são centrais, mas encaixados numa estrutura que se complexifica em torno de sólidas relações humanas.

    O objetivo do erotismo não é o sexo divorciado da estrutura vivencial, como faz a pornografia, que é a própria superficialização da vivência sexual, mas trazer o sexo com a tonalidade do real. Isso torna o erotismo em algo muito superior a pornografia, o fim da realidade simulada é a proximidade com o real ou a aparência "bruta" do real, quanto mais complexa, mais realística.  

    A cultura sexual abaixou na medida em que a pornografia tornou-se padrão, pois pornografia é o mais baixo tipo de cultura sexual. A definição de cultura do brasileiro médio é puramente antropológica: cultura é qualquer coisa feita pelo homem. Só que apesar de cultura ser qualquer coisa feito pelo homem, a cultura varia em grau, mas atualmente esse grau é ignorado pela maioria das pessoas. Na ânsia de se legitimar a cultura, na ânsia de democratizar a cultura, acaba-se construindo um mito de que toda cultura possui igualdade epistemológica. E tal mito da igualdade epistemológica nivela tudo por baixo. É por causa disso que alguns equívocos são cometidos e a busca por uma cultura mais qualitativa e de maior "grau de abstração" tende a ser ignorada em nosso país.

    A questão da pornografia, a questão do erotismo, não é problemática por essas duas "serem irreais". O problema não se dá em irrealidade. O problema se dá entre a idealidade, a ideia e a realidade. Podemos tirar bom proveito da ficção se pudermos trazer ela para o âmbito do real. Se entendermos, por exemplo, que a ficção é um conceito apresentado numa realidade simulada, temos aí um bom entendimento. Quando compreendemos que a ficção é, na verdade, a aplicação de um conceito numa realidade simulada podemos compreender o que há de belo e até mesmo aprender com a ficção. Por exemplo, em meu TCC usei o exemplo da HQ "Batman: Piada Mortal" para ilustrar o que era loucura. Acontece que nem todo mundo consegue estruturar a ficção no real por ausência de metodologia intelectual. E parte daquilo que se havia de benéfico na ficção, aquilo que a ficção desejava passar, se é perdido. Um dos principais erros é condenar toda a ficção por simplesmente se juntar a ficção ao lado da baixa ficção. Com a antropologização da cultura, em que tudo tem valor igual, Dostoiévski juntou-se ao Zé da Esquina e com o Zé da Esquina foi desqualificado. Usualmente pessoas que focam na esfera utilitária da vida descartam a alta literatura por não compreenderem que existem níveis de literatura. O problema do erotismo, ou mais exemplificadamente, da literatura erótica, não é o fato dele ser erótico, tal como o problema da ficção não é ela ter um simulacro em vez de realidade: é a forma como o sujeito volta para a realidade depois dela. Se o fim da realidade simulada é apresentar um conceito, uma ideia, que servirá de lição para aquele que a lê: então o sujeito leitor terá que aprender algo ao final de tudo. Essa aprendizagem é o fim da leitura. 

    O problema da pornografia é o prazer imediato ligado a uma experiência com irreal que com o tempo fortalece a necessidade de buscar só o irreal. A pornografia, para se cumprir, sempre exige o mais baixo apelo ao homem. Ela apela aos instintos e tão somente aos instintos. E conforme cumpre a sua função de dar prazer imediato, radicaliza a mente nessa busca de prazer de curto prazo, tornando a mente humana incapaz ou menos capaz de consecução de obras de longo prazo. A grandeza do homem, a principal diferença do homem, está precisamente nessa racionalidade que lhe dá liberdade. Coisas que privam o homem dessa mesma racionalidade acabam por lhes tornar menos homem.

    A ficção é tão alienante quanto pornografia, ler é tão alienante quanto pornografia, orar é tão alienante quanto a pornografia. O problema está na volta da pessoa ao cotidiano: se essa experiência é integrativa na pessoa e no seu mundo global, ela é boa. O problema é que a pornografia não foi feita para participar holisticamente do homem, ela foi feita para tirar esse homem dessa mesma globalidade necessária para toda experiência não alienante. Se uma experiência só serve para o divórcio, se uma experiência só prende para dividir, então ela não é uma boa experiência. A pornografia afasta a pessoa do seu cotidiano, torna-a cega em seu próprio círculo e, portanto, não volta da alienação para a realidade. O fim da alienação é o retorno do ser para a realidade, tornando-o mais integrado a essa mesma realidade. Quando uma experiência se torna determinante e exclusiva, ela atrofia a capacidade de viver a realidade, já que ela se torna uma saída da realidade. 

    Existe uma diferença entre alguém que faz sexo com uma pessoa e alguém que deixa de estudar, de trabalhar, de amar ou qualquer outra coisa para ver pornografia e se masturbar. No primeiro caso, essa pessoa tem uma experiência diluída numa série de outras experiências. No primeiro caso, a vida sexual lhe dá impulso para continuar a viver, já que a experiência sexual lhe integra com uma teia de relações. Enquanto que no segundo caso, uma pessoa tem uma vida que é atrofiada em certo aspecto: a sua sexualidade não é mais parte de sua vida, é em si a própria vida. Para viver a sua sexualidade desordenada, ela precisa se abdicar cada vez mais da própria realidade integrativa da vida. E quando a sexualidade vira uma vida em si mesma, torna-se alienadora: não se pode mais sair dela. O prazer que nos separa da realidade, o prazer que nos impede de viver os múltiplos setores da realidade é um prazer que nos priva de viver. Viver não é sair se masturbando para conteúdo pornográfico.

    Se eu pudesse aconselhar a todo leitor e leitora sobre esse assunto, sobretudo para sair do vício pornográfico, tendo como base o problema do vício em pornografia e o consumo da literatura erótica, eu diria o seguinte:
  1. Não entre em contato com um material erótico se você é viciado em pornografia, ele pode te levar ao retorno do vício, torne-se mais forte antes disso;
  2. Não encare a ficção como algo ruim por ser irreal, mas tente fazer de toda ficção um material concreto para sua própria vida de forma sensata;
  3. O problema não está na viagem, mas sim na incapacidade de integrar essa viagem no restante da vida, se uma viagem é apenas uma fuga, ela deixa de ser boa e se torna razão de uma negação da realidade;
  4. Nem toda viagem é negadora da realidade, nem todo "irreal" é irrealizador;
  5. Dito tudo isso: viva só viagens sadias que se conectem com o restante da vida, aquilo que se conecta com o restante da vida é bom;
  6. Deparar-se com sexo na literatura não é preocupante se o sexo não for objeto idolátrico (idolatria é acreditar pegar algo limitado e o ter por ilimitado), mas sim um mero acidente na obra;
  7. Um "acidente" na obra é algo que existe tão apenas numa trama que envolve muito mais que esse acidente, o acidente não é o núcleo, o acidente não resume a trama em si mesma;
  8. Todavia se você não conseguir escapar desse acidente, se esse acidente como que te "dogmatiza" numa particularidade, se esse "acidente" é para si como que absoluto, você deve evitá-lo, já que ele é "motivo de queda" para você, só que esse motivo de queda só existirá se você for incapaz de controlar o que envolve esse acidente (sexo e pornografia).

    Você não deve se tornar incapaz de, por exemplo, ler um livro de ficção em que em um único momento acontece sexo e, por isso, ir bater uma vendo pornografia. Se você é incapaz de ver um momento erótico numa obra de forma saudável, você deve fugir dessa obra, que no momento é um mal para ti que é viciado em pornografia. Só que o erótico numa obra não deve ser tomado como ruim por si mesmo, nem a literatura deve ser tomada como ruim por ser "irreal". Ter isso em mente ajudará muito no discernimento do espírito.