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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Trumpocracy" de David Frum (lido em inglês)

 



- Livro:

Trumpocracy: the corruption of the American Republic


- Autor:

David Frum


— Considerações sobre a escrita:


Creio que venho me tornado um autor mais lento. Não sei se é o peso da idade. Antigamente era mais apressado. Atualmente gosto de ler e reler, escrever e reescrever. Gosto de revisitar certas coisas também.


O motivo de eu ter inaugurado o "Memórias Cadávericas" foi o fato de que tenho tomado um cuidado maior com os meus escritos, mas ainda sim trazer novos conteúdos. O "Memórias Cadavéricas" permite conteúdo rápido, visto que pego textos pequenos e relanço de forma expandida. Já os conteúdos que requerem maior análise, como as análises de livros, sigo o esquema de escrever, ler, reescrever e ler de novo. A série principal de análise de livros e artigos acadêmicos segue intacta.


Tenho escrito uma série de textos, já em inglês, a respeito das guerras meméticas e suas táticas. Gosto de diversificar o que escrevo. A abordagem que sigo no Medium e no Blogspot são diferentes. Sei que são dois públicos distintos.


Anteriormente escrevia tudo em uma tacada só. Atualmente não faço mais isso. Como uso o blogspot como um armazenamento da minha memória intelectual, acabo por crer que a melhor forma de agir é sempre possibilitar que eu tenha um acervo grande de textos para sempre usar quando for necessário.


Faço isso pois não quero jogar o jogo moderno. As pessoas esperam acelerar o nosso raciocínio para torná-lo frágil. Querem que tomemos reflexões cada vez mais curtas e decisões cada vez mais rápidas. Isso gera grande parte da adesão a discursos fáceis e não embasado em dados sérios. A reflexão deve ser lenta, ela deve digerir os dados e absorver os nutrientes da informação para gerar compreensão. Múltiplas vezes, a pesquisa é substituída pela adesão grupalista a ideias prontas.


O populismo do mundo moderno, sobretudo no Ocidente moderno, é fruto de um despreparo educacional da população. Uma população que pouco lê e o que lê é ligado a uma lógica grupal, acaba por estudar pouco os múltiplos pontos necessários antes da tomada de uma decisão. O populismo que ameaça o futuro ocidental é fruto do abandono educacional que foi dada as populações.


Infelizmente, grande parte da educação midiática que deveria ser dada, dificilmente será disposta para a população. Muito pelo contrário, a guerra fria civil muito provavelmente aumentará e todo fragmento informacional será grupalizado e posto como bala dentro de metralhadoras giratórias da guerra informacional.


Estudar mais, escrever vagarosamente e refletir abundantemente é um antídoto e uma vacina ao moderno tempo. O primeiro passo para fugir do populismo é sair da corrida, caminhar devagar e ver que os corredores estão esbarrando em tudo visto que querem tomar decisões em tempo recorde.


— Irrevogavelmente pessoal:


As análises vem trazido um tom mais pessoal. A resposta para tal condição é simples: sempre me vi como um marginal dentro do cenário intelectual. Não gosto de escrever em terceira pessoa, sinto-me mais impactado quando escrevo em primeira pessoa.


Para mim, a vida intelectual se manifesta por uma intimidade. Estudo pois amo estudar. Não é por diploma (ou validade institucional formal), não é por consagração social. É por um simples amor a vida de estudos. Nunca ganhei "grana" alguma por ser um intelectual. Do mesmo modo, nunca tive que fazer alguma aliança que comprometesse a liberdade analítica que hoje disponho.


É por essa razão que o número de visualizações do blogspot sempre foi, na melhor das hipóteses, tíbio ou baixo. O blogspot Cadáver Minimal existe mais por uma birra minha do que por qualquer outra coisa. Você não vê gente anunciando nada aqui por conta disso. Do mesmo modo, não sou benquisto nem pela esquerda e nem pela direita. O que me surpreende é o fato de às vezes eu ter oitocentos leitores em um único dia.


Além disso, escrever em primeiro pessoa me ajuda a perceber "onde estou" dentro do problema todo. Ao me ver no quadro, vejo que não sou só uma vítima ou um narrador onisciente, mas também, e em grande parte, culpado pelo o que ocorre. A escrita adquire um tom confessionalista e expurga os pecados da alma.


— O que vem me levado até aqui?


No presente momento, as pessoas vêm me dito: "Gabriel, você escreve muito a respeito dos Estados Unidos". De fato, tenho escrito muito a respeito dos Estados Unidos. 


Essa estranha obsessão surge por causa da época transição da hegemonia americana para a hegemonia chinesa. Quero compreender o que está levando os Estados Unidos a decaírem e o que está levando a China a crescer. Além disso, há o chamado "Project 2025", um tema de amplo debate global.


Muitos pesquisadores brasileiros vêm trazido as suas reflexões a respeito disso. Poucos são os que leram os conservadores antitrumpistas. Isso é uma coisa que me traz um certo cansaço para com o debate brasileiro: esquerdistas só leem esquerdistas, direitistas só leem direitistas. É tedioso e enfadonho.


Sim, eu quero entender o que está rolando. Quero entender onde os Estados Unidos estão indo. Ler todas essas pessoas faz parte disso. Preciso entender o que está levando a queda da hegemonia americana, isso traz uma grande lição política. Se não estudarmos isso, enquanto brasileiros, corremos risco de seguir políticas que naufragam o país graças a um modelo que está falindo.


— O estranhamento com a política:


Tenho a vantagem de ser solitário. Amizades corroem a vida intelectual na medida em que impedem as pessoas de fazerem certas investigações e tomarem outras posições na medida em que precisam agradar as suas alianças.


Decisões cada vez mais absurdas, menos baseadas em dados e menos baseadas em estudos. Um afastamento cada vez maior da academia do restante da população. Junto a isso, o apelo popular de políticos antiacadêmicos e anti-intelectuais.


A democracia é o poder popular ou o consentimento da população. Todavia há uma questão: pode o poder ou o consentimento popular estar acima da própria necessidade de uma boa gestão baseada em dados e estudos? Se a população é cada vez menos educada, maior é a possibilidade dela votar e consentir ser governada por políticos "fanfarrônicos" que possuem um forte desprezo pelo letramento. Não só isso, movemo-nos a uma grande época de rupturas institucionais constantes.


O ódio aos especialistas, aos acadêmicos e aos intelectuais condecorado lado a lado com a expansão de teorias conspiratórias como armas políticas se tornou uma constante histórica. Muitos buscam posar de "anti-establishment" para conseguirem atenção popular. A imagem do "sou contra tudo o que está aí" leva a ascensão contínua de autocratas no mundo inteiro.


Nossa vida política não está ligada na expansão de obras de longo prazo, mas na caça de pautas identitárias que surgem como cortina de fumaça. Uma das maiores é o reforço crescente a masculinidade e a feminilidade tradicional. Poderíamos ter passado tempo pensando a respeito da alfabetização, saneamento básico e ferrovias, mas estamos pensando no reforço aos padrões de gênero.


Além disso, devo somar que a tribalização da política leva a uma rigidez de pensamento cada vez maior. Nada é questionado, tudo deve ser enquadrado em uma construção doutrinária-identitária onde pautas são vistas em preto e branco. Logo as políticas não são pensadas de acordo com uma análise sistemática de múltiplos modelos, mas sim em qual "time" estamos jogando e qual é o nosso grau de fidelidade para esse time. 


— Era da Informação:


Um dos grandes erros que as pessoas possuem em relação a era da informação é que a "era da informação" é, por si mesma, a era da "boa informação". A era da informação é, nada mais, nada menos, a era da divulgação de qualquer informação com mais facilidade, pouco importando a qualidade dela.


A questão é: o que aparece com mais facilidade? Informações mais facilmente digeríveis, com retórica simples e narrativas fáceis, ou informações de alta complexidade que requerem uma série de estudos prévios? Esse é um dos motivos pelos quais memes usualmente tomam espaço gigantesco na estrutura narrativa moderna.


O trumpismo e o bolsonarismo, diga-se de passagem, gozam de uma ampla estrutura memética e de um amplo uso de táticas de guerra memética. O meme é facilmente reproduzível, diga-se de passagem. Para a maioria das pessoas, é mais fácil ter uma escolha simples. O meme simplifica.


Essa questão de simplicidade e complexidade sempre abarca o debate público moderno. Tudo deve ser fácil para ser democrático ou deveríamos pedir para que as pessoas se esforcem mais? É estranho como os eventos são. A direita, usualmente vinculada a mentalidade mais meritocrática, utiliza mais amplamente a guerra memética para gerar uma aproximação popular e facilitar o entendimento das suas mensagens. A esquerda, mais naturalmente vinculada a mentalidade mais popular, tenta se vincular a um pensamento crítico (naturalmente mais complexo).


1. Mais pensamento crítico = mais complexidade = elitização da mensagem;

2. Mais memética = menos complexidade da mensagem = mais popularização da mensagem.


Estratégias não são tão simples de entender. E a disposição dos grupos usualmente está mais em "ir com o grupo" do que em uma fidelidade a um aspecto ideológico/doutrinário primário. Primeiro vem o movimento do grupo, depois vem a adaptação intelectual que justifica o movimento do grupo. O livro "The Myth of Left and Right" de Verlan Lewis e Hyrum Lewis explica bem isso.


— O que poderia servir para parar movimentos populistas?


Creio que algo que poderia servir como grande freio seria a leitura e reflexão. Imagino que um brasileiro que constantemente lê e estuda múltiplos livros, com múltiplas lógicas e linhas distintas, é mais capaz de perceber quais políticas são mais necessárias para o bem comum do Brasil. Do mesmo modo, o mesmo é válido para o americano.


Ler múltiplas fontes intelectuais distintas permite uma depuração da informação e capacidade de raciocinar através de múltiplos exemplos. Isso permite pensar sobre "o que eu exatamente concordo ou discordo?". É preciso largar a paixão dos automatismos mentais. Visto que isso leva a um enfraquecimento da capacidade de percepção.


A China consta com uma educação pública cada vez mais forte e bem estabelecida. Enquanto isso, a população dos Estados Unidos conta com uma educação cada vez pior. Fora isso, quem se arrisca a estudar ganha uma enorme dívida estudantil, que é um fator desmotivador.


Quando as pessoas aparecem sendo "pró-China" ou "pró-Estados Unidos", pergunto-me: "você é a favor do quê?". A mesma questão me aparece em relação quem é contra a China ou contra os Estados Unidos: "você é contra o quê?". Em qual parte a pessoa é a favor e em qual parte a pessoa é contra. Isso é importante. Outra coisa importante é saber que nossas opiniões individuais não impactam nos regimes de outros países.


Por exemplo:


- Você é contra a engenharia chinesa?

- Você é contra o churrasco texano?

- Você é contra o modelo educacional americano? Em qual parte?

- Você é contra a culinária chinesa?

- Você é contra a arquitetura americana?

- Você é contra os jogos de videogames chineses?


É evidente que existem, em todos os países, coisas que podemos gostar, amar, odiar ou ser completamente indiferentes. Um sujeito pode ter um Windows (sistema operacional americano produzido pela Microsoft) e jogar Genshin Impact (jogo RPG chinês produzido miHoYo).


O que eu quero dizer é que: não se trata de ser contra ou a favor da China ou dos Estados Unidos, mas equilibradamente pontuar o que gostamos ou não gostamos sem automatismos tribalizados. Não somos uma torcida organizada, somos um país diverso e plural que pode e deve ser aberto para o mundo e se beneficiar do que o mundo tem a nos oferecer.


— Oposição a China:


Grande parte do trumpismo se direciona numa oposição a China. A decadência americana é muitas vezes encarada com um pessimismo simplificador. Em vez de um pessimismo que se recolhe e pergunta "onde eu errei?", há sempre um escape que pode ser feito.


Teorias da conspiração usualmente aparecem como formas de dar uma "simplificada" em acontecimentos complexos. Elas aparecem como um círculo perfeito de culpados pelas crises que se anunciam. A percepção da realidade é, muitas vezes, densa e cheia de erros. Nunca captamos a sua inteireza. Além disso, é mais fácil culpar fatores externos do que a nós mesmos.


É interessante observar como os Estados Unidos impacta o Brasil. Vários brasileiros não só se opõem a China de forma irrefletida, como não estudam as políticas públicas que lá foram usadas. Que importa se uma política bem sucedida seja chinesa, vietnamita, americana, russa, inglesa ou francesa? É preciso olhar para todos os quadros, pegar o que é bom e traduzir para a realidade nacional. Hoje em dia, a China é uma excelente referência em planejamento a longo prazo e poderíamos aprender, e muito, com os chineses.  Não só isso, nosso país é parceiro da China, visto que fazemos parte do BRICS.


A China deveria ser mais lida e mais estudada. Hoje em dia ela vem apresentado grandes avanços que dificilmente serão contidos pelas forças narrativistas. Qualquer um pode ver o milagre da engenharia e arquitetura chinesa. Muitas vezes vejo ingleses e americanos comentando acerca da beleza das cidades chinesas. Não só isso, hoje a China não é só mais a "fábrica do mundo", ela também é o laboratório do mundo, com avanços significativos até em áreas antigamente dominadas por americanos. Nunca canso de avisar isso, embora avise com grande frequência, deveríamos estudar mais a forma com que a China brilhantemente faz planos de longo prazo. 


Muitos dos nossos políticos estão brigando com a China para favorecer interesses de outros países em detrimento dos interesses nacionais. Isso é péssimo para o crescimento do país. Podemos ter críticas ao governo Lula, mas é certo que precisamos olhar mais atenciosamente para NIB (Nova Indústria Brasil). Além disso, o projeto da Ferrovia Bioceânica demonstra que a China é uma forte aliada na infraestrutura nacional. A China tem um importante "know how". Ela tem sido, apesar das visões de múltiplas pessoas, uma aliada enorme. É válido sempre recordar: somos membros do BRICS. 


O que eu entendo é: eu não preciso concordar ou discordar de assuntos internos dos Estados Unidos, China, Rússia, Índia, França, Reino Unido ou qualquer outro país. O que eu preciso ver é o que é melhor para meu país. Bolsonaristas usualmente apelam para "os interesses do Ocidente", mas os interesses dos diversos países ocidentais, em suas diversas diversidades, não podem ser resumidos aos interesses dos Estados Unidos. Exemplo disso é a quantidade de vezes em que a União Europeia se contrapôs as decisões americanas. Um exemplo cabal disso foi a criação do euro que se contrapôs ao dólar.


O Brasil é, por exemplo, um dos líderes mundiais na exportação de comida halal (comida permitida pela lei islâmica). O alienamento e a separação do Brasil dos países islâmicos em prol dos interesses americanos — e também os interesses geopolíticos de Israel — não seria benéfico ao nosso país. Do mesmo modo, exportamos muita soja para a China, para quem o nosso agronegócio exportaria se brigamos com a China em prol do interesse americano? As pessoas que adoram o agronegócio nacional, muitas vezes identificadas com a direita, esquecem-se que uma das nossas maiores compradoras é a China. Além disso, sem países islâmicos, para onde venderíamos a comida halal? Precisamos ter em mente quais são os reais objetivos estratégicos do nosso país.


— Plagiar os Estados Unidos (inclusive em seus defeitos):


A guerra fria civil, que sempre vem acompanhada de boas doses de guerra cultural, vem servido para seitizar e emburrecer o debate público brasileiro. Pesquisas enormes já demonstram a capacidade da mídia em gerar percepções paralelas na qual não se predomina o pensamento crítico e o distanciamento necessário, mas sim a narrativa coletiva que se escolherá como filtro perceptivo para cada fato (ou literal mentira) que se acreditará. 


Grande parte do debate público brasileiro é marcado pela absoluta inépcia de se ter um quadro amplo de referências de todos os quadros. Exemplo disso é ausência de estudo em relação a tradição conservadora Red Tory. Num país onde a desigualdade predomina absurdamente, a tradição conservadora Red Tory possibilitaria um anteparo aos mais pobres e quebraria a noção de que a direita não liga pro pobre. A tradição conservadora Red Tory apresenta suas diferenças nas matrizes do Reino Unido e do Canadá, mas dariam um bom oxigênio ao debate da direita brasileira e do debate brasileiro como um todo.


A grande questão que se apresenta diante de nós é a de um conhecimento mais robusto das tradições conservadoras. Os Estados Unidos construíram uma série de institutos e centros de formação mais conservadores, o que favoreceu o desenvolvimento de uma direita mais letrada e capaz de se lidar com os problemas nacionais. Os conservadores estão acostumados a lerem uma série de livros e pesquisas.


Posso elencar algumas:

- The Heritage Foundation;

- Hillsdale College;

- Hoover Institution;

- American Compass;

- Intercollegiate Studies Institute.


Para termos uma noção disso, basta olhar qualquer episódio do "Uncommon Knowledge" e comparar com qualquer discurso da direita nacional. A disparidade de nível intelectual é absurda. Não há, no Brasil, uma preocupação tão alta de gerar conservadores fortemente letrados. Além disso, o movimento conservador brasileiro poderia ser descrito como Blue Tory, neoconservador ou conservatário em poucos casos. Outras referências e tradições intelectuais conservadoras são massivamente ignoradas.


Conservadores, não raro, orgulham-se de ter um número cada vez maior de jovens de direita. Todavia não se perguntam qual a qualidade formativa desses jovens. Políticas reais devem ser embaladas em estudos, em dados, em produção acadêmica séria. Uma geração de "jovens conservadores" pode ser um desastre se não existir uma formação e cultura acadêmica necessária. Para se estar preparado para os problemas nacionais é preciso de gente que estude e tente resolver os problemas nacionais através de políticas públicas orientadas por dados concretos.


Há no debate conservador brasileiro uma ausência de abertura para outras vertentes conservadoras não americanas. Um dos maiores descasos da nossa direita é a falta de pessoas falando sobre a tradição Red Tory em sua versão inglesa e canadense. Esse empobrecimento termina levando a uma perda de qualidade em nossa compreensão das várias vertentes do conservadorismo.


— Por que tantos brasileiros são trumpistas?


Leio e assisto bastante o debate americano. Tendo uma boa leitura de democratas, republicanos, conservadores e liberais, uma grande pergunta que sempre vem é: por qual razão tantos brasileiros são trumpistas?


Qualquer um que tenha lido conservadores como David Frum, Stuart Stevens, Christopher Buckley e Rick Wilson sabe que Trump não é um consenso nem entre os meios conservadores. O brasileiro, em grande parte, não sabe ler em inglês. Duvido que muitos brasileiros se dediquem ao estudo do debate público americano.


Creio que o que leva o brasileiro a ser trumpista é esse:

Trump = é de direita = é bom.

(O mesmo poderia ser aplicado a grande parte dos antitrumpistas [Trump = é de direita = é mau]).


Um grande questionamento deveria surgir: a direita apresenta múltiplas escolas de pensamento. Um Red Tory não quer o mesmo nível de intervenção estatal do que um Blue Tory, na verdade, ele quer mais intervenção estatal. Do mesmo modo, um paleoconservador não é tão semelhante a um neoconservador, eles são muitas vezes rivais. Conservadores reaganianos muitas vezes se oporam aos conservadores trumpistas em múltiplos casos. Não raro, institutos conservadores americanos divergem entre si.


Trump não é uma unanimidade na direita americana. O fato é: as políticas econômicas de Donald Trump, a sua geopolítica e a sua geoeconomia, aceleram a queda da hegemonia americana e levam a corrosão do império americano. Isso poderia ser motivo suficiente para a esquerda, usualmente antiamericana, ser pró-Trump e a direita, usualmente pró-americana, ser anti-Trump. Só lembrarmos que de janeiro a novembro de 2025, a China registrou um superávit de 1 trilhão de dólares graças ao desastre geopolítico e geoeconômico que está sendo o governo Trump.


Grande parte da comoção pró-americana recente se dá pela aliança histórica que os Estados Unidos construíram com atores que se posicionassem contra a União Soviética durante o período da primeira guerra fria. Ser pró-americano e ser de direita foi algo que foi colocado como natural, óbvio e intríseco. O oposto também era verdadeiro, se a direita apoiava os Estados Unidos (e o regime capitalista), a esquerda apoiava a União Soviética (e o regime socialista). Múltiplos setores da direita profissional — isto é, não meros militantes que não possuem vínculos reais — buscam uma aliança com os Estados Unidos, ou a aparência de uma aliança, para projetar na imaginação pública o antigo cenário da primeira guerra fria. Do mesmo modo, especulam que isso pode dar uma potencial ajuda americana quanto aos seus (potenciais) projetos de poder.


Podemos dizer que o "bloco ocidental" e capitalista, por assim dizer, ainda assume grande importância. Se de fato vivemos na segunda guerra fria, a questão é mais sobre uma ordem multipolar contra uma ordem unipolar. O Brasil, ao integrar o BRICS, faz mais parte do lado multipolar. O bloco multipolar, por sua vez, não é um bloco que é "socialista", mas daqueles que querem uma gestão global pautada em uma maior igualdade entre as nações e, até mesmo, uma maior soberania dos países em correlação aos seus interesses internos (como qual sistema político e econômico adotam ou querem adotar).


Muitas vezes, o brasileiro tem em conta que os democratas estão mais próximos da esquerda e os republicanos mais próximos da direita. O que leva a um adesismo quase automático. Se o brasileiro for de direita, torna-se automaticamente a favor dos republicanos. Se o brasileiro for de esquerda, torna-se automaticamente a favor dos democratas. Essa análise política simplória ignora que existem profundas divisões na política americana, seja na esquerda, no centro e na direita. Além disso, some ao fato de que a esquerda e a direita de lá possuem uma formação e uma forma de agir diferentes das nossas.


O que o brasileiro de direita usualmente não conseguiria explicar é o carnaval de conservadores antitrumpistas. Usualmente o conservador brasileiro segue a tendência que está em voga e aplica sem se questionar as múltiplas variações que existem no conservadorismo americano.


— Um olhar cauteloso para a informação:


O Brasil tem pouco cuidado com as informações. Muitas críticas contra países aliados (como os membros do BRICS), países muito semelhantes a nós (como os países latino americanos) e tantos outros, estão sendo rotineiramente atacados com base em exercícios livres de xenofobia recreativa por interesses políticos excusos.


Vivemos em uma época em que a guerra informacional não é algo episódico, mas cotidiano. Na época da quinta geração de guerra, todo campo é campo de guerra. Uma atenção mais prolongada as múltiplas narrativas e as suas origens não é só uma questão de estudo, mas também de segurança nacional.


Múltiplos países vêm lidado com diferentes guerras informacionais. Essa questão não é uma grande novidade para europeus, russos, chineses, americanos ou canadenses. O Brasil parece estar atrás nessa questão. O que deixa a gente mais vulnerável a todo tipo de ataque. Qualquer tipo de regulamentação parece soar como um ultraje a chamada "liberdade de expressão". Todavia essa "liberdade de expressão" não deveria acolher fábricas de troll ou países estrangeiros manipulando a percepção pública.


Nos Estados Unidos, já é sintomático o poder midiático alternativo. No Brasil, tal tendência está apenas a crescer. O número de seitas disfarçadas de veículos midíatico alternativos ainda não pipocou o suficiente, mas é evidente que o poder público e a opinião pública não estão maduros o suficiente para se lidarem com elas.


O ódio direcionado a estrangeiros ou outros países está aumentando. O ódio entre diferentes regiões do país também. Nos Estados Unidos, as diferenças culturais e as mudanças demográficas são consideradas assustadoras por alguns (e isso foi um fator decisivo para a vitória de Donald Trump).


Quando as pessoas entenderem que a guerra fria civil não é uma única, mas múltiplas, podemos compreender melhor o que nos divide. No Brasil, a guerra fria civil adquire várias expressões. Posso citar algumas:


1. Ideológica: briga entre diferentes grupos de esquerda e direita;

2. Religiosa: briga entre diferentes religiões;

3. Regional: briga entre diferentes partes do Brasil;

4. Geopolítica: briga entre quais são os reais aliados do Brasil;

5. Gênero: a disparidade entre as visões de homens e mulheres;

7. Cultural: o que é percebido como uma cultura de esquerda e de direita;

8. Midiática: alinhamento dos diferentes setores da mídia.


O apaziguamento nacional parece estar distante. Muito pelo contrário, estamos radicalizando a nossa guerra fria civil lado a lado com os americanos.


— Um olhar para o futuro:


Não quis voltar aos mesmos pontos das análises anteriores, visto que seria fazer mais do mesmo. Vocês muito provavelmente leram as duas análises que fiz do Rick Wilson e do Stuart Stevens. Muito provavelmente leram as análises que fiz do Kevin Roberts e Charlie Kirk. Vocês muito provavelmente leram as análises que fiz do Christopher Buckley. Também escrevi análises a  respeito de obras de Mencius Moldbug e Nick Land. Quis voltar meus olhos ao Brasil enquanto lia esse livro para dar um senso de complementaridade e sair da rotina.


Estamos apenas no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, segundo o Project 2025 Observer, o Project 2025 já foi 50% implementado. Nada, por enquanto, indica que a situação será melhor em 2026. Mesmo com o trumpismo aparentemente tendo rompido com o bolsonarismo. O fato da agenda do Project 2025 ter continuado em voga enquanto quase ninguém a olha é a prova disso.


Os Estados Unidos, em sua posição de perda hegemônica, apresenta muitas lições tristes para todos nós. Devemos olhar mais cautelosamente o que ocorre por lá e impedir o mesmo movimento aqui. Sei que isso pode soar chato e que os ânimos estão fervendo, mas chegou a hora de parar isso e chegarmos a uma reconciliação nacional em prol de um Brasil mais maduro e preparado para a arena do século XXI.


Estamos em ondas de ataques revisionistas, revisões evidentes na institucionalidade, ódio em múltiplos grupos, guerras frias civis em multissetoriais. Passando pano para grupos de esquerda e de direita que vivem a base de odiar um ao outro em vez de compreender um ao outro.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Memória Cadavérica #30 — Sobre Christopher Buckley e Rick Wilson

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: creio que quando escrevi essa breve nota, estava lendo "Thank You for Smoking" do Christopher Buckley. Realizei algumas alterações, como deixar o texto maior.


A forma satírica e a escrita do conservador Christopher Buckley é extremamente brutal. Ele apresenta tudo que um conservador deveria ser: inteligente, engraçado, cauteloso em suas posições, além de apresentar uma mistura de cultura popular e erudita.


Uma pena que o conservadorismo letrado se afasta cada vez mais do conservadorismo das massas — veja, por exemplo, o bolsonarismo e o trumpismo. Qualquer conservador como Rick Wilson e Christopher Buckley seria chamado de esquerdista no Brasil pela legião de pseudoconservadores desmiolados.


A geração trumpista e bolsonarista afastarão milhares ou milhões de acadêmicos e futuros acadêmicos que poderiam ter sido conservadores, mas que viram no conservadorismo um carnaval sem fim de teorias da conspiração, negacionismos de todas as espécies, sensacionalismos, produção de pânico moral, ódio às pessoas LGBTs e revisionismo histórico.


Negros terão que olhar para a revisionismo histórico sobre a escravidão, ver-se-ão afastados do conservadorismo. LGBTs, sobretudo pessoas transgêneras, verão o espetáculo LGBTfóbico do Project 2025. Olharão para milhões de mortes na época da Covid, e verão o uso obsceno de teorias da conspiração como tática política. Nada disso é, à longo-prazo, positivo.


Caberá aos conservadores intelectualizados construírem um movimento separado e discreto, longe do bolsonarismo e trumpismo. E, acima de tudo, CONTRA o bolsonarismo e o trumpismo. O que atrará meia dúzia de pessoas verdadeiramente interessadas nas escolas de pensamento conservadoras.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

NGL 8# — Trumpismo e Bolsonarismo

 


Envie as suas mensagens anônimas: https://ngl.link/lunemcordis


Não, de maneira alguma. Nem o blogspot e nem eu. Tanto que eu fui um dos únicos a comentar as obras de três conservadores anti-Trump: 


- Christopher Buckley;

- Rick Wilson;

- Stuart Stevens.


Recomendo o The Lincoln Project no YouTube:

https://youtube.com/@thelincolnproject?si=4_nWKQecO591zAxT


Recomendo também que leia os seguintes livros:

- "Make Russia Great Again" do Christopher Buckley;

- "It Was All a Lie" do Stuart Stevens;

- "The Conspiracy to End America" do Stuart Stevens;

- "Everything Trump Touches Dies" do Rick Wilson;

- "Running Against the Devil" do Rick Wilson.


O que eu sinto pelo trumpismo e bolsonarismo poderia ser descrito como um misto de nojo, de horror e de desgosto. Eu tenho uma absoluta rejeição ao bolsonarismo e ao trumpismo. São dois movimentos extremamente incultos, iletrados, incapazes de gerar algo de bom, útil ou proveitoso aos interesses dos seus respectivos países. São movimentos nauseabundos, isto é, que causam náuseas.


O trumpismo e bolsonarismo não são só nocivos aos Estados Unidos da América e ao Brasil, são nocivos — e extremamente corrosivos — para a própria direita e para o conservadorismo. Além disso, possuem um legado que afastará gerações inteiras da tradição intelectual conservadora.

Memória Cadavérica #24 — ConVERsadorismo Brasileiro


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta a um usuário do Threads.


Conservadorismo ≠ tradicionalismo moral


Exemplo são: Rick Wilson, Stuart Stevens, Christopher Buckley, Nelson Rodrigues, Pondé, conservatários.


Pare de pegar esse reacionarismo pop e achar que tem conservadores, VOCÊ NÃO TEM. Não existe conservadorismo no Brasil, ninguém estuda múltiplas escolas conservadoras por aqui. O que há aqui é, no máximo, um conVERsadorismo de reacionários estultos e sem compreensão do que falam. A maior prova disso é: quase 100% da direita nacional atual é uma DIREITA WOKE.


Ninguém sabe SEQUER a diferença entre:

- um hamiltoniano;

- um Red Tory;

- um federalista;

- um neohamiltoniano (leia American Compass);

- um neoconservador;

- um conservatário.


Leia:

https://www.perplexity.ai/search/2a512747-8387-4cf2-89ff-20f6c03c2e60

(Política da empresa Meta para promover reacionarismo pop)


No máximo, o que há no Brasil é:


- Uma direita woke (pesquise woke right no google, termo que foi inventado pelos próprios conservadores para definir gente mau caráter que se arroga do nome "conservador" pra promover wokismo de direita);

- Um reacionarismo pop;

- Um tradicionalismo hipócrita, burro e capanga.


Ninguém aqui sabe o que é conservadorismo. Ninguém aqui leu múltiplas escolas de pensamento conservador. Ninguém aqui sabe COISA ALGUMA de conservadorismo. Ninguém sabe quem é Christopher Lasch e quem é Patrick Deneen, tampouco chegou a conhecer o conservadorismo anticapitalista que eles representam. Ninguém leu as críticas conservadoras ao Donald Trump de Rick Wilson e Stuart Stevens.

sábado, 4 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #8 — Isolacionismo Pessimista

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Após ver as críticas negativas que se apresentam em quantidade nauseabunda e volumosa, questiono-me a respeito dos (des)caminhos que nosso país toma.


Acusam-me de ser uma nova espécie de Bruno Tolentino, por causa da bissexualidade, da libertinagem e da polêmica. Confesso que sou os três: um bissexual, um libertino e um polemista. Esse tipo de "ofensa comparativa" soa-me como um elogio. Um grande elogio, diga-se de passagem. Bruno Tolentino era cultíssimo. Um dos maiores intelectuais conservadores da nossa história. Tendo sido tristemente esquecido por essa geração de entusiastas que o único modelo de conservadorismo que conhecem é o reaganismo e o trumpismo.


Digo, em minha defesa — ou para mais uma acusação dos meus odiadores —, que quem lê Gustavo Corção, Nelson Rodrigues e Antônio Paim não precisa de figuras extravagantes como Bolsonaro. Estive trazendo mais conteúdo para o debate público do que múltiplos membros da chamada "direita nacional". Embora eu prefira chamá-la de "lobby americano" ou "geringonça tresloucada".


Até o presente momento, creio que eu fui o único que procurou trazer mais sobre a Tradição Red Tory (Conservadorismo Vermelho), sobre o neohamiltonianismo, sobre o distributismo de Chesterton, sobre o rurbanismo de Gilberto Freyre, além de análises mais completas sobre a UDN. Com essa ampla jornada, destaco-me como um dos mais odiados, com desafetos múltiplos na esquerda e na direita. Mesmo que, por algum motivo absolutamente aleatório, minhas últimas três namoradas eram todas comunistas. O que significa que já posso pedir música no Fantástico.


Por influência do meu pai, que era anarquista, e do meu tio, que era comunista, li muitos livros de Marx, Lênin, Bakunin, Proudhon, Kroptokin. Tudo isso já na minha adolescência. Um dos meus vira-latas chama-se Lênin em homenagem ao meu comunista favorito. Enquanto outros rapazes se preocupavam apenas em álcool e mulheres, preocupava-me com o renascimento, com o iluminismo, com as revoluções. Devo dizer que me tornei abstrato. Demasiadamente abstrato. Leio e converso com comunistas e anarquistas até hoje. Deng Xiaoping é pouco lido pelos comunistas brasileiros. Creio que canais como Second Throught e Red Pen demonstra que existem bons comunistas americanos, ambos canais com excelente qualidade.


Em meio a biblioteca, fui descobrindo vários livros. Li Pondé por acaso, depois li Nelson Rodrigues por causa do Pondé. Foram sendo apresentados outros: Theodore Dalrymple foi um que mais li. Natsume Soseki e Haruki Murakami, dois intelectuais fantásticos, foram descobertos por acaso em um passeio na biblioteca — embora não se possa chamá-los de conservadores, são grandes referências para mim. Atualmente leio bastante Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens foram de grande importância para minha formação mais recente.


Quanto as análises da América Latina, José Luis Romero, Carlos Rangel e Ernesto Sabato foram cruciais para para desenvolver muito do que presentemente penso. Carlos Taibo apresenta uma versão fascinante da história da União Soviética, tudo com uma lente anarquista de excelentíssima qualidade. Gilberto Freyre, excetuando-se as questões raciais, apresenta o rurbanismo que é uma das principais formas de redução das desigualdades regionais que já vi.


Em relação as polêmicas, faço todas elas em forma de ato filosófico. A filosofia é, em primeiro lugar, um ato de confissão. Confessar verdadeiramente e sinceramente o que pensa é elementar antes de qualquer construção filosófica. Sem esse requisito, constrói-se uma prisão mental que encarcera a alma nas paredes de uma linguagem que se constrói tão somente para se proteger das agonias do mundo real.


Escrever é, para mim, altamente terapêutico. Um hábito de higiene mental. Todo conservador deve ser, antes de tudo, um conservador da consciência pessoal. Aqueles que pretendem destruir a sinceridade ontológica jamais poderiam ser verdadeiramente conservadores. Muito pelo contrário, atentam contra o principal fator. Juntam-se ao coro que matou Sócrates e depois Jesus.


De qualquer modo, hoje em dia converso mais conservadores americanos, europeus e canadenses do que com conservadores brasileiros. Pouco me importo para os rumos do movimento, também não espero nada de bom. As gestões me parecem mais uma repetição monótona da fórmula reaganiana em economia (neoliberal), uma cópia discursiva da retórica beligerante de Trump e táticas militantes da direita woke. Muito longe do pessimismo, ceticismo e pragmatismo dos grandes conservadores.


Cresci na época em que o politicamente incorreto era predominante na Internet. Via-se uma direita que amava mais livros do que qualquer outra coisa.  O mais odiável era a redução do ser em prol dos bandos. Hoje em dia, a direita brasileira torna a si mesma numa cópia da direita woke americana. Por causa do grande atraso que há no nosso debate público, o termo "woke right" (direita woke) ainda não chegou. A direita de hoje se torna quase tudo que criticou.


Lembro-me que muitos concordavam com a ideia de que só imbecis andam em bandos. E vejam só como é: hoje a direita é uma cópia nefasta da esquerda das massas.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 15)


Livro:

A UDN e o Udenismo


Autora:

Maria Victoria Benevides


O Golpe Branco (queda de Getúlio Vargas) foi o evento mais marcante de 1954. Algumas características desse ano histórico são:

1. Agravamento da crise econômica;

2. Tensões sociais;

3. Intensificação da intervenção militar na política;

4. Radicalização da oposição parlamentar;

5. Aeronáutica investigando o atentado contra Lacerda.


Naquele tempo, Afonso Arinos (maestro da Banda da Música) juntar-se-ia com Júlio de Mesquita Filhos (de o Estado de São Paulo [jornal]) para um encontro com o General Juarez Távora onde pediriam um golpe.


Paralelamente, a UDN fez um processo de impeachment, mas que foi rejeitado pelas próprias parcelas da UDN que temiam a hegemonia do PSD.


Curiosamente, a UDN paulista alertava da atividade pré-revolucionária do sr. Getúlio Vargas. Segundo ela, Vargas preparava a luta de classes.


Aliomar Baleeiro cunha a expressão "mar de lama". Carlos Lacerda caracteriza o governo Vargas como imoral, ilegal, do banditismo e da loucura. Ao mesmo tempo, a Aeronáutica diz que o melhor caminho para a tranquilidade do povo e para manter unidas as Forças Armadas era a renúncia do Vargas. O suicídio do Vargas viria no dia 24 de agosto.


Café Filho assumiria o governo, ele teria uma maioria de tendências udenistas. Colocaria o Brigadeiro Eduardo Gomes como ministro da Aeronáutica.


Vários problemas surgirão a partir disso: 

1. A UDN perderia a sua razão de ser;

2. O partido ficaria marcado por uma sensação de depressão e euforia;

3. O fantasma de Getúlio percorreria as ruas.


Gabriel Passos, um udenista, perceberia na Convenção Nacional que a UDN se tornara uma polia sem correia. Mangabeira diria que o mal de 24 de agosto foi fazer-se revolução pela metade. Em 1955, a vitória da aliança getulista apareceria mais uma vez. No dia 31 de março de 1964, o mesmo grupo de 24 agosto voltaria a aparecer.

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 14)


Livro:

A UDN e o Udenismo


Autora:
Maria Victoria Benevides


Entramos aqui na UDN mais histórica, aquela que marcou a memória nacional. Com a eleição de Vargas, o Diretório Nacional da UDN declara que a subversão social e construção de uma república sindicalista são característicos desse governo.

A UDN diz com orgulho que monopoliza os atos conspiratórios. Seja de forma velada, com militares e a imprensa. Seja de forma aberta/pública, exigindo o Estado de exceção. Tudo isso culminaria no golpe branco que ocorreu em agosto de 1954.

A UDN apresentou a oposição sistemática:
- Agressiva no Congresso;
- Violenta na imprensa;
- Conspiratória nos setores militares vinculados à Cruzada Democrática.

A UDN anunciava:
1. A desgraça da volta do ex-ditador;
2. Denúncias constantes de corrupção administrativa;
3. Necessidade de intervenção militar contra a subversão e a desordem social.

É a efervescência do moralismo udenista, com toda a sua cartola, seu golpismo e elitismo.

Na primeira fila do plenário, com oratória inflamada e por muitas vezes violenta, aparteavam ou discursavam contra o governo a "Banda da Música" da UDN:

- Adauto Lúcio Cardoso;
- Afonso Arinos;
- Aliomar Baleeiro;
- Bilac Pinto;
- José Bonifácio.

Dois casos saltam os olhos:

1. Caso Última Hora: a UDN acusou o jornal de ser financiado pelo governo;
2. Inquérito sobre o Banco do Brasil: a UDN acusou o banco de irregularidades em torno da concessão de créditos e licenciamento para importações.

Enquanto os udenistas do nordeste buscavam uma aproximação do governo, a outra parte se consagrava em um ataque sistemático à política econômica e financeira. Múltiplas condenações foram feitas:

‐ Ao aumento do salário mínimo;
- Avanço do nacionalismo;
- Intervenção estatal;
- Controle do capital estrangeiro.

Em 1952, a UDN defende o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos em nome da Guerra Fria e irmandade continental.

Vários eventos ocorrem em 1953:
- Nomeação de João Goulart para o Ministério do Trabalho;
- Crise econômica, social e política;
- Inflação e declínio na taxa de produção industrial;
- Intensificação dos movimentos reivindicatórios;
- Radicalização da polêmica militar em torno do petróleo;
- Instabilidade governamental.

Veríamos também a ascensão do populista Jânio Quadros em São Paulo. A crescente liderança da UDN carioca. O surgimento do Clube da Lanterna, um clube de militares e civis inspirados na liderança lacerdista, radicalmente anti-getulista e anti-comunista.


Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 13)


Livro:
A UDN e o Udenismo


Autora:
Maria Victoria Benevides


A UDN teve que ver o desmoronamento da tese da "união nacional". Ao mesmo tempo que via a supremacia do PSD, que se aproximava cada vez mais do trabalhismo.

Enquanto isso, a UDN sofria uma metamorfose. Ela tinha a perda da coesão interna, a ambiguidade em sua mobilização, a luta de realistas contra intransigentes. Era encarada tanto pelo povo, como pelos próprios partidários, como "ruim de voto".

Para superar a má fama, a UDN fez várias coligações e alianças eleitorais, sobretudo em estados menos desenvolvidos e mais dependentes do Governo Federal. Falava-se das "derrotas gloriosas", em que se perdia nobremente e ganhava-se moralmente. Perseu Abramo falava sobre a precariedade do programa.

Quando surgiu a luta direta com Vargas, houve uma divisão clara. Vargas queria uma política industrializante, enquanto Eduardo Gomes falava sobre medidas deflacionárias e estabilizadoras. Gomes focou-se na classe média, evitando o pragmatismo político que poderia render mais votos. No fim, Getúlio ganhou 48,7% dos votos e o Brigadeiro (Eduardo Gomes) ganhou 29,7% dos votos.

A UDN elegeu 81 deputados e 45 senadores, 1/4 do total.

Afonso Arinos analisaria a situação da seguinte forma: a UDN ficou marcada pelo legalismo formal e sendo contrárias as reformas econômicas e sociais. Tinha um liberalismo desatualizado, um liberalismo que não era próprio do século XX.

A UDN passou a ser cética quanto as virtudes de uma democracia com ampla participação popular, a contestar os resultados eleitorais.

Aliomar Baleeiro começou a ter uma estratégia de luta para anular as eleições. A propor que o Congresso devesse eleger o presidente através de um sistema colegiado. Adicionando-se também a hipótese de uma nova disputa eleitoral entre os dois mais votados.

A tese da maioria absoluta contou com expressivo apoio na imprensa. Prudente de Morais Neto (Pedro Dantas) do O Estado de S. Paulo e o Pompeu de Souza do Diário Carioca são nomes destacados.

A UDN seguiu com uma mescla de táticas legalistas e golpistas.

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 12)

 


Livro:

A UDN e o Udenismo


Autora:

Maria Victoria Benevides


A UDN teve uma derrota com a eleição de Dutra. Ela considerava que a vitória era moralmente sua. Isso traz uma importante transformação na UDN.


A autora demonstra que a UDN não nasceu como um partido, isto é, como portador de uma missão conjunta e bem determinada. Antes disso, era uma frente ampla e heterogênea, surgida por uma necessidade conjuntural.


Nesse período, a UDN marcou-se pela ambiguidade. Ela tinha a intransigência original de Virgílio de Mello Franco, a fixação juridicista de Prado Kelly e o realismo elegantemente adesista de Otávio Mangabeira e Juraci Magalhães. Tudo isso ao lado do sempre marcante eufemismo elitista e moralista.


Para superar o retorno do Getúlio Vargas e impedir uma aliança entre o PSD e o PTB, a UDN far-se-ia amigável em busca da pacificação nacional e de um plano econômico e financeiro. A incompetência política era justificada em nome da consolidação democrática. A pá de cal foi a segunda aposta no Eduardo Gomes. O retorno de Vargas estava marcado.

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 11)


Livro:
A UDN e o Udenismo

Autora:
Maria Victoria Benevides

A questão da criação da nova constituição foi bastante árdua. É um período marcado pela ascensão do anticomunismo. O quadro é bastante vasto, com udenistas sendo a favor ou contra o direito de greve. A outra grande marca caberia a questão da legalidade do Partido Comunista, com vários quadros divididos.

O cenário eleitoral da UDN era 77 deputados (78 com um da Esquerda Democrática [ED]) e 10 senadores (27,2% do total de membros). A UDN ficou em segundo lugar, visto que o primeiro pertenceu ao PSD. O PSD elegeu cerca de 151 deputados e 26 senadores. Outro partido citado é o PTB, ele elegeu 22 deputados e 2 senadores. O Partido Comunista elegeu 14 deputados e 1 senador.

Na grande comissão, foram 19 pessedebistas (PSD), 10 udenistas (UDN), 2 petebistas (PTB) e 5 de pequenos partidos. A UDN, convém lembrar, tinha como principal inspiração a Constituição de 34. Mas a autora ressalta que o único que permaneceu fiel a proposta de 45 da Frente Ampla foi o membro da Esquerda Democrática, o Hermes Lima.

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 10)


 

Livro:

A UDN e o Udenismo


Autora:

Maria Victoria Benevides


O Governo Dutra (30/01/1946 a 30/01/1951) é interpretado de forma diferente por diferentes grupos. Alguns apontam ele como o governo da união nacional, da pacificação, da estabilidade econômica, do respeito à Constituição.


A autora, por sua vez, traça uma crítica. Na verdade, o governo Dutra seria:

1. Uma coalizão partidária (PSD-UDN-PR);

2. Com intensa repressão ao movimento operário e à atuação dos comunistas;

3. Citando Paul Singer, um governo que elevou a taxa de exploração do proletariado e transferiu para a indústria uma parte substancial da exploração do campesinato;

4. Um legalismo autoritário;

5. Movido pela ordem política e econômica (entenda aqui como defesa do capitalismo).


Olhando a análise do Ricardo Maranhão, pode-se compreender o governo Dutra em dois planos:

- Plano Interno:

1. Vigor do movimento operário;

2. Crescimento do Partido Comunista.

- Plano Externo:

1. Emergência da Guerra Fria;

2. Fornecimento dos elementos ideológicos necessários para associar a infiltração comunista aos movimentos populares;

3. Justifica a repressão às manifestações operárias.


De 1946 até fins de 1947 o governo intensificou as intervenções nos sindicatos. Sofreram com isso a Confederação Geral dos Trabalhadores, MUT (Movimento Unitário dos Trabalhadores), a União das Juventudes Comunistas. Pode-se apontar também a cassação do registro eleitoral do Partido Comunista. Em 1947, o governo rompe com a União Soviética, cria também a Escola Superior de Guerra. A mesma escola que seria responsável pela Doutrina de Segurança Nacional e contra-insurreição. Essas duas últimas, dariam fruto em 1964.

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 9)

 


Livro:

A UDN e o Udenismo


Autora:

Maria Victoria Benevides


A UDN tinha, dentro de si, várias contradições. Ela tinha setores das elites liberais e oligárquicas ao mesmo tempo. Além disso, uma aliança descompromissada com a esquerda. Fora isso, um projeto de poder frágil.


O Estado Novo tinha acabado, mas a estrutura permanecia:

- Máquinas das interventorias estaduais;

- Arcabouço do sindicalismo corporativista;

- Burocracia estatal;

- Fontes de uma ideologia autoritária.


A UDN, pouco a pouco, vai deixando várias de suas pautas que tinham alcance popular. Exemplos dessas pautas são:

- Autonomia sindical;

- Direito de greve;

- Pluralismo sindical;

- Participação dos trabalhadores nos lucros da empresa;

- Ensino público gratuito;

- Previdência social;

- Funcionamento das propriedades rurais não devidamente apropriadas;

- Uma certa intervenção do Estado no campo econômico;

- Igualdade de tratamento ao capital estrangeiro.


Existem múltiplas teses da criação da UDN. Tal como é citado pela autora em diversas partes do livro. Uma tese particularmente interessante é a de Leôncio Basbaum. Essa tese dizia que a UDN nasceu bi-partida. De um lado, havia a esquerda que realmente fundara o partido. Doutro lado, havia a direita que invadiu o partido.


A UDN, de qualquer modo, não percebeu o caráter anti-popular que sua reação às políticas getulistas trazia. Getúlio era sinônimo de aproximação com as massas e de renovação na área econômica. Além disso, com a legalização do Partido Comunista, logo foi-se construindo um eixo de queremistas (pró-Getúlio), comunistas e os novos trabalhistas. Para combater esse problema, a UDN começa a se unir aos militares.


A UDN, marcada por conservadores, liberais e esquerdistas nasceu como uma "frente", uma parceria provisória. As contradições internas não permitiam a estrutura organizacional adequada.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Acabo de ler "A UDN e o Udenismo" de Maria Victoria Benevides (Parte 8)



Livro:

A UDN e o Udenismo

Autora:
Maria Victoria Benevides



Nesse ponto do livro, a autora fala sobre as diversas separações que existiram dentro do movimento. 

A facção mineira aliou-se ao ex-presidente Arthur Bernardes para formar o Partido Republicano. Os grupos de São Paulo, Maranhão (Lino Machado), Pernambuco (Eurico de Souza) o acompanharam. Já o grupo gaúcho (Raul Pillo) formaram o Partido Libertador. De qualquer forma, houve a chamada "Oposições Coligadas" que reuniam UDN-PR-PL.

O Partido Libertador, chamado de ala angélica da UDN pelo Adauto Lúcio Cardoso, acompanharia quase todas as posições da UDN, além da defesa do regime parlamentarista. Já o PR (Partido Republicano) ficaria beneficiando ora a UDN, ora o PSD.

Adhemar de Bardos abandonaria a UDN para fundar em São Paulo o PRP (Partido Republicano Progressista) que posteriormente adquiriria o nome de Partido Social Progressista.

É historicamente interessante observar que udenistas e ademaristas se uniriam entre 1962 e 1964 para falar sobre os perigos do janguismo e da subversão comunista.

Os socialistas da Esquerda Democrática (ED) se separariam da UDN, mesmo com os apelos do Virgílio de Mello Franco, criando o Partido Socialista Brasileiro com a presidência de João Mangabeira.

Virgílio de Mello Franco, um dos principais conspiradores pré-45 e um dos mais inspirados ideólogos da UDN, morreria assassinado em outubro de 1948.