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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 9)

 


Nome:

The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore


Autor:

Egil Asprem


Nessa parte do artigo, Egil Asprem começa a trabalhar mais com os conceitos de carisma (Max Weber) e efervescência coletiva (Emile Durkheim). Como essa parte é bastante curta, surgindo mais como um prólogo da discussão que virá a seguir, não me alongarei muito.


Na parte do carisma, Asprem trabalha com a importância da verve religiosa e discurso messiânico. Na parte da efervescência coletiva, Asprem trabalha a partir dos aspectos das ações coletivas, eventos emocionalmente arrebatadores e experiências na formação de uma identidade compartilhada, na criação de um propósito comum e na feitura de um senso de pertencimento. Em outras palavras, isso formará um subjetivo senso de mistério, a sensação de fazer parte de algo maior, o efeito de estas além do controle dos meros mortais.

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 8)

 


Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore

Autor:
Egil Asprem


O esoterismo kekista, o Culto de Kek, era uma religião que surgiu como instrumento de poder. Misturava ambição espiritual e estratégia metapolítica. 

Lawrence Murray, escritor do "Atlantic Centurion", misturava nacionalismo branco com alt-right. Além disso, trouxe pro movimento a questão da guerra metapolítica (metapolitical warfare). Esse movimento queria vencer na narrativa, usando como ferramenta a linguagem, os mitos e o simbolismo religioso. Uma das referências mais diretas era o hitlerismo esotérico de Savitri Devi. O motivo? Trazer as discussões a respeito da raça, do sexo, da sociedade, da cultura e da fé no Ocidente a partir de sua cosmovisão. A inovação de Lawrence Murray é trocar as referências hinduístas e conceitos esotéricos por uma linguagem budista.

Outra pessoa que se destacaria é a escritora Manon Welles, que escreveu o livro "How To Trump SJWs: Using Alinsky’s ‘Rules for Radicals’ Again". Nesse livro, ela usa as técnicas do Saul Alinsky, um intelectual e organizador comunitário de esquerda. Além disso, ela escrevia o blog "Aristocrats of the Soul".  Uma das maiores ideias era a noção de "Nova Direita + Religião Alternativa". Ela defendia o Donald Trump com ideias tradicionalistas e uma perspectiva mágica, mesclando Julius Evola, com Thelema, com cerimônias mágicas e com uma interpretação jungiana dos sonhos. Sua obra também integrava Austin Osman Spare, Aleister Crowley e Phil Hine. Uma das suas ideias centrais era a da sigilização. Ela acreditava que a emoção coletiva, a concentração e a intensidade poderiam fazer que, mesmo inconscientemente, o símbolo do Pepe como um sigilo mágico.

O autor falará (bem brevemente) da "conspiritualidade sombria". Esse conceito vem a representar a interseção entre o pensamento New Age, movimentos de bem-estar e teorias da conspiração de extrema-direita (tal como QAnon). Ele cita especificamente Franz Bannon e William Walker Atkinson. Como isso não foi substancialmente trabalho nessa parte do artigo, mas levanta uma boa ponta investigação, espero que esse pequeno trecho seja de alguma utilidade. 

Agora já temos três figuras envolvendo o esoterismo channer (sobretudo em seu desenvolvimento do esoterismo kekista):
‐ Lawrence Murray;
- Marron Welles;
- Saint Obamas Momjeans.

É preciso lembrar que Saint Obamas Momjeans fez uma unificação de guerra informacional (information warfare), forma-pensamento, tulpas, egregoras, sigilos, mantras, evocações e estados de gnose.

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 7)


 

Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore

Autor:
Egil Asprem

Nota: estou me focando só no conteúdo em que podemos ter como referência para entender a obra de Saint Obamas Momjeans, o esoterismo kekista e o trumpismo esotérico.

A ideia de magia memética surge na sincronicidade de dados eventos que surgiram como memes nos imageboards e depois tornaram-se reais.

O 8chan tinha duas boards (tábuas) para se pensar e agir a respeito disso: o /bmw/ (Bureau of Memetic Warfare) e o /magick/.

O autor fará uma importante distinção entre aquilo que poderíamos chamar de magia memética tendo como fundamento uma tese mais freudiana, isto é, ligada a ideia de realização de desejos (Interpretação dos Sonhos) e outra ligada a guerra informacional.

As táticas usadas na controvérsia do Gamergate (2013-2014) são elencadas:
- Guerra informacional (infowar);
- Psyops (operações psicológicas);
- Cyber bullying;
- Perseguição online.

Saint Obamas Momjeans, em sua obra, traz um aspecto que lembra muito bem uma fábrica de trolls russa (the Internet Research Agency). Sobretudo na "Intermediate Meme Magic", onde há a utilização de uma weaponização da epistemologia social. O autor chega a chamar a obra de Saint Obamas Momjeans de "textbook of information warfare " (livro didático para guerra informacional). 

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 6)

 


Nome:

The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore


Autor:

Egil Asprem


Nesse ponto, Egil Asprem traça as conexões do Esoteric Kekism. Em primeiro lugar, em 2005, Pepe apareceu no "Boy's Club" do Matt Furie. Em 2010, Pepe aparecia no MySpace, 4chan e Tumblr. Em 2016, Pepe daria as caras no /pol/, com visões de extrema-direita. Em Setembro de 2016, a Liga Antidifamação colocou Pepe como símbolo de ódio.


Como Pepe se tornou o deus egípcio Kek? No jogo World of Warcraft, muito famoso no momento, a risada "lol" era substituída por "kek". A cultura do /pol/ era muito ligada a cultura gamer. Os memes do Pepe apareciam ao lado da shitpostagem (é um nome para merdapostagem, que é um termo para uma grande quantidade de potagens irônicas, insultantes ou ridículas). O /pol/ traçou conexões entre a risada "Kek" e descobriu o Deus do caos da Cosmogonia de Hermópolis. Kek (que tinha forma feminina, chamada de Kauket) era o caos ou as trevas primordiais.


Como as postagens do 4chan são numeradas, números repetitivos são vistos como um sinal de algo. Uma postagem do 4chan conseguiu muitos gets (números repetidos). Essa postagem dizia que Trump seria eleito. Logo Trump foi divinamente selecionado pelo próprio Kek. No mesmo ano, surgiria Saint Obamas Momjeans, com textos sagrados do esoterismo kekista. O surgimento do Esoterismo Kekista e do Esoterismo Trumpista estão intimamente conectados.


Duas organizações online foram criadas "The Sacellum Kekellum" e "The Knights Keklars". O autor conecta essa forma organizacional como inspirada na religião brincalhona e anti-autoritária (também de origem americana) Discordianismo. Essa é uma religião que surgiria no final dos anos 50 por Greg Hill e Kerry Thornley. Outras relações são o tradicionalismo de Julius Evola e o Hitlerismo Esotérico de Savitri Devi e Miguel Serrano. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 5)

 


Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore

Autor:
Egil Asprem

O Culto de Kek, uma religião pós-irônica e mágico-política. Ela surgiu de um grupo de usuários do 4chan cuja o passatempo era trollar liberais (no sentido americano) politicamente incorretos através de memes.

O Culto de Kek encontrou na weaponização de memes uma forma de arte metapolítica. Por metapolítica quero dizer o foco na cultura geral em vez da política parlamentar. Essa característica de focar na metapolítica é uma apropriação da extrema-direita das teorias de Antônio Gramsci, sobretudo a teoria da hegemonia.

O interessante é que o autor traça um paralelo com a Arktos Media (da Nova Direita Europeia). As características da Arktos Media são:
1- Espiritualidade tradicionalista;
2- Foco na ideia de civilização;
3- Foco na cultura;
4- Foco na questão da identidade;
5- Entrismo espiritual.

Você pode acessar a Arktos Media por aqui:

Nota: o entrismo é um fenômeno tático de Trotsky (o homem mais odiado pelos stalinistas), sua ideia era que os militantes deveriam entrar em grandes partidos socialistas para radicalizá-los. O entrismo espiritual é uma técnica adaptada pela Nova Direita Europeia, que tem pensadores como Alexander Dugin e Alain de Benoist, que é uma tática do assim chamado gramscianismo de direita. O alvo aqui não é o partido, mas o espírito da época. A busca é inserir conceitos como tradicionalismo integral, esoterismo e neopaganismo dentro de discussões a respeito de identidade nacional e geopolítica.

O surgimento do Culto de Kek se deu em uma grande aleatoriedade, tal como se pode esperar de algo que surge em um fórum anônimo, visto que é uma mistura de:
1- Ocultismo moderno;
2- Alt-right;
3- Táticas;
4- Ideologias;
5- Racionalizações. 

Essa nova religião, uma religião online, teria como componentes a paródia, o faz de conta, a estratégia metapolítica, expectativas genuinamente messiânicas e a mágica. Quem diria que o 4chan criaria uma religião pós-irônica, onde a ironia e a sátira seriam centrais na atividade do movimento... Uma religião brincalhona.


Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 4)

 


Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore

Autor:
Egil Asprem

Se a batalha mágica estava esquentando, estava na hora de duas novas figuras ilustres adentrarem na arena: David Griffin e Leslie McQuade, lideranças da Ordem Hermética da Aurora Dourada. Essas duas figuras ilustres são centrais no ocultismo moderno e na magia cerimonial.

A eleição de Trump não foi um evento comum, mas o início de uma guerra multilateral entre diferentes figuras ligadas ao ocultismo dentro de uma guerra mágica.

Anteriormente, David Griffin já era anti-Hillary Clinton, em fevereiro, ele atacou o movimento "Bind Trump". Chamando-os de magos negros, traidores, terroristas satânicos e bruxos criptofascistas. Além disso, a central acusação era de que eles tinham como real objetivo a instalação de um império globalista.

Para operar a sua contraofensiva, ele criou o site "magickwars.com". Site esse que é existente e pode ser acessado aqui:


Nesse site, segundo escreve Egil Asprem, existiam tutoriais de "autodefesa mágica" e conteúdo conspiracionista de Alex Jones (conhecido pelo canal Infowars).

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 3)

 



Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore

Autor:
Egil Asprem


Essa parte do artigo trata do "The Magic Resistance", um movimento que começou com Michael M. Hughes no texto "A Spell to Bind Donald Trump and All Those Who Abet Him".

No caso, esse texto aqui:


O movimento tomou ainda mais força quando Lana Del Rey insinuou que faria rituais de amarração envolvendo Donald Trump em datas que coincidiam com as de Michael M. Hughes.

Naquele período, emergiram as hashtags #MagicResistance e #BindTrump. Embora, algum tempo depois, as hashtags mais mainstreams fossem #impeachtrump e #theresistance.

De qualquer modo, debates teológicos entre pagãos e magos surgiram, sobretudo a respeito da ética envolvida nesse tipo de encantamentos, na eficiência desses encantamentos, na possibilidade de backlash (efeito colateral negativo nos conjuradores). Além da relação entre o imaginário popular que vê a magia como algo subversivo e a emoção das pessoas em relação a magia.

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 2)

 



Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore

Autor:
Egil Asprem


Vocês gostam de cálculos divertidos e enigmáticos? Aqui vai um:

Trumpismo + Culto de Kek (pós-ironia, metapolítica, alt-right e magia do caos) = Trumpismo Esotérico. O trumpismo esotérico é simultaneamente filho do trumpismo, do 4chan e do 8chan.

O Culto de Kek surge como um turno religiosizante da cultura online da alt-right (direita alternativa). Essa cultura foi acompanhada pelos seguintes blogs:
- The Atlantic Centurion;
- The Right Stuff;
- Counter-Currents.

Houve um movimento mágico oposto: "The Magic Resistance" (o que era anti-trumpista). E o "The Magic Reaction" que reuniu apoiadores do Trump que eram magos, ocultistas e praticantes de espiritualidades alternativas. 

Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 1)

 


Nome:

The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore


Autor:

Egil Asprem


Nesse artigo, Egil Asprem falará particularmente do Esoteric Kekism — que dará parte da origem ao Esoteric Trumpism. Se isso parece estar conectado com o Esoteric Kekism do Saint Obamas Momjeans, você acertou. A eleição de Donald Trump em 2016 foi marcada não só pela política tradicional, mas também por encantamentos, rituais e memes.


O autor conectará a sua análise com o conceito de "efervescência coletiva" de Durkheim, com o conceito de "noção de carisma" do Weber, com o conceito de "neurociência afetiva" de Jaak Panksepp e a "teoria do ator-rede" de Bruno Latour.


A análise dele se voltará para a questão de como a alt-right desenvolveu uma religião esotérica, o que seria a noção de magia memética (meme magic) e como isso se relaciona com magia politizada. A questão central é "como trolls do 4chan se tornaram magos do caos e adentraram em um mobilização política anti-establishment?". Isso, por sua vez, conectar-se-á a uma noção de como a teoria geral da mágica se torna um recurso político em tempos de crise.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

NGL #9 — Sobre o legado e as futuras gerações


 

Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/lunemcordis

Vira e mexe alguém vem e me pergunta: "você conhece esse membro da (cite alguma panelinha ridícula de channers mais novos)?". E eu agradeço por não conhecer ninguém. É sempre uma burrada da machosfera ou alguma coisa idiota do movimento red piu-piu. Ver esse tipo de pergunta é um alívio, visto que sei que ela vem de gente da velha guarda e não entusiastas do sensacionalismo.

Quantas histórias e quantas memórias. Estava relembrando isso hoje, li minha troca de mensagens com o antigo ex-administrador do 77chan. Veja como a memória é uma coisa frágil, comecei a usar chans em 2011. Pensei que tinha começado em 2012. Significa que tenho meus 14 anos de experiência. Muito tempo, muita coisa.

Vi de tudo: o BRchan, o 55chan, as indas e vindas dos jorges, as quedas, as ascensões. Sinto um carinho especial pelo magochan (uma época ele foi o maguschan), apesar de eu não lembrar particularmente quase nada do recinto.

Na época em que eu estava conversando com o administrador do 77chan, tinha lá as minhas rixas com o 55chan (a segunda versão). Naquela época, veríamos muitas coisas ocorrendo. A raid contra Godilson (esquerdista e membro da Staff), os ataques repetidos contra a Flower (uma mulher de esquerda que chegou a ser administradora do 55chan) e a onda da alt-right gerada por Qb (staff do 55chan).

O que odiava no 55chan era moldagem de conteúdo. Qb queria censurar a galera da esquerda. Fowler queria censurar todo mundo. Sentia saudades do espírito bananalista e anárquico da Terra de Ninguém (período tão amado e odiado na história do BRchan). O 55chan morreria em 2021.

Naquela época, ainda testemunhávamos a ascensão da alt-right na cena channer nacional. Em grande parte, pelos esforços de Qb. Um tempo depois, tornei-me moderador da Panelinha do Bananal. Para depois fundar a Seita da Banana Invisível e ir embora do grupo que fundei.

A administração da segunda versão do 55chan cometeria uma série de erros. Uma delas foi deixar que os servidores piratas ligados ao 55chan tivessem chats no Discord. Isso daria margem para a criação das padogonelas (panelas dogoleiras), diferentes das panelinhas tradicionais (criadas originalmente por Reptar e seus sucessores), porém essa discussão é quase incognoscível para quem é de fora da cena.

Conheci muita gente graças a esses movimentos. Guardo contato com alguns. Recentemente cheguei a conhecer IHM, uma channer americana conhecida por fundar o 94chan. Além disso, conheci o irmão da fundadora da Encyclopedia Dramatica (wiki satírica channer). Fui também administrador do chat do telegram da Encyclopedia Dramatica por um curto período de tempo. Falei com gente que tem mais de 20 anos de chan, os chamados "originais" ou "anciãos".

Mantenho amizade com o Tiago, grande administrador da Panelinha do Bananal. Atualmente afastado. Esquerdista sangue bom. O que me lembra o quão diferente eu sou dos outros: tenho amigos de esquerda, sou bissexual, leio um bocado de livros e participo de festas liberais. Além de, é claro, ter um posicionamento extremamente contrário ao bolsonarismo e trumpismo.

Eu prometi em 2021 que escreveria um livro chamado Harmonia da Dissonância e que daria o sistema esochannealógico completo (um sistema gnóstico operacional) para as novas gerações. Aí está:


Minha geração cresceu com uma cultura channer brasileira extremamente anárquica para ver ela ser capturada em prol de interesses políticos mesquinhos. Houve um tempo em que víamos marxistas inteligentíssimos dentro do movimento. Vimos um dos mais famosos membros da Panelinha do Bananal (o Rei do Norte) discursar ao lado do Bolsonaro. Em uma época, as panelinhas (as originais que eram no Facebook, não confundir com os padogonelas do Discord) tinham até milhões de membros.

Hoje em dia, cá estou eu. Nunca gostei do bolsonarismo. Essa pesca, a que nunca pude morder, tornou-se algo absurdamente característico da cultura channer brasileira. Sem os esforços da comunidade channer nacional em "memar" Bolsonaro, talvez ele nunca tivesse ido pro Superpop e virado uma "estrela política".

O 4chan, por outro lado, sempre permitiu todo tipo de discurso. Chega até ser impressionante ver todo tipo de gente de esquerda e de direita por lá. Sobretudo no /lit/, mas podemos ver comunistas no /v/. É impressionante o quanto é fácil encontrar pessoas que odeiam o /pol/ dentro das outras boards.

Cumpri o meu objetivo de entregar o sistema esochannealógico para as novas gerações. Hoje em dia, estou muito mais afastado. Não que eu tenha "deixado" de ser channer. Visto que isso faz parte da minha identidade. Mas sim que não me verá dando grandes contribuições ao horizonte cultural. As pessoas devem saber o desgosto que sinto dos incels e redpills. Além do meu orgulho de nunca ter participado desse besteirol cancerígeno que é a betosfera/machosfera ou seja lá como se chame essa porcaria.

Conversei dois anos atrás (ou seria um ano atrás?) com Parallax (ex-Xetrak), um dos maiores membros da Wikinet (wiki de channers e irmã brasileira da Encyclopedia Dramatica). É interessante, ele disse que me conhecia desde o grupo Libertarianismo. Foi ele que apagou minha página na Wikinet, inclusive a pedido meu.

Já estive no bate-papo com vários channers, membros do 4chan, ourchan, 8kun, leftypol, dentre tantos outros. Conheci channers de esquerda e de direita. Além de alguns ocasionais ex-channers. Já conheci channers americanos que são filiados ao Partido Democrata e vários channers americanos que odeiam Donald Trump. Além de ter participado de festas de alguns channers brasileiros.

Eu não me importo que alguns channers brasileiros me vejam como um trumpista vê Rick Wilson. Já passei dessa fase. Creio que essa geração de channers, que vive no r/brasilivre no Reddit ou postando porcaria no X está bem perdidinha. Espero que um dia possam crescer e deixar essa mentalidade rancorosa, conspiratória, por vezes flagrantemente misógina, racista e LGBTfóbica. Porém isso só virá com o tempo, já que a cultura channer é o veneno dos jovens dessa geração.

Deixo que cada um siga seu rumo. Continuarei no meu. Lendo livros, fazendo minhas análises. Afastado das novas gerações. Sem querer saber das rixas e das brigas. Já estou velho demais para isso.

domingo, 1 de junho de 2025

Acabo de ler "Devil's Bargain" de Joshua Green (lido em inglês)

 


Nome:

Devil's Bargain — Steve Bannon, Donald Trump, and the Storming of the Presidency


Autor:

Joshua Green


Resolvi fazer complementos e hipóteses para o livro nessa análise, visto que os leitores já devem estar entediados com análises que ficam na mesma tonalidade e repetindo os mesmos eventos sem uma mudança qualitativa ou um acréscimo substancial. Esse blog não pode correr o risco de se tornar tediosamente repetitivo.


Os Estados Unidos, nos tempos atuais, se estabelecem mais como uma incógnita do que como uma estabilidade. A razão dessa incógnita é o fato de que os Estados Unidos estão num processo de autoquestionamento em relação aquilo que lhe fundou: a crença na ordem liberal (e o apego a ela). É disso que surgem movimentos que trazem ora um aspecto mais reacionário e ora um aspecto mais progressista. Não há ainda um desenho total de um Estados Unidos pós-ordem liberal. É por isso que pensadores e políticos como Christopher Lasch, Bernie Sanders e Patrick J. Deneen — além de várias pensadores progressistas pós-liberais ou conservadores pós-liberais — são de suma importância.


Creio que muitos americanos já estão estudando e pensando num Estados Unidos pós-ordem liberal (POL). A alt-right pega a sua influência de teorias que foram retiradas por sua toxicidade. Vários progressistas inspiram-se no modelo chinês e soviético ou num socialismo liberal ou, mais propriamente, num socialismo de mercado. Alguns conservadores aproximam-se do comunitarismo. De qualquer forma, há sempre uma tentativa de introduzir elementos que não se correlacionam com o modelo da ordem liberal e que, muitas vezes, demonstram-se antagônicos a essa ordem. Aparentemente, os americanos andarão entre o sincretismo e a síntese até formarem um quadro novo.


Enquanto iniciativas de uma política antimigração levantam sérias suspeitas de como os Estados Unidos racialmente vê pessoas de uma coloração não-branca e pessoas do Sul Global, pouco a pouco a China vai se consolidando com uma referência e como um modelo para um mundo pós-ordem liberal. Se os próprios Estados Unidos possuem dúvidas em relação ao seu próprio modelo, e eles são os principais representantes desse modelo, a China e o modelo chinês pouco a pouco assumem uma possibilidade no imaginário de muitas nações. Além disso, o crescimento das questões raciais levará um desenrolamento em que as pessoas verão, a cada dia, os Estados Unidos como um país racista e que odeia aqueles que, até então, o veem como um modelo e uma referência.


A Europa está fazendo um afastamento gradual dos Estados Unidos. Japão e Coreia do Sul vão, pouco a pouco, deixando as suas richas com a China. Austrália, mesmo de longe, toma precauções com o crescente isolacionismo econômico e político dos Estados Unidos. O Canadá, outrora um gigantesco parceiro historico dos americanos, vai se redesenhando politicamente e procurando um modelo em que ele se conecta mais com o mundo e tem uma preocupação mais soberana.


Creio que o leitor não sabe, mas o trumpismo e a sua mensagem já são, em si mesmos, um ceticismo americano para com o que é ou o que foi os Estados Unidos. Steve Bannon, de formação católica tradicionalista, já está ciente da forma com que os americanos estão ressentidos e questionantes. Os fundamentos centrais dos Estados Unidos vão, pouco a pouco, sendo vistos como um entrave. O que dá uma possibilidade de um anticapitalismo e um antiliberalismo de direita ou de esquerda. Quanto mais essa dúvida existencial e identitária surge e se consolida, mais os Estados Unidos posicionam-se ambiguamente, tornando-se um mistério que levanta a tempestade da dúvida no mundo.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Acabo de ler "Everything Trump Touches Dies" de Rick Wilson (lido em inglês)

 


Nome:

Everything Trump Touches Dies: A Republican Strategist Gets Real About the Worst President Ever


Autor:

Rick Wilson


Esse livro foi o livro que me fez apaixonado pela escola conservadora americana. Talvez seja porque eu vivo numa realidade em que a linguagem é demasiadamente formal e o grande público não chega a ter uma proximidade do conteúdo produzido por intelectuais — a linguagem acadêmica mata muito dessa possibilidade. Talvez seja pelo fato do livro ser engraçadíssimo e quebrar muito da nossa noção de uma linguagem engessada e burocrática foi o que me aproximou dele. Há por todo esse livro uma sinceridade que transborda, seduz e faz rir a cada momento. É um livro que pode ser considerado popular e erudito ao mesmo tempo sem um aspecto contradizer o outro.


Esse livro trata de uma questão bastante complexa: o que fazer quando tudo aquilo que ajudamos a construir é destruído por aqueles que deveriam estar do nosso lado? É por essa razão que esse livro é uma porta para uma perspectiva diferente. Ele traz a perspectiva de um conservador, de um homem que foi filiado, por muito tempo, ao Partido Republicano. E que viu o Partido Republicano trair todos os seus valores históricos por uma horda de fanáticos que se mexiam como manequins através de um hipnotismo conspiratório. Lembra-me um pouco do drama de Trotsky na União Soviética, e isso abre uma pergunta interessante: seria o conservador antitrumpista um trotskista de direita?


O que determina os princípios de um conservador? A aversão a ideia de que o Estado é a política, através da força da engenharia social, pode trazer o paraíso para Terra; a ideia de que a natureza humana é passível de erros e que nenhum ser humano é um anjo; a ideia de um Estado pequeno para se evitar a tirania do Estado em sua acumulação constante de poder; a defesa da liberdade de expressão, peça fundamental para o funcionamento do autogoverno; o império da lei para que não impere o império da força; o constitucionalismo que separa os poderes para que nenhum homem seja rei; o federalismo que fragmenta as esferas de decisão, aumentando a eficiência e reduzindo a concentração de poder. Trump e a sua trupe não são a encarnação de nada disso, mas justamente vão no sentido oposto de tudo isso.


Rick Wilson escreveu um livro controverso. Mesmo sendo um republicano de coração, de intelecto e de alma, ele precisou expor uma série de mentiras que levaram o Partido Republicano a se tornar o que se tornou. Para ser exato, o Partido Republicano se tornou, pouco a pouco, antirepublicano. Uma paródia de si mesmo e de tudo que veio a historicamente representar em seus momentos mais belos. Uma série de acontecimentos levam a uma perda contínua dos valores historicamente apreendidos. Tudo culminará na eleição da figura mais grotesca já criada pela história americana: Donald Trump.


A mensagem que Rick Wilson tenta trazer é uma mensagem de resgate. É o de trazer de volta o coração e a mente conservadora. De sair das fantasias políticas e embarcar nas vias tradicionais dos princípios conservadores. Em outras palavras, um resgatamento da crítica conservadora ao acúmulo sem fim do poder. O retorno da prudência. A noção de que as ideias têm consequências. Não caindo nos infortúnios das ideias perigosas das paixões passageiras.


Os Estados Unidos enfrentam o drama do império. Todo país que comporta vários povos dentro de si é espiritualmente um império. Ser um império é diferente de ser imperialista. Ser imperialista é defender uma posição beligerante, onde todos os outros ao redor devem der submissos. Ser um império, no sentido espiritual, é tão somente possuir vários povos. Por muito tempo, havia um ímpeto de ser tão somente uma república comercial. De ter só boas relações comerciais e seguir somente os próprios objetivos sem interferir no exterior. Os Estados Unidos deixaram-se, então, serem absorvidos pelas ideias imperialistas. As ideias imperialistas que eles mesmos deixaram de seguir para se tornarem o que são — o que levou ao abandono do Antigo Regime.


O Partido Republicano, pelo bem que se diga, buscou utilizar o ódio remanescente como estratégia eleitoral. Todavia esse ódio adentrou, pouco a pouco, em suas veias. Mesclando-se, pouco a pouco, como a sua própria natureza. Muitos conservadores, não gostando do rumo do movimento republicano, acabaram por deixar o partido. O que vem substituído os mais notáveis conservadores são os nacional-populistas de verve trumpista que entram em seu lugar.


O fim do livro é um alerta e uma esperança. Está na hora dos conservadores e daqueles que querem ser sinceramente conservadores aceitarem as batalhas perdidas. Aceitarem o casamento gay e a legalização da maconha, por exemplo. Mas o livro todo é sobre isso, de tornar o Partido Republicano conservador novamente. Com um respeito pela imigração, pelo livre-mercado e pelo livre-comércio e pela liberdade individual. Rick Wilson é um conservador clássico na época do conservadorismo populista, do nacional-populismo e da alt-right. O que Rick Wilson traz é a essência conservadora adapta aos tempos modernos, se demonstrando absolutamente capaz de articular os princípios conservadores de forma sólida.

sábado, 17 de maio de 2025

Acabo de ler "A Formalist Manifesto" de Mencius Moldbug (lido em ingês)


Nome:

A Formalist Manifesto


Autor:

Mencius Moldbug (Curtis Yarvin)


Quando estudamos acerca do debate americano e o que levou Donald Trump para a Casa Branca, não só uma, mas duas vezes, temos que adentrar no debate público americano compreendendo e entendendo a participação de diferentes grupos. Quando cito o Project 2025 como o interesse central, cito uma iniciativa da direita mainstream. Nesse livreto, temos não a direita mainstream, mas a alt-right (direita alternativa). Não que exista uma barreira intelectual e social absoluta entra a direita mainstream e alt-right, vários trumpistas são, na realidade, portadores desse novo caldo intelectual que reverbera no debate americano.


Mencius Moldbug (Curtis Yarvin) é um desses homens que, caso não fosse pela excentricidade que carregam, ninguém saberia como pensam. Para ser honesto, nos últimos tempos a esquerda tem sido notável em ser completamente esquecível pelas suas teorias e a direita tem sido completamente audaciosa em criar toda uma série de teorias que causam um reboliço no debate público. Quando foi que a esquerda ocidental teve a sua última grande mudança estrutural? Talvez com a revolução cultural de 68. Todo resto é um desenrolamento das teorias da Escola de Frankfurt e Escola de Paris com mais algumas teorias que juntaram no caldo daquilo geralmente chamamos de teoria crítica.


O que eu quero dizer é: todo mundo fala sobre alt-right, o neorreacionarismo, o iluminismo sombrio, a negação da mentalidade democrática e muitos direitistas e direitosos chegam até a parar na cadeia. Enquanto isso, a esquerda aparece limpinha e cheirosa, menos adepta da criação de novas teorias que joguem o mundo de cabeça para baixo e façam eles serem vistos como perniciosos o suficiente para serem postos para ver o Sol nascer quadrado. A esquerda moderna precisa estudar a alt-right — com certo nojo e afastamento, mas também com uma pintada de ciúme ou inveja — para não cair no tédio de ficar repetindo as mesmas teorias que já professavam em 1968. (A New-Left se aprofundou como fenômeno histórico em paralelo à New-Right, mas a Alt-Right é um fenômeno que não encontra paralelo moderno na esquerda).


É deveras interessante que Mencius Moldbug vê o debate americano com um certo tédio e um olhar muito próprio. Há uma fascinação por algo que seja uma quebra de linha. Ele reconhece que a direita americana moderna é, por assim dizer, mais nova que o movimento esquerdista americano. Ele vê o movimento conservador americano moderno como aquele que surge após Roosevelt. É evidente que há um afastamento da alt-right da direita mainstream, muitos membros da alt-right chamam os conservadores de "cuckservative" (cornoservador) e riem de uma suposta ausência de atitude. A atitude da alt-right frente ao mundo sempre é acompanhada de um escárnio, como se dissesse "nós estamos rindo do mundo e pouco nos importa se seremos presos por isso".


As visões de Mencious Moldbug, como um bom membro da alt-right, são antidemocráticas e se estabelecem contrariamente ao cânon acadêmico. Muitas vezes, ela é acompanhada por um senso de humor que serve para quebrar o politicamente correto do discurso contemporâneo. Num mundo em que as esquerda se engessa e não produz nada de verdadeiramente novo, a direita surge com uma galhofada que encanta a rapaziada com seu jeito desprendido, promovendo remexer tudo que está por aí — democracia, controle do discurso, república, o cânon acadêmico — e sendo bem sucedida nessa empreitada de causar rebuliços e, em algum aspecto, aparecer com uma estética que agrada mais aos jovens do que os eternos chororos de uma esquerda que é incapaz de reinventar.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Acabo de ler "(((They))) Rule" de Marc Tuters (lido em Inglês/Parte 1)

 


Quem nunca abriu o 4chan para dar uma olhada no que se passava? O fórum onde surgem os maiores fenômenos digitais. Os memes dos gatinhos, o sapo Pepe e tantas outros fenômenos que abarcam e moldam a vida do cidadão virtual. O 4chan é responsável por comunidades maravilhosas, como o /mu/ e como o /lit/, mas ao mesmo tempo responsável por comunidades estranhas e de comportamento tóxico como o /pol/. O 4chan, bom e/ou mau, é o berço do underground virtual. Sempre com a sua subcultura que se inova e renova.


No /pol/, temos uma espécie de criação memética orgânica criada pelos usuários que estão localizados no mundo inteiro. E um dos comportamentos mais curiosos dessa comunidade é a memética: a arte de gerar uma imagem facilmente assimilável e reproduzível. Essa memética entra num campo político, abrindo o terreno da memepolítica – algo que, quando empregado, reduz complexidades sólidas e dá margens para interpretações reducionistas. Também criando uma forma ritualizada de antagonismo, aquela chamada de "nós" contra "eles" – o outro corre o risco de ser memetizado e reduzido a uma série de piadas. Essa é a linguagem adversária.


O /pol/, como organização underground, tem um jeito diferente de ver a política. Os seus habitantes – que podem ir desde um neonazista a um socialista – tem um ponto de vista antagônico. De lá que surge a chamada alt-right (direita alternativa). A sua forma de se referir a direita mais tradicional era "cuckservative" (cornoservador). O /pol/ é contra o consenso, ele é contra a política dominante. O /pol/ é uma nova forma de ver e pensar o mundo.


Mesmo o /pol/ não sendo em si unânime, ele tem alguns usuários com comportamento característico. O 4chan se trata, sobretudo, duma liberdade de expressão absoluta. Nessa condição, vemos várias pessoas com diversos pontos de vista se manifestando. Todavia o comportamento da alt-right é extremamente característico e salta aos olhos, seja do jornalista, seja do acadêmico, seja do mero olhar curioso de um desavisado. As falas meméticas, as piadas que se generalizam, a forma continuamente opositora, o papel crucial que desempenhou na eleição de Donald Trump em 2016, o fato de que seu discurso se normaliza no espaço público.