Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.
Contexto: conversa com um amigo que tive no WhatsApp. Ampliei o texto para explicar melhor o meu pensamento.
Creio que o Partido Missão tem chance de construir uma boa base de vereadores, sobretudo no interior de estados mais tradicionalmente à direita. A competição com partidos como PT e PL é algo que deve ser abordado com cautela, visto que o melhor é construir uma estrutura territorial.
O interior de estados com tradição mais à direita, que o Partido Missão poderia visar são, por exemplo, partes de SP, PR, SC, MS e GO. O que possibilitaria, em tese, o crescimento de vereadores e, eventualmente, prefeitos em municípios médios e pequenos. Existe, é claro, um problema: os estados mais à direita tendem a ser aqueles em que o PL é mais forte. Uma abordagem para o nordeste e norte seria um estudo e adaptação do "Red Tory" de Phillip Blond e George Grant, mas eu duvido muito que isso aconteceria. Acredito que a Red Tory apresenta uma proposta conservadora, criando um "Estado de bem-estar social" conservador, o que poderia agradar o eleitorado clássico do MBL ao mesmo tempo que atrai novos setores da sociedade.
O Partido Missão tem a questão de ampliar a formação dos seus membros, preparando-os para a eleição de 2028. O Instituto Livro Amarelo, pelo que entendi, servirá a esse propósito. A Academia MBL muito provavelmente seguirá formando novos quadros.
As ideias centrais são: o Partido Missão deve alcançar uma formação acessível e ampla em 2027, para poder se destacar bem em 2028. O plano também depende do número de pessoas treinadas e do número de pessoas filiadas para ajudarem os candidatos.
Se for na lógica da Fundação Perseu Abramo, organização do PT, os cursos sairão de graça e serão disponibilizados online.
O que eu penso, a respeito dos próximos passos do Partido Missão, é o seguinte:
1. Formação como instrumento de capilaridade:
Creio que o Partido Missão evitará confrontos com grandes máquinas partidárias. A não ser que esses confrontos sejam midiaticamente úteis para expandir as aparições públicas do partido. É possível pensar em um cenário em que Kim Kataguiri dispute a prefeitura de São Paulo, visto que pode competir sem perder o mandato.
Apesar da candidatura de Kim Kataguiri em São Paulo ser tecnicamente viável, o custo dessa oportunidade é alto. Uma disputada eleitoral por uma prefeitura de capital consome energia, mídia e recursos que poderiam ser espalhados para núcleos e candidaturas de vereadores em dezenas de municípios. Ao mesmo tempo, existe também a chance de que uma candidatura de Kim Kataguiri, em São Paulo, sirva como puxadora de votos para chapas de vereador na maior câmara do país. Isso entra na condição de aposta.
2. Se inspirar no modelo Fundação Perseu Abramo
O modelo de cursos gratuitos e online permite ao Partido Missão reduzir drasticamente as barreiras de entrada na formação política. Servindo como uma espécie de escola de formação de quadros. Tal função seria atribuída ao Instituto Livro Amarelo.
A taxa de conversão deveria ser analisada e salva. Ou seja, o partido precisa ter consciência de quantas pessoas fizeram os cursos, quantas pessoas têm filiação ativa e quantas pessoas se candidataram. Isso deveria ser feito em cada processo eleitoral para aprimoramento de resultados.
Tal como a Fundação Perseu Abramo (FPA) tem formação de quadros permanente, o Instituto Livro Amarelo deveria seguir o mesmo modelo. A formação acessível, embora necessária, não é suficiente. O partido precisa combinar acessibilidade com lideranças locais que já tenham algum capital social no município.
3. Ter em 2027 uma janela de oportunidade
No primeiro semestre de 2027, seria possível estruturar a escola e produzir os cursos. No segundo semestre de 2027, o foco seria em ampliar as matrículas, formações e filiações. No início de 2028, a ação central é organizar diretórios e identificar lideranças. Durante 2028 seria possível transformar capilaridade em candidaturas competitivas.
4. Prestar atenção nos quatro indicadores
I. Número de pessoas formadas: quantos efetivamente concluíram os cursos?
II. Filiados ativos: quantos participam regularmente da organização?
III. Capilaridade territorial: em quantos municípios existem núcleos organizados?
IV. Quadros eleitorais: quantas pessoas estão preparadas para disputar uma eleição municipal?
O Partido Missão seria hábil nisso, visto que o aplicativo "Missão" apresenta um sistema de quests e níveis. Isso é uma estrutura gamificada e rankeada poderosa. O que torna possível mensurar o quão engajados estão os militantes do partido.
5. Não cair no erro do "mais um partido anti-PT"
O antagonismo e competição do PL com o PT não é apenas eleitoral, é cultural e de máquina. Em muitos municípios o PL já ocupou o espaço anti-PT. Quase todo mundo entende o antipetismo como algo característico e único do bolsonarismo. Nada indica que o binarismo (petismo x bolsonarismo) terá abertura para outro espaço. O Partido Missão precisa se diferenciar com clareza, criando uma mensagem própria. Como o partido já tem a sua própria ideologia e estética, essa construção será mais natural.
Não se trata, é claro, de uma estratégia conciliadora. Durante todo período de 2026, bolsonaristas e missionários ficaram se atacando. A neutralidade seria difícil, para ambos os lados.