sábado, 15 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #55 — Cansado do Brasil

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no Telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


Quanto mais o tempo passa, mais eu arrumo meios de esquecer que vivo no Brasil. É preferível, sei lá, colocar France 24 e ver um noticiário todo em francês do que abrir um jornal brasileiro.


Recentemente, também aplico um retardo temporal até mesmo no que leio em português. O único livro que estou a ler em português é "A Falecida", de Nelson Rodrigues. Faço por causa do curso de teatro.


Também leio "El Loco" de Juan Luis González, mas esse está em espanhol. O livro do Juan é interessante, mas confesso que por vezes me sinto um pouco enfadado de acompanhar qualquer coisa política e faço mais por obrigação do que por gosto.


Em inglês, leio "Supreme Courtship" de Christopher Buckley. Um livro fantástico, com uma protagonista incrível. Já dei boas risadas no metrô.


Atualmente faço aulas de mandarim. O mandarim é, para mim, outra excelente oportunidade de esquecimento do meu país.


A última vez que vi brasileiros interagindo intensamente foi em uma notícia sobre um professor texano que chorou ao perceber que os rapazes que formava não conseguiam ler quase nada. Eram rapazes de 17, 18 anos. A sessão de comentários era cheia de bolsonaristas. Todos culpando o Lula e o Paulo Freire pela educação que era dada no Texas. Vi, a partir disso, que sentia um enfado cada vez maior com o brasileiro médio.


Também não me interessei muito pelos rumos políticos nacionais. O que vejo é que, apesar de tudo o que se diz, Lula reeleger-se-á. Com alguma dificuldade, mas vai. O governo federal pertencerá à esquerda, mas os estaduais tenderão à direita. O centrão também terá uma fatia. Em 2028, creio que teremos mais novidades políticas. Em 2030, um direitista eleger-se-á.


Cremos que vivemos uma tendência de transição gradual. A esquerda perde a nível municipal e estadual. A direita vai ganhando municípios e estados. Creio que nessas eleições, o domínio legislativo e o executivo de nível estadual serão da direita. O governo federal, à direita, é um sonho que ela terá que esperar por mais quatro anos.


Digo isso, é claro, sem remorso algum. O Brasil não há de me surpreender muito. Os personagens muitas vezes soam caricatos. Eu não espero quase nada do Lula IV. Tampouco espero alguma coisa de algum governo de direita que se eleja em 2030.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #54 — A vantagem econômica da esquerda

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


(Censurado), eu nunca entendi essa mania da direita de fazer coisas inacessíveis e caras. Os malucos literalmente fazem coisas só pra quem tem grana. Até mesmo as festas são só onde gente que tem dinheiro pode ir. Os eventos do PT, do PSOL, qualquer eventozinho de esquerda. São infinitamente mais baratos e acessíveis ao brasileiro médio. Rolês de esquerda são mais econômicos e a possibilidade de você pegar alguém são infinitamente maiores.


Eu disse "eventozinho" não no sentido de diminuir a parada no sentido qualitativo. Falo da diferença quantitativa entre um "pequeno evento" e um "mega evento". Mas até os mega eventos da esquerda, os chamados eventozões, são infinitamente mais baratos que os da direita.


Se continuar assim, mesmo com a queda do Lula, a direita não vai conseguir ampliar a base por causa do preço absurdo. A esquerda tem a vantagem econômica.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!

 


A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente republicano: desprezo completamente as suas pretensões monárquicas.


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente protestante: desprezo completamente as suas pretensões de ser um papado conservador.


Imagine a seguinte situação:


Você é um conservador que cresceu lendo Russell Kirk, Nelson Rodrigues, Michael Oakeshott, Gustavo Corção, Antonio Paim, Carlos Rangel, Stuart Stevens, George Grant, Rick Wilson, David Frum, Eric Voegelin, Christopher Buckley, Christopher Lasch, Bruno Tolentino, Patrick Deneen, Paulo Francis, Carlos Nougué, G. K. Chesterton, Yuval Levin, etc., etc., etc.


Você leu teóricos de esquerda também, já que é um sujeito ilustrado. Sejam os clássicos marxistas, sejam os clássicos anarquistas, sejam até social-democratas.


Você se lembra de conversar com seus amigos. Falar emocionado que está trazendo escolas de pensamento da direita pro Brasil:


— A Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo da American Compass;


— O Anglican Tory;


— O Red Tory;


— O pensamento de Charlie Kirk;


— Os chamados Never Trumpers;


— O movimento Reformicon;


— O pensamento de Alain de Benoist.


Aí você tem que parar. Parar e olhar. Olhar para uma família. Essa família se chama Bolsonaro. Os seus seguidores se chamam "bolsonaristas". Eles, que estudam o movimento intelectual conservador de um modo infinitamente inferior ao seu, devem ditar como você deve pensar e como deve se comportar. Aliás, eles acusam todo mundo que discorda deles de "serem um bando de esquerdistas".


No Brasil, estamos em um ponto agoniante. Nesse ponto de desespero, até figuras como Pondé se tornaram de esquerda segundo a mentalidade bolsonarista. Afinal, a direita é uma monarquia em que a família real é a família Bolsonaro. Ou seja, eles têm monopólio do que a direita pode pensar e ditam, tal como numa espécie de "infabilidade papel bolsonarista", tudo o que a direita pode ou não pode fazer.


Se Flávio Bolsonaro for ao segundo turno, voto em qualquer um que for contra ele. Meu voto não será, pura e simplesmente, de esquerda, de centro, de direita ou o que quer que seja. Meu voto será triunfalmente um voto antimonárquico, no sentido de ser contra a monarquia bolsonarista. Meu voto será radicalmente um voto antipapista, no exato sentido de ser um voto contra o papado da família Bolsonaro.


sábado, 8 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #53 — O Brasil não é um país LGBTfóbico; o Brasil é um país CRONICAMENTE LGBTFÓBICO!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originalmente publicado no Reddit.


O Brasil não é um país LGBTfóbico; o Brasil é um país CRONICAMENTE LGBTFÓBICO!


Alerta central:


Repare que no texto todo eu não proponho nenhuma lei e isso não é um debate entre o "tá na lei" e/ou "tem que ter uma lei". Isso é uma argumentação, não uma proposição legal. Logo não venha com essa ideia absurda do "ai, você quer usar o Estado malvadão pra proibir as pessoas de". Não, não é disso que o texto trata. Pode-se criticar algo sem propor uma lei.


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A LGBTfobia no Brasil não é uma ocorrência esporádica. Ela é estrutural, ela é sistemática, ela é enraizada na história e nas instituições brasileiras. 


Uma das principais forças de vetorização de lgbtfobia hoje é o "humor". Você reparará em uma quantidade incomensurável de vezes em que aparece o meme "pessoa que faz isso 🏳️‍🌈".


Esse meme consiste na pessoa dizer:


— "Algo de que eu não gosto/algo que acho desprezível"= coisa que um LGBT faz/faria.


Esse aspecto do "humor brasileiro", que acho essencial mencionar, é nele que vemos que, no fundo, as pessoas atribuem tudo de que não gostam aos LGBTs.


O humor deveria ser uma forma de libertação, algo que transcende e critica a sociedade em que se está. Um dos principais lemas da sátira é o "Ridendo castigat moris" (rindo, corrigem-se os costumes). Creio que dois dos melhores exemplos de um conservadorismo crítico são Nelson Rodrigues (Brasil, sobretudo na parte teatral) e Christopher Buckley (Estados Unidos, em suas novelas). Eles provam que não é necessário ser "anti-LGBT" para se ter um "humor conservador".


Voltando à centralidade do assunto, percebo que ao vestirem o ódio LGBTfóbico em forma de piada, esse ódio escapa da crítica. Qualquer um que questiona esse "humor" é colocado como "sem senso de humor" ou como "militante chato". Isso é um meio de deixar a violência simbólica ser reproduzida pela massa.


Ao associar todo aspecto negativo ou algo que claramente desgosta as pessoas LGBT, você faz uma associação automática de tudo o que for LGBT ao negativo. Isto é um silogismo cultural. Esse silogismo cultural ensina, de forma repetitiva, que ser LGBT está no campo semântico do erro, do nojento, do ridículo, do patético.


Para uma pessoa heterossexual, isso pode soar comum. Mas para uma pessoa LGBT, tudo o que isso indica é que ela está diretamente ligada ao erro, ao nojento, ao ridículo e ao patético. Quem gostaria, de tal forma, de ser LGBT, sendo que é isso que a sociedade revela a ela?

Penumbrário #2 — Quando o Inverno Cinza Passar

 



Desculpa, moça, mas você está completamente enganada! Está errada! Está torta! Sua percepção é cheia de fagulhas ilusórias de um passado de ampulheta de areia contaminada!


Sabe, ontem, quando você me disse que eu era um sujeito compreensivo. Então, moça, na verdade eu estava tendo insights após insights devido aos efeitos da psilocibina. Em linguagem vulgar, eu não estava sendo compreensivo por causa de um cogumelo mágico. Hoje eu estou em um estado de recuperação neurológica e emocional depois dessa trip e posso ver as coisas com mais clareza. A psicodelia se foi, sobrou a dor do real. Isso também prova, isso também demonstra que sou humano, pateticamente humano.


Não sei como eu pareci pra ti, mas eu via o mundo todo em cores mais vibrantes, em formas geométricas mais distintas; eu via o mundo com cada objeto respirando; eu ouvia as cores e via os sons. Quando eu olhava para ti, também olhava para a distorção do espaço-tempo. Hoje, após a trip, o mundo me parece extremamente frio e cinza.


Atualmente eu só sinto o cansaço mental e físico. A vontade de chorar. A sensação de um grande vazio no meu peito. Além de, é claro, uma crônica dificuldade de concentração.


Desculpa, moça, quando eu te vi, eu já tinha tomado chopp, eu já tinha tomado cachaça com limão, eu já estava no terceiro gin de dez. Eu tinha fumado maconha também. Por algum acaso, encontrei um colega que esteve no ensino médio comigo e a gente comeu cogumelo mágico.


Posso ter passado a impressão errada, mas eu não sou tão compreensivo e mágico quanto você pensa que eu sou. Pra você, eu sou fofo e acolhedor. Isso é mentira. Eu estava doido. Na verdade, eu sou um homem terrivelmente patético e vagabundo. A única coisa que faço na vida é ler livros estranhos que ninguém conhece, ser estudante de teatro, participar de um podcast de saúde mental e jogar videogame. Você não pode amar alguém assim; você precisa amar quem realmente possa te levar pra algum lugar e atualmente o único lugar a que eu posso te levar é a uma ressaca psicodélica de cogumelo.


É sério, eu não estou brincando. Ressaca de cogumelo existe. Essa ressaca não é a dor física do álcool, é a exaustão química, é a sensação de que meus neurônios pediram demissão e foram viajar sem mim. Tudo parece irritantemente cinza demais. Eu não quero que você veja os lados mais negativos e tóxicos da minha personalidade. Se a minha imagem anterior, criada pela ilusão da droga, é infinitamente superior, para que dar o gosto da agonia do dia a dia?


Eu não sei em que ponto, naquele dia, eu era eu. Eu sei que a psilocibina não inventa sentimentos; ela amplifica o que já está no coração. O cogumelo afrouxou as travas do meu ego. Mas, hoje, após tudo, vejo-me tão patético como o Incolor Tsukuru no livro do Haruki Murakami.


Hoje eu sou a valsa de uma química cansada. Cada expressão de exaustão é uma sinfonia de comedown. Cada batida da bateria do meu sistema nervoso é um grito de desespero pedindo por pausa. Espero que você compreenda, espero que você possa esperar até o inverno cinza passar...

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Penumbrário #1 — Eu gosto de um tipo muito específico de mulher e por isso não tenho namorada

 


Eu gosto de um tipo muito específico de mulher e por isso não tenho namorada


Sabe, eu preciso ser cru e corajoso. A vida toda eu tentei namorar outras mulheres, mas eu descobri uma coisa. Eu gosto de mulher que me faz de puta. Quanto mais uma mulher me faz de puta, mais eu amo ela. Isso não é a descrição de um fetiche, isso não é um "eu gosto de um femdom no BDSM", isso é a poética da minha existência. 


Eu não quero me sentir mais homem perante uma mulher, eu não sou um Dom Casmurro de Machado de Assis, eu quero uma mulher que usurpe e destrua toda masculinidade que há em mim. Quando uma mulher me faz isso, me sinto mais mulher e eu gosto de mulheres que me fazem mais mulher. Pois ciúme não é prova de amor, é tédio de si mesmo.


Dom Casmurro era possessivo, Dom Casmurro queria controlar a mulher para se sentir seguro. Ele não percebia que ele mesmo adoecia de ciúmes quando perdia o controle. Eu não quero ser dono, quero ser a posse. Prefiro a entrega total à vigília paranoica. Já que é mais gozoso ser objeto de desejo do que sujeito de desconfiança. Ao trocar a vigília pela entrega, troco a ansiedade pela existência plena.


Quero uma mulher que deconstrua a minha masculinidade para me libertar do peso dela. Já que a masculinidade cansa, quero ser receptáculo e não performar como ativo. Quero parar de performar e passivamente experiencer. Eu troco o fardo da performance pelo prazer da passividade ativa. Quero o ócio do ser, deixar de agir para permitir-se ser agido.


Mulher boa é aquela que me faz sentir mais mulher. Não falo no sentido identitário, falo no sentido da mulher me pôr no polo simbólico da posição de receptor de desejo. Mulher boa é aquela que me atravessa, que me invade, que me faz moldado pela força do desejo dela. Quero que ela me faça admirar tanto o seu feminino que o feminino dela transborde e o oculpe todo espaço do meu ser em uma forma de adoração pagã. Quero mulher como força telúrica, quero dar pra uma mulher pra ela me pôr cada epifania feminina dela.


Eu quero me desmontar inteiro perante uma mulher que saiba femininamente cuidar de cada pedaço afeminado meu. Quero desenterrar o não-homem que a cultura me ensinou a enterrar. Quero que ela organize minhas partes num formato efeminado que mais confortavelmente me cabe.







quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Palia #1


 


Tenho jogado Palia. Já estou nível 10 em pescaria. Tenho nível 9 em jardinagem e em caça-insetos. Coloquei cinco máquinas de sementes para gerar o máximo de sementes possíveis e vender o excedente. Já tenho duas máquinas de minhocas para poder pescar e adubar a terra com tranquilidade.