Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.
Contexto: conversa com um amigo que tive no XMPP. Ampliei o texto para explicar melhor o meu pensamento.
Compreendo, mas deixe-me estruturar um pouco melhor.
I. Primeiro Momento
A Operation Mindfuck (OMF) original foi uma campanha descentralizada que utilizou como método pegadinhas (prankismo), hoaxes, desinformação, mitopoese e ativismo digital. Não era pura e simplesmente desinformação pura, mas uma espécie de guerrilha ontológica e lúdica. Também é válido recordar que não foi uma campanha única. Essa foi desenvolvida por Kerry Thornley e Robert Anton Wilson.
O objetivo era semear paranoia cultural, minar a confiança em autoridades, governos e na chamada realidade consensual. Só que existia um outro objetivo: forçar as pessoas questionarem os seus próprios túneis realidade. Os túneis de realidade seriam os filtros mentais pelos quais as pessoas interpretam o mundo.
A metodologia incluía atribuir calamidades nacionais, assassinatos e conspirações aos chamados "Illuminati" e outras sociedades secretas inventadas ou reais. O que também incluía misturar fatos com absurdos e boatos de forma deliberada. Misturar realidade com ficção é algo evidente para qualquer um que estude engenharia da conspiração, visto que é pressuposto que o preenchimento ficcional deve ser colocado dentro da narrativa.
Essa estratégia, por sua vez, parece ser inspirada na teoria dos jogos. Os discordianos possivelmente acreditavam que a única estratégia imprevisível era a aleatória. O que, em certo sentido, faz sentido: imprevisibilidade, aleatoriedade e absurdidade tornam o cenário ininteligível para adversários. Naquela altura do campeonato, ninguém sabia quem estava participando ou o que de fato estava ocorrendo. Vou tentar ser menos reducionista aqui: essa abordagem também carregava a estética do absurdo, a crítica epistemológica e o prazer lúdico. É um fenômeno multifatorial, não sendo facilmente compreensível.
II. Segundo Momento
A Operation Mindfuck 2.0 (OMF 2.0) se conecta com a propaganda e com a teoria da pós-verdade. Creio que isso se conecta com o livro que li de Robert Guffey (Operation Mindfuck), mas ainda não li o outro autor recomendado (Douglas Rushkoff). Embora não se possa dizer que a Operation Mindfuck 2.0 seja um termo consolidado, pode-se ao menos dizer que é uma metáfora analítica poderosa. Ou quiçá um conjunto de práticas que podem ser descritas heuristicamente como OMF 2.0 (Operation Mindfuck 2.0).
Esse segundo momento se entrelaça com a ascensão das plataformas digitais, da propaganda computacional, da pós-verdade e dos regimes de desinformação. A continuidade mais óbvia disso é a bricolagem entre fato e ficção, a descentralização, a autoria ambígua e o estímulo à paranoia. A descontinuidade está na escala algorítmica, na assimetria do poder, no dano material, na ausência do lúdico e no caráter iniciático da Operation Mindfuck original.
A Operation Mindfuck 2.0 tem um uso político mais deliberado. Uma espécie de "conspiracy engineering" (engenharia de conspiração) ou, mais propriamente, uma espécie de conspiracy warfare ("guerra conspiratória", em português). O que temos aqui é uma apropriação por lógicas de propaganda e guerra informacional. Cabe, todavia, uma distinção terminológica:
A- Conspiracy Engineering (Engenharia da Conspiração): é o design e a produção de narrativas conspiratórias;
B- Conspiracy Warfare (Guerra Conspiratória): é o uso competitivo e estratégico dessas narrativas conspiratórias em redes coordenadas.
(Alternativas terminológicas mais neutras poderiam ser "produção de narrativas conspiratórias" e "operações de informação com narrativas conspiratórias").
Em um cenário de guerra híbrida, informacional e de manipulação da opinião pública, acredito que essa "Operation Mindfuck 2.0" seja "excelente" para operar redes coordenadas de desinformação, manipulação e ataques a adversários. Embora seja importante recordar que o termo guerra híbrida não englobe tão somente a guerra informacional, mas também as dimensões cibernéticas, econômicas, militares e jurídicas, além de operações de influência e operações cognitivas.
III. Utilidade para o esoterismo channer
Considerando que as cabalinhas (organizações esochanners [termo inspirado no little cabal discordiano]) se inspiram em empresas de guerra trabalham com monitoramento de redes sociais, produção de narrativas, operações com perfis falsos, disseminação coordenada, manipulação de tendências, ataques reputacionais e microdirecionamento. Acredito que a formação mais adequada para um esochanner hoje em dia seja uma mistura de:
1- Psicologia;
2- Ciência política;
3- Comunicação;
4- Inteligência de dados;
5- Comportamento humano;
6- Ética e direito;
7- Métodos de pesquisa;
8- OSINT;
9- Análise de redes;
10- Semiótica;
11- Estudos de plataforma;
12- Segurança da informação.
Claro, isso se alguém tivesse tempo, dinheiro e vontade de apostar em tal coisa. Nossa realidade é, em si, muito diferente. O fato disso facilmente entrar no terreno das psyops (operações psicológicas) e das manipulações coordenadas torna isso algo extremamente perigoso.






