domingo, 1 de novembro de 2026

Memória Cadavérica #68 — Paneleiros e Investigadores no Paradoxo dos Saiyajins



Memórias Cadávericas: um acervo de textos 
aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.

Contexto: mensagens que troquei com um amigo no XMPP sobre investigadores e paneleiros. Realizei algumas expansões para deixar o texto mais explicativo.

Você sabe a razão pela qual a raça saiyajin foi eliminada, mesmo com o alto potencial evolutivo?

Em primeiro lugar, a maioria dos saiyajins não treinava. Usualmente eles usavam só zenkai. O zenkai dá aumento de poder toda vez que o sayajin sai de uma situação de quase morte. Existe uma razão para os saiyajins não treinarem: eles nasciam com grande potencial, mas esse potencial nunca era exaustivamente aprimorada por causa da crença na própria superioridade.

O ponto mais detestável em um paneleiro não é a ausência de potencial, mas a incapacidade de evoluir o próprio potencial. Existe uma atrofia provocada pela sensação permanente de superioridade. O desenvolvimento dos paneleiros é, em suma, mais reativo do que proativo. 

O principal problema dos paneleiros é que eles estudam pouco e ainda se fodem psicologicamente por causa dos crimes que praticam. Há um adicional: se você convence a si mesmo todo dia de que é superior, você para de treinar. Investigadores, pelo o que percebi, precisam estudar o mínimo. O ambiente paneleiro é um local de vulgaridade, de gente correndo atrás do próprio ego e tentando colocar o próprio nickname em evidência pelos motivos mais fúteis do mundo.

Os investigadores usualmente passam o dia todo trocando mensagens de superioridade com os paneleiros... Isso gera um efeito psicológico. Se você convence a si mesmo todo dia de que é superior, você para de treinar. Existe uma estrutura comportamental nisso. Vamos chamar essa estrutura comportamental de "paradoxo dos saiyajins". Acredito que podemos explicar da seguinte forma:

1. Potencial não é desenvolvimento:
No anime de Dragon Ball, víamos que saiyajins possuíam uma predisposição biológica extraordinária. Percebemos muito disso ao longo do anime com Goku e Vegeta. O problema central é que a maioria foi incapaz de desenvolver as próprias capacidades ao máximo. O potencial não se converteu em treinamento.

2. Superioridade percebida interrompe o aperfeiçoamento:
O paneleiro, na maioria das vezes, acredita estar acima dos demais. Isso faz com que ele deixe de estudar, experimentar, corrigir erros e desenvolver novas habilidades.

3. O ambiente social reforça a estagnação:
As panelas muitas vezes criam um mecanismo de validação psicológica. Os parcipantes delas passam a investir toda a energia em demonstrar superioridade uns aos outros, em vez de investir no próprio desenvolvimento.

Escrevi de forma simples, embora possamos falar que Freeza temia o potencial de desenvolvimento da raça saiyajin e por tal razão eliminou eles.

Como pode ver, a crença na própria superioridade é um mecanismo de autossabotagem.

Memória Cadavérica #67 — Brasileirinho elogiando inteligência



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: mensagem que deixei a um amigo. Realizei pequenas expansões.


Uma coisa que percebi muito tempo depois foi o fato de que quando um brasileiro lhe diz que você é inteligente, isso não quer dizer absolutamente nada. Muito raramente é algum interesse genuíno.


Aliás, se um brasileiro lhe disser que você é inteligente, peça que ele pare com isso imediatamente. Provavelmente ele exigirá, em um futuro nem tão distante, um posicionamento político em conformidade com o que ele quer.


O brasileiro que diz que você é inteligente não vai ler um único texto seu, não vai admirar uma única teoria sua, não vai ter interesse algum em sua obra.


Se algum brasileiro, ou alguma brasileira, disser que quer um relacionamento contigo por sua "inteligência", lembre-se do parágrafo acima: essa pessoa não lerá nada seu, não discutirá nada seu, esquecerá que você tem uma obra. A única coisa que ela admira é a estética de ter alguém inteligente ao lado.


Se aparecer outro intelectual brasileiro ao seu lado, mande-o pra casa do caralho. As únicas coisas que interessarão a esse outro brasileiro são os pontos teóricos que ele admira. Exemplo disso era o NGL do meu Blogspot; esse lotava de perguntas a respeito de incels e redpills, mesmo eu anunciando várias vezes que eu não tinha interesse algum em escrever a respeito disso. Tanto que até desativei a opção de enviar mensagem anônima pro Blogspot.


Faço questão, hoje em dia, de estudar o dia todo, mas nego qualquer alcunha de intelectual. Não quero alguém no meu ouvido dizendo "se você é intelectual, você deveria". É sempre algum pedido, algum favor. Quando não é isso, é alguma ideia de que sou forçado a fazer algo por ter estudado alguma coisa ou por supostamente fazer parte de algum grupo. Eu não tenho saco pra isso.

Memória Cadavérica #66 — Todo mundo é de esquerda agora

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: mensagem que deixei em um grupo do WhatsApp. Realizei uma pequena expansão.


Após acusarem o MBL de ser de esquerda, bolsonaristas dobram a dose: alguns acusam Tarcísio de Freitas de ser centrista, outros, de ser esquerdista. Por outro lado, após o pronunciamento de um membro do Chega, um partido de extrema-direita de Portugal, alguns bolsonaristas já acusam o partido Chega de ser de esquerda. Francamente, o Brasil vem se tornando um inferno na Terra.


As conclusões políticas, cada vez mais loucas e desvariadas, assumem o espaço público como se fossem extremamente respeitáveis. As redes sociais e os algoritmos, que colocam em pé de igualdade posições academicamente sérias com o puro chorume conspiratório, estão se configurando em uma tragédia para a consciência pública desse país. 

sábado, 31 de outubro de 2026

O Necrológio Cadavérico #13 — Apagabilidade

 


Se eu morresse hoje...


Lembraria que sou altamente apagável. Absolutamente ninguém, fora do meu eixo familiar, sentiria minha falta. Esse Blogspot, por exemplo, é frequentado por IAs, channers (do mundo todo) e alguns curiosos que param aqui por acaso.

A minha vida vem passando banalmente, diga-se de passagem. Hoje terminei um curso sobre o MST, do Miguel Enrique Stedile. Vi-o no ICL (Instituto Conhecimento Liberta). Eu tento estudar todos os dias para me sentir um pouco mais vivo. Além disso, troquei as redes sociais por plataformas de estudo, pois nas plataformas de estudo ninguém está xingando ninguém. Hoje em dia, redes sociais se resumem a gente xingando gente.

Outras duas coisas que fiz, nesses últimos tempos, foram:

1- Assinar a CPI das Big Techs: eu acredito que seja uma boa causa, embora eu creia que com o Congresso atual seja impossível esperar algo bom. De qualquer modo, quem quiser assinar pode entrar por esse link:

2- Votar favoravelmente ao PROJETO DE LEI nº 5555 de 2020 (PL 5555/2020): por acreditar na importância de combater a desinformação a respeito de vacinas. Se alguém quiser votar, aqui está o link:

São duas causas em que acredito. Não vejo que exista uma conjuntura política favorável à implantação delas; todavia, vejo beleza na iniciativa. Publico a respeito delas apenas como exercício de recordação, visto que a maioria da base de leitores nem é brasileira. (Isso impacta no quanto essa pauta é importante para o leitor que é alheio aos problemas brasileiros)

Com relação às eleições, confesso que tive extrema preguiça de acompanhar o debate nacional. Mesmo assim, estive em cerca de seis ou sete manifestações. Estive inclusive na última manifestação que rolou em São Paulo, a do Lula, junto ao movimento negro. Confesso que fiquei feliz com o resultado. Durante o ano todo, bolsonaristas cometeram crimes usando meus dados, me atribuíram crimes que nunca cometi, forjaram prints falsos meus. Não tenho razão alguma pra gostar do bolsonarismo.

Atualmente, venho pensando no quão apagáveis as coisas são. Também penso no quão apagável eu sou. É incrível o desapego em que estou. Tenho preguiça até de buscar sexo. O que é interessante é que, enquanto o brasileiro médio se sente ameaçado a partir de identidades que são verbalmente ameaçadas ("se você fizer isso, você não é de direita/esquerda"), eu fujo até mesmo da possibilidade de ter carência sexual. E olha que sou bissexual; tenho o dobro de possibilidade de ser bem-sucedido.

No fim, o que não é apagável? As exigências, para se preservar em determinada identidade, tornam-se cada vez mais fúteis. Pra se ter uma ideia, pra ser de direita hoje, no Brasil, é preciso acreditar em teorias da conspiração envolvendo a urna para ser validado existencialmente como membro legítimo. A cada ano que passa, o direitista brasileiro terá que fazer um bingo com todas as teorias conspiratórias em que ele terá que acreditar para "ser de direita". Um dia, lançarão vídeos no YouTube: "Em quantas teorias da conspiração você deve crer em 2030 para ser considerado de direita?"

Acho fofo o fato do brasileiro médio ser facilmente ameaçado com "roubo verbal de identidade"; acho fofo o brasileiro temer a perda do reconhecimento público como "parte da esquerda/direita"; isso só demonstra que, no fundo, o brasileiro é só um carente brincando com a insegurança alheia. O brasileiro médio até espera que todos sejam iguais a ele: carente de um "eu plural" e com alta disposição de fazer qualquer merda para se encaixar em um grupo.

Seja a carência, seja o "eu plural", seja a minha própria existência: nada escapa da apagabilidade.

domingo, 25 de outubro de 2026

Acabo de ler "O Mínimo sobre Globalismo" de Alexandre Costa

 



Livro:

O Mínimo sobre Globalismo


Autor:

Alexandre Costa


Nota do Cadáver:

Quando esse blog era bem menor, tanto em visualizações quanto em análises, já tinha analisado um livro de Alexandre Costa. Naquele período, já imaginava a construção de um modelo de guerra conspiratória, que posteriormente apareceria no esoterismo channer, no sistema denominado esochannealogy. Como ninguém soube separar guerra conspiratória (um tipo de guerra narrativa em que se criam teorias da conspiração contra adversários) de teoria da conspiração (literalmente acreditar em teorias da conspiração), creio que a capacidade em si de entender as técnicas do esoterismo channer se perdeu.

Recomendo olhar a análise anterior:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2022/09/acabo-de-ler-introducao-nova-ordem.html?m=0

E ler o que foi escrito no Magolítica:

https://medium.com/@cadaverminimal/list/e6396f5d5563

Caso exista o interesse no aprofundamento a respeito da guerra conspiratória (conspiracy warfare), recomendo essa lista:

https://cadaverminimal.blogspot.com/search/label/conspiracy%20warfare?m=0


-----------


Nos últimos tempos, tenho conduzido um esforço para compreender o debate público brasileiro ao mesmo tempo que estudo áreas ligadas à computação. Não pretendo abordar a segunda parte agora, mas venho consumindo vários cursos nessa parte. Em relação ao estudo, mais na área de humanas, fiz mais de cinquenta cursos no ICL (Instituto Conhecimento Liberta) e ainda venho lendo sobre o fenômeno trumpista através de diversos autores. Isso dificultou bastante meu tempo de análise, embora eu acredite que todos esses estudos possam gerar conteúdos mais diversos no futuro.


Eu quero compreender como a esquerda está se formando e pensando. Eu quero compreender como o centro está se formando e pensando. Eu quero compreender como a esquerda está se formando e pensando.

 

Existe um motivo pelo qual eu estou analisando a coleção "O mínimo sobre"; um dia eu pretendo me aventurar no terreno da estratégia política e, por tal razão, pretendo conhecer todos os lados do espectro político. Essas leituras são, para mim, uma forma de compreender múltiplas posições e organizações sociais. Essa coleção, em especial, apresenta vários quadros da nova direita brasileira. Aqueles que querem compreender o que a nova direita brasileira pensa precisam ao menos dar uma passada nesses livros.


Várias ideias vêm sido passadas pela nova direita brasileira. Uma série de autores que, muitas vezes, passam despercebidos pelos intelectuais. Acredito que a obra de Alexandre Costa é essencial para quem quer seguir a nova direita brasileira e compreender como ela está se formando. Aqui o leitor poderá ver uma análise pura a respeito do "globalismo", sem aquele verniz acadêmico cheio de notas dizendo "isso é uma teoria da conspiração". Isto é, a possibilidade de estudar o "globalismo" por um teórico do assunto diretamente.


Sobre o livro, em si, prefiro não dar muitos spoilers, mas deixo a seguinte questão: se a primeira análise (linkada lá em cima) a respeito do Alexandre Costa dizia: "Mas, tudo bem, eu li esse livro já esperando isso mesmo e tenho certeza que será útil para o que estou construindo - e, não, eu não vou dizer o que estou construindo"... o que será que estou construindo tão pacientemente?

sábado, 24 de outubro de 2026

Acabo de ler "Audience of One" de James Poniewozik (lido em inglês)

 


Nome:

The Audience of One


Autor:

James Poniewozik


Creio que após o primeiro turno das eleições brasileiras, muita gente percebeu isso: a política moderna consiste mais em um espetáculo de influenciadores que tentam, a todo custo, entreter o público do que em respostas políticas concretas aos problemas sociais, infraestruturais ou econômicos. A espetacularização da política não é apenas uma "nova forma de fazer política", mas também uma forma de ocultá-la.


Enquanto o Brasil era assombrado por uma explosão de banheiros trans inexistentes e por uma forte onda de comunismo que nunca existiu, James Poniewozik analisava a carreira de Donald Trump. Os seus insights, embora feitos para analisar os Estados Unidos, também se encaixam como uma luva para explicar a realidade nacional.


Um dos temas centrais das eleições de 2026, aqui no Brasil, é como influenciadores se tornam personagens e personagens se tornam políticos. Aqui entra uma conexão fundamental: James Poniewozik defende em seu livro que a televisão não apenas ajudou Donald Trump a se tornar presidente, mas também moldou a sua personalidade pública, seu estilo político e a maneira como ele exerce o poder. James nos ajuda a entender como os termos "celebridade", "entretenimento" e "política" passam a se confundir.


O espetáculo das redes sociais é pautado por influenciadores e figuras que disputam engajamento e viralização em vez de propostas concretas e debate de ideias. A gente precisa compreender como isso é metodologicamente possível.


— Sete pontos centrais do caso Trump:

1- Trump é um personagem de televisão antes de ser um personagem político:

O personagem público de Donald Trump era o de um bilionário extravagante, de uma celebridade provocadora e, por fim, de um líder combativo.


2- A televisão passou de força unificadora para força fragmentadora:

Conforme a televisão foi se fragmentando, os públicos e os nichos se dividiram, impossibilitando narrativas unificadoras.


3- O reality show ensinou o público a enxergar poder como espetáculo:

A política moderna não é algo que se tenta compreender intelectualmente, mas, antes disso, um espetáculo que se transmite. 


4- A cultura popular normalizou o anti-herói:

Séries, filmes e programas normalizaram anti-heróis no imaginário público. Figuras manipuladoras, agressivas e transgressoras se tornaram as principais referências. A grosseria e a falta de decoro viraram sinais de autenticidade e não defeitos.


5- A cultura da atenção recompensa o conflito e não a reflexão:

O espetáculo não existe para ser ponderado. O espetáculo existe para causar sensações em quem assiste. O espetáculo quer causar medo, indignação, acusações, confrontos, risadas, seja lá o que for. 


6- As redes sociais transformaram a provocação em estratégia permanente:

Com a queda da televisão, o decoro jornalístico deixou de ser um freio. Enquanto Trump soltava uma série de comentários curtos, insultos e declarações controversas, a mídia reagia a tudo deixando o nome de Donald Trump em maior evidência, o que ampliava o seu alcance.


7- A presidência passa a funcionar como reality show:

A política passa a ser uma sequência de episódios, disputas, reviravoltas e demonstrações de força. O expectador quer se sentir emocionado o tempo todo, logo transforme a sua vida em um reality show.


— Uma metodologia de sete passos da política do espetáculo:

1- Criar uma personagem midiática que seja tão ou mais importante que a pessoa real;

2- Adaptar-se a um público consumidor e criar uma narrativa que lhe seja agradável;

3- O central não é apenas governar ou fazer política, mas sim ser um dos personagens centrais que se envolvem em dramas para entreter o eleitor;

4- Agir como um anti-herói grosseiro, manipulador e moralmente ambíguo rende pontos, pois entretém o público, além do público não ver isso como defeito;

5- Entenda que a sua posição não é a de um intelectual explicando alguma coisa, mas sim a de um personagem que deve chamar atenção. Gerar manchetes e provocar adversários são duas possibilidades infinitamente mais importantes do que estar intelectualmente certo;

6- A controvérsia não é um problema, é um método de viralização e amplificação da sua mensagem;

7- É preciso que a gestão do governo e a produção de narrativas midiáticas se tornem indistinguíveis para o expectador.


A Era do Showfare

É interessante como podemos juntar os termos "reality show" e "warfare".  Na qual podemos criar o termo "Showfare" (guerra dos shows).


Nesse novo modo de guerra, as pessoas que mais tiverem incentivos midiáticos em sua atividade política (conflito, emoção, espetáculo, audiência) para aumentarem o seu poder ganham. Saber capturar a atenção é mais importante do que apresentar propostas. A polarização é um produto cultural a ser comercializado. A fronteira entre realidade e entretenimento deve ser psicologicamente quebrada a cada instante.