quinta-feira, 30 de julho de 2026

Caveira Casual #13 — Monotonia do Debate Brasileiro

 



Grande parte da internet brasileira parece ter o ar interiorano de uma cidade pacata onde nada de verdadeiramente novo acontece. Eu tenho evitado grupos brasileiros e sites brasileiros ao máximo, com exceção daqueles que são usados para estudo ou daqueles com os quais tenho alguma familiaridade há anos.


Lembro-me de quando eu era mais novo. Tinha um problema enorme. Queria discutir não só stalinismo e trotskismo, mas o zapatismo também. Via que as discussões brasileiras tendiam a seguir sendo as mesmas. Quando eu era adolescente, via conservadores discutindo o neoconservadorismo e apresentando ideias neoconservadoras. Hoje em dia, apesar do conservadorismo internacional ter mudado muito e ido em direção a uma posição menos neoliberal e mais industrialista na esfera econômica, o debate nacional segue o mesmo, tal como se nada absolutamente tivesse acontecido.


A monotonia me irrita.

/cc/ #5 — Estou de saco cheio do brasileirismo!

 



/cc/ = copicolas que eu criei pois estava de saco cheio de repetir as mesmas coisas.


Estou de saco cheio do brasileirismo!


Essa onda que entrou agora quer pôr o Brasil em tudo e obrigar todo mundo a consumir o Brasil em tudo. Todo brasileiro, imbuído de uma consciência artificialmente cívica e patriótica, deve ser brasileiro em gênero, número e grau!


Eu, pra ser sincero, estou cansado do Brasil. Eu sou brasileiro, meus pais são brasileiros, minhas ex-namoradas são brasileiras, todos os meus exs-namorados são brasileiros, todas as minhas ex-sogras são brasileiras. E, pra quem me chamar de vira-lata, até meus oito vira-latas são brasileiros e uivam o Hino Nacional com a consciência de mil Nelson Rodrigues numa autocondenação ao vira-latismo.


Toda vez que abro a internet e vejo conteúdo do Brasil, vejo a mesma coisa. Por algum motivo, todos usam o recurso das universais afirmativas, tal como se tivessem saído de um curso filosófico de lógica nacionalista:


- Todo brasileiro deve ver filmes nacionais!


- Todo brasileiro deve ler livros nacionais!


- Todo brasileiro deve ouvir música nacional!


- Todo brasileiro deve comer comida nacional!


Todos os que acordo, estou no Brasil. Eu vejo brasileiros todos os dias. Quando saio de casa, ouço Péricles pelas ruas. Quando abro a internet, deparo-me com as discussões tipicamente nacionais. É por isso que digo: eu não preciso de mais Brasil, eu preciso de menos Brasil!


Atualmente só leio livro gringo, pois quero sentir que estou fora do Brasil. Atualmente só jogo jogo gringo, pois quero sentir que não estou no Brasil. Compreende? Eu prefiro passar, sei lá, mil horas escutando artistas estrangeiros do que lembrar que estou no Brasil. Substitui Legião Urbana por Soda Stereo. Substitui Nikolas Ferreira por Yurval Levin. Substitui Lula por Proudhon.


Se me aparece um bolsonarista, digo-lhe que voto em quem ele quer que eu vote apenas para ele não me encher o saco com a sua brasileirice. Se aparecer um petista, digo-lhe a mesma coisa. Eu não ligo. Nem sei a razão pela qual um homem como eu, favorável a tecnocracia, tem direito a voto. Vocês deveriam ser gratos por eu não querer votar e, quiçá por sorte improvável, eleger um tecnocrata que quer o fim da festa da democracia.


É simplesmente insuportável ter uma obrigação que não pedi. Toda vez que vejo um outro brasileiro, sinto vontade de dizer: "apenas não, já tenho demais do Brasil vivendo nele, por favor, procure outro brasileiro para expressar a sua brasilidade".


Outro terrível fato é que, por algum acaso, todo brasileiro que vejo em vídeo gringo aparece dizendo "I as a Brazilian" e segue-se algum besteirol desnecessário. Soa como um "I ass a Brazilian". Estou farto dessas apresentações brasileiras, eu não quero saber que você vem do Brasil e também acho que ninguém quer saber. Você não é especial por ser brasileiro, eu não sou especial por ser brasileiro.


Vocês querem mais Brasil, sejam mais brasileiros entre si. Eu quero menos Brasil, deixem-me em paz com a sua brasilidade! Não me venham com seus filmes, seus livros, seu futebol, suas músicas, seus políticos, seus nacionalismos azuis ou vermelhos! Deixem-me em paz! Pelo amor de Deus!

terça-feira, 28 de julho de 2026

Retrowave #17


 

Retrowave: uma saga de frases de pessoas ilustres que resolvi colocar em retrowave.

Caveira Casual #12 — Session 9, Rick e Morty e ex-namorada

 



Pouca coisa ocorreu nesse intervalo de tempo. Assisti à Session 9. Também assisti ao final da nona temporada de Rick e Morty recentemente. Fui à casa da minha ex-namorada ontem. Tivemos conversas casuais e tomamos algumas cervejas. Conversas sobre a vida preencheram quase tudo. Voltei pra minha casa de Uber. Minha ex-namorada pagou.


É impressionante como não me lembro de quase nada, apenas de flashes. Em algum momento, ela estava preocupada com os sons que emitíamos enquanto nos beijávamos. Ela disse: "A minha mãe pode ouvir". Eu disse: "Aquela que você chama de mãe, eu chamo de sogra". Parecia que eu estava em alguma série aleatória em que eu era o personagem mais cínico.


Não gosto muito de escrever sobre o que ocorre em filmes ou séries. Para ser sincero, creio que isso estraga a experiência. Creio que cada pessoa deve ter a sua experiência sem nenhum spoiler. Antigamente adorava spoilers e contar spoilers. Atualmente isso mudou. Acredito que isso estraga a experiência da pessoa. O inesperado é algo bom em uma vida marcada por lugares comuns.


As aulas de teatro voltam esse sábado. O mandarim, não sei quando começa. Tenho me dedicado à leitura com parcimônia, embora não tenha entrado numa fase de extremo encanto para com ela. Continuo a ler Yuval Levin. Ele se demonstra um homem bastante pragmático e inteligente. Nenhuma novidade além dessa.

domingo, 26 de julho de 2026

Caveira Casual #11 — Horror, Bleach e Rick e Morty

 



Assisti a Dolly. Dolly, no Brasil, é marca de refrigerante. O que é engraçado. No Brasil, é marca de refrigerante. Nos Estados Unidos, é um filme de terror. O único motivo para eu ter assistido a esse filme foi o /tv/ do 4chan. Vi que havia algumas piadas sobre ageplay referentes ao filme, mas nada demais. O filme funciona mais como uma mistura de gore com terror com ageplay do que um filme fetichista.


Também assisti "The Cabin in the Woods". Esse filme é bem diferente. O roteiro é criativo. Os personagens são mais inteligentes do que usualmente se espera de um filme de terror cheio de eventos para agradar adolescentes. Todavia, não há uma balança adequada entre aquilo que serve para agradar adolescentes edge e a inteligência do filme como um todo.


Também assisti a um episódio do Bleach. Ouvi dizer que essa temporada só terá dez episódios; depois, preciso confirmar essa informação. Nesse primeiro episódio, tivemos parte da luta de Urahara e Askin. O /a/ do 4chan entrou em choque e comentou as cenas animadamente. Sobretudo, é claro, as mais sensualizadas envolvendo a Yoruichi.


Assisti também ao episódio 9 da temporada 9 de Rick e Morty. Esse foi quase inteiramente baseado na experiência de ficar chapado e lidar com as consequências. Há um paralelo entre a maturidade dos adultos e das crianças/adolescentes. 

sábado, 25 de julho de 2026

Caveira Casual #10 — Nem só de Found Footage viverá o homem!

 



A vida tem sido bem banal. Tenho assistido a Rick e Morty, esperando a nova temporada de Bleach e conversado um pouco no 4chan. Graças a uma nova recomendação do /tv/, assisti ao filme espanhol "La Mesita del Comedor". Um filme surrealmente perturbador, diga-se de passagem. Isso assustará os leitores, visto que não é um Found Footage. Já dizia o ditado (não) bíblico: nem só se Found Footage viverá o homem!


As sensações de assistir a esse filme... eu não saberia descrevê-las em termos não viscerais. É como se voluntariar para passar uma serra elétrica no saco ou testar a guilhotina na revolução francesa. Algo próximo a uma cadeira elétrica de emoções desconfortáveis. Um filme difícil de assistir e difícil de engolir. Talvez seja parecido com a sensação que os neoconservadores tiveram ao ver a ascensão da China como superpotência.


Enquanto o tempo passava como uma tortura audiovisual, lembrava-me dos reviews que eram dispostos na internet. Eles eram como implacações de uma ex:

— Eu te avisei.

Poucas coisas são tão perturbadoras quanto a memória de uma ex-namorada coberta de razão ou quanto à nota do The Guardian ao Splatoon Raiders (2/5). Se bem que, para ser sincero, conservadores clássicos eram tão implicantes com os neoconservadores a respeito da China quanto minha ex era implicante quanto às minhas ideias de encher a cara com tequila. Tudo isso me remete à agonia existencial profunda de assistir a "La Mesita del Comedor".


Hoje mesmo é aniversário de uma outra ex-namorada minha. 30 anos essa noite. Parece até o nome do livro de Paulo Francis: "Trinta Anos Essa Noite — O Que Vi e Vivi". Um clássico profundo que dá recordações de um Brasil que não vivi. Creio que um bom livro e um bom cinema trazem sensações que não vivemos tal como se tivéssemos vivido.


Hoje quero me dedicar às outras coisas. Comecei a ler "The Fractured Republic" de Yuval Levin e a nova temporada de Bleach começa hoje. Quanto às sensações de assistir a "La Mesita del Comedor", elas ficam no passado que nem os porres que levei ao tomar muita tequila.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Acabo de ler "The Collapse of Communism" de Vários Autores (lido em inglês)

 



Nome:

The Collapse of Communism


Autores:

Foreword / John Raisian

Introduction / Lee Edwards

1. The Year of Miracles / Lee Edwards

2. The Grand Failure / Zbigniew Brzezinski

3. The Fall of the Soviet Union / Richard Pipes

4. The Stalin Era / Robert Conquest

5. The Highest Stage of Socialism / Martin Malia

6. The Silent Artillery of Communism / Michael Novak

7. The End of Communist Economics / Andrzej Brzeski

8. Why the Cold War? / Brian Crozier

9. Judgments and Misjudgments / Paul Hollander.

(Nota: preferi copiar e colar pois eram muitos autores)


Quando eu era adolescente, lia muito Lênin. Li também outros teóricos do socialismo. Karl Marx se provou bastante útil. Li também anarquistas como Proudhon e Bakunin. Minhas influências centrais eram meu tio, que era comunista, e meu pai, que era anarquista. Com meus atuais 29 anos de idade, a adolescência parece distante e o socialismo soviético, que encantou minha juventude, ainda mais. De tempos em tempos, leio algo sobre o socialismo soviético e, ainda assim, não compreendo a razão de ele passar a impressão de ser tão pesado.


Não cresci numa época em que o socialismo soviético ainda existia. Nasci em 1996. Minhas memórias mais antigas estão nos anos 2000 e 2001. Quando eu crescia, a única coisa de que se falava sobre socialismo era a China. Ninguém, todavia, apresentava-me a China como a figura obrigatória que é hoje na discussão geopolítica e geoeconômica. É evidente que, mesmo tomando notas da União Soviética e consultando diferentes autores, as questões centrais sobre seus desdobramentos ainda não se fixaram inteiramente em minha mente. Na minha cabeça, a União Soviética é uma incógnita permanente tal como o é na cabeça de um marxista. Procuro-a sob os mais diversos ângulos.


Durante um bom tempo, falava-se da vitória neoliberal e neoconservadora. Ler autores neoconservadores e pós-neoconservadores me retornou a essa questão. O triunfalismo neoconservador e ocidental, pelo que me parece, não está tão em voga quanto antigamente estava. Hoje em dia, fala-se muito mais da China e do papel do Estado no desenvolvimento econômico. Essa questão pesa muito mais caro aos Estados Unidos. Aqui parece que estamos no tempo Reagan por falta de alguém conferir o calendário.


Atualmente parece que os Estados Unidos não se acertam. Enquanto isso, a China vai impressionar o mundo em cada setor em que se apresenta. Nesse show de mágica do século XXI, a China é a grande maga que tira coelhos da cartola enquanto os Estados Unidos tentam entender o que se passa. Alguns dizem que a China é impressionante por ter aderido ao capitalismo; outros dizem que o aspecto socialista é o que mais marca a China. Considero a China como um país socialista de mercado, mas isso é estranho demais para os binarismos que marcam a mentalidade do debate público brasileiro.


Pouco tempo atrás, quase tudo poderia ser respondido com "fim da história". Tudo se adaptaria ao sistema liberal e ao fim do jogo. Mais tarde, víamos que a ordem liberal, que parecia uma verdade eterna e superior a todo e qualquer questionamento, ia se esvanecendo e dando lugar a uma incerteza crescente. No meio disso, figuras intelectualmente céticas da ordem e da economia liberal iam surgindo e recebendo cada vez mais espaço. O questionamento, cabe-se mencionar, não vem só da esquerda; a própria direita está a romper com a chamada ordem liberal.


Os autores, enquanto escreviam esse livro, falavam com a certeza histórica de que viam o fim de um mundo e confirmavam a existência de um novo mundo que estava a surgir. A história, diga-se de passagem, não é uma deusa fácil de se conquistar e se manter; ela sempre brinca com os devotos que juram que a conquistaram. Até ontem, quase ninguém imaginava que os esforços do século XXI seriam na criação de inteligências artificiais cada vez mais potentes. Hoje isso permeia o debate público como se fosse um fato banal que sempre esteve ali.


Acompanhar o debate americano em inglês e estar estudando mandarim é algo que traz um dado deslocamento. Muitas vezes me perco. Já sentia isso antes quando comecei a ler em espanhol e vi o mundo se expandir para além daquilo a que estava habituado. Pergunto-me como será o tempo em que estarei habituado a ler em mandarim. Creio que primeiro vêm a surpresa e o desbravamento; posteriormente, tudo será normalizado. Estou sempre entre a surpresa e a normalização. Não que a vida não seja uma mescla de choques. Nunca se é inteiramente velho para não ter mais espanto com alguma novidade que soe como algo vindo de outro planeta.


Hoje em dia, vejo que as certezas que a deusa história apresenta estão mais como teias de ilusão tecidas por Maia. Até pouco tempo atrás, a internet parecia um local de entretenimento infinito, um reino mágico onde todas as preocupações subitamente eram substituídas por distrações graciosas. Atualmente, olhamos para uma alta polarização em que todo mundo está xingando todo mundo. Por incrível que pareça, eu gosto de livros por eles não me ofenderem nem dizerem falsamente que me amam.


Ler o passado não é apenas confirmar as certezas de nosso presente; é saber que o nosso presente é permeado por ilusões que, hora ou outra, podem desmoronar em nossa frente. Isso é válido não só para a União Soviética, que implodiu na frente de todos, mas também para nossas ideias aparentemente imortais.


Outra grande lição que aprendi, tentando compreender as coisas e as pessoas em minha solidão, é que só podemos compreender o que queremos compreender. Do mesmo modo, as pessoas só compreendem o que querem compreender. Muitas vezes, o ininteligível é mais volitivo do que aparenta ser. Muito do que está à nossa volta é emocionalmente incompreensível antes de ser intelectualmente incompreensível.


A União Soviética é, para alguns, o pesadelo que passou. A União Soviética é, para outros, o sonho que se perdeu. Até hoje não temos um consenso no debate público. Seria o horizonte do planejamento central algo que parou na penumbra da história ou seria uma má interpretação da obra marxista? Marx errou ou se atualizou? Não teria sido melhor um socialismo aberto, para múltiplos socialistas, em vez de uma ortodoxia de ferro e fogo? Essas são questões que continuo a me fazer, pouco importando o tempo que passa e os livros que leio. Não creio que eu esteja aqui para concordar ou discordar do socialismo ou do capitalismo. Não creio que eu seja suficientemente inteligente para tal. Para ser sincero, quanto mais estudo, menos acredito em qualquer sistema que seja. Quanto mais estudo, menos me vejo capaz de realizar afirmações.