Se eu morresse hoje...
Eu percebo atualmente como grande parte das experiências são vazias e grande parte das conquistas se dedicam a uma nadificação. Isso tem muita correlação com o método confessional que resolvi adotar como formato textual dessa série de textos. Eu queria me purificar dos meus pecados e não enaltecer narcisicamente o meu ego frágil. Costumo dizer que às vezes é preciso de que as coisas se quebrem. Às vezes sinto vontade de me quebrar.
Uma pergunta central: "por qual razão escrever em primeira pessoa?". A centralidade aqui está no método: escrever em terceira pessoa, tal como um narrador onisciente e onipresente, cria uma ilusão intelectual de absoluto controle e ausência de erros. O que leva a uma ideia de onipotência e capacidade de corrigir os problemas do mundo. O intelecto, em si, passa a não perceber nada e, inconscientemente, acreditar que percebe tudo. Isso cria uma condição de narcisismo intelectual: bastava fazerem isso que o mundo não seria assim. Eu preferi escrever dum modo em que todas as feridas da minha alma são expostas, completamente nuas, para que o leitor ou a leitora pudesse rir de mim e dos meus pecados. Ou, se tivesse um quê de caridade, compadecer-se da minha dor.
Eu sei se algo da ilusão pornográfica: ela cria a impressão, completamente falsa, que temos mais parceiros sexuais do que realmente temos. O nosso cérebro, dizem alguns especialistas, não diferencia a pessoa da tela e a pessoa que está do nosso lado. O resultado? Dopamina como recompensa. A pornografia está correlacionada com a falsidade de acreditar inconscientemente que se tem algo que em última instância não se tem. Mas, no fim de tudo, isso não é o mesmo em tantas outras correlações? Do mesmo modo que o intelectual ao escrever em terceira pessoa ele cria inconscientemente a ilusão de ser onipresente, onisciente e onipotente, tal como Deus, o onanista inconscientemente acredita que tem mais pessoas ao seu lado do que de fato possui.
Esse onanismo pornográfico, dentro da sociedade moderna, atinge uma proporção ainda maior. Uma série de relações românticas se constroem visando o bem estar ou um aspecto burocrático qualquer, sendo que o bem estar (que não pode ser confundido com felicidade) é algo passageiro e a burocracia estatal devora o amor com a sua teia de relações jurídicas que atordoam todos os viventes. Quando vejo alguém, vejo em sua sombra a figura do Leviata que a tudo devora, a tudo regula e a tudo dita. Não me parece a busca de construir algo a dois apesar de todas as dificuldades que se erguem e apesar dos momentos de mau-estar que certamente terei.
No mundo moderno, diga-se de passagem, há em nós — em mim, em ti —, a busca por Deus substituída. Deus muitas vezes é substituído pelo romance. Disso surge a paixão que busca na pessoa um retrato perfeito de Deus. O que nos leva — a mim e a ti — a odiar qualquer defeito que aparece e estraga o que deveria ser perfeitamente divino. Esse tipo de relação, tal como observa Robert A. Johnson, está condenada a falhar. Acreditar que está namorando alguém quando na verdade está buscando a Deus de forma completamente deturpada, ao mesmo tempo que pune qualquer desvio do objeto divino indesejado foi o que me fez escrever aquele texto do Funk Buda (https://medium.com/@cadaverminimal/funk-buda-6-paquera%C3%A7%C3%A3o-namoricagem-e-namoricose-dfb84c3b90b9).
Creio que muito da minha vida foi ligado a falsa impressão de ter. Ou a inconsciente impressão de ter, quando na realidade nada tinha. Digo isso de todas as minhas relações passadas. Eu acreditava, de fato, estar namorando aquelas pessoas quando, na verdade, era eu e elas num eterno masturbacionismo infinito até que o castelo de cristal quebrasse com a tormenta do vento da vaidade. Mesmo que o leitor ou a leitora tenha achado que, por algum momento, eu que não sou virgem nem do buraco das orelhas e das narinas, fosse um redpill, incel e MGTOW por ter sido um channer bastante ativo. O que é engraçado: vivo em mais festas do que deveria e me arrependo de 100% das minhas relações sexuais passadas — incluindo as orgias que estive desde os meus dezesseis anos de idade. Essa vida desregrada de bissexual boêmio carregou meu coração de vazio e amargura, agora cai em mim a chuva do arrependimento.
Uma amiga disse para mim que estou me tornando um boomer. De fato, o peso da idade vem me tornado mais conservador, mais religioso, menos apressado com as ideias e menos empolgado para com as novidades. Respondi-lhe ironicamente que escreveria um ensaio filosófico chamado "A boomerização do homem" e cá estou eu ignorando as minhas promessas. Estou realmente pensando cada vez mais em Jesus Cristo, olhando mais para o mundo como um texano republicano olha para um californiano democrata que migrou para o seu estado — e que, por algum infortúnio, votará em democratas para deixar o churrasco texano com sabor da defumação lenta da maconha progressista da Califórnia.
Sim, torno-me eu irremediavelmente mais boomer, mais religioso e mais conservador. Estou com mais gosto de festa junina/julina dentro de uma Igreja do que de um carnaval regado a lança-perfume. Tenho um pessimismo metafísico diante dessas novidades que me aparecem como o novo cajuzinho do verão. Acho uma tolice grande parte dos movimentos que despertam nos jovens alguma atenção, pescarias como redpill, MGTOW e cultura incel são, para mim, cigarros estragados com fumaças intragáveis.
Conforme o tempo passa, vejo que minhas experiências não eram tão geniais como outroramente apareciam. Em vez disso, aparentam-me como um gigantesco onanismo. Tanto que não faço quase nada de novo. Não perderia meu tempo entrando em outra relação frustrada, não perderia meu tempo adentrando em um outro grande movimento, não perderia meu tempo acreditando no marketing e nem perderia meu tempo lendo tanto jornal. Os fatos políticos noticiados pelos jornais usualmente não alteram a percepção de ninguém hoje em dia, visto que há em todo jogo político uma lógica tribal que serve como lente interpretativa de todos os fatos. Além disso, como já escrevi, nada posso mudar visto que sou irrelevante.
Eu fico aqui, lentificando meus passos, lendo assuntos que a ninguém interessa, jogando poucos jogos de videogame ou estudando em cursos de universidades americanas sem dever nada para ninguém. Estou me tornando, pouco a pouco, mais fantasmagórico para os grandes públicos e, por algum motivo, sendo lido por mais gente.
