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segunda-feira, 9 de março de 2026

NGL #57 — Castelo do Drácula, Dark Self e Saint Obamas Momjeans

 


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1- Por que o Castelo do Drácula aparece como expressão do Dark Self?


O nosso self é composto pela parte "socialmente aceitável" e pela parte "socialmente inaceitável". O "self social" apresenta uma estrutura semelhante. Tal como a diferença entre inconsciente e inconsciente coletivo. Aquilo que guardamos dentro de nós, aquilo que rejeitamos em nós mesmos, continua a existir e a nos influenciar inconscientemente. Do mesmo modo, a sociedade segue o mesmo destino.


Quando jogamos Castlevania, percebemos que o Castelo do Drácula é o Dark Self, mas não um Dark Self que não se altera, mas sim um Dark Self a se realizar para cada época. Podemos tirar disso que o "mal" ou o lado "não aceito" não deixa de existir com o passar da história. Ele existe por necessidade. Tudo que existe carrega um lado socialmente e internamente aceitável e um lado socialmente e internamente inaceitável. Jung falava sobre a integração das sombras por conta desse conflito inescapável e vem daí a sua "briga" com a teologia cristã.


Alerta de Spoiler:

Quando você joga Castlevania Symphony of the Night, você vê que o herói do jogo anterior (Richter) se "tornou" do "mal", que aquele que deveria ser "do mal" (Alucard, visto que é filho do Drácula) é do "bem" e que Drácula aparece no final do jogo como sendo uma fusão disforme de múltiplos monstros. O Castelo do Drácula é sempre composto por aquilo que é socialmente rejeitado, visto que é a expressão do Dark Self de cada época.


Se olharmos o passar da história, toda religião, ideologia e filosofia que conseguiram serem bem sucedidas em se institucionalizarem apareceram como "libertação" e como "escravidão", como "bem" e como "mal". Essa constante na história representa o "Castelo" do Drácula e a "ressurreição do Drácula". A ressurreição do Drácula nada mais é do que a forma com que múltiplas ideologias, filosofias e religiões aparecem como possibilidades escatológicas de trazerem o paraíso e a paz final para a Terra, mas acabam por se reconfigurar como a expressão do inferno. A ressurreição do Drácula nada mais é do que locais que surgem para a expressão do Dark Self de tempos em tempos. E é exatamente pelo fato dessas ideologias, religiões e filosofias se considerarem salvadores que são incapazes de integrarem a sombra.


Se o mal é uma constante, então o mal não tem uma forma definida. Se tornar socialista, liberal, cristão, islâmico, conservador... nada disso vai te livrar do mal. Visto que o mal estará sempre presente, pouco importando qual seja a sua ideologia, filosofia ou religião. O Dark Self faz parte da natureza humana. Você sempre precisa considerar a sombra que existe na natureza humana e na sociedade humana. E é por essa razão que o Drácula, no jogo Castlevania Symphony of the Night, aparece de uma forma indefinida. O mal não tem forma pois sempre se expressa com as múltiplas formas sociohistóricas da natureza humana.


O Castelo do Drácula adquire várias formas. Na literatura, podemos ver o "Grande Irmão" de 1984. Nos jogos de videogame, vemos a cidade Silent Hill, vemos o Castelo do Drácula em Castlevania, vemos a Umbrella Corporation em Resident Evil. Na vida real, vemos a Ilha de Epstein.


2- Ao que Saint Obamas Momjeans estava se referindo como "nosso passado"?


Nota: aqui estou tentando explicar um pensamento em específico, não compartilho das mesmas crenças que Saint Obamas Momjeans.


Você está se referindo ao livro Shadilay. Vou colocar o trecho:


Original:

"We must go further. Kek is the beginning. The foundation of the Ogdoad. If we truly want to become powerful, there are other who seek worship and Kek will approve of their worship.

We can be unstoppable, and accomplish incredible feats that the ancients did. (((They))) are afraid because (((they))) know we have found the key to the truth of our past. It's time to unlock it.

PRAISE THE OGDOAD! PRAISE KEK!"

Tradução:

"Precisamos ir além. Kek é o começo. O alicerce da Ogdóade. Se realmente queremos nos tornar poderosos, há outros que buscam adoração e Kek aprovará essa adoração.

Podemos ser imparáveis ​​e realizar feitos incríveis como os antigos. (((Eles))) têm medo porque sabem que encontramos a chave para a verdade do nosso passado. É hora de destrancá-la.

LOUVADO SEJA A OGDÓADE! LOUVADO SEJA KEK!"


A Cosmogonia de Hermópolis tinha oito deuses ou quatro casais representando forças inatas do caos primordial:

Nun e Naunet: as águas primordiais/abismo.

Heh e Hauhet: o infinito/espaço.

Kek e Kauket: a escuridão.

Amun e Amaunet: o oculto/invisível.


Reparem que ele fala: "Se realmente queremos nos tornar poderosos, há outros que buscam adoração e Kek aprovará essa adoração". Ele esta falando dos oito deuses (quatro casais) do Ogdóade. Saint Obamas Momjeans está falando que não só Kek será adorado, mas os outros sete deuses restantes também.


Ele está se referindo a cosmogonia de Hermópolis e aos acontecimentos de lá. Isso dá uma explicação quase mística/teológica ao antissemitismo. Em outras palavras, existe uma ideia de que os channers seriam descendentes intelectuais/teológicos desse povo e estariam em briga com os judeus desde esse momento histórico. É evidente que isso não pode ser afirmado literalmente, visto que cai na questão do discurso esochannealógico que foi tratada em outros insider clubs:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/ngl-35-por-que-channers-fingem-loucura.html?m=1

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/ngl-38-discurso-academico-x-discurso.html?m=1


sábado, 14 de fevereiro de 2026

NGL #44 — Por qual razão eu continuo sendo channer?

 


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Ser channer traz uma sensação psicológica única e indescritível. Essa sensação não pode ser sintetizada em termos literais, seja por questão de moralidade, seja por questão de não ser sintetizável em um vocabulário perfeito e inteligível. Por isso, peço que me acompanhe.


Pense que, de repente, toda a sua racionalidade esmorecesse. Você apenas vê um coelho a sua frente. Então você corre. Você não consegue confirmar isso, mas sente que tem quatro patas em vez de duas pernas e dois braços. Nessa sensação, você sente que quer caçar aquele coelho que foge de ti. Não é por fome. Não é por sobrevivência. É pelo prazer da pura caça.


O que eu quero dizer: há a identificação com a figura do predador, algo mais animalesco do que humano. Algo que faz a caça ser um fim em si mesmo, como a satisfação direta de algo impulsivo e predatório. Algo que é encarado, simultaneamente, como errado e, ao mesmo tempo, gratificante por si só e por ser errado. É como se o desligamento da racionalidade e a regressão a um estado primitivo fossem "autorecompensantes" na atmosfera lúdica de uma violência simbólica contra as normas e contra os valores instituídos. Em outras palavras, cada sessão dentro de um chan é um processo de desumanização temporária e recreativa onde a sombra se manifesta de forma mais plenificada.

É como uma dupla recompensa que aparece simultaneamente num gozo deliquente:

1- O prazer do instintivo, do primário, da caça e da predação. Tal como a realização do ID;

2- A violação consciente da lei a gerar o gozo extra. Como numa sensação de que se profana o que há de mais sagrado numa heresia dedicada ao corpo social.


Isto é, a racionalidade existe parcialmente, mas só existe para se ter plena certeza de que se viola alguma coisa, assim tornando o prazer da violação ainda mais intenso. Em outras palavras, a racionalidade existe perante o prazer de se violar algo que o corpo social considera sacro. 


Quando entro dentro de um chan ou começo a agir dentro de uma estrutura comportamental channer não é como se eu estivesse numa psicose permanente, em vez disso, é como se a psicose fosse parte de um jogo decididamente iconoclasta. Tal como um carnaval em que o superego é temporariamente jogado fora em nome de um exercício lúdico que provisoriamente abole as leis normativamente instituídas.


Repito que: a sombra, dentro do chan, manifesta-se mais plenamente. Ali, dentro do chan, observa-se como lei a ausência de lei e de norma se formam. Ou, mais precisamente (e mais psicologicamente), a cultura channer é como um castelo feito com a sombra que socialmente se esconde — o inconsciente sombrio. Quando digo que o Castelo do Drácula do Castlevania representa muito bem a cultura channer, digo que a cultura channer só tem leis referentes ao inconsciente sombrio, seja pessoal ou coletivo, como num jogo jungiano onde a sombra não integrada encontra um local para exercer seu pleno domínio. Se existe um "Estado de exceção", onde o "Estado de Direito" é ignorado, a cultura channer é como um local em que o "estado psicológico de exceção" se plenifica.


A mesma analogia poderia ser feita com Silent Hill (outro jogo da Konami) poderia ser feita. Em Silent Hill, a cidade é composta pelo inconsciente sombrio ou pelo Dark Self. A cultura channer também é assim. É como um laboratório em que a sombra manifesta-se de forma pura e momentânea, dissolvendo a persona (pública) e o ego racional. O prazer é encontrado em ser a sombra, sentindo todo o veneno que a sombra, momentaneamente indomesticável, exerce.

A cultura channer é um jogo em que a racionalidade é rebaixada para uma função ancilar para que sirva ao impulso da anomia. Ou, mais visceralmente, para certificar a transgressão que está a se exercer. O que é algo substancialmente diferente da psicose, que é caracterizada pela perda do teste de realidade. Aqui podemos falar da hiperconsciência da realidade (na sua estrutura de normas, de valores, de sagrado), mas não no sentido de validar a norma social. A hiperconsciência existe em função da quebra da norma. Nesse quadro, o superego existe em função do ID. Nesse retrato, a persona existe em função da sombra. Tudo dentro de uma inversão hierárquica.


A diferença central entre o chan e o carnaval é a sua condição autotélica. Ou seja, se no carnaval a inversão reforça a ordem após o período de exceção, o chan não é funcional para o sistema: ele existe em função de si mesmo, tal como um gozo.


Pense, novamente, no Castelo do Drácula. O castelo reconfigura-se a cada noite, a cada aparição. A cultura channer reconfigura-se a cada thread, a cada meme, a cada piada interna. As leis da cultura channer funcionam como um inconsciente sombrio: a lógica adotada não é cartesiana, é uma lógica onírica, associativa e simbólica. Não existem regras fixas, apenas a manifestação do monstro que há dentro de nós. É como se a ordem fosse a oedem simbólica daquilo que é reprimido.


A cultura channer também é o espelho do inconsciente de quem entra. Toda cultura channer é povoada pelos demônios, culpas, traumas e desejos reprimidos dos seus usuários. A cultura channer é a sombra coletiva de seus usuários: tudo que a cultura mainstream ou normativa reprime, nega e silência torna-se a manifestação da cultura channer.


Se pensamos na terapia jungiana, a sombra quando integrada perde o seu poder destrutivo. No chan, a sombra não é integrada. Ela é encenada, perfomada, vivida. Tudo isso sem dor, visto que há o escudo lúdico do anonimato e do coletivo que a valida.


No "estado de exceção psicológico" da cultura channer, a sombra torna-se soberana para manifestar-se plenamente. É por isso que o ego racional e a persona (máscara social) são temporariamente dissolvidos. Pense como se o chan fosse um golpe de Estado psíquico em que o ID e a SOMBRA tornam-se senhores do palácio (ou do Castelo do Drácula). 


A cultura channer é venenosa. Isso todo channer de qualidade e experiência assume. Ela é tóxica pois é a sombra. E a sombra é tóxica para o ego, para a persona e para o social. Todavia constitui o gozo channer sentir o veneno correndo dentro das veias sem morrer, visto que é temporário, visto que é lúdico, visto que é anônimo. 


Pense a cultura channer como um parque temático do inconsciente sombrio (como Silent Hill ou Castlevania). Ela é um dispositivo de engajamento com o inconsciente sombrio. E é por essa razão que eu permaneço nos chans apesar de tudo.