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terça-feira, 21 de abril de 2026

Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 1)

 


Nome:
Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism

Autor:
George Grant

Autor do prefácio:
Andrew Potter

George Grant alertava que as classes dominantes canadenses buscavam livros fora do país, geralmente nos Estados Unidos, como autoridade final na condução da política e da cultura. A elite canadense tem uma orientação continentalista, voltando-se a aquilo que acreditaram ser o império ocidental. Em um tempo, valiam-se do império inglês. Em outro, valiam-se do império americano. Em outras palavras, são uma elite alienada em relação ao próprio país. O leitor, conhecendo as elites brasileiras, pode chegar a uma conclusão razoavelmente semelhante acerca das elites brasileiras.

George Grant era cético para com a modernidade. Ele via a modernidade e a modernização por extensão lógica, como um processo de apagamento. Isto é, havia o modelo universal e homogêneo e as culturas locais que deveriam ser apagadas para que esse modelo fosse implementado. O Canadá, por sua vez, era uma cultura local situada ao lado do coração mais potente da modernidade: os Estados Unidos da América. Os canadenses acreditavam piamente na modernização e que o Canadá necessitava desse processo. A aceitação desse processo poderia levar ao apagamento da identidade canadense. 

O consenso das ciências sociais, nos anos 60 e nos anos 70, era que a tecnologia era uma força universalmente homogenizante. O que levava à conclusão de que todas as culturas particulares não deveriam existir ou deixariam de existir diante desse processo uniformizador. O império americano acreditava que a vontade humana é radicalmente livre para alterar o mundo e o pensamento liberal levava todos os valores para a esfera privada.

Para Grant, uma sociedade conservadora era baseada na hierarquia, deferência, tradição e moralidade pública. O conservadorismo canadense era pré-lockeano. Era um conservadorismo baseado em Richard Hooker (1554-1600). Hooker foi um teólogo, um humanista cristão e estudioso das obras de São Tomás de Aquino. Ele acreditava na conexão íntima entre o Estado e a Igreja. Esse tipo de visão marcou Grant em sua forma de ver o mundo.

O conservadorismo canadense, naquela época, poderia ser descrito como portador das seguintes características:
- Senso de comunidade;
- Ordem pública;
- Autorrestrição;
- Lealdade ao Estado.

O lema era: "paz, ordem e bom governo". Havia a crença de um Estado centralizado para promover o desenvolvimento político e econômico. Adicionando-se que a liberdade individual deveria ser restrita em nome do bem comum. A sociedade era encarada como um organismo em que cada parte era responsável pelo bem-estar do conjunto. A tradição conservadora canadense, naquele ponto, defendia um Estado intervencionista e rejeitava o continentalismo econômico. O continentalismo econômico era a integração com os Estados Unidos da América.

Podemos colocar as seguintes características:
- Comunidade acima do indivíduo;
- Hierarquia;
- Lei e ordem;
- Tradição;
- Mudanças orgânicas.

Se pensarmos bem nessa estrutura, esse conservadorismo é bastante diferente do neoconservadorismo que seria aplicado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Brian Mulroney. Aqui, é preciso estabelecer ao leitor brasileiro quem é Brian Mulroney. Brian Mulroney foi o décimo oitavo primeiro-ministro do Canadá, durante o período de 1984 a 1993, liderando o Partido Conservador Progressista e aplicou uma agenda econômica neoliberal, algo muito semelhante ao neoconservadorismo de Ronald Reagan nos EUA e de Margaret Thatcher no Reino Unido.

Durante muito tempo, a divisão política no Canadá era mais ou menos essa:
1. Partido Conservador: era mais tradicionalista, era mais nacionalista, tendia a usar mais o poder do Estado para promover o bem coletivo;
2. Partido Liberal: era mais favorável ao livre mercado e tinha uma orientação mais continentalista, isto é, mais alinhada à integração econômica com os Estados Unidos da América.

Atualmente o conservadorismo canadense é mais semelhante ao modelo americano. Os conservadores são religiosos que visam o tradicionalismo moral e são a favor de mais livre mercado.

Uma das maiores críticas de George Grant ao liberalismo é o fato de ele ter trocado o bem aristotélico pelo bem lockeano. O bem aristotélico era baseado numa hierarquia, isto é, com subordinação e superordinação. O bem lockeano é criado pela escolha subjetiva dos agentes. Ou seja, o bem liberal é algo que perseguimos de acordo com os nossos valores privados. É a liberdade de escolher o que quiser.

Grant faz uma leitura política de Nietzsche, no sentido de ver no liberalismo uma espécie de niilismo. O contratualismo surge como algumas leis e instituições coercitivas que servem para preservar as liberdades das múltiplas partes. O projeto liberal inteiro pode ser descrito a partir de seu subjetivismo niilista que não adentra um projeto maior. O projeto liberal tem como fundamento a maximização da liberdade humana como bem central. Os valores últimos são criados pela conveniência do momento ou uma noção vaga sobre o que consiste a qualidade da vida. Tudo se torna instrumental e o indivíduo calcula por si mesmo qual valor escolherá no momento. Todavia, nunca é questionado o que é substancialmente verdade.

A sanha liberal pela liberação humana será completada pela tecnologia. Se a tecnologia serve para a liberação humana, ela cumpre a sua função dentro de uma sociedade liberal. Isso criará o liberalismo tecnocrata.

George Grant trabalhará em suas obras a interconexão entre liberalismo, tecnologia e império. A base da interpretação dessa interconexão será bastante semelhante à ideia marxista de superestrutura. Na análise marxista, é a base econômica que determina as condições da superestrutura. Para quem não está acostumado à análise marxista, a superestrutura é o conjunto de instituições do Estado, do direito, de ideologias, de crenças, cultura e de práticas sociais que emergem e se sustentam sobre a infraestrutura econômica. E dentro da análise marxista, a infraestrutura é quem dita como será a superestrutura. A infraestrutura corresponde a um dado nível de desenvolvimento das forças produtivas e a relações de produção específicas.

Andrew Potter termina a sua introdução alertando que George Grant não conseguiu estabelecer uma resposta positiva para criar uma conexão entre a tecnologia do século XX e a justiça do século XX. Isto é, seria necessário um programa positivo que integrasse de forma justa diagnóstico e solução. Grant focou mais no diagnóstico. Além disso, os canadenses não conseguem estruturar uma identidade nacional. O Canadá é visto como yin e os Estados Unidos como yang. Torna-se uma espécie de antinação, um país marcado pela impermanência, mutabilidade, plasticidade e fragilidade. Fala-se de nacionalismo pós-moderno, mas chega-se à conclusão de que o Canadá se tornou algo. Tal como se fosse um Estado comunicacional em que as pessoas continuassem se comunicando sem chegar a alguma conclusão. O Canadá é atualmente um "Estado em progresso" sem identidade estável. Enquanto os americanos se tornam uma sociedade hobbesiana, marcada pela paranoia e pelo isolamento, a sociedade canadense experimenta valores cosmopolitas.

Vale lembrar que, hoje em dia, muitos dos aspectos hobbesianos vêm sido transferidos para a sociedade canadense. Já surgem grupos ao estilo MAGA no Canadá.