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domingo, 23 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #58 — Ontologia de Claustro

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto escrito em fragmentos diferentes. Unifiquei e tentei dar uma linha de raciocínio.


Em certos grupos da internet, ocorre que certas pessoas acham que são prioridade em alguma coisa e que eu aceitarei qualquer coisa vinda delas. As pessoas creem que a presença delas é inexorável, quase que como um fato, uma lei da física. Para elas, participar de dados espaços é um pré-requisito para ter presença, para se construir uma história, para se participar de uma lore. Elas também acreditam, muitas das vezes, que você precisa estar no mesmo lugar que elas para ser ou se sentir especial.


É a ideia de que um determinado grupo é especial que faz surgir essa cultura do vale-tudo em nome da exclusividade. É dela que surgem grupos no Telegram e no Discord que funcionam  como seitas seculares ou como centros do universo. Algo como "se você sair daqui, você não existe". É como se fosse inconscientemente construído esse discurso:

— Vamos criar uma lore compartilhada, memes internos, histórias de brigas e reconciliações, a ponto de que sair daqui seja uma forma de perder um pedaço da sua biografia.


Graças a essa ideia de pertencimento a um dado espaço para ser especial, as pessoas acreditam que podem lhe dizer qualquer coisa. Disso surge uma manipulação: se você está aqui, você sabe o quanto esse lugar é especial e fará de tudo para se manter nesse mesmo espaço. Aí é que está: eu sou o tipo de pessoa que não acha nenhum lugar da internet especial. Se eu olho e vejo uma pessoa irritante em um grupo, simplesmente vou pra outro grupo. É a internet; me viro em qualquer outro grupo que esteja em português, inglês ou espanhol.


É como se as pessoas quisessem que você sofresse uma síndrome de Estocolmo. É como se esperassem toda tolerância ao ruído. É como se esperassem que você simplesmente engolisse gente tóxica e brigas eternas por causa da suposta "lore". Repita comigo: não há obrigação moral alguma de se estar em um local que te adoece só por ele ser considerado grande ou histórico. As pessoas querem, mesmo não tendo consciência disso, gerar uma ilusão da centralidade do espaço.


Parece que o brasileiro tem o costume de ficar em grupos com regras ou pessoas estúpidas apenas por ser incômodo procurar novos grupos ou por sentir que dado lugar é especial, algo como um ponto de networking fantástico em que qualquer coisa é tolerável. Eu reparei muito nisso em grupos do Telegram e do Discord; vi pessoas brigando umas com as outras por meses.  Mas, porra, internet é internet e sempre existem outras opções. Se tem uma coisa que aprendi com o movimento Never Trump, é que bom mesmo é a arte de ir embora e obter paz.


Nunca entendi a razão de ficar em um grupo onde diferentes pessoas trocam ofensas o tempo todo. Tampouco achei algo de especial nisso. O mesmo que vale para grupos de Telegram e Discord também é igualmente válido para grupos do WhatsApp. Eu não vou conviver com gente que simplesmente não quer que eu conviva com elas.


Faço isso em todo tipo de relação.  Vários grupos no Telegram, no WhatsApp e no Discord atuam com mecanismos de "culto digital". Eles criam a ideia de exclusividade e pertencimento para gerar manipulação social. Preciso ser mais direto. Isso é uma ontologia de claustro. Ou seja, é quando um grupo se constrói não apenas como um canal de conversa, mas também como o próprio plano de existência onde o sujeito valida sua relevância. Isso não é necessário para pessoas adultas.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #54 — A vantagem econômica da esquerda

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


(Censurado), eu nunca entendi essa mania da direita de fazer coisas inacessíveis e caras. Os malucos literalmente fazem coisas só pra quem tem grana. Até mesmo as festas são só onde gente que tem dinheiro pode ir. Os eventos do PT, do PSOL, qualquer eventozinho de esquerda. São infinitamente mais baratos e acessíveis ao brasileiro médio. Rolês de esquerda são mais econômicos e a possibilidade de você pegar alguém são infinitamente maiores.


Eu disse "eventozinho" não no sentido de diminuir a parada no sentido qualitativo. Falo da diferença quantitativa entre um "pequeno evento" e um "mega evento". Mas até os mega eventos da esquerda, os chamados eventozões, são infinitamente mais baratos que os da direita.


Se continuar assim, mesmo com a queda do Lula, a direita não vai conseguir ampliar a base por causa do preço absurdo. A esquerda tem a vantagem econômica.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NGL #52 — Minha análise vai de encontro a de Alexandre de Moraes e do STF?

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Não sei por qual meio Alexandre de Moraes e o STF se informam e colocam os seus argumentos. Eu estou fazendo a minha análise a respeito da internet e a sua regulação ou autorregulação a partir do prisma das guerras cognitivas, psicológicas, narrativas, meméticas, conspiratórias, metapolíticas, etc. Me ligando muito mais ao estudo das guerras de quinta geração (5GW). Confesso até mesmo que tenho uma preguiça para com o que ocorre no Brasil e até me alieno do cenário nacional.


Se você olhar a minha última análise a respeito do Reuters, verá que a Rumble e o Telegram foram citados:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/acabo-de-ler-qanon-slogans-disappearing.html


Rumble e Telegram, anteriormente, entraram em uma espécie de confrontação com o Alexandre de Moraes e o STF.

- Rumble:

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-determina-suspensao-da-plataforma-rumble-em-todo-o-pais/

- Telegram:

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/ministro-alexandre-de-moraes-da-prazo-para-telegram-cumprir-integralmente-determinacoes-do-stf/


O que eu vejo é que muitos falam sobre a regulamentação da internet, mas usualmente a questão da guerra de quinta geração é amplamente ignorada. Isto é, um dos principais argumentos para a regulamentação da internet é descartado ou desconsiderado. Isso é um crime contra a consciência pública do país.


Sim, as pessoas deveriam ter o direito de argumentarem os seus pontos de vista, mas essa argumentação deve partir de dados e fatos. Quando teorias da conspiração e métodos de desinformação entram em jogo, vemos o ressurgimento de doenças anteriormente erradicadas, radicalização e seitização de massas populacionais. Esse é, por exemplo, o caso de QAnon.


Todavia ainda acredito que exista uma questão educacional em jogo. A população deve ser mais educada para não cair em narrativas doentes. É preciso criar uma população que tenha o hábito de ler e pesquisar, sobretudo em fontes como o Google Scholar e SciELO.


Outra questão: uma regulação que vise somente sites mainstream ignora uma das mais importantes questões... e os sites não mainstream? Por exemplo, você sabia que a maioria dos imageboards estão na surface web, isto é, são acessados de forma simples? Lembre-se QAnon não surgiu no Twitter, no Facebook ou no YouTube, surgiu no 4chan e depois foi pro 8chan. Migrar para redes sociais mainstream foi um movimento posterior, não imediato. Quando regulamentam apenas certos setores da internet — as redes sociais —, eles abrem brecha para o surgimento de um revivalismo channer em que um usuário cria um chan em nome da "ampla liberdade de expressão". Os chans já se hospedam em servidores de outros países, os administradores usam isso para burlar as leis nacionais e como desculpa para normalizar aberrações nesses sites. Suponha que todas as redes sociais são regulamentadas, disso surge um chan brasileiro prometendo liberdade total e ele acaba se tornando um chan com 10 milhões ou 20 milhões de usuários... O que ocorre depois? O ponto cego de todo esse movimento regulamentatório é óbvio. Além de desconsiderarem as guerras de quinta geração, desconsideram os imageboards como possíveis agentes desestabilizadores e como receptores de todos os usuários que ficarem insatisfeitos com as regulamentações.


Adendo:

O motivo de não termos um chan legião é o fato de que a cultura channer brasileira ser ditada por uma mentalidade de clubinho secreto. No 4chan, a chamada "panelagem" é literalmente legalizada, sobretudo no /soc/. Além disso, o 4chan não bane discursos, não importando qual ele seja (podendo ser de esquerda ou direita). Se moderadores dos chans reduzirem as regras ao máximo, não baniram mulheres e nem esquerdistas, legalizarem a panelagem e a divulgação do chan... Já era, um novo chan legião pode surgir no momento em que ninguém espera.

Acabo de ler "QAnon slogans disappearing from mainstream sites" de Elizabeth Culliford (lido em inglês)

 


Nome:

QAnon slogans disappearing from mainstream sites, say researchers


Autora:

Elizabeth Culliford


Link da Reuters:

https://www.reuters.com/technology/qanon-slogans-disappearing-mainstream-sites-say-researchers-2021-05-26/


Essa análise ocorreu depois do incidente violento de 6 de janeiro de 2021. Ela trata do esforço das redes sociais mainstream de reduzir o impacto da teoria conspiratória de QAnon. Essa teoria da conspiração explodiu em popularidade durante a pandemia da COVID-19.


A autora destaca frases que eram bastante utilizadas (quem entende de guerra memética compreenderá a importância dessas frases):

- "We are the storm" (nós somos a tempestade);

- "Great Awakening" (grande despertar);

- "Trust the plan" (confie no plano).


Segundo a autora, as redes sociais mainstream (isto é, as mais utilizadas), além de mecanismos de pesquisa (Google) tiveram um papel central na redução de danos. Google, Facebook e Twitter trabalharam muito nisso.


Outro grupo também fez um grande trabalho, os pesquisadores. Eles analisaram cerca de 40 milhões de dados. Porém a autora ressalta que houve uma grande desilusão de Q. e seus seguidores ao verem Trump sair do cargo sem derrotar a suposta elite cabalista, satanista e pedofílica. 


Durante esse período de cerceamento das atividades desse grupo conspiratório, as grandes redes sociais removeram várias contas vinculadas ao projeto de Q., os seguidores de Q. tentaram usar novas linguagens codificadas.


É interessante observar que o Telegram e o Rumble não foram analisados pela dificuldade de conseguir dados. Ou seja, uma rede alternativa de vídeos (Rumble) e os grupos sociais privados de um importante aplicativo de mensagens (Telegram) ficaram de fora.


Se o leitor puder, recomendo que ele leia a análise anterior:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/acabo-de-ler-what-is-qanon-and-how-are.html


E que dê uma olhada quando a operação global do 4chan, a /DIG/, é mencionada aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/acabo-de-ler-jeffrey-epsteins-4chan_92.html?m=0