domingo, 22 de fevereiro de 2026

NGL #48 — Seriam os channers os inimigos mais formidáveis da academia?

 


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Sim e não. Vamos pensar na estrutura de um chan. Pegue o fato de que, dentro da cultura channer, existem ambientes em que: há ironia, há performance, há fingimento, há crença real, há trollagem, há a possibilidade de oportunismo político. Essas camadas não são antagônicas, mas metodologicamente se misturam.


Nisso, tal como podemos inferir no insider club anterior, existe alta possibilidade de:

1- Gamificação da narrativa política;

2- Memetização da paranoia;

3- Economia da atenção;

4- Radicalização por design algorítmico.


Ambientes como o 4chan não necessariamente precisam de agentes estatais para gerar caos, mas agentes estatais qualificados poderiam fazê-lo. Esses dois elementos coexistem, e ambos os lados sabem disso.


Quando você compreende que o padrão estrutural que permitiu o surgimento e a expansão do QAnon pode reaparecer em novas formas, você compreende exatamente o que o "alto escalão" está fazendo nesse momento.


Na própria thread, vemos que a Internet Research Agency, RT e Sputnik foram citadas. Isto é, eles sabem que a IRA (a Glavset), levou a amplificação desse fenômeno. Também compreendem que o ecossistema da RT e da Sputnik serviram para amplificação indireta. Isto é, eles já sabem e já esperam isso, colocando isso como um game. Se formos mais adiante, em muitos grupos channers que surgem dentro do /soc/ (que levam a grupos externos no telegram, discord, teleguard, simplex, etc), vemos channers estudando o monitoramento de entidades como a Graphika e a Reuters como sistema de feedback. 


O modelo de Q. combinou:

- Ambiguidade estratégica (drops enigmáticos);

- Participação coletiva (decodificação);

- Gamificação;

- Narrativa totalizante;

- Conexão modular com outras conspirações;

- Algoritmos amplificando engajamento.


Esse modelo é replicável. Muitos channers esperam que o hype a respeito de Jeffrey Epstein consiga gerar uma espécie de rentabilização algorítmica. As condições continuam existindo, a polarização, a desconfiança institucional, as plataformas baseadas em vitalidade, as comunidades anônimas baseadas em criatividade memética. Tudo isso existe e dentro da crise causada por Epstein pode ser explorado. O campo geopolítico informacional, sobretudo com a crise na Venezuela e no Irã, abre margem para o desdobramento da crise. É por isso que os usuários estão brincando de citar os "feds" (agentes investigativos), agências de inteligência externas ao Estados Unidos são tidas não como ruins, mas como convidadas para servirem como amplificadoras, exploradoras e oportunistas estratégicas nesse processo.


É válido lembrar que Q não é um autor, mas um ecossistema pautado em plataformas abertas, cultura de anonimato, incentivo algorítmico à radicalização, gamificação de narrativas e comunidades predispostas à desconfiança. 


A questão é que hoje as narrativas são mais sofisticadas e aprimoráveis com IAs. Eles já esperam poder contar com microcomunidades fechadas, com segmentação psicológica, com estratégias meméticas mais refinadas.


Quando você pensa que um channer de alto nível pode fingir loucura para simultaneamente confundir acadêmicos, despistar jornalistas, enganar investigadores, criar camadas de significado e dissolver a responsabilidade individual na egrégora... você já imagina que tipo de jogo está sendo jogado nesse exato momento.


A Esochannealogia sistematiza, ou tenta sistematizar, a perfomance dessa cultura anônima. O que é difícil, devido ao aspecto da não-linearidade arquitetônica que é encontrada nela. O nível de channers de alto nível é o mesmo de um sistema performático de ocultação multiescalar.


Channers de alto nível estudam a psicologia das teorias da conspiração — pra dizer a verdade, isso é tão estudado quanto o dark self. Eles sabem que a maioria das pessoas não saberá que todos os sinais são camadas estratégicas, tornando qualquer coisa uma evidência, mas que, dentro desse quadro, múltiplas camadas de significação aparecem.


Essa blindagem epistemológica é insina. Lembram que channers de alto nível atacam, defendem e esquivam ao mesmo tempo? Aí é que está:

Se alguém ridiculariza, faz parte do plano. Se alguém investiga, é feedback. Se alguém ignora, é invisibilidade bem-sucedida. Se algo falha, era hipótese metapocalíptica. Sabe por que as coisas são assim? Pois a esochannealogia, feita para ser uma GUERRA até mesmo na expressão da sua linguagem, é por design não falseável. Channers perceberam que criar todo um modo de ser não falseável era algo mais estratégico, visto que teorias não falseáveis (e comportamentos não falseáveis) são intelectualmente mais perigosos, pois se retroalimentam. É por isso que channers de alto nível riem de acadêmicos e jornalistas, mas fazem piscadelas para agentes investigativos. Eles querem alguém que saiba jogar.


O próprio processo de formação de uma elite channer passa por um desenvolvimento de uma hipervigilância interpretativa, de uma leitura paranoide de ambiguidade, de uma atribuição excessiva de agência estratégica, de uma mitologização do caos emergente.


A esochannealogia, em todos os casos históricos, foi e é baseada na ambiguidade e não-linearidade arquitetônica em algum grau, sobretudo em seus progressos históricos. A construção simbólica foi tida como mais vantajosa. Isso cria um sistema arquitetônico. É como uma elite descentralizada que opera com pensamento pós-racional em uma guerra multidimensional deliberada em um exercício de engenharia epistemológica.


Se você olha para esses pontos:

"Se parecer loucura, é fingimento estratégico. Se é incoerente, é não-linearidade arquitetônica. Se é contraditório, é dialética. Se falha, era hipótese metapocalíptica. Se alguém crítica, faz parte do sistema de feedback"


E diz que eles são falhas, você ainda não compreendeu que eles são features. Isto é, foram por design desenhados para serem autoimunes à crítica. Quando o modelo explica tudo, ele deixa de explicar algo verificável. E é nisso que está a mágica: a guerra esochannealógica distorce absolutamente tudo, não só na teoria, como no comportamento. Imagine mais e mais pessoas adentrando nesse sistema e compreendendo como criar uma guerra pós-racional em que se torna cada vez mais impossível compreender os limites entre a verdade e a ficção? Isso é o despertar esochannealógico em massa.


Não se trata de uma intencionalidade coletiva, trata-se de um jogo descentralizado de pessoas que estudam muito bem a psicologia humana. Fingir loucura como método, criar uma arquitetura pós-racional de guerra epistemológica não é só uma elevação estética do caos, é o que faz channers de alta qualidade.


Esse tipo de modelo é o que foderá a caixola de jornalistas, acadêmicos, pesquisadores e agentes investigativos. Visto que haverá a confusão entre múltiplos fatores — o jogo da paranoia leva pessoas a se tornarem paranoica, perdendo a noção no que constitui a realidade em si. Eles serão levados a: ver intenção onde há improviso, vee coordenação onde há ruído, ver arquitetura onde há caos, ver experimento onde há brincadeira. Isto é, será extremamente difícil eles saberem que estão adentrando a um padrão típico de pensamento conspiratório de alto nível. Não que esse seja um pensamento paranoico clínico, mas certamente hiper-interpretativo.


O que um channer de alto nível faz é pegar esses intelectuais, acadêmicos, jornalistas, investigadores e pesquisadores e colocá-los numa ironia maior. Isto é, num jogo metanarrativo em que nada pode ser testado, nada pode ser verificado, nada pode ser refutado e tudo pode sempre se reconfigurar. Se você compreender isso, você dirá "essa é a arma, esse é o jogo".


Nem todo comportamento channer é parte de uma doutrina arquitetônica invisível, mas a guerra informacional é real. Existe desinformação coordenada em certos setores e desinformação descoordenada. É preciso que, dentro de uma guerra esochannealógica, todas as barreiras inteligíveis se quebrem e adentrem na estrutura desestruturada de um jogo metanarrativo ininteligível. 


Isto é, os oponentes não devem saber o que é caos e o que é ordem. O que é fragmentado e o que é desfragmentado. O que é competitividade e o que é coordenação. O que é internamente contraditório e o que é não é contraditório. O que são disputadas internas e o que não são. Tudo deve ser borrado. Tudo deve se tornar ininteligível. 


Isso tudo, dentro da esochannealogia, é a psicologia do prazer transgressivo. Visto que o chan e o laboratório da sombra. É o parque temático do inconsciente sombrio. É o estado de exceção psicológico. É o espaço autotélico (existe por si mesmo). É onde a transgressão vira um fim em si mesmo, onde o limite entre o lúdico e o corrosivo começam a se dissolver.


Esse ambiente, o nosso Dark Self digital, foi criado ou desenvolvido com base em proporcionar risco estrutural. Por qual razão? Ambientes baseados em choque, escalada simbólica, competição por impacto, anonimato e prazer em violar tendem a intensificar extremos, normalizar a crueldade simbólica, premiar quem vai mais longe. Nem todo participante internalizará isso, mas a cultura como sistema tende à escalada. Você pode se tornar um imbecil (incel, redpill, groyper), ou pode se tornar um terrorista epistemológico, ou pode ficar de boa.


A cultura channer é, em si mesma, o espaço entre múltiplas sombras dialogando entre si. Isso forma um local que lembra o Castlevania, visto que se torna um castelo construído por múltiplas sombras. É por isso que há a romantização da sombra, a transformação do veneno em estética, a transfiguração da toxicidade em ritual, a desinibição se tornando em uma experiência mística. É onde há a perfomance da sombra repetidamente sem integração.


Isso gera psicologicamente cinismo crônico, dessensibilização moral, hiperironia, desconexão empática. Isso não é erro. É feature. É quando o veneno temporário torna-se consubstancial a própria natureza, molda a percepção e redefine limites internos em direção a progressão esochannealógica.