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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Acabo de ler "The Fractured Republic" de Yuval Levin (lido em inglês)

 


Nome:

The Fractured Republic: Renewing America's Social Contract in the Age of Individualism.


Autor:

Yuval Levin


O que une um povo? Essa é uma questão que o livro trabalhará do início ao fim. Existirá, contudo, uma crítica às ideias que os baby boomers tiveram. Essa crítica decorrerá do fato de que grande parte do que se pensa dos Estados Unidos vem da mentalidade desenvolvida pelos baby boomers. Uma das principais noções que marcam essa mentalidade é a de que os Estados Unidos apresentavam uma alta estabilidade pós-guerra (Segunda Guerra Mundial).


O livro fala bastante de como as novas tecnologias transformam a mentalidade de um país. Hoje em dia, falamos de um tempo em que as redes sociais se tornaram dominantes. Nelas todos os tipos de encontro são possíveis. Com elas, a troca de conhecimento, sobretudo para quem tem acesso a mais de um idioma, torna-se uma característica marcante. O mundo tem um maior conhecimento a respeito de si mesmo e traduções se aceleram devido ao acesso às IAs. A construção de noções majoritárias, isto é, os consensos sociais, atualmente é mais intermediada por mecanismos globais do que de fato pensamos ou estávamos acostumados.


Nos Estados Unidos, o desenvolvimento da mídia de massa não foi só um desenvolvimento tecnológico. Ele não foi um ponto em que uma mídia se generalizou. A mídia de massa trouxe a cultura de massa e a cultura de massa trouxe a homogeneização da cultura. Essa homogeneização da cultura, por sua vez, trouxe uma espécie de unidade nacional. Essa unidade nacional era ditada por quem detinha os meios de produção cultural. Isso é também uma realidade no Brasil. 


Uma crítica bastante pertinente que o livro apresenta é que, no período de relativa estabilidade, havia o consenso sobre o papel que o governo exercia na vida dos cidadãos. Esse consenso dava uma certa unidade entre as visões políticas republicanas e democratas. Outro é o fato do racismo e do sexismo serem características determinantes daquele período, logo, a unidade e estabilidade não eram tão grandes quanto se imagina. Muitos empregos e posições de poder eram dados tão somente a homens brancos. A visão que usualmente é estabelecida como real é a visão gerada por homens brancos em posição de poder. É válido lembrar que esse livro foi escrito por um conservador, logo alegar que isso é uma percepção meramente progressista é incorrer em erro.


Grande parte da chamada "era progressista" foi marcada pela centralização. Podemos compreender os esforços dos neoconservadores, que chegariam ao seu ápice na Revolução Reaganiana, como uma tentativa de descentralização. Antes dela, o movimento governamental ia em direção a uma tentativa de tecnicizar a gestão governamental por meio de mecanismos que já eram comuns à gestão privada. A iniciativa centralizadora começou com a grande crise de 1929, que levou a uma militarização da sociedade civil e à expansão contínua do Estado. Essa harmonia social, contudo, não durou eternamente: os movimentos socioculturais, tempos depois, começaram a pregar a individualidade em vez de uma identidade nacional. Houve um período em que os Estados Unidos estiveram divididos entre um forte apego ao individualismo contraposto a um forte anseio de centralização governamental.


Uma das características mais marcantes é o surgimento do conservadorismo fusionista. Conservadorismo esse mesclaria tradicionalismo, libertarianismo e anticomunismo. Os conservadores souberam utilizar o anticomunismo crescente com o espírito libertário antiestatizante. Foi nessa época em que o discurso conservador parecia extremamente revolucionário e uma espécie de antítese à burocracia estatal soviética. Esse libertarianismo era econômico e político, mas não adentrava perfeitamente os aspectos culturais. 


Os Estados Unidos passariam por um período de liberalização econômica. A liberalização econômica viria lado a lado com a atomização cultural. Os novos imigrantes não eram devidamente integrados às comunidades locais. É evidente que a ausência de integração plena dos novos imigrantes não é uma justificativa para o crescente racismo e xenofobia nos Estados Unidos.


Também é preciso lembrar que a crise de identidade nos Estados Unidos também se encontra na ausência de grande crescimento e coesão social pós-Guerra Fria. Quando a Guerra Fria terminou, os cidadãos dos Estados Unidos tinham plena confiança no que faziam e no futuro do seu país. Atualmente tal confiança foi abalada. Não existem pontos de unificação para o que os cidadãos dos Estados Unidos devem crer. Eles não sabem pelo que estão lutando ou pelo que deveriam lutar.


Uma das características mais marcantes do livro é a de falar do crescente individualismo e da polarização. A solução proposta pelo autor é a subsidiaridade e as instituições intermediárias em vez do poder central. O autor também falará que conservadores precisam entender que a sociedade é muito diversa para ser controlada por instituições antigas. Logo, conservadores deveriam entender subculturas morais. É preciso lembrar isso novamente: o autor é conservador. É preciso que os conservadores compreendam que o mundo de hoje é marcado por diferentes subculturas morais e que o próprio tradicionalismo social é uma subcultura moral dentro de uma sociedade complexa, diversificada e descentralizada.


Durante todo o livro, Yuval Levin defenderá as instituições intermediárias como solução para todos os problemas. Isto é, o localismo e o federalismo são meios de descentralização, soluções intermediárias. Em vez da centralização em Washington ou do individualismo extremo, existe um caminho do meio. Um dos maiores argumentos favoráveis ao seu posicionamento é o fato de que hoje em dia a própria social-democracia precisa ser repensada para estar par a par com a complexidade do mundo. Se o mundo das políticas públicas exige maior adaptação às situações locais, o localismo e o federalismo ligados às instituições intermediárias dão respostas melhores ao mundo contemporâneo. Quanto mais complexo e diversificado é o mundo, mais descentralizada deve ser a gestão política, visto que é mais difícil compreender os múltiplos cenários, como o conhecimento está disperso pelo corpo social, é melhor distribuir a gestão política para múltiplos agentes do que concentrá-la em poucos especialistas.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Memória Cadavérica #51 — Aulas de Ortodoxia com Bolsonaristas?

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise curta sobre o que vem ocorrido no Reddit.


Bolsonaristas não tem direito de dar aula de "ortodoxia ideológica" pra ninguém!


BOLSONARISTAS NUNCA ESTUDARAM:


- Red Tory;


- Never Trump;


- Reformicon;


- Paleoconservadorismo;


- História do conservadorismo em outros países (como na América Latina, na América do Norte, na Europa, etc);


- Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo (American Compass).


É o tempo todo no Reddit: você fala qualquer coisa e aparece um bolsonarista aparece para lhe dar aula de "ortodoxia ideológica na direita brasileira". Eu fico pensando: "o cabra nunca fez um curso na Hillsdale College, nunca estudou as novas teorias da American Compass, nunca leu uma única revista da National Review, nunca estudou um único Red Tory, não sabe o que foi o Reformicon e nem o movimento Never Trumper, nunca viu um único curso na Christendom College e vem aí bancar o mega conservador".


Existem mais de vinte escolas de pensamento conservadoras, um paleoconservador não é o mesmo que um neoconservador, um conservatário não é a mesma coisa que um nacional-conservador, um federalista não é a mesma coisa que um originalista. Se bolsonarista falasse menos e estudasse mais, nem sequer seria bolsonarista.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Memória Cadavérica #46 — Aprovação de Donald Trump e conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa que ocorreu no grupo de WhatsApp de que faço parte a respeito do Donald Trump, do conservadorismo dos Estados Unidos e do conservadorismo no Brasil.


— MAGAtards will be the last group on the scene. Amigo, venho alertando que Trump é um imbecil há um ano e pouco. Quem leu os Never Trumpers e os Reformicons sabe disso.

— É o último mandato da vida del, você acha que ele realmente se importa com aprovação?

— Mesmo que ele não se importe, graças à excelente participação dele, o conservadorismo como movimento foi sacrificado em prol de seu nacional-populismo. Com os escândalos de Epstein, isso se torna ainda pior. Stuart Stevens falou com um homem endinheirado, ele disse isso em seu livro, esse homem lhe disse que gastaria uns milhões para salvar o conservadorismo depois do Trump. Já que os conservadores mais graudos e inteligentes já esperavam que ele destruísse tudo ao redor. No Brasil, isso não precisaria ser feito: quase não há um movimento conservador ilustre, acadêmico e institucionalizado para se preocupar.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Caveira Casual #7 — The Cure, Almografia e Automutilação Emocional

 


Começo colocando o início do álbum "Faith" do The Cure. A começar pela música "The Holy Hour". Mais uma vez, impressiono-me com o baixo. Isso vem se tornando uma rotina. Colocar uma música e escrever. Mais uma vez, não me impressiono com o debate brasileiro e com como o Congresso impressionou Lula. Não tenho nada a dizer. Eu não espero nada do Congresso, eu não espero nada do Governo. Se não fosse por isso, não passaria a maior parte do meu tempo lendo e estudando a política de outros países. Os movimentos Never Trumper, Reformicon, Red Tory e a China me impressionam mais. Faço isso por causa do tédio. O debate brasileiro parece ser algo que eu já sei o que acontecerá. É como uma série na qual até mesmo mais violento spoiler não impressiona em nada e cheira a clichê.


"Primary" começa a tocar. Em um ritmo mais rápido, diga-se de passagem. Não perde a tonalidade sombria, mas o som vem mais agressivamente. É como correr bêbado no escuro em uma rua deserta de uma cidade urbana. É como rir bêbado no alto da calada da noite. Em uma espécie de efusão momentânea de algo que você não sabe o que é. Algo que vem como uma risada de desespero. Tal como a política brasileira, é como rir de algo ridículo que você já esperava mesmo. Não espero nada, não me entregam absolutamente nada. Não que eu seja niilista, a realidade é que é. Não luto contra ela, apenas bebo meu álcool e a esqueço. Vocês que insistem em citar Getúlio Vargas e Carlos Lacerda esperando que algo de mágico volte a ocorrer.


"Other Voices" começa a tocar. Sigo o ritmo alucinante da escrita surrealista. Escrevo sem parar para que tudo que tenha na minha mente possa vir a pipocar e quebrar por meio de palavras que formam frases. Tentando extrair cada canto obscuro do meu inconsciente. Tentando voltar ao pouco de originalidade que ainda me resta, visto que foi obrigado a sair de mim. Não paro, nem por um minuto, para que minha obsessão tome forma estilística. Escrever dessa forma é como escrever bêbado. Não sei se o leitor ou a leitora já tentou. Compreendo a razão dos /mu/tants do 4chan serem muitas vezes libertários.


"All Cats Are Grey", essa é a música que começa a vir. Tal como tudo na vida, é uma questão de instante. Mesmo que eu esteja cansado de escrever, preciso extrair de mim aquilo que me impede de escrever. Forçar uma revolução tal como se extrai um coração de um vampiro. E quem não é um vampiro? O vampiro não sai de dia, visto que pertence à noite. Pertence à noite, visto que não está no nosso mundo. O vampiro rejeita o alho, já que o alho é saudável. O vampiro vive em festas de mistérios, já que a festa o aliena da reflexão sobre si mesmo. O vampiro teme a cruz, tal como o diabo teme a cruz, visto que o que teme é o sofrimento. O vampiro existe para se vincular a tudo que é alienante. O vampiro existe para tomar sangue em sua natureza parasitária. Eu entendo isso, eu sou assim. Eu sou um vampiro há muito tempo. Sempre me escondo. Sempre vou embora. Não há nada que me livre dessa condição. 


"The Funeral Party". Essa é especial. Soa como um romance doce e inacabado de alguém que já partiu e nunca mais voltará. Ela traz o desejo de um retorno que nunca poderá retornar. Tristemente deliciosa em sua proporção. Evoca a mais tenra depressão. De alguém que chora com um misto de felicidade e tristeza. Felicidade, visto que lembra da pessoa amada. Tristeza, visto que a pessoa amada nunca voltará. Como tenho uma vida recheada de erros, sei como é sentir isso. Lembrar de cada fragmento de momento. Sabendo que errei em cada um deles. Sabendo que fiz partir quem profundamente amei por causa da minha natureza doentia. Conjecturo como seria minha vida se eu não tivesse errado tanto. Como seria se eu não fosse tão volátil? Como seria se eu não fosse tão doente, tão podre, tão errático. Deduzo, a partir de um cálculo psicológico e criminoso, que seria muito melhor. Seria melhor até mesmo se eu nunca tivesse existido. Seria melhor até mesmo se eu tivesse já partido.


"Doubt". É uma das mais violentas do álbum. Parece uma alcateia de lobos correndo atrás de um coelho assustado numa noite de Lua cheia recheada de neve. É como correr após desligar toda a mente na tentativa de descarregar todas as emoções do corpo. É o que tenho feito. Descarregar e descarregar. Mesmo quando termino de psicologicamente correr, os sentimentos e as memórias ainda estão infelizmente lá. Não importa quantas latas de cerveja, não importa quantas doses de cachaça, não importa com quantas pessoas eu fiquei, não importa quantos casos resolvidos, não importa quantas investigações eu faça. Eu sempre estou tentando explicar, demonstrar, fazer alguma coisa que prove que minha alma é real nesse universo de lixo.


"The Drowning Man". Essa é mais calma. É como estar numa praia na noite. Está chovendo e ventando de leve. Os coqueiros simplesmente balançam. Estou sozinho. Estou sozinho a desenhar o universo em desencanto. Minha mente se eleva para pintar cada quadro obsessivamente depressivo que surge das minhas dúvidas. Não há nada que eu possa fazer. Dói. Todavia, eu sinto que quero continuar nessa condição de esvaziamento melancólico. Tal como se eu não pudesse mais fazer nada. Eu sinto que preciso continuar. Sinto que estou a desenhar cada contorno torto de minha alma. Quero que tudo vá, para que eu possa ver a almografia da minha alma. Quero desenhar cada um dos meus pecados, quero desenhar cada um dos meus erros, quero desenhar cada beijo falso que dei na esperança torpe de tornar a minha falsidade real no coração de alguém. Sei que isso é arriscado. Sei que tudo isso soa depressivo. Todavia, a continuidade da dor é o remédio de que preciso para refazer esse espelho quebrado que chamo de chama da minha alma.


"Faith". Essa é a última música. Também é a música que dá nome ao álbum. Ela corre obsessiva e lenta, como os dedos carinhosos de mulher amada. Lembra-me dos cafunés que abandonei em prol dos novos erros da minha alma desalmada. Cada boca amorosa que abandonei na busca de curar o abandono que senti em minha infância apequenada. Cada abraço que fugi em prol de recordar que eu sempre serei só. Estou sempre a correr em círculos. É a dialética do ouroboros. Estou sempre a comer meus erros passados ao cometê-los de novo e de novo. Saturno sempre devora seus filhos. Eu sou Saturno dos meus erros. Cometo-os novamente, apenas para apreciá-los psicoticamente em cada dor que causam ao meu estômago. Sentir dor é, atualmente, a única coisa que me faz sentir que sou real. Ardentemente prossigo em minha automutilação emocional.