Livro:
On being conservative
Autor:
Michael Oakeshott
O conservadorismo não é uma ideia geral. O conservadorismo não é um credo nem uma doutrina. O conservadorismo é uma disposição. Enquanto os reacionários se perguntam o que foi, enquanto os revolucionários perguntam o que poderia ser, os conservadores se questionam o que está disponível. O que o conservador busca estimar é o presente. O presente, por sua familiaridade, é melhor do que o risco de perder tudo. O conservador valoriza o passado, mas como fonte de familiaridade e recursos presente, não como um modelo a ser restaurado rigidamente. Essa diferença entre conservadores e reacionários é algo que muitos poucos sabem.
O conservador é o sujeito que prefere o familiar ao desconhecido, o que prefere o que foi tentado pelo que não foi tentado, o que prefere o fato ao mistério, o que prefere o atual ao possível, o que prefere o limitado ao ilimitado, o que prefere o próximo ao distante, o que prefere o suficiente ao superabundante, o que prefere o conveniente ao perfeito, o que prefere a risada do momento do que a graça utópica. A condição conservadora é uma inclinação a apresentar o que é presente e o que está disponível. E é por essa razão que um conservador prefere pequenas e lentas mudanças do que mudanças grandes e súbitas. Quanto mais for assim, mais assimilável algo é.
O conservador é um homem que calcula. Ele olha para cada inovação mensurando o seu risco e visando um equilíbrio. Ele quer ver qual a perda e qual o ganho. Ele pensa que mudanças pequenas e limitadas apresentam menos riscos. O problema que ele tem com progressistas é esse: progressistas buscam por um bem desconhecido. O que os progressistas chamam de covardia conservadora, o conservador chama de prudência racional, o que os progressistas chamam de timidez, o conservador chama de cautela. Para o conservador, a segurança do presente é melhor do que o perigo de uma mudança radical.
O conservadorismo é mais comum nos mais velhos. A razão é pelo fato de o conservadorismo exigir a construção de uma identidade. Quanto mais a identidade se matura, maior a possibilidade do conservadorismo surgir junto a ela. A disposição conservadora surge em quem já está com sua personalidade mais bem estabelecida. No entanto, saliento que isso não é uma questão de idade cronológica. Essa disposição conservadora, segundo Oakeshott, pode aparecer em qualquer idade. Todavia, ela ocorre mais facilmente conforme existe um cultivo da experiência.
Michael Oakeshott estabelecerá que o conservadorismo na política não tem a ver com a lei natural (jusnaturalismo), nem com uma ordem providencial, tampouco com uma moral ou uma religião. O conservadorismo tem a ver com o nosso estado atual de vida e um governo limitado. O governo, na visão conservadora de Michael Oakeshott, deve possibilitar às pessoas a perseguirem suas próprias atividades e escolhas. Isso deve ocorrer com poucas frustrações. Ou seja, um indivíduo deve ser livre para perseguir a sua disposição. Um indivíduo deve seguir o seu próprio caminho. Isso levará a outro problema que Michael Oakeshott encontrará em progressistas: é o fato de que eles tornam sonhos privados em um compulsório jeito de vida. O Estado ideal, na visão de Oakeshott, deve manter as regras do jogo, as associações civis livres, em vez de propor um propósito comum.
O conservadorismo de Michael Oakeshott acredita que adultos não precisam justificar as suas preferências e as suas escolhas de vida. O governo, por sua vez, não deveria particularmente se objetar a escolhas individuais. Em outras palavras, não é função do governo modificar o estilo de vida de alguém. É por essa razão que conservadores rejeitam projetos de engenharia social, isto é, projetos de uniformidade substantiva. Um governo que segue pela paz é um governo melhor que um que tenta colocar uniformidade substantiva. Governos que tentam a segunda escolha, a da uniformidade substantiva, entram facilmente em colisão de interesse e em frustração mútua. O governo, em vez disso, deveria aceitar o estado corrente de atividades e crenças, ou seja, aceitar a diversidade de crenças e escolhas individuais. A política conservadora, em Oakeshott, se traduziria pelo ceticismo em relação a planos racionais grandiosos, tendo por preferência por ajustes incrementais e rejeição pela chamada política da fé (sonho e governança lado a lado).
Michael Oakeshott tem uma frase brilhante: a conjunção entre governar e sonhar gera a tirania.
