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sábado, 25 de julho de 2026

Caveira Casual #10 — Nem só de Found Footage viverá o homem!

 



A vida tem sido bem banal. Tenho assistido a Rick e Morty, esperando a nova temporada de Bleach e conversado um pouco no 4chan. Graças a uma nova recomendação do /tv/, assisti ao filme espanhol "La Mesita del Comedor". Um filme surrealmente perturbador, diga-se de passagem. Isso assustará os leitores, visto que não é um Found Footage. Já dizia o ditado (não) bíblico: nem só se Found Footage viverá o homem!


As sensações de assistir a esse filme... eu não saberia descrevê-las em termos não viscerais. É como se voluntariar para passar uma serra elétrica no saco ou testar a guilhotina na revolução francesa. Algo próximo a uma cadeira elétrica de emoções desconfortáveis. Um filme difícil de assistir e difícil de engolir. Talvez seja parecido com a sensação que os neoconservadores tiveram ao ver a ascensão da China como superpotência.


Enquanto o tempo passava como uma tortura audiovisual, lembrava-me dos reviews que eram dispostos na internet. Eles eram como implacações de uma ex:

— Eu te avisei.

Poucas coisas são tão perturbadoras quanto a memória de uma ex-namorada coberta de razão ou quanto à nota do The Guardian ao Splatoon Raiders (2/5). Se bem que, para ser sincero, conservadores clássicos eram tão implicantes com os neoconservadores a respeito da China quanto minha ex era implicante quanto às minhas ideias de encher a cara com tequila. Tudo isso me remete à agonia existencial profunda de assistir a "La Mesita del Comedor".


Hoje mesmo é aniversário de uma outra ex-namorada minha. 30 anos essa noite. Parece até o nome do livro de Paulo Francis: "Trinta Anos Essa Noite — O Que Vi e Vivi". Um clássico profundo que dá recordações de um Brasil que não vivi. Creio que um bom livro e um bom cinema trazem sensações que não vivemos tal como se tivéssemos vivido.


Hoje quero me dedicar às outras coisas. Comecei a ler "The Fractured Republic" de Yuval Levin e a nova temporada de Bleach começa hoje. Quanto às sensações de assistir a "La Mesita del Comedor", elas ficam no passado que nem os porres que levei ao tomar muita tequila.

sábado, 16 de dezembro de 2023

Acabo de ler "Paulo Francis, Polemista Profissional" de Paulo Eduardo Nogueira

 



O que define um intelectual marcado pelo paradoxo? Sua aversão à crescente coletivização da consciência acadêmica em prol duma seitização do debate me encanta. Sabemos que, hoje, há uma tendência perniciosa que confunde escolas de pensamento com unidades doutrinais de sistemas teológicos que só podem ser aderidos por inteiro ou negados por inteiro. Com tal comportamento, vemos a negação sistemática do livre pensamento, do livre exame e, por fim, da consciência individual como consequência lógica deste encadeamento trágico.


Paulo Francis é um homem contraditório, de erros e acertos. Isto não é uma desqualificação: é a própria natureza humana que assim o é. A humanização do debate, se considerada seriamente, começaria pela aceitação da subjetividade humana. Isto é, em vez da classificação e adesão restrita aos conteúdos unitários de escolas de pensamento - tomadas em sentido religioso -, teríamos que considerar a pessoa, sua subjetividade e a individualidade de sua construção intelectual. Atualmente o que temos é um classificacionismo que visa, antes de tudo, transformar o debate em ordens tribais em que as pessoas são justificadas perante a sua tribo e condicionadas a elas.


A própria hipótese de que alguém possa, por livre exame, chegar a uma construção intelectual autêntica soa como uma heresia e é tomada com desdém ou com incredulidade. Em vez de pensar na pessoa em si, pensa ela em relação ao grupo e ao suposto grupo que pertence. O debate sempre terá frases como "isso vai em contradição com o seu grupo" ou "você está em contradição com a sua escola". Aos partidários dessas seitas infernais, uma resposta é necessária: minha escola é o mundo e meu método é o livre exame. Intimamente a consciência individual importa mais do que o (auto)condicionamento irrestrito.


Francis errava, como todo ser humano. E errar é da natureza humana. As críticas a Francis escondem mais do que ao erro "X" ou "Y", escondem uma postura disciplinada de tribalismo coercetivo que condena sobretudo a quem pertence supostamente ao grupo que se odeia ou ao grupo que se deve aderir fielmente como crente.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Acabo de ler "Trinta Anos esta Noite" de Paulo Francis

 



Nada mais memorável do que aprender com um mestre morto. A memória dos contemporâneos é fantástica, mas não chega a ter o grau e estatura de inteligibilidade de alguém que viveu, de fato, o período histórico analisado. Embora que se deva recordar: a vivência não condiciona um modo de se ver o mundo de forma uniforme.

No livro, Paulo Francis conta-nos de suas ilusões. Como a sua mentalidade foi mudando, da esquerda para direita, conforme ia envelhecendo e vendo os efeitos da iniciativa privada nos países desenvolvidos. Fora as suas ilusões com o socialismo, sistema esse carregado de mortes que pipocavam junto com as suas mazelas totalitárias - no final, implodiu-se devido a própria fragilidade de sua economia e baixa adesão do povo ao sistema. Não só isso: vemos como Paulo Francis acompanhou as mudanças do país, sentindo-as na pele.

Quem não se apaixonou pela situação política? Quem não se encantou por ideologias? Ah, o eterno amor por essa religião civil, temporal e que sempre nos encanta com a possibilidade dum paraíso terrenal via imanentização escatológica. Coisa bem diagnosticada por aquele que foi um dos maiores conservadores de todos os tempos (Eric Voegelin). Francis nos demonstra, apaixonadamente, como se sentiu em cada momento e como reagiu ou agiu em cada condição.

Francis vai nos falando de sua simpatia por Brizola, que logo descambou em desapoio conforme mudava a sua visão de mundo. O nacionalismo foi algo que perdeu com o tempo também. Reclama da forma estatista que o regime militar adquiriu e como o voto obrigatório mata a democracia brasileira - gente completamente desinteressada pela política nacional vota sem o menor preparo teórico simplesmente por ser obrigada a votar.

Francis fala como é difícil ser brasileiro. Usualmente somos provincianos demais e incapazes de ver o rumo internacional. Além do fator constante de estarmos com ideias abandonadas pelo mundo, sempre pegando o que já foi usado e descartado como referência máxima. Diz-nos que é difícil ser brasileiro sem virar alcoólatra, doido ou acreditar em devaneios. O gosto final da leitura é um enriquecido pessimismo.