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domingo, 1 de março de 2026

NGL #55 — Os Estados Unidos erram ao culparem a China?

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Eu vejo que os Estados Unidos culpam o próprio fracasso atacando a China. Foram os próprios Estados Unidos que colocaram políticas que o fizeram fracassar. Creio que teorizei isso um pouco no Funk Buda:

"Após conquistarem o poder, acharam que seria muito bom ficar enviando empresas para países de terceiro mundo. Os melhores empregos ficavam em seus países, algumas indústrias iam para distintos países estranhos e tudo corria razoavelmente bem. Até que o neoconversador percebeu duas coisinhas:

- Estava ficando desindustrializado e dependente;

- Fazer tantas guerras o fazia ignorar os problemas internos.

É a partir disso que surge o conversador-populista. Ele percebeu que em vez de estar fazendo o mundo inteiro de otário, ele que estava sendo feito de otário. E pior do que isso: ele estava sendo feito de otário pelo próprio sistema que ele mesmo criou"

https://medium.com/@cadaverminimal/funk-buda-3-neoconversadorismo-481ead35c5a7


Quando reparamos bem, os neoconservadores adotaram ideias como "vantagens comparativas". Essas vantagens comparativas diziam que seria melhor produzir em outro país se esse país produzisse mais barato. É por isso que os Estados Unidos enfrentam hoje um problema de como se lidar com as terras raras. Isto é, eles não sabem como realizar corretamente as atividades necessárias com esses recursos.


Quem defendeu um mundo economicamente aberto e sem uma política industrial clara, isto é, sempre investindo estrategicamente no que era necessário pro próprio país, foram os Estados Unidos. A China seguiu um modelo diferente e é por isso que ela é fortemente industrializada. Quem entrou em guerra em múltiplas regiões do mundo, foram os Estados Unidos. Quem usou a própria moeda como moeda global e depois usou a própria moeda como ameaça foram os Estados Unidos.


Hoje em dia, os Estados Unidos culpam a China por decisões  que eles mesmos tomaram. Também a culpam por ela não seguir o modelo econômico e político que eles adotam/adotaram. Grande parte das críticas da American Compass ao modelo econômico americano são críticas neohamiltonianos ao modelo econômico e político neoconservador-neoliberal.


Recomendo que vocês vejam o documento "Rebooting the American System" da American Compass:

https://americancompass.org/rebooting-the-american-system/


Os Estados Unidos não podem ficar adotando políticas que o fazem falir e depois dizendo que a culpa é da China. É o mesmo que eles dissessem:

— Se nós invadimos países e nos endividados em guerras, a culpa é da China.

— Se nós colocamos o mundo para usar nossa moeda, depois tiramos a atrelação com o ouro e depois usamos a nossa moeda como ameaça, a culpa é da China.

— Se nós aderimos uma política que levou nossas empresas saírem de nosso país, levando a nossa desindustrialização, a culpa é da China.

— Se nós não temos tecnologia para lidar com as terras raras por falta de investimento nisso, a culpa é da China.

— Se o mundo nos vê como invasores e imperialistas, a culpa é da China.


Se olharmos bem toda essa raiva que os Estados Unidos têm da China, uma frase de dissonância cognitiva poderia soar pelo ar:

— Nosso modelo econômico levou a nossa falência industrial e a culpa é da China pois ela não aderiu o nosso modelo econômico que levou a nossa falência industrial.


A China não pode ser culpada por não aderir o modelo econômico dos Estados Unidos. Aliás, nenhum país pode ser culpado por escolher o próprio modelo econômico. Isso não é desonestidade, é autodeterminação.


É como dizer: "a ideia foi minha, a implementação foi minha, a escolha foi minha, mas a culpa é sempre da China!".


Acho que os Estados Unidos deveriam fazer um processo de autocrítica em vez de ficarem culpando a China pelos próprios fracassos.

terça-feira, 19 de março de 2024

Acabo de ler "Arte-educação no Brasil" de Marcia Polacchini

 



A situação do ensino e do estudo no teatro avançou muito, mas ainda existem uma série de lacunas a serem preenchidas. Uma das mais requisitadas, como não poderia deixar de ser, é o estudo individualizado das matérias artísticas para um desenvolvimento mais global na prática na arte e, igualmente, na possibilidade de especialização conforme a individualidade do aluno.


Veja que o teatro sempre leva ao questionamento: é por meio do teatro que a pessoa vivencia de forma simulada uma vivência real ou ficcional. Ou seja, a atuação é, em si mesma, uma forma de potencialização educacional. O que leva necessariamente a um aumento da capacidade de aprender. Ao simular um texto teatral, o aluno adentra numa espécie de vivência simulada que corporifica o conteúdo da mensagem e o dá uma forma singular de aprendizagem.


Pode-se dizer que a literatura já é, em si mesma, uma forma de passar simuladamente uma espécie de vivência. E o leitor, ao adentrar no texto por meio da leitura, já consegue efetivamente simular em sua cabeça o conteúdo daquela experiência. É por isso que a ficção é mais assimilável que o conteúdo filosófico em estado puro. Todavia existe algo que vai além: é a interpretação de um texto por meio da atividade de atuação. E é por causa disso que o teatro é importante.


A compreensão de que a literatura ajuda ao estudante ao lhe dar possibilidade de uma afetividade com o conteúdo de estudo, deixando-lhe mais propício ao conteúdo da mensagem já é um fator crucial para compreensão do estudo literário. Saber que o teatro ajuda nessa linha, mas intensificando o lado da simulação, ajudando o desenvolvimento mais pleno da expressão corporal no processo, também ajuda a compreender a importância crucial do teatro na formação humana.


No Brasil, com o avanço duma educação tristemente focada em "funcionalidade" laboral e extremamente produtivista - própria do ideário neoliberal - nos falta a compreensão do teatro e da literatura. Visto que qualquer coisa é pensada como "exacerbação da imaginação", sendo que a própria ideia de um ser humano completamente maquinal e racional é produto do imaginário.