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domingo, 22 de fevereiro de 2026

NGL #48 — Seriam os channers os inimigos mais formidáveis da academia?

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Sim e não. Vamos pensar na estrutura de um chan. Pegue o fato de que, dentro da cultura channer, existem ambientes em que: há ironia, há performance, há fingimento, há crença real, há trollagem, há a possibilidade de oportunismo político. Essas camadas não são antagônicas, mas metodologicamente se misturam.


Nisso, tal como podemos inferir no insider club anterior, existe alta possibilidade de:

1- Gamificação da narrativa política;

2- Memetização da paranoia;

3- Economia da atenção;

4- Radicalização por design algorítmico.


Ambientes como o 4chan não necessariamente precisam de agentes estatais para gerar caos, mas agentes estatais qualificados poderiam fazê-lo. Esses dois elementos coexistem, e ambos os lados sabem disso.


Quando você compreende que o padrão estrutural que permitiu o surgimento e a expansão do QAnon pode reaparecer em novas formas, você compreende exatamente o que o "alto escalão" está fazendo nesse momento.


Na própria thread, vemos que a Internet Research Agency, RT e Sputnik foram citadas. Isto é, eles sabem que a IRA (a Glavset), levou a amplificação desse fenômeno. Também compreendem que o ecossistema da RT e da Sputnik serviram para amplificação indireta. Isto é, eles já sabem e já esperam isso, colocando isso como um game. Se formos mais adiante, em muitos grupos channers que surgem dentro do /soc/ (que levam a grupos externos no telegram, discord, teleguard, simplex, etc), vemos channers estudando o monitoramento de entidades como a Graphika e a Reuters como sistema de feedback. 


O modelo de Q. combinou:

- Ambiguidade estratégica (drops enigmáticos);

- Participação coletiva (decodificação);

- Gamificação;

- Narrativa totalizante;

- Conexão modular com outras conspirações;

- Algoritmos amplificando engajamento.


Esse modelo é replicável. Muitos channers esperam que o hype a respeito de Jeffrey Epstein consiga gerar uma espécie de rentabilização algorítmica. As condições continuam existindo, a polarização, a desconfiança institucional, as plataformas baseadas em vitalidade, as comunidades anônimas baseadas em criatividade memética. Tudo isso existe e dentro da crise causada por Epstein pode ser explorado. O campo geopolítico informacional, sobretudo com a crise na Venezuela e no Irã, abre margem para o desdobramento da crise. É por isso que os usuários estão brincando de citar os "feds" (agentes investigativos), agências de inteligência externas ao Estados Unidos são tidas não como ruins, mas como convidadas para servirem como amplificadoras, exploradoras e oportunistas estratégicas nesse processo.


É válido lembrar que Q não é um autor, mas um ecossistema pautado em plataformas abertas, cultura de anonimato, incentivo algorítmico à radicalização, gamificação de narrativas e comunidades predispostas à desconfiança. 


A questão é que hoje as narrativas são mais sofisticadas e aprimoráveis com IAs. Eles já esperam poder contar com microcomunidades fechadas, com segmentação psicológica, com estratégias meméticas mais refinadas.


Quando você pensa que um channer de alto nível pode fingir loucura para simultaneamente confundir acadêmicos, despistar jornalistas, enganar investigadores, criar camadas de significado e dissolver a responsabilidade individual na egrégora... você já imagina que tipo de jogo está sendo jogado nesse exato momento.


A Esochannealogia sistematiza, ou tenta sistematizar, a perfomance dessa cultura anônima. O que é difícil, devido ao aspecto da não-linearidade arquitetônica que é encontrada nela. O nível de channers de alto nível é o mesmo de um sistema performático de ocultação multiescalar.


Channers de alto nível estudam a psicologia das teorias da conspiração — pra dizer a verdade, isso é tão estudado quanto o dark self. Eles sabem que a maioria das pessoas não saberá que todos os sinais são camadas estratégicas, tornando qualquer coisa uma evidência, mas que, dentro desse quadro, múltiplas camadas de significação aparecem.


Essa blindagem epistemológica é insina. Lembram que channers de alto nível atacam, defendem e esquivam ao mesmo tempo? Aí é que está:

Se alguém ridiculariza, faz parte do plano. Se alguém investiga, é feedback. Se alguém ignora, é invisibilidade bem-sucedida. Se algo falha, era hipótese metapocalíptica. Sabe por que as coisas são assim? Pois a esochannealogia, feita para ser uma GUERRA até mesmo na expressão da sua linguagem, é por design não falseável. Channers perceberam que criar todo um modo de ser não falseável era algo mais estratégico, visto que teorias não falseáveis (e comportamentos não falseáveis) são intelectualmente mais perigosos, pois se retroalimentam. É por isso que channers de alto nível riem de acadêmicos e jornalistas, mas fazem piscadelas para agentes investigativos. Eles querem alguém que saiba jogar.


O próprio processo de formação de uma elite channer passa por um desenvolvimento de uma hipervigilância interpretativa, de uma leitura paranoide de ambiguidade, de uma atribuição excessiva de agência estratégica, de uma mitologização do caos emergente.


A esochannealogia, em todos os casos históricos, foi e é baseada na ambiguidade e não-linearidade arquitetônica em algum grau, sobretudo em seus progressos históricos. A construção simbólica foi tida como mais vantajosa. Isso cria um sistema arquitetônico. É como uma elite descentralizada que opera com pensamento pós-racional em uma guerra multidimensional deliberada em um exercício de engenharia epistemológica.


Se você olha para esses pontos:

"Se parecer loucura, é fingimento estratégico. Se é incoerente, é não-linearidade arquitetônica. Se é contraditório, é dialética. Se falha, era hipótese metapocalíptica. Se alguém crítica, faz parte do sistema de feedback"


E diz que eles são falhas, você ainda não compreendeu que eles são features. Isto é, foram por design desenhados para serem autoimunes à crítica. Quando o modelo explica tudo, ele deixa de explicar algo verificável. E é nisso que está a mágica: a guerra esochannealógica distorce absolutamente tudo, não só na teoria, como no comportamento. Imagine mais e mais pessoas adentrando nesse sistema e compreendendo como criar uma guerra pós-racional em que se torna cada vez mais impossível compreender os limites entre a verdade e a ficção? Isso é o despertar esochannealógico em massa.


Não se trata de uma intencionalidade coletiva, trata-se de um jogo descentralizado de pessoas que estudam muito bem a psicologia humana. Fingir loucura como método, criar uma arquitetura pós-racional de guerra epistemológica não é só uma elevação estética do caos, é o que faz channers de alta qualidade.


Esse tipo de modelo é o que foderá a caixola de jornalistas, acadêmicos, pesquisadores e agentes investigativos. Visto que haverá a confusão entre múltiplos fatores — o jogo da paranoia leva pessoas a se tornarem paranoica, perdendo a noção no que constitui a realidade em si. Eles serão levados a: ver intenção onde há improviso, vee coordenação onde há ruído, ver arquitetura onde há caos, ver experimento onde há brincadeira. Isto é, será extremamente difícil eles saberem que estão adentrando a um padrão típico de pensamento conspiratório de alto nível. Não que esse seja um pensamento paranoico clínico, mas certamente hiper-interpretativo.


O que um channer de alto nível faz é pegar esses intelectuais, acadêmicos, jornalistas, investigadores e pesquisadores e colocá-los numa ironia maior. Isto é, num jogo metanarrativo em que nada pode ser testado, nada pode ser verificado, nada pode ser refutado e tudo pode sempre se reconfigurar. Se você compreender isso, você dirá "essa é a arma, esse é o jogo".


Nem todo comportamento channer é parte de uma doutrina arquitetônica invisível, mas a guerra informacional é real. Existe desinformação coordenada em certos setores e desinformação descoordenada. É preciso que, dentro de uma guerra esochannealógica, todas as barreiras inteligíveis se quebrem e adentrem na estrutura desestruturada de um jogo metanarrativo ininteligível. 


Isto é, os oponentes não devem saber o que é caos e o que é ordem. O que é fragmentado e o que é desfragmentado. O que é competitividade e o que é coordenação. O que é internamente contraditório e o que é não é contraditório. O que são disputadas internas e o que não são. Tudo deve ser borrado. Tudo deve se tornar ininteligível. 


Isso tudo, dentro da esochannealogia, é a psicologia do prazer transgressivo. Visto que o chan e o laboratório da sombra. É o parque temático do inconsciente sombrio. É o estado de exceção psicológico. É o espaço autotélico (existe por si mesmo). É onde a transgressão vira um fim em si mesmo, onde o limite entre o lúdico e o corrosivo começam a se dissolver.


Esse ambiente, o nosso Dark Self digital, foi criado ou desenvolvido com base em proporcionar risco estrutural. Por qual razão? Ambientes baseados em choque, escalada simbólica, competição por impacto, anonimato e prazer em violar tendem a intensificar extremos, normalizar a crueldade simbólica, premiar quem vai mais longe. Nem todo participante internalizará isso, mas a cultura como sistema tende à escalada. Você pode se tornar um imbecil (incel, redpill, groyper), ou pode se tornar um terrorista epistemológico, ou pode ficar de boa.


A cultura channer é, em si mesma, o espaço entre múltiplas sombras dialogando entre si. Isso forma um local que lembra o Castlevania, visto que se torna um castelo construído por múltiplas sombras. É por isso que há a romantização da sombra, a transformação do veneno em estética, a transfiguração da toxicidade em ritual, a desinibição se tornando em uma experiência mística. É onde há a perfomance da sombra repetidamente sem integração.


Isso gera psicologicamente cinismo crônico, dessensibilização moral, hiperironia, desconexão empática. Isso não é erro. É feature. É quando o veneno temporário torna-se consubstancial a própria natureza, molda a percepção e redefine limites internos em direção a progressão esochannealógica.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Nota de Pesquisa (NDP): lista de estudos do /lit/

 



Notas:

1. Diante do sucesso que as listas de livros indicados pelo 4chan/leftypol/wizchan trazem pro blogspot, decidi ir para o /lit/ do 4chan novamente e trazer uma lista de autores e livros indicados pelos e/lit/ists (usuários do /lit/ do 4chan). Caso tenham interesse, leiam meu ensaio de horror epistemológico de esoterismo channer (https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html) que tem mais de 4.500 visualizações;

2. Essa lista teve o mesmo método que usei nas anteriores:

https://cadaverminimal.blogspot.com/search/label/Nota%20de%20Pesquisa%20%28NDP%29?m=0

(Decidi linkar a série toda para ficar mais fácil)

3. Isto é, transformei o fio em PDF e pedi para uma IA extrair os autores e obras;

4. Mantive os nomes e os títulos como estavam para facilitar o encontro das versões que os e/lit/ists usaram.


> Critério de agrupamento:  

> - Autores cuja obra principal foi escrita entre o século –VIII e V d.C. → Antiguidade Clássica  

> - Séculos VI–XV → Idade Média e fim da Antiguidade

> - Séculos XVI–XVIII → Renascimento, Reforma e Iluminismo

> - Século XIX → 1801–1900

> - Século XX → 1901–2000

> - Quando há dúvida (ex: autores do século I d.C.), usa-se o auge de sua produção.


Antiquity (c. 8th century BCE – 5th century CE)


1. Homer — Iliad, Odyssey  

2. The Old Testament  

3. Aeschylus — Tragedies  

4. Sophocles — Tragedies  

5. Herodotus — History (of the Persian Wars)  

6. Euripides — Tragedies (esp. Medea, The Hippolytus, The Bacchae)  

7. Thucydides — *History of the Peloponnesian War*  

8. Hippocrates — Medical writings  

9. Aristophanes — Comedies (esp. The Clouds, The Birds, The Frogs)  

10. Plato — Dialogues  

11. Aristotle — Works  

12. Epicurus — Letter to Herodotus, Letter to Menoeceus

13. Euclid — Elements (esp. On Geometry)  

14. Archimedes — Works  

15. Apollonius of Perga — On Conic Sections 

16. Cicero — Works  

17. Lucretius — On the Nature of Things

18. Virgil — Works  

19. Horace — Works  

20. Livy — History of Rome

21. Ovid — (esp. Metamorphoses)  

22. Plutarch — Lives, Moralia 

23. Tacitus — Histories, Annals, Agricola, Germania

24. Nicomachus of Gerasa — Introduction to Arithmetic 

25. Epictetus — Discourses, Encheiridion 

26. Ptolemy — Almagest  

27. Lucian — Works  

28. Marcus Aurelius — Meditations

29. Galen — On the Natural Faculties

30. The New Testament  

31. Plotinus — The Enneads


> Total: 31 itens


Middle Ages & Late Antiquity (6th – 15th century CE)


32. St. Augustine — Works  

33. The Song of Roland

34. The Nibelungenlied

35. The Saga of Burnt Njal

36. St. Thomas Aquinas — Summa Theologica  

37. Dante Alighieri — The Divine Comedy  

38. Geoffrey Chaucer — (esp. Troilus and Criseyde*, *Canterbury Tales)  

39. Leonardo da Vinci — Notebooks


> Total: 8 itens

> (Nota: Da Vinci é tecnicamente Renascimento, mas sua obra escrita pertence ao fim do século XV — incluído aqui por convenção de transição)


Renaissance, Reformation & Enlightenment (16th – 18th century)


40. Niccolò Machiavelli — The Prince Discourses on the First Ten Books of Livy

41. Desiderius Erasmus — The Praise of Folly 

42. Nicolaus Copernicus — On the Revolutions of the Heavenly Spheres

43. Sir Thomas More — Utopia

44. Martin Luther — Three Treatises, Table-Talk

45. François Rabelais — Gargantua and Pantagruel

46. John Calvin — Institutes of the Christian Religion

47. Michel de Montaigne — Essays 

48. William Gilbert — On the Loadstone and Magnetic Bodies 

49. Miguel de Cervantes — Don Quixote  

50. Edmund Spenser — Prothalamion, The Faerie Queene

51. Francis Bacon — Essays, Advancement of Learning, Novum Organum

52. William Shakespeare — Works  

53. Galileo Galilei — The Starry Messenger, Dialogues Concerning Two New Sciences  

54. Johannes Kepler — Epitome of Copernican Astronomy

55. William Harvey — On the Motion of the Heart and Blood...  

56. Thomas Hobbes — The Leviathan  

57. René Descartes — Rules for the Direction of the Mind, Discourse on Method, etc.  

58. John Milton — Works  

59. Molière — Comedies  

60. Blaise Pascal — The Provincial Letters, Pensées

61. Christiaan Huygens — Treatise on Light

62. Benedict de Spinoza — Ethics

63. John Locke — Letter Concerning Toleration, Essay Concerning Human Understanding, etc.  

64. Jean Baptiste Racine — Tragedies  

65. Isaac Newton — Mathematical Principles of Natural Philosophy, Optics

66. Gottfried Wilhelm von Leibniz — Discourse on Metaphysics, Monadology, etc.  

67. Daniel Defoe — Robinson Crusoe  

68. Jonathan Swift — Gulliver’s Travels, A Modest Proposal, etc.  

69. William Congreve — The Way of the World

70. George Berkeley — Principles of Human Knowledge  

71. Alexander Pope — Essay on Criticism, Essay on Man

72. Charles de Secondat, Baron de Montesquieu — Persian Letters, Spirit of Laws

73. Voltaire — Candide, Letters on the English

74. Henry Fielding — Joseph Andrews, Tom Jones

75. Samuel Johnson — The Vanity of Human Wishes, Dictionary, Rasselas, etc.  

76. David Hume — Treatise of Human Nature, An Inquiry Concerning Human Understanding 

77. Jean Jacques Rousseau — On the Origin of Inequality, The Social Contract, Emile 

78. Laurence Sterne — Tristram Shandy  

79. Adam Smith — The Wealth of Nations, The Theory of Moral Sentiments

80. Immanuel Kant — Critique of Pure Reason, Critique of Judgment, Perpetual Peace, etc.  

81. Edward Gibbon — The Decline and Fall of the Roman Empire  

82. James Boswell — Journal, Life of Samuel Johnson LL.D.

83. Antoine Laurent Lavoisier — Elements of Chemistry


> Total: 44 itens


19th Century (1801–1900)


84. John Jay, James Madison, Alexander Hamilton — Federalist Papers (etc.)  

85. Jeremy Bentham — Introduction to the Principles of Morals and Legislation

86. Johann Wolfgang von Goethe — Faust, Poetry and Truth  

87. Jean Baptiste Joseph Fourier — Analytical Theory of Heat  

88. Georg Wilhelm Friedrich Hegel — Phenomenology of Spirit, Philosophy of Right 

89. William Wordsworth — Poems  

90. Samuel Taylor Coleridge — Poems  

91. Jane Austen — Pride and Prejudice, Emma  

92. Karl von Clausewitz — On War  

93. Stendhal — The Red and the Black, On Love 

94. George Gordon, Lord Byron — Don Juan

95. Arthur Schopenhauer — Studies in Pessimism 

96. Michael Faraday — Chemical History of a Candle  

97. Charles Lyell — Principles of Geology  

98. Auguste Comte — The Positive Philosophy 

99. Honoré de Balzac — Père Goriot, Eugénie Grandet

100. Ralph Waldo Emerson — Representative Men, Essays, Journal

101. Nathaniel Hawthorne — The Scarlet Letter 

102. Alexis de Tocqueville — Democracy in America

103. John Stuart Mill — On Liberty, Utilitarianism, Autobiography, etc.  

104. Charles Darwin — The Origin of Species, The Descent of Man

105. Charles Dickens — Works  

106. Claude Bernard — Introduction to the Study of Experimental Medicine 

107. Henry David Thoreau — Civil Disobedience, Walden

108. Karl Marx — Capital (with Communist Manifesto)  

109. George Eliot — Middlemarch

110. Herman Melville — Moby-Dick, Billy Budd  

111. Fyodor Dostoevsky — Crime and Punishment, The Idiot, The Brothers Karamazov 

112. Gustave Flaubert — Madame Bovary, Three Stories

113. Henrik Ibsen — Works  

114. Leo Tolstoy — War and Peace, Anna Karenina, What is Art?  

115. Mark Twain — Huckleberry Finn, The Mysterious Stranger


> Total: 32 itens


20th Century (1901–2000)


116. William James — The Principles of Psychology, Pragmatism  

117. Henry James — The Ambassadors, The American  

118. Friedrich Wilhelm Nietzsche — Thus Spoke Zarathustra, Beyond Good and Evil, etc.  

119. Jules Henri Poincaré — Science and Hypothesis 

120. Sigmund Freud — The Interpretation of Dreams, Civilization and Its Discontents  

121. George Bernard Shaw — Plays (esp. Pygmalion, Saint Joan)  

122. Max Planck — Origin and Development of the Quantum Theory, Where is Science Going?

123. Henri Bergson — Time and Free Will, Creative Evolution  

124. John Dewey — How We Think, Democracy and Education 

125. Alfred North Whitehead — Science and the Modern World, Adventures of Ideas

126. George Santayana — The Life of. Reason, Skepticism and Animal Faith

127. Nikolai Lenin — The State and Revolution

128. Marcel Proust — Remembrance of Things Past

129. Bertrand Russell — The Problems of Philosophy, Human Knowledge

130. Thomas Mann — The Magic Mountain, Joseph and His Brothers  

131. Albert Einstein — The Meaning of Relativity, The Evolution of Physics

132. James Joyce — "The Dead", Ulysses  

133. Jacques Maritain — Art and Scholasticism, True Humanism

134. Franz Kafka — The Castle, The Trial

135. Arnold Toynbee — Civilization on Trial  

136. Jean-Paul Sartre — Nausea, Being and Nothingness  

137. Aleksandr I. Solzhenitsyn — The First Circle, Cancer Ward


> Total: 22 itens


Resumo por Período


| Período | Itens |

|--------|-------|

| Antiquity | 31 |

| Middle Ages | 8 |

| Renaissance–Enlightenment| 44 |

| 19th Century | 32 |

| 20th Century | 22 |

| Total| 137 |



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Nota de Pesquisa (NDP): lista de filósofos e obras de filosofia estudados pelo Wizchan

 


Notas:


1. Diante do sucesso que as listas de livros indicados pelo 4chan/leftypol/wizchan trazem pro blogspot, decidi voltar ao /hob/ do Wizchan e trazer uma lista de filósofos e obras filosóficas lidas pelos Anonymages (Usuários do Wizardchan/Wizchan). Caso tenham interesse, leiam meu ensaio de horror epistemológico de esoterismo channer (https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html) que tem mais de 4.500 visualizações;

2. Essa lista teve o mesmo método que usei nas anteriores: https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/nota-de-pesquisa-ndp-micro-guerra-pol-x.html?m=1

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/nota-de-pesquisa-ndp-estudo-do-marxismo.html

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/nota-de-pesquisa-ndp-uma-lista.html

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/01/nota-de-pesquisa-ndp-o-que-usuarios-do.html

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/01/nota-de-pesquisa-ndp-cristianismo.html

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/01/nota-de-pesquisa-ndp-videogames.html

3. Isto é, transformei o fio em PDF e pedi para uma IA extrair os nomes dos filósofos e obras citadas;

4. Mantive nomes e títulos como estavam para favorecer as fontes primárias usadas pelos channers.


— Filósofos / Pensadores Citados:


· Pierre Hadot

· Bryan Magee

· Ernst Cassirer

· Plotinus

· Proclus

· Pseudo-Dionysius

· Plato

· Aristotle

· Augustine (of Hippo)

· Thomas Aquinas

· Duns Scotus

· William of Ockham

· Jean-Paul Sartre

· Albert Camus

· Søren Kierkegaard

· Arthur Schopenhauer

· Friedrich Nietzsche

· Thomas Nagel

· Elizabeth Anderson

· Karl Popper

· David Hume

· Immanuel Kant

· Michel Foucault

· Gilles Deleuze

· Jean Baudrillard

· Martin Heidegger

· Hannah Arendt

· Max Stirner

· Thomas Hobbes

· Niccolò Machiavelli

· Ayn Rand

· Charles Darwin

· Richard Dawkins

· Carl Jung

· B. F. Skinner

· Noam Chomsky

· Aldous Huxley

· George Orwell

· Epicurus

· Sextus Empiricus (implícito)

· Jacques Ellul

· Ivan Illich

· Julio Cabrera

· Thomas Ligotti

· H. P. Lovecraft

· Giacomo Leopardi

· Marquis de Sade

· Protagoras

· W. D. Hamilton

· Ronald Fisher

· Dorothy Parker (poetisa, citada no contexto)


— Livros / Obras Citadas:


· Philosophy as a Way of Life – Pierre Hadot

· Confessions of a Philosopher – Bryan Magee

· Ultimate Questions – Bryan Magee

· Language and Myth – Ernst Cassirer

· Enneads – Plotinus

· The Divine Names and The Mystical Theology – Pseudo-Dionysius

· Scivias – Hildegard of Bingen

· Summa Theologica – Thomas Aquinas

· Philosophical Writings – William of Ockham

· Nausea – Jean-Paul Sartre

· The Stranger – Albert Camus

· Book of Ecclesiastes (Bible)

· The World as Will and Representation – Arthur Schopenhauer

· The Open Society and Its Enemies – Karl Popper

· Spider-Man and Philosophy (edited volume)

· Nicomachean Ethics – Aristotle

· Meditations on First Philosophy – René Descartes

· Mortal Questions – Thomas Nagel

· Private Government – Elizabeth Anderson

· Critique of Pure Reason – Immanuel Kant

· On the Fourfold Root of the Principle of Sufficient Reason – Schopenhauer

· Upanishads (Hindu texts)

· Advaita Vedanta (philosophical tradition)

· Résumé (poem by Dorothy Parker)

· The Teaching Company lectures (on Stoicism)

· The Story of Philosophy (Will Durant)

· A History of Western Philosophy (Bertrand Russell)

· Euler diagrams (referenced in Kant/Schopenhauer context)


— Recursos Online Citados:


· Stanford Encyclopedia of Philosophy (plato.stanford.edu)

· Wikipedia: List of unsolved problems in philosophy

· NY Times obituary for Bryan Magee

· Prospect Magazine interview with Bryan Magee

· Goodreads link to Schopenhauer book

· Google Books links


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Necrológio Cadavérico #7 — O Onanismo Pornográfico dedicado ao Grande Nada

 


Se eu morresse hoje...


Eu percebo atualmente como grande parte das experiências são vazias e grande parte das conquistas se dedicam a uma nadificação. Isso tem muita correlação com o método confessional que resolvi adotar como formato textual dessa série de textos. Eu queria me purificar dos meus pecados e não enaltecer narcisicamente o meu ego frágil. Costumo dizer que às vezes é preciso de que as coisas se quebrem. Às vezes sinto vontade de me quebrar.


Uma pergunta central: "por qual razão escrever em primeira pessoa?". A centralidade aqui está no método: escrever em terceira pessoa, tal como um narrador onisciente e onipresente, cria uma ilusão intelectual de absoluto controle e ausência de erros. O que leva a uma ideia de onipotência e capacidade de corrigir os problemas do mundo. O intelecto, em si, passa a não perceber nada e, inconscientemente, acreditar que percebe tudo. Isso cria uma condição de narcisismo intelectual: bastava fazerem isso que o mundo não seria assim. Eu preferi escrever dum modo em que todas as feridas da minha alma são expostas, completamente nuas, para que o leitor ou a leitora pudesse rir de mim e dos meus pecados. Ou, se tivesse um quê de caridade, compadecer-se da minha dor.


Eu sei se algo da ilusão pornográfica: ela cria a impressão, completamente falsa, que temos mais parceiros sexuais do que realmente temos. O nosso cérebro, dizem alguns especialistas, não diferencia a pessoa da tela e a pessoa que está do nosso lado.  O resultado? Dopamina como recompensa. A pornografia está correlacionada com a falsidade de acreditar inconscientemente que se tem algo que em última instância não se tem. Mas, no fim de tudo, isso não é o mesmo em tantas outras correlações? Do mesmo modo que o intelectual ao escrever em terceira pessoa ele cria inconscientemente a ilusão de ser onipresente, onisciente e onipotente, tal como Deus, o onanista inconscientemente acredita que tem mais pessoas ao seu lado do que de fato possui.


Esse onanismo pornográfico, dentro da sociedade moderna, atinge uma proporção ainda maior. Uma série de relações românticas se constroem visando o bem estar ou um aspecto burocrático qualquer, sendo que o bem estar (que não pode ser confundido com felicidade) é algo passageiro e a burocracia estatal devora o amor com a sua teia de relações jurídicas que atordoam todos os viventes. Quando vejo alguém, vejo em sua sombra a figura do Leviata que a tudo devora, a tudo regula e a tudo dita. Não me parece a busca de construir algo a dois apesar de todas as dificuldades que se erguem e apesar dos momentos de mau-estar que certamente terei.


No mundo moderno, diga-se de passagem, há em nós — em mim, em ti —, a busca por Deus substituída. Deus muitas vezes é substituído pelo romance. Disso surge a paixão que busca na pessoa um retrato perfeito de Deus. O que nos leva — a mim e a ti — a odiar qualquer defeito que aparece e estraga o que deveria ser perfeitamente divino. Esse tipo de relação, tal como observa Robert A. Johnson, está condenada a falhar. Acreditar que está namorando alguém quando na verdade está buscando a Deus de forma completamente deturpada, ao mesmo tempo que pune qualquer desvio do objeto divino indesejado foi o que me fez escrever aquele texto do Funk Buda (https://medium.com/@cadaverminimal/funk-buda-6-paquera%C3%A7%C3%A3o-namoricagem-e-namoricose-dfb84c3b90b9).


Creio que muito da minha vida foi ligado a falsa impressão de ter. Ou a inconsciente impressão de ter, quando na realidade nada tinha. Digo isso de todas as minhas relações passadas. Eu acreditava, de fato, estar namorando aquelas pessoas quando, na verdade, era eu e elas num eterno masturbacionismo infinito até que o castelo de cristal quebrasse com a tormenta do vento da vaidade. Mesmo que o leitor ou a leitora tenha achado que, por algum momento, eu que não sou virgem nem do buraco das orelhas e das narinas, fosse um redpill, incel e MGTOW por ter sido um channer bastante ativo. O que é engraçado: vivo em mais festas do que deveria e me arrependo de 100% das minhas relações sexuais passadas — incluindo as orgias que estive desde os meus dezesseis anos de idade. Essa vida desregrada de bissexual boêmio carregou meu coração de vazio e amargura, agora cai em mim a chuva do arrependimento.


Uma amiga disse para mim que estou me tornando um boomer. De fato, o peso da idade vem me tornado mais conservador, mais religioso, menos apressado com as ideias e menos empolgado para com as novidades. Respondi-lhe ironicamente que escreveria um ensaio filosófico chamado "A boomerização do homem" e cá estou eu ignorando as minhas promessas. Estou realmente pensando cada vez mais em Jesus Cristo, olhando mais para o mundo como um texano republicano olha para um californiano democrata que migrou para o seu estado — e que, por algum infortúnio, votará em democratas para deixar o churrasco texano com sabor da defumação lenta da maconha progressista da Califórnia.


Sim, torno-me eu irremediavelmente mais boomer, mais religioso e mais conservador. Estou com mais gosto de festa junina/julina dentro de uma Igreja do que de um carnaval regado a lança-perfume. Tenho um pessimismo metafísico diante dessas novidades que me aparecem como o novo cajuzinho do verão. Acho uma tolice grande parte dos movimentos que despertam nos jovens alguma atenção, pescarias como redpill, MGTOW e cultura incel são, para mim, cigarros estragados com fumaças intragáveis.


Conforme o tempo passa, vejo que minhas experiências não eram tão geniais como outroramente apareciam. Em vez disso, aparentam-me como um gigantesco onanismo. Tanto que não faço quase nada de novo. Não perderia meu tempo entrando em outra relação frustrada, não perderia meu tempo adentrando em um outro grande movimento, não perderia meu tempo acreditando no marketing e nem perderia meu tempo lendo tanto jornal. Os fatos políticos noticiados pelos jornais usualmente não alteram a percepção de ninguém hoje em dia, visto que há em todo jogo político uma lógica tribal que serve como lente interpretativa de todos os fatos. Além disso, como já escrevi, nada posso mudar visto que sou irrelevante.


Eu fico aqui, lentificando meus passos, lendo assuntos que a ninguém interessa, jogando poucos jogos de videogame ou estudando em cursos de universidades americanas sem dever nada para ninguém. Estou me tornando, pouco a pouco, mais fantasmagórico para os grandes públicos e, por algum motivo, sendo lido por mais gente.

Understanding Human Nature - Note #1


 

The course is offered by Christendom College. The professor is Dr. John A. Cuddeback.


Link to this course:

https://online.christendom.edu/courses


God give us:

1. Natural light (natural reason);

2. Supernatural light.


Human nature = the rational animal. What is being a human? What is being a rational animal? The question is: what is a man and what is the difference between a man and the rest of creation?


Man is both: rational and spiritual. Rationality is a strong philosophical question. We have some philosophers who talked about it:

- Socrates;

- Plato;

- Aristotle;

- St. Thomas Aquinas.


What is rationality? Rationality is: the activity that is most characteristic of this kind (rational animal/human).

What can humans do?

- Taking care of things;

- Ruling;

- Rationality is a way of having reality too.


The human soul can become all things. Rationality is a means of possessing things, but it is also a means of becoming all things. This is a fundamental difference: we can transcend, in a sense, the limitation of the body to being other things.


We have the second light, the supernatural light, the theology. Because of it, we can understand God's plan and the integration of natural reason and supernatural reason.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Necrológio Cadavérico #1 — Se eu morresse hoje

 


Se eu morresse hoje...


Eu podia escrever um "necrológio" altamente elogioso, dizendo meus melhores feitos — se eu tivesse algum — e ignorando meus maiores defeitos — dos quais me recordo de inúmeros. Prefiro um tom confessionalista, estilo Agostinho de Hipona, mas nem tão cristão.


Eu costumo pensar a vida em termos substantivos. Eu fico pensando: "o que substancialmente mudou dessa experiência para outra?". Se eu olhar para o passado, vejo que estive navegando por um oceano de vulgaridade por causa da minha carência.


Recordo-me de que, até pouco tempo atrás, considerava que uma amizade era uma relação duradoura na qual o número de bebidas ultrapassava o número de encontros. É evidente que, até o presente momento, eu não tinha percebido isso. Hoje eu posso perceber que, ao olhar para trás, posso ver que minhas amizades se resumiam a drogas e a bebidas.


Sempre fui uma pessoa que gostava de ler e escrever, mas não podia ter uma relação pautada em leitura e em escrita. Isso me frustrou absurdamente. Depois disso, vi que minhas relações não eram apenas superficiais, eram absolutamente falsas.


Se eu morresse hoje, sentiria uma grande dor. Não tive amizades que eu poderia considerar verdadeiramente substanciais. Só tive amizades absolutamente descartáveis. Do mesmo modo, namorei mulheres e homens que não faziam sentido algum para mim. Mulheres e homens que se atraíam por mim de modo completamente enganoso. E olha que sequer sou um indivíduo bonito. O sentimento que sobra disso é um vazio e o vazio que sobra vem com um sabor de arrependimento. Nunca pude conversar nada de substancial com quem namorei.


Não encontrei sentido algum em nenhum trabalho, não raro me sentia abandonado no meio de um local vazio de significado. Do mesmo modo, fiz faculdade de filosofia e pós-graduação em neuropsicanálise clínica. Não sinto vocação alguma para nada disso. De certo modo, faço mais análises literárias pois gosto de escrever do que por ter feito filosofia. De semelhante modo, escrevi e teorizei sobre a Segunda Geração de Guerra Memética por ter sido algo que me marcou e não por gostar de teorias psicológicas e saber a correlação disso com guerras informacionais e meméticas.


O meu deslocamento me fez entrar muito em chans. Li de tudo. Descobri a correlação do Kekismo Esotérico com QAnon. Descobri a famosa teoria do Kantianismo Esotérico. Além de ter criado a Magolítica (manipulação política ou magia política) baseado em fenômenos como o QAnon. Na época, isso soou espetacular para mim. Hoje em dia eu sequer me importo. Do mesmo modo, grande parte da cultura channer se tornou extremamente banal para mim. Ainda posso entrar no /lit/ do 4chan para apreciar a descoberta de novos livros, mas dificilmente engataria em uma discussão. Frequento chans apenas pelo fato de eu ser estranho.


Pensando mais abertamente, o que sobraria é esse blogspot recheado de análises e um bocado de weblivros no Medium. Alguns poderiam ler isso e achar alguma recomendação apreciável e acho que isso justifica grande parte dessa jornada interminável de textos que escrevi apenas para me livrar da minha solidão. Porém, no fim de tudo, acho que vivi uma vida vazia e cheia de pessoas que não me representam absolutamente nada.


Li muita coisa e ainda leio muita coisa. Gosto de ler, mas não sei até onde isso é escapismo. Para mim, a leitura se tornou muito parecida com uma válvula de escape, visto que odeio muito do que está ao meu redor.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Contos e Crônicas de um Cotidiano (In) comum

 

  E é com muito gosto que  eu, Clarice L. M., agradeço o espaço aberto pelo Cadáver Minimal. Com isso, poderemos assistir juntos aos desenrolares das tramas na série Contos e Crônicas de um Cotidiano (In) comum, onde o cotidiano se mostra não só ele como um todo, mas que também respira, observa, age e nos suga, instiga, e nos obriga a seguir por essas andanças 'desbundadas' que chamamos de sobreviver. 
Acontece que a existência é uma desgraça que nos é dada como uma dádiva  feita por Força Maior mas, na real, é apenas um selo obrigatório que nos e forjado sem nosso consentimento, nos fazendo viver e sofrer para, dessa forma, encontrar sentido no sofrimento. E é seguindo esse jeito niilista  e puramente brasileiro de ver as coisas que nossos camaradas vão nos guiando. 

  Bem, caro leitor, creio que pouco lhe importa quem é essa pessoa que lhe escreve, mas creio que há de ser de muito gosto para seus olhos e mente o que escrevi aqui. Talvez tenha 'escrevido' com tal carinho, ou como quem sangra tinta. De certo, deixo os entendimentos com você.

Boa leitura. Ou nem tão boa assim. 


‘’Remendado”


Capítulo 1: Quid pro Quo


—  Já vou, deu 18H já. Amanhã venho mais cedo, seu  Ruy. Fica na paz. 

—  Falou. Até amanhã. ‘Tamo’ junto!

 

Ouço as palavras daquela figura, e bato meu ponto. Desço as escadas, e alcanço as pedras da calçada desgastada. Ventava bastante, e as demais lojas do calçadão já estavam fechando-se.


 E, assim, eu encerrava mais um dia de trabalho numa fábrica de tecidos em Duque de Caxias.


Numa dessas noites abafadas do verão da Baixada Fluminense, me peguei deitado no chão do quarto encarando o teto. Meu dia havia sido cansativo e, na noite anterior, mal preguei os olhos para uma boa soneca. Andava eu, dessa forma, vivendo de forma autômata: casa/emprego – estudos–  emprego/casa. Pensar em um relacionamento se tornou algo incomum para mim, visto que as pessoas se tornaram mais exigentes e, no mercado, o meu modelo ultrapassou. No emprego que eu nunca quis, me paga razoavelmente bem; suficientemente bem para sobreviver – afinal, o nome é salário mínimo por isso. Se fosse salário máximo se chamaria Subsídio Parlamentar. 


 Eu sou um alguém de 27 anos; estudante, sozinho, trabalho como almoxarife em uma fábrica de tecidos,  cansado da minha própria essência e cheio de perguntas. Nas horas vagas, escrevo coisas – tais como esse relato do emplastro de impropérios que é o que chamamos de vida. Ao meu ver, claro; não faça de minhas palavras as suas, o que uma pessoa louca diz não se escreve, é o que dizem por aí. O que chamam de loucura, chamo de enxergar além da bolha que nos rodeia cronicamente. Noutro dia, em minha rotina diária de retorno para casa no ônibus Caxias-Magé, o motorista teve de parar pois – vejam só; um idoso fumava no banco dos fundos e ‘’não sabia dessa proibição’’ – o que atrasou a viagem em 36 minutos apenas por conta das negativas do mesmo em apagar o fumo, ou deixar o veículo. Haviam placas, avisos, etc. E o nosso saudoso senhor resolveu-se por ele mesmo que era de bom tom acender o bendito fumo… Ao fim das contas, apagou o fumo e… desceu um ponto depois. Enfim, casos do acaso.


Observando esses pequenos atos, vejo que nada sei da vida. Atitudes, falas, lugares. Porque as pessoas se permitem levar pelas emoções? Falando assim, até parece que não sou um humano, não é, caro leitor? Tenho endereço, mas minha alma não tem CEP. Mas o fato é que intriga-me a vida; com ela, tive as mais diversas prosas acerca do existencialismo:


– E o que fazer quando se sente uma dor que uma aspirina não cura? Basta chorar? Basta que eu inunde minha alma com minha dor, e lave minha pele com as lágrimas que produzo ao exaurir de minha existência todas as lamúrias que me assolam? Devo deixar que meu corpo reverbere meus sentimentos? Ah, se eu quisesse ficar triste, estaria lendo Schopenhauer – ou apostando na bolsa de valores.


 A verdade é que eu sou uma pessoa sem passado, e não me importo.  Por muito custo, trabalhei meu cérebro para que ele me fizesse lembrar apenas dos bons momentos da minha existência desde então; os resultados foram que apenas tenho vagos destes flashes e, em um desses, eu era recebido com um sorriso por um rosto feminino. Vendo tal face, tentava eu então sorrir e retribuir o gesto, mas eu só chorava. Não conseguia falar nem me mexer por conta própria, mas eu estava feliz. Foi o único momento da minha vida em que senti a felicidade verdadeira, sem sofrimentos, sem dor. Acho que é por que eu tinha acabado de chegar, e não me explicaram o que ocorreria após aquele primeiro choro.

Creio que, na próxima vez que eu sentir tais sentimentalidades, será em meu leito final, com um verme que me narra ao pé do ouvido minha vida para, ao fim da estória, me roer da carne aos ossos. 


Mas, ah… Esses não são assuntos niilistas ou depressivos, não… 


Prezado (a), busco aqui esclarecer o que levaram aos fatos da minha prosa, da minha narrativa. Aos fatos que se sucederam, devo afirmar que foi de uma total falta de decoro do Destino. 


 Em primeiro, venho de uma família cheia de percalços e ignorâncias. Minha mãe teve filhos cedo, e achou ser de bom tom ter mais filhos para segurar o relacionamento com seu primeiro esposo, meu finado pai. Mal sabia ela que ela estava apenas produzindo herdeiros de sua pobreza geral. Após suas desilusões, casou-se com meu padrasto, e teve mais dois filhos, as joias de sua coroa. Após isso, foram muitas águas a rolar nos rios da vida e, eu, marinheiro de primeira viagem,  entrei de bucha nessa empreitada que chamamos de ‘’viver’’ – e sem bote, sem  saber nadar. Já fui muito traído: Há, há! Se o chifre fosse dinheiro, seria eu uma criatura abastada! Eu apenas tiro risos desses casos, pois de nada me adianta remoer essas coisas. Mas também traí. Tão pouco quanto acho que deveria, mas… enfim. Não me cabiam mais e, nas épocas, não estavam sob meu controle. Nada nunca está sob controle. Não temos controle de nada, afinal. 


 Por exemplo: minha amiga da escola, Eloísa, tem 27 anos, como eu, e vem de uma família que também não tinha a estrutura familiar sólida, tampouco a estrutura educacional. Ela foi expulsa de casa pela mãe  e vivia sendo perseguida pela mesma, e viveu com seu primeiro namorado dos 16 até os 24. Nesses tempos, separaram-se e ela teve um filho fora do relacionamento. Depois dessas idas e vindas, teve mais um filho com seu primeiro ex… separou-se e agora vive com seu terceiro ‘’amor’’.  Ela é a prova viva de luta, sucesso e retrocesso. Contando mais sobre essa bela amiga, após muito sofrer em sua humilde vida, voltou a estudar – coisa que havia deixado para trás desde seus 14, que foi quando sua mãe a expulsou de casa. Estudou, formou-se no ensino médio e conseguiu a bolsa de estudos que tanto havia tentado… tudo parecia perfeito. Exceto pelo fato de que caiu em um imenso ócio, a levando a viver de bicos: desde trabalhos simples  aos mais elaborados. Às vezes, me pede dinheiro emprestado, quase implorando. Ela não está assim por falta de oportunidades, mas por sabotagem da vida e da sociedade.


Dia desses, vinha eu pelo meu caminho quando resolvi ir até sua humilde casinha para tomar um café e ver como anda sua vida. Caminho pelas ruas de terra batida, e paro em frente ao seu portão. Chamo, e pouco tempo depois, ela me atendeu com um sorriso. 


– Boa noite! Entra, vou passar um cafezinho. Tá quente, né? Entra aí, senta na varanda. 


Ela me cumprimentava com felicidade; poucas das visitas que ela recebia eram da agente de saúde do postinho e minhas. Assim como eu, ela era sozinha no mundo – não por ser ‘’sozinha’’, mas por não ter os totais apoio e visibilidade que merece. Sento-me na varanda, e observo enquanto ela retorna, e senta em uma cadeira em minha frente.


– O outro está no quarto, as crianças estão vendo TV. Colei o ABC nas paredes do quarto deles, é bom que, dessa forma, vão aprender um pouco vendo as imagens. Vão ficar curiosos e vão querer saber mais e… 


 Ela iniciava sua fala enquanto acendia um cigarro feito de tabaco e maconha. As olheiras em seus olhos lhe davam uma estranha beleza, e seu sorriso amarelo era tal como o de Gioconda. Pela forma com que seu corpo se comporta na cadeira, é de bom tom afirmar que está há algumas boas horas sem dormir – o que lhe era comum desde a época de nossa mocidade, tendo em vista que são anos de amizade com tal criatura e acabei reparando, em todos esses anos, em seus trejeitos. Convivência é isso. Eu dou um gole seguido de outro no café, que já estava morno, enquanto ela me contava suas novidades com alguma empolgação. Dando uma pausa para respirar e falar entre uma tragada e outra, ela se  levanta, e vira-se em direção à cozinha para pegar mais café.


– Já volto, fuma um cigarro também. E, quando eu voltar, você me conta suas novidades. Eu só falei até agora, e você apenas escutou. 

– Sou um bom ouvinte, não gosto de interromper ninguém enquanto a mesma fala, você sabe. Disse-lhe, lançando um sorriso sonso em sua direção enquanto sigo seu ‘conselho’ e acendo um cigarro.


– Você sempre foi esquisito. Bem, já volto. Ela se vira, e some através da porta. E apagando as luzes ao passar pelos cômodos, encostou a porta da cozinha ao sair, retornando com mais cigarros de maconha e café. Ao que parece, teríamos uma longa conversa. Ah, não que eu não goste de uma boa prosa, fora que o clima está ótimo pra isso.


– Pelo visto a conversa vai ser boa. Falo, sorrindo, ao notar sua aproximação. Ela senta novamente na cadeira de praia, e acende um cigarro. Bebe um grosso gole de café e, por fim, desaba:


– Estou cansada de lutar por um bem maior, sabe? Tento ajudar, mudar o mundo e os meus problemas e, ao fim, retorno ao começo. Sinto-me tão forte, mas tão impotente ao mesmo tempo. O outro não gosta de conversar sobre os temas que estudei; geralmente ele leva um assunto como culinária, sociologia e comunismo para o lado pessoal. Tudo o que se fala sobre quaisquer temas tem de se filtrar, pois ele se sensibiliza á ponto de afetar nossa convivência. Ou seja: casei-me com um indivíduo sem um pingo de inteligência emocional. Eu converso sobre tudo um pouco, e ele não demonstra interesse algum, assim como a grande maioria.


Eu me inclino à frente e trago o cigarro, logo encho meu copo com café;


– E você, do jeito que é, já sabia bem o quão ignorante é aquele homem, e a sociedade em si também. Você bem sabe disso, não é cega. Hoje, no trabalho, seu Ruy veio comentar sobre o tal novo zagueiro do Flamengo, sendo que estou eu pouco me lixando para o futebol e seus ‘‘heróis’’ – ouvia e concordava apenas para não perdurar o assunto, caso expusesse minha devida e real opinião acerca do mundo futebolístico. A sociedade é assim:  exaltam algo que não irá mudar em nada as suas vidas, e sensacionalizam os que ainda possuem o mínimo de consciência de classe, do lugar de onde veio e para onde vão. Por fim, nosso país é um retrato de insoberania –  de futilidades, de uma massa emburrecida, vilipendiada, ignorante e entorpecida pelo boçal, drogados pelas grandes mídias e pelas culturas de retrocesso. Uma nação completa sofrendo lavagem cerebral em simultâneo, silenciosamente. 


Ela suspira, e traga mais uma vez o cigarro. Estica as pernas e engole o resto de café frio da velha caneca de alça quebrada que segurava:


– Deus, perdoai-nos. Não sabemos o que fazemos mesmo com o óbvio estando tão claro diante de nossos olhos. Mesmo com toda a clareza, fazemos o velho quid pro quo. 


 Seguimos nossa conversa afiada acerca da sociedade e da vida até umas 23h e pouca da noite, que foi quando achamos de bom tom irmos cada qual para seus cantos e, assim, tentarmos dormir enquanto idealizamos uma sociedade sem tanto proselitismo e hipocrisia velados de ajuda e complacência (...).





Continua na próxima Terça-feira, às 23h.