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quinta-feira, 30 de julho de 2026

/cc/ #5 — Estou de saco cheio do brasileirismo!

 



/cc/ = copicolas que eu criei pois estava de saco cheio de repetir as mesmas coisas.


Estou de saco cheio do brasileirismo!


Essa onda que entrou agora quer pôr o Brasil em tudo e obrigar todo mundo a consumir o Brasil em tudo. Todo brasileiro, imbuído de uma consciência artificialmente cívica e patriótica, deve ser brasileiro em gênero, número e grau!


Eu, pra ser sincero, estou cansado do Brasil. Eu sou brasileiro, meus pais são brasileiros, minhas ex-namoradas são brasileiras, todos os meus exs-namorados são brasileiros, todas as minhas ex-sogras são brasileiras. E, pra quem me chamar de vira-lata, até meus oito vira-latas são brasileiros e uivam o Hino Nacional com a consciência de mil Nelson Rodrigues numa autocondenação ao vira-latismo.


Toda vez que abro a internet e vejo conteúdo do Brasil, vejo a mesma coisa. Por algum motivo, todos usam o recurso das universais afirmativas, tal como se tivessem saído de um curso filosófico de lógica nacionalista:


- Todo brasileiro deve ver filmes nacionais!


- Todo brasileiro deve ler livros nacionais!


- Todo brasileiro deve ouvir música nacional!


- Todo brasileiro deve comer comida nacional!


Todos os que acordo, estou no Brasil. Eu vejo brasileiros todos os dias. Quando saio de casa, ouço Péricles pelas ruas. Quando abro a internet, deparo-me com as discussões tipicamente nacionais. É por isso que digo: eu não preciso de mais Brasil, eu preciso de menos Brasil!


Atualmente só leio livro gringo, pois quero sentir que estou fora do Brasil. Atualmente só jogo jogo gringo, pois quero sentir que não estou no Brasil. Compreende? Eu prefiro passar, sei lá, mil horas escutando artistas estrangeiros do que lembrar que estou no Brasil. Substitui Legião Urbana por Soda Stereo. Substitui Nikolas Ferreira por Yurval Levin. Substitui Lula por Proudhon.


Se me aparece um bolsonarista, digo-lhe que voto em quem ele quer que eu vote apenas para ele não me encher o saco com a sua brasileirice. Se aparecer um petista, digo-lhe a mesma coisa. Eu não ligo. Nem sei a razão pela qual um homem como eu, favorável a tecnocracia, tem direito a voto. Vocês deveriam ser gratos por eu não querer votar e, quiçá por sorte improvável, eleger um tecnocrata que quer o fim da festa da democracia.


É simplesmente insuportável ter uma obrigação que não pedi. Toda vez que vejo um outro brasileiro, sinto vontade de dizer: "apenas não, já tenho demais do Brasil vivendo nele, por favor, procure outro brasileiro para expressar a sua brasilidade".


Outro terrível fato é que, por algum acaso, todo brasileiro que vejo em vídeo gringo aparece dizendo "I as a Brazilian" e segue-se algum besteirol desnecessário. Soa como um "I ass a Brazilian". Estou farto dessas apresentações brasileiras, eu não quero saber que você vem do Brasil e também acho que ninguém quer saber. Você não é especial por ser brasileiro, eu não sou especial por ser brasileiro.


Vocês querem mais Brasil, sejam mais brasileiros entre si. Eu quero menos Brasil, deixem-me em paz com a sua brasilidade! Não me venham com seus filmes, seus livros, seu futebol, suas músicas, seus políticos, seus nacionalismos azuis ou vermelhos! Deixem-me em paz! Pelo amor de Deus!

sábado, 22 de outubro de 2022

Acabo de ler "Mitos e Falácias sobre a América Latina" de Carlos Angel

 



Achei esse livro ao acaso na biblioteca. Ao contrário do que indica a capa, o fenômeno petista não é analisado. O livro evita muito falar sobre o Brasil, vê o Brasil como algo diferente da américa hispânica. Tanto que, na absoluta maioria das vezes, o termo "América Latina" refere-se quase que exclusivamente ao território hispânico.

Em relação ao conteúdo do livro em si, pude observar uma tendência de crítica voraz não só aos socialistas radicais, mas igualmente aos conservadores caudilhos gerados pela própria desintegração da sociedade hispânica. O autor chega até a se conciliar e defender sociais democratas, muitas vezes sendo altamente elogioso as suas políticas e gosto pela democracia. A sua proximidade para com a esquerda moderada pode ser vista até maior do que pela direita enquanto tal em certos pontos.

O trabalho nesse livro é determinar as raízes dos problemas da américa hispânica. Isso o autor fará metodicamente, procurando razões que precedem até mesmo a descoberta da America. Uma das principais era a busca dos europeus por um local impoluto em que a pureza original prévia ao pecado original tinha permanecido intacta. Local que se pensou ter achado com a descoberta da América. Vem daí o indigenismo latino americano. Há também críticas sobre a fragmentação territorial da America Hispânica e a forma com que a ausência de integridade das instituições gerou um vácuo de poder que só poderia ser preenchido por quem tivesse maior força bruta (o que explica a origem dos caudilhos).

Um dos pontos que o autor baterá é a forma com que se sucedeu a revolução anglo americana (para preservar direitos) e a revolução hispânica americana (para conquistar direitos que não estavam acostumados a exercer). Parte também daí diferenças substanciais que marcam seus percursos políticos.

No geral, achei um livro bastante interessante e de argumentação rica. Pode ser um pontapé para quem quer aprender mais sobre nossos queridos companheiros.