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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Caveira Casual #6 — The Cure e Looping de Flashback

 



Enquanto ouço "Seventeen Seconds" do The Cure, bem na música "Reflection", dominada pelo som sombrio, penso na influência de uma pessoa na vida de outra. O momento em que decidi que frequentaria o /mu/ do 4chan se dá pela influência de minha ex-namorada, atualmente meu ex-namorado, visto que mudou de gênero. Por falar em mudança de gênero, a música também mudou: "Play For Today" começou a tocar.


Minha ex, meu ex, tinha o costume de dizer que meu gosto musical era horrível. Isso me fez procurar o /mu/ do 4chan para ouvir mais álbuns. Lá, tornei-me /mu/tant. Isto é, um hipster que ouve música atrás de música até se tornar musicalmente irreconhecível para a maioria das pessoas. Posteriormente também viriam o /tv/ e os filmes Found Footage. O que me tornou ainda mais hipster.


Começou a tocar "Secrets". Percebo que esse álbum rima mais com o tom da minha personalidade atual. Isto é, um pouco mais sombriamente harmônica. Não sei se isso é uma impressão do momento. Também não saberia especificar quando a minha personalidade se tornou assim. Sou um desconhecido que, por algum motivo, está sempre metido em alguma confusão ou algum grande plano. Também estou sempre lendo o que ninguém lê, assistindo o que ninguém vê, ouvindo o que ninguém ouve. Torno-me cada vez mais deslocado, por assim dizer. É o preço do aprofundamento. Todavia há o contrapeso de ser mais aberto a diferentes tipos de experiências.


Começou a tocar "In Your House". Agora me lembrei da razão de continuar a ser /mu/tant: queria continuar a me redescobrir. Ouvir álbuns e descobrir as diferentes sensações que me causam gera espantamento. Músicas são criadas para gerarem sensações. Ouvir álbuns é como passear num parque de sensações e, também, mergulhar em memórias antigas que passam como flashbacks de assuntos mal resolvidos ou que nos remetem a experiências que esquecemos. Atualmente me é mais apreciável ficar ouvindo música, ler livros e assistir filmes do que ficar vendo gente brigando na internet.


O som "Three" começa a tocar. O som inicial parece o de um filme de terror. Mais especificamente, algo que gera um suspense. Embora se construa uma balada sombria logo após isso. Sombriamente dançante, melancolicamente belo. É difícil descrever tal experiência taciturnamente bela. É como estar internado numa cama de hospital enquanto médicos e enfermeiros dançam, você não entende, meramente sorri e se diverte enquanto o seu coração para de bater.


Começa a tocar "Final Sound", de 52 segundos. Instrumental. Tom sombrio. Mas logo estou em "A Forest". Sinto que estou numa floresta, uma com um pântano. Sinto-me sozinho. Sinto o frio que o som transmite. Embora a bateria comece a bater a ponto de fazer parecer que corro sozinho. Talvez eu esteja a correr de meus próprios sentimentos. Por algum motivo, lembro-me de que baixei "The Red Room" de H. G. Wells no Project Gutenberg. É como se eu buscasse itens, sensações, livros, pessoas que eu esqueci. Ou até mesmo como se eu buscasse o que eu perdi em mim mesmo. Penso na nova identidade que estou formando após minha última empreitada literária. Não há uma forma definida. Apenas algo que eu não sei o que é. Não sei o que estou a me tornar. Não sei do que estou a escrever. Só sigo indo. Indo. Indo. Indo. Correndo de forma paranoica para um futuro que não sei exatamente o que é.


Fui almoçar. Tinha terminado a música anterior antes de sair do quarto. Agora ouço "M". Uma música com um título extremamente curto. Todavia, extremamente bem composta. Creio que ouvir álbuns é uma excelente forma de se reencontrar. Sair psicologicamente do passado requer que estejamos mergulhados em novas experiências. Mesmo que seja doloroso. Às vezes ficamos tendo um "looping de flashback". O que é horrível? Enquanto eu escrevia, fui parar na "At Night".


Quase tudo que faço tem a ver com alienação. Quero ler, pois quero me alienar. Quero ouvir álbuns, pois quero me alienar. Quero ver filmes, pois quero me alienar. Quero sair para beber, pois quero me alienar. Quero sair para ouvir música, pois quero me alienar. É como se eu quisesse criar uma barreira. Uma barreira que me protegesse do mundo e das pessoas que estão nele. Isso até eu me recuperar. Me recuperar de algo que eu não sei exatamente o que é. Me recuperar de algo que me suga há muitíssimo tempo. Algo psicologicamente indefinido e temporalmente indecifrável. Quase toda minha existência é e foi assim. De alguma forma, isso sou eu. Há um castelo mental a se erguer diante de cada experiência que eu tenho, da qual eu tive e da qual terei. Não sei a razão, apenas sei que é assim. Não queria funcionar desse modo, apenas funciono desse modo. Já tentei mudar, já tentei ser outro alguém, só que nunca obtive sucesso nessa empreitada. Quase toda minha vida literária é uma fuga do sofrimento. Sofrimento esse que é a própria vida exterior a qualquer coisa que não seja a minha mente.


Cheguei à música "Seventeen Seconds". Do mesmo modo que o álbum anterior, esse álbum também tem uma música que dá o nome do próprio álbum. Uma questão que sempre me pegou é o fato das pessoas lerem esse blog. Nunca entendi a razão das pessoas lerem esse blog. Mesmo agora a audiência internacional cresce conforme o Google facilita tudo com a tradução automática. Um ex-amigo costumava dizer que as pessoas nunca me leriam e nunca entenderiam nada do que escrevo. Agora eu sou lido sem nunca saber a razão de eu ser lido. Esse mês e o mês passado tiveram mais de dez mil acessos. Tempos atrás, cheguei a ter vinte mil.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Necrológio Cadavérico #2 — O que vem depois?

 



Se eu morresse hoje...

Creio que a busca de sentido é central em tudo. Após me isolar e me abster de amigos e namoros, peças recorrentes na minha vida, descobri que não tive amigo ou namoro algum. Eram apenas uma busca pela "coisa em si" sem o contato com a "coisa em si", tal como se eu vivesse em uma paródia trágica de detetive kantiano em que a busca pelo objeto está lado a lado com a fuga do próprio objeto. Um roteiro clichê, mas psicologicamente aterrador.

Lembro-me que enquanto eu cursava aquele um ano de faculdade de jornalismo, li um livro chamado "Kokoro/Coração" de Natsume Soseki. Ali existia um personagem fortemente misantropo. De algum modo, eu sentia já naquele período que viraria um misantropo. Hoje em dia, torno-me tão misantropo quanto o "Professor" (personagem).

Recentemente, tentei acessar minhas memórias, "virei" para meu cérebro e disse: "recorde-se de um momento memorável que você teve com alguém que você namorou". Tal como num diálogo em terceira pessoa. Sabe qual foi a resposta? Nada, absolutamente nada. Eu posso lembrar de livros que me tocaram profundamente, mas hoje não me lembro de uma pessoa sequer que tenha me tocado profundamente.

Hoje em dia, as pessoas me falam, e os meus pais me falam também, "vá casar". E eu fico pensando "casar para quê?". Múltiplas respostas me são dadas:

— Para salvar a Civilização do Fio Dental Ocidental;

— Pois eu preciso de netinhos;

— Pois ninguém pode viver só.

Eu fico pensando: ter alguém pelo qual vou ter mais conversas vazias, gozadas que não me lembrarei uma semana depois e, pior do que isso, um filho e um sacramento que me obrigam a estar do lado dessa pessoa. O fato de eu não me lembrar de nenhuma única conversa substancial em toda essa vida desregrada de vários relacionamentos é o que mais me deixa entediado.

Lembro-me de quando achava orgias algo interessante. Estive em orgias homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Hoje eu vejo que isso é completamente superestimado. No fim, a propaganda sexual moderna é visceralmente enganosa, já que você não se lembra a maior parte das gozadas que você teve.

O mais engraçado de hoje é que as pessoas acham que podem te manipular com sexo. Já eu acho o sexo tão relevante que eu SEQUER me lembro o nome da maioria das pessoas com quem fiz sexo.

É muito mais fácil eu lembrar o trecho de uma aula que vi no YouTube ou de uma ideia de livro que li há mais de dez anos atrás do que eu lembrar de qualquer experiência verdadeiramente significativa que uma mulher ou um homem tenha me dado romanticamente ou sexualmente...

De qualquer forma, é impossível não falar nisso nesse país. A cultura da gadeagem do nosso país sempre termina falando a respeito disso. O assunto pode ser a cinco vias de São Tomás de Aquino ou alguma aula sobre ciência política, tudo precisa ser substancialmente alterado para falar em algum momento sobre sexo ou namoro. A questão é: toda vez que falo sobre problemas existenciais, as pessoas me aparecem com a solução de arrumar uma namoradinha.

Eu tentei, eu juro, passei ontem e hoje tentando me lembrar de momentos extremamente simbólicos da minha vida romântica... acabei percebendo que me sentia fortemente entediado com a maioria das conversas e fazia de tudo para não prestar atenção, tanto que não lembro de nenhuma. As únicas coisas que me lembro são de pessoas soltando notas superficiais e irritantes que não me agradam em absolutamente nada e todas as vezes que tive que reduzir minha percepção sobre o mundo para que elas pudessem me acompanhar em alguma coisa.

domingo, 16 de novembro de 2025

NGL #14 — Não sou namorável


Faça suas perguntas anônimas: https://ngl.link/lunemcordis


Não sou uma pessoa namorável. Sou, na verdade, uma pessoa absolutamente detestável. Por várias razões:

1. Eu já perdi as contas de quantas vezes eu simplesmente sumi por querer passar um tempo sozinho lendo e estudando;

2. Eu já perdi as contas da quantidade de vezes que comecei a odiar a pessoa que eu namorava por ela atrapalhar meus momentos intelectuais e criativos;

3. Eu já perdi a conta da quantidade vezes que eu comecei a sentir ódio das relações em que eu estava por achá-las intelectualmente limitadores.

Sim, esse conflito sempre aparecerá mais cedo ou mais tarde. Em algum momento, eu me sentirei extremamente entediado por estar numa relação e não quererei fazer mais nada. Eu já disse isso várias vezes, mas nunca disse aqui: eu poderia viver tranquilamente sem nunca mais fazer amor, mas não poderia viver sem nunca mais estudar. Não estou falando de "fazer faculdade" ou "obter diploma", não estou falando de nada institucionalizado. Estou falando em estudar através de pesquisa livre e criação livre.

Eu não tenho nada de bom a oferecer. Já escrevi isso várias vezes. Não tenho dinheiro, não sou bom de cama, não sou engraçado, não sei andar junto, não tenho interesse em conversas extremamente banais. E pior: além de eu não ser bom de cama e não ser amoroso, não tenho quase nenhum interesse em manter relações por mais de três meses.

Fora isso, a monogamia pouco me atrai. Gosto da não monogamia por ser um indivíduo pouco empático. Não é que eu "sou super mente aberta", é por eu simplesmente ser misantropo. De qualquer modo, frequento meios liberais e, em alguns momentos, saio com casais.

Se for namorar, em um contexto monogâmico ou a longo prazo, namore com alguém que seja compatível com isso. Eu não sou.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Acabo de ler "Hegemonic Monosexuality" de Angelos Bollas (lido em inglês/Parte 1)

 


O fato da bissexualidade não ser muito estudada leva a um desentendimento acerca da sexualidade humana. Isto é, a construção social visa a priorizar monossexualidades (heterossexuais e homossexuais). Essa construção, que se dá também epistemicamente, acaba por reforçar padrões normativos – como a família nuclear, por exemplo. A vida do bissexual é uma vida de apagamento e de solidão, de marginalização e de exclusão. A maioria de nós caminha com a certeza trágica de que seremos sempre atacados, pelos mais diversos meios, sem nunca ter um local para estar. Para a ampla maioria da sociedade, o normal é ser bifóbico.


A hegemônica monossexualidade não quer dizer, em última instância, um domínio heterossexual. Ela quer dizer um amplo domínio heterossexual e algumas regiões de domínio homossexual que fazem contraponto a essa heterossexualidade majoritária. So que, quer queira, quer não, não há um espaço de legitimidade roxa (bissexual). Para piorar, a heterossexualidade cria uma forma ideológica chamada "heterossexismo". O heterossexismo – usualmente também conhecido como heteronormativo – é a ideia de que a heterossexualidade é natural e superior. Caso não seja "a única expressão natural", ao menos é tida como uma forma expressiva superior. Tal ideologia assume forma mesmo em grupos homossexuais, visto que o referencial heterossexual toma conta e vemos a "homonormatividade" (reprodução do hétero-patriarcado).


A luta bissexual vai além dos critérios heterossexuais, ela vai contra as alienações homonormativas. A forma de expressão romântica heterossexual ou homossexual não combina com a "tonalidade roxa". A ideia do referencial heterossexual ou homossexual como peça central da construção da identidade bissexual apenas demonstra uma incapacidade da comunidade bissexual de criar a sua própria forma expressiva. Ou, em outros termos, elevar-se autoexpressivamente. A chave central da problemática bissexual se dá sobretudo na sua esfera identitária e na forma em que ela se expressa. Bissexuais são convidados a demonstrarem quem são e construir o próprio caminho apesar das mazelas sociais.


A luta bissexual se deu, muito recentemente, em duas vias. Por um lado, bissexuais eram vistos como traidores ou potenciais traidores por parte de lésbicas e gays. Por outro lado, heterossexuais achavam o comportamento bissexual suspeito, visto que viam homossexuais como principais detentores de doenças sexualmente transmissíveis e os bissexuais seriam os responsáveis de levar a doença de um lado para o outro. Se o ódio e o ataque vem de ambos os lados, a luta bissexual deveria ter pauta própria e não se vincular totalmente ao restante da "comunidade dos estranhos", visto que alguns são mais estranhos do que outros.


Outro pontuamento relevante é a monogamia. Só que essa questão é bem mais complexa. Nem todo bissexual acredita ou é aderente da fórmula poliamorista. Aí adentram outras séries de questões. Bissexuais são vistos como inerentemente "traidores", mesmo quando são monogâmicos. Ou são vistos como inerentemente poliamoristas. Existem bissexuais que veem a monogamia como uma forma de expressão romântica condicionada a monossexualidade. Além disso, homossexuais aderiram em massa a monogamia para um efeito de aceitação social maior.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Desnecessário

 Pin on Pepe

 

Suas palavras são desnecessárias, dar-nos-ão apenas o contínuo ruído sonoro do término de nosso relacionamento. Eu sei que tudo foi bem até onde poderia ser. Tudo que preciso é de uma lembrança feliz, de quando éramos homem e mulher. Lembrar-me de ti nas auroras de outrora e não do fim trágico da obra que construímos juntos. O que quero, o que preciso: está dentro de minha mente, seu sorriso feliz por ter-me ao meu lado. Eu só preciso lembrar dele e guardarei uma imagem boa de ti na perenidade de minha consciência. Tudo o mais é desnecessário, todo restante é acidental e triste, um acessório horrível àquilo que chegou a representar o nosso amor. Eu não posso consertar o que está quebrado, nem posso ouvir o concerto da melodia de uma paixão perdida.

 

Eu quero lembrar de ti num perene sorrir. Não nos choros que finquei em teu rosto. Eu sinto muito, isso é egoísta e covarde de minha parte. Escrevo-lhe como uma forma de pedido de desculpa. Eu ainda quero lembrar da maciez de seus lábios femininos, do carinho materno que nutria por mim, da tolice ingênua de meu agir de menino, de seus problemas de mulher, de seus trejeitos de menina. Meus erros rasgaram teu sorriso, meu pecado fincou-se em tua alma, meu amor extraviou-se pelo caminho e decepcionou-lhe fortemente. O que penso é só o que preciso: a tua imagem antes do ódio que lhe dei com a marca de meus erros, seu rosto risonho e tenro antes do esgar de ódio que pincelei em tua face. Não tenho tempo para gastar em meus antigos erros de um amor perdido. Não posso voltar onde não há volta. Não posso romper a barreira criada por um laço rompido. Foi melhor pra você assim, foi melhor pra mim assim.

 

Arrependo-me tão somente do paraíso perdido, sabendo que não haverá mais volta. Caminho com a fé de um dia amar de novo. Suas palavras rancorosas chegam até a mim, só que o ódio que tens por mim não chega a mim e se transforma em ódio a ti. Isso não aconteceria nem em um breve lapso temporal, isso não aconteceria nem em um milhão de anos. Se eu tivesse que odiar alguém pelo que rolou conosco, odiaria a mim mesmo - eu sei, fui eu que dei mancada, fui eu que errei, só que estava tentando te proteger.  A minha imagem obscura logo obscureceria a tua imagem de luz. Você diz lutar para não me odiar, eu luto para não lembrar que fui amado. Eu luto para não lembrar de cada erro que cometi. Eu luto pra não lembrar que te fiz chorar. Eu luto para não lembrar que não há mais volta e que há sempre uma possibilidade para encontrar um novo amor e sentir o que um dia senti por ti.


Espero que o tempo remova a tua raiva por mim. Eu não voltarei a ti, tu não tornarás a mim. Se puderes lembrar com um carinho pelo bom tempo, sentir-me-ia mais feliz. Só que tudo bem achar que fui um merda. Tudo bem achar que minha ação foi infeliz. Tudo bem se achar que sentir seu ódio por mim lhe torna melhor e mais forte. Aceito até seu ódio por mim se isso lhe faz bem. Se te fizer melhor, pense em todos os erros que cometi repetidamente. Só que não espere o mesmo de mim. Espero que o tempo cure seu ódio, espero que encontre alguém que a ame, espero que seja feliz. No fundo, amar é desejar o bem. Desejo-lhe sempre o bem e espero que um dia deseje o mesmo para mim.