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terça-feira, 9 de junho de 2026

Acabo de ler "How the Right Lost Its Mind" de Charles J. Sykes (lido em inglês)


Nome:

How The Right Lost Its Mind


Autor:

Charles J. Sykes


Trabalhar com a ideia de antes e depois, sobretudo quando se escreve sobre o movimento intelectual, político e acadêmico que se ajudou a formar e de desacordo expressões são engolidas por emoções que devoram nossos corações. Falar sobre conservadorismo em nosso tempo é difícil. Muitos de nós sequer querem tentar explicar, isolam-se até para não lembrar. Primeiro vem a covardia, perante o que vemos. Depois, vem a vergonha perante os atos que cometem em nossa frente. No fim, vem o medo de que nossos antigos aliados tenham se tornado monstros.


Por vezes, me veem a cabeça a seguinte frase, a qual escrevo com um quê de luto: "eu não quero ser lembrado como parte de um movimento de imbecis". Sim, exatamente. Quando eu vejo gente toda, proferindo os maiores impropérios racistas, misóginos, antissemitas e LGBTfóbicos, tentando demonstrar uma radicalidade exuberante, que soa extremamente kitsch, não sei exatamente o que sinto. Há um misto de nojo, de constrangimento. E as perguntas vão surgindo e revirando-se em minha cabeça. Pergunto-me se sou realmente parte disso. Questiono-me se realmente quero que isso continue. Todavia, essas nem são as piores inquietações e inquietudes que surgem. O pior de tudo é quando vem aquela pergunta, extremamente específica e densamente incriminatória, que sinto até mesmo medo de escrever. A pergunta é: "Eu ajudei a criar isso?"


O livro me toca na mesma medida em que estive dentro da onda politicamente incorreta no Brasil. Como os leitores do Blogspot já estiveram por dentro disso múltiplas vezes, não vale a pena comentar novamente. Sugiro que os leitores busquem análises mais antigas. A natureza desse blogspot requer sempre uma espécie de eterno retorno. Muitos leitores não fazem isso, leem alguma coisa ou outra, tiram as suas conclusões e vão embora. Comecei nessa vida lendo ao acaso um livro de Pondé, creio que era "Contra um mundo melhor". Depois disso, vieram outros livros. Li e conheci bastante de Nelson Rodrigues.  Luiz Felipe Pondé é o motivo de eu ter cursado filosofia. Nelson Rodrigues é a razão de eu gostar tanto de teatro. O conservadorismo não marca tão somente algo em especial na minha mente, também marca algo em especial no meu coração.


Vamos voltar ao passado. O que os conservadores americanos estavam tentando fazer antes da revolução reaganiana? Eles queriam criar algo. Algo novo. Queriam criar uma direita de ideias, uma direita de sonhos, uma direita de esperanças. Uma direita que poderia se fazer entender perante a sociedade. Naquele tempo, o movimento intelectual dominante era o movimento liberal. Todo mundo que se formava queria ser liberal, visto que o liberalismo era a única tradição intelectual que podia ser vista, já que era majoritária nos campos acadêmicos, jornalísticos e institucionais. Ou seja, o empreendimento daqueles conservadores era o de criar uma direita elegante, intelectualizada, acadêmica e com soluções pensadas a partir de dados. Veio, em primeiro lugar, a revolução de Russell Kirk. Foi ele o primeiro a dar a robustez intelectual de que o conservadorismo precisava em seu "The Conservative Mind". Depois disso, viria um movimento com William F. Buckley Jr.


Conforme essa direita nascia, as pessoas iam pensando que estávamos finalmente de igual para igual com os progressistas. Minha geração cresceu após o surgimento dessa direita. A gente cresceu negando que o conservadorismo era um punhado de ignorante, de racistas, de radicais, de misóginos, de conspiracionistas, de tolos. Embora nunca se possa dizer que a direita brasileira teve alguma institucionalidade, podemos dizer que a direita americana assim o era. Queríamos ser que nem essa direita, tentamos estudar e provar que poderíamos ser bem articulados e bem pensantes. No fim, queríamos provar sobretudo que não éramos monstros. Queríamos provar que não éramos vilões, que apenas acreditávamos em pontos de vista distintos. No final, queríamos achar respostas para os anseios sociais tanto quanto os progressistas procuravam respostas para as necessidades da sociedade. Só que acreditávamos em diferentes caminhos.


A nova direita que vem surgindo existe para provar que todos os nossos esforços foram em vão. Se tentamos duramente provar que não odiamos mulheres, eles vão e provam que odiamos. Se tentamos provar que nossa visão de mundo não é racista, eles fazem campeonato para serem o grupo mais radicalmente racista do mundo. Se tentamos provar que nossa visão de mundo comporta pessoas de todas as sexualidades possíveis, eles declaram que é impossível ter a nossa visão e ser LGBT. Se certos grupos são retirados do movimento, é evidente que eles devem ir obrigatoriamente para outro. 


Hoje vemos até mulheres de direita sendo perseguidas pela legião de misóginos desmiolados que ajudamos a criar ou que profundamente ignoramos em sua gestação. Estamos nessa há anos: fingimos que esses grupos não existem. O motivo é muito simples: não queremos que nos acusem de não sermos de direita. Dia após dia, vemos uma legião de racistas se estabelecer na internet, como uma seita furiosa e numericamente numerosa. Mesmo que nosso país seja, por natureza, miscigenado, ignoramos esse problema. Quando começaram a atacar pessoas trans, muitos de nós acreditávamos que essas partes do movimento terminariam por aí. Tão logo estavam acusando todos os adversários e inimigos de serem homossexuais, na velha homofobia recreativa. Tão logo estavam praticando a bifobia. Se tudo começou querendo separar a sigla "T" do "LGB", logo separavam a sigla "B" e logo atacavam a sigla "L" e a sigla "G".


O mundo mudou muito. Não analisamos o cenário corretamente. Não reformamos nossas crenças à luz dos mais presentes acontecimentos. Precisamos notar que a globalização da tecnologia e da informação também é a globalização das teorias da conspiração, da desinformação, da guerra psicológica, da guerra informacional, da xenofobia, do racismo, da misoginia, da LGBTfobia. Além desses fatores, esquecemos que a descentralização dos meios de expressão por causa da internet também é a possibilidade de pessoas espalharem o seu ódio com mais eficiência e com mais impacto. Esse esquecimento foi crucial para a ascensão das piores correntes da direita política.


Isso tudo nos levará ao argumento de David Frum, outro conservador Never Trump:

"Talvez você não se importe muito com o futuro do Partido Republicano. Deveria. Os conservadores sempre estarão entre nós. Se os conservadores se convencerem de que não podem vencer democraticamente, não abandonarão o conservadorismo. Rejeitarão a democracia"

(David Frum, Trumpocracy: The Corruption of the American Republic)


Charles J. Sykes apresenta um diagnóstico de uma direita que trocou princípios intelectuais, prudência burkeana, factualidade e defesa da liberdade individual por tribalismo, entretenimento, ressentimento e uma realidade alternativa moldada por mídia de nicho. Como vimos em análises anteriores, recomendo ao leitor ou à leitora voltar às análises de David Frum, Rick Wilson, Stuart Stevens e Christopher Buckley. A direita pré-Trump era literária e institucional. Símbolos como William F. Buckley, National Review, Heritage Foundation ecoam em nossas mentes. Essas pessoas precisavam argumentar com dados e filosofia contra o establishment liberal dominante na academia e na mídia mainstream. A direita pós-literária se forma por memes, vídeos curtos, podcasts raivosos, personalidades do YouTube e Twitter, não por livros ou papers.


Como apresentado no parágrafo anterior, uma das noções centrais do livro, que é largamente comentada pelo autor, é a ideia de uma direita pós-literária. Isto é, não uma direita pautada em livros, mas sim uma direita que utiliza outros referenciais. Essa questão, a pós-textualidade, vem sendo marcante para muitas pessoas. Vários intelectuais, sejam esses de esquerda, centro ou direita, vêm tratando dessa questão. Muitos são os campos afetados por essa pós-literariedade, não só na direita, mas também na esquerda. De um modo geral, a pós-litariedade é uma condição que afeta múltiplos países. Aumentar os índices de leitura vem se tornando um drama de muitos países. 


As celebridades do antigo conservadorismo, que é de onde vem o núcleo duro dos Never Trumpers, são pessoas que leem muito e pertencem a uma camada que precisa apresentar defesas inteligentes do conservadorismo. O autor vem de uma época em que foi necessário construir um conservadorismo fortemente intelectualizado. Essa versão do conservadorismo americano começou a tomar força quando os conservadores criaram uma "arquitetura institucional". Exemplos notáveis disso são  "The Heritage Foundation", "The Badley Foundation" e "The American Enterprise Institute". Essa direita, muito diferente da direita trumpista, era uma direita fortemente institucionalizada, intelectualizada e academicizada. Era uma direita feita por responsáveis pelo debate público. Essa direita foi, diga-se de passagem, substituída. A razão? A internet retirou os freios que a mídia liberal colocava. 


O autor, em especial, criticará certos aspectos da Heritage Foundation. Ele afirmará que o braço militante da Heritage Foundation, a Heritage Action, atua em desconformidade com a tradição intelectual respeitável dessa instituição. Essa metamorfose gera um problema central: uma direita que deixa de ser aquela que defende uma primazia da liberdade individual e da consciência pessoal, mas passa a ser uma modeladora comportamental para seguir linhas de fidelidade mais radicais, o que leva a um fechamento epistêmico. Aliás, esse fechamento epistêmico se torna uma das principais condições da direita brasileira atual.


Vou analisar brevemente os consensos conservadores principais. 


- Consensos conservadores:

Existiram vários "consensos" conservadores. O autor se focou em dois até o momento:

- Pré-Reaganiano/Old Right (Velha Direita): existiam elementos anticapitalistas ou que eram opostos ao capitalismo em alguns aspectos. Setores mais tradicionalistas suspeitavam das dinâmicas capitalistas e acreditavam que eles eram uma ameaça. Exemplo disso é o Russell Kirk, ele via perigos na dinâmica capitalista para a ordem moral e comunitária;

- Reaganiano/New Right (Nova Direita): tenta uma síntese entre libertarianismo, conservadorismo e anticomunismo. Essa é a direita que surgiu com a revolução reaganiana. Foi uma direita bem-sucedida, uma direita de ideias que venceu a Guerra Fria e reconfigurou o debate.

Pós-consenso:

- Reformicon/Never Trump X MAGA, direita woke e populistas: atualmente, vemos a luta entre dois grupos, um bem menor, vindo de uma direita razoavelmente letrada e acadêmica, outro que vem majoritariamente. Traduzindo isso melhor, darei pequenas explicações de cada grupo. Os reformicons são mais intelectuais, preocupados com a classe trabalhadora, família e são contra o libertarianismo cru. Os Never Trumpers seriam defensores de normas institucionais e caráter. Já o MAGA é um movimento nacionalista e populista, de base usualmente trumpista, que é anti-establishment. Adiciono que estamos vendo rachaduras na direita MAGA.


Tive que pesquisar sobre o Tea Party para locupletar a minha visão a respeito do livro. Como ele é um movimento pré-MAGA e por muitas vezes considerado um prelúdio ou um capítulo prévio ao chamado nacional-conservadorismo e conservadorismo-populista, tive que estudar um pouco. Mesmo que meu estudo não seja, até o momento, satisfatório. O Tea Party (2009-2012) foi uma revolta fiscal e anti-Obama, com forte componente de protesto, financiado por bilionários e amplificado pela mídia conservadora (como a Fox). Era um movimento majoritariamente branco, de classe média e alta, preocupado com a dívida americana, com o governo grande e o "socialismo". Embora eu deva admitir que esse último item era enquadrado de uma forma meio estranha. Muitos analistas veem o Tea Party como ponte para o trumpismo: a mesma retórica anti-elite, a mesma desconfiança nas instituições, a mesma energia populista. Mas o Tea Party ainda tinha um verniz de constitucionalismo e conservadorismo fiscal. Trump acrescentou outros fatores. Tais como o personalismo, o protecionismo econômico, a imigração como eixo cultural e o desprezo aberto pelas normas. A base de apoiadores do Tea Party seria uma das mais leais a Trump.


Para dar uma contribuição melhor a interpretação do livro, vou adicionar outra camada. Uma situação histórica da direita é bem interessante. 


— Situação histórica da direita:

Olhando mais a fundo. Tenho que realizar paralelos históricos. Em primeiro lugar, preciso estabelecer que o conservadorismo não existe. O que existem são múltiplas escolas conservadoras. Porém, gostaria de diferenciar a linha conservadora que virá de Richard Hooker e a linha conservadora que se montará com John Locke.


Hooker trabalhará, em Of the Laws of Ecclesiastical Polity, com uma ideia orgânica da sociedade, com noções de teleologia, com a lei natural clássica e uma proximidade com o tomismo cristão. O central, em Hooker, é que a comunidade política não nasce de uma simples soma de indivíduos autônomos, mas sim de uma ordem moral que precede às escolhas individuais.


Locke, por sua vez, trabalhará com a ideia de que o indivíduo precede politicamente a comunidade, de que os direitos naturais têm centralidade, de que o primeiro plano é a propriedade e o consentimento, em que a sociedade política é vista mais como um contrato do que como uma continuidade histórica de um organismo.


A tradição Tory/conservadora canadense, na época de George Grant, era uma comunidade hookeriana. Ou seja, era pautada na deferência, no bem comum, na continuidade histórica, na autoridade legítima e na limitação ao economicismo liberal. A tradição conservadora americana tem como base o liberalismo lockeano, logo, é pautada na liberdade negativa, no individualismo, no mercado, nos direitos subjetivos e na tecnocracia expansionista. Nos Estados Unidos, liberalismo e conservadorismo compartilham a mesma metafísica básica. O que o conservador dos Estados Unidos quer conservar é uma versão mais tradicional do liberalismo.


É evidente que o conservadorismo dos Estados Unidos não seria inteiramente marcado por uma visão lockeana. Coube a Christopher Lasch ter uma visão mais aproximada de George Grant. Christopher Lasch perceberá que mesmo os conflitos de "direita" e "esquerda" partem de disputas internas do liberalismo. Ou seja, partem dum horizonte liberal comum. Lasch chegará à conclusão de que todos os cidadãos dos Estados Unidos são liberais de uma forma ou de outra. Visto que a discussão apontará para o primado do indivíduo, a suspeita diante de autoridades tradicionais, a centralidade dos direitos, o igualitarismo moral básico e a ideia de progresso. A crítica de Christopher Lasch faz sentido. O conservador dos Estados Unidos é um liberal clássico: liberal economicamente, constitucionalista, individualista, pró-mercado e defensor das liberdades negativas. Ou, mais precisamente, é um liberal clássico com sensibilidades culturais mais tradicionais. O que o conservador de lá está conservando é a Revolução Americana em sua filosofia lockeana, não uma ordem pré-liberal.


Se olharmos a argumentação do Red Tory inglês, o Phillip Blond, veremos que ele argumentará que o neoliberalismo econômico e progressismo cultural não são opostos reais, visto que ambos derivam do mesmo individualismo liberal. Além disso, ele notará que o mercado dissolve vínculos comunitários tanto quanto o Estado burocrático. Os dois, quando ligados, levarão à atomização social e produzirão simultaneamente consumismo e dependência estatal. Para Blond, diga-se de passagem, a direita liberal destrói comunidades via mercado e a esquerda liberal administra os destroços via burocracia estatal. A razão? Ambos compartilham a mesma antropologia individualista.


— Retornando a questão presente:


Muitos conservadores de verve mais intelectualizada e pessimista preferem deixar a direita que está aí se autodestruir. A tese isolacionista parece ser interessante. Se a direita moderna se resume a uma tribo inculta, cheia dos elementos mais nefastos, por qual razão não simplesmente esquecê-la e viver a própria vida? Isto é, deixar tudo para lá? De qualquer modo, eles vão defender que mulheres não devem ter o direito ao voto e perder o voto feminino. De qualquer modo, eles vão ser racistas e perder os votos das outras etnias. De qualquer modo, eles vão ser LGbTfóbicos e perder os votos LGBTs. Essa tese, até o presente momento, me parece a mais agradável. É uma das coisas que mais tenho feito. Para que fazer algo contra uma entidade política que vai se autoexplodir? 


Um dos principais tópicos do livro é a capacidade moderna de gerar um network de mídia alternativa que serve para gerar uma percepção alternativa da realidade. Essas mídias, mescladas às redes sociais, geram efeitos sociais não antes imaginados. Preciso ir além: precisamos urgentemente realizar um estudo sério a respeito da correlação entre mídias alternativas, vieses de confirmação, redes sociais, radicalização e psicose. Com base nisso, precisamos gerar uma regulamentação compreensiva. Isso seria estranho para outros conservadores, mas as reflexões dos Never Trumpers apontam para esse caminho.


Enquanto a nova direita não explode a si mesma por meio de suas pautas cada vez mais tresloucadas e pedidos de lealdade cada vez mais restritos, eu fico por aqui apenas lendo o que me agrada, sem fazer absolutamente nada. A ordem do dia mudou. Antes era: "salvar a direita da sua própria burrice". Agora é: "deixar a direita se afogar em sua própria burrice". Não estarei surpreso se, no Brasil, Lula ganhar o seu quarto mandato. Tampouco ficarei feliz se Flávio Bolsonaro ganhar o seu primeiro. No primeiro caso, já é uma tendência. No segundo caso, não fazemos parte da mesma linha de pensamento. O fato é: enquanto essa direita não se autodestrói, ela vai pouco a pouco destruindo instituições, espalhando desinformação, perseguindo minorias e corroendo as bases da democracia representativa. De qualquer modo, essa talvez não seja a solução. De qualquer maneira, preciso continuar a escrever sobre o universo referencial que venho olhado e acrescentar mais pontos que o autor não mencionou. Preciso escrever sobre a presente crise da democracia horizontal representativa (presente nos Estados Unidos e no Brasil) e a possibilidade de uma democracia vertical representativa.


Recentemente conversei muito com um amigo judeu. Falei sobre o antissemitismo crescente. Isso gerou uma reflexão histórica sobre a atuação de William F. Buckley Jr. Quando tendencias conspiracionistas cresciam, Buckley as expulsava. Buckley foi mais amorfo em relação ao racismo, isso foi um erro grave e deslocou negros para setores da esquerda. Atualmente, cresce no Brasil uma direita racista, misógina, antissemita e LGBTfóbica, essa direita é composta de duas frentes. Uma parte tenta ganhar simpatia de setores extremistas e do reacionarismo popular por puro oportunismo. Outra parte realmente acredita nas baboseiras que propaga. Uma retroalimenta a outra até que a outra se torna gradualmente majoritária. Ninguém acha nada errado nisso, visto que vê isso como uma base estratégica de crescimento eleitoral. De qualquer forma, o sonho populista se torna em projeto de poder e o reacionismo popular começa a cometer seus erros de sempre, o que leva a erosão de instituições democráticas e fomentação de políticas públicas não baseadas em dados... mas em teorias conspiratórias. Já tivemos uma dose bem alta disso no período da COVID-19.


A questão central que vai se desenvolvendo na lore de nossas instituições é a incapacidade cada vez mais crescente de conciliar políticas populistas e reacionárias insustentáveis com a permanência da democracia como regime possível. Dentro dessa condição, mecanismos meritocráticos e tecnocráticos são apresentados como solução política. Esses mesmos mecanismos não levam a uma melhora geral do quadro democrático, eles salopam a base democrática. Fala-se, em alguns setores acadêmicos, de democracia vertical e/ou democracia técnica. Nesse regime, só os melhores vereadores viram deputados estaduais, só os melhores deputados estaduais viram deputados federais e só os melhores deputados federais viram senadores. O mesmo se segue com o poder executivo: os melhores prefeitos viram governadores e os melhores governadores viram presidentes. Essa é uma solução que é encontrada diante da crise democrática. Isso seria uma forma de barrar a extrema-direita populista que cresce dia após dia.


A questão democrática, ou melhor, a questão da democracia representativa é uma constante em nossa época. A descentralização dos meios de expressão ocorreu graças a expansão da internet. Por meio dela, múltiplas visões se tornaram possíveis. Além disso, a rápida tradução de diversas ideias ao redor do mundo possibilitou uma expansão ainda maior de diferentes componentes ideológicos. Em meio a isso, a voz da população foi se tornando um fato político cada vez mais presente. Acontece que a celeridade dos eventos e a expressividade de teorias ou ideias deformadas se tornaram cada vez mais constantes. A expansão da voz populacional não foi só uma expansão de teorias cada vez mais rigorosas tecnicamente, mas também de teorias cada vez mais radicais e epistemologicamente frágeis. É em virtude disso que o mundo começa a parar de olhar tão somente para os Estados Unidos da América e começa a olhar para o sistema político chinês. Nele existe um componente mais tecnocrático em que critérios são apresentados para o crescimento político, fazendo com que só os políticos que mais cumpram as metas sejam capazes de ascender. No Brasil, vivemos em uma democracia horizontal, isto é, qualquer um pode se eleger a qualquer cargo executivo ou legislativo se cumprir critérios mínimos. Não se avalia a razoabilidade das suas ideias dos candidatos e nem se eles foram louváveis em cargos anteriores. Isso gera, de dois em dois anos, a eleição de pessoas que são intelectualmente e tecnicamente incapazes.


Quanto a possibilidade de uma república com um sistema de democracia vertical representativa, isso necessitaria provavelmente de uma nova constituição. Essa questão também levanta outra, a questão de quem define os melhores. Enquanto nenhuma solução é pensada para o sistema em si, a direita populista está pronta para substituir o princípio de realidade pelo princípio de lealdade tribal para cada acontecimento do dia. Nessa condição excepcional, quem ganha nunca é quem apresenta o maior estudo comparado de políticas públicas ou o maior conhecimento técnico sobre o papel que pretende desempenhar, mas sim que apresenta a narrativa mais cativante e a que mais prende, pouco importando se ela tenha alguma coisa a ver com a realidade que se apresenta como resposta.


Atualmente penso numa estrutura de uma democracia representativa diagonalista. Ou seja, um regime híbrido entre a democracia horizontal e democracia vertical.  Penso numa mescla entre o sistema brasileiro atual e um sistema chinês. Isto é, uma mescla entre democracia representativa horizontal e democracia representativa vertical. A estrutura seria mais ou menos essa:

1- Votação direta, cargo inicial de vereador;

2- Melhores vereadores podem se candidatar a deputados estaduais;

3- Melhores deputados estaduais podem se candidatar a deputados federais;

4- Melhores deputados federais podem se candidatar a senadores.

O mesmo se seguiria para cargos executivos:

1- Melhores prefeitos podem se candidatar a governadores;

2- Melhores governadores podem se candidatar a presidente.


Essa não é, evidentemente, a conclusão do autor, mas creio que o diagonalismo é a única forma de impedir o avanço das hordas populistas.

Acabo de ler "William F. Buckley Jr." de Lee Edwards (lido em inglês)

 


Nome:

William F. Buckley Jr.: the maker of a movement


Autor:

Lee Edwards


Estive muito tempo ocupado. Viagens e cursos ocuparam grande parte do meu tempo. Além disso, tive que treinar alguns tópicos que eram do meu interesse. Não pude, por infelicidade, me dedicar profundamente à leitura e à escrita. Todavia, garanto que retornarei ao meu vigor de outrora.


Lee Edwards é um homem fantástico. Estava procurando um bom historiador do movimento conservador dos Estados Unidos e me deparei com esse homem. A propósito, ele foi membro da Heritage Foundation. Uma instituição de que os leitores do blogspot já ouviram falar em diversas análises anteriores.


A razão de eu ter lido esse livro não poderia ter sido outra: ao ler bastante sobre os Never Trumpers, tive que me aprofundar em um estudo da história do movimento conservador nos Estados Unidos. Esse livro, para mim, serve como complemento para o entendimento das diversas configurações históricas do conservadorismo.


Buckley foi o pai do conservadorismo moderno, na sua configuração fusionista, isto é, em sua mistura de conservadorismo tradicionalista, libertarianismo e anticomunismo. Essa mistura criaria algo novo e que impulsionaria Ronald Reagan. William também seria pai do Intercollegiate Studies Institute e da revista National Review. Ler a sua biografia é compreender muito dos movimentos políticos que se formariam após ele.


Poderia escrever mais coisas, mas ainda estou me recuperando. Todavia, fica a recomendação desse autor e dessa obra.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Memória Cadavérica #45 — A Insustentabilidade Bolsonarista

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise breve a respeito do bolsonarismo e do PL.


O bolsonarismo tem um problema crônico na formação de quadros e é insustentável a longo prazo!


Não estou dizendo para você concordar ou discordar do bolsonarismo, eu particularmente discordo, mas falo de um ponto de vista técnico. Ou seja, não vamos analisar aqui se concordamos ou discordamos intelectualmente.


Um dos pontos centrais dos partidos históricos é a formação contínua de novos quadros. Isso ocorre por meio de estudos, por formação de institutos, por geração de militantes intelectualmente capacitados, por geração de intelectuais orgânicos. Um exemplo disso é o Partido Republicano antes da ascensão de Reagan: gerou vários institutos, revistas e grupos de estudo. Um dos maiores institutos gerados foi a Heritage Foundation, a maior organização conservadora do mundo, e a revista National Review, uma das revistas mais importantes do conservadorismo enquanto movimento intelectual.


Se olharmos para os movimentos atuais, o PT sempre gerou novos intelectuais e novos quadros. O PSOL segue o mesmo caminho. Até partidos pequenos, como UP (Unidade Popular), fazem isso. O único partido de direita conhecido por realizar formações é a Missão, partido associado ao MBL. Em outras palavras, em questão de garantia de sobrevivência e perpetuação intelectual, o bolsonarismo parece não querer levar a si mesmo a sério.


A nova direita dos Estados Unidos cresce com base em novos institutos, como a American Compass. Além de faculdades e instituições como a Hillsdale College e a Universidade de Austin, no Texas. A formação de novos quadros, visando alta qualidade intelectual, é uma constante. Uma das maiores preocupações é fornecer artes liberais clássicas e trazer um pensamento conservador estruturado, dinâmico e preparado para novas estruturas espaço-temporais. Prova disso é a American Compass com a nova doutrina econômica do conservadorismo, algo que chamou a atenção até mesmo de ciclos progressistas. Instituições tradicionais como o Intercollegiate Studies Institute continuem fornecendo trabalhos excelentes.


O bolsonarismo, junto ao PL, parece conviver bem com a crença de que pode pegar os seus quadros diretamente da base do MBL ou simplesmente esperar que sejam formados pela Brasil Paralelo, pelo Instituto Hugo de São Vitor, pelo Centro Dom Bosco, ou qualquer outro lugar de atividade intelectual de direita, sem nenhum comprometimento sério em criar uma linha de pensamento própria, uma doutrina original ou institutos de pesquisa que definam a sua visão de conservadorismo. Sequer se preocupam em realizar parcerias com institutos e faculdades conservadoras nos Estados Unidos, que possuem maior know-how, para formar seus quadros.


A impressão que fica é que o PL e o bolsonarismo de uma maneira geral são apenas projetos passageiros que se desenham na areia do vento. Mesmo que o PL e o bolsonarismo adorem se definir como "a única direita real do país".

sábado, 28 de março de 2026

Memória Cadavérica #43 — Feira Moderna



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.

Contexto: só quis guardar a interpretação que fiz de uma música.

Sou suspeito para falar dessa música. Gosto mais da versão da Evinha. Acho Beto Guedes um gênio, mas seriamente prefiro a versão da Evinha. A poeticidade duas únicas frases alteram tudo. Tenho uma interpretação bastante pessoal dela. De modo que a experiência psicológica e aquilo que quero expressar epistemologicamente se confundem.


Lembro-me das noções de hegemonia de Gramsci, das noções de performática de Judith Butler, das noções de "meios de produção cultural" de Raymond Williams. Fora isso, lembro-me da palestra da Heritage Foundation sobre "cold civil war" (guerra fria civil). Durante anos de guerra fria civil, guerra cultural e todas as distinções que vêm surgindo, pude encarar essa música várias vezes nos mais diversos ângulos, seja mais à esquerda ou mais à direita. A ideia de "Catedral" do Mencius Moldbug também dialoga com a ideia dos meios de produção cultural e do domínio da cultura. Quanto ao mundo, vale a regra de Tears for Fears: "Everybody Wants to Rule the World".


"Tua cor é o que eles olham

Velha  chaga

Teu  sorriso é o que eles temem

Medo, medo"


A música começa falando sobre o racismo. O racismo não é tratado como um ferida cicatrizada, mas como algo que ainda existe dentro do corpo social. Depois disso, existe a noção de que o sorriso da pessoa marginalizada traz suspeita social. Ou seja, não só o marginalizado ainda sofre, como a sua felicidade também é objeto de escrutínio social negativo.


O medo não é só da sociedade, que aparece com seus tabus. Existe também um medo interno, um medo internalizado que falsifica a sua expressividade enquanto ser e que gera nele uma incapacidade. Ou, de outro modo, gera um desenvolvimento de gradação. Naquilo que é tolhido, ele expressa menos ou falsifica a própria experiência.


"Feira moderna

O convite sensual

Oh, telefonista

Se a palavra já morreu

O meu coração é velho

O meu coração é morto

E eu nem li o jornal

E eu nem li o jornal"


Repare que, na versão de Beto Guedes, existe o fato de que o cantor diz "O meu coração é novo! O meu coração é novo". Na versão de Evinha, vemos um "O meu coração é velho! O meu coração é morto!". Essa alteração gera uma melancolia profunda, mas o seu resultado lírico é extremamente belo. Isso não é pura estética, é alteração do regime emocional da música. Existe a troca da "estrutura de esperança", vista em Beto Guedes, para a "estrutura de esgotamento", isso gera uma alteração substancial na psicologia da música.


A "feira moderna" é o "tribunal social", isto é, aquela noção de que somos julgados pela sociedade. A feira também é o espetáculo, a exposição, o consumo e a troca dentro de um mercado de identidades. É um espaço onde as pessoas são vistas, avaliadas e consumidas simbolicamente. A ideia de constante julgamento social leva o indivíduo a decair na idolatria social, isto é, substituir a totalidade pelo endeusamento dos julgos e mandamentos do corpo social. Todavia esse julgamento aqui não é algo complexo, mas superficial. Aqui, a autencidade e sinceridade são substituídas pela aceitação das regras socialmente estabelecidas, mesmo que essas não venham a ser normas jurídicas propriamente ditas.


Quando a pessoa liga para se comunicar, ela sente que a palavra já morreu. Não é um sentido literal de que a pessoa está sem palavras, mas que por sua invalidação social é incapaz de se comunicar adequadamente. Mesmo em um período de alta comunicação, permanecemos incomunicáveis perante o julgo do corpo social. A tecnologia avança, mas a possibilidade de falar ainda é reservada a poucos. Quando existem normas sociais, essas normas tornam-se condições que aprioristicamente determinam o que pode ser discursado ou não, o que pode ser expresso ou não, a isso chamamos de normatividade.


Dessa experiência auto-anulatória, surgirá a impressão de que se está morto. Viver é expressão, impossibilidade de expressar-se é interpretado psicologicamente como uma forma de morte. Ler o jornal seria ler os meios de comunicação social, mas os meios de comunicação social são determinados pelo discurso hegemônico. Isso dialogará simultaneamente com a alienação (Karl Marx), reconhecimento (Hegel) e performatividade (Butler).


"Nessa caverna

O convite é igual

Oh telefonista

Se a distância já morreu

Independência ou morte!

Descansa em berço forte

A paz na Terra, amém

A paz na Terra

Independência ou morte

Descansa em berço forte

A paz na Terra, amém

A paz na Terra, amén

Amén"


O trecho "nessa caverna" é interessantíssimo. Lembra-me o "Mito da Caverna". O corpo social é um local de ilusão, tal como existe uma distinção entre o "mundo das ideias" com seus arquétipos perfeitos e o "mundo real" com suas cópias imperfeitas, existe uma distinção entre as idealizações dos múltiplos indivíduos do corpo social e o mundo real onde quase ninguém se adequa perfeitamente a norma social. A idealização de um, sobretudo a idealização mais socialmente aceita, levará a falsificação do outro, levando a uma expressão menor do seu ser. A caverna pode ser interpretada também não como uma ilusão metafísica, mas como um ambiente social fechado de reprodução de normas. Tal noção aproximar-se-á da noção de "hegemonia" (Gramsci) e de normatividade (Butler).


O "convite" é sempre igual: a adequação à norma social. Mudam-se as normas, já que existe uma condição espaço-temporal, mas permance o imperativo da normatividade. Perante o imperativo da normatividade, a distância já morreu: a norma social é imposta, mesmo que não seja uma norma jurídica. Em outras palavras, existe uma redução jurídica e uma redução sociológica, imposta pelos próprios ritos do corpo social.


"Independência ou morte" e "paz na Terra", por sua vez, pode ser interpretada de várias formas (além de uma dessas ser referência a frase de Dom Pedro I):

1- Como adequação ao império da normatividade;

2- Como piada a esse aspecto;

3- Como desejo de morrer apenas para ser livre para não se adaptar;

4- A vontade de ser independe e livre.


A música "Feira Moderna" possibilita uma experiência subjetiva dentro do campo da disputa cultural. Isto é, podemos ver a hegemonia de Gramsci, a performatividade de Judith Butler, os meios de produção cultural de Raymond Williams, a guerra fria civil da Heritage Foundation, a Catedral de Mencius Moldbug... podemos ver, resumidamente, a vontade universal do poder cultural. Essa música representa, para mim, a experiência de um sujeito cuja subjetividade é progressivamente anulada por normas sociais internalizadas, levando à incomunicabilidade, à perda de vitalidade e a sensação de morte simbólica. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Acabo de ler "Dawn's Early Light" de Kevin D. Roberts (lido em inglês)

 


Nome:

Dawn's Early Light: Tacking Back Washington to Save America


Autor:

Kevin D. Roberts


Analisar escritos do conservadorismo americano tem sido um dos capítulos mais apreciáveis intelectualmente de toda a minha vida. Isto pelo fato de que temos, no Brasil, um fechamento intelectual gigantesco. As escolas predominantes, em esfera nacional ou até mesmo em toda a América Latina, são majoritariamente de esquerda ou de centro. Usualmente não sabemos o que a direita americana pensa e temos uma visão deturpada acerca do seu pensamento. A escola conservadora americana é tão intensa e interessante quanto uma escola de pensamento deve ser. Ela possui muitas variações, características e contrastes. Algo infinitamente mais complexo do que é geralmente apresentado.


Creio que os leitores conhecem Kevin D. Roberts, mas se não o conhecem, apresentar-lhes-ei o contexto. Kevin D. Roberts é um homem que apareceu envolto numa polêmica bem recente. Essa polêmica é o "Project 2025" – muito comentado midiaticamente, mas quase todas as fontes desse debate midiático são de esquerda e possuem um caráter muito mais unilateral do que multilateral. Muitas pessoas aguardam uma análise minha sobre o "Project 2025". E de fato, o "Project 2025" é uma obra que pretendo um dia analisar, todavia estou me preparando em uma jornada para "chegar até lá". Voltando mais propriamente a apresentação, Kevin D. Roberts é o presidente da Heritage Foundation. Um homem cuja a posição já leva a um aguçamento da curiosidade, visto que a Heritage Foundation é uma das maiores organizações políticas do mundo. Sobretudo uma organização conservadora de extrema relevância ao debate intelectual.


Vale um pequeno adendo: JD Vance, atual vicepresidente dos Estados Unidos da América, escreveu um pequeno trecho do livro. O que demonstra a importância desse livro para a formação do projeto político da atual gestão dos Estados Unidos. Uma pequena curiosidade é que JD Vance esteve na Europa e criticou a forma com que os políticos europeus vem atuado. Mais especificamente certas elites políticas, culturais e econômicas, visto que essas elites vem promovido um fechamento da Europa para determinadas visões de suas populações. A argumentação européia é de que esses "políticos populistas" não são adequados a normalidade democrática.


O problema é que essas elites creem que são por si mesmas a normalidade democrática. A chamada "democracia liberal" em que diferentes visões, ideologias e doutrinas competem entre si está sendo trocada por uma "democracia" – bem entre aspas – em que uma elite arroga para si o termo "democrata" e define por si mesma o que é a "vontade democrática", muitas vezes indo contra os anseios do próprio povo. Em outras palavras, não é mais o povo que determina o que é a vontade democrática, mas sim a "elite democrática" que define conforme as suas metas o que é a "vontade democrática" e molda os rumos do país conforme as suas vontades e anseios políticos. Tudo que for um "impedimento" a essa "vontade democrática" da "elite democrática" é, por si mesmo, algo "antidemocrático" – generalizado pelo termo "fascista" e "extrema direita" que é repetido e generalizado a exaustão, sem qualquer comprometimento e/ou rigorosidade de aplicação epistêmica séria – e deve ser banido do debate público e da possibilidade de realização de projeto político.


Voltando a centralidade da análise do livro. Vemos que Kevin D. Roberts é mais um daqueles homens que se voltam contra a tradição neoconservadora e pretendem alterar "um pouco" do funcionamento do movimento conservador. Para tal, ele propõe a criação de um novo movimento, esse seria o "New Conservative Moviment", que não é o mesmo que o "movimento neoconservador". Esse "New Conservative Moviment" teria uma espécie de fogo controlado. Esse fogo controlado "queimaria" as instituições que não podem ser reformadas, visto que estão demasiadamente subvertidas ou já nasceram com propósitos subversivos. Essas instituições subversivas tem como caráter um grande network político, corporativo e cultural em que as elites compartilham os seus interesses, interesses esses que muitas vezes vão contra os interesses do americano comum.


Essa diferença tática – que é bem central – permeia uma velha questão do conservadorismo enquanto movimento: conservadores mais antigos tendem a crer que instituições devem ser mantidas ou reformadas, mas nunca "queimadas" (destruídas). A razão disso é o fato de que conservadores são reformistas. O "New Conservative Moviment" é um movimento que quebra essa tática e/ou linha de pensamento conservador. Se é necessário que algumas instituições sejam "destruídas" para preservar e reformar instituições mais nobres e úteis ao país. Em outras palavras, instituições que apresentam propósitos subversivos ou foram demasiadamente corrompidas por agendas ideológicas esdrúxulas devem ser "queimadas" por um fogo controlado e purificador.


Quando Kevin D. Roberts fala sobre as instituições subversivas, ele fala sobre um projeto categoricamente de esquerda que visa um cerceamento do discurso, a adoção de um sistema de imigração em massa para a substituição da mentalidade americana – pouco importando os critérios de eficiência, mas sim um critério de criar um Estado multiculturalista – e também de uma elite que é cosmopolita e ligada a uma agenda internacionalista. Inclusive é preciso notar que muito da elite dos Estados Unidos não é ligada a uma sensação de pertencimento aos Estados Unidos, mas sim a uma sensação de "pertencimento mundial" e "sem fronteiras". Essa elite muitas vezes se contrasta com o americano médio, muitas vezes apresenta um "elitismo do bem" ou um "elitismo de esquerda", que olha o cidadão que não pertence a essa "esfera cosmopolitana" como um incapaz, um estulto e/ou um ignorante. A mídia cosmopolita muitas vezes menospreza e trata esses cidadãos como meros idiotas.


A própria questão da elite cosmopolita e um povo enraizado é uma questão de constante debate. Seja nos Estados Unidos, seja na Europa. Há, além disso, a questão da separação cada vez maior entre a cosmovisão e o modus pensandi das pessoas que possuem ensino superior e das pessoas que não possuem ensino superior. Além disso, esse mesmo quadro se repete entre pessoas que estão na "cidade grande" (regiões mais urbanizadas) e aquelas que estão na cidade do "interior" (regiões menos urbanizadas). O fato da esquerda promover um "bullying do bem" contra esses cidadãos leva a um aumento do tensionamento político e esse tensionamento político aumenta a polarização do país e o sentimento e/ou crença – muitas vezes bem fundamentada – de que existem dois povos americanos e os dois estão entrando num conflito existencial. Para entender melhor essa ideia, sugiro que veja o vídeo "America's Cold Civil War", ele pode ser encontrado no canal da "The Heritage Foundation" no YouTube – ele é bastante elucidativo a respeito do que é uma "guerra fria civil" em que distintas visões de mundo entram em choque por diferentes parcelas da população.


Em relação as elites, vale notar que existe a questão da "elite orgânica" e a "elite artificial". A "elite artificial" – vou utilizar aqui um termo gramsciano – utiliza aparatos de perpetuação de hegemonia para permanecer no poder, desfavorecer adversários e impedir a possibilidade de mudança ou de ascensão dos seus adversários. O que o livro de Kevin D. Roberts critica é uma elite que se utiliza dos instrumentos do poder para realizar a perpetuação e continuidade do seu projeto sem a possibilidade de crítica, de reforma ou até mesmo de um consenso mais ponderado. O fato da imposição da agenda dessa elite, seja pelo domínio político ou pelo ativismo judicial – quando juízes começam a interferir nos rumos políticos tais como se fossem políticos eleitos –, leva a uma necessidade de uma estratégia alternativa.


Vale lembrar que a direita com caráter populista não surge por um acaso, mas num momento em que a esquerda abandonou amplas margens da população – inclusive até mesmo trabalhadores – em favor de valores cosmopolitanos que muitas vezes contrastam com os valores típicos da população de seus países. A conexão e o aumento de proximidade da direita com o povo se deu quando a direita se viu marginalizada na academia (no sentido universitário) – sendo até mesmo perseguida ou com professores fazendo esquemas para promoverem só alunos de esquerda –, na mídia mainstream e nas instituições. Esses dois fatores levaram ao surgimento de uma direita que se conectou com o povo, adquiriu um caráter mais populista – o que era em si mesmo uma necessidade em virtude da agenda cosmopolita – e que questiona as instituições mainstream.


Uma das principais críticas feitas a agenda da esquerda ocidental moderna é o projeto multiculturalista e as políticas de imigração em massa. O antigo processo de imigração envolvia um processo de integração que implicava num assimilacionismo daqueles que entravam no país. Entrar num país não significava, em absoluto, uma preservação ostensiva de um modo de vida e de um modo de pensamento. Ele implicava em uma adaptação aos valores, hábitos e cultura local – mesmo que não de forma absoluta – e um respeito as instituições do país em que se entrou. O projeto multiculturalista envolve imigrantes que não são assimilados, mas sim mantidos em sua forma cultural primária. Esse projeto vai em detrimento da comunidade que estava primariamente em determinado país. Os Estados que aderem o projeto multiculturalista – a imigração em si mesma não é um problema, mas a forma em que a imigração é proposta ou se dá – é que essa agenda leva a uma acentuação dos problemas, muitas vezes gerando questões identitárias e conflitos étnicos. E não, isso não é a mesma coisa que "Great Replacement". É preciso pensar num modelo de imigração que não cause tantos conflitos e seja pensado a partir das necessidades econômicas do país e da capacidade de assimilação das pessoas que adentram no país.


Antes de continuar a linha central da análise, preciso de um breve adendo. A crítica que Kevin D. Roberts faz ao neoconservadorismo – aliás, é bem semelhante a crítica dos "MAGA conservatives" – é a de que os neoconservadores se preocuparam mais em uma "expansão" e/ou um "projeto de Império Global" pros Estados Unidos do que a resolução de problemas internos. A violenta agenda externa neoconservadora custou aos Estados Unidos um grande endividamento e um esquecimento das questões nacionais. Muito dinheiro foi gasto, muitos recursos foram usados e o próprio povo americano foi esquecido no processo. Grandes problemas nacionais, como a infraestrutura, a indústria, a família e o próprio bem-estar do trabalhador americano foram simplesmente deixados de lado em prol do sonho neoconservador. Esses profundos problemas sociais, econômicos e de infraestrutura – além de uma visão bastante pejorativa que a agenda neoconservadora causou – gerou uma revisão intelectual do movimento conservador, o que levou a uma agenda mais voltada as questões domésticas ("America First").


Outra questão apresentada é o renascimento das instituições cristãs e da "alma americana". É a preocupação com o "espírito da fronteira". A questão de "conquistar novos mundos" por um espírito aventureiro e empreendedor. As instituições cristãs que renasceriam seriam as instituições ligadas as atividades educacionais, mais propriamente aquelas que apresentam o caráter da educação clássica. Para compreender melhor o que seria isso, recomendo que busque informações acerca da Hillsdale College. Já o renascimento do "espírito da fronteira" seria a busca pela atividade da realização tecnológica e empresarial – o que só é possível com uma grande reforma educacional e econômica –, fazendo frente a China.


Sem dúvidas, o livro de Kevin D. Roberts é um livro muito impressionante e importante. Ele traz um colossal revisão tática, metodológica e até mesmo na estrutura do pensamento conservador. Creio que ele merece ser lido. É um dos livros mais importantes dessa década e com certeza impactará o debate público e as estratégias políticas dos próximos tempos. Kevin D. Roberts demonstra ser um importante líder e ao mesmo tempo estabelece a possibilidade de uma cópia tática em outros países do mundo.

sábado, 18 de janeiro de 2025

Acabo de ler "Liberal Education’s" de Rachel Alexander Cambre (lido em inglês/Parte 6 Final)

 


Nome:
Liberal Education’s Antidote to Indoctrination

Autora:
Rachel Alexander Cambre, PhD


Uma educação livre é muito baseada na liberdade de expressão. A liberdade expressão, no ambiente acadêmico, tem a premissa de que os argumentos devem ser logicamente embasados. E é através dessa ligação (liberdade argumentativa + argumentos logicamente embasados) que o debate ocorre.

Os seguintes comportamentos devem ser observáveis: encorajamento para fazer perguntas, avançar nos argumentos, receber críticas lógicas aos argumentos anteriormente observados.

Deve ser também observado: que os alunos recebam o pensamento de pensadores de diferentes épocas e lugares para que não haja uma redução espaço-temporal da sua capacidade de pensar.

É evidente que a educação não termina nunca. Ela se torna uma expressão em si mesma da vida. O aluno deve ser convidado a se tornar um estudante para a vida toda. Se isso não ocorre, a educação não ocorreu de fato.

Quando a educação é real, ela se integra a personalidade do indivíduo. Ela se torna expressão mesma da sua personalidade e está em todos os processos vivenciais que o indivíduo se insere.

Acabo de ler "Liberal Education’s" de Rachel Alexander Cambre (lido em inglês/Parte 5)

 


Nome:
Liberal Education’s Antidote to Indoctrination

Autora:
Rachel Alexander Cambre, PhD

Não importa se um argumento é de esquerda, de direita ou de centro. O que importa é se ele é verdadeiro e bem estruturado. Quando pensamos se algo é de direita, de centro ou de esquerda, se tem algo ou não a ver com a "nossa tribo", já não estamos pensando livremente. Muito pelo contrário, estamos adentrando num tribalismo onde o que importa é a adesão formal a tribo e ao seu modus pensandi.

Uma educação livre, de fato libertadora, requer uma capacidade de estudar e ir além dos limites impostos pela maioria e pela simplificação do debate. Transcender o horizonte da maioria das opiniões sobre um assunto ao mesmo tempo em que providencia uma série de argumentos competitivos – contraditórios e em disputa por si mesmos – é o fundamento de um bom entendimento de um debate livre e de um intelecto livre.

Doutrinação:
Propõe um escopo monolítico.

Educação:
Convida a discordância dentro da conversação.

Uma educação verdadeira, longe das câmeras de eco, é uma educação baseada na discordância e na compreensão estrutural das discordâncias que levam aos levantamentos dos diferentes pontos de vista dentro de um debate. Uma educação livre é um ponto de inquirição, um debate e que leva a um julgamento pessoal acerca de algo.

Tal educação não se baseia em fontes secundárias. Baseia-se em fontes primárias. Não aos comentários ou comentários dos comentários das obras. Mas ao entendimento do debate a partir das fontes primárias que se chocam. Em outras palavras, adentram no estudo dos mais diversos grandes autores e grandes escolas de pensamento. Isso tudo, é claro, alinhado a um profundo entendimento da ação moral dentro do mundo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Acabo de ler "Liberal Education’s" de Rachel Alexander Cambre (lido em inglês/Parte 4)

 


Nome:
Liberal Education’s Antidote to Indoctrination

Autora:
Rachel Alexander Cambre, PhD

A ordenação da alma é um dos principais tópicos da educação. O principal objetivo da educação é a ordenação da alma e é o mais espetacular objetivo humano. O objetivo da educação não é apenas o de dar uma formação básica, mas o de ensinar virtudes. Sejam as virtudes morais, sejam as virtudes intelectuais.


Uma pessoa intelectualmente saudável e moralmente íntegra é capaz de navegar entre diferentes tipos de pensamentos e diferentes tipos de argumentos. Não só por uma erudição qualquer, mas pela busca da verdade. Uma verdade que transcende os limites da esquerda e da direita. Uma verdade que ama a verdade que está além das definições das agendas ideológicas e narrativas.


Uma pessoa que busca a verdade busca estar além das maiorias. E isso requer a coragem de estar além do que a sociedade propõe ou o que a sociedade espera. Visto que o verdadeiro intelectual opõe vigorosamente uma série de argumentos e perspectivas, tentando encontrar a verdade entre esses diferentes pontos e sendo prudente na escolha de suas ações.


Mais do que isso: a inteligência é piedosa e indica uma ligação do presente com todo o legado que a precede e com o futuro que se constrói. O exercício intelectual não é a destruição do passado, mas uma reverência ao passado e uma gratidão pelo passado. Visto que o intelectual honesto é um intelectual humilde, um intelectual grato pelo melhor da civilização.

Acabo de ler "Liberal Education’s" de Rachel Alexander Cambre (lido em inglês/Parte 3)


Nome:
Liberal Education’s Antidote to Indoctrination



Autora:
Rachel Alexander Cambre, PhD

O que é educação? A educação pode ser vista como um aumento gradativo do horizonte de consciência. Isto é, do número que de conhecimentos que a consciência humana abarca. O aumento contínuo do horizonte de consciência, junto com a qualidade do conteúdo abarcado, abraça o reconhecimento de uma série de fórmulas e contrastes que escapam da generalização ideológica. O problema é que numa estrutura de educação massificada, o que importa é mais uma série de conhecimentos gerais de forma simplificada do que um conhecimento reconhecedor da série de contrastes que aparecem em cada instante do saber.


Para abarcar um número alto de alunos, reduz-se a qualidade do saber. A redução da qualidade do saber se encontra no aspecto simplificatório. Uma quantidade baixa de conhecimento, as chamadas ideias gerais, assumem a condução do pensamento da maioria das pessoas. Dentro de uma estrutura política em que os governantes são eleitos democraticamente, as suas eleições se devem mais a simplificações – fetiches mentais – do que a uma análise concreta dos sérios problemas apresentados a nível local, regional e nacional.


Outra condição que marca pesadamente a democracia é que pessoas com ideias gerais não possuem compreensão profunda dos distintos fenômenos que devem pautar a escolha política. Eles são guiados mais pelas pressões socialmente impostas do que por uma noção qualificada das diversas nuances encontradas dentro de um debate.


A visão da maioria é uma visão pautada por uma lógica de simplificação para massificação de um baixo saber. Um baixo saber caracterizado por fetiches mentais – pensamentos não complexamente estruturados e reconhecedores dos diversos aspectos que sondam os fenômenos da realidade. Se a maioria da sociedade vai para um canto, a pressão social direciona todos os outros para esse mesmo canto.


A referência do cidadão médio não é uma série de modelos que reconheça profundamente. A referência do cidadão médio são uma série de noções corrompidas, pois básicas. Além do choque que a pressão social da maioria exerce. Visto que é a visão da maioria, o imaginário social, que constrói aquilo que o cidadão médio pensa acerca do mundo.


Uma democracia sólida não pode existir tendo como base simplificações. Logo ela requer uma educação de qualidade para que os cidadãos possam fazer um exercício legítimo da razão no ato de escolha política. A ligação entre educação de qualidade e funcionalidade do regime político democrático é intrínseca. Não há democracia sem educação de qualidade. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Acabo de ler "Liberal Education’s" de Rachel Alexander Cambre (lido em inglês/Parte 2)

 


Nome:

Liberal Education’s Antidote to Indoctrination


Autora:

Rachel Alexander Cambre, PhD


O sentido original da palavra doutrinação era "ensinar". Há um tempo atrás, uma boa doutrina queria dizer "bom ensinamento". É evidente que tal aplicação linguística não é mais comum hoje, visto que a linguagem está circunscrita ao âmbito da aplicação social e tem uma base sociológica. Não é possível construir uma utilização da linguagem sem considerar a base sociológica da linguagem. O imaginário social impacta na compreensão da terminologia empregada. Há uma fundamentação social e histórica, uma fundamentação sociohistórica, no emprego da palavra doutrinação. O termo passou a se referir aos processos formativos de militância ideológica no século XX empregado por estados totalitários. 


A autora estudou, para a construção da explicação do termo doutrinação, o pensamento do Aleksandr Solzhenitsyn e sua documentação a respeito dos Gulags na extinta União Soviética. As características básicas apresentadas na doutrinação dentro da União Soviética eram três:

1. Implantação de pensamento;

2. Simplificação;

3. Mecanização.


A doutrinação trabalhava com "novos fatos" e habilidades, esses novos fatos e habilidades contrariavam os fatos antigos e as habilidades antigas. Ou seja, eles surgiam por uma nova construção narrativa da história ao lado de uma aplicação de novas técnicas intelectuais. Esse processo era mecanizado para ter um funcionamento autônomo e garantir uma continuidade.


Existia conjuntamente uma felicidade da simplificação ao lado de um prazer da redução. O fundamento da doutrinação é distorcer a percepção da realidade por meio da distorção da própria mente. Uma mente incapaz de perceber os múltiplos traços da realidade é incapaz de perceber a complexidade da própria realidade. No geral, a complexidade da realidade já espanta psicologicamente a mente humana e a mente humana se predispõe à alienação doutrinatória.


A questão é: o doutrinador tem diante de si uma pessoa que sofre e necessita de uma simplificação para o mundo que não suporta. Usualmente essa simplificação comporta uma crítica ao mundo e um anteparo para com o doutrinado. O doutrinado se vê desculpado ante ao próprio fracasso da concretude da sua vida. Conta, diante de si, uma capacidade analítica reduzida para esmiuçar as razões do seu fracasso através de mecanismos externalizantes que culpam o mundo. É evidente que no jogo da complexidade do real, a própria culpa e a culpa da estrutura do mundo se mesclam e se confundem num infinito incomensurável.


A doutrinação trabalha com a redução da complexidade através de um conjunto monolítico de ideias que são usadas repetidamente para a diminuição da complexidade do mundo em conjunto com a redução da possibilidade mesma de visões alternativas de argumentos e perspectivas. Até porquê a doutrinação é um mecanismo racionalizante que visa colocar o doutrinado numa posição de superioridade moral, incapacidade de "autoculpabilinização" e defesa contra qualquer outro mecanismo que contraste com essa visão distorcida de realidade que tanto leva a um prazer para com a própria atuação moral dentro do mundo. Em outros termos, o mecanicismo do doutrinado é uma defesa contínua contra qualquer outro pensamento que leve ao desmoronamento da retroalimentação da sua própria condição alienante.


A partir do momento em que a doutrinação se instala, a pessoa íntegra os novos fatos e habilidades intelectuais como mecanismos de autopreservação. Esses mecanismos de autopreservação do doutrinado se integram a sua própria personalidade e passam a integrar o modus pensandi (modo de pensamento) e modus operandi (modo de operação) automaticamente. Levando a incapacidade de complexificação do processo de pensamento, visto que essa complexificação é vista como nociva e tradutora da crise antecedente ao processo de doutrinação que o alienou da realidade. Em palavras mais precisas, a complexificação do pensamento – abarcando novas linhas – levaria inevitavelmente a uma condição em que a complexidade da realidade ressurge como aquele monstro que anteriormente apavorava a pessoa que foi doutrinada.


O doutrinado não quererá algo além da própria alienação. Visto que a alienação o protege do mundo que o apavora. Nesse sentido, a construção de uma vida intelectual mais autônoma – contrariedade dos fatos – leva a uma perda da segurança psicológica. Essa perda da segurança psicológica é encarada como automaticamente nociva. Logo a perda da capacidade de elevação da intelectualidade por meio da acoplação de múltiplas linhas de interpretação para uma visão mais abarcante da realidade é vista por si mesma como nociva. Algo ao qual o doutrinado deve se proteger, mesmo que esse processo ocorra inconscientemente.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Acabo de ler "Liberal Education’s" de Rachel Alexander Cambre (lido em inglês/Parte 1)


Nome:

Liberal Education’s Antidote to Indoctrination


Autora:

Rachel Alexander Cambre, PhD


O que é uma educação verdadeiramente livre? É possível ter uma educação livre? O modelo deve pender à esquerda ou à direita? Qual a possibilidade efetiva de concretizar uma educação que não seja doutrinária? Essas questões sempre voltam a aparecer, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, seja em qualquer outro país do mundo. A doutrinação é uma temática universal, a educação também o é.


Há quem afirma que toda educação tem um ponto doutrinário, uma cosmovisão que se esconde por trás dela. Se essa afirmação é de fato verdadeiro, decorre-se que nenhuma escola pública é de fato possível, visto que ela seria um cerceamento e uma imposição ideológica. Outra solução plausível seria a adoção de professores dotados de visões intelectuais bastante distintas. Todavia a segunda via apresenta uma problemática: o número de professantes de determinado sistema de pensamento não é igual e tampouco é financeiramente viável contratar todos os tipos de diferentes pensadores para lecionar – além disso, qual seria a quantidade de tempo para formar alguém que precisa passar minuciosamente por todas as escolas de pensamento do mundo em cada uma das matérias?


A autora do texto tratará dessas questões. Creio que se focará em trazar uma linha objetiva de educação – se essa for, é claro, possível.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Acabo de ler "How Cultural Marxism Threatens the United States" de Mike e Katharine (lido em inglês/Parte 6 Final)


Nome:
How Cultural Marxism Threatens the United States—and How Americans Can Fight It 

Autores:
Mike Gonzalez;
Katharine C. Gorka.
 

O documento – bastante sucinto – é bem interessante. Antes mesmo do famoso "Project 2025", a Heritage Foundation já fundava as bases atuacionais da direita americana. De fato, as atuações da Heritage Foundation são bem interessantes e muito bem delineadas. É interessante a incrível capacidade da direita americana em comparação a direita nacional.

É um documento altamente estratégico. Fornece formas de organizações. Ensina principais pontos da atuação da esquerda no território americano – embora sua atuação seja semelhante nos países da América Latina e Europa –, ensina como combatê-los, dá um delineamento acerca de táticas e práticas institucionais para quebrar a esquerda na política. Deveras interessante. 

Creio que esse "Special Report" foi bastante interessante para compreender pontos basilares da política dos Estados Unidos da América. Recomendo a sua leitura, visto que a Heritage fornece questões essenciais para a condução política americana.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Acabo de ler "How Cultural Marxism Threatens the United States" de Mike e Katharine (lido em inglês/Parte 5)

 



Nome:
How Cultural Marxism Threatens the United States—and How Americans Can Fight It 

Autores:
Mike Gonzalez;
Katharine C. Gorka.

O que forma os Estados Unidos enquanto nação? O que faz, o que dá forma, o que eleva, qual é, por fim, a identidade americana? O drama espiritual americano, aquilo que se esconde por trás de toda a sua formação sociohistórica, é a questão da liberdade. É a luta contínua pela questão da liberdade. Já que os americanos encaram a liberdade como pré-condição para o florescimento humano.

Dessa questão profundamente humana, mas exemplarmente dedicada aos Estados Unidos enquanto experiência nacional, buscam criar uma ordem política baseada no respeito ao autogoverno, na liberdade de fala, nos direitos individuais, no direito das minorias. Não porquê a ordem humana pode ser perfeita, mas porquê só a partir do autogoverno é possível corrigir e aperfeiçoar a ordem sociopolítica.

É pelo fato da humanidade estar sujeita a corrupção que o poder não pode ser concentrado. O poder concentrado leva ao aumento da abuso e a impossibilidade mesma de correção desse abuso de poder.

O que é essencial nos Estados Unidos não é uma raça, não é uma religião, não é um idioma, não é uma organização planejada. O essencial dos Estados Unidos é a liberdade. Ou, mais especificamente, a perseguição da ideia da liberdade através da história.