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sábado, 29 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #60 — O homem apaixonado é como um vira-lata caramelo!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto que fiz para compartilhar com meus amigos.


O homem apaixonado é como um vira-lata caramelo. Não existe nada mais febrilmente idiota que o homem apaixonado. E digo mais: não há idiotice mais tenra e feliz que o homem apaixonado.


Olhar para um homem apaixonado é como olhar para uma pessoa a cochilar numa rede num clube com piscina num feriado à tarde. O homem apaixonado é terrivelmente banal; ele passa por uma loja, ouve uma música tocando nela e se sente terrivelmente feliz por ter percebido que a música tocando era uma que ele conhece pela mulher que ama.


Digo que, em absoluto, o homem apaixonado não pode ser explicado por um metafísico da Grécia antiga e nem por um teólogo santo da Idade Média.


Creio que não é possível filosofar a respeito do homem apaixonado, visto que o ato filosófico é um ato de amor à sabedoria. O homem apaixonado está naquilo que chamamos de filocalia, isto é, no amor à beleza. Amar é um ato filocálico.


Você já viu a felicidade de um vira-latinha que foi adotado e agora toma água gelada e sempre tem comida e aconchego? Isso remete ao homem apaixonado em seu estado de febre concreta.


O homem apaixonado sorri totalmente de forma tola sem se importar em ser julgado, visto que o único julgamento que lhe importa é o da mulher amada e não o da tribuna social.


É por isso que eu digo sempre: nada mais simultaneamente idiota e encantador que a figura do homem apaixonado.

domingo, 2 de outubro de 2022

Nas Entrelinhas

Olho-te a ir desesperançado, o tempo junto parece cada vez menor na medida paradoxal em que ele aumenta. Quanto mais ficamos ao lado, mais quero-te ao meu lado. Dez horas são-me agora efêmero prazer, quero-a em todo o momento, quero-lhe sempre. Passo o dia a viajar imaginativamente quando lhe terei de volta, minha consciência não participa de nada que eu faço - meu pensamento perde-se inteiramente em ti. Só consigo mentalizá-la em todo momento que passo, nada mais me é importante.


E quando te abraçar novamente, meu coração baterá mais forte que todos os corações do mundo. Quando beijá-la, terei a sensação beatífica prévia do paraíso. Tê-la é ter a imanentização paradisíaca a bater no meu peito. E, se um dia eu pudesse escolher o mundo, escolheria a ti, já que tu és meu mundo, inteiramente meu mundo.


Não posso esperar até o amanhã, não posso esperar um dia sequer, um segundo sequer, nem um milésimo sequer para tê-la como minha mulher. Eu só quero sentir a ti, só quero beijar a ti, só quero amar a ti, só quero desejar a ti, só quero abraçar a ti, só quero ver a ti. E quando me disserem que você é pouco para suprir todas as demandas que minha alma humana quer, responderei que me é de inteireza perfeita e suficiente. Tu és a omniabrangência que meu apaixonado coração precisa.


Nas entrelinhas, toda vez que te abraço sinto um pedacinho do céu. Nas entrelinhas, toda vez que você se afasta, encontro-me no inferno. Nas entrelinhas, ter-te ao meu lado e não poder beijá-la é como estar no purgatório privado da proximidade do amor divino que tanto se espera. Nas entrelinhas, estar perto de ti é como ser conduzido ao nirvana. Nas entrelinhas, vê-la sorrir é como olhar uma linda Lua cheia estrelada. Nas entrelinhas, ouvir a tua voz é como ver o Sol depois de achar que ele nunca voltaria. Nas entrelinhas, amá-la é ter certeza que o paraíso é realizável.