Retrowave: uma saga de frases de pessoas ilustres que resolvi colocar em retrowave.
Nome:
Illiberalism and Democracy: The Populist Challenge to Transatlantic Relations
Autor:
Saul Newman
A ascensão de Donald Trump, junto com vários dos seus correligionários da extrema-direita populista, apresenta um desafio à democracia e às relações transatlânticas. Muitos países europeus vêm sofrendo com a volatilidade dos Estados Unidos da América e também com problemas internos oriundos da própria extrema-direita populista interna. O desgaste contínuo dos valores democráticos e a tensão constante entre o campo democrático e o campo populista vêm se tornando um grande problema de nosso tempo.
O populismo estabelece um contraste e um conflito entre o "povo" e a "elite". O populismo, a partir disso, estabelecerá um modo autoritário de governança que se oporá ao pluralismo, ao Estado de Direito, à independência do judiciário, aos procedimentos intermediários e às instituições da democracia liberal de uma maneira geral.
Os países europeus estavam acostumados ao seguinte cenário:
- Uma ordem legal internacional e comercial baseada em regras;
- As relações estabelecidas durante o período pós-Guerra Fria;
- A hegemonia do modelo da ordem democrática liberal.
Atualmente, deparam-se com o seguinte cenário:
- Uma desordem internacional;
- Blocos de poder (Rússia, China e Estados Unidos);
- A ascensão global da extrema-direita populista.
Como definir o populismo de direita? Usualmente o populismo de direita é definido como uma mistura de vários fatores, entre eles uma espécie de libertarianismo econômico, um autoritarismo político, um nativismo, xenofobia, uma identidade religiosa forte, valores conservadores no campo social e cultural e, essencialmente falando, um antiliberalismo. Os fatores envolvidos podem variar, visto que o populismo de direita é diverso.
O autor citará vários exemplos de populismo, dentre os quais está o próprio Lula (atual presidente do Brasil), como figura populista de esquerda. Além disso, citará populistas europeus. De uma maneira geral, populistas apresentam o povo como moralmente puro, autêntico, honesto e trabalhador. Enquanto isso, as elites são apresentadas como nefastas, corruptas e traidoras. Eles também dão uma noção de uma "democracia mais genuína" ao dizer que representam o povo. Para que tal representação genuína do anseio democrático seja feita, eles precisam atropelar os processos parlamentários, a imprensa mainstream e todos os processos intermediários. A diversidade de visões, opiniões e interesses é descartada. A visão popular é colocada acima do Estado de Direito.
O pensamento populista precisa de uma identidade homogênea. A elite é encarada multifatorialmente, existindo elites políticas, financeiras e culturais, por exemplo. Todavia, não é só a elite que é o problema. Para assegurar a homogeneidade do povo, as minorias passam a ser atacadas. Logo, minorias culturais, sexuais e de gênero passam a ser consideradas inimigas também. É disso que se estabelece uma relação íntima entre populismo, misoginia, xenofobia, racismo, LGBTfobia e, em muitos casos, antissemitismo. Muito rapidamente, a mídia mainstream, artistas, acadêmicos, celebridades, políticos liberais ou progressistas, o judiciário, ativistas e advogados dos direitos das minorias passam também a ser atacados. Como o populismo necessariamente pressupõe a homogeneidade, ele requererá sempre a tirania da maioria contra os grupos que estão fora dela. O respeito à pluralidade de valores, de interesses e de identidades, além da ideia de que os direitos das minorias são os mesmos que os das maiorias, começa a desaparecer.
No populismo, a figura do líder começa a ser tida como a personificação e o canal onde está e onde é emitida a vontade do povo. O partido político do populista se torna um partido de um homem só. É um partido focado inteiramente no líder. Além disso, o grupo político que cresce ao redor do populista não é um movimento político, mas configura-se como um culto religioso ou, mais propriamente, uma seita. O trabalho do populista é fazer com que o trabalho se cumpra, mesmo que isso envolva quebrar os valores democráticos no processo.
Os governos populistas adquirem um formato híbrido ou uma forma de "democratorship" (democracy [democracia] + dictatorship [ditadura] = democratorship [democradura]). Persistem ainda o parlamento, as eleições, a mídia independente... todavia, os oponentes políticos são perseguidos, o judiciário e a mídia são intimidados e o poder é centralizado no executivo. A possibilidade de uma democracia constitucional é gradativamente solapada.
Enquanto vemos a ascensão global da extrema-direita-populista, vemos muito especificamente o Project 2025. O Project 2025 é um blueprint (guia) global para a extrema-direita como um todo. Nele podemos ver:
- Poder concentrado no executivo;
- Controle de fronteiras draconiano;
- Isolacionismo;
- Retorno da imposição dos valores socialmente conservadores e dos valores patriarcais;
- Um assalto da extrema-direita contra o secularismo e o pluralismo;
- A ascensão da teoria da "Grande Substituição" (great replacement theory);
- A acusação de que jornalistas e a mídia no geral são organizações de fake news profissionais;
- O ataque contínuo à expertise científica;
- Políticos populistas, empresários políticos e influenciadores fomentando polarização e desconfiança no establishment.
Sabe-se ainda pouco se a ordem liberal e os valores liberais sobreviverão ao projeto político da extrema-direita populista. Praticamente não vemos mais um Ocidente liberal e democrático, mas sim um conflito entre esse Ocidente e a aliança iliberal e autoritária.
Enquanto a China tem planos para décadas, os Estados Unidos têm planos para o próximo drama político. O sistema político chinês é baseado no planejamento de longo prazo; o sistema político americano é baseado no planejamento de curto prazo. Enquanto a China faz um planejamento cuidadoso para o futuro, os Estados Unidos se envolvem em guerras no exterior e em divisões políticas extremas em seu âmago.
Estamos acostumados a pensar nos Estados Unidos como a maior economia, a nação mais poderosa militarmente e o local da inovação global. Todavia, o que vemos hoje é um espetáculo de guerra fria civil permanente. Enquanto a China constrói uma estratégia dedicada para os próximos dez anos, os Estados Unidos pensam no próximo ciclo eleitoral. A batalha da China contra os Estados Unidos não é militar, tampouco é econômica; a batalha é no estilo de governança.
1- A China faz planos para uma década; os Estados Unidos pensam no que farão no dia:
A diferença governamental é pautada temporalmente. A China sabe o que quer ser daqui a dez anos, cria planos matematicamente precisos, de cinco em cinco anos lança um plano quinquenal, apresenta uma reportagem sobre as condições do país e faz um mapa dos caminhos que ela terá que percorrer. Os Estados Unidos, por outro lado, pensam na próxima tempestade política que terá que sobreviver, sem ter um plano unificado de metas, unicamente reagindo aos problemas.
2- O sistema político dos Estados Unidos está preso em loopings eleitorais:
Se pensarmos na razão do sistema político americano não ter planejamento de longo prazo, podemos pensar na razão mais evidente: os ciclos eleitorais intermináveis. Em vez de terem planejamento e governança, eles estão ocupados em vencer o adversário. Isso gera algo além do populismo, mas há a preocupação constante com cada ciclo eleitoral sem um pensamento sólido ou uma aliança nacional para um plano estratégico unificado.
3- A consistência vence a guerra:
A razão da China vencer não é por causa de um "milagre" ou uma "mágica", mas sim pela consistência do seu sistema de governo. Com um sistema político consistente, o planejamento econômico e a estratégia adotada também são estáveis e consistentes. A estabilidade é a chave da vitória chinesa. Enquanto isso, os Estados Unidos planejam, no máximo, de quatro em quatro anos e suas estratégias atropelam umas às outras.
4- Enquanto os Estados Unidos falam, a China investe no futuro:
Se um projeto é levantado num governo, cabe ao governo seguinte matá-lo. Ou seja, não há continuidade. Se um projeto é benéfico ao país, mas gera vantagem eleitoral para o adversário, cabe à oposição impedí-lo. É assim que funciona o sistema político americano. A China não cresce por acaso, ela cresce por design: eles planejam e cumprem unificadamente, sem os transtornos intermináveis dos ciclos eleitorais e das guerras frias civis infinitas.
5- Governança como o campo de batalha final:
No fim, a luta entre Estados Unidos e China, tal como apresentada nesse pequeno artigo, não é uma luta puramente econômica ou militar, mas uma batalha existencial entre distintos modelos de governança. No século XX, pensamos na vitória da democracia liberal e no mercado aberto. Todavia, a democracia liberal não é por si mesma uma estratégia. Sobretudo quando essa democracia liberal sofre com guerras partidárias, comportamentos raivosos e estratégias de curto prazo. A China apresenta um modelo alternativo: um sistema de governança baseado na eficiência de longo prazo.
A China é um país que possui um crescimento rápido e uma economia dinâmica. Existe, contudo, uma percepção errônea da mídia anglo-saxã a respeito da China. Muitos dos erros surgem da mentalidade da guerra fria. Vou analisar mitos comuns a respeito da China:
1- A China está reprimindo os seus cidadãos:
Se você quer ter controle populacional, tendo um medo amplo e generalizado a respeito do seu próprio povo, qual seria o melhor meio para isso? Muitos vão apontar para a informação. Um povo bem informado pode destruir um regime.
Acontece que o regime chinês não está desinformando o povo. Muito pelo contrário, a China tem uma população que é amplamente bem-educada e o próprio regime estimula formações cada vez melhores. O povo chinês, sob o regime chinês, está sendo mais bem educado do que já foi em momentos predecessores da sua história. Graças a isso, eles vêm conseguindo habilidades avançadas em pensamento crítico, conhecimento científico e expertise tecnológica. Isso leva a uma enorme vantagem na produção de Inteligência Artificial, tecnologia verde (ecologicamente correta) e em telecomunicações.
Um regime preocupado com impedir o próprio povo de ascender sequer cogitaria planos educacionais tão longos e tão bem-sucedidos ao longo de décadas. Tanto que atualmente é o país com maior número de pessoas em STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics)[Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática].
2- A China está poluindo o meio ambiente:
Os planos ambientais da China são muito mais respeitosos do que os dos Estados Unidos da América. Os Estados Unidos saíram do Protocolo de Kyoto na administração de Bush e do Acordo de Paris na administração de Trump.
Sim, se olharmos os maiores poluidores, veremos os Estados Unidos, a Europa e a China. Todavia são os Estados Unidos que evitam taxar os galões de gasolina e se recusam a investirem em tecnologia verde. A China, por outro lado, possui o maior programa de reflorestamento do mundo. A China também se destaca como uma das mais inovadoras na produção de energia limpa.
3- Direitos Humanos e Regras do Iluminismo:
Se a China é um ambiente completamente irracional, tal como diz a propaganda ocidental, não há razão alguma para temê-la. Isto é, a China acabaria destruindo a si mesma em seu processo de irracionalidade. Todavia, a análise a respeito da China se divide em propaganda enganosa e em um desacordo com o método de análise proposto pelo iluminismo. Isto é, analisamos mais a China pela lógica da guerra fria do que pelos critérios de racionalidade, calma e objetividade.
O Ocidente tem muitas falas a respeito dos direitos humanos. Na maioria absoluta das vezes, as promessas constitucionais da efetivação de direitos humanos são vazias, visto que não são implementadas na prática por causa da própria estrutura de poder econômico e político. Muitas das vezes, é o mercado que legitima o direito. Isto é, depende da sua capacidade de comprar o direito que deveria valer independentemente do mercado.
Se pensarmos na China e em suas conquistas, vemos que 800 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza. A economia e a política chinesa são focadas nas necessidades básicas. Isto é, acesso à comida, habitação e melhores oportunidades. Garantindo-se a estabilidade e o desenvolvimento econômico, isso cria a possibilidade de uma classe média. Atualmente a classe média chinesa é maior que a população inteira dos Estados Unidos da América.
Se voltarmos ao ponto anterior, vemos que o regime chinês não vê a sua população como inimiga. Muito pelo contrário, os padrões de vida crescem constantemente. Isso não é a declaração vazia de direitos humanos como abstrações que se jogam numa democracia liberal. Muito pelo contrário, a China aproxima-se da efetivação da qualidade de vida como direção política plena.
Se olharmos para números de 2019, vemos que cerca de 139 milhões de chineses saíram da China. Porém, não saíram para "não voltar nunca mais", mas sim como turistas, estudantes e empresários. Eles eventualmente voltaram para a China. Se a China tivesse um regime repressivo, por qual razão alguém voltaria para lá? Eles sequer teriam a possibilidade de sair e voltar. O que vemos é uma população que acredita em seu próprio país, e é por tal razão que voltam.
Enquanto o Ocidente afirma que a China irá à falência logo logo, a China vem construindo uma nova qualidade de forças produtivas. Esse setor se chama "Hard Tech".
O setor Hard Tech é composto por:
- Chips avançados para computadores;
- Sensores;
- Biotecnologia;
- Robôs industriais.
A China percebeu que uma indústria avançada, composta pelas melhores máquinas e pela tecnologia mais inteligente, era o melhor caminho.
Hoje em dia, a China tem a capacidade de diminuir preços para vencer no mercado. Essa estratégia é chamada de "Anti-Involução". Um nome para produção massiva. Isso pode parecer estranho, mas vemos que a China domina 80% dos painéis solares e 69% das baterias. Embora os ocidentais chamem isso de "sobrecapacidade", os chineses usam o gigantesco mercado interno para a contínua elevação da qualidade dos produtos. Outro fator interessantíssimo é a capacidade de deter todo o processo de produção. Isso é chamado de império vertical ou integração vertical.
O investimento em IA na China também é diferente da estratégia dos Estados Unidos. A China está focada na IA industrial, isto é, uma forma de fazer o mundo "rodar" melhor. IAs que atualmente fazem algo, IAs de aplicação direta. Isso gera uma logística melhor e fábricas inteiramente autônomas. No ano de 2025, a produção de robôs industriais chegou a quase 30%. A China vem criando máquinas que são capazes de aprender, de se adaptar e de trabalhar juntas numa escala de 24/7. Tudo isso sem erros humanos. Isso vem tornando a produção mais rápida, melhor e mais barata.
Essa vem sendo a realidade da nova líder global. Ela vem se tornando uma superpotência high-tech. Ela vem abaixando o preço de vários produtos. Controlando todas as cadeias de suprimento e criando uma IA focada na produção. Enquanto o Ocidente cria várias teorias da conspiração a respeito da China e decai em sua própria sanha especulacionista, a China reinventa a si mesma e traz ao mundo uma revolução que a tornará a nova líder global.
Nome:
National Security Strategy of the United States of America
Autores:
The White House
Donald J. Trump
National Security Council
Uma pergunta que esse documento se propõe a responder internamente é: o que os Estados Unidos querem acima de tudo?
O primeiro item é a sobrevivência e a segurança de permanecer como um país independente e soberano. Protegendo o país, a população, o território, a economia e o estilo de vida. Posteriormente o documento diz do que:
- Ataque militar e influência estrangeira hostil.
A influência estrangeira hostil encontra múltiplas definições:
- Espionagem;
- Tráfico de drogas e humanos;
- Propaganda destrutiva;
- Operações de influência;
- Subversão cultural;
- E outras formas de ameaças.
O documento também frisa o controle total das fronteiras, do sistema de migração e das redes de transporte. O objetivo é impedir migrações populacionais desestabilizadoras, mas também existe a necessidade de criar uma infraestrutura nacional resiliente que seja capaz de suportar desastres naturais e ameaças exteriores para proteger os cidadãos americanos e a economia dos Estados Unidos da América.
Com relação ao aspecto militar: o documento fala em recrutar, treinar e equipar a mais poderosa, letal e tecnologicamente avançada forças armadas do mundo. A razão seria para proteger os interesses dos Estados Unidos, impedir guerras ou, se chegar a uma guerra, vencê-las rapidamente e com o menor número possível de perdas. As pessoas que adentrarem as forças armadas teriam como condição terem orgulho do país e confiança na missão. Além disso, os Estados Unidos querem o mais robusto, credível e moderno sistema nuclear, somado a um sistema de defesa de nova geração: o Domo de Ouro.
O documento falará várias vezes e repetidamente sobre querer ser o melhor do mundo em várias áreas:
- Economia:
Ter a economia mais forte, mais dinâmica, mais inovadora e mais avançada do mundo. Interconectando isso com a posição global dos Estados Unidos e a robustez das forças armadas americanas.
- Indústria:
Ter a base industrial mais robusta, seja para tempo de paz e de guerra, seja em capacidade de produção industrial, seja em capacidade de produção de defesa. Essa é citada como a maior prioridade de política econômica.
- Energia:
O mais robusto, o mais produtivo e o mais inovador setor energético. Sendo esse capaz também de exportação.
- Ciência e Tecnologia:
Ser o país mais cientificamente e tecnologicamente avançado do mundo, protegendo também as propriedades intelectuais. Isso está correlacionado com manter a dominação econômica e a superioridade militar.
- Soft power:
O documento cita em manter o soft power que se encontra como irrivalizado. Todavia adiciona a camada de não pedir perdão pelo passado e pelo presente do país. Reforçando que será necessário acreditar no país.
- Espiritualidade e Cultura:
O documento fala em restauração e em revigoramento da sociedade. Celebrando os heróis e a história (o passado) dos Estados Unidos. Além de querer trabalhadores recebendo por seu trabalho. A continuidade geracional e a confiança nesse processo. Há também especial menção a famílias tradicionais, visto que nelas cresceriam crianças saudáveis.
Vocês podem ver que existe uma grande questão cultural interna nesse documento e uma tentativa de resgate aos valores que são considerados como bons. Pode ser que estejamos a ver uma justificação política para interferência em processos culturais, religiosos e familiares também.
Quando eu terminar de ler e analisar esse documento, vou tentar trazer alguns intelectuais e especialistas que comentaram esse documento para que leitores do blogspot consigam ter acesso a múltiplas perspectivas e fontes. Esse documento vem chamado a atenção de muita gente, sobretudo no exterior e na própria mídia americana, e é interessante que nós brasileiros — como parte do Hemisfério Ocidental e alvo potencial dessas políticas — tenhamos atenção nisso. Também sei que esse documento também é de interesse as pessoas dos mais diversos países que leem esse blogspot.
Como todo mundo queria muito esse texto, sobretudo essa parte específica, vou trazer a imagem e a tradução na íntegra. Essa parte falará o que os Estados Unidos querem do mundo.
Nome:
National Security Strategy of the United States of America
Autores:
The White House
Donald J. Trump
National Security Council
O documento pela sobre a necessidade de conexão entre meios e fins. E faz dois questionamentos:
1- O que é desejado?
2- Quais são os mecanismos disponíveis, ou que podem ser realisticamente criados, para chegar aos resultados desejados?
A razão dessas perguntas é muito simples: o propósito da política exterior é a proteção dos interesses nacionais vitais.
Os autores vão falar do período da guerra fria e como os Estados Unidos se posicionaram razoavelmente bem nesse período. Todavia, após o fim da guerra fria, as elites da política exterior convenceram a si mesmas do domínio americano permanente do mundo inteiro pelo melhor interesse do próprio país. Só que havia, nesse plano, duas coisas que não poderiam ser sustentadas simultaneamente:
1- Um massivo Estado de bem-estar social, massivamente administrado e massivamente regulamentado;
2- Um massivo complexo militar, diplomático, de inteligência e de ajuda ao exterior.
Para complicar, graças ao processo de globalização, essas mesmas elites aderiram uma mentalidade que eles determinam como globalista. Esse globalismo se encontraria com uma ideia de livre comércio. Só que essa união entre globalismo e livre comércio destruiu a base da classe média e a base militar dos Estados Unidos. Em razão disso, a economia americana e base militar de decaíram por dependerem da existência da classe média e da base industrial.
Fora isso, houve, segundo esse relatório, aliados e parceiros que foram até mesmo estimulados a deixarem o custo de sua defesa ao povo americano. Além disso, os Estados Unidos tiveram que se intrometer nas questões internas dos seus aliados e parceiros. Essas questões lhe eram periféricas.
A mesma elite defenderia que os Estados Unidos adentrasse em um network de instituições que eram dominadas por um anti-americanismo e transnacionalismo. Essa fusão levava a um dissolvimento do Estado soberano individual.
O texto recoloca a questão estratégica para preservar o poder e a riqueza dos Estados Unidos da América.
Debatedores:
Niall Ferguson
Fareed Zakaria
Intermediador:
Rudyard Griffiths
Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:
https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX
Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:
https://youtu.be/pMCiPssEi4Q?si=xwdManw8KtBok6U_
Se tiver interesse no site:
Vamos olhar para nossos debatedores brevemente para termos um breve panorama intelectual.
- Niall Ferguson:
Historiador britânico-americano, nascido em 1964 na Escócia. É considerado um dos mais influentes e controversos historiadores contemporâneos. Atualmente é Milbank Family Senior Fellow no Hoover Institution (Stanford) e senior fellow no Belfer Center (Harvard). Autor de mais de 16 livros, entre eles The Pity of War, Empire, Civilization, a biografia de Kissinger (em dois volumes) e Doom: The Politics of Catastrophe.
- Fareed Zakaria:
Jornalista, comentarista político e autor indo-americano, nascido em 1964 em Mumbai (Índia). É o apresentador do programa Fareed Zakaria GPS na CNN (desde 2008), colunista semanal do The Washington Post e autor de best-sellers como The Future of Freedom e The Post-American World.
Gosto do The Munk Debate. É nele que posso perceber como o debate brasileiro dá voltas em círculos. Muito do debate brasileiro sequer poderia ser classificado enquanto debate. Hoje mesmo, enquanto dei uma olhada em vídeo, vi uma jornalista emitindo uma série de piadas de quinta-série. Ela emitia opiniões, visivelmente bobas, enquanto se considerava o grande auge da direita brasileira. Era como se, no auge da total ausência de criatividade e elegância, ela se julgava de igual para igual a um Gustavo Corção e a um Christopher Lasch.
Não pense você que o "jornalismo" de esquerda não se resume majoritariamente a uma série de posistas que colocam o nariz para cima e julgam-se mais cultos por repetirem padrões mentais do próprio grupo. Grande parte da direita brasileira e da esquerda brasileira se resume a uma série de posistas que repetem o que há de mainstream em seus respectivos grupos.
O blogspot Cadáver Minimal não é underground pois a sua busca é fazer o menor sucesso comercial ou atingir a menor quantidade de pessoas possíveis. O blogspot Cadáver Minimal é underground pois se recusa a se curvar no oceano de mediocridade que se tornou o país. Se vou escrever textos falando de José Luis Romero e Phillip Blond sendo odiado por esquerda e por direita, tanto faz. Aqui o que manda é o interesse REAL pela vida intelectual e não servir aos interesses dos bandos.
Sim, seria muito mais fácil escrever tudo o que agrada a esquerda ou a direita. Seria muito fácil dizer que concordo com tudo que é mainstream na esquerda e na direita. Só que não se trata disso. Não é sobre isso. O leitor já deve ter lido minhas mil e uma críticas ao trumpismo e ao bolsonarismo. Do mesmo modo, já leu eu tirando o sarro da esquerda. Ele já deve ter lido que sou conservador — e de fato sou —, para depois ler eu fazendo elogios a China em alguns aspectos. Trata-se de complexidade. Não sou contra ou a favor em automático e doutrinariamente, eu analiso e digo o que achei bom e o que não achei tão bom assim. É desse modo que aprendi a pensar.
Eu estou aqui para cumprir um irritante papel: o de dizer que existe algo além do que está aí. Essa possibilidade me foi oferecida pela mudança tecnológica ou pela democratização dos meios de produção cultural por causa do avanço tecnológico. Os meus opositores hão de argumentar: esse homem é apenas um channeiro inculto e iletrado que se arroga da liberdade democrática para escrever textos em formato de shitposting conceitual. De fato, graças a Deus. Eu não levo tão a sério as merdas que eu cago. O que me torna, no mínimo, uma pessoa mais autoconsciente do que 99,9% dos paladinos dos bons costumes e da justiça social. No Brasil, todo mundo faz a mesma porcaria. A diferença é que nem todos sabem que o escoamento vai pro mesmo mar. (Leia sobre o saneamento básico no Brasil).
A ordem liberal pressupõe uma cultura liberal onde uma multiplicidade de perspectivas coexistem. A ordem liberal pressupõe uma democracia liberal onde múltiplas linhas de pensamento coexistem. A ordem liberal pressupõe múltiplos meios midiáticos. A ordem liberal pressupõe um Estado de Direito. Se a ordem liberal está naufrando, a estrutura comportamental antiliberal já previamente se estabeleceu a isso.
Isso nos leva a centralidade: se ninguém quer uma ordem liberal pautada pela multiplicidade de visões, como podemos viver em uma? A ordem liberal, assunto do debate, sempre aparece por aqui. A questão é: existe ou existiu uma ordem liberal de fato? Sim, houve a globalização. Todavia a ideia de várias ordens liberais que compartilhavam o mesmo Estado de Direito e sociedades livres não é algo que se correlaciona em automático com a globalização. Um grande comércio entre as nações? Sim. Um comércio aberto entre as nações? Mais ou menos. Vários países de pessoas livres que possuem um governo baseado em contratos e regras? Não, de vez em quando talvez. Ao mesmo tempo, vivemos em um mundo com menos violência e com mais regras. A ordem — se é que é uma ordem — não é boa, tem seus defeitos e as suas qualidades. Abandoná-la sem saber o que nos espera é tomar um risco. Aceitá-la sem pensar em seus pontos críticos é tolice.
A forma que os adversários debatem é bastante. Se por um lado a globalização trouxe maior qualidade de vida para muitos países, não houve paralelamente uma redistribuição de renda e também não houve um aumento radical da ordem liberal como se pressupunha. Anteriormente, a distribuição de riqueza, a ordem liberal e a globalização eram tidos como fenômenos correlacionados ou parte do mesmo processo. Ao mesmo tempo, as rápidas mudanças sociais geraram ansiedade em muitos povos que encontraram um mundo que lhes parecia instável e incontrolável. Não estou dizendo que a ordem liberal é boa por si mesma ou que a ordem internacional liberal é boa por si mesma. O sistema político democrático, aqui no senso de democracia representativa horizontal, vem sido questionado em prol de uma democracia representativa vertical por causa das constantes cruzadas populistas que invadem a cena pública e depois a cena política.
Falamos sobre mundo cosmopolitano, aberto e plural. Ao mesmo tempo, estamos em um mundo onde se impera uma guerra fria civil. Se a ordem liberal é caracterizada pela convivência não violenta, e até harmoniosa, de diferentes crenças com transferência pacífica de poder... como podemos ter em paralelo a essa ordem liberal uma sociedade que é caracterizada por uma profunda cisão social onde setores da sociedade estão extremamente incomodados um com o outro mesmo que sem um confrontamento direto?
Se voltarmos um pouco mais atrás, vivíamos o período da Guerra Fria (fenômeno essencial para compreender o que é uma guerra fria civil), onde os Estados Unidos e a União Soviética disputavam a hegemonia. Nesse período, houve uma série de conflitos violentos entre as diversas esferas de influência desses dois impérios (mesmo que eles dissessem não serem impérios). Várias revoluções e contra-revoluções foram feitas. No Brasil, tivemos o regime civil-militar, por exemplo.
Ao mesmo tempo, precisamos pensar as seguintes questões:
1. O que substituiria esse arranjo imperfeito? Um modelo hipoteticamente perfeito que pode dar errado?
2. Devemos forçar um sistema político ocidental em países que não querem adentrar nesse modelo?
3. Qual a diferença entre as elites políticas antiliberais e o povo que elas conduzem?
4. A ordem liberal é um bem em si mesmo?
5. O problema é a ordem liberal internacional ou a ausência de ordem liberal nos países que compõem a ordem liberal internacional?
6. O que queremos dizer por "ordem liberal"? Se ordem liberal for só capitalismo e livre comércio, qualquer país pode entrar mesmo que seja antiliberal no sentido político, institucional, jurídico?
A discussão sobre o fim da ordem internacional liberal passa e sempre passará sobre o que definimos como "ordem internacional liberal". Quando os dois debatedores discorrem sobre o tema, eles têm uma posição de conflito a respeito sobre o que é uma ordem internacional liberal. Como já escrevi anteriormente: a ordem internacional liberal pode ser descrita como capitalismo e livre comércio ou como um país com sistema político, judiciário e econômico liberal. Mas aí vem outra questão: a China pode ser descrita como país liberal? Se olharmos para a China, ela não é um país liberal no sentido político ou jurídico. Do mesmo modo, o regime da China é um capitalismo de Estado, um modelo (neo)keynesiano ou aquilo que chamam de socialismo de mercado? Quando entramos em países próximos, como Vietnã e Laos, entramos nessas mesmas questões.
Se olharmos o Brexit, quando o Reino Unido caiu fora da União Europeia, poderíamos pensar em duas hipóteses para ilustrar o caso:
A- A saída do Reino Unido da União Europeia é um caso de ascensão antiliberal, visto que contraria o comércio multilateral como norma;
B- A saída do Reino Unido da União não é um caso antiliberal, visto que ainda é um país com instituições liberais e integrado ao comércio global.
Só que disso surgem outras questões:
1. O multilateralismo é sinônimo de ordem econômica liberal ou um país que faz acordo bilaterais, mas que seja suficientemente aberto, pode também ser considerado como liberal?
2. Estar na União Europeia é o mesmo que estar na ordem internacional liberal e estar fora é o mesmo que estar fora dessa ordem no caso dos países europeus?
3. A União Europeia fortalecer a ordem internacional liberal ou cria um bloco que defende seus interesses que muitas vezes vão contra a ordem internacional liberal?
4. Quando o Reino Unido sai da União Europeia temos uma possibilidade dele se integrar mais a ordem internacional liberal ou temos uma possibilidade oposta?
5. Um país pode ser liberal no sentido político e econômico internamente sem fazer parte da ordem internacional liberal?
6. Um país pode ser integrado comercialmente a ordem internacional liberal ao mesmo tempo que possui uma economia iliberal?
A Ordem Internacional Liberal também traz várias excelentes oportunidades. Isto é, ela possibilita que possamos atuar coletivamente em crises globais. Tratamento de epidemias, crises financeiras, troca de know-how. Muitas pessoas que se opõem a Ordem Internacional Global são mais velhas, mais rurais e menos educadas. Todavia não podemos incorrer no risco de pensar que os opositores a ordem liberal global são automaticamente de esquerda. Muitos dos maiores fundadores e mantedores da ordem eram/são neoconservadores.
Outro argumento central é: pessoas cosmopolitas são favoráveis a ordem liberal internacional. O que seria, então, ser cosmopolita? Um sujeito que lê e estuda conservadores e tradicionalistas americanos, ingleses, espanhóis, italianos, canadenses (e tantos outros) que se opõem a ordem liberal internacional seria um cosmopolita? O que define ser um cosmopolita e o que define ser anti-cosmopolita? Do mesmo modo, a Coreia do Norte não faz parte dessa ordem e é de extrema esquerda.
A conexão com a Internet e o mundo interconectado também trazem várias possibilidades. Estamos consumindo um universo cultural maravilhoso em uma parte. Eu posso ver conteúdo da Argentina, do Canadá, da França, dos Estados Unidos, de Portugal, do Reino Unido. Tudo isso é maravilhoso e okay. De fato, tenho até me tornado mais cosmopolita com o passar dos anos. Porém surgem dúvidas quanto ao sucesso ilimitado dessa fórmula. Fábricas de troll de outros países aparecem para influenciar eleições, radicais ideológicos e religiosos convertem novos membros, países engajam em conflitos xenofóbicos pela Internet. O lado bom e o lado mau precisam ser mensurados nisso tudo.
Outra questão que surge é: o abandono da ordem liberal internacional não é o caminho mesmo da demolição dessa ordem? Quando os Estados Unidos fecha o seu comércio e adota postura nativistas, isso não leva a um posicionamento em que posturas antiliberais — das quais ele mesmo tents evitar — se tornem um padrão? Essa questão é central: se o abandono da ordem liberal internacional representa acidental ou substancialmente abandono da própria ordem liberal interna, é proveitoso, útil e agradável seguir esse caminho? Se acreditamos que o fim da ordem liberal internacional é útil, visto que isso pode levar a preservação da ordem liberal interna, mas paradoxalmente isso leva a destruição da própria ordem liberal interna, não decaímos em uma contradição e autodestruição?
Aqui preciso colocar uma pontuação extremamente necessária a respeito da China. Eu não creio que as falas dos americanos a respeito da China estão inteiramente corretas. O sistema político chinês é, para nós que estamos longe dela, algo que desconhecemos muito e, por outro lado, algo que damos muitos palpites. O que eu vi em canais como o Rise of Asia, recomendado recentemente aqui no blogspot (https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/recomendacoes-cadavericas-4-rise-of-asia.html), é bem diferente do que é conversado no debate. Vale lembrar que a leitura e o entendimento de múltiplos pontos de vista é sempre válida. O "Ocidente" deveria impor o seu modelo político e tomá-lo como universalmente válido? Se sim, até que ponto?
Outra questão que entra é a crise da imigração. Atualmente existe uma dificuldade de integração dos imigrantes. Se a Europa, e recentemente o Canadá e os Estados Unidos, não se lidarem com isso, será difícil que a ordem liberal internacional resista. Outro ponto é: após Estados Unidos e Europa abandonarem a África, a China vem fornecido parceria em infraestrutura e construído um imenso soft power. Muitos falam sobre o "imperialismo chinês", mas quando vamos as incursões da Europa na África, vemos que a Europa agiu violentamente no continente africano. A China está fazendo uma troca tecnológica importante para a África. Até pouco tempo atrás, diga-se de passagem, dizia-se que os europeus e americanos deram importante infraestrutura para países latinos e africanos. Qual seria o problema? Latinos e africanos não aproveitaram para desenvolver as suas próprias capacidades com planejamento de longo prazo. Do mesmo modo, a China aparece na América Latina e na África, de modo absolutamente menos violento, e é acusada de imperialismo. Isso me fez lembrar de uma conversa com um amigo meu. No qual eu disse:
— Esse imperialismo chinês é foda, ele chega com a arma da ferrovia, da troca tecnológica e de parcerias de longo-prazo. Se a China continuar com esse imperialismo todo, logo logo o mundo enfrentará a tragédia de não ter mais fome da África.
Caso recente foi o das tarifas aplicadas ao Brasil — que ferrou mais americanos do que brasileiros —, enquanto os Estados Unidos aplicavam tarifas ao Brasil, a China estava fazendo uma série de projetos no nordeste brasileiro que levavam a sua industrialização. Além disso, a China está em parceria conosco para ferrovias e industrialização. Compreendo que os brasileiros vejam nossos irmãos anglos como dotados de alguma semelhança e parceria estratégica, mas nos últimos tempos a nossa história política vem demonstrado solidamente que a China vem sido uma parceira extremamente mais ousada e solidária.
Nome:
Is American Democracy in Crisis?
Debatedores:
E. J. Dionne Jr.
Andrew Sullivan
Newt Gingrich
Kimberley Strassel
Intermediador:
Rudyard Griffiths
(Por favor, não reclamem da falta de análises. É fim de ano e eu ando um pouquinho bêbado demais pra ler tanto. Tenho compensado muito bem a falta de conteúdo)
Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:
https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX
Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:
https://youtube.com/playlist?list=PLjdgXaecKQuFCXNEKtHkEC_RmfYbJR3ZY&si=tGpCetTZ0USRhi2Z
Se tiver interesse no site:
Uma breve introdução das figuras:
— Pro (a favor da resolução: contra Trump):
- E. J. Dionne Jr.:
Jornalista, colunista do Washington Post, professor na Georgetown University e fellow sênior no Brookings Institution. Autor de livros como "Why Americans Hate Politics" e "One Nation After Trump".
- Andrew Sullivan:
Escritor, blogueiro e editor britânico-americano, ex-editor da The New Republic e colaborador da New York Magazine. Conhecido por defender o casamento gay e ser um conservador independente. Ele apoiou Obama, Clinton e Biden em eleições passadas.
(Nota cínica: daqui a pouco recebo mais uma mensagem no meu NGL me acusando de usar friend fire contra conservadores, esmagando a direita nacional e americana :v)
— Con (contra a resolução: pró-Trump ou defensores):
- Newt Gingrich:
Político republicano, ex-presidente da Câmara dos Representantes dos EUA (1995-1999), autor e comentarista. Foi um dos arquitetos do "Contract with America" e é uma figura influente no Partido Republicano.
- Kimberley Strassel:
Jornalista e colunista conservadora do Wall Street Journal, onde escreve a coluna "Potomac Watch". Membro do conselho editorial do jornal, autora de livros como "Resistance (At All Costs)".
Sempre me questionam a razão de eu trazer tantos ares de fora. A razão é bem simples: o debate brasileiro é asfixiante. Se não pegamos um ar, morremos em nosso circle jerk.
Uma coisa que tenho percebido é que não vemos nada além do mainstream em nosso "consumo cultural". Fiquei surpreso quando me deparei com o triste fato de que ignorávamos amplamente vários setores da intelectualidade americana. Não só isso, da intelectualidade inglesa e canadense também. Exemplo disso é o já repetido tema do Red Tory, tema esse que o(a) leitor(a) desse blogspot já deve ter cansado de me ver repetir. Pretendo ir, pouco a pouco, trazendo mais e mais conteúdo para quebrar o grande silêncio que está entre nós e o mundo. Procurando mais listas e mais diferentes autores, seja da esquerda, seja da direita, seja do centro.
Não é como se eu fosse ter um grande impacto. Creio que a média atual é entre 100, 200 ou 300 visitas diárias para o blogspot. Grande parte dos visitantes nem são brasileiros. Atualmente, perdi completamente a capacidade de sabee quem estou supostamente influenciando. Teve um dia que eu olhei e vi que o maior acesso vinha dos Países Baixos. Não conheço ninguém de lá, mas agradeço a visita e espero que apreciem o conteúdo. Creio que vários usam o tradutor dos seus navegadores para consumirem o conteúdo do blogspot.
Em relação ao debate, achei interessante o começo citando as contas a respeito da quantidade de mentiras que Trump espalhou em suas redes sociais (ou em discursos formais). Confesso que ri um pouco disso.
Os debatentes demonstraram pontos muito interessantes. Posturas de ruptura democrática são comuns em governos de democratas e de republicanos. Uma das grandes curiosidades é essa: Obama, por exemplo, tentou governar sem o congresso. Trump seguiu uma trilha semelhante em seu modo de agir, embora de uma maneira mais truculenta. Quando analisam Trump, lembram de dois presidentes em particular: Andrew Jackson (um democrata populista, inegavelmente racista e disruptivo) e do Richard Nixon (um republicano que ficou conhecido pela Watergate e pela "maioria silenciosa").
Concordo com as duas partes:
1. Trump mente muito mesmo, isso é evidente;
2. A defesa da soberania nacional é importante.
A questão é: as contumazes passadas de pano aos democratas se tornaram o comportamento predileto da mídia mainstream, ao mesmo tempo que a "defesa da soberania" não pode vir de um populismo irresponsável e estrategicamente tolo. Também preciso mencionar, e é sempre bom mencionar, a forma "bastante amigável" que Trump é com os russos, a forma com que ele enriqueceu em seu primeiro mandato e, muito provavelmente, enriquecerá muito mais nesse segundo.
O brasileiro médio, por sua vez, olha com espanto o que digo. Tenho vários amigos de direita, vou em suas festas. Quando eu digo que existem conservadores antitrumpistas, eles se escandalizam. Eles ainda acreditam na ideia de uma direita que canta num coral inteiramente harmônico. Quando eu falo o mesmo para esquerdistas, a conclusão é que são pessoas tão "maldosas e malignas" quanto Donald Trump. Percebo que sou uma pessoa imensamente solitária por causa disso. Mentira, chamem-me mais festas.
Outra questão picante: James Comey. James Comey foi um diretor do FBI que investigou o Russiagate — o caso da Rússia interferir nas eleições americanas para favorecer Donald Trump. Em 2017, ele foi demitido pelo próprio Trump. Atualmente, em 2025, ele enfrenta uma vingança de Donald Trump. O caso de Trump contra James Comey é um que seus críticos apontam como exemplo concreto de obstrução de justiça. Trump não poderia, e nem deveria, demitir o homem que investigava a relação dele com a Rússia, visto que isso era uma questão de segurança nacional. Do outro lado, James Comey pediu para um amigo passar um memorando ao The New York Times, o que viola políticas internas do FBI.
Os debatentes falam também de Joe Arpaio (ex-xerife). Joe Arpaio tinha métodos que eram julgados controversos. Racialmente controversos para ser mais exato. Quando Trump perdoou ele (perdão presidencial), muitos julgaram isso como uma sinalização racista. Ou, em outras palavras, uma sinalização de que as pessoas poderiam usar meios duros e rudes de forma racista contra imigrantes. É válido lembrad que Trump tentou, em primeiro lugar, obstruir a investigação.
Charlottesville (Virginia) é outro caso emblemático. Uma manifestação ocorreu para tirar a estátua de um ex-confederado (Robert E. Lee). Na manifestação, encontravam-se nacionalistas brancos e neonazistas. A manifestação, que ocorreu em 2017, foi chamada de "Unite the Right". Grupos antirracistas entraram nela em uma lógica de confrontamento. Trump teve o seu pronunciamento, condenou o racismo, mas a briga surgiu quando Trump falou que existia gente legal em ambos os lados.
Creio que a própria questão que se desloca nesse debate é a natureza da democracia horizontal (onde qualquer um pode se eleger presidente). As redes sociais e a internet possibilitaram a ascensão sem fim de populistas. Anteriormente as mídias tradicionais eram mais questionadas a respeito da sua credibilidade informacional. Atualmente múltiplas mídias possuem pouca ou baixa credibilidade. Fora isso, a guerra fria civil proporciona um ambiente de maximização de vieses ideológicos. A questão que entra é: como a democracia horizontal pode impedir a entrada dos piores se ela mesma é responsável pela entrada dos piores? A democracia horizontal destrói ou corrói os mecanismos que deveriam garantir a sua própria existência. Isso não foi levantado no debate enquanto tal, mas me permito a licença poética de questionar a funcionalidade atual da democracia horizontal na qual grande parte do Ocidente se ancora.
Quando nos perguntamos a respeito da entrada de líderes populistas que destroem os mecanismos institucionais, deveríamos nos questionar sobre o que possibilitou a entrada dos líderes populistas no poder. Se estamos colocando gente despreparada e autocrata... a questão recai no: "o que permite que NÓS coloquemos no poder gente despreparada e autocrata?". É evidente que não falo em "nós" enquanto um povo que vota 100% no mesmo candidato, mas sim no fato de que parte de nós votou neles. Talvez grande parte do problema não seja, pura e simplesmente, a entrada de líderes populistas, talvez seja o próprio sistema que legalmente permite a sua população votar em seu processo de autodestruição.
Muitos falam da democracia vertical ou de mecanismos que impeçam líderes corruptos. O fato de termos, por exemplo, a Lei Ficha Limpa já garante uma salvaguarda diante disso. Todavia deveríamos ter mecanismos legais — ou até mesmo uma reestruturação ou criação de um outro sistema — que impeçam políticos que levem a corrosão entrem no poder. Isto é, um mecanismo técnico que leve a uma saúde política. Enquanto isso não for seriamente pensado, o risco de sermos governados por representantes que colocam teorias conspiratórias como pauta (e arma) política é uma constante que dificilmente vamos conseguir suportar turno após turno. O que é interessante: se ao mesmo tempo temos que garantir que só os melhores vençam, caímos no risco de criar uma tecnocracia pura que também destrua toda e qualquer autonomia individual.
O que ocorre nos Estados Unidos deve servir de lição para o brasil. Veja a atual situação:
- Sentimentos e mensagens separatistas aparecendo;
- Campanhas xenofóbicas entre múltiplos grupos brasileiros;
- Rivalização cada vez maior entre regiões do país;
- Crescimento entre mensagens de ódio e campanhas de desinformação;
- Aumento da rivalidade e tensões de gênero.
Eu poderia citar muitos mais fenômenos que ocorrem no Brasil, mas é evidente que estamos em uma guerra fria civil e que várias mensagens só aumentam isso.
O ano está acabando. Nesse ano, o blogspot Cadáver Minimal cresceu 2.277.6% em número de visualizações. O Brasil mudou muito. Eu mudei muito. Espero estar conseguindo trazer um bom conteúdo para todos vocês. Peço-lhes que me acompanhem também em 2026. Continuarei a me esforçar para trazer conteúdo para todos.
Feliz ano novo!