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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Caveira Casual #6 — The Cure e Looping de Flashback

 



Enquanto ouço "Seventeen Seconds" do The Cure, bem na música "Reflection", dominada pelo som sombrio, penso na influência de uma pessoa na vida de outra. O momento em que decidi que frequentaria o /mu/ do 4chan se dá pela influência de minha ex-namorada, atualmente meu ex-namorado, visto que mudou de gênero. Por falar em mudança de gênero, a música também mudou: "Play For Today" começou a tocar.


Minha ex, meu ex, tinha o costume de dizer que meu gosto musical era horrível. Isso me fez procurar o /mu/ do 4chan para ouvir mais álbuns. Lá, tornei-me /mu/tant. Isto é, um hipster que ouve música atrás de música até se tornar musicalmente irreconhecível para a maioria das pessoas. Posteriormente também viriam o /tv/ e os filmes Found Footage. O que me tornou ainda mais hipster.


Começou a tocar "Secrets". Percebo que esse álbum rima mais com o tom da minha personalidade atual. Isto é, um pouco mais sombriamente harmônica. Não sei se isso é uma impressão do momento. Também não saberia especificar quando a minha personalidade se tornou assim. Sou um desconhecido que, por algum motivo, está sempre metido em alguma confusão ou algum grande plano. Também estou sempre lendo o que ninguém lê, assistindo o que ninguém vê, ouvindo o que ninguém ouve. Torno-me cada vez mais deslocado, por assim dizer. É o preço do aprofundamento. Todavia há o contrapeso de ser mais aberto a diferentes tipos de experiências.


Começou a tocar "In Your House". Agora me lembrei da razão de continuar a ser /mu/tant: queria continuar a me redescobrir. Ouvir álbuns e descobrir as diferentes sensações que me causam gera espantamento. Músicas são criadas para gerarem sensações. Ouvir álbuns é como passear num parque de sensações e, também, mergulhar em memórias antigas que passam como flashbacks de assuntos mal resolvidos ou que nos remetem a experiências que esquecemos. Atualmente me é mais apreciável ficar ouvindo música, ler livros e assistir filmes do que ficar vendo gente brigando na internet.


O som "Three" começa a tocar. O som inicial parece o de um filme de terror. Mais especificamente, algo que gera um suspense. Embora se construa uma balada sombria logo após isso. Sombriamente dançante, melancolicamente belo. É difícil descrever tal experiência taciturnamente bela. É como estar internado numa cama de hospital enquanto médicos e enfermeiros dançam, você não entende, meramente sorri e se diverte enquanto o seu coração para de bater.


Começa a tocar "Final Sound", de 52 segundos. Instrumental. Tom sombrio. Mas logo estou em "A Forest". Sinto que estou numa floresta, uma com um pântano. Sinto-me sozinho. Sinto o frio que o som transmite. Embora a bateria comece a bater a ponto de fazer parecer que corro sozinho. Talvez eu esteja a correr de meus próprios sentimentos. Por algum motivo, lembro-me de que baixei "The Red Room" de H. G. Wells no Project Gutenberg. É como se eu buscasse itens, sensações, livros, pessoas que eu esqueci. Ou até mesmo como se eu buscasse o que eu perdi em mim mesmo. Penso na nova identidade que estou formando após minha última empreitada literária. Não há uma forma definida. Apenas algo que eu não sei o que é. Não sei o que estou a me tornar. Não sei do que estou a escrever. Só sigo indo. Indo. Indo. Indo. Correndo de forma paranoica para um futuro que não sei exatamente o que é.


Fui almoçar. Tinha terminado a música anterior antes de sair do quarto. Agora ouço "M". Uma música com um título extremamente curto. Todavia, extremamente bem composta. Creio que ouvir álbuns é uma excelente forma de se reencontrar. Sair psicologicamente do passado requer que estejamos mergulhados em novas experiências. Mesmo que seja doloroso. Às vezes ficamos tendo um "looping de flashback". O que é horrível? Enquanto eu escrevia, fui parar na "At Night".


Quase tudo que faço tem a ver com alienação. Quero ler, pois quero me alienar. Quero ouvir álbuns, pois quero me alienar. Quero ver filmes, pois quero me alienar. Quero sair para beber, pois quero me alienar. Quero sair para ouvir música, pois quero me alienar. É como se eu quisesse criar uma barreira. Uma barreira que me protegesse do mundo e das pessoas que estão nele. Isso até eu me recuperar. Me recuperar de algo que eu não sei exatamente o que é. Me recuperar de algo que me suga há muitíssimo tempo. Algo psicologicamente indefinido e temporalmente indecifrável. Quase toda minha existência é e foi assim. De alguma forma, isso sou eu. Há um castelo mental a se erguer diante de cada experiência que eu tenho, da qual eu tive e da qual terei. Não sei a razão, apenas sei que é assim. Não queria funcionar desse modo, apenas funciono desse modo. Já tentei mudar, já tentei ser outro alguém, só que nunca obtive sucesso nessa empreitada. Quase toda minha vida literária é uma fuga do sofrimento. Sofrimento esse que é a própria vida exterior a qualquer coisa que não seja a minha mente.


Cheguei à música "Seventeen Seconds". Do mesmo modo que o álbum anterior, esse álbum também tem uma música que dá o nome do próprio álbum. Uma questão que sempre me pegou é o fato das pessoas lerem esse blog. Nunca entendi a razão das pessoas lerem esse blog. Mesmo agora a audiência internacional cresce conforme o Google facilita tudo com a tradução automática. Um ex-amigo costumava dizer que as pessoas nunca me leriam e nunca entenderiam nada do que escrevo. Agora eu sou lido sem nunca saber a razão de eu ser lido. Esse mês e o mês passado tiveram mais de dez mil acessos. Tempos atrás, cheguei a ter vinte mil.

sábado, 28 de março de 2026

Memória Cadavérica #43 — Feira Moderna



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.

Contexto: só quis guardar a interpretação que fiz de uma música.

Sou suspeito para falar dessa música. Gosto mais da versão da Evinha. Acho Beto Guedes um gênio, mas seriamente prefiro a versão da Evinha. A poeticidade duas únicas frases alteram tudo. Tenho uma interpretação bastante pessoal dela. De modo que a experiência psicológica e aquilo que quero expressar epistemologicamente se confundem.


Lembro-me das noções de hegemonia de Gramsci, das noções de performática de Judith Butler, das noções de "meios de produção cultural" de Raymond Williams. Fora isso, lembro-me da palestra da Heritage Foundation sobre "cold civil war" (guerra fria civil). Durante anos de guerra fria civil, guerra cultural e todas as distinções que vêm surgindo, pude encarar essa música várias vezes nos mais diversos ângulos, seja mais à esquerda ou mais à direita. A ideia de "Catedral" do Mencius Moldbug também dialoga com a ideia dos meios de produção cultural e do domínio da cultura. Quanto ao mundo, vale a regra de Tears for Fears: "Everybody Wants to Rule the World".


"Tua cor é o que eles olham

Velha  chaga

Teu  sorriso é o que eles temem

Medo, medo"


A música começa falando sobre o racismo. O racismo não é tratado como um ferida cicatrizada, mas como algo que ainda existe dentro do corpo social. Depois disso, existe a noção de que o sorriso da pessoa marginalizada traz suspeita social. Ou seja, não só o marginalizado ainda sofre, como a sua felicidade também é objeto de escrutínio social negativo.


O medo não é só da sociedade, que aparece com seus tabus. Existe também um medo interno, um medo internalizado que falsifica a sua expressividade enquanto ser e que gera nele uma incapacidade. Ou, de outro modo, gera um desenvolvimento de gradação. Naquilo que é tolhido, ele expressa menos ou falsifica a própria experiência.


"Feira moderna

O convite sensual

Oh, telefonista

Se a palavra já morreu

O meu coração é velho

O meu coração é morto

E eu nem li o jornal

E eu nem li o jornal"


Repare que, na versão de Beto Guedes, existe o fato de que o cantor diz "O meu coração é novo! O meu coração é novo". Na versão de Evinha, vemos um "O meu coração é velho! O meu coração é morto!". Essa alteração gera uma melancolia profunda, mas o seu resultado lírico é extremamente belo. Isso não é pura estética, é alteração do regime emocional da música. Existe a troca da "estrutura de esperança", vista em Beto Guedes, para a "estrutura de esgotamento", isso gera uma alteração substancial na psicologia da música.


A "feira moderna" é o "tribunal social", isto é, aquela noção de que somos julgados pela sociedade. A feira também é o espetáculo, a exposição, o consumo e a troca dentro de um mercado de identidades. É um espaço onde as pessoas são vistas, avaliadas e consumidas simbolicamente. A ideia de constante julgamento social leva o indivíduo a decair na idolatria social, isto é, substituir a totalidade pelo endeusamento dos julgos e mandamentos do corpo social. Todavia esse julgamento aqui não é algo complexo, mas superficial. Aqui, a autencidade e sinceridade são substituídas pela aceitação das regras socialmente estabelecidas, mesmo que essas não venham a ser normas jurídicas propriamente ditas.


Quando a pessoa liga para se comunicar, ela sente que a palavra já morreu. Não é um sentido literal de que a pessoa está sem palavras, mas que por sua invalidação social é incapaz de se comunicar adequadamente. Mesmo em um período de alta comunicação, permanecemos incomunicáveis perante o julgo do corpo social. A tecnologia avança, mas a possibilidade de falar ainda é reservada a poucos. Quando existem normas sociais, essas normas tornam-se condições que aprioristicamente determinam o que pode ser discursado ou não, o que pode ser expresso ou não, a isso chamamos de normatividade.


Dessa experiência auto-anulatória, surgirá a impressão de que se está morto. Viver é expressão, impossibilidade de expressar-se é interpretado psicologicamente como uma forma de morte. Ler o jornal seria ler os meios de comunicação social, mas os meios de comunicação social são determinados pelo discurso hegemônico. Isso dialogará simultaneamente com a alienação (Karl Marx), reconhecimento (Hegel) e performatividade (Butler).


"Nessa caverna

O convite é igual

Oh telefonista

Se a distância já morreu

Independência ou morte!

Descansa em berço forte

A paz na Terra, amém

A paz na Terra

Independência ou morte

Descansa em berço forte

A paz na Terra, amém

A paz na Terra, amén

Amén"


O trecho "nessa caverna" é interessantíssimo. Lembra-me o "Mito da Caverna". O corpo social é um local de ilusão, tal como existe uma distinção entre o "mundo das ideias" com seus arquétipos perfeitos e o "mundo real" com suas cópias imperfeitas, existe uma distinção entre as idealizações dos múltiplos indivíduos do corpo social e o mundo real onde quase ninguém se adequa perfeitamente a norma social. A idealização de um, sobretudo a idealização mais socialmente aceita, levará a falsificação do outro, levando a uma expressão menor do seu ser. A caverna pode ser interpretada também não como uma ilusão metafísica, mas como um ambiente social fechado de reprodução de normas. Tal noção aproximar-se-á da noção de "hegemonia" (Gramsci) e de normatividade (Butler).


O "convite" é sempre igual: a adequação à norma social. Mudam-se as normas, já que existe uma condição espaço-temporal, mas permance o imperativo da normatividade. Perante o imperativo da normatividade, a distância já morreu: a norma social é imposta, mesmo que não seja uma norma jurídica. Em outras palavras, existe uma redução jurídica e uma redução sociológica, imposta pelos próprios ritos do corpo social.


"Independência ou morte" e "paz na Terra", por sua vez, pode ser interpretada de várias formas (além de uma dessas ser referência a frase de Dom Pedro I):

1- Como adequação ao império da normatividade;

2- Como piada a esse aspecto;

3- Como desejo de morrer apenas para ser livre para não se adaptar;

4- A vontade de ser independe e livre.


A música "Feira Moderna" possibilita uma experiência subjetiva dentro do campo da disputa cultural. Isto é, podemos ver a hegemonia de Gramsci, a performatividade de Judith Butler, os meios de produção cultural de Raymond Williams, a guerra fria civil da Heritage Foundation, a Catedral de Mencius Moldbug... podemos ver, resumidamente, a vontade universal do poder cultural. Essa música representa, para mim, a experiência de um sujeito cuja subjetividade é progressivamente anulada por normas sociais internalizadas, levando à incomunicabilidade, à perda de vitalidade e a sensação de morte simbólica. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Nota de Pesquisa (NDP): lista de metal tradicional pelo /mu/

 


Notas:


1. Diante do sucesso que as listas de livros indicados pelo 4chan/leftypol/wizchan trazem pro blogspot, decidi ir para o /mu/ do 4chan e trazer uma lista de bandas e álbuns de metal tradicional indicados pelos /mu/tants (usuários do /mu/ do 4chan). Caso tenham interesse, leiam meu ensaio de horror epistemológico de esoterismo channer (https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html) que tem mais de 4.500 visualizações;

2. Essa lista teve o mesmo método que usei nas anteriores:

https://cadaverminimal.blogspot.com/search/label/Nota%20de%20Pesquisa%20%28NDP%29?m=0

(Decidi linkar a série toda para ficar mais fácil)

3. Isto é, transformei o fio em PDF e pedi para uma IA extrair os nomes das bandas e álbuns.


— Bandas e Álbuns Mencionados no Thread /mu/ - Traditional Metal


— Bandas:


— Bandas Clássicas e Tradicionais:


- Tank

- EZO

- Piledrive

- Queensrÿche

- Overkill

- Anthrax

- Death Angel

- Led Zeppelin

- Iron Maiden

- Stryper

- Manowar

- Dream Evil

- Def Leppard

- Wishbone Ash

- Fu Manchu

- Kyuss

- Black Label Society

- W.A.S.P.

- Dokken

- AC/DC

- Deep Purple

- Rush

- Rainbow

- Savatage

- Saviour Machine

- Prong

- Danzig

- White Zombie

- Merauder

- Candlemass

- Cirith Ungol

- Crimson Storm

- Flight

- Glacier

- Helms Deep

- Judas Priest

- Riot City

- Europe

- Yngwie Malmsteen

- Blackfoot

- Blind Guardian

- Lucifer's Friend

- Skid Row

- Virgin Steele

- Thin Lizzy

- Sex Pistols

- Slade

- Motörhead

- Stratovarius

- Running Wild

- Avantasia

- Armour

- Ceres

- Heavy Sentence

- Visigoth

- Naevus

- Legendry

- TNT

- Masterplan

- White Lion

- Vixen

- Stryper

- Guns N' Roses

- Poison

- Bon Jovi

- Mötley Crüe

- Ratt

- Crimson Glory

- Savatage

- Helix

- Armoured Saint


— Vocalistas Individuais Mencionados:


- Dio

- Rob Halford

- Bruce Dickinson

- Blacky Lawless

- Eric Adams

- Dave Mustaine

- Chester Bennington

- David DeFeis

- Zakk Wylde

- Geoff Tate

- Todd La Torre

- Graham Bonnet

- Ronnie James Dio

- Lemmy

- Mats Levén

- Charlie Benante

- Tommy Victor

- Mike Scacia


— Álbuns:


— Álbuns Completos Mencionados:


- Fight or Fall (várias menções)

- Bloodstreets

- Sign of the Crimson Storm

- Johnny's Back

- Shellshock (Tank)

- Struck by Lightning (Tank)

- Turn Your Head Around (Tank)

- Heavy Artillery (Tank)

- Stay Ugly (Piledrive)

- We've Come for You All (Anthrax)

- The Evil in You (At Vance)

- The Blessed Hellride (Black Label Society)

- Condition Critical (Queensrÿche)

- Condition Hüman (Queensrÿche)

- Feel the Fire (Overkill)

- Years of Decay (Overkill)

- No Quarter (Led Zeppelin)

- Future World (várias menções)

- Keeper Pt. 1 (várias menções)

- Honour and Blood (várias menções)

- Gutter Ballet (Savatage)

- Graceful Inheritance (várias menções)

- In the Search Of (Fu Manchu)

- Evilized (Dream Evil)

- The New Order (várias menções)

- Into the Fire (Dokken)

- It Don't Matter (Def Leppard)

- No Smoke Without Fire (Wishbone Ash)

- Bastille Day (Rush)

- Fly By Night (Rush)

- Masterplan (Masterplan)

- Dark Parade (Cirith Ungol, 2020)

- Livin' on the Bad Side (Crimson Storm, 2025)

- A Leap Through Matter (Flight, 2018)

- The Passing of Time (Glacier, 2020)

- Treacherous Ways (Helms Deep, 2023)

- Firepower (Judas Priest, 2018)

- Burn the Night (Riot City, 2019)

- The King Will Return (Europe)

- Hypatia (Flight)

- Trilogy Suite Op: 5 (Yngwie Malmsteen)

- Eternal Idol (Black Sabbath)

- Refuge Denied (várias menções)

- Dungeon Crawler (Legendry)

- Tyrant's Rise (Ceres)

- Bang to the Rights (Heavy Sentence)

- Final Spell (Visigoth)

- Heavy Burden (Naevus)

- Armour (Armour)

- Tell No Tales (TNT)

- Piledriver (várias menções)

- The Def Leppard (Def Leppard)

- The New Order (Trial)

- Gutter Ballet (Savatage)

- Graceful Inheritance (Visigoth)

- Heart of a Lion (várias menções)

- Future World (várias menções)

- Subhuman Race (várias menções)


— Singles e Canções Individuais Mencionadas:


- Flight of the Warrior

- Space Child

- Pilgrim

- Heart of a Lion

- Play the Game

- Toxic Shadows

- California Man

- Homer

- Mean Man

- Eyes of a Stranger

- Last Resort

- Genghis Khan (instrumental Iron Maiden)

- Port Royal

- Grapes of Fear

- Locked Out

- Across the Universe

- Wizard Force

- Positive Retaliation

- Galactos

- Warp 7

- Killing Fields

- R.M.U.

- Terrion

- Bastille Day

- Hard Lovin' Man

- Child in Time

- Train Train

- Merry Christmas Everybody

sábado, 18 de novembro de 2023

Acabo de ler "Renato Russo - O Trovador Solitario" de Arthur Dapieve

 



Não sou muito fã de Legião Urbana. Para ser sincero, sempre achei a sonoridade meio vazia, meio oca, só existindo unicamente para dizer que há algum som que preencha o fundo. Porém isto é tão somente meu gosto musical, visto que respeito a banda e a genialidade de seu vocalista. Dito isto, vamos prosseguir na análise.


Renato Russo foi um homem extremamente idealista e capaz de estruturar suas ações a longo prazo. Tal condição lhe deu franca vantagem no cenário musical. Isto é, o brasileiro médio tende a uma inconsistência e incapacidade metódica. A inconsistência por si mesma gera a incapacidade metódica. Em Renato Russo, sua força de vontade lhe deu uma visão estratégica que lhe proporcionou a ideia não duma banda, mas dum projeto altamente duradouro que marcou o Brasil.


A banda e os fãs se sentiam verdadeiramente parte dum projeto. Eles não eram só átomos presos num acaso que lhes era inteiramente indiferente. Eles eram parte duma comunidade orgânica que tinha objetivos claros. A raiz messiânica da Legião Urbana trouxe um sentimento de pertencimento que é quase inexistente no Brasil. Essa diferença lhe rendeu o título de maior banda de rock do Brasil.


Renato Russo também era um homem bastante lido, capaz de fazer piadas inteligentes e com uma leitura de mundo impressionante. Porém sofria do mal que aflige uma série de gênios: a incapacidade de ser compreendido pelos seus semelhantes. O que Renato Russo tinha de genial, igualmente tinha de incompreendido.


Renato Russo talvez seja uma das poucas pessoas neste país que marcaram a história através de sua inteligência e são lembradas. Isto prova que a arte consegue quebrar as barreiras até mesmo dum povo bastante fechado a uma cultura mais sofisticada.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Acabo de ler "El Sonido Primordial" de Luis Alberto Spinetta (lido em espanhol)

 



No pódio dos cantores de rock da Argentina, encontram-se três homens: Gustavo Cerati, Luis Alberto Spinetta e Charly Garcia. Homens dotados de capacidade ímpar e renomados por destreza e talento.


Ler um livro do Luis é, para mim, prazer e descoberta. Conhecer o outro lado de uma obra de um músico genial é sempre edificante, sobretudo quando se trata de um grande homem. E neste livro vemos a história da música comentada por um grande músico.


Com uma atenção especial voltada ao quebrador de normas chamado John Cage, nada escapa ao nosso arguto pensador. O começo da música, Gustav Mahler, Beethoven, Stravinsky, canto gregoriano. É um universo sintetizado em forma de livreto.


Qual a distância entre o som e o silêncio? O que veio antes? Qual a fluência do tempo na música? A precisa metragem assume papel especial aqui. Essas questões sondam o livro. Tudo é tratado de forma de ligeira, porém ainda assim encantadora.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Acabo de ler "Cerati La Biografia" de Juan Morris (lido em espanhol)

 



Gustavo Cerati foi o maior roqueiro de toda a América Latina. Não só isso, foi um dos maiores músicos de toda história latino americana, sempre trazendo inovações e compondo com uma diversidade rica e erudita. Um homem absolutamente experimental que navegou em vários mares, trazendo produções radicalmente geniais.


Sua carreira como integrante da banda Soda Stereo e sua carreira como solista são mutuamente geniais. Mostram a riqueza de um homem que sempre buscou ir além das condiconalidades que o circundava, superando o ambiente e, mais do que isso, trazendo o ambiente ao mundo que ele apresentava. Gustavo Cerati era o guia, a América Latina o seguia.


Este livro traz toda a sua vida de forma minuciosa, abordando também o período em que ele esteve em coma. A história é de tirar o fogo e nos sentimos envolvidos em cada acontecimento. Quando Gustavo Cerati esteve mal, sentimo-nos mal. Quando Gustavo Cerati esteve bem, sentimo-nos bem. É como se fôssemos tratados por um momentâneo papel de esponjas. Mesmo que não estivéssemos lá em cada momento, sentimos como se lá estivéssemos e como se o nosso mundo fosse o mundo de Cerati e nossa psiquê fosse a de Cerati. O leitor sentir-se-á em simbiose com a leitura desta obra biográfica.


Ler biografias é sempre enriquecedor. Podemos psiquicamente relativizar os nossos problemas ao entrarmos numa espécie de transe em que absorvermos a vida de outrem. E ler esse livro, cheio de altos e baixos dum gênio em ascensão e queda, é uma forma diferenciada de repensar a própria vida.


Livro recomendadíssimo para todos os roqueiro e aficionados por música. Ou simples e substancialmente para quem está buscando uma leitura biográfica para repensar a vida que leva. 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Cadáver Minimal no Metaverso da Música


Demorei um tantinho pra chegar, mesmo assim cheguei bem mais cedo do que deveria. Tive que andar pelo local e pude avaliá-lo. Acabei gostando do ambiente logo de cara, ele é bonito por dentro e por fora. Creio que o local não agradaria um tradicionalista ferrenho preso no vigor das catedrais da Idade Média. Sorte minha, não sou tradicionalista. O local tem várias referências a esquerda e a direita. Um direitista ficaria irritado com a imagem de Simon Bolivar e verei nisso uma tentativa duma "pátria grande" ou interpretaria tudo como um sonho de um eterno terceiro-mundista.







Fiquei aguardando duas horas para que o auditório se abrisse. Entrando lá, comecei a reparar na indumentária do povo que ali se reunia. Percebi que as pessoas se portam de forma elegante, parecem todas terem formação acadêmica e/ou vieram de classes sociais médias e altas. Não que isso possa ser uma ilusão gerada pela necessidade de beleza dentro do evento. Quanto a união entre as vestimentas e a estética geral, o senso de estilo preenche todo o local, e agora me dou conta de que eu aparento ser o único que veio sozinho. Posso apreciar a beleza arquitetônica ao mesmo tempo que me dou conta de que estou inteiramente só.



As luzes vermelhas e brancas se encaixam. Todos aparentam ter mais de vinte e sete anos, embora tenham alguns que fogem da regra - alguns aparentam ser menores de dezoito e outros são evidentemente crianças acompanhadas pelos pais ou parentes. Posso testemunhar muitos casais, o que aumenta a certeza psicológica de que estou só. Junto o peso de estar só com o medo de não aparentar elegância ou sofisticação de caráter suficiente. Queria ter um livro para me omitir através dele, o ambiente aparenta ser tão acima de mim que me encurrala e me fere. Ler um livro traria a sensação de que há uma bolha restritiva ao meu redor. Estar escrevendo isso num caderno só me aumenta a distinção destoante e me focaliza, deixando-me para ser analisado por todas essas diferentes e estranhas pessoas que me circundam. Isso só traz um sentimento: de que o show comece logo e me tire da tortura do olhar alheio.


Com o acumular de tempo, vejo grandes grupos de pessoas se reunindo, solitários como eu talvez transmitam a ideia de impotência. Deveria ter utilizado uma roupagem social mais chique para me omitir na ambientalidade do recinto, teria feito isso se fosse possível: duvido que eu tivesse roupas boas para esse local, e agora começo a pensar no conselho de minha mãe de não ficar gastando todo meu dinheiro em livros e comprar mais roupas. Começo a nutrir uma dualidade: a primeira é que não me notem, a segunda é que alguém me note e se compadeça de minha solidão. Mesurando psiquicamente bem, o frio de lá fora era um pouco menos angustiante do que a sensação de "pressão social" que me aperta. Observando melhor: a maioria das pessoas têm uma coloração de pele bem mais clara que a minha. Pode-se notar que casais andam para lá e para cá, menos os grupos que ficam imobilizados em sua constante confabulação.



Observando agora os costumes de gênero: as mulheres aparentam usar majoritariamente saias, outras tendem a calças sociais. Os homens já são divididos entre os que usam calça jeans e os que usam calça social, alguns usam camisa polo e outros usam camisa social. Observei o vestuário até que a hora do evento se desse, quando finalmente pude subir, tirei foto de um pássaro gigante - duma longínqua ideia de liberdade - e perguntei-me se as cadeiras eram marcadas (queira Deus que não) quando cheguei ao local de apresentação.



Sentei-me num local determinado pelo nível de isolamento junto a capacidade ver melhor o palco. Espero que ninguém estranhe meu hábito de escrever ao mesmo tempo que ninguém mais escreve. Meu senso de anomalia se expande, só que a música me acalma. Em minha frente, a bandeira do Estado de São Paulo, a bandeira do Brasil e a bandeira da cidade de São Paulo permanecem imóveis, é atípico não ver elas tremulando pelo vento, embora seja mais atípico pensar que elas tremulariam num ambiente fechado - o nacionalismo faz a gente ter uma mística que pode ser meio burra. Minha localização? Estou bem mais à direita do palco do que o restante da plateia, sou uma espécie de lobo solitário nadando contra a maré. O que possivelmente é um ato de violência simbólica ou de deslocamento social, quem sabe os dois. Agora sinto algo diferente, sinto que deveria ter comido algo antes de entrar.


Grandes agrupamentos sociais se congratulam ao mesmo tempo em que me disfarço olhando para a arquitetura do local, não quero que percebam o grau de minha solidão. A música melosa não me ajuda, sinto-me mais só e mais apaixonado. Torno-me meio que tão meloso quanto a música do local é melosa. É mais sentimental significativo estar só do que ter companhia? Se a vida é uma condição em que se deve viver uma série de momentos, nem todos "acompanhadamente felizes", creio que tudo isso que sinto agora é um processo de vivência singular. Congratulo-me com a possibilidade de que devo viver esse momento porquê ele escapa daquilo que tenho controle ou de que vivi até agora. Não tenho que controlar e saber de tudo antecipadamente, isso me conforta tanto quanto a ansiedade que esse local me gera.


As músicas que só falam de amor, as pessoas que se encontram em festividade, um local que lembra um cinema com penumbra, a saudade de ter alguém - quem quer que seja - do meu lado. E, é claro, um tanto de fome. O tom melado da música me faz questionar o quanto eu gostaria de ser amado e preenchido por um afeto aconchegante. Deixa-me infeliz o afeto alheio, foda-se: estou aqui a trabalho e não para ser amado. Vem-me a frase: "esse ambiente é tão burguês quanto a burguesia pode ser, como pode me passar pela cabeça que eu consegui estar aqui de graça?". É de graça, só não é gratificante a sensação de isolamento que pulsa dentro de mim. Creio que o investimento financeiro possa ser burlado, só que há outras esferas que não podem ser burladas junto a eles. Estamos todos em igualdade de dinheiro na questão de entrar aqui, só que não estamos todos em igualdade de afeto. 


Enquanto pensava em minha gritante solidão, começo a ouvir uma música que conheço há tempos, mesmo que não tenha ouvido ela por desejo próprio. O que ouço? Ouço a música: "a alegria do pecado às vezes toma conta de mim". Aí vem uma questão de natureza teológica. Se teologicamente o pecado é a parcialização - redução - do ser, vem-me a pergunta: "por que tanto reclamo em vez de apenas me sentir feliz?". Sim, basta-me relaxar. Basta-me abrir-me a experiência, esquecer um pouco dos padrões que previamente espero. Com isso, meu corpo se sente cada vez mais leve e passo a sentir um tanto de acomodação. Do nado, percebo que meus olhos foram afetados por um movimento de intensidade. As luzes tornaram-se um pouco mais intensas e o local ligeiramente mais cheio. Creio que o show começará logo, vejo um acúmulo maior de pessoas que acenam freneticamente umas as outras. Se eu fosse conhecido por alguém, os meus escritos fanáticos seriam atrapalhados, vejo que valeu a pena estar só e não estar bêbado - não bebi nada, mesmo que tivesse gostado de ter bebido só para relaxar mais um pouco.


Penso agora numa reflexão sobre a natureza das músicas. Acredito que as músicas por vezes trazem a necessidade de beber. Nesse momento, não posso beber e tampouco acho que eu deveria relacionar música com bebida. Parece um imperativo dionisíaco correlacionar bebida com música e ambiente artístico com afeto. É um mal hábito, quiçá gerado pelo processo de endoculturação ou simplesmente pela boemia a qual me acostumei desde os dezesseis anos de idade. Poderia pensar mais sobre isso, só que agora o show começa estragando minha reflexão meditabunda. Descubro pelo apresentador que é a terceira noite do evento, uma pena: não fui em nenhuma outra. É a semifinal, meus caros, tão disputada quanto futebol. Um grande carnaval burguês no qual eu, lumpemproletariado, fui colocado para analisar em toda minha pequenez socioeconômica.


O apresentador cita várias pessoas de grandes feitos. Uma série de pessoas com as possíveis duas seguintes características: ricas e bem-sucedidas. Elas estão sendo analisadas por mim e minha impetuosa caneta. Isso é uma estranha forma de inversão de papéis, já que não sou rico e nem bem-sucedido, acho que a vida tem estranhos momentos de alteridade como esses. Quem são os citados? São juízes e bem-pensantes, integrados as maiores figuras das classes artísticas do país. Todos da platéia batem palmas pelos grandes nomes citados, só que vejo que minha consciência musical se perde em figuras centrais. Finalmente os músicos começarão a tocar, o que é uma coisa boa já haverá uma série de bandas. A primeira música é: "tem frevo".


Tem Frevo


A música é bem animada. Só que é muitas vezes cantada num tom muito rápido e a voz da cantora se perdia em alguns momentos. A música fala de um sucedâneo de sentimentos que se explodem, junto com o próprio batucar da música e a sua celeridade. O sentimento passado por ela se confundia com perfeição com o que o instrumental proporcionava. Mesmo com tudo isso, não achei "tão impactante", ao menos não criei uma relação de "intimidade" para com essa música. A próxima música é "tempo bom". Sinto que quero algo mais depressivo, só que aqui o que mais importa é a "felicidade" - ao menos é o que acho que virá, esse evento reúne várias escolas musicais e todas elas parecem mais ligadas ao rito carnavalesco. Preciso me divorciar de minha depressão e meu gosto por ela. 


Tempo Bom


Essa música já me invade pelo seu aspecto marcadamente introspectivo que é sucedido com uma indizível alegria. "Tá virando, já virou, tempo bom tá  pra chegar". A própria música parece ser composta como se "virasse". Ela parece meio que denominada por uma sensação fechada, contida e "lenta" que repentinamente transborda para algo mais explosivo. Eles souberam fazer com que o "tempo sentimental" fosse percebido com a música. Acabei gostando da técnica envolvida nela. 


Indas e Vindas


Já a música "Indas e Vindas" vem vestida com o grau de melancolia que eu quero, ela toca em conjunto ao ritmo de meu coração. "O que canta o amor, não é o canta a paixão, o que encanta o doce do seu coração?". "Não toque aqui, eu não sou de você, nem você é de mim". As minhas relações sintetizadas em um alguns versos: as inseguranças do afeto e a tentativa de exercer controle por um desejo que, no fundo, nem escolhemos ter só que temos que nos lidar. "Partiu um coração". Ah, como eu amo a dor. "Eu não vou lhe dizer, eu não posso explicar pra você". As coisas são complexas demais para serem explicadas, já que envolvem uma série de intercursos subjetivos que muitas vezes feririam a intimidade nossa com nós mesmos se contados.  "Vidas pra quê? Vidas por quê". Sim, fui tocado fundamentalmente em minha alma.


Ilogicamente


"As previsões não batem, as marés são outras". A música trabalha com a inversão da ordem, uma espécie de poesia que trabalha com a loucura do contraste. "Gênios emburrecidos, tolos geniais". "As noites tão quentes", "desertos nascentes", "anjos distraídos, veganos canibais", "ateus religiosos". Poder-se-ia dizer-se que ela fala de um mundo muito louco. O cantor de iniciar a música diz que ficou bastante tempo confinado por causa da pandemia, talvez a canção trate do rigor do confinamento e o efeito psicológico que ele teve nele e nas pessoas. Não sei, isso é uma tese minha, não posso afirmar. Porém o fato do músico tocar o instrumental sozinho tira seu "impacto", seria melhor se houvesse uma banda. A próxima música será: "sagrado serrado". Dessa vez, é de fato uma banda. Tomara que ela supere seus competidores.


Sagrado Serrado


Essa música é uma das mais líricas do evento. Ela traz uma melancolia reflexiva, bem meditabunda. Só que esse "pessimismo" não é ruim, é um pessimismo que encanta. Seria possível dizer que uma poesia bem cantada não é soa como um lacônico lamurio se muito bem escrita, aqui temos a síntese entre a perfeita beleza e a narrativa de uma consciência presa na incerteza. Com essa música, pude vislumbrar mais do grau de maestria no evento  e vi que ele é absurdo de bom. A forma com  que cada um compôs até agora, suas tentativas diferenciadas e com perspectivas bem diferentes umas das outras, tudo isso é vastamente interessante. 


Diante de Mim


Estamos chegando na metade do evento, essa já é a sexta música. Essa banda, ela é fantástica, já que há um "coro" nela - eu fiz coral por praticamente um ano de minha vida, então às vezes sou pego pela memória afetiva. Quatro cantores, cada um em sua parte e conjuntamente. O primeiro verso: "hoje eu acordei mais triste que gostaria, um grito preso insiste vivo muito forte". "Histórias lindas se eternizam quando bem contadas, histórias pobres carbonizam amarguradas". Será que essa música tem múltiplas camadas interpretativas? Eu poderia apostar que sim. Se eu pudesse chutar, o verso que acabei de citar conta o bom trabalho da própria música e a forma com que ele se eterniza agora com a sua realização. Já a segunda parte, deixa um péssimo sentimento nos rivais. Indiretas a parte, o grupo soube executar muito bem o trabalho coletivamente. Em outros momentos, a palavra "eu sinto muito por ser isso que temos que aprender, eu sinto mais de entender que só a dor é um motivo pra crescer": eles não foram arrogantes, foram emocionados e falaram sinceramente o que queriam. Eles também viram a própria dor e a possibilidade de crescimento diante da própria fragilidade, e a frase citada anteriormente "histórias pobres carbonizam amarguradas" também era uma auto-mensagem de reflexão existencial a si. "Eu sou todo amor, e este amor é meu". "A vida passeia, diante de mim, os meus olhos buscam os seus, já não sei se o destino é assim". Se a música "ilogicamente" se demarcou pela solidão do cantor guitarrista, essa foi o contrário: foi um conjunto harmônico, extremamente bem sintonizado entre si e uma excelente composição em letra ou em instrumental.


Anjo sem Asas


"Você me apareceu como um anjo sem asas, linda, delicada, parecia até voar/tão frágil que eu nem sabia como tocá-la, mas veio uma força em seu coração". Uma música sobre o amor, de forma profunda e não genérica, é uma raridade no oceano de vulgaridade. "Vamos namorar, vamos botar o pé na areia, vamos nos amar no mar, ficar assim a vida inteira". Outro ponto que curti nessa música foi a boa presença do guitarrista, não esperava um bom solo de guitarra nessa noite. A cantora demonstrou uma certa capacidade vocal em especial O conjunto da vocalista e do guitarrista se tornaram um tônus. Parece-me uma música que seria uma boa pedida se ouvir ao lado da namorada, da esposa ou da noiva.  


Entrepontos


Quando comecei ao ouvir essa canção, cheguei a pensar que a música falava de uma pessoa que contava a situação de seu próprio coração. Talvez seja projeção minha, pode ser que a canção descreva o coração de uma outra pessoa. Eu prefiro acreditar que a pessoa que o compôs falava de si mesma, sentir-me-ia mais encantado assim. "Tão cansado coração, faz concessão na transgressão", esse verso é denso: o coração que perdoa mesmo quando é transgredido. Estando cansado, põe-se a perdoar mais outra transgressão. Que intenso amor é esse? De um lado, queria sentir tão intenso amor; por outro me perco na percepção de que esse tipo de relação não seria saudável. Uma música que descreve o coração como pessoa, inserindo a expressão do afeto que se tem ao mesmo tempo que também fala de uma outra pessoa concreta. De fato, a atmosfera mudou: "em teus olhos o feitiço do perdão". Que ternura, imagina olhar para alguém e só por seus olhos se sentir tentado a perdoar. Um simples olhar, um olhar que a tudo muda. Certamente, uma excelente música e de profundidade inigualável. 


Trilha da cachoeira


"Suas asas pesadas escorrem nos meus ombros". "Leveza que boa com a mente", é uma música tensa e suave, levando a paz interior e que deságua o luto de minha alma. "Sai minha alma do corpo, levanta e vê o cansaço". Essa música me faz sentir como se eu estivesse sendo abraçado, creio que seja uma espécie de efeito terapêutico. A plateia explode depois da apresentação, só que a música continuava a tocar dentro de meu interior, eu não queria que ela acabasse.


Enquanto


"Os fortes perderam, foram invadidos, saqueados, enquanto vampiros comem pratos laqueados em seus jardins". O tom inicial é calmo, conduz-lhe na alteante sensação de crescente depressão. É como se eu fosse cercado, fechado num círculo e no meio dele começasse a surgir um angustiante sofrimento que é tão portentoso que alcança os céus em sua obscuridade. Eu não sei dizer a razão, mas de todo evento essa é a música que mais seriamente me impactou. Não é como se eu ficasse apenas triste, eu sinto literalmente desespero enquanto eu ouço essa música. Só que é completamente contraditório, sinto-me desesperado e encantado com meu próprio desespero e feliz por estar desesperado. A imagem de mundo destruído junto com o tom depressivo da música me deixaram não só hipnotizado, mas completamente apaixonado. Ela traz uma mensagem crítica que questiona a forma com que os poderosos gozam de uma boa vida enquanto os outros vivem nas cinzas do mundo destruído. Raramente vejo uma crítica social que, junto a ela, traga uma beleza imensa na forma com que é passada. "Não eram nevas, eram cinzas, e a guria em meio as cinzas". Dizem que sentir altos sentimentos é melhor do que nada sentir, a música despertou-me sentimentos tão profundos que eu sinto que meu universo se tornou mais rico, detalhado e multifacetado enquanto essa música tocava.


Solicitudes


A décima primeira música e penúltima música. Teremos uma dupla. "Sim, tudo vazio, o perene em si morreu", "não se nega o amor a vida, que ela toma o que é seu". Essa música, para mim, cai na temática do suicídio. Ao menos é o que eu consigo conjecturar com ela. A forma com que ela traz uma intensa descrição de um sofrimento abismal e o verso "não se nega o amor a vida, que ela toma o que é seu" se repete em minha cabeça, só posso pensar num "suicida terminal" próximo ao seu último desencanto ou ato final. Se essa interpretação ficou pessoal demais, peço-lhes perdão e licença poética. "De grão em grão a vida irá te mastigar". A depressão corrói a alma até o seu último respingo de espírito, essa letra manifesta sempre um cansaço exaustivo que gera até uma ansiedade em quem a ouve. "Se a solidão aperta o nó", "de onde vim, para onde vou, não viver sem ter o amor", "o cerco fecha, a porta trava e o Sol não brilha mais na cara": eu não consigo pensar em como uma letra pode ser tão bem composta. Tendo em vista que ela foi feita para demonstrar uma extrema infelicidade para com a vida, ela consegue fazer isso de forma completamente envolve e "tristemente motivante". Fora que o desempenho da dupla foi insano de bom. 


Chamamento



Última apresentação, décima segunda música. É um ode ao Brasil e identificação com a própria brasilidade: "se tiver que falar do amor, vou falar do Brasil". A música é nacionalista, reclama dos problemas sociais e, ao mesmo tempo que reconhece as várias mazelas, não deixa de amar o próprio país e chama a luta para melhorar o país. "Canto porque sou de lá, canto porque sou daqui": em nenhum momento há um abandono do país, já havíamos sido avisados pelo cantor que "pouco importa" a dor, o Brasil é o país que se ama e que se sofre por vários problemas, só que isso não nos faz desamá-lo. "Quem tirou da mesa o pão e o sal", essa é uma denúncia: o pão representa um alimento básico e o sal é o próprio tempero da vida. Ao terminar a música, somos saudados: "viva ao povo brasileiro, axé". É estranho observar que a última música apresentada é a música que mais parece ter um nível alto de "carnavalesquismo", e isso não pesa em nada no grau de sua sofisticalidade. 



No dia da apresentação, era aniversário do cantor Dorival Caymmi. O homem morreu em 2008, somos apresentados a uma sucinta descrição: sua música trabalhava com o cotidiano da Bahia e muitas vezes falando do seu amor pelo mar. Não que isso seja uma descrição simples, há de se dizer que ele chegou a um alto grau de abstração e descrição lírica nos dois pontos. Era uma autodidata que se apaixonou pela música quando ainda era criança, e com seu esforço renovou a música brasileira. Teremos algumas músicas dedicadas a ele agora, cantadas pelo seu próprio filho: Danilo Caymmi. Várias músicas que são passadas como o intuito de celebrá-lo, creio que será um cantor que eu voltarei a pesquisar várias e várias vezes. Queria ter conhecido Dorival, ao menos como ouvinte, antes dele morrer. Um das músicas que mais me impactaram foram essas: "Suíte do Pescador" e "Marina".



Ao sair do show, já penso em várias outras coisas. Foi-me uma vivência pesadamente significativa. Só os sentidos movem o coração, é pelo coração que queima que o intelecto age. Só aqueles que testemunham a luz do Sol podem se sentirem satisfeitos para meditar em suas cavernas. Não por mero acaso, o existencialismo trabalha em primeiro momento com o envolvimento existencial e só depois com o distanciamento crítico. É preciso estar pessoalmente envolvido para estar criticamente envolvido. Se meu coração não se move, meu espírito não se move. Se não há o dobrar dos joelhos, não há o voo espiritual do intelecto. Eu posso sentir que há sangue, que há vivência real, em cada música que aqui eu ouvi. Se eu não for igual, seu não puder derramar um pouco de sangue em cada ato, não estarei me projetando para fora e não estarei vivendo. O sentido da experiência, a significação de experienciar é sair de si.




Questiono-me o quão impactante eu tenho sido. O quanto eu tenho conseguido dar de mim. Não tenho me sentido satisfeito comigo mesmo. Eu sempre quero mais e o mais que eu quero parece não estar sendo concretizável. Quando estive aqui hoje, vi não só uma série de músicas, vi também uma série de histórias, de trajetórias, de movimentos. Só que o movimento é tão denso que me machuca. A solidão é tão perceptível que me destrói. A saudade é tão desastrada que me corta. A sensação é tão intensa que sinto vontade de que o sangue saia por cada olho meu mesmo que me cegue. Já que me é infinitamente melhor sentir do que não sentir. Nisso vem-me a noção de que devo me desconstruir. Devo criar uma série de novas experiências que me façam transcender de minha atual situação tal qual a experiência transcendental que hoje tive. Aquilo que me desconstrói é o que me renova. A serpente deve destruir a si mesma - a lei da troca equivalente - para se renovar. É por isso que eu vejo o símbolo do Ouroboros. 


Voltando pra casa, me pergunto quem sou e quem serei perante à morte. Se meu mundo era, no ano passado, ligado a uma relação pouco pessoal e nada "intimista", perdidas na virtualidade do mundo cibernético. Me perdi na tenacidade mesma dessas estranhas relações que facilmente se dissolviam. Hoje percebo que o "cordão relacional", a ligação existencial, quanto mais próxima, mais difícil é. Percebo que há um grau que me escapa, uma "força" ou "capacidade" que me foge. Ter uma capacidade de estar com o outro, de estar para o outro, de ser percebido ou relacionado com o outro... ainda me é difícil e o sentimento para com o outro escapa numa série de sutilizas que ainda não consigo ainda captar. Adentrar nesse reino sutil, de movimentos ínfimos que se perdem na minha capacidade perceptiva, é como olhar diretamente para o Sol depois de sair da caverna. Meus olhos queimam e fremem diante dessa nova realidade. É como se eu fosse um grande cegueta social. Meus olhos estão agora vermelhos e exaustos após tantos estímulos.



Se isso foi um extrato bancário, se é possível mesurar a infinidade da variedade incomensurável do que sinto: eu sinto dor e medo da realidade. Eu não sabia que a leitura poderia ser uma caverna e que a realidade externa tinha tantos estímulos que machucariam a minha própria autoestima e confiança em mim mesmo. Só que agora só me resta continuar, mesmo que eu seja a cobra alquímica que come a si mesma para o ciclo de renovação necessária. Eu terei que me destruir, eu terei que me digerir. Toda essa nova euforia, todo esse abatimento é como um longo processo de morte.


O medo me invade. Nutro "natural" desconfiança de caráter excessivo. Diz-se que o neurótico é composto por: inquietação, incerteza e insegurança o tempo inteiro. Eu duvido da exatidão dos trens, dos ônibus e dos metrôs. Eu duvido de meus pais. Eu duvido do valor objetivo do dinheiro. Eu duvido que meu cartão tenha dinheiro mesmo que tenha. Eu duvido que eu saiba a senha dele mesmo que eu saiba. Eu volto atrás o tempo todo, preciso conferir de novo e de novo, só pra por certo o que há de certo. Tudo isso leva a um gasto de energia psíquica bem maior do que deveria. Pergunto-me até quando sofrerei pelo o que não deveria. 


A diferença do medo para a ansiedade é que o medo é se encontra em algo real, de um objeto com "real valor objetivo". Já a ansiedade se refere a algo do campo da fantasia. Minha neurose escapa do campo pragmático e e tudo que tenho é dor. Até quando serei tão paranoico? Até quando me omitirei da realidade? Só que eu tenho que mudar. O tempo tá passando. E o pior de tudo é que eu tenho que "matar a mim mesmo" nesse processo evolutivo, tudo que até então constituía minha consagrada identidade e o chão que cobria meus pés. Tudo que vivi hoje me impactou e revelou uma coisa: eu tenho que mudar, mesmo que isso leve a autoantropofagia. Caminho rumo ao renascimento.