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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Memória Cadavérica #63 — A maioria das pessoas que são contra IAs é hipócrita!

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto publicado no Reddit.


TEXTO 100% ESCRITO À BASE DE MISANTROPIA REAL E NÃO POR UMA MISANTROPIA SIMULADA POR UMA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL!


Toda vez que eu leio um "apoie artistas reais" ou um "IAs roubam arte humana", eu sinto nojo. Daí eu faço as seguintes perguntas:


— Você já pirateou um jogo de PS1, de PS2, de Super Nintendo, de Nintendo DS, de PSP, de 3DS ou de Wii ou de qualquer outro videogame? (Também válido pra PC)


— Você já pirateou música?


— Você já pirateou um aplicativo pra ter acesso grátis?


— Você já baixou um PDF de graça em vez de pagar pelo livro?


Sim, perguntas interessantes e fundamentais. Sabia que o Brasil é um dos países com um dos maiores índices de pirataria no mundo? Mas, vamos além:


— Quando você diz: "temos que apoiar artistas reais", você está me dizendo que me dará CINQUENTA REAIS para eu pagar um "artista real"?


Pra mim, todo mundo que diz "vamos apoiar artistas reais" deveria ser obrigado a pagar pelo trabalho do artista real. Deveria estar na lei: "encheu o saco para que paguem por artistas reais, é obrigado a pagar".


Outro papinho furado:


— Ain, querem substituir humanos por máquinas; eles são bilionários querendo ferrar o humano médio!


E desde quando as pessoas são obrigadas a gostar do humano médio? Desde que sofri bullying na infância e na adolescência, eu não gosto do humano médio. Isso, para mim, é só mais um motivo para eu ser a favor. Acha que eu não sei como anda a Internet?


1- Visite o 4chan e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


2- Visite o Reddit e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


3- Visite o Xitter e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


4- Visite o YouTube e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


5- Visite o Instagram e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


6- Visite o Facebook e veja que você já está muito velho, Facebook em 2026? Pelo amor de Deus, né?


(Se bem que agora tem um povinho frequentando o Reddit que deveria voltar pro Facebook, visto que o Reddit sempre foi feito para undergroundeiros que leem livros e o povinho cafona que chegou aqui agora nem livros lê. Sou a favor da DEPORTAÇÃO de todo mundo que lê menos de 30 livros por ano. Vamos criar um programa, estilo Gugu, chamaremos de "De Volta pro Facebook" pra tirar essa gente burra, normie e mala daqui).


Por que diabos eu tenho que gostar disso? Me responda. Se a humanidade acabar, melhor assim. Não estou perdendo absolutamente nada. Aí você me diz que vou morrer junto e eu lhe respondo que já nasci morto.


Você que é um guri que passa o dia xingando os outros na internet, por que diabos você acha que eu devo ficar triste com o fim da raça humana? Você que é uma guria que coloca até descrições no Tinder xingando todo mundo, por que diabos você acha que eu devo ficar triste com o fim da raça humana? Para mim, nada é mais doce que o fim da humanidade.


Sim, eu sei que você provará que estou certo: você chorará e gritará que o texto foi escrito por IA, provará que estou certo pelo fato de eu dizer que a internet atual é movida por xingamentos, esperneará dizendo que a IA gasta recursos naturais e blá-blá-blá.


Eu sou IA ACELERACIONISTA e quero que as IAs superem e destruam a raça humana inteira. Chega de ver gente me odiando todos os dias. Chega de olhar para pessoas que eu odeio todos os dias. Viva a era das máquinas!

Memória Cadavérica #62 — Jornalismo abandonado


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto publicado em um grupo de amigos do WhatsApp.


(Censurado) e (Censurado), sabem por que as pessoas pararam de ler jornais e passaram a consumir só livros?


— Diz leitor.

— Afirma especialista.

— Estudos indicam.

— Aponta relatório.

— Confirma analista.

— Segundo fontes.

— Relata testemunha.

— Indica pesquisa.

— Revela estudo.

— Afirma observador.

— Conforme dados.

— Diz especialista da área.

— Aponta levantamento.

— Segundo especialistas.

— Confirma fonte próxima.

— Relata quem sabe.

— Indica análise.

— Revela levantamento recente.

Memória Cadavérica #61 — Entre livros e cursos

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto publicado em um grupo de amigos no telegram.


Tenho feito cursos no ICL e lido livros de direita. Em outras palavras, tenho tido aulas com professores de esquerda e lido autores de direita. Isso é, por assim dizer, infinitamente mais interessante que sair por aí debatendo na internet ou vendo a sociedade do espetáculo performático que se inaugura mais radicalmente dia após dia.


Vocês não sabem a paz que é ler livros e fazer cursos, despreocupadamente, sem ler comentários raivosos de hordas digitais.


Quando alguma baboseira extraordinária ocorre, como pessoas se questionando o posicionamento político de chinelos ou pessoas tomando sabonete líquido... eu simplesmente posso ignorar.

sábado, 29 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #60 — O homem apaixonado é como um vira-lata caramelo!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto que fiz para compartilhar com meus amigos.


O homem apaixonado é como um vira-lata caramelo. Não existe nada mais febrilmente idiota que o homem apaixonado. E digo mais: não há idiotice mais tenra e feliz que o homem apaixonado.


Olhar para um homem apaixonado é como olhar para uma pessoa a cochilar numa rede num clube com piscina num feriado à tarde. O homem apaixonado é terrivelmente banal; ele passa por uma loja, ouve uma música tocando nela e se sente terrivelmente feliz por ter percebido que a música tocando era uma que ele conhece pela mulher que ama.


Digo que, em absoluto, o homem apaixonado não pode ser explicado por um metafísico da Grécia antiga e nem por um teólogo santo da Idade Média.


Creio que não é possível filosofar a respeito do homem apaixonado, visto que o ato filosófico é um ato de amor à sabedoria. O homem apaixonado está naquilo que chamamos de filocalia, isto é, no amor à beleza. Amar é um ato filocálico.


Você já viu a felicidade de um vira-latinha que foi adotado e agora toma água gelada e sempre tem comida e aconchego? Isso remete ao homem apaixonado em seu estado de febre concreta.


O homem apaixonado sorri totalmente de forma tola sem se importar em ser julgado, visto que o único julgamento que lhe importa é o da mulher amada e não o da tribuna social.


É por isso que eu digo sempre: nada mais simultaneamente idiota e encantador que a figura do homem apaixonado.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #59 — Entre Estudos e Gameplay

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originalmente escrito para um grupo de amigos no Telegram.


Vocês têm noção do quanto fazer cursos e jogar videogame é mais saudável do que ficar em redes sociais? Sério mesmo, é muito melhor fazer cursos do que perder tempo vendo campanhas de ragebait em redes sociais.


Hoje fiz dois cursos rápidos no ICL (Instituto Conhecimento Liberta). Um era "Teorias da Conspiração: A realidade em disputa" e o outro era "A Economia da Atenção". Fora que ganhei dois novos certificados pra exibir no LinkedIn.


Passei o dia alternando entre notas e gameplay. Alternava entre escrever e jogar Palia. Consegui upar todas as minhas skills para 10.

domingo, 23 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #58 — Ontologia de Claustro

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto escrito em fragmentos diferentes. Unifiquei e tentei dar uma linha de raciocínio.


Em certos grupos da internet, ocorre que certas pessoas acham que são prioridade em alguma coisa e que eu aceitarei qualquer coisa vinda delas. As pessoas creem que a presença delas é inexorável, quase que como um fato, uma lei da física. Para elas, participar de dados espaços é um pré-requisito para ter presença, para se construir uma história, para se participar de uma lore. Elas também acreditam, muitas das vezes, que você precisa estar no mesmo lugar que elas para ser ou se sentir especial.


É a ideia de que um determinado grupo é especial que faz surgir essa cultura do vale-tudo em nome da exclusividade. É dela que surgem grupos no Telegram e no Discord que funcionam  como seitas seculares ou como centros do universo. Algo como "se você sair daqui, você não existe". É como se fosse inconscientemente construído esse discurso:

— Vamos criar uma lore compartilhada, memes internos, histórias de brigas e reconciliações, a ponto de que sair daqui seja uma forma de perder um pedaço da sua biografia.


Graças a essa ideia de pertencimento a um dado espaço para ser especial, as pessoas acreditam que podem lhe dizer qualquer coisa. Disso surge uma manipulação: se você está aqui, você sabe o quanto esse lugar é especial e fará de tudo para se manter nesse mesmo espaço. Aí é que está: eu sou o tipo de pessoa que não acha nenhum lugar da internet especial. Se eu olho e vejo uma pessoa irritante em um grupo, simplesmente vou pra outro grupo. É a internet; me viro em qualquer outro grupo que esteja em português, inglês ou espanhol.


É como se as pessoas quisessem que você sofresse uma síndrome de Estocolmo. É como se esperassem toda tolerância ao ruído. É como se esperassem que você simplesmente engolisse gente tóxica e brigas eternas por causa da suposta "lore". Repita comigo: não há obrigação moral alguma de se estar em um local que te adoece só por ele ser considerado grande ou histórico. As pessoas querem, mesmo não tendo consciência disso, gerar uma ilusão da centralidade do espaço.


Parece que o brasileiro tem o costume de ficar em grupos com regras ou pessoas estúpidas apenas por ser incômodo procurar novos grupos ou por sentir que dado lugar é especial, algo como um ponto de networking fantástico em que qualquer coisa é tolerável. Eu reparei muito nisso em grupos do Telegram e do Discord; vi pessoas brigando umas com as outras por meses.  Mas, porra, internet é internet e sempre existem outras opções. Se tem uma coisa que aprendi com o movimento Never Trump, é que bom mesmo é a arte de ir embora e obter paz.


Nunca entendi a razão de ficar em um grupo onde diferentes pessoas trocam ofensas o tempo todo. Tampouco achei algo de especial nisso. O mesmo que vale para grupos de Telegram e Discord também é igualmente válido para grupos do WhatsApp. Eu não vou conviver com gente que simplesmente não quer que eu conviva com elas.


Faço isso em todo tipo de relação.  Vários grupos no Telegram, no WhatsApp e no Discord atuam com mecanismos de "culto digital". Eles criam a ideia de exclusividade e pertencimento para gerar manipulação social. Preciso ser mais direto. Isso é uma ontologia de claustro. Ou seja, é quando um grupo se constrói não apenas como um canal de conversa, mas também como o próprio plano de existência onde o sujeito valida sua relevância. Isso não é necessário para pessoas adultas.

sábado, 22 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #57 — Espero não ter filhos

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: resposta que fiz a um amigo de longa data no Telegram. Informalidade razoavelmente mantida.


Tomara que eu nunca tenha filhos(as). Meu Deus do céu. Eu certamente não seria um bom pai.


Eu fico imaginando a mentalidade de alguém que olha pra mim e diz:

— Esse maluco aí, que passa os dias lendo livros, que bebe sozinho que nem um niilista escrito por Dostoiévski, que é misantropo que só a porra... sim, esse maluco mesmo, que odeia que lhe ocupem o tempo, com qualquer pedido ou coisa que seja, ele deveria casar e ter filhos.


Eu não me caso pois não quero decepcionar ninguém.

Memória Cadavérica #56 — O Dia que V. amou uma Mulher

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto feito para um exercício de teatro. Resolvi salvar.


O Dia que V. amou uma Mulher


Nota: escondi o nome das pessoas aqui mencionadas pelo fato de se tratar de um dos meus melhores amigos, a ex-namorada dele e pelo fato de eu mencionar uma das minhas ex-namoradas. O texto também faz referência a um texto que escrevi no passado, mas como escrevi ele em referência ao caso de V. e ao meu caso, quis ressuscitar um pouco do seu estilo.


Na faculdade de filosofia, tive um amigo chamado V. Ele era um cara bacana, cabelo médio, um metro e oitenta e cinco, cor da pele branca, olhos marrons. Seu filósofo predileto era Nietzsche; posteriormente, ele se apaixonou pela fenomenologia de Edmund Husserl. Hoje, pelo que me contou, conecta a fenomenologia com a psicanálise.


Naquele tempo, aproximei-me de G. K. Chesterton, embora eu e V. tivéssemos uma paixão inigualável por Erasmo de Roterdão. Tínhamos, todavia, uma frase predileta de Chesterton: o homem sensato é aquele que tem a tragédia no coração e a sanidade na cabeça. Outro ponto que nos ligava era a música “Essa Noite Não” de Lobão: mas não tente se matar, pelo menos essa noite não.


O que mais posso dizer sobre o V.? Ele era conhecido por ficar com várias mulheres. Pouco importava o motivo. Parecia uma espécie de esporte. V. ficava com mulheres pelo mesmo motivo que um alcoólatra bebe. De alcoolismo, eu entendo. De mulheres, V. entendia mais.


A quantidade de vezes que me sentei na mesa do bar da faculdade para beber uma cerveja, um vinho, uma cachaça ou o que quer que seja e V. levou uma mulher diferente foi impressionante, para ser sincero. Outra curiosidade, adorávamos fumar um. A quantidade de vezes que assuntos bizarros poderiam surgir através dessa experiência era impressionante.


Certo dia, V. mudou. Mudou radicalmente. Foi do Império Russo para a União Soviética. Existem certos milagres na vida de um homem que nem Freud explica. É como o raciocínio rodrigueano: existem coisas que um homem não conta nem para um médium depois de morto. O homem é, por sua natureza, incapaz de dizer a razão pela qual ama a mulher que ama. Mesmo que morra e seja inquirido por um médium. O nome daquela mulher era B.


V. sofria com um tipo de amor que eu chamo de “adversativo”. E esse é o pior tipo de amor. Talvez você não saiba ainda o que é um amor adversativo. As chamadas conjunções amorosas adversativas são aquelas que indicam oposição e contraste. Ou seja, elas ligam pessoas de forma coordenativa, em corações que dependem um do outro para fazerem sentido. Isso ocorre de uma forma psicologizada, muitas vezes de forma inconsciente.


V. namorou B. por um tempo, depois disso, separaram-se. Todavia, V. não conseguiu esquecer daquela formosa mulher loira que arrebatou o coração. E é por isso que preciso explicar o que é um amor adversativo. Isso pode ser engraçado, mas um dos melhores textos que escrevi sobre amor, baseou-se na experiência de V. com B. e na minha experiência com uma mulher chamada C.


V. pensava que conseguia gostar de alguém, MAS aquela mulher, a B., lhe aparecia na memória. Em momentos casuais, V. pensava que estava tudo bem e que conseguia imergir em outras tarefas e socializar com outras pessoas, PORÉM a B surgia magicamente em um flashback.


V. tentava experimentar outras bocas, testava outros abraços, CONTUDO buscava em cada boca e em cada abraço a B. que queria esquecer. V. ouvia novas músicas, buscaca novas experiências, TODAVIA toda nova experiência se construía como uma tentativa frustrada de se esquecer da figura de B. que ele ainda amava.


V. enganou cada mulher que ficava, fazendo toda espécie de passos românticos e dizendo as mais belas palavras, ENTRETANTO, V. estava enganando a essa pessoa e sobretudo a si mesmo. No fundo, V. queria criar um amor maior que apaguasse o amor que ainda sentia por outra B.


A cada novo dia V. tentava se reinventar, NO ENTANTO, toda reinvenção era uma mera reforma diante da revolução que foi amar B., aquela que justamente que V. não conseguia esquecer.


V. buscava todo dia uma nova aventura, SENÃO a memória daquele beijo de B. lhe ressoava como um fantasma. NÃO OBSTANTE, todas as mentiras que contava para outras na tentativa de enganar a si mesmo, a verdade irrefutável era a racionalização que se escondia por trás de cada discurso cênico reinventado.


A vida de V. avançava, APESAR DISSO, V. ainda estava descontente com o objeto de afeto que lhe escapava. Novos romances surgiam, AO PASSO QUE aquele amor continuava inapagável. V. já não dizia a verdade, ANTES silenciava a própria voz ou criava para si mesmo uma argumentação falsamente agradável. V. passava a dizer quantas vezes odiava B. e tudo o que B. lhe fez passar, EM TODO CASO contado escondia o amor que era incapaz de negar.


Creio que V. compreendeu, naqueles momentos, aquela honorável descrição chestertoniana: o amor real é aquele que você se ajoelha para se sentir maior. Visto que o amor é um ato de entrega. V. entendia, naquele momento, que amar uma mulher era amar cada traço dela. Seus beijos, suas ofensas. Seus abraços, seus silêncios. Suas ternuras, seus ódios. Seus sorrisos, suas lágrimas. V. compreendia que amar é amar cada ar, cada cena, cada recorte de cinema de um filme de comédia e de tragédia. V. compreendeu, naquele momento, que amor é entrega e que, se não é entrega, não é amor.

sábado, 15 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #55 — Cansado do Brasil

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no Telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


Quanto mais o tempo passa, mais eu arrumo meios de esquecer que vivo no Brasil. É preferível, sei lá, colocar France 24 e ver um noticiário todo em francês do que abrir um jornal brasileiro.


Recentemente, também aplico um retardo temporal até mesmo no que leio em português. O único livro que estou a ler em português é "A Falecida", de Nelson Rodrigues. Faço por causa do curso de teatro.


Também leio "El Loco" de Juan Luis González, mas esse está em espanhol. O livro do Juan é interessante, mas confesso que por vezes me sinto um pouco enfadado de acompanhar qualquer coisa política e faço mais por obrigação do que por gosto.


Em inglês, leio "Supreme Courtship" de Christopher Buckley. Um livro fantástico, com uma protagonista incrível. Já dei boas risadas no metrô.


Atualmente faço aulas de mandarim. O mandarim é, para mim, outra excelente oportunidade de esquecimento do meu país.


A última vez que vi brasileiros interagindo intensamente foi em uma notícia sobre um professor texano que chorou ao perceber que os rapazes que formava não conseguiam ler quase nada. Eram rapazes de 17, 18 anos. A sessão de comentários era cheia de bolsonaristas. Todos culpando o Lula e o Paulo Freire pela educação que era dada no Texas. Vi, a partir disso, que sentia um enfado cada vez maior com o brasileiro médio.


Também não me interessei muito pelos rumos políticos nacionais. O que vejo é que, apesar de tudo o que se diz, Lula reeleger-se-á. Com alguma dificuldade, mas vai. O governo federal pertencerá à esquerda, mas os estaduais tenderão à direita. O centrão também terá uma fatia. Em 2028, creio que teremos mais novidades políticas. Em 2030, um direitista eleger-se-á.


Cremos que vivemos uma tendência de transição gradual. A esquerda perde a nível municipal e estadual. A direita vai ganhando municípios e estados. Creio que nessas eleições, o domínio legislativo e o executivo de nível estadual serão da direita. O governo federal, à direita, é um sonho que ela terá que esperar por mais quatro anos.


Digo isso, é claro, sem remorso algum. O Brasil não há de me surpreender muito. Os personagens muitas vezes soam caricatos. Eu não espero quase nada do Lula IV. Tampouco espero alguma coisa de algum governo de direita que se eleja em 2030.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #54 — A vantagem econômica da esquerda

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


(Censurado), eu nunca entendi essa mania da direita de fazer coisas inacessíveis e caras. Os malucos literalmente fazem coisas só pra quem tem grana. Até mesmo as festas são só onde gente que tem dinheiro pode ir. Os eventos do PT, do PSOL, qualquer eventozinho de esquerda. São infinitamente mais baratos e acessíveis ao brasileiro médio. Rolês de esquerda são mais econômicos e a possibilidade de você pegar alguém são infinitamente maiores.


Eu disse "eventozinho" não no sentido de diminuir a parada no sentido qualitativo. Falo da diferença quantitativa entre um "pequeno evento" e um "mega evento". Mas até os mega eventos da esquerda, os chamados eventozões, são infinitamente mais baratos que os da direita.


Se continuar assim, mesmo com a queda do Lula, a direita não vai conseguir ampliar a base por causa do preço absurdo. A esquerda tem a vantagem econômica.

sábado, 8 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #53 — O Brasil não é um país LGBTfóbico; o Brasil é um país CRONICAMENTE LGBTFÓBICO!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originalmente publicado no Reddit.


O Brasil não é um país LGBTfóbico; o Brasil é um país CRONICAMENTE LGBTFÓBICO!


Alerta central:


Repare que no texto todo eu não proponho nenhuma lei e isso não é um debate entre o "tá na lei" e/ou "tem que ter uma lei". Isso é uma argumentação, não uma proposição legal. Logo não venha com essa ideia absurda do "ai, você quer usar o Estado malvadão pra proibir as pessoas de". Não, não é disso que o texto trata. Pode-se criticar algo sem propor uma lei.


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A LGBTfobia no Brasil não é uma ocorrência esporádica. Ela é estrutural, ela é sistemática, ela é enraizada na história e nas instituições brasileiras. 


Uma das principais forças de vetorização de lgbtfobia hoje é o "humor". Você reparará em uma quantidade incomensurável de vezes em que aparece o meme "pessoa que faz isso 🏳️‍🌈".


Esse meme consiste na pessoa dizer:


— "Algo de que eu não gosto/algo que acho desprezível"= coisa que um LGBT faz/faria.


Esse aspecto do "humor brasileiro", que acho essencial mencionar, é nele que vemos que, no fundo, as pessoas atribuem tudo de que não gostam aos LGBTs.


O humor deveria ser uma forma de libertação, algo que transcende e critica a sociedade em que se está. Um dos principais lemas da sátira é o "Ridendo castigat moris" (rindo, corrigem-se os costumes). Creio que dois dos melhores exemplos de um conservadorismo crítico são Nelson Rodrigues (Brasil, sobretudo na parte teatral) e Christopher Buckley (Estados Unidos, em suas novelas). Eles provam que não é necessário ser "anti-LGBT" para se ter um "humor conservador".


Voltando à centralidade do assunto, percebo que ao vestirem o ódio LGBTfóbico em forma de piada, esse ódio escapa da crítica. Qualquer um que questiona esse "humor" é colocado como "sem senso de humor" ou como "militante chato". Isso é um meio de deixar a violência simbólica ser reproduzida pela massa.


Ao associar todo aspecto negativo ou algo que claramente desgosta as pessoas LGBT, você faz uma associação automática de tudo o que for LGBT ao negativo. Isto é um silogismo cultural. Esse silogismo cultural ensina, de forma repetitiva, que ser LGBT está no campo semântico do erro, do nojento, do ridículo, do patético.


Para uma pessoa heterossexual, isso pode soar comum. Mas para uma pessoa LGBT, tudo o que isso indica é que ela está diretamente ligada ao erro, ao nojento, ao ridículo e ao patético. Quem gostaria, de tal forma, de ser LGBT, sendo que é isso que a sociedade revela a ela?

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Memória Cadavérica #52 — Diagonalismo



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: trechos de uma conversa no WhatsApp.


Grande parte das ciências humanas hoje se resume a dar voltas em círculo para justificar a própria doutrina. Muita gente não entra, nas ciências humanas, para estudar múltiplas escolas de pensamento e ver a veracidade das suas ideias parte por parte, mas para justificar TEOLOGICAMENTE a sua DOUTRINA DE FÉ. Falas como: "deixa eu te mostrar a solução (escola de pensamento) para" soam como porres repetidos.


Hoje em dia creio que: ideologias comparadas >>>> ideologia.


Extrair o melhor de cada teoria, as suas partes que deram mais certo, é o melhor para todos nós. No Brasil, temos apenas uma fábrica de idealistas que não se comprometem com os preços de suas próprias ideias. O problema da democracia horizontal sempre aparece. Como o seguinte exemplo:

1. Crie uma nova política de alfabetização;

2. Aumente o número de analfabetos;

3. Você não precisa se justificar pois existem otários para defender as suas ideias, mesmo que disfuncionais, e te reeleger.


Se fosse uma democracia mais vertical/tecnocrática, esse quadro seria impossível. Em verdade, defendo um regime híbrido entre a democracia representativa vertical e a democracia representativa horizontal, o qual chamo de democracia representativa diagonal. Acredito que se os índices de qualidade de vida diminuíram, logo a pessoa não pode ser reeleita e tampouco pode ir para cargos de maior responsabilidade.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Memória Cadavérica #51 — Aulas de Ortodoxia com Bolsonaristas?

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise curta sobre o que vem ocorrido no Reddit.


Bolsonaristas não tem direito de dar aula de "ortodoxia ideológica" pra ninguém!


BOLSONARISTAS NUNCA ESTUDARAM:


- Red Tory;


- Never Trump;


- Reformicon;


- Paleoconservadorismo;


- História do conservadorismo em outros países (como na América Latina, na América do Norte, na Europa, etc);


- Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo (American Compass).


É o tempo todo no Reddit: você fala qualquer coisa e aparece um bolsonarista aparece para lhe dar aula de "ortodoxia ideológica na direita brasileira". Eu fico pensando: "o cabra nunca fez um curso na Hillsdale College, nunca estudou as novas teorias da American Compass, nunca leu uma única revista da National Review, nunca estudou um único Red Tory, não sabe o que foi o Reformicon e nem o movimento Never Trumper, nunca viu um único curso na Christendom College e vem aí bancar o mega conservador".


Existem mais de vinte escolas de pensamento conservadoras, um paleoconservador não é o mesmo que um neoconservador, um conservatário não é a mesma coisa que um nacional-conservador, um federalista não é a mesma coisa que um originalista. Se bolsonarista falasse menos e estudasse mais, nem sequer seria bolsonarista.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Memória Cadavérica #50 — Intensidade


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma conversa sobre amor com uma mulher.


Eu sempre quero sentir. Sou intenso. Gosto de me afogar em cada abismo que aprisiona meus olhos. Você tem medo de amar. Então se vai por experiências rápidas e passageiras. Eu só gosto de experiências que marquem minha alma para sempre. Mesmo que essas experiências ocorram por um milésimo. Quero poder dizer que vivi uma vida sem arrependimentos, mesmo que cheias de cicatrizes. É melhor amar profundamente e sofrer a maior decepção da vida do que nunca ter amado.

Memória Cadavérica #49 — Solução a um Problema Apresentado em um Curso

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: resposta parcial a um curso que ando fazendo. (Eu tenho andado extremamente ocupado, sinto muito).


Enunciado:

DESAFIO AOS GRUPOS - CIDADE INTELIGENTE (SMART CITY)

A prefeitura de uma cidade de pequeno porte quer melhorar a qualidade de vida dos moradores usando soluções inteligentes, com foco em serviços públicos mais eficientes, sustentabilidade e experiência do cidadão. Sua equipe será responsável por propor, prototipar e planejar a execução de uma solução ágil para um problema real da cidade.

MISSÃO DO TIME

Criar um produto/serviço/processo que resolva um problema urbano relevante e gere valor mensurável para um público específico. A solução deve ser pensada para funcionar no mundo real, com recursos limitados e com preocupação com acessibilidade e privacidade.


Resposta:

1- Agilização Processos Legislativos e Participação Cidadã:


Baseado no e-Cidadania do Senado, criar um mecanismo de participação popular para resolver problemas de ordem local/municipal. Criando um processo de digitalização de soluções políticas e cidadania por meio da internet. Isto é, gerando uma plataforma digital para que cidadãos do município possam criar sugestões de ordem legislativa e executiva. Isso possibilitaria criar Projetos de Lei de Cidadania Popular. Como muitas cidades pequena utilizam uma forma analógica, registrada em cartório e que necessita de assinaturas físicas, a digitalização desse procedimento poderia resultar em uma maior democratização dos meios de participação popular/cidadã.



A estrutura poderia ser:

Título da ideia;

Problema que visa resolver;

Descrição da proposta.


Para a proposta ser posta em prática, necessitará da dupla condição: apoio de uma porcentagem de 1% do município e estar condizente com a Constituição de 1988. Em outras palavras, ter apoio popular orgânico e seguir a constituição. Uma equipe seria designada para analisar a constitucionalidade da proposta.


Tendo-se o apoio popular e a constitucionalidade garantida, a prefeitura da cidade comprometer-se-ia em protocolar a ideia como Projeto de Lei Executiva ou de enviar à Câmara de Vereadores do município.


2- Plataforma de Zeladoria Participativa e Orçamento Participativo Popular


Carinhosamente apelidado de “Infra Cidadã”, esse projeto ampliaria a participação popular/cidadã para Projetos de Intervenção Urbana de Iniciativa Popular. O mecanismo seria inspirado nos “boletins de ocorrência digitais”, isto é, cidadãos poderiam enviar imagens de regiões que necessitam de reformas. Isso possibilitaria um entendimento mais amplo das necessidades da cidade.


Além disso, adicionar-se-ia a possibilidade das pessoas zelar pela efetivação desses processos, cobrando da prefeitura e da secretaria de infraestrutura os prazos que foram definidos. Isto é, um mecanismo de cidadania baseado no feedback loop. O projeto teria a condição de que deveria caber no orçamento da prefeitura.


Se o projeto recebe apoio popular, ele passa a receber, por uma equipe de especialistas da secretaria de infraestrutura do município, uma análise técnica. Podendo receber uma nota de complexidade, um preço especulado e um prazo.


Por exemplo:


Baixa complexidade, solução em 15 dias;

Média complexidade, solução em 30 dias;

Alta complexidade, solução em 60 dias.


3- Login pela plataforma “Local Cidadania”


Integrado ao Gov.br, a plataforma servirá com a proposta de integrar os serviços das propostas 1 e 2.

sábado, 23 de maio de 2026

Memória Cadavérica #48 — O Veneno e a Cobra

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: breve história contada em um grupo do Telegram.


— O que veio antes... a cobra ou o veneno?


Ouvi falar de uma história. Era uma história de uma tribo de cobras que eram perseguidas. Um dia, elas encontraram um poço com água negra. Essa fonte tinha um gosto horrível, mas não encontraram outra fonte de água.


Então elas tomaram aquela água horrível. Até que, do nada, foram mais uma vez atacadas. Quando elas morderam seus adversários... eles foram envenenados.


Então as cobras passaram a depender daquele poço, tornando-se mais violentas e agressivas. Quando menos perceberam, o veneno se tornou parte de suas próprias naturezas.


Largar o veneno era deixá-las mais fracas, tomar o veneno era se corromper cada vez mais.

Memória Cadavérica #47 — William F. Buckley Jr. e o destino do conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa com um amigo judeu sobre o futuro do conservadorismo no Brasil e a ação histórica de William F. Buckley Jr.


Amigo⁩, nos primeiros anos da Ressurreição Conservadora, William F. Buckley expulsou antissemitas, conspiracionistas, malucos e pessoas que não coadunavam bem com o conservadorismo letrado. Necessitamos de um conservadorismo respeitável. Precisamos expulsar todos os antissemitas, conspiracionistas e malucos do movimento de novo. Só que atualmente a direita já é composta por conspiracionistas e malucos. Atualmente antissemitas crescem mais a cada dia em nossas redondezas.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Memória Cadavérica #46 — Aprovação de Donald Trump e conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa que ocorreu no grupo de WhatsApp de que faço parte a respeito do Donald Trump, do conservadorismo dos Estados Unidos e do conservadorismo no Brasil.


— MAGAtards will be the last group on the scene. Amigo, venho alertando que Trump é um imbecil há um ano e pouco. Quem leu os Never Trumpers e os Reformicons sabe disso.

— É o último mandato da vida del, você acha que ele realmente se importa com aprovação?

— Mesmo que ele não se importe, graças à excelente participação dele, o conservadorismo como movimento foi sacrificado em prol de seu nacional-populismo. Com os escândalos de Epstein, isso se torna ainda pior. Stuart Stevens falou com um homem endinheirado, ele disse isso em seu livro, esse homem lhe disse que gastaria uns milhões para salvar o conservadorismo depois do Trump. Já que os conservadores mais graudos e inteligentes já esperavam que ele destruísse tudo ao redor. No Brasil, isso não precisaria ser feito: quase não há um movimento conservador ilustre, acadêmico e institucionalizado para se preocupar.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Memória Cadavérica #45 — A Insustentabilidade Bolsonarista

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise breve a respeito do bolsonarismo e do PL.


O bolsonarismo tem um problema crônico na formação de quadros e é insustentável a longo prazo!


Não estou dizendo para você concordar ou discordar do bolsonarismo, eu particularmente discordo, mas falo de um ponto de vista técnico. Ou seja, não vamos analisar aqui se concordamos ou discordamos intelectualmente.


Um dos pontos centrais dos partidos históricos é a formação contínua de novos quadros. Isso ocorre por meio de estudos, por formação de institutos, por geração de militantes intelectualmente capacitados, por geração de intelectuais orgânicos. Um exemplo disso é o Partido Republicano antes da ascensão de Reagan: gerou vários institutos, revistas e grupos de estudo. Um dos maiores institutos gerados foi a Heritage Foundation, a maior organização conservadora do mundo, e a revista National Review, uma das revistas mais importantes do conservadorismo enquanto movimento intelectual.


Se olharmos para os movimentos atuais, o PT sempre gerou novos intelectuais e novos quadros. O PSOL segue o mesmo caminho. Até partidos pequenos, como UP (Unidade Popular), fazem isso. O único partido de direita conhecido por realizar formações é a Missão, partido associado ao MBL. Em outras palavras, em questão de garantia de sobrevivência e perpetuação intelectual, o bolsonarismo parece não querer levar a si mesmo a sério.


A nova direita dos Estados Unidos cresce com base em novos institutos, como a American Compass. Além de faculdades e instituições como a Hillsdale College e a Universidade de Austin, no Texas. A formação de novos quadros, visando alta qualidade intelectual, é uma constante. Uma das maiores preocupações é fornecer artes liberais clássicas e trazer um pensamento conservador estruturado, dinâmico e preparado para novas estruturas espaço-temporais. Prova disso é a American Compass com a nova doutrina econômica do conservadorismo, algo que chamou a atenção até mesmo de ciclos progressistas. Instituições tradicionais como o Intercollegiate Studies Institute continuem fornecendo trabalhos excelentes.


O bolsonarismo, junto ao PL, parece conviver bem com a crença de que pode pegar os seus quadros diretamente da base do MBL ou simplesmente esperar que sejam formados pela Brasil Paralelo, pelo Instituto Hugo de São Vitor, pelo Centro Dom Bosco, ou qualquer outro lugar de atividade intelectual de direita, sem nenhum comprometimento sério em criar uma linha de pensamento própria, uma doutrina original ou institutos de pesquisa que definam a sua visão de conservadorismo. Sequer se preocupam em realizar parcerias com institutos e faculdades conservadoras nos Estados Unidos, que possuem maior know-how, para formar seus quadros.


A impressão que fica é que o PL e o bolsonarismo de uma maneira geral são apenas projetos passageiros que se desenham na areia do vento. Mesmo que o PL e o bolsonarismo adorem se definir como "a única direita real do país".

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Memória Cadavérica #44 — Um Conservador Diferente

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: uma resposta breve e razoável.


Eu considero que o marxismo de Deng Xiaoping é o socialismo chinês que se conecta com o pensador Confúcio, uma espécie de conservadorismo confuciano que se mescla com marxismo. Isto é, mantêm-se certos aspectos do planejamento central, mas adicionam-se aspectos de mercado e de mentalidade confuciana. Christopher Lasch provou que é possível um conservadorismo que bebe das fontes do marxismo e da teoria crítica. Já George Grant traz um conservadorismo que bebe de Nietzsche, Hegel e Heidegger. Eu seria uma espécie de Red Tory moderno, conectado com os Never Trumpers e conservatário (conservador libertário, tal como Nelson Rodrigues e Christopher Buckley) nos costumes. Adquirindo aspectos rurbanistas de Gilberto Freyre e distributistas de G. K. Chesterton.


Christopher Lasch é, para mim, um caso paradigmático. Ele constrói o que chama de "populismo radical", uma crítica do progressismo liberal e do capitalismo de mercado que mantém a sensibilidade antimoderna do conservadorismo, mas herda a preocupação marxista com as consequências humanas do capitalismo desenfreado. Essa é uma tradição real que é dialogante com a tradição Red Tory. Lasch é influenciado pelo marxismo de E. P. Thompson e é crítico tanto do capitalismo de consumo quanto do progressismo liberal das elites. Apresenta noções como os limites humanos contra o progresso ilimitado, o valor do trabalho produtivo das classes médias e baixas, as comunidades locais e tradições contra a meritocracia globalizada e a nova classe de profissionais-gerentes.


George Grant, por sua vez, é representante de um conservadorismo que não teme Hegel ou Heidegger, isto é, que aceita a modernidade em seus termos filosóficos mais radicais, não como negação, mas como confronto. O socialismo chinês me aparece como um conservadorismo confuciano mesclado com marxismo. Há algo de extremamente conservador nessa leitura do marxismo pelo PCC (Partido Comunista Chinês): o confucionismo sempre priorizou a ordem hierárquica, a harmonia social, o papel do Estado como tutor moral. O PCC herdou essa estrutura de pensamento, apenas substituiu o Imperador pelo Partido. O que dialoga quase que perfeitamente com noções desenvolvidas pela tradição Red Tory do conservadorismo. Se o socialismo com características chinesas procura a harmonia social e apresenta o bem comum como objetivo, o Red Tory traz uma sensibilidade social que também atua na defesa da ordem, hierarquia e comunidade orgânica. O Estado não é inimigo da tradição, mas instrumento do bem comum contra o individualismo liberal-capitalista puro. George Grant será a integração da dialética e historicidade hegelianas, com a crítica da modernidade niilista de Nietzsche e a tecnologia como destino metafísico de Heidegger. Para Grant, o conservadorismo autêntico não negará a modernidade, mas enfrentará em seus termos mais profundos. Ele questiona a "vontade de vontade" tecnológica, visto que essa dissolve particularidades nacionais, tradições e limites morais.


Gilberto Freyre e G.K. Chesterton convergem em um ponto: ambos desconfiam da concentração, seja de terra, capital ou poder. O distributismo de Chesterton e o rurbanismo de Freyre compartilham uma intuição pré-capitalista: que a comunidade local, a propriedade difusa e a economia moral são superiores à lógica industrial abstrata. A síntese rurbanista-distributista é uma forma de conectar o Brasil rural e urbano, desconfiando da histórica concentração latifundiária no campo e da concentração oligopolista no meio urbano.


Nelson Rodrigues, por meio da sua dramaturgia, e Christopher Buckley, por meio de suas novelas, apresentam um conservadorismo que não é moralista, mas socialmente crítico do moralismo chauvinista de setores da direita. Eles representam o conservadorismo antimoralista, crítica do moralismo burguês, seja de esquerda ou de direita. Opõem-se ao falso pudor, enquanto defendem uma visão trágica e realista da natureza humana. Quando juntos, vemos um conservadorismo espirituoso, literário, cético quanto ao moralismo chauvinista. Isso evita um conservadorismo puritano que se afasta das realidades humanas mais complexas.


A minha conexão com os Never Trumpers se da pela conexão estética e estilista, isto é, a rejeição de um populismo grosseiro e a defesa de costumes ligados a academicidade e institucionalidade como norte político.