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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Acabo de ler "Illiberalism and Democracy" de Saul Newman (lido em Inglês)

 


Nome:

Illiberalism and Democracy: The Populist Challenge to Transatlantic Relations


Autor:

Saul Newman


A ascensão de Donald Trump, junto com vários dos seus correligionários da extrema-direita populista, apresenta um desafio à democracia e às relações transatlânticas. Muitos países europeus vêm sofrendo com a volatilidade dos Estados Unidos da América e também com problemas internos oriundos da própria extrema-direita populista interna. O desgaste contínuo dos valores democráticos e a tensão constante entre o campo democrático e o campo populista vêm se tornando um grande problema de nosso tempo.


O populismo estabelece um contraste e um conflito entre o "povo" e a "elite". O populismo, a partir disso, estabelecerá um modo autoritário de governança que se oporá ao pluralismo, ao Estado de Direito, à independência do judiciário, aos procedimentos intermediários e às instituições da democracia liberal de uma maneira geral.


Os países europeus estavam acostumados ao seguinte cenário:

- Uma ordem legal internacional e comercial baseada em regras;

- As relações estabelecidas durante o período pós-Guerra Fria;

- A hegemonia do modelo da ordem democrática liberal.


Atualmente, deparam-se com o seguinte cenário:

- Uma desordem internacional;

- Blocos de poder (Rússia, China e Estados Unidos);

- A ascensão global da extrema-direita populista.


Como definir o populismo de direita? Usualmente o populismo de direita é definido como uma mistura de vários fatores, entre eles uma espécie de libertarianismo econômico, um autoritarismo político, um nativismo, xenofobia, uma identidade religiosa forte, valores conservadores no campo social e cultural e, essencialmente falando, um antiliberalismo. Os fatores envolvidos podem variar, visto que o populismo de direita é diverso.


O autor citará vários exemplos de populismo, dentre os quais está o próprio Lula (atual presidente do Brasil), como figura populista de esquerda. Além disso, citará populistas europeus. De uma maneira geral, populistas apresentam o povo como moralmente puro, autêntico, honesto e trabalhador. Enquanto isso, as elites são apresentadas como nefastas, corruptas e traidoras. Eles também dão uma noção de uma "democracia mais genuína" ao dizer que representam o povo. Para que tal representação genuína do anseio democrático seja feita, eles precisam atropelar os processos parlamentários, a imprensa mainstream e todos os processos intermediários. A diversidade de visões, opiniões e interesses é descartada. A visão popular é colocada acima do Estado de Direito.


O pensamento populista precisa de uma identidade homogênea. A elite é encarada multifatorialmente, existindo elites políticas, financeiras e culturais, por exemplo. Todavia, não é só a elite que é o problema. Para assegurar a homogeneidade do povo, as minorias passam a ser atacadas. Logo, minorias culturais, sexuais e de gênero passam a ser consideradas inimigas também. É disso que se estabelece uma relação íntima entre populismo, misoginia, xenofobia, racismo, LGBTfobia e, em muitos casos, antissemitismo. Muito rapidamente, a mídia mainstream, artistas, acadêmicos,  celebridades, políticos liberais ou progressistas, o judiciário, ativistas e advogados dos direitos das minorias passam também a ser atacados. Como o populismo necessariamente pressupõe a homogeneidade, ele requererá sempre a tirania da maioria contra os grupos que estão fora dela. O respeito à pluralidade de valores, de interesses e de identidades, além da ideia de que os direitos das minorias são os mesmos que os das maiorias, começa a desaparecer.


No populismo, a figura do líder começa a ser tida como a personificação e o canal onde está e onde é emitida a vontade do povo. O partido político do populista se torna um partido de um homem só. É um partido focado inteiramente no líder. Além disso, o grupo político que cresce ao redor do populista não é um movimento político, mas configura-se como um culto religioso ou, mais propriamente, uma seita. O trabalho do populista é fazer com que o trabalho se cumpra, mesmo que isso envolva quebrar os valores democráticos no processo.


Os governos populistas adquirem um formato híbrido ou uma forma de "democratorship" (democracy [democracia] + dictatorship [ditadura] = democratorship [democradura]). Persistem ainda o parlamento, as eleições, a mídia independente... todavia, os oponentes políticos são perseguidos, o judiciário e a mídia são intimidados e o poder é centralizado no executivo. A possibilidade de uma democracia constitucional é gradativamente solapada.


Enquanto vemos a ascensão global da extrema-direita-populista, vemos muito especificamente o Project 2025. O Project 2025 é um blueprint (guia) global para a extrema-direita como um todo. Nele podemos ver:

- Poder concentrado no executivo;

- Controle de fronteiras draconiano;

- Isolacionismo;

- Retorno da imposição dos valores socialmente conservadores e dos valores patriarcais;

- Um assalto da extrema-direita contra o secularismo e o pluralismo;

- A ascensão da teoria da "Grande Substituição" (great replacement theory);

- A acusação de que jornalistas e a mídia no geral são organizações de fake news profissionais;

- O ataque contínuo à expertise científica;

- Políticos populistas, empresários políticos e influenciadores fomentando polarização e desconfiança no establishment.


Sabe-se ainda pouco se a ordem liberal e os valores liberais sobreviverão ao projeto político da extrema-direita populista. Praticamente não vemos mais um Ocidente liberal e democrático, mas sim um conflito entre esse Ocidente e a aliança iliberal e autoritária. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Acabo de ler "The Rise of Populism" de Stephen Bannon e David Frum (lido em inglês)

 



Nome:

The Rise of Populism


Debatedores:

Stephen K. Bannon

David Frum


Intermediador:

Rudyard Griffiths


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX

Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtu.be/3nXt2YXrOL4?si=s4N355iN3YCmZ_V5

Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Li esse livro enquanto ficava jogando vinho seco no sorvete e tomando repetidos banhos gelados por causa do calor. Quando fui para praia, acreditei que daria uma folga a minha cabecinha depressiva, mas, na verdade, mergulhei-me em uma série de reflexões e em uma série de leituras. Acho que um grande problema que tenho é esse... eu nunca paro.


Esse livro é bem impressionante, o debate em si é bem impressionante. Usualmente a mídia pinta uma imagem inculta do Bannon, quando vi esse debate, percebi que ele tinha uma intelectualidade mais vibrante do que eu imaginava. David Frum é um "novo conhecido" do blogspot, visto que analisei um livro dele recentemente.


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Bannon, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/06/acabo-de-ler-devils-bargain-de-joshua.html


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Frum, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/acabo-de-ler-trumpocracy-de-david-frum.html?m=1


Creio que essas duas figuras são extremamente interessantes. Um faz parte do MAGA (Bannon). Outro faz parte do Never Trump (Frum). Podemos dizer que os dois são conservadores, mas vão em linhas bem opostas. Se Bannon crê no futuro do populismo como uma tática boa, Frum crê que o anti-populismo é o melhor caminho.


David Frum ataca o trumpismo e o MAGA várias vezes, colocando múltiplas vezes como um movimento autocrático, cleptocrático e corrupto. Bannon, múltiplas vezes, diz que é claramente um antifascista, que o movimento MAGA não se importa com cor, sexualidade, gênero, mas com cidadania, além de evitar qualquer coligação com o nacionalismo branco.


Os dois tiveram um desempenho intelectual extremamente ímpar nesse debate. Múltiplas vezes vi Frum ser elogioso para com a administração Obama, além de citar uma série de dados sobre os governos de Bush, Obama e Trump comparativamente. Bannon tomou vantagem nas partes em que dizia que o movimento republicano antigo não ganhava voto e nem tração. Frum rebateu citando dados demográficos, coligando a imagem pública antimigração com a perda de votos futuros graças as políticas de Trump.


Menção especial: Jair Messias Bolsonaro foi mencionado por Bannon e Frum. Além disso, outros presidentes de ligação ao conservadorismo populista foram mencionados.


Creio que muitas pessoas, em todo o Brasil, não sabem as diferenças entre as linhas conservadoras nos Estados Unidos e, por tal razão, acreditam que é tudo a mesma coisa. Quando lemos livros como esses, vemos que nada é tão simples quanto parece. A diferença entre os conservadores são gigantescas.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Acabo de ler "It Was All a Lie" de Stuart Stevens (lido em inglês)

 


Nome:
It Was All a Lie

Autor:
Stuart Stevens

O que é verdade e o que é mentira? Os Estados Unidos passa por uma provação na qual a sua identidade pode se perder. Não só a identidade histórica dos Estados Unidos, como a identidade histórica do Partido Republicano e também a do conservadorismo americano.


O fato é que muitos conservadores se manifestaram contra Donald Trump. Para eles, Trump era um homem inculto e incapaz. Mas toda história republicana contemporânea está marcada por várias chagas que dificilmente podem ser resolvidas: o partido não poderá se ancorar nos votos de pessoas brancas por muito tempo. O país está cada vez mais racialmente diverso, o que impossibilita garantir vitória só com um grupo racial – e esse grupo racial é cada vez menor.

Muitas polêmicas surgiram graças a má atuação ou má compreensão dos republicanos em suas ações. Além disso, as várias tendências conservadoras não podem ser facilmente conciliadas. O Partido Republicano não é um partido da direita, mas sim um partido de direitas. O Partido Republicano não é um partido de conservador, mas diferentes tonalidades de conservadorismo.

Trump representa um componente novo. Ele é mais filho direto do populismo americano do que do conservadorismo americano. A sua retórica é meio confusa. Ela mescla o isolacionismo com o nacionalismo, uma adesão – embora não estrita – a parcela branca da população e um desejo de retorno a grande era americana. De fato, a hegemonia americana está ameaçada e grande parte da produção nacional não mais existe. O país está se tornando cada vez mais ditado por serviços e a qualidade da educação está decaindo. Tudo isso gera novas e novas preocupações.

O fato de Trump ser um outsider e a sua retórica ser confusa aos meios de que vem, além dos republicanos previamente não acharem que ele venceria... Tudo isso indica um momento em que os Estados Unidos procurarão cada vez mais práticas para superarem a sua perda de hegemonia.


quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Acabo de ler "The Agony of the American Left" de Christopher Lasch (lido em inglês/Parte 1)



Estamos numa crise sem precedentes? Essa questão é trabalhada por Christopher Lasch ao analisar a então surgente esquerda pós-moderna. Processo fenomenológico ao qual ele chamou de "deserção dos intelectuais". A distância entre as gerações parecia ser muito maior do que em outras eras. É como se, de repente, um abismo se cravasse de uma geração para outra. Além disso, o fenômeno de radicalização – um pouco estranho a história americana – se tornou, a cada dia, um lugar cada vez mais comum.


A sociedade americana foi vivendo diversas crises. A pobreza se espalhou pelas massas. E várias pessoas se viram não integradas as riquezas criadas pela sociedade norte-americanos. Essa ausência de integração causou uma espécie de ressentimento em massa. Ajudando, enfim, ao processo de radicalização da sociedade americana. As pessoas que já não integravam a sociedade industrial não se integrariam também a sociedade pós-industrial. Essa lacunaridade se tornaria uma "ferida aberta na veia da sociedade estadounidense".


O movimento que vai contra o corporativismo capitalista nos Estados Unidos tem várias faces e vários grupos. Poderia ser mais enquadrado no populismo e no socialismo – convergentes em alguns pontos histórico, mas não inteiramente iguais –, ganha força em grupos distintos como universitários, proletários, negros e imigrantes.


O movimento populista – nos Estados Unidos da América – se distingue do movimento socialista. Os populistas creem na descentralização, desconfiam da burocracia estatal, além de uma ligação com a agricultura. Já o movimento socialista quer a sociedade industrial reorganizada, acredita no poder do Estado e na centralização – não todos, mas a maioria.


A questão discutida é: quem é o responsável por essas distorções que levam pessoas a ficarem a margem do sistema? Se as classes tem um autointeresse na condução econômica, conforme o pensamento marxista, é evidente que ela busca uma solução mais vantajosa para ela enquanto portadora de um privilégio estrutural. Logo a ideologia burguesa nada mais é do que uma forma de fortalecer o poder dominante da própria burguesia. Os populistas veriam de outra forma essa questão, existem pontuações em relação as situações sociais, culturais e até psicológicas. O sistema permaneceria intacto só ao acomodar essas questões.


Em momentos anteriores da sociedade americana, o movimento populista e o movimento socialista colapsaram – se não em nosso momento, ao menos naquele momento em que Christopher Lasch analisava. Eles não conseguiram se fortalecer o suficiente para fazer valer os seus interesses. Não só não chegaram a hegemonia, como cessaram de serem forças históricas transformadoras.


O movimento populista foi sendo substituído na medida em que o capitalismo industrial ia transformando as forças econômicas dos Estados Unidos. Se o movimento populista se baseava muito em questões dos camponeses e a principal força se tornou o proletariado industrial, a principal base do populismo – agrária – não teve forças para se estabelecer como movimento hegemônico. Ademais, o desenvolvimento contínuo da industrialização monopoliza o saber para determinados grupos que cresciam em poder. Seria muito difícil que pequeños grupos agrários pudessem fazer frente a esse poder e a essa produtividade. Em outras palavras, os inimigos já eram poderosos demais para serem derrotados por um grupo pequeno e fraco.


Um dos planos para revitalizar o populismo foi a maior união entre diferentes grupos e um contato maior com os intelectuais. Numa sociedade marcada pela segregação racial, tal união se tornaria mais difícil e o seu processo seria mais delicado. Já era difícil fazer com que os trabalhadores aceitassem migrantes, como fazer com que aceitassem negros? Um processo lento, diga-se de passagem.


Saindo das questões raciais e indo em direção as sugestões de gênero, embarcamos no feminismo. O que se esperava da mulher? Que ela fosse bonita e bem cuidada para que encontrasse um bom marido. Ou seja, que valorizasse a si mesma enquanto produto para ser vendida para um bom homem. A "mulher ideal" não era mais do que uma "prostituta" que era vendida uma única vez. A mulher não podia ter uma liberdade e uma autossuficiência tal como o homem podia. Ela era um ser privado de liberdade e sujeitado ao gênero oposto.


Todos esses movimentos foram crescendo e se ajustando com o tempo, seus líderes/representantes foram sendo eleitos e, a partir de suas eleições, começaram a perder a sua criticidade e capacidade de ver a sociedade americana como injusta. O que foi gerando uma sociedade desintegrada e representantes alheios aos interesses de suas próprias comunidades iniciais. Além disso, vários grupos careciam de voz audível, dentre os quais os negros. Esses grupos marginalizados tiveram as suas pautas esquecidas.