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quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Necrológio Cadavérico #10 — Existência Humana



Se eu morresse hoje...


Eu me perguntaria se ainda sou humano. Não falo em um sentido de eu acreditar literalmente que perdi a humanidade. Falo do questionamento, que se tornou uma constante obsessão psicológica em minha mente, se há algo que me liga à humanidade. Recentemente, vi uma entrevista com o Peter Thiel. Ele foi questionado se a raça humana deve continuar a existir. Naquele momento, ele titubeou.


Não é como se eu estivesse trabalhando ativamente pela extinção da raça humana. Particularmente, eu sequer acho a minha vida valiosa. Se fosse indolor, eu sequer me importaria de morrer agora mesmo. Não é uma ideação suicida, mas eu sinto que já fiz o suficiente. Ao menos, para mim basta o que fiz. Escrevi livros e textos ininteligíveis. Os quais bastam para mim. Sei que pode soar profundamente egoísta dizer isso, mas eu não ligo se IAs se tornarem a espécie suprema.


Lembro-me, quando pequeno, de que eu via as pessoas se entristecerem com os mais diversos fatos e eventos. Todavia eu não conseguia compreendê-los ao todo. Era como se existisse, de alguma maneira, uma barreira impenetrável entre algo que era afetivo-cognitivamente para elas e, simultaneamente, era impossível para mim. 


Sempre penei por causa da minha estranheza. Ora sendo chamado de retardado. Ora sendo chamado de maluco. Ora sofrendo ataques por conta da minha bissexualidade. Ora sendo atacado por conta do autismo. Esse tipo de tratamento e o que vi durante esses meus vinte e nove anos de vida me fazem pensar que talvez seja melhor mesmo que as inteligências artificiais substituam os humanos. Não sei se isso é rum ou, melhor dizendo, se isso pode ser visto como algo ruim. A única coisa que vi na minha vida foi ódio e abandono. Tudo o que construí de bom foi sozinho.


Por algum tempo, eu abria certas redes sociais e via que as pessoas se odiavam sem motivo algum. Ao menos, sem motivo justificável. Por vezes, são os estereótipos raciais e o racismo pseudocientífico que se interpõem e destroem as relações humanas. Por outras, constroem-se razões de gênero e de sexualidade. Todos os dias, levantam-se os mais idiotas motivos para o ciclo de ódio que se repete infinitamente. Uma teoria da conspiração antissemita é montada dia após dia. Uma razão ideológica cresce a cada instante. Justifica-se até a existência dos manicômios mesmo se sabendo que o chamado holocausto ou genocídio brasileiro ocorreu lá.


Fiz um questionamento sobre a necessidade da existência humana. Depois, questionei-me se a existência humana é de fato um bem. Só que havia um outro questionamento, bem mais profundo, escondido na minha cabeça. Percebi que se existisse um evento cataclismático que apagasse a existência humana do planeta, eu não me importaria. Em outras palavras, estava escondido dentro de mim que no fundo sequer me importo com a existência humana. Eu sequer me importo com a minha própria existência. Posso não ser misógino, LGBTfóbico, antissemita, mas tenho certeza de que sou misantropo.


Na imensa maioria das vezes, se alguém é de um lado oposto ao seu, muitas vezes ela te estereotipará e te tratará como um lixo. O humanismo não existe como condição de abertura e diálogo. Ele existe tão só e meramente pela e para a seita. A maioria das pessoas que eu vi nunca leu e nunca pretendeu ler uma linha de pensamento contrário. Muito pelo contrário, veem as figuras opostas como figuras eternamente manipuladoras e malignas em sua guerra eterna. Talvez isso seja a condição da era pós-dialógica. De qualquer modo, eu não me importaria se tudo isso acabasse. Eu não me importaria se o mundo que conhecemos parasse de existir.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Agradecimentos

 



Fui buscar meu diploma hoje. Várias memórias se passaram dentro de minha cabeça, era como um episódio de flashbacks. Até aquele período em que estudei depressivamente, desmoronando pela submersão de vários sentimentos, tornaram-se alegres. Uma sensação, um sentimento de conquista justificado pelo esforço e a capacidade de não desistir.


Passei 3 anos em uma labuta, indo quase toda semana pegando livros da biblioteca em paralelo às aulas diárias que tinha. Durante o curso, frequentei duas bibliotecas para complementar a minha formação literária, fora alguns cursos que executava em paralelo. A formação se deu pelo esforço, muitas vezes foi uma batalha de vitalidade e persistência para dar continuidade a uma série de estudos privados e de ordem curricular. De qualquer modo, sempre decidi ir além. Eu tentei conciliar e fiz, na medida do possível, uma série de estudos que complementavam o curso.


A faculdade foi-me mais do que um compromisso burocrático. Era-me um mundo inteiro. As disciplinas - nem todas, mas a maioria - me encantaram. Os assuntos tratados, na sala de aula ou fora dela, foram-me de máxima importância. Em pouco tempo, eu, garoto revolto, tornei-me tão acadêmico quanto poderia ser. Embora eu sempre tenha mantido um olhar para aquelas questões e autores pouco olhados, visados ou admirados. A vida me foi como um grande pancânon dialético e ainda o é. A dialogicidade e a necessidade de negar-se para ir além do aceitável para mim mesmo me foi compromisso antes, durante e depois do curso.


Agradeço aos carinhosos professores, amigos e companheiros que, durante esse trajeto, acompanharam-me e ajudaram-me. Espero sempre estar, mesmo que espiritualmente, ao vosso lado. Foi difícil a minha trajetória, já que além de autista eu sou bipolar e tudo se atrapalha no meu autocentramento e mudanças de humor. Só que consegui superar isso e ir além graças a vocês. Também sou grato imensamente a minha família que esteve ao meu lado em todas essas múltiplas crises que se apresentaram em meu caminho. Espero um dia ser digno do amor que recebi de todos vocês.


Ao terminar essa postagem, sinto que estou mais velho e, quiçá, mais sábio também.