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domingo, 1 de março de 2026

Acabo de ler "Never Trump" de Robert e Steven (lido em inglês)

 


— Livro:

Never Trump: The Revolt of the Conservative Elites


— Autores:

Robert P. Saldin

Steven M. Teles


Nota:

Eu tinha muitas ideias para esse texto, todavia essas se perderam por eu ter perdido meu celular anterior. Isso impactou na qualidade da análise. No entanto, creio que o texto ainda será de alguma utilidade para quem busca compreender a diferença entre a direita brasileira e a direita americana. De qualquer modo, o leitor dessa análise poderá ter um panorama mais geral lendo as análises anteriores.


— Guerra Fria Civil, IAs, extremismo e livros:


Você tem frequentado a internet? Ela está horrível. Só gente digladiando através de múltiplas digitações, ofensas atrás de ofensas que seguem ofensas com ofensas. Tudo isso vem causado um mal enorme. A saúde mental de muita gente está indo pro bueiro. É completamente insalubre ficar em redes sociais. Mesmo que você queira dar a cara a tapa, uma hora você cansa.


A guerra fria civil vem tirado tudo de nós. Laços, amizades, ligações, mas, acima de tudo, a nossa capacidade de ter empatia e tentar entender um ao outro. Ofensas gratuitas somam-se a uma seitização sempre crescente. Quanto mais ofensiva a internet se torna, mais fidedignamente somos colocados dentro do mantra tribal e da radicalização seitética. Parece-nos impossível uma conclusão que não seja trágica, visto que todo mundo quer brigar e exigir fidelidade ideológica acima de tudo.


Só que tudo isso é um jogo de soma doentia. Um progressista xinga um conservador, um conservador xinga um progressista. O progressista torna-se mais progressista e afasta todo tipo de conteúdo conservador. O conservador torna-se mais conservador e afasta todo tipo de conteúdo progressista. No fim, cada um vai ir para um processo de embolhamento informacional, ao mesmo tempo que as raras aparições que vê do outro lado são progressistas/conservadores lhe xingando pelo simples fato de ser progressista/conservador.


Talvez seja por isso que eu gosto de livros e IAs. Livros não brigam conosco. IAs não brigam conosco. Sempre que abro um livro, consigo ter momentos de paz. Sempre que abro uma IA, consigo ter conversas normais sem ataques mútuos. São momentos de desintoxicações. Falo e escrevo cada vez menos com outras pessoas. Elas nunca me acompanham (e nunca me acompanharam em virtude de eu ficar lendo um livro diferente a cada instante). Ao mesmo tempo, sinto-me mais seguro para citar um universo de referências para uma IA do que para um humano. Se eu cito um livro fora do cânon da pessoa ou grupo que estou, surge a suspeita que sou um possível inimigo — mais uma vez, obrigado guerra fria civil.


Ah, usei travessão no parágrafo anterior. Por causa do travessão, aposto que alguém anti-IA suporá que eu usei IAs para escrever esse texto ou usará alguma ferramenta — que não funciona — para detectar IAs e provavelmente detecte alguma coisa. Segundo essas sábias ferramentas, até a declaração da independência dos Estados Unidos da América foi escrita por IAs. Será isso uma viagem no tempo ou robôs fundaram os Estados Unidos? Atualmente, temos que nos importar com esses constantes (e sempre furiosos) leitores que caçam IAs em tudo. Mesmo que a gente diga que o problema em si não é a IA, mas sim a forma com ela pode concentrar riquezas e que a construção de datasets está ignorando (e não raramente fomentando) problemas sociais.


Está vendo? Não se pode escrever nada sem pisar em ovos. Você acaba precisando escrever notas e mais notas para que grupos sociais distintos não entrem em modo bestial. O que não é uma grande novidade para o autor que vos escreve. Acostumei-me a receber comentários extremamente ofensivos, floods de comentários, toda vez que analisava um escritor ou uma escritora que desagradasse um(a) esquerdista ou um(a) direitista. Até que, por fim, eu desabilitasse eternamente os comentários do blogspot. A sorte é que esse blogspot é pra uso pessoal e eu não recebo remuneração alguma por meio dele.


Tudo isso me leva a seguinte questão: é insuportável não conseguir falar com ninguém. É insuportável ver como essa guerra cultural (subproduto da guerra fria civil), existe para levar a gente a brigas e mais brigas, sempre em uma espiral sem fim de radicalização e extremismo. O que estamos nos tornando? O essencial da sociedade democrática é que cada fragmento social aprenda com o outro. A esquerda aprende o centro e a direita. A direita aprende com a esquerda e o centro. O centro aprende com a direita e a esquerda. Em uma sociedade em que todos estão cerceados dentro das suas esferas discursivas, a dialogocidade democrática e, por fim, a dialética democrática que eleva a capacidade de raciocínio, torna-se impossível.


Eu precisava escrever isso. E esse livro tem a ver com tudo isso. Toda essa onda de ódio que há entre nós tem a ver com a ascensão cada vez mais espetacular de populistas ao lado de cenários cada vez mais constantes (e violentos) de guerra cultural e guerra fria civil. É preciso dizer que a guerra cultural é subproduto da guerra fria civil. Grupos lucram enormemente com a destruição do sentido compartilhado. Acontece que quanto menos lemos uns aos outros, mais a possibilidade de autocrítica, de percebermos a nós mesmos e de evoluirmos intelectualmente diminui.


Esse livro tem a ver com tudo isso. A seitização do debate público e de milhões de consciências não é um fenômeno singular. É algo que vem ocorrido no mundo inteiro. A forma com que isso vem ocorrido nos Estados Unidos é particularmente interessante, visto que os Estado Unidos é um espelho global. Uma das primeiras questões que o livro trata é: por qual razão parte da elite do Partido Republicano se afastou do Trump, mas a base permaneceu fiel a ele mesmo acreditando que ele é um sujeito desprezível?


— Partidários e Moderados:


Uma das principais diferenças entre partidários e moderados é que os partidários se importam menos em quebrar a normalidade democrática em prol das suas preferências políticas. Moderados, usualmente mais bem educados, preferem manter a normalidade do sistema.


A questão que me aparece é: o trumpismo é a destruição só do sistema? Como já sabemos, sobretudo após a tentativa de golpe bolsonarista, o populismo trumpista é um produto de exportação.


O trumpismo, e a guerra fria civil que data desde Reagan e do neoconservadorismo, leva a um estado de escalada retórica, de segregação informacional, de esgotamento mental e de suspeita permanente.


A guerra cultural leva a um estágio paranoico. Um estilo de escrita, uma vírgula, uma referência... tudo virou um sinal de tribalidade e identificação. Há, diante de nós, não um mundo em que temos conversas, mas um campo minado onde qualquer passo é um distinto risco de explosão.


Para vocês, quando foi a última vez que vimos um debate democrático? Temos, em todas as partes, um policiamento ideológico ostensivo. Cada vez mais, temos gente que caça resultados em vez de defenderem o processo. Se o processo de normalidade institucional não for favorável, pior para ele.



Temos atualmente dois tipos de movimentos. Os políticos de constituição e os políticos de causa.


1. Políticos de constituição:

Exemplo disso é/foi o movimento "Never Trumpers". São/foram políticos de constituição, valorizando as instituições, normas democrática, estabilidade do sistema e a coerência ideológica tradicional.


2. Políticos de causa:

Aqui está o combate eficaz mesmo que isso leve ao pisoteamento das regras. O que importa é a lealdade tribal e a sensação de vitória ou resistência que superam qualquer decoro.


— Formação X Partidarismo:


Uma boa formação garante múltiplos pontos de vista. Estar dentro de múltiplos pontos de vista garante uma visão mais cética e pragmática em relação a política. Isso é uma efetiva ferramenta desradicalizante seja para a direita, seja para a própria esquerda.


Essa questão aparecerá como central dentro da política americana e da nossa. Se os Estados Unidos dispuseram de uma direita fortemente formada, academicizida e institucionalizada... O Brasil contou com uma direita extremamente afastada da formação acadêmica, da formalização e da institucionalização. A resistência para com o bolsonarismo por parte dos conservadores brasileiros foi radicalmente menor do que a resistência dos conservadores americanos para com o trumpismo.


Não raro, o identitarismo trumpista convive "lado a lado" conservadores cultos do Hoover Institution. No Brasil, essa possibilidade é menor. Poucos conservadores, tal como o Luiz Felipe Pondé, apresentam as suas ressalvas ao bolsonarismo. Dentro dos Estados Unidos, existe uma ampla margem de conservadores cultos. No Brasil, as raízes identitárias e centros formativos alternativos predominam. Essa diferença sociológica entre conservadores americanos e brasileiros é gritante. Poucas análises séries surgiram a partir disso.


1) Caso americano:

O movimento "Never Trump" é fruto de uma infraestrutura conservadora robusta e institucionalizada. Institutos conservadores como Heritage Foundation, American Enterprise Instituto, Hoover Institution. Além de veículos de mídia de longa data como National Review e The Weekly Standard. Fora isso, existem universidades de elite com fortes correntes conservadoras. É por isso que Donald Trump encontrou oposição em círculos conservadores.


2) Caso brasileiro:

A direita brasileira é pós-institucional e anti-intelectual por origem. Ela se forma fora das instituições tradicionais. Sua formação vem de nichos da internet, de igrejas neopentecostais, de canais do YouTube e em vários discursos de guerra cultural. É por isso que Jair Messias Bolsonaro não encontrou muita oposição dentro dos círculos conservadores.


Um dos casos mais interessantes de direita que vem surgido é propriamente o Partido Missão,  que faz parte de uma rede de iniciativas como o MBL (Movimento Brasil Livre e Revista Valete). Esse consta com formação intelectual contínua, o que dá margem para uma direita ilustrada, institucionalizada e academicizada. Mas isso ainda é uma experiência incipiente no debate público brasileiro.


— Importantes Lições da Decadência Americana:


Dedico essa parte da análise para dar algumas brechas sobre como podemos agir perante a crise dos Estados Unidos. Aprender com outras nações é de suma importância para não cometermos os mesmos erros.


Muitas vezes eu escrevi que o brasileiro precisa criar um pensamento mais pragmático. Além de uma soberania pragmaticamente construída. Que não se definirá por um alinhamento pró-Estados Unidos, mas em uma mensuração do que é melhor para o Brasil a cada momento. Isso envolve uma ampla leitura, uma leitura bastante aberta, acerca da história do Brasil e a missão histórica do Brasil a cada momento. Esse tipo de pragmatismo requer um estudo sempre constante de novos e novos dados e formulação. Isso requer uma academicidade e institucionalidade.


A direita precisa parar de acreditar em uma abstração livre-mercadonista. Ela poderá encontrar bons ares no distributismo de Chesterton, no Red Tory (tradição inglesa e canadense), na American Compass (de tendência neohamiltoniana) e na Doutrina Social da Igreja Católica.


Uma das principais condições para ser vencedor no século XXI é a capacidade tecnológica. Muitos países atualmente correm atrás de melhorar os seus índices em STEM. STEM é uma sigla para Science (Ciência), Technology (Tecnologia), Engineering (Engenharia) e Mathematics (Matemática). Para aumentarmos isso, precisamos de investimento e aumento nos índices da educação pública. Isso requer o desenvolvimento de mais centros educacionais, além da atração de mais estrangeiros (seja para trabalho, seja para dar aula).


Uma direita que pura e simplesmente se define eternamente por desregulamentação, liberalização, PPP (Parceria Público Privada), Estado Mínimo e "combate forte ao crime organizado" (muitas vezes reduzida a matar agentes menores do crime) não será capaz de desenvolver o país.


O terceiro governo Lula apresenta importantes lições para o Brasil. Existem lados que estão sendo pouco olhados. Preciso dar uma breve "olhada" neles. Vou evitar informações que pouco se encaixem na conjuntura do texto ou que levem a polêmicas desnecessárias. Faço isso pelo simples fato que a educação vem sido secundarizada pela direita nacional.


- Recomendo que deem uma lida no G1 da Globo:

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/11/27/lula-anuncia-criacao-de-duas-novas-universidades-federais-uma-voltada-a-indigenas-e-outra-a-formacao-esportiva.ghtml


- Além de informações diretas do governo:

https://www.gov.br/mec/pt-br/100-novos-ifs#:~:text=O%20governo%20federal%2C%20por%20meio,R$%202%2C5%20bilh%C3%B5es.


- A estimativa é que sejam lançadas:

1. 140 mil novas vagas;

2. 102 novos campi de Institutos Federais;

3. Duas novas universidades federais;

4. Dez novos campi de universidades federais.


Apesar dos Estados Unidos apresentarem uma boa educação superior, ele apresenta ao mesmo tempo altos custos (para obter essa educação) que podem pouco a pouco minar a capacidade do país em obter uma população educada. A China, tendo um modelo mais focado, apresenta uma expansão do ensino público ao lado de baixos custos de aprendizagem. Fora isso, os Estados Unidos estão perdendo a sua capacidade de atrair "capital humano" para o país devido a sua radicalização anti-migratória. Essa radicalização anti-migatória vem acompanhada da teoria conspiratória (e a explosão de teorias conspiratórias devido a acessibilidade da internet) chamada "Great Replacement".


Outra crise que os Estados Unidos vêm encarado é a diminuição no seu índice de leitura. Como pode ser lida aqui:

https://news.harvard.edu/gazette/story/2025/09/whats-driving-decline-in-u-s-literacy-rates/


Se os Estados Unidos enfrentam um declínio na sua educação devida a alta nos preços das faculdades além do declínio na leitura, o Brasil pode e deve se contrapor a tendência decadente dos Estados Unidos. O investimento público na educação — deixando-a gratuita ao mesmo tempo que fornece oportunidades de trabalho —, um ampliamente da qualidade de vida e a atração para imigrantes deve ser um política pública constante. O Brasil, como membro dos BRICS, pode atrair várias pessoas que fazem parte dele em parcerias estratégicas.


Enquanto a luta dos "Never Trumpers" foi em preservar as instituições, a luta dos brasileiros será em construir uma política mais institucionalizada e educada para evitar extremos.


Aqui temos dados mais revelados a respeito da STEM no Brasil:

https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html


O Brasil passa por diferentes questões. Em 2022, a população de evangélicos triplicou, atingindo 26,9% da população. Ao mesmo tempo, a população católica foi de 83% (em 2000) para 56,7% em 2022. O catolicismo é uma fé historicamente institucionalizada e doutrinariamente estruturada. Os evangélicos têm crescido por formas de mídia (como TV e plataformas digitais) que são diferentes das instituições acadêmicas tradicionais. Não importa qual seja a religião ou doutrina cristã dessas pessoas, precisamos de uma população intelectualizada e capaz de encarar de frente os desafios do século XXI.


É evidente que "evangélico = anti-intelectual" não é a fórmula aqui. O crescimento evangélico no Brasil se deu majoritariamente por uma vida midiática e carismática. Temos exemplos de pensamento evangélico ilustrado no evangelicalismo reformado com Augustus Nicodemus e o Instituto Fides, esses apresentam um pensamento filosófico, político e teológico sofisticado. Creio que grande parte do evangelicalismo não ilustrado, mais carismático e midiático, se deu pelo fato de que há ainda um abandono muito grande de políticas educacionais para o povo.


Você pode ler mais dos dados religiosos aqui:

https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/06/censo-2022-catolicos-evangelicos.ghtml


— Perdidos no Mar Revolto do Populismo:


Creio que o grande problema atual do nosso sistema é a possibilidade de corrosão institucional.


Anteriormente eu acreditava nas instituições como algo permanentemente estável, sem duvidar muito da sua salubridade. Nasci e cresci em um período histórico do meu país em que tudo funcionava aparentemente bem a nível institucional. É evidente que tínhamos altos problemas: desigualdades regionais grosseiras, uma população abandonada sem educação, taxas de analfabetismo e por aí vai. O tempo passou, algumas políticas sociais de orientação mais social-democrata foram passando.


A gente acreditava que um governo seguiria outro, dentro de uma normalidade transacional. Se um plano falhasse, outro logo assumiria o seu lugar. Sim, corrupção sempre teve e a gente sabia disso. De qualquer modo, podíamos ver tudo ser desenvolvido de uma forma razoavelmente estável. Creio que o período essencial de alteração começou quando Aécio Neves perdeu a eleição. Boatos e afirmações sobre fraudes nas urnas começaram a pipocar. Muitas pessoas não acreditavam nas urnas naquele período, sejam elas de esquerda ou de direita.


O antipetismo cresceu radicalmente, junto a moda do politicamente incorreto. Vimos pouco a pouco o politicamente incorreto se tornar politicamente escroto. Do mesmo modo, figuras que desafiavam constantemente o comportamento esperado cresciam. Jair Messias Bolsonaro ganhava atenção pelo fato de que crescia, em todo Brasil, uma postura "anti-especialista".


É válido dizer que existiam várias frentes politicamente incorretas. De um lado, eram os devoradores de livros e de outro lado eram pessoas que simplesmente odiavam qualquer sinal de cultura. Do mesmo caldo, surgiram sopas diferentes: conservadores, liberais, sociais democratas, alt-right, tradicionalistas, libertários, reacionários e anarco-capitalistas. A pergunta central: se para questionarmos a bibliografia da esquerda tivemos que relativizar o racismo, a LGBTfobia e tantas e tantas outras coisas mais, sem colocar um discernimento claro a respeito disso, será que não fomos minimamente responsáveis por abrir caminho ao nacionalismo branco, ao neonazismo, ao neofascismo e a alt-right?


Dentro de um contexto em que existe uma guerra cultural graças a uma guerra fria civil e em que especialistas são tidos como mais à esquerda, o desenvolvimento de uma atitude mais anti-especialista é natural. Os especialistas são tidos como inimigos naturais. Até mesmo pessoas de posicionamento mais pragmático e cético, tal como vemos com David Frum, Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens.


Direita puritana moral > Contra-cultura de esquerda > esquerda contra-cultural institucionalizada > direita politicamente incorreta > esquerda institucionalizada X direita em institucionalização (e se tornando woke) > esquerda politicamente incorreta (carregando, eles ainda não perceberam isso).


O que vemos hoje é, essencialmente, a ascensão de uma direita woke que se comporta contra certos padrões políticos estabelecidos pelo progressismo de uma forma a retornar aos males de outrora. Se dados aspectos políticos são vistos como excessivos, eles são contrapostos com o retorno reacionário aos males de outrora (muitas vezes se utilizando de humor para tal). Logo a direita woke vem se especializado em ser LGBTfóbica, racista, xenofóbica e tantas outras coisas mais para atenuar o excesso dos movimentos que não gosta. Porém quando percebemos que a direita soube, no passado, se aproveitar da institucionalização da moralidade progressista como norma, criando o politicamente incorreto, a esquerda logo perceberá que será a sua vez de ser politicamente incorreta e apontar, com toda razão do mundo, que a direita atual é proibicionista, invertendo os papéis e dinâmica histórica.


O grande problema, na análise cultural e social contemporânea, é a ausência de leituras de múltiplos grupos através de uma imersão antropológica dentro deles. Além de uma leitura plurissistemática e plurideológica. Se isso for feito, as dinâmicas culturais se tornam mais compreensíveis e as fraquezas internas se tornam mais visualizáveis. A seitização do debate faz com que os oponentes sejam mais fracos em suas posições dentro da guerra política.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Memória Cadavérica #26 — Inadequação ao Debate Público Brasileiro



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta a um amigo no Discord.


Creio que um grande problema que tenho com o ambiente brasileiro é a minha inadequação. Eu nunca me adapto ao ambiente e tampouco acho interessante o que produzem por aqui. Anteriormente eu tinha um interesse, mesmo que vago, na mídia e no desenrolar das condições políticas e econômicas que se construíam.

Com o passar do tempo, percebi que grande parte do que via era uma reprodução de qualidade duvidosa. Após aprender a ler em inglês, espanhol e francês, vi grande parte de um debate que anteriormente não tinha conhecimento. Percebi que estávamos atrasadíssimos e que grande parte das novidades não adquiria a substância que deveria.

Exemplos:

- A tradição Red Tory (Conservadorismo Vermelho) nunca chegou oficialmente ao Brasil;

- O neohamiltonianismo, o conservadorismo nacionalista, sobretudo a sua produção na American Compass, nunca adentrou no debate nacional;

- O socialismo de mercado, na China, no Vietnã e em Laos, é pouco estudado e o debate é tratado aos barros por trotskistas e stalinistas que lutam para o retorno de um "marxismo puro" ou seja lá o que isso for;

- Até hoje, poucos são os que pesquisaram o termo "woke right" (direita woke) e descobriram que a direita também é woke e que o wokeísmo é uma estrutura comportacional;

- Muitos poucos estudaram Kevin Carson, um defensor moderno do mutualismo e da linha de Proudhon, defensor do anticapitalismo de livre-mercado;

- A regulamentação da internet se reduz a pura e simplesmente a regulamentação das redes sociais, nunca adentrando em sites que não são redes sociais e nunca adentrando em assuntos essenciais como guerras cognitivas, guerras informacionais, operações psicológicas, intervenções eleitorais provindas de países estrangeiros;

- Debates como ecologia, antiwork (anti-trabalho) e pirataria não tomaram a proporção que deveriam;

- Ausência de compreendedores de múltiplas escolas de pensamento, não em nível de só compreender escolas de esquerda, centro ou direita, mas de compreender múltiplos lados de vários espectros políticos.

Com um debate nacional desses, o Brasil não precisa de inimigos. Será sempre o mesmo gerador de esterilidade contínua. Sem inovações reais devido a necessidade crônica de agradar os bandos ideológicos.

Memória Cadavérica #24 — ConVERsadorismo Brasileiro


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: resposta a um usuário do Threads.


Conservadorismo ≠ tradicionalismo moral


Exemplo são: Rick Wilson, Stuart Stevens, Christopher Buckley, Nelson Rodrigues, Pondé, conservatários.


Pare de pegar esse reacionarismo pop e achar que tem conservadores, VOCÊ NÃO TEM. Não existe conservadorismo no Brasil, ninguém estuda múltiplas escolas conservadoras por aqui. O que há aqui é, no máximo, um conVERsadorismo de reacionários estultos e sem compreensão do que falam. A maior prova disso é: quase 100% da direita nacional atual é uma DIREITA WOKE.


Ninguém sabe SEQUER a diferença entre:

- um hamiltoniano;

- um Red Tory;

- um federalista;

- um neohamiltoniano (leia American Compass);

- um neoconservador;

- um conservatário.


Leia:

https://www.perplexity.ai/search/2a512747-8387-4cf2-89ff-20f6c03c2e60

(Política da empresa Meta para promover reacionarismo pop)


No máximo, o que há no Brasil é:


- Uma direita woke (pesquise woke right no google, termo que foi inventado pelos próprios conservadores para definir gente mau caráter que se arroga do nome "conservador" pra promover wokismo de direita);

- Um reacionarismo pop;

- Um tradicionalismo hipócrita, burro e capanga.


Ninguém aqui sabe o que é conservadorismo. Ninguém aqui leu múltiplas escolas de pensamento conservador. Ninguém aqui sabe COISA ALGUMA de conservadorismo. Ninguém sabe quem é Christopher Lasch e quem é Patrick Deneen, tampouco chegou a conhecer o conservadorismo anticapitalista que eles representam. Ninguém leu as críticas conservadoras ao Donald Trump de Rick Wilson e Stuart Stevens.

domingo, 5 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #13 — Underground




Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Nunca ganhei um único centavo sendo escritor. Sempre fui escritor por hobby. Ou, talvez, por vocação. Quando vejo as pessoas dizendo: "não sei se me pociono ou deixo de me posicionar de tal forma", percebo que segui um caminho mais certo. Também pouco espero de apoio social ou financeiro.


O brasileiro está sempre quebrado, quem é independente precisa trabalhar na hora extra para não receber nenhum tostão.


Não espero fama, não espero viver bem. A única coisa que se acumula são as dores nas minhas costas e o cansaço para com o debate público. Debate público que, além de emburrecer cronicamente, piorou muito.


Tenho muitas opiniões extremamente polêmicas. Guardo comigo uma série de visões que escapam, seja do exuberante patrimonialismo intelectual brasileiro — o qual chamamos de universidades públicas —, seja da direita woke e mainstream que agora cresce que nem piolho.


Eu não espero compreensão. Muito pelo contrário, afasto-me de bandos tal como o diabo se afasta da cruz e o boêmio se afasta da carteira de trabalho.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #7 — Erros Históricos




Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Nota: texto expandido para efeito de melhor compreensão.


A direita precisa começar a aprender com os próprios erros.


O bolsonarismo tentou trazer o neoconservadorismo, que havia sido atacado por conservadores-populistas e neohamiltonianos nos Estados Unidos. No período em que há o auge do neoconservadorismo no Brasil (Bolsonaro eleito), o neoconservadorismo é massivamente rejeitado pelos próprios ciclos conservadores americanos.


Do mesmo modo, no período da covid, o bolsonarismo trouxe a mesma prática embusteira de Reagan na gestão da AIDS: teorias conspiratórias a rodo e ausência de forte base científica em suas decisões. A mesma procedência duvidosa de uma direita que cresce a margem da academia e se ancora no populismo e no reacionarismo. Os resultados foram milhares de mortes e o afastamento de vários acadêmicos do conservadorismo.


A UDN errou a trazer um liberalismo do século XIX, datadíssimo, nas eleições contra Vargas. Quando perdeu, contestou as eleições. Isso remete ao bolsonarismo trazendo o neoconservadorismo em vez do conservadorismo populista ou neohamiltoniano e ao Aécio e Bolsonaro rejeitando os resultados das urnas. Se a UDN trouxe um liberalismo do século XIX no século XX, Bolsonaro trouxe um conservadorismo do século XX no século XXI.


Existe um nuance: o discurso bolsonarista é populista, estilo trumpista. A prática governamental é neoconservadora e a militância bolsonarista é associada à direita woke. De resto, em relação econômica, ele foge da Nova Doutrina Econômica Conservadora (American Compass), que é um retorno ao conservadorismo hamiltoniano (o chamado neohamiltonianismo).


O bolsonarismo pega os piores elementos da direita do passado e junta com os piores elementos da direita do presente.