Mostrando postagens com marcador vampiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vampiro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Caveira Casual #7 — The Cure, Almografia e Automutilação Emocional

 


Começo colocando o início do álbum "Faith" do The Cure. A começar pela música "The Holy Hour". Mais uma vez, impressiono-me com o baixo. Isso vem se tornando uma rotina. Colocar uma música e escrever. Mais uma vez, não me impressiono com o debate brasileiro e com como o Congresso impressionou Lula. Não tenho nada a dizer. Eu não espero nada do Congresso, eu não espero nada do Governo. Se não fosse por isso, não passaria a maior parte do meu tempo lendo e estudando a política de outros países. Os movimentos Never Trumper, Reformicon, Red Tory e a China me impressionam mais. Faço isso por causa do tédio. O debate brasileiro parece ser algo que eu já sei o que acontecerá. É como uma série na qual até mesmo mais violento spoiler não impressiona em nada e cheira a clichê.


"Primary" começa a tocar. Em um ritmo mais rápido, diga-se de passagem. Não perde a tonalidade sombria, mas o som vem mais agressivamente. É como correr bêbado no escuro em uma rua deserta de uma cidade urbana. É como rir bêbado no alto da calada da noite. Em uma espécie de efusão momentânea de algo que você não sabe o que é. Algo que vem como uma risada de desespero. Tal como a política brasileira, é como rir de algo ridículo que você já esperava mesmo. Não espero nada, não me entregam absolutamente nada. Não que eu seja niilista, a realidade é que é. Não luto contra ela, apenas bebo meu álcool e a esqueço. Vocês que insistem em citar Getúlio Vargas e Carlos Lacerda esperando que algo de mágico volte a ocorrer.


"Other Voices" começa a tocar. Sigo o ritmo alucinante da escrita surrealista. Escrevo sem parar para que tudo que tenha na minha mente possa vir a pipocar e quebrar por meio de palavras que formam frases. Tentando extrair cada canto obscuro do meu inconsciente. Tentando voltar ao pouco de originalidade que ainda me resta, visto que foi obrigado a sair de mim. Não paro, nem por um minuto, para que minha obsessão tome forma estilística. Escrever dessa forma é como escrever bêbado. Não sei se o leitor ou a leitora já tentou. Compreendo a razão dos /mu/tants do 4chan serem muitas vezes libertários.


"All Cats Are Grey", essa é a música que começa a vir. Tal como tudo na vida, é uma questão de instante. Mesmo que eu esteja cansado de escrever, preciso extrair de mim aquilo que me impede de escrever. Forçar uma revolução tal como se extrai um coração de um vampiro. E quem não é um vampiro? O vampiro não sai de dia, visto que pertence à noite. Pertence à noite, visto que não está no nosso mundo. O vampiro rejeita o alho, já que o alho é saudável. O vampiro vive em festas de mistérios, já que a festa o aliena da reflexão sobre si mesmo. O vampiro teme a cruz, tal como o diabo teme a cruz, visto que o que teme é o sofrimento. O vampiro existe para se vincular a tudo que é alienante. O vampiro existe para tomar sangue em sua natureza parasitária. Eu entendo isso, eu sou assim. Eu sou um vampiro há muito tempo. Sempre me escondo. Sempre vou embora. Não há nada que me livre dessa condição. 


"The Funeral Party". Essa é especial. Soa como um romance doce e inacabado de alguém que já partiu e nunca mais voltará. Ela traz o desejo de um retorno que nunca poderá retornar. Tristemente deliciosa em sua proporção. Evoca a mais tenra depressão. De alguém que chora com um misto de felicidade e tristeza. Felicidade, visto que lembra da pessoa amada. Tristeza, visto que a pessoa amada nunca voltará. Como tenho uma vida recheada de erros, sei como é sentir isso. Lembrar de cada fragmento de momento. Sabendo que errei em cada um deles. Sabendo que fiz partir quem profundamente amei por causa da minha natureza doentia. Conjecturo como seria minha vida se eu não tivesse errado tanto. Como seria se eu não fosse tão volátil? Como seria se eu não fosse tão doente, tão podre, tão errático. Deduzo, a partir de um cálculo psicológico e criminoso, que seria muito melhor. Seria melhor até mesmo se eu nunca tivesse existido. Seria melhor até mesmo se eu tivesse já partido.


"Doubt". É uma das mais violentas do álbum. Parece uma alcateia de lobos correndo atrás de um coelho assustado numa noite de Lua cheia recheada de neve. É como correr após desligar toda a mente na tentativa de descarregar todas as emoções do corpo. É o que tenho feito. Descarregar e descarregar. Mesmo quando termino de psicologicamente correr, os sentimentos e as memórias ainda estão infelizmente lá. Não importa quantas latas de cerveja, não importa quantas doses de cachaça, não importa com quantas pessoas eu fiquei, não importa quantos casos resolvidos, não importa quantas investigações eu faça. Eu sempre estou tentando explicar, demonstrar, fazer alguma coisa que prove que minha alma é real nesse universo de lixo.


"The Drowning Man". Essa é mais calma. É como estar numa praia na noite. Está chovendo e ventando de leve. Os coqueiros simplesmente balançam. Estou sozinho. Estou sozinho a desenhar o universo em desencanto. Minha mente se eleva para pintar cada quadro obsessivamente depressivo que surge das minhas dúvidas. Não há nada que eu possa fazer. Dói. Todavia, eu sinto que quero continuar nessa condição de esvaziamento melancólico. Tal como se eu não pudesse mais fazer nada. Eu sinto que preciso continuar. Sinto que estou a desenhar cada contorno torto de minha alma. Quero que tudo vá, para que eu possa ver a almografia da minha alma. Quero desenhar cada um dos meus pecados, quero desenhar cada um dos meus erros, quero desenhar cada beijo falso que dei na esperança torpe de tornar a minha falsidade real no coração de alguém. Sei que isso é arriscado. Sei que tudo isso soa depressivo. Todavia, a continuidade da dor é o remédio de que preciso para refazer esse espelho quebrado que chamo de chama da minha alma.


"Faith". Essa é a última música. Também é a música que dá nome ao álbum. Ela corre obsessiva e lenta, como os dedos carinhosos de mulher amada. Lembra-me dos cafunés que abandonei em prol dos novos erros da minha alma desalmada. Cada boca amorosa que abandonei na busca de curar o abandono que senti em minha infância apequenada. Cada abraço que fugi em prol de recordar que eu sempre serei só. Estou sempre a correr em círculos. É a dialética do ouroboros. Estou sempre a comer meus erros passados ao cometê-los de novo e de novo. Saturno sempre devora seus filhos. Eu sou Saturno dos meus erros. Cometo-os novamente, apenas para apreciá-los psicoticamente em cada dor que causam ao meu estômago. Sentir dor é, atualmente, a única coisa que me faz sentir que sou real. Ardentemente prossigo em minha automutilação emocional. 

domingo, 30 de junho de 2024

Acabo de ler "Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania" de Clara Fernandez-Vara (lido em inglês/Parte 7)

 


Nome completo do artigo: Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania: Symphony of the Night

O que faz dum vampiro um vampiro? O arquétipo vampírico é extremamente interessante. Se, por um lado, ele é extremamente poderoso, ele também sofre com as condições da sua própria natureza. A dualidade vampírica está entre o que ele era (humano) e o que ele se tornou (vampiro). A sua antiga vida sempre lhe marca e lhe dá um forte tensionamento psíquico. Há uma moralidade e existem aqueles que preferem não abandonar a sua moralidade humana, negando assim a sua própria natureza vampírica. E existem aqueles que abandonam a sua humanidade, tornando-se ainda mais "vampíricos". Quando falamos que existem vampiros bons e maus, tratamos usualmente a partir de um ponto de vista humano. Se vampiros de fato existissem, deveríamos partir do ponto de que existe uma modalidade de moral vampírica e essa não estaria dentro dos parâmetros da humanidade.

Alucard representa um outro vampiro. Um menos entregue a escuridão e mais atrativo e palatável aos humanos. Ele representa uma reinvenção da imagem arquetípica do vampiro: a do vampiro glamuroso. Ele é forte, encantador e pode cuidar dos humanos. Ora, a imagem do vampiro glamuroso não é uma ameaça a humanidade, muito pelo contrário: ela traduz um anseio humano. Seja por se tornar algo além de humano (transcendência), seja pelo encanto estético que apresenta (algo mais romântico e sexual). De qualquer forma, a humanidade criou um outro vampiro baseada nos seus próprios gostos. Um vampiro é bom na medida em que serve e se adapta a sua mesma moralidade. E não só isso, ao gosto estético da humanidade. Os humanos, no geral, gostam de borboletas e odeiam baratas.

No geral, temos as seguintes linhas: um vampiro é bom pois serve a humanidade e um vampiro é ruim pois é inimigo da humanidade. Só que esse questionamento está circunscrito a própria humanidade. Se pensarmos numa vampiridade, a própria adesão restrita a estética humana já é, por si mesma, uma negação da vampiridade. Para os humanos, um vampiro deve negar a sua própria natureza e servir aos homens. O que parece bem alienante e, até mesmo, intolerante. Mesmo que um vampiro seja um inimigo da humanidade, tentar convencê-lo a ser humano não é uma forma de castração? Esse questionamento também deve ser levantado.

Quando pensamos em Alucard, ele representa mais do que um "vampiro glamuroso". Ele é um ser que é criado a partir da união de um vampiro com um ser humano. É por isso que existe uma contradição: ele é um ser de dupla natureza. E essa duplicidade carrega um aspecto pendular. Se não há uma plenitude desses dois lados – um reconhecimento identitário –, o próprio sentido existencial se perde e o personagem precisa escolher entre duas vias (a humana e a vampira). A existência de Alucard é, para si mesmo, uma incógnita. Ele é um eterno paradoxo e está numa posição limítrofe na qual deve se posicionar existencialmente sem ter um bom parâmetro comparativo e sem nunca ser totalmente uma coisa ou outra.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Acabo de ler "Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania" de Clara Fernandez-Vara (lido em inglês/Parte 5)

 


Nome completo do artigo: Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania: Symphony of the Night

Drácula surge contextualmente numa Inglaterra em modernização. Nele temos a figura do estrangeiro, do estranho, do invasor. Ele representa o mundo que "vem aí", o mundo da modernidade burguesa, em que os velhos valores são pouco a pouco destruídos e a ciência e a racionalidade adentram em seu lugar. Todavia temos uma questão: como ficam os velhos valores, encarnados sobretudo pela doutrina cristã, que anteriormente vigoravam? O desapego a essa cosmovisão que representava a estabilidade, consistência e garantia da própria ordem até então instituída levam a uma perda da unidade interna da nação e, ao mesmo tempo, uma desintegração do "eu plural" e da harmonia daquela antiga unidade que até era indissolúvel.

A figura do vampiro aparece de forma parasitária, como uma figura corrompida e corruptora, que vive na noite, em estranhas festas luxuosas, sempre fugindo da vida habitual e dos valores comuns ao povo. Seus estranhos negócios não aparecem como as virtudes militares da nobreza ou o trabalho duro do artesão e do camponês. Suas festas e o fato dele dormir durante o dia são demonstrações de que ele não vive na labuta. O fato dele viver seduzindo mulheres casadas demonstra uma contradição a moralidade sexual monogâmico vigente. O Drácula é, em vários pontos, o oposto dos valores sociais, a negação sistemática que surge para se insurgir contra o sistema.

É evidente que com a modernização do mundo, não só no âmbito tecnológico e científico, mas também no social, com a sua laicização e a maior aceitação da classe burguesa/comercial, temos uma relativização dessa imagem do vampiro. E o vampiro moderno é apresentado mais como um marginalizado e até mesmo como uma vítima das circunstâncias do que um inimigo que faz contraponto a cosmovisão duma comunidade bem estabelecida. Entender essa troca acerca da imagem do vampiro é crucial para compreender o desenvolvimento do imaginário social e, igualmente, as relativas mudanças de valores que não são fixos e eternos, mas sujeitos a processos de construção e desconstrução.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Acabo de ler "Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania" de Clara Fernandez-Vara (lido em inglês/Parte 4)

 


Nome completo do artigo: Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania: Symphony of the Night

Em que se fundamenta a imagem do Drácula e a sua contraposição ao Alucard? A imagem do Drácula é a imagem de um vampiro que crê na superioridade da "raça" vampírica e menospreza a "raça" humana. Já a imagem de Alucard é a de um semi-vampiro (dampiro), que carrega contradições, sendo metade humano e metade vampiro, todavia a sua força reside no fato de que é filho do maior vampiro da história. Ao mesmo tempo em que vê uma bondade nos humanos e uma maldade nos vampiros, tal fato lhe encarrega duma autocontradição vinda duma autopercepção negativa. Alucard está ao lado dos humanos – em vez de estar com o seu pai – para condenar algo que também é parte da sua própria natureza. Algo que, inclusive, deve alimentar e fortalecer para condenar. Essa marca, embora não muito explorada, aparece latentemente.

O Drácula representa a figura de um vampiro clássico, vítima da circunstância da sua própria natureza corrompido. Quando Drácula aparece no começo que é contradictoriamente o fim, visto que o conflito com o Drácula é o fim, temos a alegação de que a humanidade sempre busca a dominação dos seus semelhantes por meio da geração de um conflito que geralmente leva a possível destruição da própria humanidade. Não só o vampiro, como igualmente o homem é vítima da própria natureza. O homem busca um poder que, no fim, será usado para a sua própria escravidão. Nesse ponto, o Drácula pode ser encontrado como uma analogia ao "inferno da história", isto é, tudo aquilo que é idealizado fortemente numa época (ideologia, religião, ciência, descentralização, centralização, liberdade, segurança) torna-se prontamente a escravidão em outra época.

Esse conflito existencial é a fonte do ataque de Drácula: não é o próprio Drácula que ressuscita, de tempos em tempos, sozinho. É a própria humanidade que não consegue viver sem acreditar no pleno domínio e no pleno poder. Para justificar o seu poder, cria de tempos em tempos "encarnações malignas do Drácula" – cada geração tem o Drácula da sua história e é vítima do seu próprio Drácula – para adquirir o que quer e, então, é condenada pelo próprio anseio que legitimou. Talvez se pode dizer que o Drácula é o próprio anseio perverso do homem pelo poder e é por isso que aparece e reaparece historicamente em cada período com uma nova face.

Alucard, por sua vez, representa a dualidade humana: ele tem algo de "muito bom" e algo de "muito mal". A sua natureza humana e a sua natureza vampírica. Ele precisa, nesse paradoxo existencial que é colocado contra a própria vontade, evoluir em sua natureza vampírica (maligna) ao mesmo tempo em que mantém a humanidade. Defender a humanidade é defender quem matou a sua mãe, visto que é revelado que ela foi crucificada. Essa experiência poderia muito bem colocá-lo na própria disposição de ajudar o seu pai ou se tornar ele mesmo o próprio Drácula. Tudo estava encaixado para isso, mas foi a sua retidão moral que o fez não ceder diante desse conflito. Todavia também é a retidão moral que faz reconhecer que existe um mal dentro de si e que os milagres que opera são realizados a partir da utilização desse próprio mal. Tal correlação é extremamente tensional e o "custo da liberdade é a eterna vigilância".

Acabo de ler "Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania" de Clara Fernandez-Vara (lido em inglês/Parte 2)

 



Nome completo do artigo: Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania: Symphony of the Night

A fórmula habitual dum Castlevania é: adentre no corpo de um humano, usualmente da família Belmont, pegue a sua "vampire killer" (chicote) e, posteriormente, saia na porrada com toda uma série de monstros inebriantes que ameaçam a existência humana. Symphony of the Night não é, entretanto, a história de um humano superando seus próprios limites para vencer o ser mais forte do universo. A história vai num caminho alternativo: é a de um vampiro utilizando dos poderes que ele mesmo crê como fundamentalmente questionáveis para derrotar o próprio pai. E, para concluir a sua missão, ele mesmo precisa evoluir os poderes vampíricos que ele crê questionáveis. Essa missão, autocontraditória psiquicamente, dá um bom tom ao game.

Não é, todavia, a primeira que Alucard se empenha em derrotar o seu próprio pai. Ele já ajudou nessa tarefa antes, durante o jogo "Castlevania 3". O motivo dele não ter aparecido em outros eventos, foi pelo fato de que ele queria adentrar num sono perpétuo para esquecer de si mesmo e também da sua própria natureza. A dualidade que o Castlevania Symphony of the Night apresentará também é essa: o protagonista fortalece o que mais odeia em si mesmo para derrotar o mal do qual faz parte. Há também o fato de que o protagonista do jogo anterior, Richter, está dentro do castelo e ele é um dos antagonistas do game.

O jogo também faz uma série de referências as inversões. O jogo começa na luta final de Richter contra Drácula, ou seja, começa no fim da fórmula do Castlevania padrão, em que o Drácula é sempre enfrentado por último. O jogo tem um vampiro como protagonista, o que é exatamente o contrário do que se espera, visto que os vampiros representam o maior mal possível em Castlevania. O jogo apresenta um final falso em que o vampiro (Alucard) pode matar um humano (Richter). É o humano Richter, embora manipulado, que controla o castelo do "rei vampiro". É um vampiro que odeia ser vampiro que fortalece seus poderes vampíricos para derrotar o vampirismo. Um castelo reverso aparace se você seguir a linha correta da história e explorar curiosamente os recursos – narrativos e de gameplay – ofertados pelo próprio jogo.


Acabo de ler "Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania" de Clara Fernandez-Vara (lido em inglês/Parte 1)

 


Nome completo do artigo: Dracula Defanged: Empowering the Player in Castlevania: Symphony of the Night


O que há de tão interessante em Castlevania? Talvez seja o fato de você lutar contra criaturas malignas e salvar a Terra. Talvez seja porquê é legal chicotear monstros num Castelo Metamorfo. Talvez seja simplesmente porquê violência simulada em um ambiente virtual fantasioso seja divertido. Talvez seja a própria ambientação louca do Castlevania, o fato do Castelo ser a imanentização dos medos da humanidade, do inconsciente de todos que passam e vivem lá, de como ele se altera e adapta conforme o psiquismo humano coletivo e pessoal. De qualquer modo, Castlevania fornece múltiplas possibilidades, não só narrativas, como estéticas, como de gameplay.


A autora estabelece que fará uma distinção: existem dois vampiros centrais dentro do jogo. Um é um semivampiro, o Alucard. O outro é um vampiro muito específico, visto que é o vampiro central e "pai" de todos os outros vampiros, o Drácula. A linha narrativa de cada um desses vampiros segue em linhas opostas. O que demonstra que não há um "modelo universal de vampiridade". Essa contradição já se observa no nome: Alucard é Drácula de trás pra frente. O que significa não só uma coincidência, como uma contradição entre visões de mundo e até mesmo um conflito existencial que se projeta em cada momento do jogo.


O mais interessante disso tudo é o fato de que Alucard tem os mesmos poderes básicos do Drácula. Até porquê ele é filho do próprio Drácula. A questão familiar é bastante interessante, visto que o mais natural seria que o Alucard fosse do "mal" e se aliasse ao próprio pai em sua luta contra a humanidade. Tal não é o caso observado. O que se observa é o conflito entre o rei dos vampiros e o princípe dos vampiros. O jogador encarna e aprende a ser um vampiro pouco a pouco. E essa linha contraditória leva ao próprio Alucard entrar num questionamento existencial: ele é o legado direto do rei dos vampiros e são os poderes vampíricos que ele usa para derrotar o rei dos vampiros. Isso fornece uma tensão que não escapa ao senso de observadores atentos.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Acabo de ler "Drácula" de Bram Stoker, versão adaptada por Leonardo Chianca e ilustrada por Rogério Borges.



    Acabo de ler "Drácula" de Bram Stoker, versão adaptada por Leonardo Chianca e ilustrada por Rogério Borges.


    Uma fantástica curiosidade é que Bram Stoker passou os primeiros oito anos de sua vida deitado na cama por uma doença que não pôde ser diagnosticada pelos médicos. E sua mãe lhe lia contos de fadas, histórias de fantasma e apavorantes histórias de epidemias. Creio que tal experiência lhe proporcionou o corpo de sua obra literária.


    O que é o vampiro? Segundo a própria definição encontrada no livro após o final dele é: "uma alma aflita de um suicida, de um criminoso, ou de um herege, que saí de sua sepultura à noite, em geral sob a forma de um morcego, para beber o sangue de seres humanas". Imaginem uma figura conturbada pelas ideações suicidas, pela sua ideias heréticas e pelos crimes que lhes são inescapáveis devido a sua natureza corrompida. O vampiro é vítima de seu vampirismo e seu vampirismo é uma condição agônica que lhe faz fazer mal a sociedade como um todo. Sofrimento inescapável, vítima e algoz. 


    O vampiro é, sempre, uma pessoa ilustre que, por sua condição "demoníaca", escora-se em sua própria "arte das trevas" e sofistica-se no mal. O vampiro é aquele que adquiriu erudição nas "artes sombrias". Só que ele não faz isso por querer, mas pelo erro que lhe é inerente pela sua condição amaldiçoada. O vampiro é, como já dito, vítima e algoz. Vítima da sociedade, que não o compreende. Algoz dessa mesma sociedade, a qual parasita.


    Sendo um ser eminentemente sedutor, seduz as pessoas incautas e leva-lhes para roubar o sangue. O vampiro seduz, depois parasita. A sua chave de viver é o parasitismo a qual não pode fugir. Só acorda nas trevas e só vive nas trevas, seja nas trevas da noite e em seu coração. A luz, seja a luz do dia ou a luz do bem, o queima e mata-o. Logo, só pode ser um ser da noite, sempre fugindo eternamente da luz. Como tal, vive numa eterna noite sem paz. Talvez, intimamente, desejando o bem que não pode ter e aperfeiçoando-se nas "artes das trevas". Criatura fantástica, demoniacamente fantástica, vítima de sua própria natureza e perpetuadora do mal que é vítima.


    O vitimado é, também, um eterno algoz. Preso eternamente num mal.