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domingo, 16 de agosto de 2026

Leftypol, Renan Santos e Ameaça de Morte



Esse texto é uma resposta a um amigo, mas como esse Blogspot recebe cerca de quarenta mil visualizações mensais, acredito que seja de interesse público essa mensagem. Disponibilizarei o texto no Medium também. Creio que notarão um  "excesso de texto" a respeito do comportamento do militante médio; esse "excesso de texto" é a chave para a interpretação real. Já que ele aponta para um problema maior e mais cruel. Algo que muitos, a esse ponto, já notaram. Eu não vou dizer diretamente o que é, mas quem observou esse caso friamente sabe que há um padrão quase misterioso, algo que pode parecer muito com o que foi escrito no passado. Esse padrão misterioso me levou a temer o que o militante médio está a realizar em prol de fazer o Renan Santos ter mais presença midiática.


Sua pergunta é muito difícil de responder. Sendo sincero, estou afastado da militância da Missão desde abril/maio. Muitos dos meus amigos também estão afastados. Muita gente que conheci simplesmente caiu fora. Algumas pessoas que conheci querem esquecer que "ainda fazem parte", sumir gradualmente de cada vista e serem esquecidas por todos os outros. Confesso que não acompanho muito de perto o que se passa com essas pessoas. O MBL e o Partido Missão, quanto mais se conhece de perto, têm um gostinho de cidade pequena. Creio que posso aderir a um estilo que soe demasiado "afastado", "frio" ou "monótono". Se assim for, peço-lhe desculpas.


Sempre fui bastante frio e sempre tive uma linha interpretativa bastante própria. Nunca parei de ler autores de esquerda, de centro e de direita ao mesmo tempo; sempre faço isso antes da formulação de qualquer linha de raciocínio. O blogspot Cadáver Minimal é a prova disso. Isso pode soar desagradável para movimentos que possuem uma linha comportamental mais estrita e uma hierarquia mais forte. É graças a isso que sempre me mantenho afastado. Gosto de ler até mesmo quem se encontra no ponto contrário ao meu; isso me possibilita chegar a visões mais complexas e completas.


Tenho recusado falar do MBL e do Partido Missão, sobretudo no Blogspot e no Medium. A razão é simples: não quero ser visto como um estorvo para o Partido Missão/MBL nem quero que o público do Blogspot ou Medium acredite que exista alguma conexão profunda que nunca existiu. Repito mais uma vez: estou afastado desde abril/maio. Venho vivendo um afastamento progressivo. Isso foi algo que foi bom para mim e também para eles. Os outros que se afastaram, não sei como estão. Nem tenho informações suficientes para afirmar coisa alguma. Se o tivesse, também não afirmaria nada. Mas juro-lhes que não tenho contato algum e foi por escolha mútua. Cada um foi para o próprio canto e foi viver a própria vida.


Isso faz parte de uma "lore", de uma temporada que passou. Conheci gente do MBL, até mesmo pessoalmente. Gente que tirou foto com candidatos e até era conhecida por setores amplos da militância. Tem muita gente boa, tal como há gente boa em cada partido e movimento. Já saí para tomar cerveja e até ver um jogo da Copa com alguns. Havia algumas pessoas que eu conhecia de longa data na internet. Também pude ver como muitos se comportavam em determinadas situações e como eles se comportavam conforme acusações de traições eram soltas ou simplesmente quando era mais conveniente todo mundo se afastar de um incômodo.


Sendo sincero, houve gente que foi afastada como se tivesse lepra no mundo antigo. Acredito que, dentro de um movimento, existam figuras que possam ser mais sacrificáveis e outras que não possam ser sacrificadas de nenhuma maneira. De qualquer modo, a maneira ríspida com que isso ocorreu, atingindo até algumas pessoas que nem sabiam muito do que se passava, passou-me a impressão de existir uma diferença entre esotérico e exotérico no nível de informação que cada membro da militância recebia. Compreendo, contudo, que houve uma grande perturbação interna, que em parte justificou comportamentos mais extremos em relação à vigilância e às teias relacionais. De qualquer modo, essa separação entre conhecimento exotérico e esotérico parece ser, dentro do partido e do movimento, algo muito estranho e que não existe para fins meramente estratégicos, mas como uma lógica muito anômala a um partido e um movimento político. Tal estrutura comportamental parece assumir um espaço cada vez maior, lado a lado com o emprego estético cada vez mais excêntrico, gerando a internalização de uma lógica oculta e misteriosa que tem um fim não muito claro. As conexões que se traçam através do tempo parecem não só se somar, mas assombrar. A estrutura comportamental e a estética se somam assombrosamente.


O problema é que para muitos militantes, o mundo do MBL e do Partido Missão, além da revista Valete, era uma parte fundamental da identidade que possuíam e não queriam perdê-la. Isso fez com que muitos, apesar do que se passasse, seguissem comportamentos que, por muitas vezes, acreditei serem tóxicos. Não concordo com legiões que atacam mulheres de forma misógina ou que possuam um comportamento amplamente LGBTfóbico. É bastante evidente o costume de setores da militância de atacarem os adversários dessa forma. Não só adversários, mas ex-integrantes também. Toda crítica é válida, mas deve ser feita de uma forma honrosa. Um dos maiores exemplos é um desafeto do movimento que é chamado de "travequeiro". Mesmo que ele curtisse mulheres trans, o que me parece não ser o caso, qual seria o problema? Uma pessoa adulta ter relacionamento com outra pessoa adulta não é problema de ninguém. Não há provas de adultério. Nem existe qualquer motivo para celebrar violência física contra opositores políticos.


Outra coisa importante, que cabe ressaltar, é que a estrutura do movimento e do partido, em si, parece comportar a defesa só da radicalidade comportamental dos membros mais notórios e não daqueles que são da base. Em outras palavras, caso um membro individual, de pouca importância para o partido e para o movimento, seja pego em ações misóginas ou LGBTfóbicas, ele não gozará de proteção real. A mesma linha de observação cabe à acusação de determinadas figuras sem provas cabíveis por causa de humores momentâneos e conclusões triunfais falíveis. Isso pode ser errôneo e inadequado, além de juridicamente irresponsável. Os militantes menores, apegados à lógica da identidade, deveriam ser mais estratégicos em seus feitos.


O MBL e o Partido Missão são atentamente monitorados por diversos grupos. Os seus membros, até mesmo aqueles considerados menos importantes, são observados por pessoas de diversos partidos e movimentos. Muitos deles podem printar, fazer dossiês, fazer denúncias ou até mesmo tomar ações mais concretas contra esses membros. É por isso que considero que são necessárias mais precaução e mais estratégia e menos ânimo nas tomadas de decisão que os militantes, não importando quem eles sejam, tomam. Além disso, o costume de brigar com todos os outros grupos pode levar a um afastamento do movimento e do partido de outros setores sociais importantes para o seu crescimento.


Lembrem-se de que, na estrutura moderna, seria muito fácil encontrar diversos perfis menores envolvidos em LGBTfobia e misoginia. Esses perfis, embora estejam permanentemente na vacilação, são úteis para amplificação das mensagens do partido e do movimento. Se algum grupo decidisse fazer reportagem em massa, denunciar ao Ministério Público ou simplesmente encadear matérias jornalísticas envolvendo a atuação nociva de setores da militância, o ataque poderia levar a uma boa perda da capacidade de articulação digital em momentos sensíveis. Se diversos perfis caem, a capacidade de amplificar as mensagens do movimento e do partido diminui. Isso deve ser pensado, sobretudo quando temos em mente as regulamentações que aumentam dia após dia. Embora eu seja da linha que defenda um corpo menor de leis para uma aplicação mais funcional delas, ainda é necessário pensar no impacto jurídico de cada ação de acordo com as leis que foram ou serão aprovadas.


Preciso dizer isso em figura de linguagem, mas para bom entendedor, meia palavra basta. Entenda que quando o parquinho pega fogo em nome da revolução burguesa contra a nobreza, apenas as crianças da burguesia serão resgatadas. Tome cuidado, caro plebeu, caso se reúna com essas crianças adinheiradas em suas andanças revolucionárias. A revolução custa muito para quem pode ser sacrificado e menos para quem não pode. O comportamento de um líder é protegido pelo escudo de seus seguidores e da sua estrutura, todavia, o comportamento de um seguidor não apresenta o mesmo escudo nem a mesma estrutura. Dito isso, preste mais atenção nos próprios passos antes de andar no vulcão do mundo; a fumaça é alucinante e as caídas podem ser mortais.


Sinto muito por ter tido que entrar em tantos meandros para só então entrar no que ocorreu com Renan Santos. Eu sou uma daquelas pessoas que estão afastadas ou simplesmente sumiram. Para ser mais exato, estou preferindo me abster de qualquer confronto e me dedicar aos estudos. Já escrevi isso várias vezes, mas sempre acabo por ressaltar esse ponto de novo e de novo. É custoso obter a paz, porém é mais custoso ainda perdê-la logo após obtê-la. Se eu aprendi algo, olhando de perto e de longe, é que essas aventuras eleitorais são radicais e muito custosas, sobretudo para quem está na base.


A ameaça sofrida por Renan Santos: creio que é importante dizer que qualquer ameaça ou tentativa de intimidação deve ser tratada com seriedade, sobretudo pelas vias adequadas. Isso não é controverso nem discutível; é necessário. Por favor, leia esse parágrafo duas ou três vezes se necessário. Leia até cinco vezes, conforme a necessidade. Volte a lê-lo toda vez que for necessário.


Não creio, contudo, que tenha sido correta a exposição generalizada que o Leftypol sofreu em decorrência do comportamento de um único membro. E tenho dúvidas quanto à excepcionalidade desse membro radical em um fórum historicamente pacífico. O pânico midiático tendeu a criar um marketing em torno de um fórum que tem o costume e o longo histórico de ser pacífico, até mesmo pacato. Sou uma pessoa que tende a acreditar que o jornal cria parte do imaginário social, tornando o escrito em uma realidade através de uma repetição. A repetição pode criar familiaridade e a familiaridade pode ser psicologicamente assumida como fato.


Confesso que tive um pouco de desinteresse em estudar e acompanhar o caso, sobretudo por viver um período de recolhimento e de estudo. Além disso, tenho me mantido afastado de qualquer tipo de informação política a respeito do Brasil por motivos de saúde mental.


Uma postagem anônima detalhando a intenção de atentado, apresentando local, data e alegada posse de arma justifica a investigação policial, independentemente da plataforma em que ocorreu. Esse aspecto não é debatível. A generalização a respeito do Leftypol, contudo, não faz sentido em termos de proporcionalidade. No Leftypol, tal como em qualquer chan, as postagens individuais não se vinculam a uma organização como um todo. Até porque não há hierarquia formal, partido ou estrutura de comando. O conteúdo é gerado por usuários anônimos. Logo é impossível presumir que uma postagem individual represente todos os seus usuários.


O que acho extremamente enganoso é que a exposição midiática e política transformou um post isolado em representação coletiva; isso é um padrão recorrente em cobertura de chans e é algo que sempre critiquei. Um caso extremo não pode nem deve virar metonímia do espaço inteiro. Esse julgamento é válido para chans mais à direita e para chans mais à esquerda. Além disso, criar todo um pânico envolvendo assassinos misteriosos em fóruns anônimos em pleno período eleitoral me parece algo perigoso e que deveria ser feito com mais cautela. Esse tipo de mensagem costuma levar mais pessoas perigosas para dentro desses fóruns.


Existe algo no meu estômago. Sinto a necessidade de colocar essa linha de raciocínio aqui. No Brasil, períodos eleitorais costumam apresentar bastante exposição midiática. Nesses períodos, a notícia serve como amplificação de imagem. Isso atrai tanto os partidos quanto quem quer aparecer. Recentemente tivemos um caso em Brasília, onde um grupo planejava um atentado. Quando as notícias explodiram em pleno período eleitoral, isso pode ter levado a um efeito duplo: de um lado, o pânico social; de outro lado, grupos que mimetizam a lógica do caos e querem ver uma chance para sombriamente brilharem. Toda notícia a respeito desse tipo de ação pode levar à amplificação desse fenômeno e isso deveria ser visto com mais cuidado. Não podemos, enquanto sociedade, normalizar tamanho comportamento violento, mesmo que inconscientemente.


Acredito que esse tipo de conteúdo não deve ser reproduzido em massa. Não deve ser utilizado para fins políticos. Não deve levar a múltiplas acusações. Não deve ser levado como prova contra adversários de longa data. Existem tenebrosos efeitos contraproducentes nisso. É evidente que Renan Santos ganhou maior atenção midiática, mas a chuva de ânimos levou a acusações indesejáveis. Além disso, grupos que visam estabelecer pânico social agora possuem uma fórmula atitudinal, seja a fórmula vista no Leftypol, seja a fórmula vista em Brasília. Isso é extremamente indesejável e perigoso. Estamos abrindo territórios hostis e normalizando-os em nosso imaginário social.


É válido lembrar: ameaças explícitas de violência real são contra as regras da maioria desses espaços e costumam ser removidas ou banidas quando detectadas, embora possa se alegar que a moderação de um chan é muitas vezes inconsistente e a natureza anônima dificulte a prevenção. Até onde pude pesquisar, não há registro público de campanhas de violência ou atentados originados do Leftypol como coletivo. Isso é uma realidade extremamente diferente de alguns outros chans que já tiveram vínculos documentados com ataques reais.


Uma coisa, meus caros, é noticiar uma ameaça específica, investigar a sua autoria e eventual capacidade de concretização. Outra, de natureza bastante diferente, é transformar essa mesma ocorrência em uma caracterização abrangente de todo o espaço de discussão. Não estou dizendo que a postagem é, em si, inofensiva. Ela não é. Acontece que não creio, pelo longo histórico do Leftypol, que ele seja uma espécie de hub de radicalização operacional. Isso é, para mim, um marketing político com fins eleitorais movido à falsa equivalência.


A dinâmica de pânico midiático e marketing involuntário é clássica: "fórum de extrema-esquerda planeja assassinato de Renan Santos". Isso serve para criar um imaginário que se autorreforça, atraindo curiosos e novos radicais e, paradoxalmente, solidificando a própria narrativa de vitimização de um lado e de demonização de outro. O jornalismo de impacto, cabe lembrar, frequentemente privilegia o excepcional e o ameaçador sobre o cotidiano discursivo do espaço. O que, mais uma vez, não anula a gravidade da ameaça, todavia, explica a razão de um post isolado ter ganho escala nacional em pouquíssimas horas.


Digo, mais uma vez, que não venho acompanhando o caso de maneira aprofundada. Como já dito anteriormente, tenho me afastado do noticiário político brasileiro. Repito novamente que por motivos de saúde mental, preferi me afastar desse tipo de informação. É por essa razão que não pretendo apresentar como certeza aquilo que não pude verificar pessoalmente.


É importante dizer: acredito que há muito sensacionalismo nas reportagens a respeito de chans. Usualmente os episódios mais extremos são tratados como regra. Isso cria um imaginário social que pode levar, ao contrário do que muitos pensam, a esses ambientes se tornarem desejáveis figuras patologicamente indesejáveis. Termino meu argumento da seguinte forma: acredito que a responsabilidade por uma ameaça específica deve ser investigada, mas a atribuição dessa ameaça a uma coletividade inteira precisa ser demonstrada e não presumida.

sábado, 15 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #55 — Cansado do Brasil

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originado de uma conversa no Telegram. Tom informal razoavelmente mantido.


Quanto mais o tempo passa, mais eu arrumo meios de esquecer que vivo no Brasil. É preferível, sei lá, colocar France 24 e ver um noticiário todo em francês do que abrir um jornal brasileiro.


Recentemente, também aplico um retardo temporal até mesmo no que leio em português. O único livro que estou a ler em português é "A Falecida", de Nelson Rodrigues. Faço por causa do curso de teatro.


Também leio "El Loco" de Juan Luis González, mas esse está em espanhol. O livro do Juan é interessante, mas confesso que por vezes me sinto um pouco enfadado de acompanhar qualquer coisa política e faço mais por obrigação do que por gosto.


Em inglês, leio "Supreme Courtship" de Christopher Buckley. Um livro fantástico, com uma protagonista incrível. Já dei boas risadas no metrô.


Atualmente faço aulas de mandarim. O mandarim é, para mim, outra excelente oportunidade de esquecimento do meu país.


A última vez que vi brasileiros interagindo intensamente foi em uma notícia sobre um professor texano que chorou ao perceber que os rapazes que formava não conseguiam ler quase nada. Eram rapazes de 17, 18 anos. A sessão de comentários era cheia de bolsonaristas. Todos culpando o Lula e o Paulo Freire pela educação que era dada no Texas. Vi, a partir disso, que sentia um enfado cada vez maior com o brasileiro médio.


Também não me interessei muito pelos rumos políticos nacionais. O que vejo é que, apesar de tudo o que se diz, Lula reeleger-se-á. Com alguma dificuldade, mas vai. O governo federal pertencerá à esquerda, mas os estaduais tenderão à direita. O centrão também terá uma fatia. Em 2028, creio que teremos mais novidades políticas. Em 2030, um direitista eleger-se-á.


Cremos que vivemos uma tendência de transição gradual. A esquerda perde a nível municipal e estadual. A direita vai ganhando municípios e estados. Creio que nessas eleições, o domínio legislativo e o executivo de nível estadual serão da direita. O governo federal, à direita, é um sonho que ela terá que esperar por mais quatro anos.


Digo isso, é claro, sem remorso algum. O Brasil não há de me surpreender muito. Os personagens muitas vezes soam caricatos. Eu não espero quase nada do Lula IV. Tampouco espero alguma coisa de algum governo de direita que se eleja em 2030.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!

 


A derrota de Flávio Bolsonaro é excelente para a direita nacional!


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente republicano: desprezo completamente as suas pretensões monárquicas.


Quanto ao bolsonarismo, sou absolutamente protestante: desprezo completamente as suas pretensões de ser um papado conservador.


Imagine a seguinte situação:


Você é um conservador que cresceu lendo Russell Kirk, Nelson Rodrigues, Michael Oakeshott, Gustavo Corção, Antonio Paim, Carlos Rangel, Stuart Stevens, George Grant, Rick Wilson, David Frum, Eric Voegelin, Christopher Buckley, Christopher Lasch, Bruno Tolentino, Patrick Deneen, Paulo Francis, Carlos Nougué, G. K. Chesterton, Yuval Levin, etc., etc., etc.


Você leu teóricos de esquerda também, já que é um sujeito ilustrado. Sejam os clássicos marxistas, sejam os clássicos anarquistas, sejam até social-democratas.


Você se lembra de conversar com seus amigos. Falar emocionado que está trazendo escolas de pensamento da direita pro Brasil:


— A Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo da American Compass;


— O Anglican Tory;


— O Red Tory;


— O pensamento de Charlie Kirk;


— Os chamados Never Trumpers;


— O movimento Reformicon;


— O pensamento de Alain de Benoist.


Aí você tem que parar. Parar e olhar. Olhar para uma família. Essa família se chama Bolsonaro. Os seus seguidores se chamam "bolsonaristas". Eles, que estudam o movimento intelectual conservador de um modo infinitamente inferior ao seu, devem ditar como você deve pensar e como deve se comportar. Aliás, eles acusam todo mundo que discorda deles de "serem um bando de esquerdistas".


No Brasil, estamos em um ponto agoniante. Nesse ponto de desespero, até figuras como Pondé se tornaram de esquerda segundo a mentalidade bolsonarista. Afinal, a direita é uma monarquia em que a família real é a família Bolsonaro. Ou seja, eles têm monopólio do que a direita pode pensar e ditam, tal como numa espécie de "infabilidade papel bolsonarista", tudo o que a direita pode ou não pode fazer.


Se Flávio Bolsonaro for ao segundo turno, voto em qualquer um que for contra ele. Meu voto não será, pura e simplesmente, de esquerda, de centro, de direita ou o que quer que seja. Meu voto será triunfalmente um voto antimonárquico, no sentido de ser contra a monarquia bolsonarista. Meu voto será radicalmente um voto antipapista, no exato sentido de ser um voto contra o papado da família Bolsonaro.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

/cc/ #5 — Estou de saco cheio do brasileirismo!

 



/cc/ = copicolas que eu criei pois estava de saco cheio de repetir as mesmas coisas.


Estou de saco cheio do brasileirismo!


Essa onda que entrou agora quer pôr o Brasil em tudo e obrigar todo mundo a consumir o Brasil em tudo. Todo brasileiro, imbuído de uma consciência artificialmente cívica e patriótica, deve ser brasileiro em gênero, número e grau!


Eu, pra ser sincero, estou cansado do Brasil. Eu sou brasileiro, meus pais são brasileiros, minhas ex-namoradas são brasileiras, todos os meus exs-namorados são brasileiros, todas as minhas ex-sogras são brasileiras. E, pra quem me chamar de vira-lata, até meus oito vira-latas são brasileiros e uivam o Hino Nacional com a consciência de mil Nelson Rodrigues numa autocondenação ao vira-latismo.


Toda vez que abro a internet e vejo conteúdo do Brasil, vejo a mesma coisa. Por algum motivo, todos usam o recurso das universais afirmativas, tal como se tivessem saído de um curso filosófico de lógica nacionalista:


- Todo brasileiro deve ver filmes nacionais!


- Todo brasileiro deve ler livros nacionais!


- Todo brasileiro deve ouvir música nacional!


- Todo brasileiro deve comer comida nacional!


Todos os que acordo, estou no Brasil. Eu vejo brasileiros todos os dias. Quando saio de casa, ouço Péricles pelas ruas. Quando abro a internet, deparo-me com as discussões tipicamente nacionais. É por isso que digo: eu não preciso de mais Brasil, eu preciso de menos Brasil!


Atualmente só leio livro gringo, pois quero sentir que estou fora do Brasil. Atualmente só jogo jogo gringo, pois quero sentir que não estou no Brasil. Compreende? Eu prefiro passar, sei lá, mil horas escutando artistas estrangeiros do que lembrar que estou no Brasil. Substitui Legião Urbana por Soda Stereo. Substitui Nikolas Ferreira por Yurval Levin. Substitui Lula por Proudhon.


Se me aparece um bolsonarista, digo-lhe que voto em quem ele quer que eu vote apenas para ele não me encher o saco com a sua brasileirice. Se aparecer um petista, digo-lhe a mesma coisa. Eu não ligo. Nem sei a razão pela qual um homem como eu, favorável a tecnocracia, tem direito a voto. Vocês deveriam ser gratos por eu não querer votar e, quiçá por sorte improvável, eleger um tecnocrata que quer o fim da festa da democracia.


É simplesmente insuportável ter uma obrigação que não pedi. Toda vez que vejo um outro brasileiro, sinto vontade de dizer: "apenas não, já tenho demais do Brasil vivendo nele, por favor, procure outro brasileiro para expressar a sua brasilidade".


Outro terrível fato é que, por algum acaso, todo brasileiro que vejo em vídeo gringo aparece dizendo "I as a Brazilian" e segue-se algum besteirol desnecessário. Soa como um "I ass a Brazilian". Estou farto dessas apresentações brasileiras, eu não quero saber que você vem do Brasil e também acho que ninguém quer saber. Você não é especial por ser brasileiro, eu não sou especial por ser brasileiro.


Vocês querem mais Brasil, sejam mais brasileiros entre si. Eu quero menos Brasil, deixem-me em paz com a sua brasilidade! Não me venham com seus filmes, seus livros, seu futebol, suas músicas, seus políticos, seus nacionalismos azuis ou vermelhos! Deixem-me em paz! Pelo amor de Deus!

terça-feira, 30 de junho de 2026

Estudos Lunáticos #3 — Mentalidade de Seita

 


Nota: esse texto é produzido com base no conteúdo de Jim Brillon.


A mentalidade de seita é vista em múltiplos locais. Essa mentalidade pode estar em um movimento religioso, político, de autoajuda ou até mesmo no marketing multinível. 


Usualmente as seitas tendem a utilizar medos e fobias para empurrar suas crenças. Essas crenças tendem a ser embaladas em teorias da conspiração. Medos irracionais são os mais comumente usados: racismo, sexismo, antissemitismo e classismo são lugares-comuns em discursos permeados por teorias conspiratórias.


Outra questão atual é a do algoritmo. O algoritmo das redes sociais é um reforço dos vieses de confirmação e também coloca pessoas de mentalidade semelhante no mesmo local ou para serem mais visualizadas. Isso leva a uma facilitação da radicalização.


Outras características comuns na mentalidade das seitas são:

- Figuras autoritárias;

- Network de crentes;

- Treinamento para crer em coisas sem sentido.


A ideologia de uma seita é permeada por uma interiorização: só produções dentro do próprio grupo são consideradas boas. Isso gera o fenômeno do: dentro do grupo X fora do grupo. As pessoas dentro do grupo são especiais, detentoras de um conhecimento muito superior. As pessoas fora do grupo são todas como ignorantes. Existe também a criação de maniqueísmo (bem x mal) em que a seita aparece como a única coisa boa, o que leva ao aumento da polarização.


Outro fenômeno das seitas é o "pensamento terminantemente clichê". Esse tipo de pensamento é caracterizado por frases destituídas de sentido que servem mais para terminar a discussão sem que as pessoas questionem ou possam questionar o que está sendo proposto. Exemplos disso são:

- Make America Great Again (Fazer a América Grande de Novo);

- Trust de plan (confie no plano);

- O tempo cura tudo.


Alguns desses "pensamentos terminantemente clichês" apresentam uma positividade tóxica que visa terminar a conversa e invalidar a emoção das pessoas.


Outra característica apresentada "gaslighting", uma técnica que faz a pessoa não acreditar no que vê para que ela possa ser apresentada aos conhecimentos ocultos e secretos que a própria seita tem a dizer.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Estudos Lunáticos #2 — Como seitas recrutam?

 


Nota: esse texto é produzido com base no conteúdo de Chris Shelton.


Seitas utilizam meios psicológicos e físicos para obter controle e isolamento. As três características centrais são:

1. Love Bombing (bomba de amor/afeto);

2. Isolamento;

3. Exploração de vulnerabilidades (desejos e medos).


Em uma seita, a primeira coisa que te transmitirão é a sensação de que você é amado, especial e importante. Isso é uma estratégia calculada para reduzir a sua defesa e criar dependência. Para tal, a estratégia de love bombing (bomba de amor/afeto) é utilizada constantemente. Esse love bombing é usualmente excessivo, intenso e falso. Ele ocorre verbalmente ou fisicamente.


O que as seitas querem te transmitir é a noção de que finalmente alguém te entende. Alguém finalmente compreende o quanto você é inteligente, o quanto você possui potencial e quais são as suas qualidades únicas. Isso cria, dentro de ti, que o seu lugar é ali. 


Após o estabelecimento da conexão, você será mais apto para ouvir, confiar e se juntar à seita. Essa estratégia não é, por assim dizer, exclusiva das seitas. Movimentos políticos e grupos de marketing multinível também fazem isso. Elas criam floods de suporte para dizer o quanto você é especial e como não está mais só. Isso cria um sistema tóxico de pertencimento e identidade que segue o seguinte fluxo:

1. Love Bombing;

2. Aceitação de uma ideia;

3. Criação de uma conexão para o estabelecimento de uma dependência emocional;

4. Sensação de valoração profunda dentro do grupo;

5. Confiança;

6. Investimento temporal e atitudinal;

7. Seguir as regras;

8. Controle;

9. Isolamento.


Quando chega o isolamento, vemos o desencorajamento de qualquer relação exterior ao grupo. Isso fará com que o membro passe mais tempo dentro do grupo do que fora dele. Nesse período, a ideia de que aqueles que não acreditam são perigosos começa a subir. É também onde começa a mentalidade de "nós x eles". No meio disso, constrói-se a ideia de que você está certo (por pertencer ao grupo) e que as outras pessoas são estúpidas. Além disso, sobem questionamentos sobre traições.


Aqui a exploração de vulnerabilidades cresce. A seita fornece tudo:

- Sentido;

- Propósito;

- Solução. 

A seita aparecerá como a portadora da solução. A sociedade aparecerá como corrupta. A mídia aparecerá como mentirosa. O único caminho seguro é a lealdade total. Nisso se encorajam o ativismo extremo, as teorias conspiratórias e as ideologias radicais. Quem for contra é um inimigo.


Seitas não começam com controle; elas começam com amor, com pertencimento e com solução. Se você ver alguém querendo insistentemente a sua atenção, desencorajando relações exteriores ou clamando ter respostas para tudo... questione-se se você está sendo recrutado.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Memória Cadavérica #52 — Diagonalismo



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: trechos de uma conversa no WhatsApp.


Grande parte das ciências humanas hoje se resume a dar voltas em círculo para justificar a própria doutrina. Muita gente não entra, nas ciências humanas, para estudar múltiplas escolas de pensamento e ver a veracidade das suas ideias parte por parte, mas para justificar TEOLOGICAMENTE a sua DOUTRINA DE FÉ. Falas como: "deixa eu te mostrar a solução (escola de pensamento) para" soam como porres repetidos.


Hoje em dia creio que: ideologias comparadas >>>> ideologia.


Extrair o melhor de cada teoria, as suas partes que deram mais certo, é o melhor para todos nós. No Brasil, temos apenas uma fábrica de idealistas que não se comprometem com os preços de suas próprias ideias. O problema da democracia horizontal sempre aparece. Como o seguinte exemplo:

1. Crie uma nova política de alfabetização;

2. Aumente o número de analfabetos;

3. Você não precisa se justificar pois existem otários para defender as suas ideias, mesmo que disfuncionais, e te reeleger.


Se fosse uma democracia mais vertical/tecnocrática, esse quadro seria impossível. Em verdade, defendo um regime híbrido entre a democracia representativa vertical e a democracia representativa horizontal, o qual chamo de democracia representativa diagonal. Acredito que se os índices de qualidade de vida diminuíram, logo a pessoa não pode ser reeleita e tampouco pode ir para cargos de maior responsabilidade.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Memória Cadavérica #49 — Solução a um Problema Apresentado em um Curso

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: resposta parcial a um curso que ando fazendo. (Eu tenho andado extremamente ocupado, sinto muito).


Enunciado:

DESAFIO AOS GRUPOS - CIDADE INTELIGENTE (SMART CITY)

A prefeitura de uma cidade de pequeno porte quer melhorar a qualidade de vida dos moradores usando soluções inteligentes, com foco em serviços públicos mais eficientes, sustentabilidade e experiência do cidadão. Sua equipe será responsável por propor, prototipar e planejar a execução de uma solução ágil para um problema real da cidade.

MISSÃO DO TIME

Criar um produto/serviço/processo que resolva um problema urbano relevante e gere valor mensurável para um público específico. A solução deve ser pensada para funcionar no mundo real, com recursos limitados e com preocupação com acessibilidade e privacidade.


Resposta:

1- Agilização Processos Legislativos e Participação Cidadã:


Baseado no e-Cidadania do Senado, criar um mecanismo de participação popular para resolver problemas de ordem local/municipal. Criando um processo de digitalização de soluções políticas e cidadania por meio da internet. Isto é, gerando uma plataforma digital para que cidadãos do município possam criar sugestões de ordem legislativa e executiva. Isso possibilitaria criar Projetos de Lei de Cidadania Popular. Como muitas cidades pequena utilizam uma forma analógica, registrada em cartório e que necessita de assinaturas físicas, a digitalização desse procedimento poderia resultar em uma maior democratização dos meios de participação popular/cidadã.



A estrutura poderia ser:

Título da ideia;

Problema que visa resolver;

Descrição da proposta.


Para a proposta ser posta em prática, necessitará da dupla condição: apoio de uma porcentagem de 1% do município e estar condizente com a Constituição de 1988. Em outras palavras, ter apoio popular orgânico e seguir a constituição. Uma equipe seria designada para analisar a constitucionalidade da proposta.


Tendo-se o apoio popular e a constitucionalidade garantida, a prefeitura da cidade comprometer-se-ia em protocolar a ideia como Projeto de Lei Executiva ou de enviar à Câmara de Vereadores do município.


2- Plataforma de Zeladoria Participativa e Orçamento Participativo Popular


Carinhosamente apelidado de “Infra Cidadã”, esse projeto ampliaria a participação popular/cidadã para Projetos de Intervenção Urbana de Iniciativa Popular. O mecanismo seria inspirado nos “boletins de ocorrência digitais”, isto é, cidadãos poderiam enviar imagens de regiões que necessitam de reformas. Isso possibilitaria um entendimento mais amplo das necessidades da cidade.


Além disso, adicionar-se-ia a possibilidade das pessoas zelar pela efetivação desses processos, cobrando da prefeitura e da secretaria de infraestrutura os prazos que foram definidos. Isto é, um mecanismo de cidadania baseado no feedback loop. O projeto teria a condição de que deveria caber no orçamento da prefeitura.


Se o projeto recebe apoio popular, ele passa a receber, por uma equipe de especialistas da secretaria de infraestrutura do município, uma análise técnica. Podendo receber uma nota de complexidade, um preço especulado e um prazo.


Por exemplo:


Baixa complexidade, solução em 15 dias;

Média complexidade, solução em 30 dias;

Alta complexidade, solução em 60 dias.


3- Login pela plataforma “Local Cidadania”


Integrado ao Gov.br, a plataforma servirá com a proposta de integrar os serviços das propostas 1 e 2.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Acabo de ler "Dark Psychology" de James W. Williams (Parte 3/lido em inglês)

 


Livro:

Dark Psychology: The Practical Uses and Best Defenses of Psychological Warfare in Everyday Life



Autor:

James W. Williams


Nada mais nos mais manipula mais do que o "outro significante". O amor é uma linguagem primordial. Nós queremos amar e ser amados. O amor pode gerar uma barganha para que alguém consiga mais poder sobre nós.

O amor pode vir de muitos meios. Pode ser o amor a alguém, a si mesmo ou a alguma crença. Podemos ter medo de alguém morrer e acabarmos nos defrontando com nossa própria mortalidade. Líderes religiosos e espirituais exploram o medo da morte, mas charlatãos dos meios científicos também. De algum modo, líderes políticos também exploram as nossas crenças. Em alguns casos mais extremos, jovens impressionáveis caem em cultos perigosos e passam por processos de lavagem cerebral.

A chave da psicologia sombria, da dark psychology, é a exploração das nossas maiores necessidades. O amor, como necessidade universal, sempre pode ser explorado. É como uma pessoa que explora a necessidade sexual de alguém para fazer essa pessoa realizar um ato ou um político que explora a necessidade de um intelectual de ser lido para fazê-lo escrever de forma inteiramente positiva sobre ele.

Dentro dessa teia de manipulações existe o condicionamento social. Nós somos influenciados pela sociedade. Atualmente temos acesso a múltiplos meios de influência, sobretudo nas chamadas redes sociais: YouTube, Facebook, X, Instagram e outras redes. A necessidade de medir conquistas por likes, seguidores e comentários é gigantesca. Ela também manipula a visão do próprio influenciador. Em algum ponto, a vida falsa assume a vida real.

A ambição e a aspiração também jogam. Aquilo que deixamos nos consumir ganha poder sobre nós. Nossas aspirações e ambições nos fazem perseguir um objetivo que lentamente nos devora. Cometemos atos que usualmente não cometeríamos. É por esse motivo que líderes religiosos, políticos, empresários e intelectuais se corrompem: o peso do sucesso lhes esmaga. O sucesso vem com um preço: o de entregar o que é mais nobre e dar aval ao que é mais torpe.

Cicatrizes emocionais também nos controlam. Existem lições na vida que só a experiência pode nos dar. Pessoas podem manipular essas experiências traumáticas dizendo que estão nos ajudando, quando na verdade estão nos controlando.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Acabo de ler "On being conservative" de Michael Oakeshott (lido em inglês)

 


Livro:

On being conservative


Autor:

Michael Oakeshott


O conservadorismo não é uma ideia geral. O conservadorismo não é um credo nem uma doutrina. O conservadorismo é uma disposição. Enquanto os reacionários se perguntam o que foi, enquanto os revolucionários perguntam o que poderia ser, os conservadores se questionam o que está disponível. O que o conservador busca estimar é o presente. O presente, por sua familiaridade, é melhor do que o risco de perder tudo. O conservador valoriza o passado, mas como fonte de familiaridade e recursos presente, não como um modelo a ser restaurado rigidamente. Essa diferença entre conservadores e reacionários é algo que muitos poucos sabem.


O conservador é o sujeito que prefere o familiar ao desconhecido, o que prefere o que foi tentado pelo que não foi tentado, o que prefere o fato ao mistério, o que prefere o atual ao possível, o que prefere o limitado ao ilimitado, o que prefere o próximo ao distante, o que prefere o suficiente ao superabundante, o que prefere o conveniente ao perfeito, o que prefere a risada do momento do que a graça utópica. A condição conservadora é uma inclinação a apresentar o que é presente e o que está disponível. E é por essa razão que um conservador prefere pequenas e lentas mudanças do que mudanças grandes e súbitas. Quanto mais for assim, mais assimilável algo é.


O conservador é um homem que calcula. Ele olha para cada inovação mensurando o seu risco e visando um equilíbrio. Ele quer ver qual a perda e qual o ganho. Ele pensa que mudanças pequenas e limitadas apresentam menos riscos. O problema que ele tem com progressistas é esse: progressistas buscam por um bem desconhecido. O que os progressistas chamam de covardia conservadora, o conservador chama de prudência racional, o que os progressistas chamam de timidez, o conservador chama de cautela. Para o conservador, a segurança do presente é melhor do que o perigo de uma mudança radical.


O conservadorismo é mais comum nos mais velhos. A razão é pelo fato de o conservadorismo exigir a construção de uma identidade. Quanto mais a identidade se matura, maior a possibilidade do conservadorismo surgir junto a ela. A disposição conservadora surge em quem já está com sua personalidade mais bem estabelecida. No entanto, saliento que isso não é uma questão de idade cronológica. Essa disposição conservadora, segundo Oakeshott, pode aparecer em qualquer idade. Todavia, ela ocorre mais facilmente conforme existe um cultivo da experiência. 


Michael Oakeshott estabelecerá que o conservadorismo na política não tem a ver com a lei natural (jusnaturalismo), nem com uma ordem providencial, tampouco com uma moral ou uma religião. O conservadorismo tem a ver com o nosso estado atual de vida e um governo limitado. O governo, na visão conservadora de Michael Oakeshott, deve possibilitar às pessoas a perseguirem suas próprias atividades e escolhas. Isso deve ocorrer com poucas frustrações. Ou seja, um indivíduo deve ser livre para perseguir a sua disposição. Um indivíduo deve seguir o seu próprio caminho. Isso levará a outro problema que Michael Oakeshott encontrará em progressistas: é o fato de que eles tornam sonhos privados em um compulsório jeito de vida. O Estado ideal, na visão de Oakeshott, deve manter as regras do jogo, as associações civis livres, em vez de propor um propósito comum. 


O conservadorismo de Michael Oakeshott acredita que adultos não precisam justificar as suas preferências e as suas escolhas de vida. O governo, por sua vez, não deveria particularmente se objetar a escolhas individuais. Em outras palavras, não é função do governo modificar o estilo de vida de alguém. É por essa razão que conservadores rejeitam projetos de engenharia social, isto é, projetos de uniformidade substantiva. Um governo que segue pela paz é um governo melhor que um que tenta colocar uniformidade substantiva. Governos que tentam a segunda escolha, a da uniformidade substantiva, entram facilmente em colisão de interesse e em frustração mútua. O governo, em vez disso, deveria aceitar o estado corrente de atividades e crenças, ou seja, aceitar a diversidade de crenças e escolhas individuais. A política conservadora, em Oakeshott, se traduziria pelo ceticismo em relação a planos racionais grandiosos, tendo por preferência por ajustes incrementais e rejeição pela chamada política da fé (sonho e governança lado a lado).


Michael Oakeshott tem uma frase brilhante: a conjunção entre governar e sonhar gera a tirania.

domingo, 10 de maio de 2026

Caveira Casual #8 — Caim, Abel, Shakespeare e Cachaça


Não sei o que estou fazendo da minha vida. Sou só um garoto, perdido no meio do lixo, sem nada mais. É o que costumo dizer para mim mesmo. O álcool me embriaga; a solidão me faz companhia, formando a solitude. Ontem não estive só, estive com um grupo formado por mim, um amigo e novos amigos. Para ser exato, um grupo de seis pessoas. Quatro rapazes e duas moças. Estivemos numa mesa, rodas de cerveja, rodas de cachaça, rodas de petisco. Algo que julgo ser bem brasileiro. Tenho duas fotos disso, embora nós não tenhamos fotos em grupo.





Atualmente, encontro-me bebendo. Bebendo chop. Algo que tenho feito com dada frequência. Naquela mesa, percebi que éramos todos jovens adultos LGBTs. O que me deixou levemente mais confortável. Contei até um caso de um amigo hétero que, embora tivesse posicionamentos progressistas, desconsiderava a ameaça trumpista. O que quero dizer? Quero dizer que ele não via, diante dos próprios olhos, a ameaça que surgia. Sei que pode parecer cafona e brega. Sei que pode parecer progressista. Mas di-lo-ei: eu não vejo nada de bom no espírito trumpista. Eis aqui o meu chopp:




Dizem que Trump é ruim só se você for de esquerda. Eu digo o contrário. Eu digo que odeio Trump por ser de direita. Eu digo que odeio Trump por ser conservador. O que pode parecer difícil para a maior parte das pessoas. Eu odeio ataques às instituições. Eu odeio a demolição das instituições. É por isso que sou conservador.


Sou conservador, pois não espero que humanos sejam íntegros e sóbrios por natureza. Reconhecer que grupos dominantes detêm o local público para si e oprimem quem não o detém é ser conservador, reconhecendo também que a alma humana é uma miserável pilha de segredos, então eu chego à mesma conclusão. O mundo não era melhor antes. A natureza humana não será melhor agora. A maldição de Caim é essa: escravizar os outros em conformidade com a sua própria natureza. Héteros não são do mal por serem dominantes, são do mal por serem humanos e dominantes. A natureza humana é um amontoado de diferentes ciclos de dominação. Pode ser hétero, patriarcal, burguesa ou socialista. A burocracia soviética era mais opressora que a dominação hétero-burguesa. Se o mundo for bissexual, será tão opressivo quanto.


Certa vez, li um livro de teologia algo mais ou menos assim: Abel significa livre como o vento. Caim significa atado à Terra. Abel ofereceu uma oferenda melhor para Deus. Não porque era melhor, mas porque não pagava imposto. Quando Deus puniu Caim colocando-o como Abel, Caim não foi punido. Ele se tornou tão livre quanto Abel. Mas o que Caim fez? Recriou o imposto e o Estado. As estruturas de repressão são comuns à natureza humana desde a sua queda. A maldição de Caim é recriar as condições de opressão. Não importando qual seja o modo. Sou conservador. Logo levo o pessimismo antropológico bastante a sério. Creio que isso explica a razão de eu ser conservador. Não é a bissexualidade que me afasta do conservadorismo, é ela que me leva a ele. Creio que isso explica a razão de eu ser conservador. Não é a bissexualidade que me afasta do conservadorismo, é ela que me leva a ele. A estrutura de Caim é imortal... visto que é ela que demonstra que religiosidade extrema não é sair nas ruas cortando cabeças. É poder levitar mesmo com todas as contradições mundanas. O ser é, mas tudo leva a crer que não pode sê-lo.

Parmênides = o ser é e o não-ser não é.
Heráclito = a existência precede a essência.
("Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio", essa frase cria uma identidade fluida, logo não há um ser tão definido como em Parmênides. Por tal razão, uso a solução de Sartre para explicar o que penso de Heráclito)
Mas a existência é, em si mesma, uma essência.
Ela indica um ser que quer se realizar, mas as condições sociais tolhem isso.
O ser justifica-se perante a tribo.
O ser justifica-se perante a matéria que o nega.
O paraíso é a totalidade do ser. 
E a totalidade do ser é Deus.
O ser só é ser perante o absoluto, visto que o ser só é ser perante Deus e mais nada.
Vimos, no maior dos filósofos conservadores, em Shakespeare, a seguinte pergunta:
Ser ou não ser, eis a questão.
Nesse teatro, Rei Lear, ele finge loucura até ser quem quer ser. Ele nega o ser até poder afirmá-lo.


Nota: quando estava escrevendo isso, eu estava bêbado. Quando fui editar isso, eu estava bêbado. Quando fui olhar esse texto de novo, eu literalmente tinha virado a noite numa festa de quinta pra sexta e outra de sábado para domingo. Meu cérebro parece que foi jogado num liquidificador. De modo que, mesmo revisando o texto agora, ele me parece mais algo saído de um fluxo de consciência precarizado pelo álcool do que produto de alguma razão. E percebo isso agora mesmo estando completamente cansado das duas festas a que fui anteriormente. Resolvi preservar o texto em sua loucura original apenas pois o formato dessas postagens (Caveira Casual) me permitem isso.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Caveira Casual #7 — The Cure, Almografia e Automutilação Emocional

 


Começo colocando o início do álbum "Faith" do The Cure. A começar pela música "The Holy Hour". Mais uma vez, impressiono-me com o baixo. Isso vem se tornando uma rotina. Colocar uma música e escrever. Mais uma vez, não me impressiono com o debate brasileiro e com como o Congresso impressionou Lula. Não tenho nada a dizer. Eu não espero nada do Congresso, eu não espero nada do Governo. Se não fosse por isso, não passaria a maior parte do meu tempo lendo e estudando a política de outros países. Os movimentos Never Trumper, Reformicon, Red Tory e a China me impressionam mais. Faço isso por causa do tédio. O debate brasileiro parece ser algo que eu já sei o que acontecerá. É como uma série na qual até mesmo mais violento spoiler não impressiona em nada e cheira a clichê.


"Primary" começa a tocar. Em um ritmo mais rápido, diga-se de passagem. Não perde a tonalidade sombria, mas o som vem mais agressivamente. É como correr bêbado no escuro em uma rua deserta de uma cidade urbana. É como rir bêbado no alto da calada da noite. Em uma espécie de efusão momentânea de algo que você não sabe o que é. Algo que vem como uma risada de desespero. Tal como a política brasileira, é como rir de algo ridículo que você já esperava mesmo. Não espero nada, não me entregam absolutamente nada. Não que eu seja niilista, a realidade é que é. Não luto contra ela, apenas bebo meu álcool e a esqueço. Vocês que insistem em citar Getúlio Vargas e Carlos Lacerda esperando que algo de mágico volte a ocorrer.


"Other Voices" começa a tocar. Sigo o ritmo alucinante da escrita surrealista. Escrevo sem parar para que tudo que tenha na minha mente possa vir a pipocar e quebrar por meio de palavras que formam frases. Tentando extrair cada canto obscuro do meu inconsciente. Tentando voltar ao pouco de originalidade que ainda me resta, visto que foi obrigado a sair de mim. Não paro, nem por um minuto, para que minha obsessão tome forma estilística. Escrever dessa forma é como escrever bêbado. Não sei se o leitor ou a leitora já tentou. Compreendo a razão dos /mu/tants do 4chan serem muitas vezes libertários.


"All Cats Are Grey", essa é a música que começa a vir. Tal como tudo na vida, é uma questão de instante. Mesmo que eu esteja cansado de escrever, preciso extrair de mim aquilo que me impede de escrever. Forçar uma revolução tal como se extrai um coração de um vampiro. E quem não é um vampiro? O vampiro não sai de dia, visto que pertence à noite. Pertence à noite, visto que não está no nosso mundo. O vampiro rejeita o alho, já que o alho é saudável. O vampiro vive em festas de mistérios, já que a festa o aliena da reflexão sobre si mesmo. O vampiro teme a cruz, tal como o diabo teme a cruz, visto que o que teme é o sofrimento. O vampiro existe para se vincular a tudo que é alienante. O vampiro existe para tomar sangue em sua natureza parasitária. Eu entendo isso, eu sou assim. Eu sou um vampiro há muito tempo. Sempre me escondo. Sempre vou embora. Não há nada que me livre dessa condição. 


"The Funeral Party". Essa é especial. Soa como um romance doce e inacabado de alguém que já partiu e nunca mais voltará. Ela traz o desejo de um retorno que nunca poderá retornar. Tristemente deliciosa em sua proporção. Evoca a mais tenra depressão. De alguém que chora com um misto de felicidade e tristeza. Felicidade, visto que lembra da pessoa amada. Tristeza, visto que a pessoa amada nunca voltará. Como tenho uma vida recheada de erros, sei como é sentir isso. Lembrar de cada fragmento de momento. Sabendo que errei em cada um deles. Sabendo que fiz partir quem profundamente amei por causa da minha natureza doentia. Conjecturo como seria minha vida se eu não tivesse errado tanto. Como seria se eu não fosse tão volátil? Como seria se eu não fosse tão doente, tão podre, tão errático. Deduzo, a partir de um cálculo psicológico e criminoso, que seria muito melhor. Seria melhor até mesmo se eu nunca tivesse existido. Seria melhor até mesmo se eu tivesse já partido.


"Doubt". É uma das mais violentas do álbum. Parece uma alcateia de lobos correndo atrás de um coelho assustado numa noite de Lua cheia recheada de neve. É como correr após desligar toda a mente na tentativa de descarregar todas as emoções do corpo. É o que tenho feito. Descarregar e descarregar. Mesmo quando termino de psicologicamente correr, os sentimentos e as memórias ainda estão infelizmente lá. Não importa quantas latas de cerveja, não importa quantas doses de cachaça, não importa com quantas pessoas eu fiquei, não importa quantos casos resolvidos, não importa quantas investigações eu faça. Eu sempre estou tentando explicar, demonstrar, fazer alguma coisa que prove que minha alma é real nesse universo de lixo.


"The Drowning Man". Essa é mais calma. É como estar numa praia na noite. Está chovendo e ventando de leve. Os coqueiros simplesmente balançam. Estou sozinho. Estou sozinho a desenhar o universo em desencanto. Minha mente se eleva para pintar cada quadro obsessivamente depressivo que surge das minhas dúvidas. Não há nada que eu possa fazer. Dói. Todavia, eu sinto que quero continuar nessa condição de esvaziamento melancólico. Tal como se eu não pudesse mais fazer nada. Eu sinto que preciso continuar. Sinto que estou a desenhar cada contorno torto de minha alma. Quero que tudo vá, para que eu possa ver a almografia da minha alma. Quero desenhar cada um dos meus pecados, quero desenhar cada um dos meus erros, quero desenhar cada beijo falso que dei na esperança torpe de tornar a minha falsidade real no coração de alguém. Sei que isso é arriscado. Sei que tudo isso soa depressivo. Todavia, a continuidade da dor é o remédio de que preciso para refazer esse espelho quebrado que chamo de chama da minha alma.


"Faith". Essa é a última música. Também é a música que dá nome ao álbum. Ela corre obsessiva e lenta, como os dedos carinhosos de mulher amada. Lembra-me dos cafunés que abandonei em prol dos novos erros da minha alma desalmada. Cada boca amorosa que abandonei na busca de curar o abandono que senti em minha infância apequenada. Cada abraço que fugi em prol de recordar que eu sempre serei só. Estou sempre a correr em círculos. É a dialética do ouroboros. Estou sempre a comer meus erros passados ao cometê-los de novo e de novo. Saturno sempre devora seus filhos. Eu sou Saturno dos meus erros. Cometo-os novamente, apenas para apreciá-los psicoticamente em cada dor que causam ao meu estômago. Sentir dor é, atualmente, a única coisa que me faz sentir que sou real. Ardentemente prossigo em minha automutilação emocional. 

domingo, 19 de abril de 2026

Nas Garras do Dragão #6 — Contenção Chinesa: um sonho impossível!

 



Durante muitos anos, a China criou uma estratégia de longo prazo. Essa estratégia tornou as fábricas chinesas indispensáveis para o mundo. Atualmente a China é a única superpotência industrial do mundo.

- China: 4,16 trilhões de dólares 
- Índia: 721 bilhões;
- Alemanha: 845 bilhões;
- Estados Unidos: 2,41 trilhões.

Ou seja, enquanto a China representa 4,16 trilhões, os outros três (Índia, Alemanha e Estados Unidos) representam 4,11 trilhões. 

A economia também é diferente. Os Estados Unidos são o banco do mundo. China é o motor. Recentemente, a China também é detentora das três novas indústrias: veículos elétricos, baterias de lítio e painéis solares. Quanto mais o tempo passa, mais a China domina toda a cadeia de suprimento. Além disso, a China detém grande parte da revolução ecológica.


A China é a fonte primária do que há de mais essencial na tecnologia. Os Estados Unidos, por temerem a perda da sua hegemonia, visam paralisá-la ou contê-la. Como? Por meio de sanções. O problema é que as sanções só funcionam se o alvo for isolado. Tentar isolar a China é como tentar isolar o país que é responsável pelos componentes do seu hospital, da sua telecomunicação e do hardware de suas forças armadas. Paralisar ou conter a China pode ser prejudicial aos próprios aliados dos Estados Unidos.


Enquanto os Estados Unidos e parte do mundo ocidental pensam na estratégia de desacoplamento (retirar a China de suas economias), a China vai criando novas alianças. Houve um longo caminho de parceria com a Oceania e o chamado Sul Global. Hoje em dia, a China é a maior parceria comercial de cerca de 140 países. Se os países tiverem que escolher, escolherão o país que constrói as suas pontes, que lhes fornece seu 5G e que lhes providencia veículos elétricos mais baratos.


Se os Estados Unidos dominam os softwares e a finanças, a China é especialista em produção industrial inteligente. Em 2025, a China exportou cerca 51,1% dos robôs industriais do mundo. Ela produz, ela usa e ela exporta. A China também produz cerca de 60% dos veículos elétricos e aproximadamente 80% dos painéis solares. Com a Rota da Seda, a China leva portos essenciais, trens de alta velocidade e redes de fibra óptica.


A China não precisa vencer uma guerra militar, eles vencerão pela paz. Quando se tem a economia mais eficiente, mais integrada e mais essencial da Terra, a contenção é um sonho impossível. Hoje em dia, a China é a chave da prosperidade para os outros países do mundo. Vivemos numa realidade multipolar.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Acabo de ler "Illiberalism and Democracy" de Saul Newman (lido em Inglês)

 


Nome:

Illiberalism and Democracy: The Populist Challenge to Transatlantic Relations


Autor:

Saul Newman


A ascensão de Donald Trump, junto com vários dos seus correligionários da extrema-direita populista, apresenta um desafio à democracia e às relações transatlânticas. Muitos países europeus vêm sofrendo com a volatilidade dos Estados Unidos da América e também com problemas internos oriundos da própria extrema-direita populista interna. O desgaste contínuo dos valores democráticos e a tensão constante entre o campo democrático e o campo populista vêm se tornando um grande problema de nosso tempo.


O populismo estabelece um contraste e um conflito entre o "povo" e a "elite". O populismo, a partir disso, estabelecerá um modo autoritário de governança que se oporá ao pluralismo, ao Estado de Direito, à independência do judiciário, aos procedimentos intermediários e às instituições da democracia liberal de uma maneira geral.


Os países europeus estavam acostumados ao seguinte cenário:

- Uma ordem legal internacional e comercial baseada em regras;

- As relações estabelecidas durante o período pós-Guerra Fria;

- A hegemonia do modelo da ordem democrática liberal.


Atualmente, deparam-se com o seguinte cenário:

- Uma desordem internacional;

- Blocos de poder (Rússia, China e Estados Unidos);

- A ascensão global da extrema-direita populista.


Como definir o populismo de direita? Usualmente o populismo de direita é definido como uma mistura de vários fatores, entre eles uma espécie de libertarianismo econômico, um autoritarismo político, um nativismo, xenofobia, uma identidade religiosa forte, valores conservadores no campo social e cultural e, essencialmente falando, um antiliberalismo. Os fatores envolvidos podem variar, visto que o populismo de direita é diverso.


O autor citará vários exemplos de populismo, dentre os quais está o próprio Lula (atual presidente do Brasil), como figura populista de esquerda. Além disso, citará populistas europeus. De uma maneira geral, populistas apresentam o povo como moralmente puro, autêntico, honesto e trabalhador. Enquanto isso, as elites são apresentadas como nefastas, corruptas e traidoras. Eles também dão uma noção de uma "democracia mais genuína" ao dizer que representam o povo. Para que tal representação genuína do anseio democrático seja feita, eles precisam atropelar os processos parlamentários, a imprensa mainstream e todos os processos intermediários. A diversidade de visões, opiniões e interesses é descartada. A visão popular é colocada acima do Estado de Direito.


O pensamento populista precisa de uma identidade homogênea. A elite é encarada multifatorialmente, existindo elites políticas, financeiras e culturais, por exemplo. Todavia, não é só a elite que é o problema. Para assegurar a homogeneidade do povo, as minorias passam a ser atacadas. Logo, minorias culturais, sexuais e de gênero passam a ser consideradas inimigas também. É disso que se estabelece uma relação íntima entre populismo, misoginia, xenofobia, racismo, LGBTfobia e, em muitos casos, antissemitismo. Muito rapidamente, a mídia mainstream, artistas, acadêmicos,  celebridades, políticos liberais ou progressistas, o judiciário, ativistas e advogados dos direitos das minorias passam também a ser atacados. Como o populismo necessariamente pressupõe a homogeneidade, ele requererá sempre a tirania da maioria contra os grupos que estão fora dela. O respeito à pluralidade de valores, de interesses e de identidades, além da ideia de que os direitos das minorias são os mesmos que os das maiorias, começa a desaparecer.


No populismo, a figura do líder começa a ser tida como a personificação e o canal onde está e onde é emitida a vontade do povo. O partido político do populista se torna um partido de um homem só. É um partido focado inteiramente no líder. Além disso, o grupo político que cresce ao redor do populista não é um movimento político, mas configura-se como um culto religioso ou, mais propriamente, uma seita. O trabalho do populista é fazer com que o trabalho se cumpra, mesmo que isso envolva quebrar os valores democráticos no processo.


Os governos populistas adquirem um formato híbrido ou uma forma de "democratorship" (democracy [democracia] + dictatorship [ditadura] = democratorship [democradura]). Persistem ainda o parlamento, as eleições, a mídia independente... todavia, os oponentes políticos são perseguidos, o judiciário e a mídia são intimidados e o poder é centralizado no executivo. A possibilidade de uma democracia constitucional é gradativamente solapada.


Enquanto vemos a ascensão global da extrema-direita-populista, vemos muito especificamente o Project 2025. O Project 2025 é um blueprint (guia) global para a extrema-direita como um todo. Nele podemos ver:

- Poder concentrado no executivo;

- Controle de fronteiras draconiano;

- Isolacionismo;

- Retorno da imposição dos valores socialmente conservadores e dos valores patriarcais;

- Um assalto da extrema-direita contra o secularismo e o pluralismo;

- A ascensão da teoria da "Grande Substituição" (great replacement theory);

- A acusação de que jornalistas e a mídia no geral são organizações de fake news profissionais;

- O ataque contínuo à expertise científica;

- Políticos populistas, empresários políticos e influenciadores fomentando polarização e desconfiança no establishment.


Sabe-se ainda pouco se a ordem liberal e os valores liberais sobreviverão ao projeto político da extrema-direita populista. Praticamente não vemos mais um Ocidente liberal e democrático, mas sim um conflito entre esse Ocidente e a aliança iliberal e autoritária.