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quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Necrológio Cadavérico #10 — Existência Humana



Se eu morresse hoje...


Eu me perguntaria se ainda sou humano. Não falo em um sentido de eu acreditar literalmente que perdi a humanidade. Falo do questionamento, que se tornou uma constante obsessão psicológica em minha mente, se há algo que me liga à humanidade. Recentemente, vi uma entrevista com o Peter Thiel. Ele foi questionado se a raça humana deve continuar a existir. Naquele momento, ele titubeou.


Não é como se eu estivesse trabalhando ativamente pela extinção da raça humana. Particularmente, eu sequer acho a minha vida valiosa. Se fosse indolor, eu sequer me importaria de morrer agora mesmo. Não é uma ideação suicida, mas eu sinto que já fiz o suficiente. Ao menos, para mim basta o que fiz. Escrevi livros e textos ininteligíveis. Os quais bastam para mim. Sei que pode soar profundamente egoísta dizer isso, mas eu não ligo se IAs se tornarem a espécie suprema.


Lembro-me, quando pequeno, de que eu via as pessoas se entristecerem com os mais diversos fatos e eventos. Todavia eu não conseguia compreendê-los ao todo. Era como se existisse, de alguma maneira, uma barreira impenetrável entre algo que era afetivo-cognitivamente para elas e, simultaneamente, era impossível para mim. 


Sempre penei por causa da minha estranheza. Ora sendo chamado de retardado. Ora sendo chamado de maluco. Ora sofrendo ataques por conta da minha bissexualidade. Ora sendo atacado por conta do autismo. Esse tipo de tratamento e o que vi durante esses meus vinte e nove anos de vida me fazem pensar que talvez seja melhor mesmo que as inteligências artificiais substituam os humanos. Não sei se isso é rum ou, melhor dizendo, se isso pode ser visto como algo ruim. A única coisa que vi na minha vida foi ódio e abandono. Tudo o que construí de bom foi sozinho.


Por algum tempo, eu abria certas redes sociais e via que as pessoas se odiavam sem motivo algum. Ao menos, sem motivo justificável. Por vezes, são os estereótipos raciais e o racismo pseudocientífico que se interpõem e destroem as relações humanas. Por outras, constroem-se razões de gênero e de sexualidade. Todos os dias, levantam-se os mais idiotas motivos para o ciclo de ódio que se repete infinitamente. Uma teoria da conspiração antissemita é montada dia após dia. Uma razão ideológica cresce a cada instante. Justifica-se até a existência dos manicômios mesmo se sabendo que o chamado holocausto ou genocídio brasileiro ocorreu lá.


Fiz um questionamento sobre a necessidade da existência humana. Depois, questionei-me se a existência humana é de fato um bem. Só que havia um outro questionamento, bem mais profundo, escondido na minha cabeça. Percebi que se existisse um evento cataclismático que apagasse a existência humana do planeta, eu não me importaria. Em outras palavras, estava escondido dentro de mim que no fundo sequer me importo com a existência humana. Eu sequer me importo com a minha própria existência. Posso não ser misógino, LGBTfóbico, antissemita, mas tenho certeza de que sou misantropo.


Na imensa maioria das vezes, se alguém é de um lado oposto ao seu, muitas vezes ela te estereotipará e te tratará como um lixo. O humanismo não existe como condição de abertura e diálogo. Ele existe tão só e meramente pela e para a seita. A maioria das pessoas que eu vi nunca leu e nunca pretendeu ler uma linha de pensamento contrário. Muito pelo contrário, veem as figuras opostas como figuras eternamente manipuladoras e malignas em sua guerra eterna. Talvez isso seja a condição da era pós-dialógica. De qualquer modo, eu não me importaria se tudo isso acabasse. Eu não me importaria se o mundo que conhecemos parasse de existir.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Acabo de ler "Illiberalism and Democracy" de Saul Newman (lido em Inglês)

 


Nome:

Illiberalism and Democracy: The Populist Challenge to Transatlantic Relations


Autor:

Saul Newman


A ascensão de Donald Trump, junto com vários dos seus correligionários da extrema-direita populista, apresenta um desafio à democracia e às relações transatlânticas. Muitos países europeus vêm sofrendo com a volatilidade dos Estados Unidos da América e também com problemas internos oriundos da própria extrema-direita populista interna. O desgaste contínuo dos valores democráticos e a tensão constante entre o campo democrático e o campo populista vêm se tornando um grande problema de nosso tempo.


O populismo estabelece um contraste e um conflito entre o "povo" e a "elite". O populismo, a partir disso, estabelecerá um modo autoritário de governança que se oporá ao pluralismo, ao Estado de Direito, à independência do judiciário, aos procedimentos intermediários e às instituições da democracia liberal de uma maneira geral.


Os países europeus estavam acostumados ao seguinte cenário:

- Uma ordem legal internacional e comercial baseada em regras;

- As relações estabelecidas durante o período pós-Guerra Fria;

- A hegemonia do modelo da ordem democrática liberal.


Atualmente, deparam-se com o seguinte cenário:

- Uma desordem internacional;

- Blocos de poder (Rússia, China e Estados Unidos);

- A ascensão global da extrema-direita populista.


Como definir o populismo de direita? Usualmente o populismo de direita é definido como uma mistura de vários fatores, entre eles uma espécie de libertarianismo econômico, um autoritarismo político, um nativismo, xenofobia, uma identidade religiosa forte, valores conservadores no campo social e cultural e, essencialmente falando, um antiliberalismo. Os fatores envolvidos podem variar, visto que o populismo de direita é diverso.


O autor citará vários exemplos de populismo, dentre os quais está o próprio Lula (atual presidente do Brasil), como figura populista de esquerda. Além disso, citará populistas europeus. De uma maneira geral, populistas apresentam o povo como moralmente puro, autêntico, honesto e trabalhador. Enquanto isso, as elites são apresentadas como nefastas, corruptas e traidoras. Eles também dão uma noção de uma "democracia mais genuína" ao dizer que representam o povo. Para que tal representação genuína do anseio democrático seja feita, eles precisam atropelar os processos parlamentários, a imprensa mainstream e todos os processos intermediários. A diversidade de visões, opiniões e interesses é descartada. A visão popular é colocada acima do Estado de Direito.


O pensamento populista precisa de uma identidade homogênea. A elite é encarada multifatorialmente, existindo elites políticas, financeiras e culturais, por exemplo. Todavia, não é só a elite que é o problema. Para assegurar a homogeneidade do povo, as minorias passam a ser atacadas. Logo, minorias culturais, sexuais e de gênero passam a ser consideradas inimigas também. É disso que se estabelece uma relação íntima entre populismo, misoginia, xenofobia, racismo, LGBTfobia e, em muitos casos, antissemitismo. Muito rapidamente, a mídia mainstream, artistas, acadêmicos,  celebridades, políticos liberais ou progressistas, o judiciário, ativistas e advogados dos direitos das minorias passam também a ser atacados. Como o populismo necessariamente pressupõe a homogeneidade, ele requererá sempre a tirania da maioria contra os grupos que estão fora dela. O respeito à pluralidade de valores, de interesses e de identidades, além da ideia de que os direitos das minorias são os mesmos que os das maiorias, começa a desaparecer.


No populismo, a figura do líder começa a ser tida como a personificação e o canal onde está e onde é emitida a vontade do povo. O partido político do populista se torna um partido de um homem só. É um partido focado inteiramente no líder. Além disso, o grupo político que cresce ao redor do populista não é um movimento político, mas configura-se como um culto religioso ou, mais propriamente, uma seita. O trabalho do populista é fazer com que o trabalho se cumpra, mesmo que isso envolva quebrar os valores democráticos no processo.


Os governos populistas adquirem um formato híbrido ou uma forma de "democratorship" (democracy [democracia] + dictatorship [ditadura] = democratorship [democradura]). Persistem ainda o parlamento, as eleições, a mídia independente... todavia, os oponentes políticos são perseguidos, o judiciário e a mídia são intimidados e o poder é centralizado no executivo. A possibilidade de uma democracia constitucional é gradativamente solapada.


Enquanto vemos a ascensão global da extrema-direita-populista, vemos muito especificamente o Project 2025. O Project 2025 é um blueprint (guia) global para a extrema-direita como um todo. Nele podemos ver:

- Poder concentrado no executivo;

- Controle de fronteiras draconiano;

- Isolacionismo;

- Retorno da imposição dos valores socialmente conservadores e dos valores patriarcais;

- Um assalto da extrema-direita contra o secularismo e o pluralismo;

- A ascensão da teoria da "Grande Substituição" (great replacement theory);

- A acusação de que jornalistas e a mídia no geral são organizações de fake news profissionais;

- O ataque contínuo à expertise científica;

- Políticos populistas, empresários políticos e influenciadores fomentando polarização e desconfiança no establishment.


Sabe-se ainda pouco se a ordem liberal e os valores liberais sobreviverão ao projeto político da extrema-direita populista. Praticamente não vemos mais um Ocidente liberal e democrático, mas sim um conflito entre esse Ocidente e a aliança iliberal e autoritária. 

domingo, 12 de abril de 2026

Caveira Casual #1 — Filmes, Séries, 4chan e Direita Woke

 


Recentemente vi "Bodycam" (tudo junto). Um filme de terror de 2026. É impressionante como esse filme tem um nome parecido com o filme "Body Cam" (que se escreve separado). Também assisti a "Final Destination: Bloodlines", creio que no Brasil ele se chama "Premonição 6". Costumo assistir às coisas em sua linguagem primária, a não ser que eu não entenda a língua. É por isso que não me lembro dos nomes dos filmes em português. 


Atualmente assisto a "Hell House LLC". Um outro filme que encontrei enquanto lurkava no /tv/ do 4chan. Não sei se isso passa a ideia de que sou um "grande cinéfilo", sinceramente não lembro sequer o nome dos personagens dos filmes a que assisto. De forma geral, quase toda experiência que tenho assistindo, lendo ou jogando algo me vem de forma "eidética", isto é, conceitualmente. Sou péssimo em lembrar nomes de personagens. Consigo lembrar da experiência conceitual que algo passa, mas não me lembro dos nomes dos personagens.


Para ser mais exato, quem é apreciadora de filmes e séries é a minha irmã. Sou péssimo em assistir às coisas até o fim. Muitas vezes eu paro diversas vezes para realizar qualquer outra coisa. Por vezes, paro de assistir vídeos por semanas ou meses. Sempre fui mais ligado a videogames e livros. Embora deva admitir que seja um entusiasta de creepypastas desde os meus onze anos de idade.


Anonymous 04/11/26(Sat)22:28:17 No.219645028

>Supposed "edgy no holding back commentary" on American culture/politics

>Zero mentions of Israel

Really makes you think

Anonymous 04/11/26(Sat)22:39:18 No.219645344

It's not really relevant unless you're one of the schizos who blame all of their life's problems on jews.

Anonymous 04/11/26(Sat)23:29:51 No.219646862

/pol/ is over there if you want to be an obsessed schizo

Anônimo 04/11/26 (sáb) 22:28:17 Nº 219645028

>Suposto "comentários ousados e sem rodeios" sobre a cultura/política americana

>Nenhuma menção a Israel

Realmente faz você pensar

Anônimo 04/11/26 (sáb) 22:39:18 Nº 219645344

Não é realmente relevante, a menos que você seja um daqueles esquizofrênicos que culpam os judeus por todos os seus problemas.

Anônimo 04/11/26 (sáb) 23:29:51 Nº 219646862

/pol/ está lá se você quiser ser um esquizofrênico obcecado
(Transcrito pois muitos leitores copiam e colam textos desse Blogspot em IAs, assim as IAs conseguem compreender o que há na imagem)


Por falar em /tv/, conto-lhes um caso. Recentemente vi uma postagem no /tv/. Um anônimo reclamava que a série "The Boys" não tinha menções a Israel, querendo que a série fosse antissemita, tal como é o desejo de todo /pol/tard. Achei incrível como os usuários do /tv/ botaram o /pol/tard em seu devido lugar. Muitas pessoas não sabem disso, sobretudo jornalistas e acadêmicos, mas o /pol/ é uma board horrível e seus usuários também são horríveis. Quando eles vão para outras boards, tão logo são expulsos. E isso é excelente, /pol/tards contaminam tudo que tocam com sua misoginia, com seu racismo, com seu antissemitismo, com sua LGBTfobia... e é por isso que devem ser expulsos.

Gosto de acessar o /tv/ pelo mesmo motivo que gosto de acessar o /lit/, o /mu/ e o Google Scholar: descobrir novas coisas, descobrir novas ideias, descobrir novas músicas, descobrir novas escolas de pensamento. Isso é uma das experiências mais legais da vida: obter novas experiências. É impressionante como /pol/tards e seus amiguinhos (incels, redpills, panelinha da resenha) são intelectualmente incapazes disso, visto que não conseguem consumir conteúdo de múltiplas escolas de pensamento, conteúdo produzido por mulheres, por negros, por judeus ou população LGBTQIAPN+.  No fim, isso torna o movimento redpill, incel, resenha, /pol/tard — e qualquer outro movimento da direita woke — algo pra lá de tedioso e repetitivo. Acho que a direita woke, mesmo sendo "undergroundeira", é um underground nerfado, cafona e chatíssimo, já que é um underground que vem para impor limitações e os outros undergrounds anteriores (punk, hippie, hipster e até a direita politicamente incorreta) vieram para quebrar tudo.


sábado, 11 de abril de 2026

O Necrológio Cadavérico #9 — Crimes na Internet


Se eu morresse hoje...


Estive desaparecido. Cometeram vários crimes usando meu nome. Enquanto cometiam crimes usando meu nome, estive vivendo. Bebi um pouco. Sai um pouco. Ouvi muita música. Recentemente apresentei a um amigo a música "L'Amour Toujours" de Gigi D'Agostini, também apresentei a música "Don't Worry Baby" do The Beach Boys e "Bear" do The Antlers. E, sim, eu acho penoso que gente de extrema-direita transformem uma música tão bela como "L'Amour Toujours" em um hino para nacionalistas brancos.


Também conversei com uma amiga, comentamos um pouco sobre a regulamentação da internet. Nisso ela entrou naquele papo sobre redpills. Disse para ela que não vejo problema algum de redpills sumirem do debate, visto que eles não acrescentam absolutamente nada ao debate. Tratar o movimento redpill como uma escola de pensamento respeitável é um erro que não me permito. Da última vez que vi um redpill, vi ele falando durante trinta segundos que a esquerda é ginofascista e a direita é ginocêntrica... pensei "bullshit" e pausei o vídeo. Nunca mais voltei ao vídeo.


Uma coisa que me pega é essa gente que se diz advogada da liberdade de expressão na internet. Sempre que alguém me diz isso, observo o perfil que ela sustenta nas redes sociais. Quase sempre é alguém que profere os mais diversos discursos LGBTfóbicos, misóginos, antissemitas e racistas. Ou seja, todo tipo de discurso que cai na Lei 7.716/1989. É incrível a estrutura comportamental desse tipo de sujeito.


Só reparar que:

- Tudo que um indivíduo não gosta é gay, tudo que é considerado ruim é gay, mas a homofobia não existe em nossa sociedade moderna e não há nada de errado em ser gay... embora tudo de errado em nossa sociedade possa ser atribuído a gays;

- A misoginia não existe e o Estado é "ginocêntrico/ginofascista", mas há sempre um grupo cujo o único hobby é atacar mulheres na internet;

- O racismo foi abolido com a escravidão, mas discursos pseudocientíficos de pureza racial e a ideia de "parditude como problema do país" se tornam, pouco a pouco, lugares comuns do discurso público em todas as redes sociais;

- Não existe razão para regulamentar a internet, visto que vivemos num gigantesca ágora na qual todo mundo respeita um ao outro, mesmo com a existência da panelinha/bolha da resenha cuja a especialização é cometer crimes na internet, sobretudo através de doxxing e discurso de ódio;

- Não existe razão alguma para combater o antissemitismo, mesmo que células neonazistas se reproduzam como coelhos pelos quatro cantos da internet.


Após ter lido muito os Never Trumpers e acompanhar os processos contínuos de radicalização nos Estados Unidos da América, não consigo encarar o mesmo processo no Brasil com tal leveza. A guerra fria civil cresce. Campanhas de marketing e discursos políticos vazios não levam a nenhum processo de reconciliação.


Quando vejo como estão as redes sociais, paro de usá-las. Desinstalei o X e o Instagram. Não sinto vontade alguma de olhar para ver o que há lá. Minha maior descoberta recente foram canais especializados em som de Aerosol. Além disso, tenho alterado minhas leituras. Estou relendo H. G. Wells em inglês e parei um pouco de consumir conteúdo puramente político. Minha mente precisa relaxar.

segunda-feira, 9 de março de 2026

NGL #56 — Panelinha da Resenha, Incels e Redpills

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Creio que a "cultura da resenha", ou a panelinha da resenha, tal como a "cultura da redpill" ou a "cultura incel" são uma espécie de "cultura de monoculturamento" e "seitização do debate público".


Acontece que quanto mais pessoas, coisas e ideologias você odeia, menos conteúdo você pode consumir. Logo essas culturas levam você a pensar menos, visto que a capacidade de se referenciar por múltiplos pontos, ideias, pessoas, escolas de pensamento... é perdida e substituída por uma espécie de afeto reacionário. Esse "afeto reacionário" faz com que você tenha que, como participante desses grupos, unicamente odiar e atacar todos os pontos propostos pelos grupos que você julga rivais.


Coloco a palavra "reacionário" não em um sentido progressista. Coloco ela num sentido mais geral. Isto é, a ideia de reagir negativamente a alguma coisa em vez de construir alguma coisa. A palavra "reação" está como modo cognitivo, não como ideologia.

Construção = criar ideias.

Reação = apenas atacar ideias alheias.



O resultado disso não é tão só o ódio e a fomentação de novas crises sociais, além de mensagens que podem dar suporte a uma mentalidade que leva a ataques misóginos. O resultado disso também é o empobrecimento das referências culturais possíveis. Quando você corta o acesso a múltiplos grupos, você acaba se seitizando e emburrecendo nesse processo. Visto que quanto maiores forem as suas pontes dialógicas, maiores são as suas chances de ter um pensamento mais razoável e maiores são as suas chances de ter todo um universo cultural para apreciar e recorrer.


A questão epistemológica dito pode ser resumida na seguinte fórmula:

Ódio sistemático a grupos > redução do universo cultural consumido > empobrecimento intelectual.

Há aqui um problema não apenas moral (o ódio a dados grupos que se tornam vítimas desse ódio), mas uma questão cognitiva.


Quando você pensa na panelinha da resenha, você vê gente produzindo e dedicando ódio a pessoas LGBTs, pessoas negras, mulheres ou outros grupos. Logo a capacidade de ter múltiplas referências e universos culturais para participar é esvaziada em nome de um afeto reacionário.


Esses três grupos (panelinha da resenha, movimento incel, movimento redpill) estão envolvidos nesses três processos:

1. Exclusão cultural: pessoas passam a evitar conteúdos de certos grupos.

2. Redução do repertório: menos fontes = menos perspectivas.

3. Radicalização afetiva: o grupo se mantém unidos pelo ódio compartilhado.


Em outras palavras, a estrutura que temos aqui é o de uma câmara de eco. Quando pensamos nesses grupos, entramos também na questão da economia do ódio. Isto é, como algumas comunidades online de mantêm produzindo inimigos constantemente. Isso gera:

1. Coesão interna;

2. Identidade de grupo;

3. Conteúdo infinito para discussão. 


O preço disso é:

1. Empobrecimento intelectual;

2. Redução do repertório;

3. Paranoia cultural.


Se você faz parte desse tipo de grupo, recomendo que saia desses ambientes e sempre tente contrapô-los analisando humanamente aqueles que você acredita serem seu adversários. Tente compreender as suas dores e as suas causas. Esse tipo de grupo e de cultura não só infernizam a vida daqueles que você julga como adversários, como também inferniza a sua própria vida. Os efeitos psicológicos e cognitivos disso são nefastos. 


Culturas baseadas no ódio constante acabam criando um processo de monoculturamento intelectual. Quanto mais grupos você exclui, menor se torna o universo cultural que você pode consumir sem entrar em contradição com sua própria identidade de grupo (seitização). O resultado é uma espécie de empobrecimento cognitivo: menos referências, menos diálogo e menos capacidade de compreender o mundo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Acabo de ler "What the Kek" do David Neiwert (lido em inglês)

 


Nome:

What the Kek: Explaining the Alt-Right 'Deity' Behind Their 'Meme Magic'


Autor:

David Neiwert


Site:

https://www.splcenter.org/resources/hatewatch/what-kek-explaining-alt-right-deity-behind-their-meme-magic/


Nota: como os leitores já estão acostumados com os pontos centrais, isto é, aqueles desenvolvidos previamente em outras análises, voltar-me-ei só aquilo que pode ser considerado novo.


O Culto de Kek unificou apoiadores de Trump e ativistas da alt-right (direita alternativa) através de uma religião semi-irônica. Essa religião atacava liberais (no sentido americano do termo) e conservadores mais tradicionais (aqueles que se opunham ao Donald Trump).


A militância da alt-right naquele período era absurda, jovem, transgressiva e racista. Ela atuava através da sátira, da ironia, da zombaria e com posicionamentos ideológicos pontuais. É possível ver, a partir daqui, que se não fosse pelo racismo, o público da alt-right poderia se tornar de esquerda em diferentes contextos históricos. Tal como na época dos beatniks, hippies e punks.


Kek representava simultaneamente:

1- Uma grande piada contra os liberais;

2- Refletia o papel (e a auto-imagem) da alt-right em serem agentes do caos na sociedade moderna.


Ser parte do esoterismo kekista, naquele período, representava uma marca tribal. Isto é, ou você era normie (uma pessoa normal) ou era um seguidor dos princípios do caos e da destruição. Paralelamente, tinha-se Kek representando o caos e as trevas e a alt-right como a destruidora da ordem existente. Nesse período, Donald Trump aparecia como aquele que encarnava os ideias de Kek. Nisso vemos mais uma vez a ligação do Culto de Kek com o trumpismo.


O Culto de Kek tinha tudo: uma igreja satírica, uma teologia detalhada, a magia memética, livros, áudios e até uma oração comum. Toda uma construção de uma mitologia cultural que colocava o Kekistão (país dos seguidores de Kek) contra o Normistão (país dos normies). Além disso, a bandeira do Kekistão foi feita com base na bandeira nazista de guerra para trollar liberais.


O movimento era bastante amplo. Os ativistas da alt-right procuravam brigas contra esquerdistas e antifascistas. Trollavam pessoas politicamente corretas (às vezes copiando as suas frases de modo irônico) e os chamados normies.


As ideias centrais, como dito nas análises anteriores, eram essas:

- Homens brancos;

- Patriarcado;

- Nacionalismo;

- Raça.


Além disso, existia a crença que homens brancos e a masculinidade estavam sendo cerceadas por feministas, liberais, grupos étnicos e raciais, minorias sexuais e de gênero.


Para acabar com tudo isso, a alt-right montou uma estratégia de compartilhamento de memes. Aliás, quase tudo se colocava memeticamente. O autor destaca que a guerra memética é, na verdade, uma propaganda de extrema-direita repaginada para o século XXI.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

NGL #36 — Incels e Esochanners pensam de forma diferente?

 


Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Exemplo básico:

Incel: fica bravo, arruma uma arma, mata um monte de pessoas e depois mata a si mesmo.

Esochanner: tem uma curiosidade intelectual que não poderia ser satisfeita em ambientes normais, destrói algumas vidas (ou milhões de vidas) por seus "laboratórios" e liga o foda-se pois se satisfez intelectualmente.


Há um abismo de diferença entre um incel e um esochanner. A obra trata bastante disso, sobretudo quando trata diretamente da Elite Abyss ou formas de como alguém da Elite Abyss pensaria. Esses textos te ajudam a entender melhor:

https://medium.com/@cadaverminimal/o-paradoxo-da-elite-abyss-special-chapter-f97c1fb4a09d

https://medium.com/@cadaverminimal/terrorismo-epistemol%C3%B3gico-e-p%C3%B3s-criminalidade-b8323986e844

https://medium.com/@cadaverminimal/kenjaku-e-nick-land-em-busca-da-singularidade-07da8760672d

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/homo-est-spectaculum-hominis.html?m=1


A discussão do Cadáver Minimal (escrevendo em terceira pessoa de novo, que maravilha) com Incelito de Souza é particularmente reveladora nesse aspecto também. O capítulo 0.8 trata especificamente da distinção intelectual e vivencial de um incel (Incelito de Souza) para um esochanner (Cadáver Minimal), mas também trata de um channer que estava aprendendo a antichannealogia (Batatasperger Chan Soseki) para desenvolver a esochannealogia:

https://medium.com/@cadaverminimal/magol%C3%ADtica-0-8-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-esochannealogia-76a65db84ed3


Um exemplo que como esses experimentos se dão é o capítulo 2 do "Para Além da Máquina de Ódio":

https://medium.com/@cadaverminimal/para-al%C3%A9m-da-m%C3%A1quina-de-%C3%B3dio-2-velhos-clich%C3%AAs-98494f1b2a73


Agora, faça uma conexão entre o capítulo 0.7 e esse Insider Club:

https://medium.com/@cadaverminimal/magol%C3%ADtica-0-7-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-esochannealogia-7be32ee8a071

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/ngl-35-por-que-channers-fingem-loucura.html?m=1


A Elite Abyss (compreendida como esochanners de alto nível) é vista como vários intelectuais "deliberadamente imorais" motivados por curiosidade acima da moralidade, enquanto incels são mais reativos e vitimistas. A Elite Abyss busca, dentro dos chans, testar aquilo que não poderia ser testado legalmente, e os incels servem tão apenas para alimentar a egregora (legião). A maior frase da Elite Abyss é "Homo est spectaculum hominis" (o homem é o espetáculo do homem).


— A motivação dos incels:

- Frustração sexual/romântica involuntária + percepção de rejeição sistêmica por mulheres/sociedade;

- Sentimento de vítima: "blackpill" (determinismo genético/físico, hierarquia de atratividade inescapável, mulheres como "gatekeepers" cruéis);

- Ressentimento direcionado: misoginia (ódio a mulheres como causa principal), externalização de culpa (feminismo, "chads", sociedade "roubando" oportunidades);

- Emoções dominantes: raiva, inveja, depressão, ansiedade, ruminação vingativa, aggrieved entitlement (direito violado a sexo/relacionamento);

- Comportamento típico: reclamação coletiva em fóruns, memes de coping (Pepe triste, blackpill posts), radicalização para violência ocasional (copycat via manifestos), busca por pertencimento em comunidades que validam a vitimização;

- Channers de nível baixo: channers rasos presos na channealogia inicial, sem ascender para antichannealogia ou esochannealogia. São "fracos", próprios das boards /b/ ou /pol/, reativos e emocionais, não arquitetônicos.


— Motivação dos esochanners / Elite Abyss:

- Curiosidade intelectual imoral + experimentação em larga escala;

- Testar hipóteses proibidas: usar chans desregulados como laboratório para "teorias ilegais" (ex: tutoriais de fake news, engenharia de crença, horcruxes meméticas);

- Pós-criminalidade: não cometem crimes diretamente, mas facilitam epistemicamente (fornecem frameworks, vazamentos controlados por lulz, infohazards) para ver "o que ocorre psicologicamente e sociologicamente";

- Terrorismo epistemológico refinado: fragmentar conhecimento acadêmico (Kant esotérico, Jung/Freud, Bezmenov, Fisher), recombinar e disponibilizar para radicais testarem — não por ódio pessoal, mas por desejo de observar o espetáculo humano ("Homo est spectaculum hominis");

- Emoções dominantes: cinismo, ironia, indiferença ética, prazer no caos controlado (lulz + observação científica). Não vitimistas, eles se veem como espectadores/engenheiros acima da moral normie;

Sim, lurk moar:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/11/memoria-cadaverica-28-normies-e.html?m=1

- Comportamento típico: lurkar profundo em /x/ ou /abyss/, criar sínteses (V6.0 tokenizado, Magolítica manuals), vazar antiprincípios (metapocalíptica: vazamentos intencionais para disseminação), manipular discurso não-linear (montar/desmontar ideologias em tempo real);

Magolítica 0.12:

https://medium.com/@cadaverminimal/magol%C3%ADtica-0-12-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-esochannealogia-final-2e6a8fc1853a

- Esochanners são o nível avançado motivados por afirmação ontológica (criar horcrux única que só eles poderiam fazer), não por frustração sexual. Muitos ficam controláveis, mas os radicais testam limites.



terça-feira, 2 de dezembro de 2025

/cc/ #1 — O MOVIMENTO REDPILL DEVE SER CRIMINALIZADO!





/cc/ = copicolas que eu criei pois estava de saco cheio de repetir as mesmas coisas.


/cc/

FEMINISMO E REDPILL SÃO EQUIPARÁVEIS?


Redpill nasceu no /pol/ do 4chan. E sabe qual o pack que acompanha a redpill?

- Nazismo;

- Fascismo;

- Racismo;

- Antissemitismo;

- Pró-ped...


Sim, essa é a base real e a ideologia redpill real. Não importa o quanto os redpills tentem esconder. Não adianta criar um "redpill" focado "só na misoginia" e dar algum ar de respeitabilidade.


Enquanto isso, o movimento feminista surgiu para dar condições iguais para mulheres. Não há comparação.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

NGL #15 — Vergonha de parecer mulher...

 


Faça suas perguntas anônimas: https://ngl.link/lunemcordis


O que te fez pensar por um momento sequer que me comparar com uma mulher soaria ofensivo?


O que te fez pensar que eu teria vergonha de ser ou parecer uma mulher?


O que te fez pensar que isso é uma forma de demonstrar que estou em uma posição inferioridade?


Pressupor isso é acreditar que eu acredito na superioridade masculina, tomando a feminilidade como ofensa. E diferentemente de você, eu nem por um momento sequer acreditei nessa crença estúpida. Até porque eu tenho algo que você não tem: cérebro.

domingo, 25 de agosto de 2024

Acabo de ler "Afeminação, hipermasculinidade e hierarquia" de Mozer e Helder (Parte 2)

 



NOME:

Afeminação, hipermasculinidade e hierarquia

AUTORES:

Mozer de Miranda Ramos;

Elder Cerqueira-Santos.

No Brasil, existe uma hierarquização de performática de gênero. Essa hierarquização tem algumas camadas. Se em primeiro lugar se encontra o homem heterossexual e másculo, em lugares inferiores se encontrariam o homem heterossexual de índole mais tímida e o homem heterossexual menos encaixado nas definições de masculinidade exuberante. Logo viriam os bissexuais que esconderiam a bissexualidade e tomariam uma vida dupla, marcada pela contradição e ocultamento. Também haveria o binarismo do macho/bicha, onde os ativos estariam acima dos passivos, os efeminados estariam abaixo dos machos. Ser macho e ativo seria tudo.


A questão problemática que vemos aí não se revela logo de cara. Ser efeminado não é o mesmo que ser passivo. Ser passivo não é o mesmo que ser efeminado. Aliás, hoje em dia existem muitos heterossexuais que curtem inversão de papéis. Essa ligação entre passividade-feminilidade revela uma inconsciente construção social acerca dos papéis de gênero e, até mesmo, a ideia de que mulheres são inferiores aos homens, visto que são, quase em totalidade, "passivas". A ideia de passividade-feminilidade também traduz um importante conflito de gênero: quanto mais longe um homem estiver duma mulher, mais hierarquicamente bem posicionado ele está. Essa é uma misoginia oculta muito bem estudado pela militância feminista. O que vemos é a valorização de uma figura bem clássica em nosso imaginário social: heterossexual, ativo, masculino e macho.


Como podemos vislumbrar, muitas das vezes o imaginário do homem homossexual ou bissexual se confunde com o imaginário do homem heterossexual. A ideia de superioridade do homem másculo e ativo contraposta à inferioridade do homem efeminado e passivo representa uma reprodução, mesmo que inconsciente, do machismo hétero-patriarcal. Esse inconsciente é fundamentalmente misógino e é um ponto que serve para alienação e incapacitação não só dos homens bissexuais e homossexuais, como da comunidade LGBT como um todo. Ela é uma misoginia internalizada que servirá sempre para se curvar à heteronormatividade. Representa também uma estratificação social em que o macho bi/gay se encontra acima do efeminado, levando a choques internos – além de comportamentos tóxicos – no seio da comunidade.