Se eu morresse hoje...
Gostaria de pensar que morri em um bom tempo — precisamente por o tempo atual ser estúpido demais. Depois da discussão a respeito de um riff de guitarra ser de esquerda ou de direita, hoje temos a discussão sobre um chinelo ser de esquerda ou de direita, o que leva a pessoas a destruírem chinelos... por esses chinelos serem supostamente comunistas. O que é uma extravagância estética, dignamente kitsch, para representar os tempos modernos.
Houve um momento que precedeu tudo isso. Anteriormente falávamos da politização das massas. Graças a internet, todo mundo discute política. É evidente que nosso discutidor médio não é um leitor de Karl Marx ou Eric Voegelin, tampouco um articulador de Lênin ou um conhecedor da obra de Russell Kirk. Em vez disso, o debatedor médio discute séries da Netflix como se essas fossem o Capital de Karl Marx ou vídeos de youtubers como se esses fossem a Mentalidade Conservadora de Russell Kirk. A pergunta que faço é: vocês que queriam tanto a politização crônica das massas estão contentes agora?
No geral, o debate intelectual se tornou algo mais ou menos assim: pessoas que são contra a "direita" X pessoas que são contra a "esquerda". Essa generalidade, que é bem estranha, já demonstra a total incompreensão sobre o simples fato de que não existe direita ou esquerda, mas direitas e esquerdas. Essa estranha unidade (ou dualismo) desconhece completamente as divisões históricas entre as diversas esquerdas e direitas, além dos distintos centros. Para essas pessoas, o que chega a ser irônico, não há diferente entre um marxista e um social-democrata e nem entre um Blue Tory e um Red Tory.
É por isso que eu digo: se eu morresse hoje, não estaria perdendo um debate intelectual, visto que sequer há um debate intelectual rolando. Aparentemente, pouca gente conhece pouca gente e muita gente desconhece muita gente. Os ódios das seitas vão até o infinito, visto que o fôlego da burrice é eterno.
É curioso, de qualquer modo, a forma que os eventos vêm se sucedido. Enquanto as pessoas de alguns setores da esquerda se questionam quem sucederá o Lula, a questão central de setores da direita é se o bolsonarismo ainda tem fôlego para incendiar o debate público brasileiro e angariar alguma eleição.
Não raro aparece um desses gênios que chega a questionar:
— Você não obedece a liderança do Bolsonaro? Você é um esquerdista por acaso? Você é um traidor?
Eu fico imaginando: será que eu li a Escola Austríaca, os neoconservadores, os conservadores-populistas, Red Tories, neorreacionários, pessimistas, céticos, pragmáticos e até várias e várias correntes da esquerda para simplesmente retirar as minhas calças e ficar de quatro para os mandos e desmandos de um bolsonarismo inculto e iletrado que se arroga como família imperial da direita brasileira? Se for assim, é melhor partir para não ver o fim desse besteirol ruim que se tornou um hit no cinema da política nacional.
Essa é uma sensação constante que tenho tido a respeito de tudo: eu não me sinto impressionado com absolutamente nada, muito pelo contrário, acho que estou assistindo "Idiocracia" em looping. Isso em todos os setores da minha vida. Um dos fatos que me levou a ignorar muito do conteúdo da política nacional e regional foi isso: a necessidade de me sentir longe de tudo isso.
Pensar na morte me faz ver, inúmeras vezes, de que isso não seria tão ruim. Não estou dizendo que vou me matar, estou dizendo que não estaria perdendo absolutamente nada.
