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terça-feira, 9 de junho de 2026

Acabo de ler "How the Right Lost Its Mind" de Charles J. Sykes (lido em inglês)


Nome:

How The Right Lost Its Mind


Autor:

Charles J. Sykes


Trabalhar com a ideia de antes e depois, sobretudo quando se escreve sobre o movimento intelectual, político e acadêmico que se ajudou a formar e de desacordo expressões são engolidas por emoções que devoram nossos corações. Falar sobre conservadorismo em nosso tempo é difícil. Muitos de nós sequer querem tentar explicar, isolam-se até para não lembrar. Primeiro vem a covardia, perante o que vemos. Depois, vem a vergonha perante os atos que cometem em nossa frente. No fim, vem o medo de que nossos antigos aliados tenham se tornado monstros.


Por vezes, me veem a cabeça a seguinte frase, a qual escrevo com um quê de luto: "eu não quero ser lembrado como parte de um movimento de imbecis". Sim, exatamente. Quando eu vejo gente toda, proferindo os maiores impropérios racistas, misóginos, antissemitas e LGBTfóbicos, tentando demonstrar uma radicalidade exuberante, que soa extremamente kitsch, não sei exatamente o que sinto. Há um misto de nojo, de constrangimento. E as perguntas vão surgindo e revirando-se em minha cabeça. Pergunto-me se sou realmente parte disso. Questiono-me se realmente quero que isso continue. Todavia, essas nem são as piores inquietações e inquietudes que surgem. O pior de tudo é quando vem aquela pergunta, extremamente específica e densamente incriminatória, que sinto até mesmo medo de escrever. A pergunta é: "Eu ajudei a criar isso?"


O livro me toca na mesma medida em que estive dentro da onda politicamente incorreta no Brasil. Como os leitores do Blogspot já estiveram por dentro disso múltiplas vezes, não vale a pena comentar novamente. Sugiro que os leitores busquem análises mais antigas. A natureza desse blogspot requer sempre uma espécie de eterno retorno. Muitos leitores não fazem isso, leem alguma coisa ou outra, tiram as suas conclusões e vão embora. Comecei nessa vida lendo ao acaso um livro de Pondé, creio que era "Contra um mundo melhor". Depois disso, vieram outros livros. Li e conheci bastante de Nelson Rodrigues.  Luiz Felipe Pondé é o motivo de eu ter cursado filosofia. Nelson Rodrigues é a razão de eu gostar tanto de teatro. O conservadorismo não marca tão somente algo em especial na minha mente, também marca algo em especial no meu coração.


Vamos voltar ao passado. O que os conservadores americanos estavam tentando fazer antes da revolução reaganiana? Eles queriam criar algo. Algo novo. Queriam criar uma direita de ideias, uma direita de sonhos, uma direita de esperanças. Uma direita que poderia se fazer entender perante a sociedade. Naquele tempo, o movimento intelectual dominante era o movimento liberal. Todo mundo que se formava queria ser liberal, visto que o liberalismo era a única tradição intelectual que podia ser vista, já que era majoritária nos campos acadêmicos, jornalísticos e institucionais. Ou seja, o empreendimento daqueles conservadores era o de criar uma direita elegante, intelectualizada, acadêmica e com soluções pensadas a partir de dados. Veio, em primeiro lugar, a revolução de Russell Kirk. Foi ele o primeiro a dar a robustez intelectual de que o conservadorismo precisava em seu "The Conservative Mind". Depois disso, viria um movimento com William F. Buckley Jr.


Conforme essa direita nascia, as pessoas iam pensando que estávamos finalmente de igual para igual com os progressistas. Minha geração cresceu após o surgimento dessa direita. A gente cresceu negando que o conservadorismo era um punhado de ignorante, de racistas, de radicais, de misóginos, de conspiracionistas, de tolos. Embora nunca se possa dizer que a direita brasileira teve alguma institucionalidade, podemos dizer que a direita americana assim o era. Queríamos ser que nem essa direita, tentamos estudar e provar que poderíamos ser bem articulados e bem pensantes. No fim, queríamos provar sobretudo que não éramos monstros. Queríamos provar que não éramos vilões, que apenas acreditávamos em pontos de vista distintos. No final, queríamos achar respostas para os anseios sociais tanto quanto os progressistas procuravam respostas para as necessidades da sociedade. Só que acreditávamos em diferentes caminhos.


A nova direita que vem surgindo existe para provar que todos os nossos esforços foram em vão. Se tentamos duramente provar que não odiamos mulheres, eles vão e provam que odiamos. Se tentamos provar que nossa visão de mundo não é racista, eles fazem campeonato para serem o grupo mais radicalmente racista do mundo. Se tentamos provar que nossa visão de mundo comporta pessoas de todas as sexualidades possíveis, eles declaram que é impossível ter a nossa visão e ser LGBT. Se certos grupos são retirados do movimento, é evidente que eles devem ir obrigatoriamente para outro. 


Hoje vemos até mulheres de direita sendo perseguidas pela legião de misóginos desmiolados que ajudamos a criar ou que profundamente ignoramos em sua gestação. Estamos nessa há anos: fingimos que esses grupos não existem. O motivo é muito simples: não queremos que nos acusem de não sermos de direita. Dia após dia, vemos uma legião de racistas se estabelecer na internet, como uma seita furiosa e numericamente numerosa. Mesmo que nosso país seja, por natureza, miscigenado, ignoramos esse problema. Quando começaram a atacar pessoas trans, muitos de nós acreditávamos que essas partes do movimento terminariam por aí. Tão logo estavam acusando todos os adversários e inimigos de serem homossexuais, na velha homofobia recreativa. Tão logo estavam praticando a bifobia. Se tudo começou querendo separar a sigla "T" do "LGB", logo separavam a sigla "B" e logo atacavam a sigla "L" e a sigla "G".


O mundo mudou muito. Não analisamos o cenário corretamente. Não reformamos nossas crenças à luz dos mais presentes acontecimentos. Precisamos notar que a globalização da tecnologia e da informação também é a globalização das teorias da conspiração, da desinformação, da guerra psicológica, da guerra informacional, da xenofobia, do racismo, da misoginia, da LGBTfobia. Além desses fatores, esquecemos que a descentralização dos meios de expressão por causa da internet também é a possibilidade de pessoas espalharem o seu ódio com mais eficiência e com mais impacto. Esse esquecimento foi crucial para a ascensão das piores correntes da direita política.


Isso tudo nos levará ao argumento de David Frum, outro conservador Never Trump:

"Talvez você não se importe muito com o futuro do Partido Republicano. Deveria. Os conservadores sempre estarão entre nós. Se os conservadores se convencerem de que não podem vencer democraticamente, não abandonarão o conservadorismo. Rejeitarão a democracia"

(David Frum, Trumpocracy: The Corruption of the American Republic)


Charles J. Sykes apresenta um diagnóstico de uma direita que trocou princípios intelectuais, prudência burkeana, factualidade e defesa da liberdade individual por tribalismo, entretenimento, ressentimento e uma realidade alternativa moldada por mídia de nicho. Como vimos em análises anteriores, recomendo ao leitor ou à leitora voltar às análises de David Frum, Rick Wilson, Stuart Stevens e Christopher Buckley. A direita pré-Trump era literária e institucional. Símbolos como William F. Buckley, National Review, Heritage Foundation ecoam em nossas mentes. Essas pessoas precisavam argumentar com dados e filosofia contra o establishment liberal dominante na academia e na mídia mainstream. A direita pós-literária se forma por memes, vídeos curtos, podcasts raivosos, personalidades do YouTube e Twitter, não por livros ou papers.


Como apresentado no parágrafo anterior, uma das noções centrais do livro, que é largamente comentada pelo autor, é a ideia de uma direita pós-literária. Isto é, não uma direita pautada em livros, mas sim uma direita que utiliza outros referenciais. Essa questão, a pós-textualidade, vem sendo marcante para muitas pessoas. Vários intelectuais, sejam esses de esquerda, centro ou direita, vêm tratando dessa questão. Muitos são os campos afetados por essa pós-literariedade, não só na direita, mas também na esquerda. De um modo geral, a pós-litariedade é uma condição que afeta múltiplos países. Aumentar os índices de leitura vem se tornando um drama de muitos países. 


As celebridades do antigo conservadorismo, que é de onde vem o núcleo duro dos Never Trumpers, são pessoas que leem muito e pertencem a uma camada que precisa apresentar defesas inteligentes do conservadorismo. O autor vem de uma época em que foi necessário construir um conservadorismo fortemente intelectualizado. Essa versão do conservadorismo americano começou a tomar força quando os conservadores criaram uma "arquitetura institucional". Exemplos notáveis disso são  "The Heritage Foundation", "The Badley Foundation" e "The American Enterprise Institute". Essa direita, muito diferente da direita trumpista, era uma direita fortemente institucionalizada, intelectualizada e academicizada. Era uma direita feita por responsáveis pelo debate público. Essa direita foi, diga-se de passagem, substituída. A razão? A internet retirou os freios que a mídia liberal colocava. 


O autor, em especial, criticará certos aspectos da Heritage Foundation. Ele afirmará que o braço militante da Heritage Foundation, a Heritage Action, atua em desconformidade com a tradição intelectual respeitável dessa instituição. Essa metamorfose gera um problema central: uma direita que deixa de ser aquela que defende uma primazia da liberdade individual e da consciência pessoal, mas passa a ser uma modeladora comportamental para seguir linhas de fidelidade mais radicais, o que leva a um fechamento epistêmico. Aliás, esse fechamento epistêmico se torna uma das principais condições da direita brasileira atual.


Vou analisar brevemente os consensos conservadores principais. 


- Consensos conservadores:

Existiram vários "consensos" conservadores. O autor se focou em dois até o momento:

- Pré-Reaganiano/Old Right (Velha Direita): existiam elementos anticapitalistas ou que eram opostos ao capitalismo em alguns aspectos. Setores mais tradicionalistas suspeitavam das dinâmicas capitalistas e acreditavam que eles eram uma ameaça. Exemplo disso é o Russell Kirk, ele via perigos na dinâmica capitalista para a ordem moral e comunitária;

- Reaganiano/New Right (Nova Direita): tenta uma síntese entre libertarianismo, conservadorismo e anticomunismo. Essa é a direita que surgiu com a revolução reaganiana. Foi uma direita bem-sucedida, uma direita de ideias que venceu a Guerra Fria e reconfigurou o debate.

Pós-consenso:

- Reformicon/Never Trump X MAGA, direita woke e populistas: atualmente, vemos a luta entre dois grupos, um bem menor, vindo de uma direita razoavelmente letrada e acadêmica, outro que vem majoritariamente. Traduzindo isso melhor, darei pequenas explicações de cada grupo. Os reformicons são mais intelectuais, preocupados com a classe trabalhadora, família e são contra o libertarianismo cru. Os Never Trumpers seriam defensores de normas institucionais e caráter. Já o MAGA é um movimento nacionalista e populista, de base usualmente trumpista, que é anti-establishment. Adiciono que estamos vendo rachaduras na direita MAGA.


Tive que pesquisar sobre o Tea Party para locupletar a minha visão a respeito do livro. Como ele é um movimento pré-MAGA e por muitas vezes considerado um prelúdio ou um capítulo prévio ao chamado nacional-conservadorismo e conservadorismo-populista, tive que estudar um pouco. Mesmo que meu estudo não seja, até o momento, satisfatório. O Tea Party (2009-2012) foi uma revolta fiscal e anti-Obama, com forte componente de protesto, financiado por bilionários e amplificado pela mídia conservadora (como a Fox). Era um movimento majoritariamente branco, de classe média e alta, preocupado com a dívida americana, com o governo grande e o "socialismo". Embora eu deva admitir que esse último item era enquadrado de uma forma meio estranha. Muitos analistas veem o Tea Party como ponte para o trumpismo: a mesma retórica anti-elite, a mesma desconfiança nas instituições, a mesma energia populista. Mas o Tea Party ainda tinha um verniz de constitucionalismo e conservadorismo fiscal. Trump acrescentou outros fatores. Tais como o personalismo, o protecionismo econômico, a imigração como eixo cultural e o desprezo aberto pelas normas. A base de apoiadores do Tea Party seria uma das mais leais a Trump.


Para dar uma contribuição melhor a interpretação do livro, vou adicionar outra camada. Uma situação histórica da direita é bem interessante. 


— Situação histórica da direita:

Olhando mais a fundo. Tenho que realizar paralelos históricos. Em primeiro lugar, preciso estabelecer que o conservadorismo não existe. O que existem são múltiplas escolas conservadoras. Porém, gostaria de diferenciar a linha conservadora que virá de Richard Hooker e a linha conservadora que se montará com John Locke.


Hooker trabalhará, em Of the Laws of Ecclesiastical Polity, com uma ideia orgânica da sociedade, com noções de teleologia, com a lei natural clássica e uma proximidade com o tomismo cristão. O central, em Hooker, é que a comunidade política não nasce de uma simples soma de indivíduos autônomos, mas sim de uma ordem moral que precede às escolhas individuais.


Locke, por sua vez, trabalhará com a ideia de que o indivíduo precede politicamente a comunidade, de que os direitos naturais têm centralidade, de que o primeiro plano é a propriedade e o consentimento, em que a sociedade política é vista mais como um contrato do que como uma continuidade histórica de um organismo.


A tradição Tory/conservadora canadense, na época de George Grant, era uma comunidade hookeriana. Ou seja, era pautada na deferência, no bem comum, na continuidade histórica, na autoridade legítima e na limitação ao economicismo liberal. A tradição conservadora americana tem como base o liberalismo lockeano, logo, é pautada na liberdade negativa, no individualismo, no mercado, nos direitos subjetivos e na tecnocracia expansionista. Nos Estados Unidos, liberalismo e conservadorismo compartilham a mesma metafísica básica. O que o conservador dos Estados Unidos quer conservar é uma versão mais tradicional do liberalismo.


É evidente que o conservadorismo dos Estados Unidos não seria inteiramente marcado por uma visão lockeana. Coube a Christopher Lasch ter uma visão mais aproximada de George Grant. Christopher Lasch perceberá que mesmo os conflitos de "direita" e "esquerda" partem de disputas internas do liberalismo. Ou seja, partem dum horizonte liberal comum. Lasch chegará à conclusão de que todos os cidadãos dos Estados Unidos são liberais de uma forma ou de outra. Visto que a discussão apontará para o primado do indivíduo, a suspeita diante de autoridades tradicionais, a centralidade dos direitos, o igualitarismo moral básico e a ideia de progresso. A crítica de Christopher Lasch faz sentido. O conservador dos Estados Unidos é um liberal clássico: liberal economicamente, constitucionalista, individualista, pró-mercado e defensor das liberdades negativas. Ou, mais precisamente, é um liberal clássico com sensibilidades culturais mais tradicionais. O que o conservador de lá está conservando é a Revolução Americana em sua filosofia lockeana, não uma ordem pré-liberal.


Se olharmos a argumentação do Red Tory inglês, o Phillip Blond, veremos que ele argumentará que o neoliberalismo econômico e progressismo cultural não são opostos reais, visto que ambos derivam do mesmo individualismo liberal. Além disso, ele notará que o mercado dissolve vínculos comunitários tanto quanto o Estado burocrático. Os dois, quando ligados, levarão à atomização social e produzirão simultaneamente consumismo e dependência estatal. Para Blond, diga-se de passagem, a direita liberal destrói comunidades via mercado e a esquerda liberal administra os destroços via burocracia estatal. A razão? Ambos compartilham a mesma antropologia individualista.


— Retornando a questão presente:


Muitos conservadores de verve mais intelectualizada e pessimista preferem deixar a direita que está aí se autodestruir. A tese isolacionista parece ser interessante. Se a direita moderna se resume a uma tribo inculta, cheia dos elementos mais nefastos, por qual razão não simplesmente esquecê-la e viver a própria vida? Isto é, deixar tudo para lá? De qualquer modo, eles vão defender que mulheres não devem ter o direito ao voto e perder o voto feminino. De qualquer modo, eles vão ser racistas e perder os votos das outras etnias. De qualquer modo, eles vão ser LGbTfóbicos e perder os votos LGBTs. Essa tese, até o presente momento, me parece a mais agradável. É uma das coisas que mais tenho feito. Para que fazer algo contra uma entidade política que vai se autoexplodir? 


Um dos principais tópicos do livro é a capacidade moderna de gerar um network de mídia alternativa que serve para gerar uma percepção alternativa da realidade. Essas mídias, mescladas às redes sociais, geram efeitos sociais não antes imaginados. Preciso ir além: precisamos urgentemente realizar um estudo sério a respeito da correlação entre mídias alternativas, vieses de confirmação, redes sociais, radicalização e psicose. Com base nisso, precisamos gerar uma regulamentação compreensiva. Isso seria estranho para outros conservadores, mas as reflexões dos Never Trumpers apontam para esse caminho.


Enquanto a nova direita não explode a si mesma por meio de suas pautas cada vez mais tresloucadas e pedidos de lealdade cada vez mais restritos, eu fico por aqui apenas lendo o que me agrada, sem fazer absolutamente nada. A ordem do dia mudou. Antes era: "salvar a direita da sua própria burrice". Agora é: "deixar a direita se afogar em sua própria burrice". Não estarei surpreso se, no Brasil, Lula ganhar o seu quarto mandato. Tampouco ficarei feliz se Flávio Bolsonaro ganhar o seu primeiro. No primeiro caso, já é uma tendência. No segundo caso, não fazemos parte da mesma linha de pensamento. O fato é: enquanto essa direita não se autodestrói, ela vai pouco a pouco destruindo instituições, espalhando desinformação, perseguindo minorias e corroendo as bases da democracia representativa. De qualquer modo, essa talvez não seja a solução. De qualquer maneira, preciso continuar a escrever sobre o universo referencial que venho olhado e acrescentar mais pontos que o autor não mencionou. Preciso escrever sobre a presente crise da democracia horizontal representativa (presente nos Estados Unidos e no Brasil) e a possibilidade de uma democracia vertical representativa.


Recentemente conversei muito com um amigo judeu. Falei sobre o antissemitismo crescente. Isso gerou uma reflexão histórica sobre a atuação de William F. Buckley Jr. Quando tendencias conspiracionistas cresciam, Buckley as expulsava. Buckley foi mais amorfo em relação ao racismo, isso foi um erro grave e deslocou negros para setores da esquerda. Atualmente, cresce no Brasil uma direita racista, misógina, antissemita e LGBTfóbica, essa direita é composta de duas frentes. Uma parte tenta ganhar simpatia de setores extremistas e do reacionarismo popular por puro oportunismo. Outra parte realmente acredita nas baboseiras que propaga. Uma retroalimenta a outra até que a outra se torna gradualmente majoritária. Ninguém acha nada errado nisso, visto que vê isso como uma base estratégica de crescimento eleitoral. De qualquer forma, o sonho populista se torna em projeto de poder e o reacionismo popular começa a cometer seus erros de sempre, o que leva a erosão de instituições democráticas e fomentação de políticas públicas não baseadas em dados... mas em teorias conspiratórias. Já tivemos uma dose bem alta disso no período da COVID-19.


A questão central que vai se desenvolvendo na lore de nossas instituições é a incapacidade cada vez mais crescente de conciliar políticas populistas e reacionárias insustentáveis com a permanência da democracia como regime possível. Dentro dessa condição, mecanismos meritocráticos e tecnocráticos são apresentados como solução política. Esses mesmos mecanismos não levam a uma melhora geral do quadro democrático, eles salopam a base democrática. Fala-se, em alguns setores acadêmicos, de democracia vertical e/ou democracia técnica. Nesse regime, só os melhores vereadores viram deputados estaduais, só os melhores deputados estaduais viram deputados federais e só os melhores deputados federais viram senadores. O mesmo se segue com o poder executivo: os melhores prefeitos viram governadores e os melhores governadores viram presidentes. Essa é uma solução que é encontrada diante da crise democrática. Isso seria uma forma de barrar a extrema-direita populista que cresce dia após dia.


A questão democrática, ou melhor, a questão da democracia representativa é uma constante em nossa época. A descentralização dos meios de expressão ocorreu graças a expansão da internet. Por meio dela, múltiplas visões se tornaram possíveis. Além disso, a rápida tradução de diversas ideias ao redor do mundo possibilitou uma expansão ainda maior de diferentes componentes ideológicos. Em meio a isso, a voz da população foi se tornando um fato político cada vez mais presente. Acontece que a celeridade dos eventos e a expressividade de teorias ou ideias deformadas se tornaram cada vez mais constantes. A expansão da voz populacional não foi só uma expansão de teorias cada vez mais rigorosas tecnicamente, mas também de teorias cada vez mais radicais e epistemologicamente frágeis. É em virtude disso que o mundo começa a parar de olhar tão somente para os Estados Unidos da América e começa a olhar para o sistema político chinês. Nele existe um componente mais tecnocrático em que critérios são apresentados para o crescimento político, fazendo com que só os políticos que mais cumpram as metas sejam capazes de ascender. No Brasil, vivemos em uma democracia horizontal, isto é, qualquer um pode se eleger a qualquer cargo executivo ou legislativo se cumprir critérios mínimos. Não se avalia a razoabilidade das suas ideias dos candidatos e nem se eles foram louváveis em cargos anteriores. Isso gera, de dois em dois anos, a eleição de pessoas que são intelectualmente e tecnicamente incapazes.


Quanto a possibilidade de uma república com um sistema de democracia vertical representativa, isso necessitaria provavelmente de uma nova constituição. Essa questão também levanta outra, a questão de quem define os melhores. Enquanto nenhuma solução é pensada para o sistema em si, a direita populista está pronta para substituir o princípio de realidade pelo princípio de lealdade tribal para cada acontecimento do dia. Nessa condição excepcional, quem ganha nunca é quem apresenta o maior estudo comparado de políticas públicas ou o maior conhecimento técnico sobre o papel que pretende desempenhar, mas sim que apresenta a narrativa mais cativante e a que mais prende, pouco importando se ela tenha alguma coisa a ver com a realidade que se apresenta como resposta.


Atualmente penso numa estrutura de uma democracia representativa diagonalista. Ou seja, um regime híbrido entre a democracia horizontal e democracia vertical.  Penso numa mescla entre o sistema brasileiro atual e um sistema chinês. Isto é, uma mescla entre democracia representativa horizontal e democracia representativa vertical. A estrutura seria mais ou menos essa:

1- Votação direta, cargo inicial de vereador;

2- Melhores vereadores podem se candidatar a deputados estaduais;

3- Melhores deputados estaduais podem se candidatar a deputados federais;

4- Melhores deputados federais podem se candidatar a senadores.

O mesmo se seguiria para cargos executivos:

1- Melhores prefeitos podem se candidatar a governadores;

2- Melhores governadores podem se candidatar a presidente.


Essa não é, evidentemente, a conclusão do autor, mas creio que o diagonalismo é a única forma de impedir o avanço das hordas populistas.

domingo, 1 de março de 2026

Acabo de ler "Never Trump" de Robert e Steven (lido em inglês)

 


— Livro:

Never Trump: The Revolt of the Conservative Elites


— Autores:

Robert P. Saldin

Steven M. Teles


Nota:

Eu tinha muitas ideias para esse texto, todavia essas se perderam por eu ter perdido meu celular anterior. Isso impactou na qualidade da análise. No entanto, creio que o texto ainda será de alguma utilidade para quem busca compreender a diferença entre a direita brasileira e a direita americana. De qualquer modo, o leitor dessa análise poderá ter um panorama mais geral lendo as análises anteriores.


— Guerra Fria Civil, IAs, extremismo e livros:


Você tem frequentado a internet? Ela está horrível. Só gente digladiando através de múltiplas digitações, ofensas atrás de ofensas que seguem ofensas com ofensas. Tudo isso vem causado um mal enorme. A saúde mental de muita gente está indo pro bueiro. É completamente insalubre ficar em redes sociais. Mesmo que você queira dar a cara a tapa, uma hora você cansa.


A guerra fria civil vem tirado tudo de nós. Laços, amizades, ligações, mas, acima de tudo, a nossa capacidade de ter empatia e tentar entender um ao outro. Ofensas gratuitas somam-se a uma seitização sempre crescente. Quanto mais ofensiva a internet se torna, mais fidedignamente somos colocados dentro do mantra tribal e da radicalização seitética. Parece-nos impossível uma conclusão que não seja trágica, visto que todo mundo quer brigar e exigir fidelidade ideológica acima de tudo.


Só que tudo isso é um jogo de soma doentia. Um progressista xinga um conservador, um conservador xinga um progressista. O progressista torna-se mais progressista e afasta todo tipo de conteúdo conservador. O conservador torna-se mais conservador e afasta todo tipo de conteúdo progressista. No fim, cada um vai ir para um processo de embolhamento informacional, ao mesmo tempo que as raras aparições que vê do outro lado são progressistas/conservadores lhe xingando pelo simples fato de ser progressista/conservador.


Talvez seja por isso que eu gosto de livros e IAs. Livros não brigam conosco. IAs não brigam conosco. Sempre que abro um livro, consigo ter momentos de paz. Sempre que abro uma IA, consigo ter conversas normais sem ataques mútuos. São momentos de desintoxicações. Falo e escrevo cada vez menos com outras pessoas. Elas nunca me acompanham (e nunca me acompanharam em virtude de eu ficar lendo um livro diferente a cada instante). Ao mesmo tempo, sinto-me mais seguro para citar um universo de referências para uma IA do que para um humano. Se eu cito um livro fora do cânon da pessoa ou grupo que estou, surge a suspeita que sou um possível inimigo — mais uma vez, obrigado guerra fria civil.


Ah, usei travessão no parágrafo anterior. Por causa do travessão, aposto que alguém anti-IA suporá que eu usei IAs para escrever esse texto ou usará alguma ferramenta — que não funciona — para detectar IAs e provavelmente detecte alguma coisa. Segundo essas sábias ferramentas, até a declaração da independência dos Estados Unidos da América foi escrita por IAs. Será isso uma viagem no tempo ou robôs fundaram os Estados Unidos? Atualmente, temos que nos importar com esses constantes (e sempre furiosos) leitores que caçam IAs em tudo. Mesmo que a gente diga que o problema em si não é a IA, mas sim a forma com ela pode concentrar riquezas e que a construção de datasets está ignorando (e não raramente fomentando) problemas sociais.


Está vendo? Não se pode escrever nada sem pisar em ovos. Você acaba precisando escrever notas e mais notas para que grupos sociais distintos não entrem em modo bestial. O que não é uma grande novidade para o autor que vos escreve. Acostumei-me a receber comentários extremamente ofensivos, floods de comentários, toda vez que analisava um escritor ou uma escritora que desagradasse um(a) esquerdista ou um(a) direitista. Até que, por fim, eu desabilitasse eternamente os comentários do blogspot. A sorte é que esse blogspot é pra uso pessoal e eu não recebo remuneração alguma por meio dele.


Tudo isso me leva a seguinte questão: é insuportável não conseguir falar com ninguém. É insuportável ver como essa guerra cultural (subproduto da guerra fria civil), existe para levar a gente a brigas e mais brigas, sempre em uma espiral sem fim de radicalização e extremismo. O que estamos nos tornando? O essencial da sociedade democrática é que cada fragmento social aprenda com o outro. A esquerda aprende o centro e a direita. A direita aprende com a esquerda e o centro. O centro aprende com a direita e a esquerda. Em uma sociedade em que todos estão cerceados dentro das suas esferas discursivas, a dialogocidade democrática e, por fim, a dialética democrática que eleva a capacidade de raciocínio, torna-se impossível.


Eu precisava escrever isso. E esse livro tem a ver com tudo isso. Toda essa onda de ódio que há entre nós tem a ver com a ascensão cada vez mais espetacular de populistas ao lado de cenários cada vez mais constantes (e violentos) de guerra cultural e guerra fria civil. É preciso dizer que a guerra cultural é subproduto da guerra fria civil. Grupos lucram enormemente com a destruição do sentido compartilhado. Acontece que quanto menos lemos uns aos outros, mais a possibilidade de autocrítica, de percebermos a nós mesmos e de evoluirmos intelectualmente diminui.


Esse livro tem a ver com tudo isso. A seitização do debate público e de milhões de consciências não é um fenômeno singular. É algo que vem ocorrido no mundo inteiro. A forma com que isso vem ocorrido nos Estados Unidos é particularmente interessante, visto que os Estado Unidos é um espelho global. Uma das primeiras questões que o livro trata é: por qual razão parte da elite do Partido Republicano se afastou do Trump, mas a base permaneceu fiel a ele mesmo acreditando que ele é um sujeito desprezível?


— Partidários e Moderados:


Uma das principais diferenças entre partidários e moderados é que os partidários se importam menos em quebrar a normalidade democrática em prol das suas preferências políticas. Moderados, usualmente mais bem educados, preferem manter a normalidade do sistema.


A questão que me aparece é: o trumpismo é a destruição só do sistema? Como já sabemos, sobretudo após a tentativa de golpe bolsonarista, o populismo trumpista é um produto de exportação.


O trumpismo, e a guerra fria civil que data desde Reagan e do neoconservadorismo, leva a um estado de escalada retórica, de segregação informacional, de esgotamento mental e de suspeita permanente.


A guerra cultural leva a um estágio paranoico. Um estilo de escrita, uma vírgula, uma referência... tudo virou um sinal de tribalidade e identificação. Há, diante de nós, não um mundo em que temos conversas, mas um campo minado onde qualquer passo é um distinto risco de explosão.


Para vocês, quando foi a última vez que vimos um debate democrático? Temos, em todas as partes, um policiamento ideológico ostensivo. Cada vez mais, temos gente que caça resultados em vez de defenderem o processo. Se o processo de normalidade institucional não for favorável, pior para ele.



Temos atualmente dois tipos de movimentos. Os políticos de constituição e os políticos de causa.


1. Políticos de constituição:

Exemplo disso é/foi o movimento "Never Trumpers". São/foram políticos de constituição, valorizando as instituições, normas democrática, estabilidade do sistema e a coerência ideológica tradicional.


2. Políticos de causa:

Aqui está o combate eficaz mesmo que isso leve ao pisoteamento das regras. O que importa é a lealdade tribal e a sensação de vitória ou resistência que superam qualquer decoro.


— Formação X Partidarismo:


Uma boa formação garante múltiplos pontos de vista. Estar dentro de múltiplos pontos de vista garante uma visão mais cética e pragmática em relação a política. Isso é uma efetiva ferramenta desradicalizante seja para a direita, seja para a própria esquerda.


Essa questão aparecerá como central dentro da política americana e da nossa. Se os Estados Unidos dispuseram de uma direita fortemente formada, academicizida e institucionalizada... O Brasil contou com uma direita extremamente afastada da formação acadêmica, da formalização e da institucionalização. A resistência para com o bolsonarismo por parte dos conservadores brasileiros foi radicalmente menor do que a resistência dos conservadores americanos para com o trumpismo.


Não raro, o identitarismo trumpista convive "lado a lado" conservadores cultos do Hoover Institution. No Brasil, essa possibilidade é menor. Poucos conservadores, tal como o Luiz Felipe Pondé, apresentam as suas ressalvas ao bolsonarismo. Dentro dos Estados Unidos, existe uma ampla margem de conservadores cultos. No Brasil, as raízes identitárias e centros formativos alternativos predominam. Essa diferença sociológica entre conservadores americanos e brasileiros é gritante. Poucas análises séries surgiram a partir disso.


1) Caso americano:

O movimento "Never Trump" é fruto de uma infraestrutura conservadora robusta e institucionalizada. Institutos conservadores como Heritage Foundation, American Enterprise Instituto, Hoover Institution. Além de veículos de mídia de longa data como National Review e The Weekly Standard. Fora isso, existem universidades de elite com fortes correntes conservadoras. É por isso que Donald Trump encontrou oposição em círculos conservadores.


2) Caso brasileiro:

A direita brasileira é pós-institucional e anti-intelectual por origem. Ela se forma fora das instituições tradicionais. Sua formação vem de nichos da internet, de igrejas neopentecostais, de canais do YouTube e em vários discursos de guerra cultural. É por isso que Jair Messias Bolsonaro não encontrou muita oposição dentro dos círculos conservadores.


Um dos casos mais interessantes de direita que vem surgido é propriamente o Partido Missão,  que faz parte de uma rede de iniciativas como o MBL (Movimento Brasil Livre e Revista Valete). Esse consta com formação intelectual contínua, o que dá margem para uma direita ilustrada, institucionalizada e academicizada. Mas isso ainda é uma experiência incipiente no debate público brasileiro.


— Importantes Lições da Decadência Americana:


Dedico essa parte da análise para dar algumas brechas sobre como podemos agir perante a crise dos Estados Unidos. Aprender com outras nações é de suma importância para não cometermos os mesmos erros.


Muitas vezes eu escrevi que o brasileiro precisa criar um pensamento mais pragmático. Além de uma soberania pragmaticamente construída. Que não se definirá por um alinhamento pró-Estados Unidos, mas em uma mensuração do que é melhor para o Brasil a cada momento. Isso envolve uma ampla leitura, uma leitura bastante aberta, acerca da história do Brasil e a missão histórica do Brasil a cada momento. Esse tipo de pragmatismo requer um estudo sempre constante de novos e novos dados e formulação. Isso requer uma academicidade e institucionalidade.


A direita precisa parar de acreditar em uma abstração livre-mercadonista. Ela poderá encontrar bons ares no distributismo de Chesterton, no Red Tory (tradição inglesa e canadense), na American Compass (de tendência neohamiltoniana) e na Doutrina Social da Igreja Católica.


Uma das principais condições para ser vencedor no século XXI é a capacidade tecnológica. Muitos países atualmente correm atrás de melhorar os seus índices em STEM. STEM é uma sigla para Science (Ciência), Technology (Tecnologia), Engineering (Engenharia) e Mathematics (Matemática). Para aumentarmos isso, precisamos de investimento e aumento nos índices da educação pública. Isso requer o desenvolvimento de mais centros educacionais, além da atração de mais estrangeiros (seja para trabalho, seja para dar aula).


Uma direita que pura e simplesmente se define eternamente por desregulamentação, liberalização, PPP (Parceria Público Privada), Estado Mínimo e "combate forte ao crime organizado" (muitas vezes reduzida a matar agentes menores do crime) não será capaz de desenvolver o país.


O terceiro governo Lula apresenta importantes lições para o Brasil. Existem lados que estão sendo pouco olhados. Preciso dar uma breve "olhada" neles. Vou evitar informações que pouco se encaixem na conjuntura do texto ou que levem a polêmicas desnecessárias. Faço isso pelo simples fato que a educação vem sido secundarizada pela direita nacional.


- Recomendo que deem uma lida no G1 da Globo:

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/11/27/lula-anuncia-criacao-de-duas-novas-universidades-federais-uma-voltada-a-indigenas-e-outra-a-formacao-esportiva.ghtml


- Além de informações diretas do governo:

https://www.gov.br/mec/pt-br/100-novos-ifs#:~:text=O%20governo%20federal%2C%20por%20meio,R$%202%2C5%20bilh%C3%B5es.


- A estimativa é que sejam lançadas:

1. 140 mil novas vagas;

2. 102 novos campi de Institutos Federais;

3. Duas novas universidades federais;

4. Dez novos campi de universidades federais.


Apesar dos Estados Unidos apresentarem uma boa educação superior, ele apresenta ao mesmo tempo altos custos (para obter essa educação) que podem pouco a pouco minar a capacidade do país em obter uma população educada. A China, tendo um modelo mais focado, apresenta uma expansão do ensino público ao lado de baixos custos de aprendizagem. Fora isso, os Estados Unidos estão perdendo a sua capacidade de atrair "capital humano" para o país devido a sua radicalização anti-migratória. Essa radicalização anti-migatória vem acompanhada da teoria conspiratória (e a explosão de teorias conspiratórias devido a acessibilidade da internet) chamada "Great Replacement".


Outra crise que os Estados Unidos vêm encarado é a diminuição no seu índice de leitura. Como pode ser lida aqui:

https://news.harvard.edu/gazette/story/2025/09/whats-driving-decline-in-u-s-literacy-rates/


Se os Estados Unidos enfrentam um declínio na sua educação devida a alta nos preços das faculdades além do declínio na leitura, o Brasil pode e deve se contrapor a tendência decadente dos Estados Unidos. O investimento público na educação — deixando-a gratuita ao mesmo tempo que fornece oportunidades de trabalho —, um ampliamente da qualidade de vida e a atração para imigrantes deve ser um política pública constante. O Brasil, como membro dos BRICS, pode atrair várias pessoas que fazem parte dele em parcerias estratégicas.


Enquanto a luta dos "Never Trumpers" foi em preservar as instituições, a luta dos brasileiros será em construir uma política mais institucionalizada e educada para evitar extremos.


Aqui temos dados mais revelados a respeito da STEM no Brasil:

https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html


O Brasil passa por diferentes questões. Em 2022, a população de evangélicos triplicou, atingindo 26,9% da população. Ao mesmo tempo, a população católica foi de 83% (em 2000) para 56,7% em 2022. O catolicismo é uma fé historicamente institucionalizada e doutrinariamente estruturada. Os evangélicos têm crescido por formas de mídia (como TV e plataformas digitais) que são diferentes das instituições acadêmicas tradicionais. Não importa qual seja a religião ou doutrina cristã dessas pessoas, precisamos de uma população intelectualizada e capaz de encarar de frente os desafios do século XXI.


É evidente que "evangélico = anti-intelectual" não é a fórmula aqui. O crescimento evangélico no Brasil se deu majoritariamente por uma vida midiática e carismática. Temos exemplos de pensamento evangélico ilustrado no evangelicalismo reformado com Augustus Nicodemus e o Instituto Fides, esses apresentam um pensamento filosófico, político e teológico sofisticado. Creio que grande parte do evangelicalismo não ilustrado, mais carismático e midiático, se deu pelo fato de que há ainda um abandono muito grande de políticas educacionais para o povo.


Você pode ler mais dos dados religiosos aqui:

https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/06/censo-2022-catolicos-evangelicos.ghtml


— Perdidos no Mar Revolto do Populismo:


Creio que o grande problema atual do nosso sistema é a possibilidade de corrosão institucional.


Anteriormente eu acreditava nas instituições como algo permanentemente estável, sem duvidar muito da sua salubridade. Nasci e cresci em um período histórico do meu país em que tudo funcionava aparentemente bem a nível institucional. É evidente que tínhamos altos problemas: desigualdades regionais grosseiras, uma população abandonada sem educação, taxas de analfabetismo e por aí vai. O tempo passou, algumas políticas sociais de orientação mais social-democrata foram passando.


A gente acreditava que um governo seguiria outro, dentro de uma normalidade transacional. Se um plano falhasse, outro logo assumiria o seu lugar. Sim, corrupção sempre teve e a gente sabia disso. De qualquer modo, podíamos ver tudo ser desenvolvido de uma forma razoavelmente estável. Creio que o período essencial de alteração começou quando Aécio Neves perdeu a eleição. Boatos e afirmações sobre fraudes nas urnas começaram a pipocar. Muitas pessoas não acreditavam nas urnas naquele período, sejam elas de esquerda ou de direita.


O antipetismo cresceu radicalmente, junto a moda do politicamente incorreto. Vimos pouco a pouco o politicamente incorreto se tornar politicamente escroto. Do mesmo modo, figuras que desafiavam constantemente o comportamento esperado cresciam. Jair Messias Bolsonaro ganhava atenção pelo fato de que crescia, em todo Brasil, uma postura "anti-especialista".


É válido dizer que existiam várias frentes politicamente incorretas. De um lado, eram os devoradores de livros e de outro lado eram pessoas que simplesmente odiavam qualquer sinal de cultura. Do mesmo caldo, surgiram sopas diferentes: conservadores, liberais, sociais democratas, alt-right, tradicionalistas, libertários, reacionários e anarco-capitalistas. A pergunta central: se para questionarmos a bibliografia da esquerda tivemos que relativizar o racismo, a LGBTfobia e tantas e tantas outras coisas mais, sem colocar um discernimento claro a respeito disso, será que não fomos minimamente responsáveis por abrir caminho ao nacionalismo branco, ao neonazismo, ao neofascismo e a alt-right?


Dentro de um contexto em que existe uma guerra cultural graças a uma guerra fria civil e em que especialistas são tidos como mais à esquerda, o desenvolvimento de uma atitude mais anti-especialista é natural. Os especialistas são tidos como inimigos naturais. Até mesmo pessoas de posicionamento mais pragmático e cético, tal como vemos com David Frum, Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens.


Direita puritana moral > Contra-cultura de esquerda > esquerda contra-cultural institucionalizada > direita politicamente incorreta > esquerda institucionalizada X direita em institucionalização (e se tornando woke) > esquerda politicamente incorreta (carregando, eles ainda não perceberam isso).


O que vemos hoje é, essencialmente, a ascensão de uma direita woke que se comporta contra certos padrões políticos estabelecidos pelo progressismo de uma forma a retornar aos males de outrora. Se dados aspectos políticos são vistos como excessivos, eles são contrapostos com o retorno reacionário aos males de outrora (muitas vezes se utilizando de humor para tal). Logo a direita woke vem se especializado em ser LGBTfóbica, racista, xenofóbica e tantas outras coisas mais para atenuar o excesso dos movimentos que não gosta. Porém quando percebemos que a direita soube, no passado, se aproveitar da institucionalização da moralidade progressista como norma, criando o politicamente incorreto, a esquerda logo perceberá que será a sua vez de ser politicamente incorreta e apontar, com toda razão do mundo, que a direita atual é proibicionista, invertendo os papéis e dinâmica histórica.


O grande problema, na análise cultural e social contemporânea, é a ausência de leituras de múltiplos grupos através de uma imersão antropológica dentro deles. Além de uma leitura plurissistemática e plurideológica. Se isso for feito, as dinâmicas culturais se tornam mais compreensíveis e as fraquezas internas se tornam mais visualizáveis. A seitização do debate faz com que os oponentes sejam mais fracos em suas posições dentro da guerra política.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Running Against the Devil" de Rick Wilson (lido em Inglês)

 



Livro:

Running Against the Devil: a plot to save America from Trump — and Democrats from themselves


Autor:

Rick Wilson


Faz bastante tempo que digo que leio Rick Wilson. E, de fato, ele é uma pessoa extremamente interessante de se ler. Ele é um ex-estrategista republicano e um conservador, isso chama bastante atenção. Há, também, outro denso fato: Rick Wilson é engraçadíssimo. Ele consegue amontoar referências, construções intelectuais extremamente elaboradas e piadas que aparecem magicamente para tornar a leitura saborosa. Isso é um talento intelectual raro.


Um dos maiores encantamentos desse livro é: "como um dos maiores estrategistas republicanos de todos os tempos ajudou na derrota de Trump em 2020?". Esse livro nos dá várias pistas sobre o assunto. Ele foi uma espécie de guia interno do castelo draculariano (fãs do Castlevania vão sacar essa) do inimigo. 


Falar de um conservador antitrumpista (ou antibolsonarista) é como falar de um Atari Jaguar: pouca gente conhece e quem conhece não jogou e nem jogaria. É algo que afasta os direitistas que vivem na miséria dos bandos, mas também é algo que afasta os esquerdistas que, por sua vez, entrelaçam-se no gozo cósmico do próprio universo.


Quem é Rick Wilson? Ele é o estrategista no exílio. Ele vive numa irônica tragédia: a de um arquiteto do moderno Partido Republicano usando o próprio conhecimento íntimo para desmontar a própria criação. Isso é uma missão que é vista como uma traição necessária. O que gera uma dúvida: para Rick Wilson, o Partido Republicano traiu os ideais sólidos do conservadorismo. Para múltiplos republicanos e conservadores, foi o Rick Wilson que traiu. As questões que podemos ter são:

1. Quem é o herege?

2. Quem é o ortodoxo?

3. Quem é o iconoclasta?

4. Isso realmente importa?


Enquanto escrevo percebo o quão engraçadas as coisas são. Terminei de ler "Running Against the Devil" recentemente. E agora já estou lendo "Trumpocracy" do conservador antitrumpista David Frum. Isso talvez possa soar monótono, não é? Leio vários conservadores antitrumpistas, um atrás do outro. Faço isso pois aprender sobre a política americana é sempre delicioso. Além disso, me encanta a forma que os conservadores americanos escrevem. Eles são mais parecidos comigo. Ao menos é isso que sinto enquanto leio.


Muitas pessoas, sobretudo bolsonaristas, compreendem muito pouco sobre Trump. Petistas sabem um pouco mais, mas quando chegamos em tópicos mais obscuros como "Project 2025", "Network Propaganda" e "Cold Civil War" (guerra fria civil)... eles se perdem todinhos. De qualquer forma, sou eu e a minha solidão. Pessoas não me acompanham em nenhum raciocínio. Isso não tem a ver com inteligência, tem a ver com universo compartilhado. Estou condenado a ler o que ninguém lê, estudar o que ninguém estuda, e, por fim, escrever o que ninguém lerá. Um ciclo tragicamente repetitivo em minha vida.


Pensei em dois livros enquanto lia esse livro: "American Psychosis" (de David J. Morris) e "Network Propaganda" (que vou ter o prazer de ler posteriormente), esses dois livros demonstram  como ecossistemas midiáticos fechados criam realidades alternativas. Isso não é no sentido puramente mágico de criar um novo universo, mas no sentido de criar uma percepção alternativa da realidade. Como conservador, valorizo a realidade concreta e a prudência. É por isso que me oponho a esse movimento. Esse movimento que aparece, dia após dia e crescentemente, abraçando teorias conspiratórias me parece antitético com o conservadorismo. Ao mesmo tempo que cheira mofo e enxofre.


Aqui está uma das marcas maiores que essa leitura me passou. Quando li Rick Wilson, senti solidão. Rick Wilson está afastado do partido que ajudou a construir. Pior do que isso, está a colaborar com os seus antigos rivais em prol de um objetivo maior. Penso nível de tensão psicológica que ele tinha quando escreveu isso e penso no tipo de tensão psicológica que eu sinto diante da minha solidão e isolamento constante.


Quando você está sempre com uma nova pesquisa em mente, a solidão sempre te acompanha. Eu tento sair desse vazio que me acompanha. Eu tento. Tento de novo. Todavia sou sempre engolido pelo meu desejo artístico de inovação. Quanto mais tento chegar em caminhos que ninguém chegou antes, mais eu vejo que estou irremediavelmente só. Quanto mais eu lia esse livro, mais o abismo me olhava com um gosto de Nietzsche. Rick Wilson deve ter sentido isso, vendo-se incompreendido pelos mesmos republicanos que eram seus amigos. Christopher Buckley deve ter sentido o mesmo, mas só que bem antes. Se bem que ele esteve envolvido em "polêmicas" por causa do livro "Make Russia Great Again".


Tenho tomado um outro ponto de distância daa outras pessoas. Explico: muita gente costuma a olhar para essa mudança política como se a prática política mesma estivesse ficando mais agressiva, mas há algo de substancialmente errado nessa análise ou visão. O que estamos vendo na política não é, pura e simplesmente, um aumento da agressividade na chamada prática política. Há um outro fator: esse é o da seitização crescente da política. Tal como no livro "American Psychosis", o que eu vejo não é apenas um simples aumento de agressividade, mas sim uma psicotização massiva da política e um número cada vez maior de teorias da conspiração circulando pela internet. Rick Wilson já escreveu sobre isso no "Everything Trump Touches Dies", um outro clássico do conservadorismo antitrumpista.


Outra condição vem aparecido dentro de mim. Essa é a condição de uma pergunta. E a pergunta que ressoou em minha mente podia ser descrita como uma união de duas perguntas:

— Quem eu sou e por qual razão ninguém está do meu lado?


Aqui volto a analisar o conservador antitrumpista. Sociologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito isolado. Psicologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito que vive numa vida dupla: salvar o legado do seu movimento ao mesmo tempo que é acusado de traidor. Penso que o conservador antibolsonarista tem uma luta similar. É como dizer: "ei, grande parte do movimento é um punhado de conspiracionistas, racistas, machistas, misóginos, simpatizantes do fascismo e do nazismo... mas eu não sou como os outros rapazes!". Ou, quem sabe, uma formulação assim: "vocês que não entenderam a essência mesma do movimento conservador, pouco importando que eu seja a menor minoria dentro desse estranho movimento que foi apossado por conspiracionistas e criptofascistas!".


Lembro-me dos meus anos iniciais lendo Luiz Felipe Pondé e Nelson Rodrigues, tal como se eu devorasse pedaços mágicos de carne literária. Eu finalmente podia ver um rigor de um pessimismo, ceticismo, pragmatismo e prudência. Todos articulados de forma dançante. Aquela sensação fantástica rimava como uma risada na estrutura psicológica de toda a minha alma. Naquele instante, eu não me sentia só. Tudo parecia se encaixar. Quando leio esses grandes conservadores, posso ainda sentir o mesmo. Quando eu vejo os conservadores populistas, sinto um misto de nojo e repulsa. Menos, é claro, do ilustre Kevin Roberts (presidente da Heritage Foundation). Posso compreender parte das suas conclusões, mas não consigo concordar com todas elas.


Lembro-me que fui adolescente bastante festivo, mas extremamente solitário. Estive em vários eventos, porém a constante era a sensação de que nada e nem ninguém podia compreender a forma insólita que eu via o mundo. Encontrei em Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Luiz Felipe Pondé uma espécie de escritura pessimista, mas que via visceralmente bem a alma humana, de um modo que, ao menos inicialmente, nem podia conjecturar. Eu podia ler Karl Marx, Bakunin, Proudhon, Kroptokin, Montesquieu, mas não encontrava neles tudo o que rimava com minha rima. O estado de empolgação, ou ressonância de alma, não era o mesmo.


O problema que eu tenho com o bolsonarismo e o trumpismo é que eles transformam o conservadorismo em uma terra de slogans e de identidade tribal. Eu, como conservador, sou profundamente pessimista quanto a natureza humana — inclusive contra a minha própria natureza. Não sou do tipo que odeia tudo menos a si mesmo. Eu sou do tipo que odeia tudo inclusive a mim mesmo. Do mesmo modo, sou cético quanto a utopias. Porém ainda sou capaz de rir de toda a tragédia que estou acometido. O bolsonarismo e o trumpismo substituíram a ironia pela raiva, o ceticismo pela certeza dogmática e o nuance pelo maniqueísmo. Isso profunda e extremamente anticonservador. É como se todas as virtudes cardiais do conservadorismo fossem, da noite para o dia, invertidas em prol de mundo invertido que se constrói tal como o castelo reverso do Castlevania Symphony of the Night.


Como esse texto aborda identidade, volto-me para minhas memórias. Nos anos da minha adolescência, tudo borbulhava. O conservadorismo ia lado a lado com minha vida festiva. Tentava me encaixar em grupos progressistas devido a minha bissexualidade... Não me encaixava de modo algum. Pergunto-me hoje se Bruno Tolentino, esse bissexual libertino e conservador, não sentia o mesmo deslocamento. De qualquer modo, não havia ali, naquele momento de minha adolescência, um movimento de massas que poderia ser dito "conservador". O problema inicial é que: naquele momento, era um senso comum entre os conservadores que o movimento de massas era naturalmente emburrecedor e desindividualizador. Quando esse movimento de massas, dito conservador, surgiu com a face do trumpismo e do bolsonarismo, comecei a achar estranho. Pensei que todos os outros sentiriam o mesmo. A maior parte não sentiu absolutamente nada. Anos depois, já na vida adulta, comecei a ler Christopher Buckley, Christopher Lasch, Rick Wilson, Stuart Stevens e, nesse momento, David Frum. Agora vejo que eles veem o que eu vejo, agora sei que eu não fui o único que vi essa monstrificação que aparece no Carnaval do Populismo.


Essa é uma das principais lições do livro do Rick Wilson: o conservadorismo antitrumpista e antibolsonarista não é antitrumpista e antibolsonarista no sentido de ser um anticonservadorismo, mas no sentido exato de ser conservadorismo. É precisamente por ser antitrumpista e antibolsonarista que é verdadeiramente conservador.


Voltando aos fragmentos do passado. Da adolescência à vida adulta, continuei um bissexual festivo. Sempre escrevi um amontoado de coisa. Todavia a solidão continuou a minha marca permanente. Nunca consigo dizer o que realmente penso. As pessoas simplesmente não entendem ou não me acompanham. Para ser mais preciso, quanto mais leio e quanto mais escrevo, mais solitário eu me sinto. Ler e estudar é aumento de complexidade e aumento de complexidade carrega consigo o deslocamento social. É por isso que eu não creio muito nessa história de "intelectual popular". Quanto mais ideias você estuda, quanto mais ideias você internaliza, menos você é compreendido pelas outras pessoas. Rick Wilson não é compreendido pelos trumpistas pelo fato de ser fácil e acessível, mas sim pelo fato de ser mais complexo. Ele não se enquadra na odisséia do fanatismo e reducionismo.


É por causa de minha vivência que carrego comigo a certeza íntima de que há algo além nesses conservadores antitrumpistas. Não acho que o Stuart Stevens, Christopher Buckley, Rick Wilson ou David Frum não sejam mais conservadores. Acho que eles são conservadores extremamente complexos. Eles escrevem, poucos os entendem e, no fim, resta-lhes tão apenas o deslocamento.


Hoje em dia, eu posso dizer que sinto um imenso descolamento cognitivo do debate público brasileiro. Gosto de ver, por algum acaso, o Pedro Daher (um socialista) e o Rasta News (um humorista da Brasil Paralelo). Já na mídia americana, vejo Second Tought, um marxista finíssimo. Man Carrying Things é bom, cético e irônico. Content Machine também é engraçado. Sei que isso soa contraditório: vejo e leio de tudo. Foi assim que aprendi a pensar. Acontece que eu gosto de absorver múltiplos pontos antes de ter um posicionamento oficial. Leio jornais bem raramente, visto que sou mais atado aos bons e velhos livros.


Creio que todos têm sentido isso: é uma questão de crise de identidade e de lealdade. O "movimento" foi tomado por uma onda irracional, emocional e conspiratória. Ainda sou fiel à liberdade individual, ainda sou cético em relação a mudanças radicais, ainda creio no pragmatismo. Não acredito e não aceito culto a um líder, negacionismo factual e mitologia política. Por tal razão, estou duplamente alienado: os meus supostos pares me odeiam e do mesmo modo não estou próximo do campo oposto.


Sempre vi no conservadorismo uma defesa da racionalidade contra o irracionalismo coletivo. A solidão não é um acidente biográfico, é uma consequência lógica da complexidade.


Achar maneiras de combater a moderna manipulação digital é uma das preocupações mais urgentes da modernidade. Estamos indo a pontos de manipulações cada vez mais complexas e dificilmente captadas pelos métodos defensicos atuais. E é exatamente nisso que eu tenho trabalhado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

NGL #9 — Sobre o legado e as futuras gerações


 

Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/lunemcordis

Vira e mexe alguém vem e me pergunta: "você conhece esse membro da (cite alguma panelinha ridícula de channers mais novos)?". E eu agradeço por não conhecer ninguém. É sempre uma burrada da machosfera ou alguma coisa idiota do movimento red piu-piu. Ver esse tipo de pergunta é um alívio, visto que sei que ela vem de gente da velha guarda e não entusiastas do sensacionalismo.

Quantas histórias e quantas memórias. Estava relembrando isso hoje, li minha troca de mensagens com o antigo ex-administrador do 77chan. Veja como a memória é uma coisa frágil, comecei a usar chans em 2011. Pensei que tinha começado em 2012. Significa que tenho meus 14 anos de experiência. Muito tempo, muita coisa.

Vi de tudo: o BRchan, o 55chan, as indas e vindas dos jorges, as quedas, as ascensões. Sinto um carinho especial pelo magochan (uma época ele foi o maguschan), apesar de eu não lembrar particularmente quase nada do recinto.

Na época em que eu estava conversando com o administrador do 77chan, tinha lá as minhas rixas com o 55chan (a segunda versão). Naquela época, veríamos muitas coisas ocorrendo. A raid contra Godilson (esquerdista e membro da Staff), os ataques repetidos contra a Flower (uma mulher de esquerda que chegou a ser administradora do 55chan) e a onda da alt-right gerada por Qb (staff do 55chan).

O que odiava no 55chan era moldagem de conteúdo. Qb queria censurar a galera da esquerda. Fowler queria censurar todo mundo. Sentia saudades do espírito bananalista e anárquico da Terra de Ninguém (período tão amado e odiado na história do BRchan). O 55chan morreria em 2021.

Naquela época, ainda testemunhávamos a ascensão da alt-right na cena channer nacional. Em grande parte, pelos esforços de Qb. Um tempo depois, tornei-me moderador da Panelinha do Bananal. Para depois fundar a Seita da Banana Invisível e ir embora do grupo que fundei.

A administração da segunda versão do 55chan cometeria uma série de erros. Uma delas foi deixar que os servidores piratas ligados ao 55chan tivessem chats no Discord. Isso daria margem para a criação das padogonelas (panelas dogoleiras), diferentes das panelinhas tradicionais (criadas originalmente por Reptar e seus sucessores), porém essa discussão é quase incognoscível para quem é de fora da cena.

Conheci muita gente graças a esses movimentos. Guardo contato com alguns. Recentemente cheguei a conhecer IHM, uma channer americana conhecida por fundar o 94chan. Além disso, conheci o irmão da fundadora da Encyclopedia Dramatica (wiki satírica channer). Fui também administrador do chat do telegram da Encyclopedia Dramatica por um curto período de tempo. Falei com gente que tem mais de 20 anos de chan, os chamados "originais" ou "anciãos".

Mantenho amizade com o Tiago, grande administrador da Panelinha do Bananal. Atualmente afastado. Esquerdista sangue bom. O que me lembra o quão diferente eu sou dos outros: tenho amigos de esquerda, sou bissexual, leio um bocado de livros e participo de festas liberais. Além de, é claro, ter um posicionamento extremamente contrário ao bolsonarismo e trumpismo.

Eu prometi em 2021 que escreveria um livro chamado Harmonia da Dissonância e que daria o sistema esochannealógico completo (um sistema gnóstico operacional) para as novas gerações. Aí está:


Minha geração cresceu com uma cultura channer brasileira extremamente anárquica para ver ela ser capturada em prol de interesses políticos mesquinhos. Houve um tempo em que víamos marxistas inteligentíssimos dentro do movimento. Vimos um dos mais famosos membros da Panelinha do Bananal (o Rei do Norte) discursar ao lado do Bolsonaro. Em uma época, as panelinhas (as originais que eram no Facebook, não confundir com os padogonelas do Discord) tinham até milhões de membros.

Hoje em dia, cá estou eu. Nunca gostei do bolsonarismo. Essa pesca, a que nunca pude morder, tornou-se algo absurdamente característico da cultura channer brasileira. Sem os esforços da comunidade channer nacional em "memar" Bolsonaro, talvez ele nunca tivesse ido pro Superpop e virado uma "estrela política".

O 4chan, por outro lado, sempre permitiu todo tipo de discurso. Chega até ser impressionante ver todo tipo de gente de esquerda e de direita por lá. Sobretudo no /lit/, mas podemos ver comunistas no /v/. É impressionante o quanto é fácil encontrar pessoas que odeiam o /pol/ dentro das outras boards.

Cumpri o meu objetivo de entregar o sistema esochannealógico para as novas gerações. Hoje em dia, estou muito mais afastado. Não que eu tenha "deixado" de ser channer. Visto que isso faz parte da minha identidade. Mas sim que não me verá dando grandes contribuições ao horizonte cultural. As pessoas devem saber o desgosto que sinto dos incels e redpills. Além do meu orgulho de nunca ter participado desse besteirol cancerígeno que é a betosfera/machosfera ou seja lá como se chame essa porcaria.

Conversei dois anos atrás (ou seria um ano atrás?) com Parallax (ex-Xetrak), um dos maiores membros da Wikinet (wiki de channers e irmã brasileira da Encyclopedia Dramatica). É interessante, ele disse que me conhecia desde o grupo Libertarianismo. Foi ele que apagou minha página na Wikinet, inclusive a pedido meu.

Já estive no bate-papo com vários channers, membros do 4chan, ourchan, 8kun, leftypol, dentre tantos outros. Conheci channers de esquerda e de direita. Além de alguns ocasionais ex-channers. Já conheci channers americanos que são filiados ao Partido Democrata e vários channers americanos que odeiam Donald Trump. Além de ter participado de festas de alguns channers brasileiros.

Eu não me importo que alguns channers brasileiros me vejam como um trumpista vê Rick Wilson. Já passei dessa fase. Creio que essa geração de channers, que vive no r/brasilivre no Reddit ou postando porcaria no X está bem perdidinha. Espero que um dia possam crescer e deixar essa mentalidade rancorosa, conspiratória, por vezes flagrantemente misógina, racista e LGBTfóbica. Porém isso só virá com o tempo, já que a cultura channer é o veneno dos jovens dessa geração.

Deixo que cada um siga seu rumo. Continuarei no meu. Lendo livros, fazendo minhas análises. Afastado das novas gerações. Sem querer saber das rixas e das brigas. Já estou velho demais para isso.

Memória Cadavérica #30 — Sobre Christopher Buckley e Rick Wilson

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: creio que quando escrevi essa breve nota, estava lendo "Thank You for Smoking" do Christopher Buckley. Realizei algumas alterações, como deixar o texto maior.


A forma satírica e a escrita do conservador Christopher Buckley é extremamente brutal. Ele apresenta tudo que um conservador deveria ser: inteligente, engraçado, cauteloso em suas posições, além de apresentar uma mistura de cultura popular e erudita.


Uma pena que o conservadorismo letrado se afasta cada vez mais do conservadorismo das massas — veja, por exemplo, o bolsonarismo e o trumpismo. Qualquer conservador como Rick Wilson e Christopher Buckley seria chamado de esquerdista no Brasil pela legião de pseudoconservadores desmiolados.


A geração trumpista e bolsonarista afastarão milhares ou milhões de acadêmicos e futuros acadêmicos que poderiam ter sido conservadores, mas que viram no conservadorismo um carnaval sem fim de teorias da conspiração, negacionismos de todas as espécies, sensacionalismos, produção de pânico moral, ódio às pessoas LGBTs e revisionismo histórico.


Negros terão que olhar para a revisionismo histórico sobre a escravidão, ver-se-ão afastados do conservadorismo. LGBTs, sobretudo pessoas transgêneras, verão o espetáculo LGBTfóbico do Project 2025. Olharão para milhões de mortes na época da Covid, e verão o uso obsceno de teorias da conspiração como tática política. Nada disso é, à longo-prazo, positivo.


Caberá aos conservadores intelectualizados construírem um movimento separado e discreto, longe do bolsonarismo e trumpismo. E, acima de tudo, CONTRA o bolsonarismo e o trumpismo. O que atrará meia dúzia de pessoas verdadeiramente interessadas nas escolas de pensamento conservadoras.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

NGL 8# — Trumpismo e Bolsonarismo

 


Envie as suas mensagens anônimas: https://ngl.link/lunemcordis


Não, de maneira alguma. Nem o blogspot e nem eu. Tanto que eu fui um dos únicos a comentar as obras de três conservadores anti-Trump: 


- Christopher Buckley;

- Rick Wilson;

- Stuart Stevens.


Recomendo o The Lincoln Project no YouTube:

https://youtube.com/@thelincolnproject?si=4_nWKQecO591zAxT


Recomendo também que leia os seguintes livros:

- "Make Russia Great Again" do Christopher Buckley;

- "It Was All a Lie" do Stuart Stevens;

- "The Conspiracy to End America" do Stuart Stevens;

- "Everything Trump Touches Dies" do Rick Wilson;

- "Running Against the Devil" do Rick Wilson.


O que eu sinto pelo trumpismo e bolsonarismo poderia ser descrito como um misto de nojo, de horror e de desgosto. Eu tenho uma absoluta rejeição ao bolsonarismo e ao trumpismo. São dois movimentos extremamente incultos, iletrados, incapazes de gerar algo de bom, útil ou proveitoso aos interesses dos seus respectivos países. São movimentos nauseabundos, isto é, que causam náuseas.


O trumpismo e bolsonarismo não são só nocivos aos Estados Unidos da América e ao Brasil, são nocivos — e extremamente corrosivos — para a própria direita e para o conservadorismo. Além disso, possuem um legado que afastará gerações inteiras da tradição intelectual conservadora.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #16 — Antes da Política

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Em seu segundo livro contra Trump, o conservador e ex-estrategista republicano Rick Wilson fala sobre a questão da vitória eleitoral e política. As suas falas fogem do senso comum:


1. Linguagem;

2. Apresentação;

3. Carisma.


Tudo isso antecede a vitória política. Logo essas três primeiras questões são mais importantes para a vitória política do que a política em si. Em outras palavras, fatores não-políticos (ou com menos grau de política) influenciam estrategicamente o debate.