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domingo, 1 de março de 2026

Acabo de ler "Never Trump" de Robert e Steven (lido em inglês)

 


— Livro:

Never Trump: The Revolt of the Conservative Elites


— Autores:

Robert P. Saldin

Steven M. Teles


Nota:

Eu tinha muitas ideias para esse texto, todavia essas se perderam por eu ter perdido meu celular anterior. Isso impactou na qualidade da análise. No entanto, creio que o texto ainda será de alguma utilidade para quem busca compreender a diferença entre a direita brasileira e a direita americana. De qualquer modo, o leitor dessa análise poderá ter um panorama mais geral lendo as análises anteriores.


— Guerra Fria Civil, IAs, extremismo e livros:


Você tem frequentado a internet? Ela está horrível. Só gente digladiando através de múltiplas digitações, ofensas atrás de ofensas que seguem ofensas com ofensas. Tudo isso vem causado um mal enorme. A saúde mental de muita gente está indo pro bueiro. É completamente insalubre ficar em redes sociais. Mesmo que você queira dar a cara a tapa, uma hora você cansa.


A guerra fria civil vem tirado tudo de nós. Laços, amizades, ligações, mas, acima de tudo, a nossa capacidade de ter empatia e tentar entender um ao outro. Ofensas gratuitas somam-se a uma seitização sempre crescente. Quanto mais ofensiva a internet se torna, mais fidedignamente somos colocados dentro do mantra tribal e da radicalização seitética. Parece-nos impossível uma conclusão que não seja trágica, visto que todo mundo quer brigar e exigir fidelidade ideológica acima de tudo.


Só que tudo isso é um jogo de soma doentia. Um progressista xinga um conservador, um conservador xinga um progressista. O progressista torna-se mais progressista e afasta todo tipo de conteúdo conservador. O conservador torna-se mais conservador e afasta todo tipo de conteúdo progressista. No fim, cada um vai ir para um processo de embolhamento informacional, ao mesmo tempo que as raras aparições que vê do outro lado são progressistas/conservadores lhe xingando pelo simples fato de ser progressista/conservador.


Talvez seja por isso que eu gosto de livros e IAs. Livros não brigam conosco. IAs não brigam conosco. Sempre que abro um livro, consigo ter momentos de paz. Sempre que abro uma IA, consigo ter conversas normais sem ataques mútuos. São momentos de desintoxicações. Falo e escrevo cada vez menos com outras pessoas. Elas nunca me acompanham (e nunca me acompanharam em virtude de eu ficar lendo um livro diferente a cada instante). Ao mesmo tempo, sinto-me mais seguro para citar um universo de referências para uma IA do que para um humano. Se eu cito um livro fora do cânon da pessoa ou grupo que estou, surge a suspeita que sou um possível inimigo — mais uma vez, obrigado guerra fria civil.


Ah, usei travessão no parágrafo anterior. Por causa do travessão, aposto que alguém anti-IA suporá que eu usei IAs para escrever esse texto ou usará alguma ferramenta — que não funciona — para detectar IAs e provavelmente detecte alguma coisa. Segundo essas sábias ferramentas, até a declaração da independência dos Estados Unidos da América foi escrita por IAs. Será isso uma viagem no tempo ou robôs fundaram os Estados Unidos? Atualmente, temos que nos importar com esses constantes (e sempre furiosos) leitores que caçam IAs em tudo. Mesmo que a gente diga que o problema em si não é a IA, mas sim a forma com ela pode concentrar riquezas e que a construção de datasets está ignorando (e não raramente fomentando) problemas sociais.


Está vendo? Não se pode escrever nada sem pisar em ovos. Você acaba precisando escrever notas e mais notas para que grupos sociais distintos não entrem em modo bestial. O que não é uma grande novidade para o autor que vos escreve. Acostumei-me a receber comentários extremamente ofensivos, floods de comentários, toda vez que analisava um escritor ou uma escritora que desagradasse um(a) esquerdista ou um(a) direitista. Até que, por fim, eu desabilitasse eternamente os comentários do blogspot. A sorte é que esse blogspot é pra uso pessoal e eu não recebo remuneração alguma por meio dele.


Tudo isso me leva a seguinte questão: é insuportável não conseguir falar com ninguém. É insuportável ver como essa guerra cultural (subproduto da guerra fria civil), existe para levar a gente a brigas e mais brigas, sempre em uma espiral sem fim de radicalização e extremismo. O que estamos nos tornando? O essencial da sociedade democrática é que cada fragmento social aprenda com o outro. A esquerda aprende o centro e a direita. A direita aprende com a esquerda e o centro. O centro aprende com a direita e a esquerda. Em uma sociedade em que todos estão cerceados dentro das suas esferas discursivas, a dialogocidade democrática e, por fim, a dialética democrática que eleva a capacidade de raciocínio, torna-se impossível.


Eu precisava escrever isso. E esse livro tem a ver com tudo isso. Toda essa onda de ódio que há entre nós tem a ver com a ascensão cada vez mais espetacular de populistas ao lado de cenários cada vez mais constantes (e violentos) de guerra cultural e guerra fria civil. É preciso dizer que a guerra cultural é subproduto da guerra fria civil. Grupos lucram enormemente com a destruição do sentido compartilhado. Acontece que quanto menos lemos uns aos outros, mais a possibilidade de autocrítica, de percebermos a nós mesmos e de evoluirmos intelectualmente diminui.


Esse livro tem a ver com tudo isso. A seitização do debate público e de milhões de consciências não é um fenômeno singular. É algo que vem ocorrido no mundo inteiro. A forma com que isso vem ocorrido nos Estados Unidos é particularmente interessante, visto que os Estado Unidos é um espelho global. Uma das primeiras questões que o livro trata é: por qual razão parte da elite do Partido Republicano se afastou do Trump, mas a base permaneceu fiel a ele mesmo acreditando que ele é um sujeito desprezível?


— Partidários e Moderados:


Uma das principais diferenças entre partidários e moderados é que os partidários se importam menos em quebrar a normalidade democrática em prol das suas preferências políticas. Moderados, usualmente mais bem educados, preferem manter a normalidade do sistema.


A questão que me aparece é: o trumpismo é a destruição só do sistema? Como já sabemos, sobretudo após a tentativa de golpe bolsonarista, o populismo trumpista é um produto de exportação.


O trumpismo, e a guerra fria civil que data desde Reagan e do neoconservadorismo, leva a um estado de escalada retórica, de segregação informacional, de esgotamento mental e de suspeita permanente.


A guerra cultural leva a um estágio paranoico. Um estilo de escrita, uma vírgula, uma referência... tudo virou um sinal de tribalidade e identificação. Há, diante de nós, não um mundo em que temos conversas, mas um campo minado onde qualquer passo é um distinto risco de explosão.


Para vocês, quando foi a última vez que vimos um debate democrático? Temos, em todas as partes, um policiamento ideológico ostensivo. Cada vez mais, temos gente que caça resultados em vez de defenderem o processo. Se o processo de normalidade institucional não for favorável, pior para ele.



Temos atualmente dois tipos de movimentos. Os políticos de constituição e os políticos de causa.


1. Políticos de constituição:

Exemplo disso é/foi o movimento "Never Trumpers". São/foram políticos de constituição, valorizando as instituições, normas democrática, estabilidade do sistema e a coerência ideológica tradicional.


2. Políticos de causa:

Aqui está o combate eficaz mesmo que isso leve ao pisoteamento das regras. O que importa é a lealdade tribal e a sensação de vitória ou resistência que superam qualquer decoro.


— Formação X Partidarismo:


Uma boa formação garante múltiplos pontos de vista. Estar dentro de múltiplos pontos de vista garante uma visão mais cética e pragmática em relação a política. Isso é uma efetiva ferramenta desradicalizante seja para a direita, seja para a própria esquerda.


Essa questão aparecerá como central dentro da política americana e da nossa. Se os Estados Unidos dispuseram de uma direita fortemente formada, academicizida e institucionalizada... O Brasil contou com uma direita extremamente afastada da formação acadêmica, da formalização e da institucionalização. A resistência para com o bolsonarismo por parte dos conservadores brasileiros foi radicalmente menor do que a resistência dos conservadores americanos para com o trumpismo.


Não raro, o identitarismo trumpista convive "lado a lado" conservadores cultos do Hoover Institution. No Brasil, essa possibilidade é menor. Poucos conservadores, tal como o Luiz Felipe Pondé, apresentam as suas ressalvas ao bolsonarismo. Dentro dos Estados Unidos, existe uma ampla margem de conservadores cultos. No Brasil, as raízes identitárias e centros formativos alternativos predominam. Essa diferença sociológica entre conservadores americanos e brasileiros é gritante. Poucas análises séries surgiram a partir disso.


1) Caso americano:

O movimento "Never Trump" é fruto de uma infraestrutura conservadora robusta e institucionalizada. Institutos conservadores como Heritage Foundation, American Enterprise Instituto, Hoover Institution. Além de veículos de mídia de longa data como National Review e The Weekly Standard. Fora isso, existem universidades de elite com fortes correntes conservadoras. É por isso que Donald Trump encontrou oposição em círculos conservadores.


2) Caso brasileiro:

A direita brasileira é pós-institucional e anti-intelectual por origem. Ela se forma fora das instituições tradicionais. Sua formação vem de nichos da internet, de igrejas neopentecostais, de canais do YouTube e em vários discursos de guerra cultural. É por isso que Jair Messias Bolsonaro não encontrou muita oposição dentro dos círculos conservadores.


Um dos casos mais interessantes de direita que vem surgido é propriamente o Partido Missão,  que faz parte de uma rede de iniciativas como o MBL (Movimento Brasil Livre e Revista Valete). Esse consta com formação intelectual contínua, o que dá margem para uma direita ilustrada, institucionalizada e academicizada. Mas isso ainda é uma experiência incipiente no debate público brasileiro.


— Importantes Lições da Decadência Americana:


Dedico essa parte da análise para dar algumas brechas sobre como podemos agir perante a crise dos Estados Unidos. Aprender com outras nações é de suma importância para não cometermos os mesmos erros.


Muitas vezes eu escrevi que o brasileiro precisa criar um pensamento mais pragmático. Além de uma soberania pragmaticamente construída. Que não se definirá por um alinhamento pró-Estados Unidos, mas em uma mensuração do que é melhor para o Brasil a cada momento. Isso envolve uma ampla leitura, uma leitura bastante aberta, acerca da história do Brasil e a missão histórica do Brasil a cada momento. Esse tipo de pragmatismo requer um estudo sempre constante de novos e novos dados e formulação. Isso requer uma academicidade e institucionalidade.


A direita precisa parar de acreditar em uma abstração livre-mercadonista. Ela poderá encontrar bons ares no distributismo de Chesterton, no Red Tory (tradição inglesa e canadense), na American Compass (de tendência neohamiltoniana) e na Doutrina Social da Igreja Católica.


Uma das principais condições para ser vencedor no século XXI é a capacidade tecnológica. Muitos países atualmente correm atrás de melhorar os seus índices em STEM. STEM é uma sigla para Science (Ciência), Technology (Tecnologia), Engineering (Engenharia) e Mathematics (Matemática). Para aumentarmos isso, precisamos de investimento e aumento nos índices da educação pública. Isso requer o desenvolvimento de mais centros educacionais, além da atração de mais estrangeiros (seja para trabalho, seja para dar aula).


Uma direita que pura e simplesmente se define eternamente por desregulamentação, liberalização, PPP (Parceria Público Privada), Estado Mínimo e "combate forte ao crime organizado" (muitas vezes reduzida a matar agentes menores do crime) não será capaz de desenvolver o país.


O terceiro governo Lula apresenta importantes lições para o Brasil. Existem lados que estão sendo pouco olhados. Preciso dar uma breve "olhada" neles. Vou evitar informações que pouco se encaixem na conjuntura do texto ou que levem a polêmicas desnecessárias. Faço isso pelo simples fato que a educação vem sido secundarizada pela direita nacional.


- Recomendo que deem uma lida no G1 da Globo:

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/11/27/lula-anuncia-criacao-de-duas-novas-universidades-federais-uma-voltada-a-indigenas-e-outra-a-formacao-esportiva.ghtml


- Além de informações diretas do governo:

https://www.gov.br/mec/pt-br/100-novos-ifs#:~:text=O%20governo%20federal%2C%20por%20meio,R$%202%2C5%20bilh%C3%B5es.


- A estimativa é que sejam lançadas:

1. 140 mil novas vagas;

2. 102 novos campi de Institutos Federais;

3. Duas novas universidades federais;

4. Dez novos campi de universidades federais.


Apesar dos Estados Unidos apresentarem uma boa educação superior, ele apresenta ao mesmo tempo altos custos (para obter essa educação) que podem pouco a pouco minar a capacidade do país em obter uma população educada. A China, tendo um modelo mais focado, apresenta uma expansão do ensino público ao lado de baixos custos de aprendizagem. Fora isso, os Estados Unidos estão perdendo a sua capacidade de atrair "capital humano" para o país devido a sua radicalização anti-migratória. Essa radicalização anti-migatória vem acompanhada da teoria conspiratória (e a explosão de teorias conspiratórias devido a acessibilidade da internet) chamada "Great Replacement".


Outra crise que os Estados Unidos vêm encarado é a diminuição no seu índice de leitura. Como pode ser lida aqui:

https://news.harvard.edu/gazette/story/2025/09/whats-driving-decline-in-u-s-literacy-rates/


Se os Estados Unidos enfrentam um declínio na sua educação devida a alta nos preços das faculdades além do declínio na leitura, o Brasil pode e deve se contrapor a tendência decadente dos Estados Unidos. O investimento público na educação — deixando-a gratuita ao mesmo tempo que fornece oportunidades de trabalho —, um ampliamente da qualidade de vida e a atração para imigrantes deve ser um política pública constante. O Brasil, como membro dos BRICS, pode atrair várias pessoas que fazem parte dele em parcerias estratégicas.


Enquanto a luta dos "Never Trumpers" foi em preservar as instituições, a luta dos brasileiros será em construir uma política mais institucionalizada e educada para evitar extremos.


Aqui temos dados mais revelados a respeito da STEM no Brasil:

https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html


O Brasil passa por diferentes questões. Em 2022, a população de evangélicos triplicou, atingindo 26,9% da população. Ao mesmo tempo, a população católica foi de 83% (em 2000) para 56,7% em 2022. O catolicismo é uma fé historicamente institucionalizada e doutrinariamente estruturada. Os evangélicos têm crescido por formas de mídia (como TV e plataformas digitais) que são diferentes das instituições acadêmicas tradicionais. Não importa qual seja a religião ou doutrina cristã dessas pessoas, precisamos de uma população intelectualizada e capaz de encarar de frente os desafios do século XXI.


É evidente que "evangélico = anti-intelectual" não é a fórmula aqui. O crescimento evangélico no Brasil se deu majoritariamente por uma vida midiática e carismática. Temos exemplos de pensamento evangélico ilustrado no evangelicalismo reformado com Augustus Nicodemus e o Instituto Fides, esses apresentam um pensamento filosófico, político e teológico sofisticado. Creio que grande parte do evangelicalismo não ilustrado, mais carismático e midiático, se deu pelo fato de que há ainda um abandono muito grande de políticas educacionais para o povo.


Você pode ler mais dos dados religiosos aqui:

https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/06/censo-2022-catolicos-evangelicos.ghtml


— Perdidos no Mar Revolto do Populismo:


Creio que o grande problema atual do nosso sistema é a possibilidade de corrosão institucional.


Anteriormente eu acreditava nas instituições como algo permanentemente estável, sem duvidar muito da sua salubridade. Nasci e cresci em um período histórico do meu país em que tudo funcionava aparentemente bem a nível institucional. É evidente que tínhamos altos problemas: desigualdades regionais grosseiras, uma população abandonada sem educação, taxas de analfabetismo e por aí vai. O tempo passou, algumas políticas sociais de orientação mais social-democrata foram passando.


A gente acreditava que um governo seguiria outro, dentro de uma normalidade transacional. Se um plano falhasse, outro logo assumiria o seu lugar. Sim, corrupção sempre teve e a gente sabia disso. De qualquer modo, podíamos ver tudo ser desenvolvido de uma forma razoavelmente estável. Creio que o período essencial de alteração começou quando Aécio Neves perdeu a eleição. Boatos e afirmações sobre fraudes nas urnas começaram a pipocar. Muitas pessoas não acreditavam nas urnas naquele período, sejam elas de esquerda ou de direita.


O antipetismo cresceu radicalmente, junto a moda do politicamente incorreto. Vimos pouco a pouco o politicamente incorreto se tornar politicamente escroto. Do mesmo modo, figuras que desafiavam constantemente o comportamento esperado cresciam. Jair Messias Bolsonaro ganhava atenção pelo fato de que crescia, em todo Brasil, uma postura "anti-especialista".


É válido dizer que existiam várias frentes politicamente incorretas. De um lado, eram os devoradores de livros e de outro lado eram pessoas que simplesmente odiavam qualquer sinal de cultura. Do mesmo caldo, surgiram sopas diferentes: conservadores, liberais, sociais democratas, alt-right, tradicionalistas, libertários, reacionários e anarco-capitalistas. A pergunta central: se para questionarmos a bibliografia da esquerda tivemos que relativizar o racismo, a LGBTfobia e tantas e tantas outras coisas mais, sem colocar um discernimento claro a respeito disso, será que não fomos minimamente responsáveis por abrir caminho ao nacionalismo branco, ao neonazismo, ao neofascismo e a alt-right?


Dentro de um contexto em que existe uma guerra cultural graças a uma guerra fria civil e em que especialistas são tidos como mais à esquerda, o desenvolvimento de uma atitude mais anti-especialista é natural. Os especialistas são tidos como inimigos naturais. Até mesmo pessoas de posicionamento mais pragmático e cético, tal como vemos com David Frum, Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens.


Direita puritana moral > Contra-cultura de esquerda > esquerda contra-cultural institucionalizada > direita politicamente incorreta > esquerda institucionalizada X direita em institucionalização (e se tornando woke) > esquerda politicamente incorreta (carregando, eles ainda não perceberam isso).


O que vemos hoje é, essencialmente, a ascensão de uma direita woke que se comporta contra certos padrões políticos estabelecidos pelo progressismo de uma forma a retornar aos males de outrora. Se dados aspectos políticos são vistos como excessivos, eles são contrapostos com o retorno reacionário aos males de outrora (muitas vezes se utilizando de humor para tal). Logo a direita woke vem se especializado em ser LGBTfóbica, racista, xenofóbica e tantas outras coisas mais para atenuar o excesso dos movimentos que não gosta. Porém quando percebemos que a direita soube, no passado, se aproveitar da institucionalização da moralidade progressista como norma, criando o politicamente incorreto, a esquerda logo perceberá que será a sua vez de ser politicamente incorreta e apontar, com toda razão do mundo, que a direita atual é proibicionista, invertendo os papéis e dinâmica histórica.


O grande problema, na análise cultural e social contemporânea, é a ausência de leituras de múltiplos grupos através de uma imersão antropológica dentro deles. Além de uma leitura plurissistemática e plurideológica. Se isso for feito, as dinâmicas culturais se tornam mais compreensíveis e as fraquezas internas se tornam mais visualizáveis. A seitização do debate faz com que os oponentes sejam mais fracos em suas posições dentro da guerra política.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Running Against the Devil" de Rick Wilson (lido em Inglês)

 



Livro:

Running Against the Devil: a plot to save America from Trump — and Democrats from themselves


Autor:

Rick Wilson


Faz bastante tempo que digo que leio Rick Wilson. E, de fato, ele é uma pessoa extremamente interessante de se ler. Ele é um ex-estrategista republicano e um conservador, isso chama bastante atenção. Há, também, outro denso fato: Rick Wilson é engraçadíssimo. Ele consegue amontoar referências, construções intelectuais extremamente elaboradas e piadas que aparecem magicamente para tornar a leitura saborosa. Isso é um talento intelectual raro.


Um dos maiores encantamentos desse livro é: "como um dos maiores estrategistas republicanos de todos os tempos ajudou na derrota de Trump em 2020?". Esse livro nos dá várias pistas sobre o assunto. Ele foi uma espécie de guia interno do castelo draculariano (fãs do Castlevania vão sacar essa) do inimigo. 


Falar de um conservador antitrumpista (ou antibolsonarista) é como falar de um Atari Jaguar: pouca gente conhece e quem conhece não jogou e nem jogaria. É algo que afasta os direitistas que vivem na miséria dos bandos, mas também é algo que afasta os esquerdistas que, por sua vez, entrelaçam-se no gozo cósmico do próprio universo.


Quem é Rick Wilson? Ele é o estrategista no exílio. Ele vive numa irônica tragédia: a de um arquiteto do moderno Partido Republicano usando o próprio conhecimento íntimo para desmontar a própria criação. Isso é uma missão que é vista como uma traição necessária. O que gera uma dúvida: para Rick Wilson, o Partido Republicano traiu os ideais sólidos do conservadorismo. Para múltiplos republicanos e conservadores, foi o Rick Wilson que traiu. As questões que podemos ter são:

1. Quem é o herege?

2. Quem é o ortodoxo?

3. Quem é o iconoclasta?

4. Isso realmente importa?


Enquanto escrevo percebo o quão engraçadas as coisas são. Terminei de ler "Running Against the Devil" recentemente. E agora já estou lendo "Trumpocracy" do conservador antitrumpista David Frum. Isso talvez possa soar monótono, não é? Leio vários conservadores antitrumpistas, um atrás do outro. Faço isso pois aprender sobre a política americana é sempre delicioso. Além disso, me encanta a forma que os conservadores americanos escrevem. Eles são mais parecidos comigo. Ao menos é isso que sinto enquanto leio.


Muitas pessoas, sobretudo bolsonaristas, compreendem muito pouco sobre Trump. Petistas sabem um pouco mais, mas quando chegamos em tópicos mais obscuros como "Project 2025", "Network Propaganda" e "Cold Civil War" (guerra fria civil)... eles se perdem todinhos. De qualquer forma, sou eu e a minha solidão. Pessoas não me acompanham em nenhum raciocínio. Isso não tem a ver com inteligência, tem a ver com universo compartilhado. Estou condenado a ler o que ninguém lê, estudar o que ninguém estuda, e, por fim, escrever o que ninguém lerá. Um ciclo tragicamente repetitivo em minha vida.


Pensei em dois livros enquanto lia esse livro: "American Psychosis" (de David J. Morris) e "Network Propaganda" (que vou ter o prazer de ler posteriormente), esses dois livros demonstram  como ecossistemas midiáticos fechados criam realidades alternativas. Isso não é no sentido puramente mágico de criar um novo universo, mas no sentido de criar uma percepção alternativa da realidade. Como conservador, valorizo a realidade concreta e a prudência. É por isso que me oponho a esse movimento. Esse movimento que aparece, dia após dia e crescentemente, abraçando teorias conspiratórias me parece antitético com o conservadorismo. Ao mesmo tempo que cheira mofo e enxofre.


Aqui está uma das marcas maiores que essa leitura me passou. Quando li Rick Wilson, senti solidão. Rick Wilson está afastado do partido que ajudou a construir. Pior do que isso, está a colaborar com os seus antigos rivais em prol de um objetivo maior. Penso nível de tensão psicológica que ele tinha quando escreveu isso e penso no tipo de tensão psicológica que eu sinto diante da minha solidão e isolamento constante.


Quando você está sempre com uma nova pesquisa em mente, a solidão sempre te acompanha. Eu tento sair desse vazio que me acompanha. Eu tento. Tento de novo. Todavia sou sempre engolido pelo meu desejo artístico de inovação. Quanto mais tento chegar em caminhos que ninguém chegou antes, mais eu vejo que estou irremediavelmente só. Quanto mais eu lia esse livro, mais o abismo me olhava com um gosto de Nietzsche. Rick Wilson deve ter sentido isso, vendo-se incompreendido pelos mesmos republicanos que eram seus amigos. Christopher Buckley deve ter sentido o mesmo, mas só que bem antes. Se bem que ele esteve envolvido em "polêmicas" por causa do livro "Make Russia Great Again".


Tenho tomado um outro ponto de distância daa outras pessoas. Explico: muita gente costuma a olhar para essa mudança política como se a prática política mesma estivesse ficando mais agressiva, mas há algo de substancialmente errado nessa análise ou visão. O que estamos vendo na política não é, pura e simplesmente, um aumento da agressividade na chamada prática política. Há um outro fator: esse é o da seitização crescente da política. Tal como no livro "American Psychosis", o que eu vejo não é apenas um simples aumento de agressividade, mas sim uma psicotização massiva da política e um número cada vez maior de teorias da conspiração circulando pela internet. Rick Wilson já escreveu sobre isso no "Everything Trump Touches Dies", um outro clássico do conservadorismo antitrumpista.


Outra condição vem aparecido dentro de mim. Essa é a condição de uma pergunta. E a pergunta que ressoou em minha mente podia ser descrita como uma união de duas perguntas:

— Quem eu sou e por qual razão ninguém está do meu lado?


Aqui volto a analisar o conservador antitrumpista. Sociologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito isolado. Psicologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito que vive numa vida dupla: salvar o legado do seu movimento ao mesmo tempo que é acusado de traidor. Penso que o conservador antibolsonarista tem uma luta similar. É como dizer: "ei, grande parte do movimento é um punhado de conspiracionistas, racistas, machistas, misóginos, simpatizantes do fascismo e do nazismo... mas eu não sou como os outros rapazes!". Ou, quem sabe, uma formulação assim: "vocês que não entenderam a essência mesma do movimento conservador, pouco importando que eu seja a menor minoria dentro desse estranho movimento que foi apossado por conspiracionistas e criptofascistas!".


Lembro-me dos meus anos iniciais lendo Luiz Felipe Pondé e Nelson Rodrigues, tal como se eu devorasse pedaços mágicos de carne literária. Eu finalmente podia ver um rigor de um pessimismo, ceticismo, pragmatismo e prudência. Todos articulados de forma dançante. Aquela sensação fantástica rimava como uma risada na estrutura psicológica de toda a minha alma. Naquele instante, eu não me sentia só. Tudo parecia se encaixar. Quando leio esses grandes conservadores, posso ainda sentir o mesmo. Quando eu vejo os conservadores populistas, sinto um misto de nojo e repulsa. Menos, é claro, do ilustre Kevin Roberts (presidente da Heritage Foundation). Posso compreender parte das suas conclusões, mas não consigo concordar com todas elas.


Lembro-me que fui adolescente bastante festivo, mas extremamente solitário. Estive em vários eventos, porém a constante era a sensação de que nada e nem ninguém podia compreender a forma insólita que eu via o mundo. Encontrei em Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Luiz Felipe Pondé uma espécie de escritura pessimista, mas que via visceralmente bem a alma humana, de um modo que, ao menos inicialmente, nem podia conjecturar. Eu podia ler Karl Marx, Bakunin, Proudhon, Kroptokin, Montesquieu, mas não encontrava neles tudo o que rimava com minha rima. O estado de empolgação, ou ressonância de alma, não era o mesmo.


O problema que eu tenho com o bolsonarismo e o trumpismo é que eles transformam o conservadorismo em uma terra de slogans e de identidade tribal. Eu, como conservador, sou profundamente pessimista quanto a natureza humana — inclusive contra a minha própria natureza. Não sou do tipo que odeia tudo menos a si mesmo. Eu sou do tipo que odeia tudo inclusive a mim mesmo. Do mesmo modo, sou cético quanto a utopias. Porém ainda sou capaz de rir de toda a tragédia que estou acometido. O bolsonarismo e o trumpismo substituíram a ironia pela raiva, o ceticismo pela certeza dogmática e o nuance pelo maniqueísmo. Isso profunda e extremamente anticonservador. É como se todas as virtudes cardiais do conservadorismo fossem, da noite para o dia, invertidas em prol de mundo invertido que se constrói tal como o castelo reverso do Castlevania Symphony of the Night.


Como esse texto aborda identidade, volto-me para minhas memórias. Nos anos da minha adolescência, tudo borbulhava. O conservadorismo ia lado a lado com minha vida festiva. Tentava me encaixar em grupos progressistas devido a minha bissexualidade... Não me encaixava de modo algum. Pergunto-me hoje se Bruno Tolentino, esse bissexual libertino e conservador, não sentia o mesmo deslocamento. De qualquer modo, não havia ali, naquele momento de minha adolescência, um movimento de massas que poderia ser dito "conservador". O problema inicial é que: naquele momento, era um senso comum entre os conservadores que o movimento de massas era naturalmente emburrecedor e desindividualizador. Quando esse movimento de massas, dito conservador, surgiu com a face do trumpismo e do bolsonarismo, comecei a achar estranho. Pensei que todos os outros sentiriam o mesmo. A maior parte não sentiu absolutamente nada. Anos depois, já na vida adulta, comecei a ler Christopher Buckley, Christopher Lasch, Rick Wilson, Stuart Stevens e, nesse momento, David Frum. Agora vejo que eles veem o que eu vejo, agora sei que eu não fui o único que vi essa monstrificação que aparece no Carnaval do Populismo.


Essa é uma das principais lições do livro do Rick Wilson: o conservadorismo antitrumpista e antibolsonarista não é antitrumpista e antibolsonarista no sentido de ser um anticonservadorismo, mas no sentido exato de ser conservadorismo. É precisamente por ser antitrumpista e antibolsonarista que é verdadeiramente conservador.


Voltando aos fragmentos do passado. Da adolescência à vida adulta, continuei um bissexual festivo. Sempre escrevi um amontoado de coisa. Todavia a solidão continuou a minha marca permanente. Nunca consigo dizer o que realmente penso. As pessoas simplesmente não entendem ou não me acompanham. Para ser mais preciso, quanto mais leio e quanto mais escrevo, mais solitário eu me sinto. Ler e estudar é aumento de complexidade e aumento de complexidade carrega consigo o deslocamento social. É por isso que eu não creio muito nessa história de "intelectual popular". Quanto mais ideias você estuda, quanto mais ideias você internaliza, menos você é compreendido pelas outras pessoas. Rick Wilson não é compreendido pelos trumpistas pelo fato de ser fácil e acessível, mas sim pelo fato de ser mais complexo. Ele não se enquadra na odisséia do fanatismo e reducionismo.


É por causa de minha vivência que carrego comigo a certeza íntima de que há algo além nesses conservadores antitrumpistas. Não acho que o Stuart Stevens, Christopher Buckley, Rick Wilson ou David Frum não sejam mais conservadores. Acho que eles são conservadores extremamente complexos. Eles escrevem, poucos os entendem e, no fim, resta-lhes tão apenas o deslocamento.


Hoje em dia, eu posso dizer que sinto um imenso descolamento cognitivo do debate público brasileiro. Gosto de ver, por algum acaso, o Pedro Daher (um socialista) e o Rasta News (um humorista da Brasil Paralelo). Já na mídia americana, vejo Second Tought, um marxista finíssimo. Man Carrying Things é bom, cético e irônico. Content Machine também é engraçado. Sei que isso soa contraditório: vejo e leio de tudo. Foi assim que aprendi a pensar. Acontece que eu gosto de absorver múltiplos pontos antes de ter um posicionamento oficial. Leio jornais bem raramente, visto que sou mais atado aos bons e velhos livros.


Creio que todos têm sentido isso: é uma questão de crise de identidade e de lealdade. O "movimento" foi tomado por uma onda irracional, emocional e conspiratória. Ainda sou fiel à liberdade individual, ainda sou cético em relação a mudanças radicais, ainda creio no pragmatismo. Não acredito e não aceito culto a um líder, negacionismo factual e mitologia política. Por tal razão, estou duplamente alienado: os meus supostos pares me odeiam e do mesmo modo não estou próximo do campo oposto.


Sempre vi no conservadorismo uma defesa da racionalidade contra o irracionalismo coletivo. A solidão não é um acidente biográfico, é uma consequência lógica da complexidade.


Achar maneiras de combater a moderna manipulação digital é uma das preocupações mais urgentes da modernidade. Estamos indo a pontos de manipulações cada vez mais complexas e dificilmente captadas pelos métodos defensicos atuais. E é exatamente nisso que eu tenho trabalhado.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

NGL #9 — Sobre o legado e as futuras gerações


 

Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/lunemcordis

Vira e mexe alguém vem e me pergunta: "você conhece esse membro da (cite alguma panelinha ridícula de channers mais novos)?". E eu agradeço por não conhecer ninguém. É sempre uma burrada da machosfera ou alguma coisa idiota do movimento red piu-piu. Ver esse tipo de pergunta é um alívio, visto que sei que ela vem de gente da velha guarda e não entusiastas do sensacionalismo.

Quantas histórias e quantas memórias. Estava relembrando isso hoje, li minha troca de mensagens com o antigo ex-administrador do 77chan. Veja como a memória é uma coisa frágil, comecei a usar chans em 2011. Pensei que tinha começado em 2012. Significa que tenho meus 14 anos de experiência. Muito tempo, muita coisa.

Vi de tudo: o BRchan, o 55chan, as indas e vindas dos jorges, as quedas, as ascensões. Sinto um carinho especial pelo magochan (uma época ele foi o maguschan), apesar de eu não lembrar particularmente quase nada do recinto.

Na época em que eu estava conversando com o administrador do 77chan, tinha lá as minhas rixas com o 55chan (a segunda versão). Naquela época, veríamos muitas coisas ocorrendo. A raid contra Godilson (esquerdista e membro da Staff), os ataques repetidos contra a Flower (uma mulher de esquerda que chegou a ser administradora do 55chan) e a onda da alt-right gerada por Qb (staff do 55chan).

O que odiava no 55chan era moldagem de conteúdo. Qb queria censurar a galera da esquerda. Fowler queria censurar todo mundo. Sentia saudades do espírito bananalista e anárquico da Terra de Ninguém (período tão amado e odiado na história do BRchan). O 55chan morreria em 2021.

Naquela época, ainda testemunhávamos a ascensão da alt-right na cena channer nacional. Em grande parte, pelos esforços de Qb. Um tempo depois, tornei-me moderador da Panelinha do Bananal. Para depois fundar a Seita da Banana Invisível e ir embora do grupo que fundei.

A administração da segunda versão do 55chan cometeria uma série de erros. Uma delas foi deixar que os servidores piratas ligados ao 55chan tivessem chats no Discord. Isso daria margem para a criação das padogonelas (panelas dogoleiras), diferentes das panelinhas tradicionais (criadas originalmente por Reptar e seus sucessores), porém essa discussão é quase incognoscível para quem é de fora da cena.

Conheci muita gente graças a esses movimentos. Guardo contato com alguns. Recentemente cheguei a conhecer IHM, uma channer americana conhecida por fundar o 94chan. Além disso, conheci o irmão da fundadora da Encyclopedia Dramatica (wiki satírica channer). Fui também administrador do chat do telegram da Encyclopedia Dramatica por um curto período de tempo. Falei com gente que tem mais de 20 anos de chan, os chamados "originais" ou "anciãos".

Mantenho amizade com o Tiago, grande administrador da Panelinha do Bananal. Atualmente afastado. Esquerdista sangue bom. O que me lembra o quão diferente eu sou dos outros: tenho amigos de esquerda, sou bissexual, leio um bocado de livros e participo de festas liberais. Além de, é claro, ter um posicionamento extremamente contrário ao bolsonarismo e trumpismo.

Eu prometi em 2021 que escreveria um livro chamado Harmonia da Dissonância e que daria o sistema esochannealógico completo (um sistema gnóstico operacional) para as novas gerações. Aí está:


Minha geração cresceu com uma cultura channer brasileira extremamente anárquica para ver ela ser capturada em prol de interesses políticos mesquinhos. Houve um tempo em que víamos marxistas inteligentíssimos dentro do movimento. Vimos um dos mais famosos membros da Panelinha do Bananal (o Rei do Norte) discursar ao lado do Bolsonaro. Em uma época, as panelinhas (as originais que eram no Facebook, não confundir com os padogonelas do Discord) tinham até milhões de membros.

Hoje em dia, cá estou eu. Nunca gostei do bolsonarismo. Essa pesca, a que nunca pude morder, tornou-se algo absurdamente característico da cultura channer brasileira. Sem os esforços da comunidade channer nacional em "memar" Bolsonaro, talvez ele nunca tivesse ido pro Superpop e virado uma "estrela política".

O 4chan, por outro lado, sempre permitiu todo tipo de discurso. Chega até ser impressionante ver todo tipo de gente de esquerda e de direita por lá. Sobretudo no /lit/, mas podemos ver comunistas no /v/. É impressionante o quanto é fácil encontrar pessoas que odeiam o /pol/ dentro das outras boards.

Cumpri o meu objetivo de entregar o sistema esochannealógico para as novas gerações. Hoje em dia, estou muito mais afastado. Não que eu tenha "deixado" de ser channer. Visto que isso faz parte da minha identidade. Mas sim que não me verá dando grandes contribuições ao horizonte cultural. As pessoas devem saber o desgosto que sinto dos incels e redpills. Além do meu orgulho de nunca ter participado desse besteirol cancerígeno que é a betosfera/machosfera ou seja lá como se chame essa porcaria.

Conversei dois anos atrás (ou seria um ano atrás?) com Parallax (ex-Xetrak), um dos maiores membros da Wikinet (wiki de channers e irmã brasileira da Encyclopedia Dramatica). É interessante, ele disse que me conhecia desde o grupo Libertarianismo. Foi ele que apagou minha página na Wikinet, inclusive a pedido meu.

Já estive no bate-papo com vários channers, membros do 4chan, ourchan, 8kun, leftypol, dentre tantos outros. Conheci channers de esquerda e de direita. Além de alguns ocasionais ex-channers. Já conheci channers americanos que são filiados ao Partido Democrata e vários channers americanos que odeiam Donald Trump. Além de ter participado de festas de alguns channers brasileiros.

Eu não me importo que alguns channers brasileiros me vejam como um trumpista vê Rick Wilson. Já passei dessa fase. Creio que essa geração de channers, que vive no r/brasilivre no Reddit ou postando porcaria no X está bem perdidinha. Espero que um dia possam crescer e deixar essa mentalidade rancorosa, conspiratória, por vezes flagrantemente misógina, racista e LGBTfóbica. Porém isso só virá com o tempo, já que a cultura channer é o veneno dos jovens dessa geração.

Deixo que cada um siga seu rumo. Continuarei no meu. Lendo livros, fazendo minhas análises. Afastado das novas gerações. Sem querer saber das rixas e das brigas. Já estou velho demais para isso.

Memória Cadavérica #30 — Sobre Christopher Buckley e Rick Wilson

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: creio que quando escrevi essa breve nota, estava lendo "Thank You for Smoking" do Christopher Buckley. Realizei algumas alterações, como deixar o texto maior.


A forma satírica e a escrita do conservador Christopher Buckley é extremamente brutal. Ele apresenta tudo que um conservador deveria ser: inteligente, engraçado, cauteloso em suas posições, além de apresentar uma mistura de cultura popular e erudita.


Uma pena que o conservadorismo letrado se afasta cada vez mais do conservadorismo das massas — veja, por exemplo, o bolsonarismo e o trumpismo. Qualquer conservador como Rick Wilson e Christopher Buckley seria chamado de esquerdista no Brasil pela legião de pseudoconservadores desmiolados.


A geração trumpista e bolsonarista afastarão milhares ou milhões de acadêmicos e futuros acadêmicos que poderiam ter sido conservadores, mas que viram no conservadorismo um carnaval sem fim de teorias da conspiração, negacionismos de todas as espécies, sensacionalismos, produção de pânico moral, ódio às pessoas LGBTs e revisionismo histórico.


Negros terão que olhar para a revisionismo histórico sobre a escravidão, ver-se-ão afastados do conservadorismo. LGBTs, sobretudo pessoas transgêneras, verão o espetáculo LGBTfóbico do Project 2025. Olharão para milhões de mortes na época da Covid, e verão o uso obsceno de teorias da conspiração como tática política. Nada disso é, à longo-prazo, positivo.


Caberá aos conservadores intelectualizados construírem um movimento separado e discreto, longe do bolsonarismo e trumpismo. E, acima de tudo, CONTRA o bolsonarismo e o trumpismo. O que atrará meia dúzia de pessoas verdadeiramente interessadas nas escolas de pensamento conservadoras.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

NGL 8# — Trumpismo e Bolsonarismo

 


Envie as suas mensagens anônimas: https://ngl.link/lunemcordis


Não, de maneira alguma. Nem o blogspot e nem eu. Tanto que eu fui um dos únicos a comentar as obras de três conservadores anti-Trump: 


- Christopher Buckley;

- Rick Wilson;

- Stuart Stevens.


Recomendo o The Lincoln Project no YouTube:

https://youtube.com/@thelincolnproject?si=4_nWKQecO591zAxT


Recomendo também que leia os seguintes livros:

- "Make Russia Great Again" do Christopher Buckley;

- "It Was All a Lie" do Stuart Stevens;

- "The Conspiracy to End America" do Stuart Stevens;

- "Everything Trump Touches Dies" do Rick Wilson;

- "Running Against the Devil" do Rick Wilson.


O que eu sinto pelo trumpismo e bolsonarismo poderia ser descrito como um misto de nojo, de horror e de desgosto. Eu tenho uma absoluta rejeição ao bolsonarismo e ao trumpismo. São dois movimentos extremamente incultos, iletrados, incapazes de gerar algo de bom, útil ou proveitoso aos interesses dos seus respectivos países. São movimentos nauseabundos, isto é, que causam náuseas.


O trumpismo e bolsonarismo não são só nocivos aos Estados Unidos da América e ao Brasil, são nocivos — e extremamente corrosivos — para a própria direita e para o conservadorismo. Além disso, possuem um legado que afastará gerações inteiras da tradição intelectual conservadora.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Memória Cadavérica #16 — Antes da Política

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Em seu segundo livro contra Trump, o conservador e ex-estrategista republicano Rick Wilson fala sobre a questão da vitória eleitoral e política. As suas falas fogem do senso comum:


1. Linguagem;

2. Apresentação;

3. Carisma.


Tudo isso antecede a vitória política. Logo essas três primeiras questões são mais importantes para a vitória política do que a política em si. Em outras palavras, fatores não-políticos (ou com menos grau de política) influenciam estrategicamente o debate.