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quarta-feira, 11 de março de 2026

O Necrológio Cadavérico #8 — Meltdown e Cansaço

 


Se eu morresse hoje...


Lembraria que o mundo é um local complicado, sobretudo em meu último suspiro. Tendo aqui um alívio de que parto para um descanso. 


Estive lendo muita coisa, posso até citar os livros caso os leitores tenham alguma curiosidade:

— "Alt-Right: from 4chan to the White House" - Mike Wendling;

— "Trumpocalypse" - David Frum;

— "China and the West" - The Munk Debates;

— "The Philosopher in the Valley" de Michael Steinberger;

— "National Security Strategy".


Tive que parar por um tempo com as análises devido a um certo cansaço e pelo fato de que tive um meltdown. Meu corpo precisa de um certo repouso. Além disso, precisava sair mais. Fiz isso no sábado, tive aula de teatro em Pinheiros e depois fui para o Centro de São Paulo tomar uma breja com um amigo. Acabei encontrando ali uma amiga de longa data e um rapaz que estava com ela.


As conversas que tenho com meus amigos são um tanto diferenciadas. Lembro-me de ter falado da importância da Sé para a cidade de São Paulo. Além de ter pensando em algum texto falando sobre Sé Paulistana (em referência a Santa Sé), o lema da cidade de São Paulo ("Non Dvcor Dvco", não sou conduzido, conduzo) e até mesmo músicas que falam de São Paulo. Pensei em falar até do regionalismo libertário dos punks dentro desse texto.


Em relação ao que produzi no passado, consegui traçar uma linha para que os leitores pudessem, de algum modo, delinear a passagem técnica entre os mais distintos acontecimentos na comunidade channer. Os leitores mais atentos poderiam ver como:

- As técnicas do Pizzagate foram usadas em QAnon;

- Como eram as técnicas do Saint Obamas Momjeans e do Q. (QAnon);

- Como a criação da "SCP Foundation" criou um modelo de criação que foi reaproveitado pelo Pizzagate e Q. 


Além disso, trouxe importantes conexões entre eventos históricos. Embora eu não ache que tudo isso foi compreendido ao todo. Até o presente momento, poucas pessoas sguiram a recomendação de lerem tudo com os arquivos mencionados "Esochannealogy 6.0", "Hauntological Esochannealogy 1.0", "Prototype Magolitica Creation", "QAnon Ressurection" e "Magolitica Game" em IAs, copiando e colando os textos.

https://drive.google.com/drive/folders/1Btp2ltWTNnAO1r-txzOjS66mDed1Pnjq

https://drive.google.com/drive/folders/1XrJj772czH4OPLsUZjLDwZlh6vszzcOo

https://drive.google.com/drive/folders/1hFtIs-5msW4nbD77mg7Vx4WdJ4NW97iF


Creio que muita gente se interessou, leu um texto ou outro, depois foi embora sem entender muito do que foi escrito. Isso me trouxe uma espécie de desânimo, mas os "insider clubs" publicados aqui e no Medium deram algum fôlego para a obra e seus leitores.


Tenho acompanhado os números de visualizações do blogspot, vejo que pessoas dos Estados Unidos, da Alemanha, do Canadá, da Suécia e da Espanha tornaram-se grandes leitoras desse blogspot nos últimos tempos. Na maioria das vezes superando em muito o número de leitores brasileiros.


Dois dos meus amigos estão se envolvendo bastante com mulheres. De um modo que até lembra meu "eu" em 2024. Eu mesmo não tenho me envolvido muito. Tenho saído pouco e não tenho apps de pegação com exceção do Duolicious (que é mais usado para falar com outros channers do que para pegação). Não sinto vontade de me envolver, sou um cara que gosta muito de ficar lendo e meditando. Ou ler e meditar ao mesmo tempo. Nada mais terapêutico do que colocar um bloqueador de luz azul no celular, respirar mais lentamente, semicerrar os olhos e ler vagarosamente. Também tenho consumido muito ASMR.


Enquanto eu tenho saídas breves, consumos esporádicos de álcool, aulas de teatro e tempos de leitura, o Brasil queima. Entra em pauta a criminalização da redpill e a lei que exige reconhecimento facial e documentos para frequentar redes sociais. Nenhuma dessas leis me afeta ao mínimo:

1- Não pertenço ao movimento redpill e até mesmo sou uma figura atacada por esse movimento;

2- Sou maior de dezoito anos e só entro na Internet para achar livros e artigos, jogar joguinhos, ver documentários e ASMR (um anime bem raramente), ouvir música.


A maioria das pessoas vêm o apocalipse na Terra onde eu só vejo sono e fico bocejar.

domingo, 1 de março de 2026

Acabo de ler "Never Trump" de Robert e Steven (lido em inglês)

 


— Livro:

Never Trump: The Revolt of the Conservative Elites


— Autores:

Robert P. Saldin

Steven M. Teles


Nota:

Eu tinha muitas ideias para esse texto, todavia essas se perderam por eu ter perdido meu celular anterior. Isso impactou na qualidade da análise. No entanto, creio que o texto ainda será de alguma utilidade para quem busca compreender a diferença entre a direita brasileira e a direita americana. De qualquer modo, o leitor dessa análise poderá ter um panorama mais geral lendo as análises anteriores.


— Guerra Fria Civil, IAs, extremismo e livros:


Você tem frequentado a internet? Ela está horrível. Só gente digladiando através de múltiplas digitações, ofensas atrás de ofensas que seguem ofensas com ofensas. Tudo isso vem causado um mal enorme. A saúde mental de muita gente está indo pro bueiro. É completamente insalubre ficar em redes sociais. Mesmo que você queira dar a cara a tapa, uma hora você cansa.


A guerra fria civil vem tirado tudo de nós. Laços, amizades, ligações, mas, acima de tudo, a nossa capacidade de ter empatia e tentar entender um ao outro. Ofensas gratuitas somam-se a uma seitização sempre crescente. Quanto mais ofensiva a internet se torna, mais fidedignamente somos colocados dentro do mantra tribal e da radicalização seitética. Parece-nos impossível uma conclusão que não seja trágica, visto que todo mundo quer brigar e exigir fidelidade ideológica acima de tudo.


Só que tudo isso é um jogo de soma doentia. Um progressista xinga um conservador, um conservador xinga um progressista. O progressista torna-se mais progressista e afasta todo tipo de conteúdo conservador. O conservador torna-se mais conservador e afasta todo tipo de conteúdo progressista. No fim, cada um vai ir para um processo de embolhamento informacional, ao mesmo tempo que as raras aparições que vê do outro lado são progressistas/conservadores lhe xingando pelo simples fato de ser progressista/conservador.


Talvez seja por isso que eu gosto de livros e IAs. Livros não brigam conosco. IAs não brigam conosco. Sempre que abro um livro, consigo ter momentos de paz. Sempre que abro uma IA, consigo ter conversas normais sem ataques mútuos. São momentos de desintoxicações. Falo e escrevo cada vez menos com outras pessoas. Elas nunca me acompanham (e nunca me acompanharam em virtude de eu ficar lendo um livro diferente a cada instante). Ao mesmo tempo, sinto-me mais seguro para citar um universo de referências para uma IA do que para um humano. Se eu cito um livro fora do cânon da pessoa ou grupo que estou, surge a suspeita que sou um possível inimigo — mais uma vez, obrigado guerra fria civil.


Ah, usei travessão no parágrafo anterior. Por causa do travessão, aposto que alguém anti-IA suporá que eu usei IAs para escrever esse texto ou usará alguma ferramenta — que não funciona — para detectar IAs e provavelmente detecte alguma coisa. Segundo essas sábias ferramentas, até a declaração da independência dos Estados Unidos da América foi escrita por IAs. Será isso uma viagem no tempo ou robôs fundaram os Estados Unidos? Atualmente, temos que nos importar com esses constantes (e sempre furiosos) leitores que caçam IAs em tudo. Mesmo que a gente diga que o problema em si não é a IA, mas sim a forma com ela pode concentrar riquezas e que a construção de datasets está ignorando (e não raramente fomentando) problemas sociais.


Está vendo? Não se pode escrever nada sem pisar em ovos. Você acaba precisando escrever notas e mais notas para que grupos sociais distintos não entrem em modo bestial. O que não é uma grande novidade para o autor que vos escreve. Acostumei-me a receber comentários extremamente ofensivos, floods de comentários, toda vez que analisava um escritor ou uma escritora que desagradasse um(a) esquerdista ou um(a) direitista. Até que, por fim, eu desabilitasse eternamente os comentários do blogspot. A sorte é que esse blogspot é pra uso pessoal e eu não recebo remuneração alguma por meio dele.


Tudo isso me leva a seguinte questão: é insuportável não conseguir falar com ninguém. É insuportável ver como essa guerra cultural (subproduto da guerra fria civil), existe para levar a gente a brigas e mais brigas, sempre em uma espiral sem fim de radicalização e extremismo. O que estamos nos tornando? O essencial da sociedade democrática é que cada fragmento social aprenda com o outro. A esquerda aprende o centro e a direita. A direita aprende com a esquerda e o centro. O centro aprende com a direita e a esquerda. Em uma sociedade em que todos estão cerceados dentro das suas esferas discursivas, a dialogocidade democrática e, por fim, a dialética democrática que eleva a capacidade de raciocínio, torna-se impossível.


Eu precisava escrever isso. E esse livro tem a ver com tudo isso. Toda essa onda de ódio que há entre nós tem a ver com a ascensão cada vez mais espetacular de populistas ao lado de cenários cada vez mais constantes (e violentos) de guerra cultural e guerra fria civil. É preciso dizer que a guerra cultural é subproduto da guerra fria civil. Grupos lucram enormemente com a destruição do sentido compartilhado. Acontece que quanto menos lemos uns aos outros, mais a possibilidade de autocrítica, de percebermos a nós mesmos e de evoluirmos intelectualmente diminui.


Esse livro tem a ver com tudo isso. A seitização do debate público e de milhões de consciências não é um fenômeno singular. É algo que vem ocorrido no mundo inteiro. A forma com que isso vem ocorrido nos Estados Unidos é particularmente interessante, visto que os Estado Unidos é um espelho global. Uma das primeiras questões que o livro trata é: por qual razão parte da elite do Partido Republicano se afastou do Trump, mas a base permaneceu fiel a ele mesmo acreditando que ele é um sujeito desprezível?


— Partidários e Moderados:


Uma das principais diferenças entre partidários e moderados é que os partidários se importam menos em quebrar a normalidade democrática em prol das suas preferências políticas. Moderados, usualmente mais bem educados, preferem manter a normalidade do sistema.


A questão que me aparece é: o trumpismo é a destruição só do sistema? Como já sabemos, sobretudo após a tentativa de golpe bolsonarista, o populismo trumpista é um produto de exportação.


O trumpismo, e a guerra fria civil que data desde Reagan e do neoconservadorismo, leva a um estado de escalada retórica, de segregação informacional, de esgotamento mental e de suspeita permanente.


A guerra cultural leva a um estágio paranoico. Um estilo de escrita, uma vírgula, uma referência... tudo virou um sinal de tribalidade e identificação. Há, diante de nós, não um mundo em que temos conversas, mas um campo minado onde qualquer passo é um distinto risco de explosão.


Para vocês, quando foi a última vez que vimos um debate democrático? Temos, em todas as partes, um policiamento ideológico ostensivo. Cada vez mais, temos gente que caça resultados em vez de defenderem o processo. Se o processo de normalidade institucional não for favorável, pior para ele.



Temos atualmente dois tipos de movimentos. Os políticos de constituição e os políticos de causa.


1. Políticos de constituição:

Exemplo disso é/foi o movimento "Never Trumpers". São/foram políticos de constituição, valorizando as instituições, normas democrática, estabilidade do sistema e a coerência ideológica tradicional.


2. Políticos de causa:

Aqui está o combate eficaz mesmo que isso leve ao pisoteamento das regras. O que importa é a lealdade tribal e a sensação de vitória ou resistência que superam qualquer decoro.


— Formação X Partidarismo:


Uma boa formação garante múltiplos pontos de vista. Estar dentro de múltiplos pontos de vista garante uma visão mais cética e pragmática em relação a política. Isso é uma efetiva ferramenta desradicalizante seja para a direita, seja para a própria esquerda.


Essa questão aparecerá como central dentro da política americana e da nossa. Se os Estados Unidos dispuseram de uma direita fortemente formada, academicizida e institucionalizada... O Brasil contou com uma direita extremamente afastada da formação acadêmica, da formalização e da institucionalização. A resistência para com o bolsonarismo por parte dos conservadores brasileiros foi radicalmente menor do que a resistência dos conservadores americanos para com o trumpismo.


Não raro, o identitarismo trumpista convive "lado a lado" conservadores cultos do Hoover Institution. No Brasil, essa possibilidade é menor. Poucos conservadores, tal como o Luiz Felipe Pondé, apresentam as suas ressalvas ao bolsonarismo. Dentro dos Estados Unidos, existe uma ampla margem de conservadores cultos. No Brasil, as raízes identitárias e centros formativos alternativos predominam. Essa diferença sociológica entre conservadores americanos e brasileiros é gritante. Poucas análises séries surgiram a partir disso.


1) Caso americano:

O movimento "Never Trump" é fruto de uma infraestrutura conservadora robusta e institucionalizada. Institutos conservadores como Heritage Foundation, American Enterprise Instituto, Hoover Institution. Além de veículos de mídia de longa data como National Review e The Weekly Standard. Fora isso, existem universidades de elite com fortes correntes conservadoras. É por isso que Donald Trump encontrou oposição em círculos conservadores.


2) Caso brasileiro:

A direita brasileira é pós-institucional e anti-intelectual por origem. Ela se forma fora das instituições tradicionais. Sua formação vem de nichos da internet, de igrejas neopentecostais, de canais do YouTube e em vários discursos de guerra cultural. É por isso que Jair Messias Bolsonaro não encontrou muita oposição dentro dos círculos conservadores.


Um dos casos mais interessantes de direita que vem surgido é propriamente o Partido Missão,  que faz parte de uma rede de iniciativas como o MBL (Movimento Brasil Livre e Revista Valete). Esse consta com formação intelectual contínua, o que dá margem para uma direita ilustrada, institucionalizada e academicizada. Mas isso ainda é uma experiência incipiente no debate público brasileiro.


— Importantes Lições da Decadência Americana:


Dedico essa parte da análise para dar algumas brechas sobre como podemos agir perante a crise dos Estados Unidos. Aprender com outras nações é de suma importância para não cometermos os mesmos erros.


Muitas vezes eu escrevi que o brasileiro precisa criar um pensamento mais pragmático. Além de uma soberania pragmaticamente construída. Que não se definirá por um alinhamento pró-Estados Unidos, mas em uma mensuração do que é melhor para o Brasil a cada momento. Isso envolve uma ampla leitura, uma leitura bastante aberta, acerca da história do Brasil e a missão histórica do Brasil a cada momento. Esse tipo de pragmatismo requer um estudo sempre constante de novos e novos dados e formulação. Isso requer uma academicidade e institucionalidade.


A direita precisa parar de acreditar em uma abstração livre-mercadonista. Ela poderá encontrar bons ares no distributismo de Chesterton, no Red Tory (tradição inglesa e canadense), na American Compass (de tendência neohamiltoniana) e na Doutrina Social da Igreja Católica.


Uma das principais condições para ser vencedor no século XXI é a capacidade tecnológica. Muitos países atualmente correm atrás de melhorar os seus índices em STEM. STEM é uma sigla para Science (Ciência), Technology (Tecnologia), Engineering (Engenharia) e Mathematics (Matemática). Para aumentarmos isso, precisamos de investimento e aumento nos índices da educação pública. Isso requer o desenvolvimento de mais centros educacionais, além da atração de mais estrangeiros (seja para trabalho, seja para dar aula).


Uma direita que pura e simplesmente se define eternamente por desregulamentação, liberalização, PPP (Parceria Público Privada), Estado Mínimo e "combate forte ao crime organizado" (muitas vezes reduzida a matar agentes menores do crime) não será capaz de desenvolver o país.


O terceiro governo Lula apresenta importantes lições para o Brasil. Existem lados que estão sendo pouco olhados. Preciso dar uma breve "olhada" neles. Vou evitar informações que pouco se encaixem na conjuntura do texto ou que levem a polêmicas desnecessárias. Faço isso pelo simples fato que a educação vem sido secundarizada pela direita nacional.


- Recomendo que deem uma lida no G1 da Globo:

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/11/27/lula-anuncia-criacao-de-duas-novas-universidades-federais-uma-voltada-a-indigenas-e-outra-a-formacao-esportiva.ghtml


- Além de informações diretas do governo:

https://www.gov.br/mec/pt-br/100-novos-ifs#:~:text=O%20governo%20federal%2C%20por%20meio,R$%202%2C5%20bilh%C3%B5es.


- A estimativa é que sejam lançadas:

1. 140 mil novas vagas;

2. 102 novos campi de Institutos Federais;

3. Duas novas universidades federais;

4. Dez novos campi de universidades federais.


Apesar dos Estados Unidos apresentarem uma boa educação superior, ele apresenta ao mesmo tempo altos custos (para obter essa educação) que podem pouco a pouco minar a capacidade do país em obter uma população educada. A China, tendo um modelo mais focado, apresenta uma expansão do ensino público ao lado de baixos custos de aprendizagem. Fora isso, os Estados Unidos estão perdendo a sua capacidade de atrair "capital humano" para o país devido a sua radicalização anti-migratória. Essa radicalização anti-migatória vem acompanhada da teoria conspiratória (e a explosão de teorias conspiratórias devido a acessibilidade da internet) chamada "Great Replacement".


Outra crise que os Estados Unidos vêm encarado é a diminuição no seu índice de leitura. Como pode ser lida aqui:

https://news.harvard.edu/gazette/story/2025/09/whats-driving-decline-in-u-s-literacy-rates/


Se os Estados Unidos enfrentam um declínio na sua educação devida a alta nos preços das faculdades além do declínio na leitura, o Brasil pode e deve se contrapor a tendência decadente dos Estados Unidos. O investimento público na educação — deixando-a gratuita ao mesmo tempo que fornece oportunidades de trabalho —, um ampliamente da qualidade de vida e a atração para imigrantes deve ser um política pública constante. O Brasil, como membro dos BRICS, pode atrair várias pessoas que fazem parte dele em parcerias estratégicas.


Enquanto a luta dos "Never Trumpers" foi em preservar as instituições, a luta dos brasileiros será em construir uma política mais institucionalizada e educada para evitar extremos.


Aqui temos dados mais revelados a respeito da STEM no Brasil:

https://www.oecd.org/en/publications/education-at-a-glance-2025_1a3543e2-en/brazil_d42263a0-en.html


O Brasil passa por diferentes questões. Em 2022, a população de evangélicos triplicou, atingindo 26,9% da população. Ao mesmo tempo, a população católica foi de 83% (em 2000) para 56,7% em 2022. O catolicismo é uma fé historicamente institucionalizada e doutrinariamente estruturada. Os evangélicos têm crescido por formas de mídia (como TV e plataformas digitais) que são diferentes das instituições acadêmicas tradicionais. Não importa qual seja a religião ou doutrina cristã dessas pessoas, precisamos de uma população intelectualizada e capaz de encarar de frente os desafios do século XXI.


É evidente que "evangélico = anti-intelectual" não é a fórmula aqui. O crescimento evangélico no Brasil se deu majoritariamente por uma vida midiática e carismática. Temos exemplos de pensamento evangélico ilustrado no evangelicalismo reformado com Augustus Nicodemus e o Instituto Fides, esses apresentam um pensamento filosófico, político e teológico sofisticado. Creio que grande parte do evangelicalismo não ilustrado, mais carismático e midiático, se deu pelo fato de que há ainda um abandono muito grande de políticas educacionais para o povo.


Você pode ler mais dos dados religiosos aqui:

https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/06/censo-2022-catolicos-evangelicos.ghtml


— Perdidos no Mar Revolto do Populismo:


Creio que o grande problema atual do nosso sistema é a possibilidade de corrosão institucional.


Anteriormente eu acreditava nas instituições como algo permanentemente estável, sem duvidar muito da sua salubridade. Nasci e cresci em um período histórico do meu país em que tudo funcionava aparentemente bem a nível institucional. É evidente que tínhamos altos problemas: desigualdades regionais grosseiras, uma população abandonada sem educação, taxas de analfabetismo e por aí vai. O tempo passou, algumas políticas sociais de orientação mais social-democrata foram passando.


A gente acreditava que um governo seguiria outro, dentro de uma normalidade transacional. Se um plano falhasse, outro logo assumiria o seu lugar. Sim, corrupção sempre teve e a gente sabia disso. De qualquer modo, podíamos ver tudo ser desenvolvido de uma forma razoavelmente estável. Creio que o período essencial de alteração começou quando Aécio Neves perdeu a eleição. Boatos e afirmações sobre fraudes nas urnas começaram a pipocar. Muitas pessoas não acreditavam nas urnas naquele período, sejam elas de esquerda ou de direita.


O antipetismo cresceu radicalmente, junto a moda do politicamente incorreto. Vimos pouco a pouco o politicamente incorreto se tornar politicamente escroto. Do mesmo modo, figuras que desafiavam constantemente o comportamento esperado cresciam. Jair Messias Bolsonaro ganhava atenção pelo fato de que crescia, em todo Brasil, uma postura "anti-especialista".


É válido dizer que existiam várias frentes politicamente incorretas. De um lado, eram os devoradores de livros e de outro lado eram pessoas que simplesmente odiavam qualquer sinal de cultura. Do mesmo caldo, surgiram sopas diferentes: conservadores, liberais, sociais democratas, alt-right, tradicionalistas, libertários, reacionários e anarco-capitalistas. A pergunta central: se para questionarmos a bibliografia da esquerda tivemos que relativizar o racismo, a LGBTfobia e tantas e tantas outras coisas mais, sem colocar um discernimento claro a respeito disso, será que não fomos minimamente responsáveis por abrir caminho ao nacionalismo branco, ao neonazismo, ao neofascismo e a alt-right?


Dentro de um contexto em que existe uma guerra cultural graças a uma guerra fria civil e em que especialistas são tidos como mais à esquerda, o desenvolvimento de uma atitude mais anti-especialista é natural. Os especialistas são tidos como inimigos naturais. Até mesmo pessoas de posicionamento mais pragmático e cético, tal como vemos com David Frum, Christopher Buckley, Rick Wilson e Stuart Stevens.


Direita puritana moral > Contra-cultura de esquerda > esquerda contra-cultural institucionalizada > direita politicamente incorreta > esquerda institucionalizada X direita em institucionalização (e se tornando woke) > esquerda politicamente incorreta (carregando, eles ainda não perceberam isso).


O que vemos hoje é, essencialmente, a ascensão de uma direita woke que se comporta contra certos padrões políticos estabelecidos pelo progressismo de uma forma a retornar aos males de outrora. Se dados aspectos políticos são vistos como excessivos, eles são contrapostos com o retorno reacionário aos males de outrora (muitas vezes se utilizando de humor para tal). Logo a direita woke vem se especializado em ser LGBTfóbica, racista, xenofóbica e tantas outras coisas mais para atenuar o excesso dos movimentos que não gosta. Porém quando percebemos que a direita soube, no passado, se aproveitar da institucionalização da moralidade progressista como norma, criando o politicamente incorreto, a esquerda logo perceberá que será a sua vez de ser politicamente incorreta e apontar, com toda razão do mundo, que a direita atual é proibicionista, invertendo os papéis e dinâmica histórica.


O grande problema, na análise cultural e social contemporânea, é a ausência de leituras de múltiplos grupos através de uma imersão antropológica dentro deles. Além de uma leitura plurissistemática e plurideológica. Se isso for feito, as dinâmicas culturais se tornam mais compreensíveis e as fraquezas internas se tornam mais visualizáveis. A seitização do debate faz com que os oponentes sejam mais fracos em suas posições dentro da guerra política.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Acabo de ler "The Rise of Populism" de Stephen Bannon e David Frum (lido em inglês)

 



Nome:

The Rise of Populism


Debatedores:

Stephen K. Bannon

David Frum


Intermediador:

Rudyard Griffiths


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX

Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtu.be/3nXt2YXrOL4?si=s4N355iN3YCmZ_V5

Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Li esse livro enquanto ficava jogando vinho seco no sorvete e tomando repetidos banhos gelados por causa do calor. Quando fui para praia, acreditei que daria uma folga a minha cabecinha depressiva, mas, na verdade, mergulhei-me em uma série de reflexões e em uma série de leituras. Acho que um grande problema que tenho é esse... eu nunca paro.


Esse livro é bem impressionante, o debate em si é bem impressionante. Usualmente a mídia pinta uma imagem inculta do Bannon, quando vi esse debate, percebi que ele tinha uma intelectualidade mais vibrante do que eu imaginava. David Frum é um "novo conhecido" do blogspot, visto que analisei um livro dele recentemente.


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Bannon, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/06/acabo-de-ler-devils-bargain-de-joshua.html


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Frum, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/acabo-de-ler-trumpocracy-de-david-frum.html?m=1


Creio que essas duas figuras são extremamente interessantes. Um faz parte do MAGA (Bannon). Outro faz parte do Never Trump (Frum). Podemos dizer que os dois são conservadores, mas vão em linhas bem opostas. Se Bannon crê no futuro do populismo como uma tática boa, Frum crê que o anti-populismo é o melhor caminho.


David Frum ataca o trumpismo e o MAGA várias vezes, colocando múltiplas vezes como um movimento autocrático, cleptocrático e corrupto. Bannon, múltiplas vezes, diz que é claramente um antifascista, que o movimento MAGA não se importa com cor, sexualidade, gênero, mas com cidadania, além de evitar qualquer coligação com o nacionalismo branco.


Os dois tiveram um desempenho intelectual extremamente ímpar nesse debate. Múltiplas vezes vi Frum ser elogioso para com a administração Obama, além de citar uma série de dados sobre os governos de Bush, Obama e Trump comparativamente. Bannon tomou vantagem nas partes em que dizia que o movimento republicano antigo não ganhava voto e nem tração. Frum rebateu citando dados demográficos, coligando a imagem pública antimigração com a perda de votos futuros graças as políticas de Trump.


Menção especial: Jair Messias Bolsonaro foi mencionado por Bannon e Frum. Além disso, outros presidentes de ligação ao conservadorismo populista foram mencionados.


Creio que muitas pessoas, em todo o Brasil, não sabem as diferenças entre as linhas conservadoras nos Estados Unidos e, por tal razão, acreditam que é tudo a mesma coisa. Quando lemos livros como esses, vemos que nada é tão simples quanto parece. A diferença entre os conservadores são gigantescas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Trumpocracy" de David Frum (lido em inglês)

 



- Livro:

Trumpocracy: the corruption of the American Republic


- Autor:

David Frum


— Considerações sobre a escrita:


Creio que venho me tornado um autor mais lento. Não sei se é o peso da idade. Antigamente era mais apressado. Atualmente gosto de ler e reler, escrever e reescrever. Gosto de revisitar certas coisas também.


O motivo de eu ter inaugurado o "Memórias Cadávericas" foi o fato de que tenho tomado um cuidado maior com os meus escritos, mas ainda sim trazer novos conteúdos. O "Memórias Cadavéricas" permite conteúdo rápido, visto que pego textos pequenos e relanço de forma expandida. Já os conteúdos que requerem maior análise, como as análises de livros, sigo o esquema de escrever, ler, reescrever e ler de novo. A série principal de análise de livros e artigos acadêmicos segue intacta.


Tenho escrito uma série de textos, já em inglês, a respeito das guerras meméticas e suas táticas. Gosto de diversificar o que escrevo. A abordagem que sigo no Medium e no Blogspot são diferentes. Sei que são dois públicos distintos.


Anteriormente escrevia tudo em uma tacada só. Atualmente não faço mais isso. Como uso o blogspot como um armazenamento da minha memória intelectual, acabo por crer que a melhor forma de agir é sempre possibilitar que eu tenha um acervo grande de textos para sempre usar quando for necessário.


Faço isso pois não quero jogar o jogo moderno. As pessoas esperam acelerar o nosso raciocínio para torná-lo frágil. Querem que tomemos reflexões cada vez mais curtas e decisões cada vez mais rápidas. Isso gera grande parte da adesão a discursos fáceis e não embasado em dados sérios. A reflexão deve ser lenta, ela deve digerir os dados e absorver os nutrientes da informação para gerar compreensão. Múltiplas vezes, a pesquisa é substituída pela adesão grupalista a ideias prontas.


O populismo do mundo moderno, sobretudo no Ocidente moderno, é fruto de um despreparo educacional da população. Uma população que pouco lê e o que lê é ligado a uma lógica grupal, acaba por estudar pouco os múltiplos pontos necessários antes da tomada de uma decisão. O populismo que ameaça o futuro ocidental é fruto do abandono educacional que foi dada as populações.


Infelizmente, grande parte da educação midiática que deveria ser dada, dificilmente será disposta para a população. Muito pelo contrário, a guerra fria civil muito provavelmente aumentará e todo fragmento informacional será grupalizado e posto como bala dentro de metralhadoras giratórias da guerra informacional.


Estudar mais, escrever vagarosamente e refletir abundantemente é um antídoto e uma vacina ao moderno tempo. O primeiro passo para fugir do populismo é sair da corrida, caminhar devagar e ver que os corredores estão esbarrando em tudo visto que querem tomar decisões em tempo recorde.


— Irrevogavelmente pessoal:


As análises vem trazido um tom mais pessoal. A resposta para tal condição é simples: sempre me vi como um marginal dentro do cenário intelectual. Não gosto de escrever em terceira pessoa, sinto-me mais impactado quando escrevo em primeira pessoa.


Para mim, a vida intelectual se manifesta por uma intimidade. Estudo pois amo estudar. Não é por diploma (ou validade institucional formal), não é por consagração social. É por um simples amor a vida de estudos. Nunca ganhei "grana" alguma por ser um intelectual. Do mesmo modo, nunca tive que fazer alguma aliança que comprometesse a liberdade analítica que hoje disponho.


É por essa razão que o número de visualizações do blogspot sempre foi, na melhor das hipóteses, tíbio ou baixo. O blogspot Cadáver Minimal existe mais por uma birra minha do que por qualquer outra coisa. Você não vê gente anunciando nada aqui por conta disso. Do mesmo modo, não sou benquisto nem pela esquerda e nem pela direita. O que me surpreende é o fato de às vezes eu ter oitocentos leitores em um único dia.


Além disso, escrever em primeiro pessoa me ajuda a perceber "onde estou" dentro do problema todo. Ao me ver no quadro, vejo que não sou só uma vítima ou um narrador onisciente, mas também, e em grande parte, culpado pelo o que ocorre. A escrita adquire um tom confessionalista e expurga os pecados da alma.


— O que vem me levado até aqui?


No presente momento, as pessoas vêm me dito: "Gabriel, você escreve muito a respeito dos Estados Unidos". De fato, tenho escrito muito a respeito dos Estados Unidos. 


Essa estranha obsessão surge por causa da época transição da hegemonia americana para a hegemonia chinesa. Quero compreender o que está levando os Estados Unidos a decaírem e o que está levando a China a crescer. Além disso, há o chamado "Project 2025", um tema de amplo debate global.


Muitos pesquisadores brasileiros vêm trazido as suas reflexões a respeito disso. Poucos são os que leram os conservadores antitrumpistas. Isso é uma coisa que me traz um certo cansaço para com o debate brasileiro: esquerdistas só leem esquerdistas, direitistas só leem direitistas. É tedioso e enfadonho.


Sim, eu quero entender o que está rolando. Quero entender onde os Estados Unidos estão indo. Ler todas essas pessoas faz parte disso. Preciso entender o que está levando a queda da hegemonia americana, isso traz uma grande lição política. Se não estudarmos isso, enquanto brasileiros, corremos risco de seguir políticas que naufragam o país graças a um modelo que está falindo.


— O estranhamento com a política:


Tenho a vantagem de ser solitário. Amizades corroem a vida intelectual na medida em que impedem as pessoas de fazerem certas investigações e tomarem outras posições na medida em que precisam agradar as suas alianças.


Decisões cada vez mais absurdas, menos baseadas em dados e menos baseadas em estudos. Um afastamento cada vez maior da academia do restante da população. Junto a isso, o apelo popular de políticos antiacadêmicos e anti-intelectuais.


A democracia é o poder popular ou o consentimento da população. Todavia há uma questão: pode o poder ou o consentimento popular estar acima da própria necessidade de uma boa gestão baseada em dados e estudos? Se a população é cada vez menos educada, maior é a possibilidade dela votar e consentir ser governada por políticos "fanfarrônicos" que possuem um forte desprezo pelo letramento. Não só isso, movemo-nos a uma grande época de rupturas institucionais constantes.


O ódio aos especialistas, aos acadêmicos e aos intelectuais condecorado lado a lado com a expansão de teorias conspiratórias como armas políticas se tornou uma constante histórica. Muitos buscam posar de "anti-establishment" para conseguirem atenção popular. A imagem do "sou contra tudo o que está aí" leva a ascensão contínua de autocratas no mundo inteiro.


Nossa vida política não está ligada na expansão de obras de longo prazo, mas na caça de pautas identitárias que surgem como cortina de fumaça. Uma das maiores é o reforço crescente a masculinidade e a feminilidade tradicional. Poderíamos ter passado tempo pensando a respeito da alfabetização, saneamento básico e ferrovias, mas estamos pensando no reforço aos padrões de gênero.


Além disso, devo somar que a tribalização da política leva a uma rigidez de pensamento cada vez maior. Nada é questionado, tudo deve ser enquadrado em uma construção doutrinária-identitária onde pautas são vistas em preto e branco. Logo as políticas não são pensadas de acordo com uma análise sistemática de múltiplos modelos, mas sim em qual "time" estamos jogando e qual é o nosso grau de fidelidade para esse time. 


— Era da Informação:


Um dos grandes erros que as pessoas possuem em relação a era da informação é que a "era da informação" é, por si mesma, a era da "boa informação". A era da informação é, nada mais, nada menos, a era da divulgação de qualquer informação com mais facilidade, pouco importando a qualidade dela.


A questão é: o que aparece com mais facilidade? Informações mais facilmente digeríveis, com retórica simples e narrativas fáceis, ou informações de alta complexidade que requerem uma série de estudos prévios? Esse é um dos motivos pelos quais memes usualmente tomam espaço gigantesco na estrutura narrativa moderna.


O trumpismo e o bolsonarismo, diga-se de passagem, gozam de uma ampla estrutura memética e de um amplo uso de táticas de guerra memética. O meme é facilmente reproduzível, diga-se de passagem. Para a maioria das pessoas, é mais fácil ter uma escolha simples. O meme simplifica.


Essa questão de simplicidade e complexidade sempre abarca o debate público moderno. Tudo deve ser fácil para ser democrático ou deveríamos pedir para que as pessoas se esforcem mais? É estranho como os eventos são. A direita, usualmente vinculada a mentalidade mais meritocrática, utiliza mais amplamente a guerra memética para gerar uma aproximação popular e facilitar o entendimento das suas mensagens. A esquerda, mais naturalmente vinculada a mentalidade mais popular, tenta se vincular a um pensamento crítico (naturalmente mais complexo).


1. Mais pensamento crítico = mais complexidade = elitização da mensagem;

2. Mais memética = menos complexidade da mensagem = mais popularização da mensagem.


Estratégias não são tão simples de entender. E a disposição dos grupos usualmente está mais em "ir com o grupo" do que em uma fidelidade a um aspecto ideológico/doutrinário primário. Primeiro vem o movimento do grupo, depois vem a adaptação intelectual que justifica o movimento do grupo. O livro "The Myth of Left and Right" de Verlan Lewis e Hyrum Lewis explica bem isso.


— O que poderia servir para parar movimentos populistas?


Creio que algo que poderia servir como grande freio seria a leitura e reflexão. Imagino que um brasileiro que constantemente lê e estuda múltiplos livros, com múltiplas lógicas e linhas distintas, é mais capaz de perceber quais políticas são mais necessárias para o bem comum do Brasil. Do mesmo modo, o mesmo é válido para o americano.


Ler múltiplas fontes intelectuais distintas permite uma depuração da informação e capacidade de raciocinar através de múltiplos exemplos. Isso permite pensar sobre "o que eu exatamente concordo ou discordo?". É preciso largar a paixão dos automatismos mentais. Visto que isso leva a um enfraquecimento da capacidade de percepção.


A China consta com uma educação pública cada vez mais forte e bem estabelecida. Enquanto isso, a população dos Estados Unidos conta com uma educação cada vez pior. Fora isso, quem se arrisca a estudar ganha uma enorme dívida estudantil, que é um fator desmotivador.


Quando as pessoas aparecem sendo "pró-China" ou "pró-Estados Unidos", pergunto-me: "você é a favor do quê?". A mesma questão me aparece em relação quem é contra a China ou contra os Estados Unidos: "você é contra o quê?". Em qual parte a pessoa é a favor e em qual parte a pessoa é contra. Isso é importante. Outra coisa importante é saber que nossas opiniões individuais não impactam nos regimes de outros países.


Por exemplo:


- Você é contra a engenharia chinesa?

- Você é contra o churrasco texano?

- Você é contra o modelo educacional americano? Em qual parte?

- Você é contra a culinária chinesa?

- Você é contra a arquitetura americana?

- Você é contra os jogos de videogames chineses?


É evidente que existem, em todos os países, coisas que podemos gostar, amar, odiar ou ser completamente indiferentes. Um sujeito pode ter um Windows (sistema operacional americano produzido pela Microsoft) e jogar Genshin Impact (jogo RPG chinês produzido miHoYo).


O que eu quero dizer é que: não se trata de ser contra ou a favor da China ou dos Estados Unidos, mas equilibradamente pontuar o que gostamos ou não gostamos sem automatismos tribalizados. Não somos uma torcida organizada, somos um país diverso e plural que pode e deve ser aberto para o mundo e se beneficiar do que o mundo tem a nos oferecer.


— Oposição a China:


Grande parte do trumpismo se direciona numa oposição a China. A decadência americana é muitas vezes encarada com um pessimismo simplificador. Em vez de um pessimismo que se recolhe e pergunta "onde eu errei?", há sempre um escape que pode ser feito.


Teorias da conspiração usualmente aparecem como formas de dar uma "simplificada" em acontecimentos complexos. Elas aparecem como um círculo perfeito de culpados pelas crises que se anunciam. A percepção da realidade é, muitas vezes, densa e cheia de erros. Nunca captamos a sua inteireza. Além disso, é mais fácil culpar fatores externos do que a nós mesmos.


É interessante observar como os Estados Unidos impacta o Brasil. Vários brasileiros não só se opõem a China de forma irrefletida, como não estudam as políticas públicas que lá foram usadas. Que importa se uma política bem sucedida seja chinesa, vietnamita, americana, russa, inglesa ou francesa? É preciso olhar para todos os quadros, pegar o que é bom e traduzir para a realidade nacional. Hoje em dia, a China é uma excelente referência em planejamento a longo prazo e poderíamos aprender, e muito, com os chineses.  Não só isso, nosso país é parceiro da China, visto que fazemos parte do BRICS.


A China deveria ser mais lida e mais estudada. Hoje em dia ela vem apresentado grandes avanços que dificilmente serão contidos pelas forças narrativistas. Qualquer um pode ver o milagre da engenharia e arquitetura chinesa. Muitas vezes vejo ingleses e americanos comentando acerca da beleza das cidades chinesas. Não só isso, hoje a China não é só mais a "fábrica do mundo", ela também é o laboratório do mundo, com avanços significativos até em áreas antigamente dominadas por americanos. Nunca canso de avisar isso, embora avise com grande frequência, deveríamos estudar mais a forma com que a China brilhantemente faz planos de longo prazo. 


Muitos dos nossos políticos estão brigando com a China para favorecer interesses de outros países em detrimento dos interesses nacionais. Isso é péssimo para o crescimento do país. Podemos ter críticas ao governo Lula, mas é certo que precisamos olhar mais atenciosamente para NIB (Nova Indústria Brasil). Além disso, o projeto da Ferrovia Bioceânica demonstra que a China é uma forte aliada na infraestrutura nacional. A China tem um importante "know how". Ela tem sido, apesar das visões de múltiplas pessoas, uma aliada enorme. É válido sempre recordar: somos membros do BRICS. 


O que eu entendo é: eu não preciso concordar ou discordar de assuntos internos dos Estados Unidos, China, Rússia, Índia, França, Reino Unido ou qualquer outro país. O que eu preciso ver é o que é melhor para meu país. Bolsonaristas usualmente apelam para "os interesses do Ocidente", mas os interesses dos diversos países ocidentais, em suas diversas diversidades, não podem ser resumidos aos interesses dos Estados Unidos. Exemplo disso é a quantidade de vezes em que a União Europeia se contrapôs as decisões americanas. Um exemplo cabal disso foi a criação do euro que se contrapôs ao dólar.


O Brasil é, por exemplo, um dos líderes mundiais na exportação de comida halal (comida permitida pela lei islâmica). O alienamento e a separação do Brasil dos países islâmicos em prol dos interesses americanos — e também os interesses geopolíticos de Israel — não seria benéfico ao nosso país. Do mesmo modo, exportamos muita soja para a China, para quem o nosso agronegócio exportaria se brigamos com a China em prol do interesse americano? As pessoas que adoram o agronegócio nacional, muitas vezes identificadas com a direita, esquecem-se que uma das nossas maiores compradoras é a China. Além disso, sem países islâmicos, para onde venderíamos a comida halal? Precisamos ter em mente quais são os reais objetivos estratégicos do nosso país.


— Plagiar os Estados Unidos (inclusive em seus defeitos):


A guerra fria civil, que sempre vem acompanhada de boas doses de guerra cultural, vem servido para seitizar e emburrecer o debate público brasileiro. Pesquisas enormes já demonstram a capacidade da mídia em gerar percepções paralelas na qual não se predomina o pensamento crítico e o distanciamento necessário, mas sim a narrativa coletiva que se escolherá como filtro perceptivo para cada fato (ou literal mentira) que se acreditará. 


Grande parte do debate público brasileiro é marcado pela absoluta inépcia de se ter um quadro amplo de referências de todos os quadros. Exemplo disso é ausência de estudo em relação a tradição conservadora Red Tory. Num país onde a desigualdade predomina absurdamente, a tradição conservadora Red Tory possibilitaria um anteparo aos mais pobres e quebraria a noção de que a direita não liga pro pobre. A tradição conservadora Red Tory apresenta suas diferenças nas matrizes do Reino Unido e do Canadá, mas dariam um bom oxigênio ao debate da direita brasileira e do debate brasileiro como um todo.


A grande questão que se apresenta diante de nós é a de um conhecimento mais robusto das tradições conservadoras. Os Estados Unidos construíram uma série de institutos e centros de formação mais conservadores, o que favoreceu o desenvolvimento de uma direita mais letrada e capaz de se lidar com os problemas nacionais. Os conservadores estão acostumados a lerem uma série de livros e pesquisas.


Posso elencar algumas:

- The Heritage Foundation;

- Hillsdale College;

- Hoover Institution;

- American Compass;

- Intercollegiate Studies Institute.


Para termos uma noção disso, basta olhar qualquer episódio do "Uncommon Knowledge" e comparar com qualquer discurso da direita nacional. A disparidade de nível intelectual é absurda. Não há, no Brasil, uma preocupação tão alta de gerar conservadores fortemente letrados. Além disso, o movimento conservador brasileiro poderia ser descrito como Blue Tory, neoconservador ou conservatário em poucos casos. Outras referências e tradições intelectuais conservadoras são massivamente ignoradas.


Conservadores, não raro, orgulham-se de ter um número cada vez maior de jovens de direita. Todavia não se perguntam qual a qualidade formativa desses jovens. Políticas reais devem ser embaladas em estudos, em dados, em produção acadêmica séria. Uma geração de "jovens conservadores" pode ser um desastre se não existir uma formação e cultura acadêmica necessária. Para se estar preparado para os problemas nacionais é preciso de gente que estude e tente resolver os problemas nacionais através de políticas públicas orientadas por dados concretos.


Há no debate conservador brasileiro uma ausência de abertura para outras vertentes conservadoras não americanas. Um dos maiores descasos da nossa direita é a falta de pessoas falando sobre a tradição Red Tory em sua versão inglesa e canadense. Esse empobrecimento termina levando a uma perda de qualidade em nossa compreensão das várias vertentes do conservadorismo.


— Por que tantos brasileiros são trumpistas?


Leio e assisto bastante o debate americano. Tendo uma boa leitura de democratas, republicanos, conservadores e liberais, uma grande pergunta que sempre vem é: por qual razão tantos brasileiros são trumpistas?


Qualquer um que tenha lido conservadores como David Frum, Stuart Stevens, Christopher Buckley e Rick Wilson sabe que Trump não é um consenso nem entre os meios conservadores. O brasileiro, em grande parte, não sabe ler em inglês. Duvido que muitos brasileiros se dediquem ao estudo do debate público americano.


Creio que o que leva o brasileiro a ser trumpista é esse:

Trump = é de direita = é bom.

(O mesmo poderia ser aplicado a grande parte dos antitrumpistas [Trump = é de direita = é mau]).


Um grande questionamento deveria surgir: a direita apresenta múltiplas escolas de pensamento. Um Red Tory não quer o mesmo nível de intervenção estatal do que um Blue Tory, na verdade, ele quer mais intervenção estatal. Do mesmo modo, um paleoconservador não é tão semelhante a um neoconservador, eles são muitas vezes rivais. Conservadores reaganianos muitas vezes se oporam aos conservadores trumpistas em múltiplos casos. Não raro, institutos conservadores americanos divergem entre si.


Trump não é uma unanimidade na direita americana. O fato é: as políticas econômicas de Donald Trump, a sua geopolítica e a sua geoeconomia, aceleram a queda da hegemonia americana e levam a corrosão do império americano. Isso poderia ser motivo suficiente para a esquerda, usualmente antiamericana, ser pró-Trump e a direita, usualmente pró-americana, ser anti-Trump. Só lembrarmos que de janeiro a novembro de 2025, a China registrou um superávit de 1 trilhão de dólares graças ao desastre geopolítico e geoeconômico que está sendo o governo Trump.


Grande parte da comoção pró-americana recente se dá pela aliança histórica que os Estados Unidos construíram com atores que se posicionassem contra a União Soviética durante o período da primeira guerra fria. Ser pró-americano e ser de direita foi algo que foi colocado como natural, óbvio e intríseco. O oposto também era verdadeiro, se a direita apoiava os Estados Unidos (e o regime capitalista), a esquerda apoiava a União Soviética (e o regime socialista). Múltiplos setores da direita profissional — isto é, não meros militantes que não possuem vínculos reais — buscam uma aliança com os Estados Unidos, ou a aparência de uma aliança, para projetar na imaginação pública o antigo cenário da primeira guerra fria. Do mesmo modo, especulam que isso pode dar uma potencial ajuda americana quanto aos seus (potenciais) projetos de poder.


Podemos dizer que o "bloco ocidental" e capitalista, por assim dizer, ainda assume grande importância. Se de fato vivemos na segunda guerra fria, a questão é mais sobre uma ordem multipolar contra uma ordem unipolar. O Brasil, ao integrar o BRICS, faz mais parte do lado multipolar. O bloco multipolar, por sua vez, não é um bloco que é "socialista", mas daqueles que querem uma gestão global pautada em uma maior igualdade entre as nações e, até mesmo, uma maior soberania dos países em correlação aos seus interesses internos (como qual sistema político e econômico adotam ou querem adotar).


Muitas vezes, o brasileiro tem em conta que os democratas estão mais próximos da esquerda e os republicanos mais próximos da direita. O que leva a um adesismo quase automático. Se o brasileiro for de direita, torna-se automaticamente a favor dos republicanos. Se o brasileiro for de esquerda, torna-se automaticamente a favor dos democratas. Essa análise política simplória ignora que existem profundas divisões na política americana, seja na esquerda, no centro e na direita. Além disso, some ao fato de que a esquerda e a direita de lá possuem uma formação e uma forma de agir diferentes das nossas.


O que o brasileiro de direita usualmente não conseguiria explicar é o carnaval de conservadores antitrumpistas. Usualmente o conservador brasileiro segue a tendência que está em voga e aplica sem se questionar as múltiplas variações que existem no conservadorismo americano.


— Um olhar cauteloso para a informação:


O Brasil tem pouco cuidado com as informações. Muitas críticas contra países aliados (como os membros do BRICS), países muito semelhantes a nós (como os países latino americanos) e tantos outros, estão sendo rotineiramente atacados com base em exercícios livres de xenofobia recreativa por interesses políticos excusos.


Vivemos em uma época em que a guerra informacional não é algo episódico, mas cotidiano. Na época da quinta geração de guerra, todo campo é campo de guerra. Uma atenção mais prolongada as múltiplas narrativas e as suas origens não é só uma questão de estudo, mas também de segurança nacional.


Múltiplos países vêm lidado com diferentes guerras informacionais. Essa questão não é uma grande novidade para europeus, russos, chineses, americanos ou canadenses. O Brasil parece estar atrás nessa questão. O que deixa a gente mais vulnerável a todo tipo de ataque. Qualquer tipo de regulamentação parece soar como um ultraje a chamada "liberdade de expressão". Todavia essa "liberdade de expressão" não deveria acolher fábricas de troll ou países estrangeiros manipulando a percepção pública.


Nos Estados Unidos, já é sintomático o poder midiático alternativo. No Brasil, tal tendência está apenas a crescer. O número de seitas disfarçadas de veículos midíatico alternativos ainda não pipocou o suficiente, mas é evidente que o poder público e a opinião pública não estão maduros o suficiente para se lidarem com elas.


O ódio direcionado a estrangeiros ou outros países está aumentando. O ódio entre diferentes regiões do país também. Nos Estados Unidos, as diferenças culturais e as mudanças demográficas são consideradas assustadoras por alguns (e isso foi um fator decisivo para a vitória de Donald Trump).


Quando as pessoas entenderem que a guerra fria civil não é uma única, mas múltiplas, podemos compreender melhor o que nos divide. No Brasil, a guerra fria civil adquire várias expressões. Posso citar algumas:


1. Ideológica: briga entre diferentes grupos de esquerda e direita;

2. Religiosa: briga entre diferentes religiões;

3. Regional: briga entre diferentes partes do Brasil;

4. Geopolítica: briga entre quais são os reais aliados do Brasil;

5. Gênero: a disparidade entre as visões de homens e mulheres;

7. Cultural: o que é percebido como uma cultura de esquerda e de direita;

8. Midiática: alinhamento dos diferentes setores da mídia.


O apaziguamento nacional parece estar distante. Muito pelo contrário, estamos radicalizando a nossa guerra fria civil lado a lado com os americanos.


— Um olhar para o futuro:


Não quis voltar aos mesmos pontos das análises anteriores, visto que seria fazer mais do mesmo. Vocês muito provavelmente leram as duas análises que fiz do Rick Wilson e do Stuart Stevens. Muito provavelmente leram as análises que fiz do Kevin Roberts e Charlie Kirk. Vocês muito provavelmente leram as análises que fiz do Christopher Buckley. Também escrevi análises a  respeito de obras de Mencius Moldbug e Nick Land. Quis voltar meus olhos ao Brasil enquanto lia esse livro para dar um senso de complementaridade e sair da rotina.


Estamos apenas no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, segundo o Project 2025 Observer, o Project 2025 já foi 50% implementado. Nada, por enquanto, indica que a situação será melhor em 2026. Mesmo com o trumpismo aparentemente tendo rompido com o bolsonarismo. O fato da agenda do Project 2025 ter continuado em voga enquanto quase ninguém a olha é a prova disso.


Os Estados Unidos, em sua posição de perda hegemônica, apresenta muitas lições tristes para todos nós. Devemos olhar mais cautelosamente o que ocorre por lá e impedir o mesmo movimento aqui. Sei que isso pode soar chato e que os ânimos estão fervendo, mas chegou a hora de parar isso e chegarmos a uma reconciliação nacional em prol de um Brasil mais maduro e preparado para a arena do século XXI.


Estamos em ondas de ataques revisionistas, revisões evidentes na institucionalidade, ódio em múltiplos grupos, guerras frias civis em multissetoriais. Passando pano para grupos de esquerda e de direita que vivem a base de odiar um ao outro em vez de compreender um ao outro.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Acabo de ler "Running Against the Devil" de Rick Wilson (lido em Inglês)

 



Livro:

Running Against the Devil: a plot to save America from Trump — and Democrats from themselves


Autor:

Rick Wilson


Faz bastante tempo que digo que leio Rick Wilson. E, de fato, ele é uma pessoa extremamente interessante de se ler. Ele é um ex-estrategista republicano e um conservador, isso chama bastante atenção. Há, também, outro denso fato: Rick Wilson é engraçadíssimo. Ele consegue amontoar referências, construções intelectuais extremamente elaboradas e piadas que aparecem magicamente para tornar a leitura saborosa. Isso é um talento intelectual raro.


Um dos maiores encantamentos desse livro é: "como um dos maiores estrategistas republicanos de todos os tempos ajudou na derrota de Trump em 2020?". Esse livro nos dá várias pistas sobre o assunto. Ele foi uma espécie de guia interno do castelo draculariano (fãs do Castlevania vão sacar essa) do inimigo. 


Falar de um conservador antitrumpista (ou antibolsonarista) é como falar de um Atari Jaguar: pouca gente conhece e quem conhece não jogou e nem jogaria. É algo que afasta os direitistas que vivem na miséria dos bandos, mas também é algo que afasta os esquerdistas que, por sua vez, entrelaçam-se no gozo cósmico do próprio universo.


Quem é Rick Wilson? Ele é o estrategista no exílio. Ele vive numa irônica tragédia: a de um arquiteto do moderno Partido Republicano usando o próprio conhecimento íntimo para desmontar a própria criação. Isso é uma missão que é vista como uma traição necessária. O que gera uma dúvida: para Rick Wilson, o Partido Republicano traiu os ideais sólidos do conservadorismo. Para múltiplos republicanos e conservadores, foi o Rick Wilson que traiu. As questões que podemos ter são:

1. Quem é o herege?

2. Quem é o ortodoxo?

3. Quem é o iconoclasta?

4. Isso realmente importa?


Enquanto escrevo percebo o quão engraçadas as coisas são. Terminei de ler "Running Against the Devil" recentemente. E agora já estou lendo "Trumpocracy" do conservador antitrumpista David Frum. Isso talvez possa soar monótono, não é? Leio vários conservadores antitrumpistas, um atrás do outro. Faço isso pois aprender sobre a política americana é sempre delicioso. Além disso, me encanta a forma que os conservadores americanos escrevem. Eles são mais parecidos comigo. Ao menos é isso que sinto enquanto leio.


Muitas pessoas, sobretudo bolsonaristas, compreendem muito pouco sobre Trump. Petistas sabem um pouco mais, mas quando chegamos em tópicos mais obscuros como "Project 2025", "Network Propaganda" e "Cold Civil War" (guerra fria civil)... eles se perdem todinhos. De qualquer forma, sou eu e a minha solidão. Pessoas não me acompanham em nenhum raciocínio. Isso não tem a ver com inteligência, tem a ver com universo compartilhado. Estou condenado a ler o que ninguém lê, estudar o que ninguém estuda, e, por fim, escrever o que ninguém lerá. Um ciclo tragicamente repetitivo em minha vida.


Pensei em dois livros enquanto lia esse livro: "American Psychosis" (de David J. Morris) e "Network Propaganda" (que vou ter o prazer de ler posteriormente), esses dois livros demonstram  como ecossistemas midiáticos fechados criam realidades alternativas. Isso não é no sentido puramente mágico de criar um novo universo, mas no sentido de criar uma percepção alternativa da realidade. Como conservador, valorizo a realidade concreta e a prudência. É por isso que me oponho a esse movimento. Esse movimento que aparece, dia após dia e crescentemente, abraçando teorias conspiratórias me parece antitético com o conservadorismo. Ao mesmo tempo que cheira mofo e enxofre.


Aqui está uma das marcas maiores que essa leitura me passou. Quando li Rick Wilson, senti solidão. Rick Wilson está afastado do partido que ajudou a construir. Pior do que isso, está a colaborar com os seus antigos rivais em prol de um objetivo maior. Penso nível de tensão psicológica que ele tinha quando escreveu isso e penso no tipo de tensão psicológica que eu sinto diante da minha solidão e isolamento constante.


Quando você está sempre com uma nova pesquisa em mente, a solidão sempre te acompanha. Eu tento sair desse vazio que me acompanha. Eu tento. Tento de novo. Todavia sou sempre engolido pelo meu desejo artístico de inovação. Quanto mais tento chegar em caminhos que ninguém chegou antes, mais eu vejo que estou irremediavelmente só. Quanto mais eu lia esse livro, mais o abismo me olhava com um gosto de Nietzsche. Rick Wilson deve ter sentido isso, vendo-se incompreendido pelos mesmos republicanos que eram seus amigos. Christopher Buckley deve ter sentido o mesmo, mas só que bem antes. Se bem que ele esteve envolvido em "polêmicas" por causa do livro "Make Russia Great Again".


Tenho tomado um outro ponto de distância daa outras pessoas. Explico: muita gente costuma a olhar para essa mudança política como se a prática política mesma estivesse ficando mais agressiva, mas há algo de substancialmente errado nessa análise ou visão. O que estamos vendo na política não é, pura e simplesmente, um aumento da agressividade na chamada prática política. Há um outro fator: esse é o da seitização crescente da política. Tal como no livro "American Psychosis", o que eu vejo não é apenas um simples aumento de agressividade, mas sim uma psicotização massiva da política e um número cada vez maior de teorias da conspiração circulando pela internet. Rick Wilson já escreveu sobre isso no "Everything Trump Touches Dies", um outro clássico do conservadorismo antitrumpista.


Outra condição vem aparecido dentro de mim. Essa é a condição de uma pergunta. E a pergunta que ressoou em minha mente podia ser descrita como uma união de duas perguntas:

— Quem eu sou e por qual razão ninguém está do meu lado?


Aqui volto a analisar o conservador antitrumpista. Sociologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito isolado. Psicologicamente, o conservador antitrumpista é um sujeito que vive numa vida dupla: salvar o legado do seu movimento ao mesmo tempo que é acusado de traidor. Penso que o conservador antibolsonarista tem uma luta similar. É como dizer: "ei, grande parte do movimento é um punhado de conspiracionistas, racistas, machistas, misóginos, simpatizantes do fascismo e do nazismo... mas eu não sou como os outros rapazes!". Ou, quem sabe, uma formulação assim: "vocês que não entenderam a essência mesma do movimento conservador, pouco importando que eu seja a menor minoria dentro desse estranho movimento que foi apossado por conspiracionistas e criptofascistas!".


Lembro-me dos meus anos iniciais lendo Luiz Felipe Pondé e Nelson Rodrigues, tal como se eu devorasse pedaços mágicos de carne literária. Eu finalmente podia ver um rigor de um pessimismo, ceticismo, pragmatismo e prudência. Todos articulados de forma dançante. Aquela sensação fantástica rimava como uma risada na estrutura psicológica de toda a minha alma. Naquele instante, eu não me sentia só. Tudo parecia se encaixar. Quando leio esses grandes conservadores, posso ainda sentir o mesmo. Quando eu vejo os conservadores populistas, sinto um misto de nojo e repulsa. Menos, é claro, do ilustre Kevin Roberts (presidente da Heritage Foundation). Posso compreender parte das suas conclusões, mas não consigo concordar com todas elas.


Lembro-me que fui adolescente bastante festivo, mas extremamente solitário. Estive em vários eventos, porém a constante era a sensação de que nada e nem ninguém podia compreender a forma insólita que eu via o mundo. Encontrei em Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Luiz Felipe Pondé uma espécie de escritura pessimista, mas que via visceralmente bem a alma humana, de um modo que, ao menos inicialmente, nem podia conjecturar. Eu podia ler Karl Marx, Bakunin, Proudhon, Kroptokin, Montesquieu, mas não encontrava neles tudo o que rimava com minha rima. O estado de empolgação, ou ressonância de alma, não era o mesmo.


O problema que eu tenho com o bolsonarismo e o trumpismo é que eles transformam o conservadorismo em uma terra de slogans e de identidade tribal. Eu, como conservador, sou profundamente pessimista quanto a natureza humana — inclusive contra a minha própria natureza. Não sou do tipo que odeia tudo menos a si mesmo. Eu sou do tipo que odeia tudo inclusive a mim mesmo. Do mesmo modo, sou cético quanto a utopias. Porém ainda sou capaz de rir de toda a tragédia que estou acometido. O bolsonarismo e o trumpismo substituíram a ironia pela raiva, o ceticismo pela certeza dogmática e o nuance pelo maniqueísmo. Isso profunda e extremamente anticonservador. É como se todas as virtudes cardiais do conservadorismo fossem, da noite para o dia, invertidas em prol de mundo invertido que se constrói tal como o castelo reverso do Castlevania Symphony of the Night.


Como esse texto aborda identidade, volto-me para minhas memórias. Nos anos da minha adolescência, tudo borbulhava. O conservadorismo ia lado a lado com minha vida festiva. Tentava me encaixar em grupos progressistas devido a minha bissexualidade... Não me encaixava de modo algum. Pergunto-me hoje se Bruno Tolentino, esse bissexual libertino e conservador, não sentia o mesmo deslocamento. De qualquer modo, não havia ali, naquele momento de minha adolescência, um movimento de massas que poderia ser dito "conservador". O problema inicial é que: naquele momento, era um senso comum entre os conservadores que o movimento de massas era naturalmente emburrecedor e desindividualizador. Quando esse movimento de massas, dito conservador, surgiu com a face do trumpismo e do bolsonarismo, comecei a achar estranho. Pensei que todos os outros sentiriam o mesmo. A maior parte não sentiu absolutamente nada. Anos depois, já na vida adulta, comecei a ler Christopher Buckley, Christopher Lasch, Rick Wilson, Stuart Stevens e, nesse momento, David Frum. Agora vejo que eles veem o que eu vejo, agora sei que eu não fui o único que vi essa monstrificação que aparece no Carnaval do Populismo.


Essa é uma das principais lições do livro do Rick Wilson: o conservadorismo antitrumpista e antibolsonarista não é antitrumpista e antibolsonarista no sentido de ser um anticonservadorismo, mas no sentido exato de ser conservadorismo. É precisamente por ser antitrumpista e antibolsonarista que é verdadeiramente conservador.


Voltando aos fragmentos do passado. Da adolescência à vida adulta, continuei um bissexual festivo. Sempre escrevi um amontoado de coisa. Todavia a solidão continuou a minha marca permanente. Nunca consigo dizer o que realmente penso. As pessoas simplesmente não entendem ou não me acompanham. Para ser mais preciso, quanto mais leio e quanto mais escrevo, mais solitário eu me sinto. Ler e estudar é aumento de complexidade e aumento de complexidade carrega consigo o deslocamento social. É por isso que eu não creio muito nessa história de "intelectual popular". Quanto mais ideias você estuda, quanto mais ideias você internaliza, menos você é compreendido pelas outras pessoas. Rick Wilson não é compreendido pelos trumpistas pelo fato de ser fácil e acessível, mas sim pelo fato de ser mais complexo. Ele não se enquadra na odisséia do fanatismo e reducionismo.


É por causa de minha vivência que carrego comigo a certeza íntima de que há algo além nesses conservadores antitrumpistas. Não acho que o Stuart Stevens, Christopher Buckley, Rick Wilson ou David Frum não sejam mais conservadores. Acho que eles são conservadores extremamente complexos. Eles escrevem, poucos os entendem e, no fim, resta-lhes tão apenas o deslocamento.


Hoje em dia, eu posso dizer que sinto um imenso descolamento cognitivo do debate público brasileiro. Gosto de ver, por algum acaso, o Pedro Daher (um socialista) e o Rasta News (um humorista da Brasil Paralelo). Já na mídia americana, vejo Second Tought, um marxista finíssimo. Man Carrying Things é bom, cético e irônico. Content Machine também é engraçado. Sei que isso soa contraditório: vejo e leio de tudo. Foi assim que aprendi a pensar. Acontece que eu gosto de absorver múltiplos pontos antes de ter um posicionamento oficial. Leio jornais bem raramente, visto que sou mais atado aos bons e velhos livros.


Creio que todos têm sentido isso: é uma questão de crise de identidade e de lealdade. O "movimento" foi tomado por uma onda irracional, emocional e conspiratória. Ainda sou fiel à liberdade individual, ainda sou cético em relação a mudanças radicais, ainda creio no pragmatismo. Não acredito e não aceito culto a um líder, negacionismo factual e mitologia política. Por tal razão, estou duplamente alienado: os meus supostos pares me odeiam e do mesmo modo não estou próximo do campo oposto.


Sempre vi no conservadorismo uma defesa da racionalidade contra o irracionalismo coletivo. A solidão não é um acidente biográfico, é uma consequência lógica da complexidade.


Achar maneiras de combater a moderna manipulação digital é uma das preocupações mais urgentes da modernidade. Estamos indo a pontos de manipulações cada vez mais complexas e dificilmente captadas pelos métodos defensicos atuais. E é exatamente nisso que eu tenho trabalhado.