A CULTURA CHANNER SÓ EXISTE POR CONTA DO ERRO DA ESQUERDA
Essa alegação segue muito a lógica rodriguena. Isto é, afirma o absurdo para chamar a atenção e, por fim, chegar ao óbvio ululante que ninguém quer ver ou olhar por meio das suas análises.
Em 2013, a esquerda tinha o mundo nas mãos. Podia olhar pro movimento dos cinquenta centavos dentro da lógica esquerdista, isto é, da luta de classes. O movimento que pedia transporte público padrão fifa (primeiro mundo) foi encarado como direitista.
A esquerda podia encarar o movimento como "esquerda indie". Em vez disso, acusou a luta de ser reacionária. Naquele momento, a esquerda (por meio do PT) estava no poder e grande parte de uma geração que defendia transporte público de graça que poderia ser identificada como de esquerda — lembre-se do bordão: público, gratuito e de qualidade —, foi para direita magicamente e por vingança.
Digo isso por "eu mesmo". Eu tentei ser de esquerda. Sabe o que me disseram? "Só aceitamos os alunos das melhores universidades aqui", foi o que me disseram. Eu estava no ensino médio. Naquele momento, eu decidi ir pra uma faculdade particular e nunca pisar numa faculdade pública.
No mesmo ano, vários dos possíveis futuros membros da esquerda entraram em faculdades públicas. Sabe o que a esquerda fez depois de ter atacado até os black blocs (anarquistas radicais) como se eles fossem parte da extrema-direita? Chamou todos (que se manifestavam pelo transporte público) de extrema-direita (como sempre fez). Só que ali, durante as humilhações diárias, cresceu o movimento anti-esquerdista. É disso que surge parte do MBL: abandonados pela esquerda, decidem ir para direita.
A esquerda:
1. Atacou a própria esquerda;
2. Atacou quem estava ainda meio confuso ou que estava se encaminhando pra direita.
Mais tarde, a própria direita atacaria membros da direita que queriam o impeachment da Dilma. Esse ataque, vindo do próprio Olavo de Carvalho, gerou o ressentimento que o MBL (e depois o partido Missão) teriam pelos olavistas. A traição começa pela esquerda e depois vai pela própria direita, surgindo o meme "vocês traíram a lava jato e traíram a lava toga" (principal acusação do MBL contra o bolsonarismo/olavismo), mas essa não é a questão principal desse tópico.
Se a esquerda tivesse apoiado a luta pró-transporte público de graça, nada disso teria acontecido. Como a esquerda, sobretudo o petismo, traiu a própria POSSÍVEL base, o MBL pôde se alavancar em sua vingança.
Eu fui um dos múltiplos jovens que a esquerda poderia cooptar, mas a esquerda simplesmente ignorou por não ser "bom o suficiente" ou por não concordar o suficiente — o governismo, isto é, o governo sem freios Ideológicos, criou uma narrativa. Essa mesma narrativa chamou de "tucana" e "neoliberal" uma luta que era, propriamente, de esquerda.
A esquerda era, até então, associada com a revolução e com a revolta. Com o movimento catraca livre, a esquerda era o establishment (sobretudo na era da olimpíadas e da copa). Foi nessa época, precisamente, que o politicamente incorreto passou a lucrar como posição anti-establishment.
A cultura channer brasileira, que até então apoiava a esquerda indie (não me lembro de do PSTU ou do PCO), passa a forçar Bolsonaro como anti-establishment. Não por erro da própria direita (que lucrou com o ressentimento), mas por erro da própria esquerda.
