Sou suspeito para falar dessa música. Gosto mais da versão da Evinha. Acho Beto Guedes um gênio, mas seriamente prefiro a versão da Evinha. A poeticidade duas únicas frases alteram tudo. Tenho uma interpretação bastante pessoal dela. De modo que a experiência psicológica e aquilo que quero expressar epistemologicamente se confundem.
Lembro-me das noções de hegemonia de Gramsci, das noções de performática de Judith Butler, das noções de "meios de produção cultural" de Raymond Williams. Fora isso, lembro-me da palestra da Heritage Foundation sobre "cold civil war" (guerra fria civil). Durante anos de guerra fria civil, guerra cultural e todas as distinções que vêm surgindo, pude encarar essa música várias vezes nos mais diversos ângulos, seja mais à esquerda ou mais à direita. A ideia de "Catedral" do Mencius Moldbug também dialoga com a ideia dos meios de produção cultural e do domínio da cultura. Quanto ao mundo, vale a regra de Tears for Fears: "Everybody Wants to Rule the World".
"Tua cor é o que eles olham
Velha chaga
Teu sorriso é o que eles temem
Medo, medo"
A música começa falando sobre o racismo. O racismo não é tratado como um ferida cicatrizada, mas como algo que ainda existe dentro do corpo social. Depois disso, existe a noção de que o sorriso da pessoa marginalizada traz suspeita social. Ou seja, não só o marginalizado ainda sofre, como a sua felicidade também é objeto de escrutínio social negativo.
O medo não é só da sociedade, que aparece com seus tabus. Existe também um medo interno, um medo internalizado que falsifica a sua expressividade enquanto ser e que gera nele uma incapacidade. Ou, de outro modo, gera um desenvolvimento de gradação. Naquilo que é tolhido, ele expressa menos ou falsifica a própria experiência.
"Feira moderna
O convite sensual
Oh, telefonista
Se a palavra já morreu
O meu coração é velho
O meu coração é morto
E eu nem li o jornal
E eu nem li o jornal"
Repare que, na versão de Beto Guedes, existe o fato de que o cantor diz "O meu coração é novo! O meu coração é novo". Na versão de Evinha, vemos um "O meu coração é velho! O meu coração é morto!". Essa alteração gera uma melancolia profunda, mas o seu resultado lírico é extremamente belo. Isso não é pura estética, é alteração do regime emocional da música. Existe a troca da "estrutura de esperança", vista em Beto Guedes, para a "estrutura de esgotamento", isso gera uma alteração substancial na psicologia da música.
A "feira moderna" é o "tribunal social", isto é, aquela noção de que somos julgados pela sociedade. A feira também é o espetáculo, a exposição, o consumo e a troca dentro de um mercado de identidades. É um espaço onde as pessoas são vistas, avaliadas e consumidas simbolicamente. A ideia de constante julgamento social leva o indivíduo a decair na idolatria social, isto é, substituir a totalidade pelo endeusamento dos julgos e mandamentos do corpo social. Todavia esse julgamento aqui não é algo complexo, mas superficial. Aqui, a autencidade e sinceridade são substituídas pela aceitação das regras socialmente estabelecidas, mesmo que essas não venham a ser normas jurídicas propriamente ditas.
Quando a pessoa liga para se comunicar, ela sente que a palavra já morreu. Não é um sentido literal de que a pessoa está sem palavras, mas que por sua invalidação social é incapaz de se comunicar adequadamente. Mesmo em um período de alta comunicação, permanecemos incomunicáveis perante o julgo do corpo social. A tecnologia avança, mas a possibilidade de falar ainda é reservada a poucos. Quando existem normas sociais, essas normas tornam-se condições que aprioristicamente determinam o que pode ser discursado ou não, o que pode ser expresso ou não, a isso chamamos de normatividade.
Dessa experiência auto-anulatória, surgirá a impressão de que se está morto. Viver é expressão, impossibilidade de expressar-se é interpretado psicologicamente como uma forma de morte. Ler o jornal seria ler os meios de comunicação social, mas os meios de comunicação social são determinados pelo discurso hegemônico. Isso dialogará simultaneamente com a alienação (Karl Marx), reconhecimento (Hegel) e performatividade (Butler).
"Nessa caverna
O convite é igual
Oh telefonista
Se a distância já morreu
Independência ou morte!
Descansa em berço forte
A paz na Terra, amém
A paz na Terra
Independência ou morte
Descansa em berço forte
A paz na Terra, amém
A paz na Terra, amén
Amén"
O trecho "nessa caverna" é interessantíssimo. Lembra-me o "Mito da Caverna". O corpo social é um local de ilusão, tal como existe uma distinção entre o "mundo das ideias" com seus arquétipos perfeitos e o "mundo real" com suas cópias imperfeitas, existe uma distinção entre as idealizações dos múltiplos indivíduos do corpo social e o mundo real onde quase ninguém se adequa perfeitamente a norma social. A idealização de um, sobretudo a idealização mais socialmente aceita, levará a falsificação do outro, levando a uma expressão menor do seu ser. A caverna pode ser interpretada também não como uma ilusão metafísica, mas como um ambiente social fechado de reprodução de normas. Tal noção aproximar-se-á da noção de "hegemonia" (Gramsci) e de normatividade (Butler).
O "convite" é sempre igual: a adequação à norma social. Mudam-se as normas, já que existe uma condição espaço-temporal, mas permance o imperativo da normatividade. Perante o imperativo da normatividade, a distância já morreu: a norma social é imposta, mesmo que não seja uma norma jurídica. Em outras palavras, existe uma redução jurídica e uma redução sociológica, imposta pelos próprios ritos do corpo social.
"Independência ou morte" e "paz na Terra", por sua vez, pode ser interpretada de várias formas (além de uma dessas ser referência a frase de Dom Pedro I):
1- Como adequação ao império da normatividade;
2- Como piada a esse aspecto;
3- Como desejo de morrer apenas para ser livre para não se adaptar;
4- A vontade de ser independe e livre.
A música "Feira Moderna" possibilita uma experiência subjetiva dentro do campo da disputa cultural. Isto é, podemos ver a hegemonia de Gramsci, a performatividade de Judith Butler, os meios de produção cultural de Raymond Williams, a guerra fria civil da Heritage Foundation, a Catedral de Mencius Moldbug... podemos ver, resumidamente, a vontade universal do poder cultural. Essa música representa, para mim, a experiência de um sujeito cuja subjetividade é progressivamente anulada por normas sociais internalizadas, levando à incomunicabilidade, à perda de vitalidade e a sensação de morte simbólica.














