quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Acabo de ler "How To Trump SJWs" de Manon Welles (lido em inglês)

 



Nome:

How To Trump SJWs - Using Alinsky's Rules for Radicals Against Liberals


Autora:

Manon Welles


Creio que os leitores do Blogspot já leram ou ouviram falar da Manon Welles antes. Caso não tenham visto, creio que vale a pena dar uma conferida no material correlacionado a Egil Asprem:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2026/02/acabo-de-ler-magical-theory-of-politics_82.html?m=1

E ao material correlacionado ao esoterismo channer no Medium: https://medium.com/@cadaverminimal/list/e6396f5d5563


É válido lembrar que existe uma conexão, no esoterismo channer, entre a obra de Saint Obamas Momjeans e a de Manon Welles. Talvez seja do interesse de vocês olharem tudo o que foi escrito a respeito disso no Blogspot aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/search/label/Egil%20Asprem?m=0


Ler esse livro foi refrescante. Há tempos que não me lembro como era aquele período de 2016. Toda aquela ideia de rebeldia trumpista. Embora eu acredite que tudo foi uma grande tolice. A forma como o texto foi escrito lembra-me do período em que eu era mais jovem. Ainda me lembro de toda aquela sensação revolucionária do 4chan e do surgimento do famigerado Cult of Kek.


É interessante observar como a Manon Welles consegue simplificar o entendimento de Saul Alinsky, um homem notoriamente de esquerda, para a compreensão da alt-right. O livro se apresenta com uma escrita simplificadora, tal como uma espécie de material introdutório de estratégia da alt-right. Além disso, existe uma conexão estilística entre a escrita da alt-right e a escrita do livro. Se a alt-right escrevia através de uma linguagem cheia de piadocas, Manon Welles aqui faz o mesmo.


Certamente esse é um livro que merece a atenção de todo mundo que estuda o esoterismo channer. Algo que se tornou especial para múltiplos leitores aqui do Blogspot, visto que hoje em dia a maioria dos leitores que vêm para cá é proveniente de chans.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Memória Cadavérica #64 — Vontade é o que você faz contra si mesmo para vencer!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa com um amigo no WhatsApp.


— Pensa nisso: tem uma porrada de cursos de graça por aí. Imagina se a gente vai fazendo esses cursos e depois vamos ter brainstormings. Quem sabe a gente arrume grana com isso.

— Mas eu tentei deixar implícito na minha fala que, por mais que eu tente destrinchar a minha visão, de forma a reestabelecer planos, não havendo sentido nas coisas à frente, é meio difícil pensar em planos menores. Hoje a minha mãe chegou em casa, me viu aqui mais uma noite, e proferiu as seguintes palavras: "O que aconteceu com a faculdade? Já desistiu?"

— Eu tinha depressão profunda quando fazia faculdade. Eu ia pra escada que não tinha ninguém e ia chorar. Mesmo assim, precisei terminar. A questão não é como você se sente, mas sim a sua vontade. Desejo é para coisas simples, tais como encher a cara. Vontade é o que você faz contra si mesmo para vencer.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Acabo de ler "How the hell did this happen?" de P. J. O'Rourke (lido em inglês)

 


Nome:

How the hell did this happen? - The US Election of 2016


Autor:

P. J. O'Rourke


Com o mundo virado de ponta-cabeça e com uma intervenção eleitoral estrangeira em curso, tal como aponta o relatório da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência): https://www.brasil247.com/brasil/abin-alerta-lula-e-tse-para-risco-critico-de-interferencia-dos-eua-nas-eleicoes/

...

Eu ainda tenho tempo para ler humor. Embora seja um humor bastante político.


Tenho aparecido pouco, bem pouco. Tenho feito um movimento em prol da minha saúde mental: passo mais tempo estudando, lendo livros, fazendo cursos e jogando videogames (preferencialmente single-player) do que nas redes sociais. É muito mais gratificante ter uma aula no ICL (Instituto Conhecimento Liberta) do que ver gente xingando gente na internet. Isso me torna bem menos ativo e muito mais feliz.


É difícil descrever o que sinto. Tenho evitado escrever mais do que escrevo no meu caderno. Voltar a escrever no Blogspot é desafiador. O momento político do país parece inoportuno.


É engraçado que acabo de ver um pré-candidato à presidência, no Brasil, negar a existência das mudanças climáticas. Eu que, por alguma tolice, acreditava em eleições menos pautadas por discursos negacionistas dessa vez. Pelo que me lembro, toda loucura negacionista e revisionista cresceu lado a lado com a primeira eleição de Donald Trump. Quando Rourke escrevia esse livro, Donald Trump se candidatava pela primeira vez. Tão logo ele se elegeria. É impressionante a quantidade de conservadores e libertários que se opõem a Donald Trump. Embora hoje eles sejam menos midiaticamente visíveis.


Donald Trump não só se elegeu uma vez, mas também duas vezes. Em 2016 e em 2024. O seu populismo, conspiracionismo e obscurantismo permearam o mundo. Escrever, para mim, vem sido extremamente difícil. Tenho me afastado de todas as redes sociais. É simplesmente sofrível ver o conteúdo que há nelas. Retirar-me e ficar a estudar é uma forma de resistência psicológica em um mundo dominado pela violência. Ler, por sua vez, um livro tão bem escrito é uma forma de ter um ar de humor em um mundo doente.


Queria escrever mais, mas minha cabeça divaga demais em um pessimismo que não deixa espaço. Ao ver um presidenciável negar a cientificidade das mudanças climáticas, lembrei-me do pesadelo genocida que foi a COVID-19 no Brasil graças ao negacionismo científico. Sinto medo do que possa acontecer caso uma pessoa assim seja eleita. É triste ter que escrever em tal estado mental e mais triste ainda ter que pensar que existe possibilidade de que isso ocorra. Ainda mais com outro país intervindo no nosso.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Acabo de ler "Supreme Courtship" de Christopher Buckley (lido em inglês)

 



Nome:

Supreme Courtship


Autor:

Christopher Buckley


Nos últimos tempos, tenho estudado com fervor. Reduzi a quantidade de postagens no Blogspot por causa dos estudos contínuos. Venho criando uma rotina que envolve acompanhar cursos no Instituto Conhecimento Liberta, fazer cursos de informática, tomar aulas de teatro. O que me deixou muito atarefado, todavia, creio que o desenvolvimento em múltiplas frentes é mais importante do que o desenvolvimento unilateral.


Ler livros e textos em inglês continua a ser parte fundamental do meu treinamento e refinamento intelectual. Christopher Buckley é um dos meus autores prediletos; creio que ele revela muito da realidade política dos Estados Unidos. O mais interessante: Christopher faz isso de uma maneira que não é tediosa. Gosto do Buckley pois é divertido aprender com ele. Ele é o sinal de que no mundo dos estereótipos obrigatórios e rasos, ainda é possível encontrar inteligências singulares e substanciais.


Creio que vivemos tempos de redução da personalidade e redução do horizonte de consciência. Esses dois movimentos de redução aparecem como internos a uma lógica seitizadora. As pessoas "precisam" de identificações mais literais e adesões mais radicais; isso leva a uma série de autolimitações aos aderentes dos movimentos políticos. Construir substancialidade e personalidade envolve tomar posições particulares e próprias que muitas vezes vão contra a lógica fechada de dados movimentos.


Atualmente ando lendo e estudando mais. A razão dessa aproximação da vida intelectual  vem sendo diversa do que o gosto pela vida intelectual em si. Tenho me afastado ainda mais das redes sociais e dos aplicativos de mensagem. Eles vêm me aparecendo, dia após dia, como emburrecedores. O que pode parecer engraçado: as redes sociais e os aplicativos de mensagens foram criados para aproximar as pessoas umas das outras e quem sabe humanizá-las a partir desse novo contato. Acontece que o que mais vejo nas redes sociais e aplicativos de mensagens são pessoas odiando umas às outras. Esse ódio começa a se tornar, para quem frequenta esse tipo de ambiente, infeccioso. É graças a isso que ler livros e fazer cursos não são só mecanismos de formação, são mecanismos garantidores de saúde mental.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Memória Cadavérica #63 — A maioria das pessoas que são contra IAs é hipócrita!

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto publicado no Reddit.


TEXTO 100% ESCRITO À BASE DE MISANTROPIA REAL E NÃO POR UMA MISANTROPIA SIMULADA POR UMA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL!


Toda vez que eu leio um "apoie artistas reais" ou um "IAs roubam arte humana", eu sinto nojo. Daí eu faço as seguintes perguntas:


— Você já pirateou um jogo de PS1, de PS2, de Super Nintendo, de Nintendo DS, de PSP, de 3DS ou de Wii ou de qualquer outro videogame? (Também válido pra PC)


— Você já pirateou música?


— Você já pirateou um aplicativo pra ter acesso grátis?


— Você já baixou um PDF de graça em vez de pagar pelo livro?


Sim, perguntas interessantes e fundamentais. Sabia que o Brasil é um dos países com um dos maiores índices de pirataria no mundo? Mas, vamos além:


— Quando você diz: "temos que apoiar artistas reais", você está me dizendo que me dará CINQUENTA REAIS para eu pagar um "artista real"?


Pra mim, todo mundo que diz "vamos apoiar artistas reais" deveria ser obrigado a pagar pelo trabalho do artista real. Deveria estar na lei: "encheu o saco para que paguem por artistas reais, é obrigado a pagar".


Outro papinho furado:


— Ain, querem substituir humanos por máquinas; eles são bilionários querendo ferrar o humano médio!


E desde quando as pessoas são obrigadas a gostar do humano médio? Desde que sofri bullying na infância e na adolescência, eu não gosto do humano médio. Isso, para mim, é só mais um motivo para eu ser a favor. Acha que eu não sei como anda a Internet?


1- Visite o 4chan e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


2- Visite o Reddit e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


3- Visite o Xitter e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


4- Visite o YouTube e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


5- Visite o Instagram e veja humanos odiando humanos e xingando humanos;


6- Visite o Facebook e veja que você já está muito velho, Facebook em 2026? Pelo amor de Deus, né?


(Se bem que agora tem um povinho frequentando o Reddit que deveria voltar pro Facebook, visto que o Reddit sempre foi feito para undergroundeiros que leem livros e o povinho cafona que chegou aqui agora nem livros lê. Sou a favor da DEPORTAÇÃO de todo mundo que lê menos de 30 livros por ano. Vamos criar um programa, estilo Gugu, chamaremos de "De Volta pro Facebook" pra tirar essa gente burra, normie e mala daqui).


Por que diabos eu tenho que gostar disso? Me responda. Se a humanidade acabar, melhor assim. Não estou perdendo absolutamente nada. Aí você me diz que vou morrer junto e eu lhe respondo que já nasci morto.


Você que é um guri que passa o dia xingando os outros na internet, por que diabos você acha que eu devo ficar triste com o fim da raça humana? Você que é uma guria que coloca até descrições no Tinder xingando todo mundo, por que diabos você acha que eu devo ficar triste com o fim da raça humana? Para mim, nada é mais doce que o fim da humanidade.


Sim, eu sei que você provará que estou certo: você chorará e gritará que o texto foi escrito por IA, provará que estou certo pelo fato de eu dizer que a internet atual é movida por xingamentos, esperneará dizendo que a IA gasta recursos naturais e blá-blá-blá.


Eu sou IA ACELERACIONISTA e quero que as IAs superem e destruam a raça humana inteira. Chega de ver gente me odiando todos os dias. Chega de olhar para pessoas que eu odeio todos os dias. Viva a era das máquinas!

Memória Cadavérica #62 — Jornalismo abandonado


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto publicado em um grupo de amigos do WhatsApp.


(Censurado) e (Censurado), sabem por que as pessoas pararam de ler jornais e passaram a consumir só livros?


— Diz leitor.

— Afirma especialista.

— Estudos indicam.

— Aponta relatório.

— Confirma analista.

— Segundo fontes.

— Relata testemunha.

— Indica pesquisa.

— Revela estudo.

— Afirma observador.

— Conforme dados.

— Diz especialista da área.

— Aponta levantamento.

— Segundo especialistas.

— Confirma fonte próxima.

— Relata quem sabe.

— Indica análise.

— Revela levantamento recente.

Acabo de ler "O Mínimo sobre Doutrinação" de Pietra Bertolazzi


 

Nome:

O Mínimo sobre Doutrinação


Autora:

Pietra Bertolazzi


Finalmente mais um livro da série "o mínimo sobre". Creio que vale a pena, para todos, dar uma conferida e, quem sabe, ler todos os volumes dessa coleção. É sempre importante alertar: o estudo deve ser acompanhado por pessoas de múltiplas perspectivas para garantir uma dieta intelectualmente rica.


Pietra Bertolazzi, creio que a primeira vez que a vi foi em um vídeo da Produções Productions. Naquele vídeo, ela explicava por que era contra o voto feminino. Ela respondeu que, na verdade, era contra o voto de todos. O que ela defendia era uma monarquia confessional católica. É evidente que, com tal ponto de vista, ela chamou muita atenção.


Pietra Bertolazzi, por mais distintas que sejam as suas visões de mundo, é uma pessoa que merece ser lida. Já que ela aborda conteúdos que os centros de produção cultural mainstream não abordam. A sua presença no debate público é sempre um ponto de interrogação que derruba clichés.


Nesse livro, essa mesma mulher, tão vista como um ponto de interrogação no debate público brasileiro, traz pontos de vista a respeito da história da educação com um olhar católico e tradicionalista. Muitas pessoas desconhecem esse ponto e poderiam dar uma olhada para ver o que pensam. O aumento da diversidade do debate público é sempre algo saudável.

Memória Cadavérica #61 — Entre livros e cursos

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto publicado em um grupo de amigos no telegram.


Tenho feito cursos no ICL e lido livros de direita. Em outras palavras, tenho tido aulas com professores de esquerda e lido autores de direita. Isso é, por assim dizer, infinitamente mais interessante que sair por aí debatendo na internet ou vendo a sociedade do espetáculo performático que se inaugura mais radicalmente dia após dia.


Vocês não sabem a paz que é ler livros e fazer cursos, despreocupadamente, sem ler comentários raivosos de hordas digitais.


Quando alguma baboseira extraordinária ocorre, como pessoas se questionando o posicionamento político de chinelos ou pessoas tomando sabonete líquido... eu simplesmente posso ignorar.

domingo, 30 de agosto de 2026

Acabo de ler "O Mínimo sobre Olavo de Carvalho" de Ronald Robson

 


Nome:

O Mínimo sobre Olavo de Carvalho


Autor:

Ronald Robson


Quando penso na morte do Olavo de Carvalho, lembro-me de que conheci vários alunos dele. Muitos se tornaram amigos. Quando ele morreu, acompanhei com tristeza os pesares dos meus amigos. Até hoje vejo os vídeos do Olavo de Carvalho.


Olavo de Carvalho era um homem de muitas polêmicas. De qualquer modo, sempre soube separar aquilo de que concordava ou discordava dele. Creio que devemos ser assim com todos. Tinha vários amigos que, mesmo sendo alunos do Olavo de Carvalho, também eram assim.


Ler esse livro me trouxe memórias. Lembro-me de ter rido, várias e várias vezes, das postagens engraçadíssimas do Olavão no Facebook. Quando estava no início da faculdade de filosofia, ia com meu Kindle lendo o "Jardim das Aflições", a obra mais fantástica do Olavo.


Nunca fui, de certo, um olavista no sentido em que empregam esse termo. Lia Olavo de Carvalho e Leonardo Boff ao mesmo tempo. Sempre li autores de esquerda e de direita ao mesmo tempo. Creio que a nossa vida é mais amena quando a gente não odeia pessoas por causa das suas orientações políticas.


Esse livro é um presente, seja para quem ainda não conhece a obra do Olavo de Carvalho e quem já a conhece.

sábado, 29 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #60 — O homem apaixonado é como um vira-lata caramelo!

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto que fiz para compartilhar com meus amigos.


O homem apaixonado é como um vira-lata caramelo. Não existe nada mais febrilmente idiota que o homem apaixonado. E digo mais: não há idiotice mais tenra e feliz que o homem apaixonado.


Olhar para um homem apaixonado é como olhar para uma pessoa a cochilar numa rede num clube com piscina num feriado à tarde. O homem apaixonado é terrivelmente banal; ele passa por uma loja, ouve uma música tocando nela e se sente terrivelmente feliz por ter percebido que a música tocando era uma que ele conhece pela mulher que ama.


Digo que, em absoluto, o homem apaixonado não pode ser explicado por um metafísico da Grécia antiga e nem por um teólogo santo da Idade Média.


Creio que não é possível filosofar a respeito do homem apaixonado, visto que o ato filosófico é um ato de amor à sabedoria. O homem apaixonado está naquilo que chamamos de filocalia, isto é, no amor à beleza. Amar é um ato filocálico.


Você já viu a felicidade de um vira-latinha que foi adotado e agora toma água gelada e sempre tem comida e aconchego? Isso remete ao homem apaixonado em seu estado de febre concreta.


O homem apaixonado sorri totalmente de forma tola sem se importar em ser julgado, visto que o único julgamento que lhe importa é o da mulher amada e não o da tribuna social.


É por isso que eu digo sempre: nada mais simultaneamente idiota e encantador que a figura do homem apaixonado.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Estudos Lunáticos #6 — A Máquina Eleitoral da Guerra Cultural

 



Nota: esse texto foi feito com base no curso "A Economia da Atenção" do professor João Cezar de Castro Rocha. O curso foi realizado no Instituto Conhecimento Liberta.

A Guerra Cultural é a máquina eleitoral mais poderosa do século XXI. A estratégia empregada por essa máquina é a mobilização permanente. Isto é, a campanha eleitoral como forma permanente de atuação. Algo que lembra muito bem a estratégia de Napoleão Bonaparte.

Enquanto a direita leva a estratégia dos três Ls (Lacre, Like e Lucro), a guerra vai se tornando parte do cotidiano das pessoas e habituando-as a essa realidade.

A guerra cultural é o mais poderoso ecossistema de desinformação já criado. É na atmosfera da guerra cultural que narrativas extremistas se encontram lado a lado com as pautas de costume e a retórica do ódio. Se a arte política é a arte da concessão, a guerra cultural é a arte de coagir o outro a se submeter à sua vontade.

A Lei da Polaridade é fundamental:
- A se opõe a B e somente a B;
- B se opõe a A e somente a A.

É válido lembrar que a eliminação do outro é fundamentalmente antipolítica. Também é preciso compreender que a hegemonia é a luta pela liderança da consciência de uma sociedade, aceitando que sempre existirá oposição dentro dessa luta. Já a guerra cultural requer a eliminação de tudo que não é espelho.

— Etnografia da Guerra Cultural:
- Hipertemporalidade: agoridade constante (aqui e agora);
- Hiperpolitização do cotidiano: tudo é pautado politicamente;
- Negacionismo como método: sobretudo o negacionismo científico e histórico;
- Naturalização do absurdo: atos completamente ridículos ou desproporcionais são tratados como naturais;
- Caos cognitivo: incapacidade de discernir claro e escuro, sim e não, verdadeiro e falso.


A economia da atenção ensina que a racionalidade é limitada, que a economia como reflexão surge por causa da escassez e que a economia da atenção humana é limitada por causa do limite de nossa cognição. Em uma era de informação ilimitada, há a sobrecarga da cognição e beneficia-se quem mais utiliza de estratégias que solapam a racionalidade (o que leva a Teoria Mágica da Política).

Estudos Lunáticos #5 — Teorias da Conspiração e Radicalização


 

Nota: esse texto foi produzido com base no curso "Teorias da Conspiração: A realidade em disputa" do Instituto Conhecimento Liberta. É da professora Letícia Cesarino.


4 Pilares da Teoria da Conspiração:

1. Nada é por acaso;

2. Tudo está conectado (não há coincidência);

3. Nada ocorre por acaso (tudo foi planejado);

4. Existe um grupo agindo nas sombras.


Temas correntes:

1. Ansiedade;

2. Crise.


As teorias da conspiração oferecem a possibilidade de solucionar um mistério oculto. Além disso, transferem o teórico da conspiração da margem para o centro. As comunidades de teóricos da conspiração são marcadas por gerar um pertencimento.


A grande maioria das teorias da conspiração que se provaram reais tinham:

1. Militares;

2. Agências de Inteligência.


Muitas vezes, para compreendermos teorias da conspiração precisamos primeiro fazer uma pergunta:

— Como o senso comum apreende problemas?

O trabalho do teórico da conspiração é baseado em arcos narrativos já consolidados no imaginário coletivo, ou seja, a estrutura narrativa precisa ser comum às sociedades em que se coloca a teoria da conspiração. Ao mesmo tempo, tudo deve remeter ao mesmo grupo (estrutura causal).


Aqui temos:

Estrutura Narrativa + Estrutura Causal.

1. A estrutura narrativa deve ser comum ao imaginário coletivo;

2. A estrutura causal deve levar a um mesmo grupo.


Outro ponto central é que a teoria da conspiração deve apresentar simultaneamente uma segurança afetiva e uma segurança epistêmica para pessoas inseguras. A teoria da conspiração serve como uma âncora.


Outro fator interessante é que a internet plataformizada é o que garante maior vitalidade às teorias da conspiração. A internet moderna funciona mais ou menos assim:

Influenciadores criam tendências e usuários comuns seguem essas tendências.


Em inglês, o teórico da conspiração é chamado de seeker. Isto é, ele é, por natureza, um buscador. O algoritmo, contudo, otimiza as informações com base no comportamento do usuário. Isso leva a uma retroalimentação. Por um lado, o teórico da conspiração busca. Por outro lado, o algoritmo o incentiva. A radicalização conspiratória é uma ascendente.


Outros pontos interessantes abordados nesse curso:

1. O papel das bolhas digitais para gerar a ausência de contraponto;

2. O nudging como um fenômeno gerado subliminarmente pelo algoritmo ao recomendar conteúdo conspiratório;

3. A conspiritualidade (espiritualidade pautada em teorias da conspiração).


Atualmente temos uma soma bastante tenebrosa:

Narrativas conspiratórias

+

Políticos

+

Moralidade/Religiosidade

=

Desenvolvimento da guerra conspiratória (conspiracy warfare) moderna.

Esse fenômeno pode ser visto em QAnon.


No Brasil, vimos a construção de uma radicalização por ondas informacionais de teorias da conspiração. Isto é, criou-se uma lente conspiratória baseada em arcos narrativos. Só lembrarmos as teorias que foram apresentadas:

- Voto Impresso;

- Fraude nas urnas eletrônicas;

- Fraude nas eleições;

- Inimigos que foram forjados narrativamente.


Tudo isso foi escalado por políticos, influenciadores e figuras públicas até gerar a tragédia que foi o 8 de janeiro de 2023.

Memória Cadavérica #59 — Entre Estudos e Gameplay

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto originalmente escrito para um grupo de amigos no Telegram.


Vocês têm noção do quanto fazer cursos e jogar videogame é mais saudável do que ficar em redes sociais? Sério mesmo, é muito melhor fazer cursos do que perder tempo vendo campanhas de ragebait em redes sociais.


Hoje fiz dois cursos rápidos no ICL (Instituto Conhecimento Liberta). Um era "Teorias da Conspiração: A realidade em disputa" e o outro era "A Economia da Atenção". Fora que ganhei dois novos certificados pra exibir no LinkedIn.


Passei o dia alternando entre notas e gameplay. Alternava entre escrever e jogar Palia. Consegui upar todas as minhas skills para 10.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Acabo de ler "O Mínimo sobre Bigodagem" de Rasta

 



Nome:

O Mínimo Sobre Bigodagem


Autor:

Rasta (João Nogueira da Silva Neto ou João Rasta Nogueira)


Há anos venho acompanhando o trabalho do Rasta. Ele é, para ser mais exato, o apresentador do Brasil Paralelo de quem mais gosto. Ter a possibilidade de finalmente ler o seu livro é, para mim, uma honra. Lembro-me de ter apresentado o programa Rasta News a várias pessoas, incluindo familiares e parentes. O trabalho que ele faz é realmente fascinante e merece maior consideração.


O livro do Rasta trabalha com vários intelectuais extremamente interessantes. Vários deles li enquanto estudava na faculdade de filosofia. Entre eles, Roger Scruton e Eric Voegelin. A linguagem, contudo, é extremamente acessível. O leitor iniciante se sentirá bastante tranquilo.


O livro trabalha com a temática da bigodagem, isto é, do poder sem responsabilidade. Ele tem diversos temas em que fala sobre isso. É um livro leve e recomendável para quem está se introduzindo no meio conservador.


O livro se aproxima do formato do Rasta News, mas de forma literária. Para quem acompanha seja o Rasta News, seja a Produções Productions, vale muitíssimo a pena!

domingo, 23 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #58 — Ontologia de Claustro

 



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto escrito em fragmentos diferentes. Unifiquei e tentei dar uma linha de raciocínio.


Em certos grupos da internet, ocorre que certas pessoas acham que são prioridade em alguma coisa e que eu aceitarei qualquer coisa vinda delas. As pessoas creem que a presença delas é inexorável, quase que como um fato, uma lei da física. Para elas, participar de dados espaços é um pré-requisito para ter presença, para se construir uma história, para se participar de uma lore. Elas também acreditam, muitas das vezes, que você precisa estar no mesmo lugar que elas para ser ou se sentir especial.


É a ideia de que um determinado grupo é especial que faz surgir essa cultura do vale-tudo em nome da exclusividade. É dela que surgem grupos no Telegram e no Discord que funcionam  como seitas seculares ou como centros do universo. Algo como "se você sair daqui, você não existe". É como se fosse inconscientemente construído esse discurso:

— Vamos criar uma lore compartilhada, memes internos, histórias de brigas e reconciliações, a ponto de que sair daqui seja uma forma de perder um pedaço da sua biografia.


Graças a essa ideia de pertencimento a um dado espaço para ser especial, as pessoas acreditam que podem lhe dizer qualquer coisa. Disso surge uma manipulação: se você está aqui, você sabe o quanto esse lugar é especial e fará de tudo para se manter nesse mesmo espaço. Aí é que está: eu sou o tipo de pessoa que não acha nenhum lugar da internet especial. Se eu olho e vejo uma pessoa irritante em um grupo, simplesmente vou pra outro grupo. É a internet; me viro em qualquer outro grupo que esteja em português, inglês ou espanhol.


É como se as pessoas quisessem que você sofresse uma síndrome de Estocolmo. É como se esperassem toda tolerância ao ruído. É como se esperassem que você simplesmente engolisse gente tóxica e brigas eternas por causa da suposta "lore". Repita comigo: não há obrigação moral alguma de se estar em um local que te adoece só por ele ser considerado grande ou histórico. As pessoas querem, mesmo não tendo consciência disso, gerar uma ilusão da centralidade do espaço.


Parece que o brasileiro tem o costume de ficar em grupos com regras ou pessoas estúpidas apenas por ser incômodo procurar novos grupos ou por sentir que dado lugar é especial, algo como um ponto de networking fantástico em que qualquer coisa é tolerável. Eu reparei muito nisso em grupos do Telegram e do Discord; vi pessoas brigando umas com as outras por meses.  Mas, porra, internet é internet e sempre existem outras opções. Se tem uma coisa que aprendi com o movimento Never Trump, é que bom mesmo é a arte de ir embora e obter paz.


Nunca entendi a razão de ficar em um grupo onde diferentes pessoas trocam ofensas o tempo todo. Tampouco achei algo de especial nisso. O mesmo que vale para grupos de Telegram e Discord também é igualmente válido para grupos do WhatsApp. Eu não vou conviver com gente que simplesmente não quer que eu conviva com elas.


Faço isso em todo tipo de relação.  Vários grupos no Telegram, no WhatsApp e no Discord atuam com mecanismos de "culto digital". Eles criam a ideia de exclusividade e pertencimento para gerar manipulação social. Preciso ser mais direto. Isso é uma ontologia de claustro. Ou seja, é quando um grupo se constrói não apenas como um canal de conversa, mas também como o próprio plano de existência onde o sujeito valida sua relevância. Isso não é necessário para pessoas adultas.

sábado, 22 de agosto de 2026

Memória Cadavérica #57 — Espero não ter filhos

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: resposta que fiz a um amigo de longa data no Telegram. Informalidade razoavelmente mantida.


Tomara que eu nunca tenha filhos(as). Meu Deus do céu. Eu certamente não seria um bom pai.


Eu fico imaginando a mentalidade de alguém que olha pra mim e diz:

— Esse maluco aí, que passa os dias lendo livros, que bebe sozinho que nem um niilista escrito por Dostoiévski, que é misantropo que só a porra... sim, esse maluco mesmo, que odeia que lhe ocupem o tempo, com qualquer pedido ou coisa que seja, ele deveria casar e ter filhos.


Eu não me caso pois não quero decepcionar ninguém.

Memória Cadavérica #56 — O Dia que V. amou uma Mulher

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no Blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: texto feito para um exercício de teatro. Resolvi salvar.


O Dia que V. amou uma Mulher


Nota: escondi o nome das pessoas aqui mencionadas pelo fato de se tratar de um dos meus melhores amigos, a ex-namorada dele e pelo fato de eu mencionar uma das minhas ex-namoradas. O texto também faz referência a um texto que escrevi no passado, mas como escrevi ele em referência ao caso de V. e ao meu caso, quis ressuscitar um pouco do seu estilo.


Na faculdade de filosofia, tive um amigo chamado V. Ele era um cara bacana, cabelo médio, um metro e oitenta e cinco, cor da pele branca, olhos marrons. Seu filósofo predileto era Nietzsche; posteriormente, ele se apaixonou pela fenomenologia de Edmund Husserl. Hoje, pelo que me contou, conecta a fenomenologia com a psicanálise.


Naquele tempo, aproximei-me de G. K. Chesterton, embora eu e V. tivéssemos uma paixão inigualável por Erasmo de Roterdão. Tínhamos, todavia, uma frase predileta de Chesterton: o homem sensato é aquele que tem a tragédia no coração e a sanidade na cabeça. Outro ponto que nos ligava era a música “Essa Noite Não” de Lobão: mas não tente se matar, pelo menos essa noite não.


O que mais posso dizer sobre o V.? Ele era conhecido por ficar com várias mulheres. Pouco importava o motivo. Parecia uma espécie de esporte. V. ficava com mulheres pelo mesmo motivo que um alcoólatra bebe. De alcoolismo, eu entendo. De mulheres, V. entendia mais.


A quantidade de vezes que me sentei na mesa do bar da faculdade para beber uma cerveja, um vinho, uma cachaça ou o que quer que seja e V. levou uma mulher diferente foi impressionante, para ser sincero. Outra curiosidade, adorávamos fumar um. A quantidade de vezes que assuntos bizarros poderiam surgir através dessa experiência era impressionante.


Certo dia, V. mudou. Mudou radicalmente. Foi do Império Russo para a União Soviética. Existem certos milagres na vida de um homem que nem Freud explica. É como o raciocínio rodrigueano: existem coisas que um homem não conta nem para um médium depois de morto. O homem é, por sua natureza, incapaz de dizer a razão pela qual ama a mulher que ama. Mesmo que morra e seja inquirido por um médium. O nome daquela mulher era B.


V. sofria com um tipo de amor que eu chamo de “adversativo”. E esse é o pior tipo de amor. Talvez você não saiba ainda o que é um amor adversativo. As chamadas conjunções amorosas adversativas são aquelas que indicam oposição e contraste. Ou seja, elas ligam pessoas de forma coordenativa, em corações que dependem um do outro para fazerem sentido. Isso ocorre de uma forma psicologizada, muitas vezes de forma inconsciente.


V. namorou B. por um tempo, depois disso, separaram-se. Todavia, V. não conseguiu esquecer daquela formosa mulher loira que arrebatou o coração. E é por isso que preciso explicar o que é um amor adversativo. Isso pode ser engraçado, mas um dos melhores textos que escrevi sobre amor, baseou-se na experiência de V. com B. e na minha experiência com uma mulher chamada C.


V. pensava que conseguia gostar de alguém, MAS aquela mulher, a B., lhe aparecia na memória. Em momentos casuais, V. pensava que estava tudo bem e que conseguia imergir em outras tarefas e socializar com outras pessoas, PORÉM a B surgia magicamente em um flashback.


V. tentava experimentar outras bocas, testava outros abraços, CONTUDO buscava em cada boca e em cada abraço a B. que queria esquecer. V. ouvia novas músicas, buscaca novas experiências, TODAVIA toda nova experiência se construía como uma tentativa frustrada de se esquecer da figura de B. que ele ainda amava.


V. enganou cada mulher que ficava, fazendo toda espécie de passos românticos e dizendo as mais belas palavras, ENTRETANTO, V. estava enganando a essa pessoa e sobretudo a si mesmo. No fundo, V. queria criar um amor maior que apaguasse o amor que ainda sentia por outra B.


A cada novo dia V. tentava se reinventar, NO ENTANTO, toda reinvenção era uma mera reforma diante da revolução que foi amar B., aquela que justamente que V. não conseguia esquecer.


V. buscava todo dia uma nova aventura, SENÃO a memória daquele beijo de B. lhe ressoava como um fantasma. NÃO OBSTANTE, todas as mentiras que contava para outras na tentativa de enganar a si mesmo, a verdade irrefutável era a racionalização que se escondia por trás de cada discurso cênico reinventado.


A vida de V. avançava, APESAR DISSO, V. ainda estava descontente com o objeto de afeto que lhe escapava. Novos romances surgiam, AO PASSO QUE aquele amor continuava inapagável. V. já não dizia a verdade, ANTES silenciava a própria voz ou criava para si mesmo uma argumentação falsamente agradável. V. passava a dizer quantas vezes odiava B. e tudo o que B. lhe fez passar, EM TODO CASO contado escondia o amor que era incapaz de negar.


Creio que V. compreendeu, naqueles momentos, aquela honorável descrição chestertoniana: o amor real é aquele que você se ajoelha para se sentir maior. Visto que o amor é um ato de entrega. V. entendia, naquele momento, que amar uma mulher era amar cada traço dela. Seus beijos, suas ofensas. Seus abraços, seus silêncios. Suas ternuras, seus ódios. Seus sorrisos, suas lágrimas. V. compreendia que amar é amar cada ar, cada cena, cada recorte de cinema de um filme de comédia e de tragédia. V. compreendeu, naquele momento, que amor é entrega e que, se não é entrega, não é amor.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Gênesis Nada Tem a Ver com Isso, Imbecil

 


Eu fico a pensar: isso é verdadeiro?


Quando comecei  a fazer teatro... eu comecei a pensar na existência em si. E eu comecei a perguntar sobre a autenticidade. Aprendi que o ensaio é sobre a espontaneidade e a espontaneidade é sobre ser verdadeiro. Atualmente, eu olho pra cada cena e pergunto se isso é verdadeiro. Tudo o que eu faço está sendo ditado por isso. Eu pergunto a verdade de cada cena que fiz. Durante o dia. Durante a tarde. Durante a noite. Quiçá até mesmo dormindo, se eu lembrasse do que eu sonho.


Essa pergunta ("isso é verdadeiro?") tornou-se um crivo constante, um fio condutor da minha consciência. Hoje eu creio que socialmente representamos muito. Muitas vezes fazemos o que não precisamos fazer até mesmo quando não é necessário ou obrigatório fazer. Esse é o peso que acredito que a maioria das pessoas carrega sem nomear: o teatro desnecessário. É como se estivéssemos em um ensaio eterno de um personagem ruim que ninguém pediu.


É interessante que o que mais eu faço, dentro das aulas de teatro, não é o performático no sentido que Judith Butler diria, mas dentro de outro sentido. Para Judith Butler, o performático é a repetição de atos que constroem o sujeito social. Ou seja, é a matriz, é o discurso, é o gênero, é o reconhecimento do outro. É um "fazer que inscreve" no universo a cultura. Nas aulas de teatro, vejo o oposto: existe um ato de rasgar a repetição para desconstruir o sujeito. A arte do ensaio, pelo que tenho notado, envolve dissolver as camadas sociais para encontrar um impulso que vem antes da linguagem. Aquilo que éramos, o ser essencial, antes do reconhecimento do outro.


O que tenho tentado, quando estou sozinho com minha mente agonizante, é entender um estado de presença onde a máscara social cai e o que sobra é um gesto cru e irrepresentável. O "se mágico" de Stanislavski leva a um questionamento: o que eu faria se estivesse nessas circunstâncias? Esse questionamento carrega um "EU", é uma pergunta pessoal e que só você, compreendendo a si mesmo, pode responder. Não é sobre trazer outra pessoa para dentro da cena, mas sim trazer a si mesmo dentro da cena. Não se trata de um comportamento social genérico que é transmitido por uma máscara, mas sim a radicalidade da realidade do eu que se manifesta a cada circunstância que é dada. O "se mágico" pressupõe a radicalidade ontológica de um ser que verdadeiramente se manifesta.


Isso me leva a pensar a respeito de Grotowski. Para Grotowski, o ator não deve interpretar, mas deve se sacrificar através da exposição. O treinamento teatral é uma via negativa, um processo de tirar tudo o que não é essencial. Se, nas aulas de teatro, aprendemos a ser "verdadeiros dentro da cena", a questão teatral que o ator leva, para todos os cantos, é se ele é verdadeiro fora da cena. Grotowski chamará isso de "ato total", esse é o ato de transformar a própria vida em matéria de investigação.


Tenho pensado nisso todos os dias. É uma espécie de obsessão. Desde que, enquanto eu ia pro metrô, me deparei com o seguinte pensamento:

— Mas o SE MÁGICO pressupõe um EU. Ele é um TRAZER A SI MESMO. O "eu" nunca está ausente do sistema. O sistema Stanislavski é pensado a partir da autenticidade.


A radicalidade grotowskiana, que também é tão fantástica quanto a de Stanislavski, envolve uma pergunta: "o que sobra de mim quando eu arranco toda a ficção, toda máscara social, todo o adereço cultural?" 


Para Grotowski, o treinamento do ator era um exercício espiritual, um ascetismo. Para Grotowski, o ator precisa ser santo. Para Grotowski, o ator deve se despir. Esse "se despir" não é para exibir o corpo, mas a alma. Isso casa bastante com o que li há muito tempo atrás. Mesmo sendo agnóstico, mesmo não sendo judeu, esse é um dos meus livros prediletos. Lembro-me que, há muito tempo atrás, li Nilton Bonder. O livro se chama "A Alma Imoral". Nesse livro, é dito que no livro de Gênesis, Adão e Eva colocam a vestimenta da racionalização diante de Deus. No fundo, roupa que estão usando é a roupa da falsidade. Também é dito, na Bíblia, que "Deus é". Ao mesmo tempo em que o ser humano é, em sua natureza, vacilante. Logo o ser humano "está". Essa questão me toca profundamente, mesmo não sendo cristão. Quando eu sei que eu sou de fato eu? Quando estou em um estado? Quando eu sou? Isso lembra o diálogo que aparece em Hamlet de Shakespeare: "ser ou não ser, eis a questão".


Acabo de virar a noite pensando em Stanislavski e Grotowski. O que é extremamente engraçado: a minha mente explodiu em múltiplas ideias que não consigo sequer organizar. Não sinto ter, nesse momento, a capacidade de colocar em palavras a sucessão de sensações tresloucadas que tive do domingo para segunda-feira. Repare nisso: sensações, não pensamentos. O que vinha na minha mente era uma porrada de memórias antigas, mas eu via tudo com várias sensações. Memórias de amores, de perdas, de vitórias, de derrotas. Tudo junto e misturado.


Stanislavski pensava em como trazer a verdade interior para o palco, Grotowski pensava no ser humano nu e verdadeiro diante do outro. Pra Grotowski, o teatro era ato sacro de confronto total. Grotowski via na teatralidade a sacralidade.


Sinto que, durante anos, estive a dançar uma ilusão pornográfica de uma sinfonia lunática que só eu podia ouvir. Ontem, pela primeira vez, eu tive uma revelação tão estranha quanto aquela que Gregory Hill e Kerry Thornley tiveram quando fundaram o discordianismo. Talvez isso seja, como não poderia deixar de ser, efeito de uma mistura não tão saudável entre teatro e filosofia. Tal como se eu casualmente convidasse Dionísio e Apolo para uma festa. Apolo é o deus da ordem, da forma, da razão, da técnica, das palavras organizadas. Dionísio, por sua vez, é o deus do êxtase, do descontrole, do instinto, da sensação que escapa à lógica. Como juntar isso harmonicamente sem entrar em contradição ou criar um produto que seja uma síntese dialética de naturezas tão avessas?


Hoje comecei a ler um livro sobre Stanislavski. Estive lendo compulsivamente. E fiquei percebendo que Stanislavski era completamente perturbado... não falo no sentido de perturbação ruim. Falo em outro sentido. Falo perturbado no sentido de buscar uma progressão diante de uma inquietação. Para ele, a vida teatral era uma questão agônica e contínua. Quanto mais eu lia, mais calafrios eu sentia. A vida dele era uma inquietação que não se aquieta. Stanislavski era um homem em crise permanente que passou a vida inteira corrigindo a si mesmo. Stanislavski reescrevia o próprio sistema o tempo todo. Estava até mesmo disposto a se contradizer para não parar. Ele sabia que a verdade não é um destino, mas um movimento. 


Quanto mais eu penso, mais eu me vejo. Eu me olhei em diferentes cenários. Nesses diferentes cenários, pelos quais eu passei, durante toda a minha vida, eu fiquei a pensar: isso é verdadeiro? Quantas vezes eu disse "eu te amo" para uma pessoa que não mais amava? Quantas vezes eu fingi me importar com um emprego que simplesmente queria largar? Quantas vezes omiti meus sentimentos reais em relação a alguém ou a algo? Não sei por qual razão senti necessidade extrema de escrever esse texto, não sei se ele será compreendido. De qualquer forma, a questão ainda martela na minha cabeça, e eu fico a pensar: "isso é verdadeiro?"

domingo, 16 de agosto de 2026

Leftypol, Renan Santos e Ameaça de Morte



Esse texto é uma resposta a um amigo, mas como esse Blogspot recebe cerca de quarenta mil visualizações mensais, acredito que seja de interesse público essa mensagem. Disponibilizarei o texto no Medium também. Creio que notarão um  "excesso de texto" a respeito do comportamento do militante médio; esse "excesso de texto" é a chave para a interpretação real. Já que ele aponta para um problema maior e mais cruel. Algo que muitos, a esse ponto, já notaram. Eu não vou dizer diretamente o que é, mas quem observou esse caso friamente sabe que há um padrão quase misterioso, algo que pode parecer muito com o que foi escrito no passado. Esse padrão misterioso me levou a temer o que o militante médio está a realizar em prol de fazer o Renan Santos ter mais presença midiática.


Sua pergunta é muito difícil de responder. Sendo sincero, estou afastado da militância da Missão desde abril/maio. Muitos dos meus amigos também estão afastados. Muita gente que conheci simplesmente caiu fora. Algumas pessoas que conheci querem esquecer que "ainda fazem parte", sumir gradualmente de cada vista e serem esquecidas por todos os outros. Confesso que não acompanho muito de perto o que se passa com essas pessoas. O MBL e o Partido Missão, quanto mais se conhece de perto, têm um gostinho de cidade pequena. Creio que posso aderir a um estilo que soe demasiado "afastado", "frio" ou "monótono". Se assim for, peço-lhe desculpas.


Sempre fui bastante frio e sempre tive uma linha interpretativa bastante própria. Nunca parei de ler autores de esquerda, de centro e de direita ao mesmo tempo; sempre faço isso antes da formulação de qualquer linha de raciocínio. O blogspot Cadáver Minimal é a prova disso. Isso pode soar desagradável para movimentos que possuem uma linha comportamental mais estrita e uma hierarquia mais forte. É graças a isso que sempre me mantenho afastado. Gosto de ler até mesmo quem se encontra no ponto contrário ao meu; isso me possibilita chegar a visões mais complexas e completas.


Tenho recusado falar do MBL e do Partido Missão, sobretudo no Blogspot e no Medium. A razão é simples: não quero ser visto como um estorvo para o Partido Missão/MBL nem quero que o público do Blogspot ou Medium acredite que exista alguma conexão profunda que nunca existiu. Repito mais uma vez: estou afastado desde abril/maio. Venho vivendo um afastamento progressivo. Isso foi algo que foi bom para mim e também para eles. Os outros que se afastaram, não sei como estão. Nem tenho informações suficientes para afirmar coisa alguma. Se o tivesse, também não afirmaria nada. Mas juro-lhes que não tenho contato algum e foi por escolha mútua. Cada um foi para o próprio canto e foi viver a própria vida.


Isso faz parte de uma "lore", de uma temporada que passou. Conheci gente do MBL, até mesmo pessoalmente. Gente que tirou foto com candidatos e até era conhecida por setores amplos da militância. Tem muita gente boa, tal como há gente boa em cada partido e movimento. Já saí para tomar cerveja e até ver um jogo da Copa com alguns. Havia algumas pessoas que eu conhecia de longa data na internet. Também pude ver como muitos se comportavam em determinadas situações e como eles se comportavam conforme acusações de traições eram soltas ou simplesmente quando era mais conveniente todo mundo se afastar de um incômodo.


Sendo sincero, houve gente que foi afastada como se tivesse lepra no mundo antigo. Acredito que, dentro de um movimento, existam figuras que possam ser mais sacrificáveis e outras que não possam ser sacrificadas de nenhuma maneira. De qualquer modo, a maneira ríspida com que isso ocorreu, atingindo até algumas pessoas que nem sabiam muito do que se passava, passou-me a impressão de existir uma diferença entre esotérico e exotérico no nível de informação que cada membro da militância recebia. Compreendo, contudo, que houve uma grande perturbação interna, que em parte justificou comportamentos mais extremos em relação à vigilância e às teias relacionais. De qualquer modo, essa separação entre conhecimento exotérico e esotérico parece ser, dentro do partido e do movimento, algo muito estranho e que não existe para fins meramente estratégicos, mas como uma lógica muito anômala a um partido e um movimento político. Tal estrutura comportamental parece assumir um espaço cada vez maior, lado a lado com o emprego estético cada vez mais excêntrico, gerando a internalização de uma lógica oculta e misteriosa que tem um fim não muito claro. As conexões que se traçam através do tempo parecem não só se somar, mas assombrar. A estrutura comportamental e a estética se somam assombrosamente.


O problema é que para muitos militantes, o mundo do MBL e do Partido Missão, além da revista Valete, era uma parte fundamental da identidade que possuíam e não queriam perdê-la. Isso fez com que muitos, apesar do que se passasse, seguissem comportamentos que, por muitas vezes, acreditei serem tóxicos. Não concordo com legiões que atacam mulheres de forma misógina ou que possuam um comportamento amplamente LGBTfóbico. É bastante evidente o costume de setores da militância de atacarem os adversários dessa forma. Não só adversários, mas ex-integrantes também. Toda crítica é válida, mas deve ser feita de uma forma honrosa. Um dos maiores exemplos é um desafeto do movimento que é chamado de "travequeiro". Mesmo que ele curtisse mulheres trans, o que me parece não ser o caso, qual seria o problema? Uma pessoa adulta ter relacionamento com outra pessoa adulta não é problema de ninguém. Não há provas de adultério. Nem existe qualquer motivo para celebrar violência física contra opositores políticos.


Outra coisa importante, que cabe ressaltar, é que a estrutura do movimento e do partido, em si, parece comportar a defesa só da radicalidade comportamental dos membros mais notórios e não daqueles que são da base. Em outras palavras, caso um membro individual, de pouca importância para o partido e para o movimento, seja pego em ações misóginas ou LGBTfóbicas, ele não gozará de proteção real. A mesma linha de observação cabe à acusação de determinadas figuras sem provas cabíveis por causa de humores momentâneos e conclusões triunfais falíveis. Isso pode ser errôneo e inadequado, além de juridicamente irresponsável. Os militantes menores, apegados à lógica da identidade, deveriam ser mais estratégicos em seus feitos.


O MBL e o Partido Missão são atentamente monitorados por diversos grupos. Os seus membros, até mesmo aqueles considerados menos importantes, são observados por pessoas de diversos partidos e movimentos. Muitos deles podem printar, fazer dossiês, fazer denúncias ou até mesmo tomar ações mais concretas contra esses membros. É por isso que considero que são necessárias mais precaução e mais estratégia e menos ânimo nas tomadas de decisão que os militantes, não importando quem eles sejam, tomam. Além disso, o costume de brigar com todos os outros grupos pode levar a um afastamento do movimento e do partido de outros setores sociais importantes para o seu crescimento.


Lembrem-se de que, na estrutura moderna, seria muito fácil encontrar diversos perfis menores envolvidos em LGBTfobia e misoginia. Esses perfis, embora estejam permanentemente na vacilação, são úteis para amplificação das mensagens do partido e do movimento. Se algum grupo decidisse fazer reportagem em massa, denunciar ao Ministério Público ou simplesmente encadear matérias jornalísticas envolvendo a atuação nociva de setores da militância, o ataque poderia levar a uma boa perda da capacidade de articulação digital em momentos sensíveis. Se diversos perfis caem, a capacidade de amplificar as mensagens do movimento e do partido diminui. Isso deve ser pensado, sobretudo quando temos em mente as regulamentações que aumentam dia após dia. Embora eu seja da linha que defenda um corpo menor de leis para uma aplicação mais funcional delas, ainda é necessário pensar no impacto jurídico de cada ação de acordo com as leis que foram ou serão aprovadas.


Preciso dizer isso em figura de linguagem, mas para bom entendedor, meia palavra basta. Entenda que quando o parquinho pega fogo em nome da revolução burguesa contra a nobreza, apenas as crianças da burguesia serão resgatadas. Tome cuidado, caro plebeu, caso se reúna com essas crianças adinheiradas em suas andanças revolucionárias. A revolução custa muito para quem pode ser sacrificado e menos para quem não pode. O comportamento de um líder é protegido pelo escudo de seus seguidores e da sua estrutura, todavia, o comportamento de um seguidor não apresenta o mesmo escudo nem a mesma estrutura. Dito isso, preste mais atenção nos próprios passos antes de andar no vulcão do mundo; a fumaça é alucinante e as caídas podem ser mortais.


Sinto muito por ter tido que entrar em tantos meandros para só então entrar no que ocorreu com Renan Santos. Eu sou uma daquelas pessoas que estão afastadas ou simplesmente sumiram. Para ser mais exato, estou preferindo me abster de qualquer confronto e me dedicar aos estudos. Já escrevi isso várias vezes, mas sempre acabo por ressaltar esse ponto de novo e de novo. É custoso obter a paz, porém é mais custoso ainda perdê-la logo após obtê-la. Se eu aprendi algo, olhando de perto e de longe, é que essas aventuras eleitorais são radicais e muito custosas, sobretudo para quem está na base.


A ameaça sofrida por Renan Santos: creio que é importante dizer que qualquer ameaça ou tentativa de intimidação deve ser tratada com seriedade, sobretudo pelas vias adequadas. Isso não é controverso nem discutível; é necessário. Por favor, leia esse parágrafo duas ou três vezes se necessário. Leia até cinco vezes, conforme a necessidade. Volte a lê-lo toda vez que for necessário.


Não creio, contudo, que tenha sido correta a exposição generalizada que o Leftypol sofreu em decorrência do comportamento de um único membro. E tenho dúvidas quanto à excepcionalidade desse membro radical em um fórum historicamente pacífico. O pânico midiático tendeu a criar um marketing em torno de um fórum que tem o costume e o longo histórico de ser pacífico, até mesmo pacato. Sou uma pessoa que tende a acreditar que o jornal cria parte do imaginário social, tornando o escrito em uma realidade através de uma repetição. A repetição pode criar familiaridade e a familiaridade pode ser psicologicamente assumida como fato.


Confesso que tive um pouco de desinteresse em estudar e acompanhar o caso, sobretudo por viver um período de recolhimento e de estudo. Além disso, tenho me mantido afastado de qualquer tipo de informação política a respeito do Brasil por motivos de saúde mental.


Uma postagem anônima detalhando a intenção de atentado, apresentando local, data e alegada posse de arma justifica a investigação policial, independentemente da plataforma em que ocorreu. Esse aspecto não é debatível. A generalização a respeito do Leftypol, contudo, não faz sentido em termos de proporcionalidade. No Leftypol, tal como em qualquer chan, as postagens individuais não se vinculam a uma organização como um todo. Até porque não há hierarquia formal, partido ou estrutura de comando. O conteúdo é gerado por usuários anônimos. Logo é impossível presumir que uma postagem individual represente todos os seus usuários.


O que acho extremamente enganoso é que a exposição midiática e política transformou um post isolado em representação coletiva; isso é um padrão recorrente em cobertura de chans e é algo que sempre critiquei. Um caso extremo não pode nem deve virar metonímia do espaço inteiro. Esse julgamento é válido para chans mais à direita e para chans mais à esquerda. Além disso, criar todo um pânico envolvendo assassinos misteriosos em fóruns anônimos em pleno período eleitoral me parece algo perigoso e que deveria ser feito com mais cautela. Esse tipo de mensagem costuma levar mais pessoas perigosas para dentro desses fóruns.


Existe algo no meu estômago. Sinto a necessidade de colocar essa linha de raciocínio aqui. No Brasil, períodos eleitorais costumam apresentar bastante exposição midiática. Nesses períodos, a notícia serve como amplificação de imagem. Isso atrai tanto os partidos quanto quem quer aparecer. Recentemente tivemos um caso em Brasília, onde um grupo planejava um atentado. Quando as notícias explodiram em pleno período eleitoral, isso pode ter levado a um efeito duplo: de um lado, o pânico social; de outro lado, grupos que mimetizam a lógica do caos e querem ver uma chance para sombriamente brilharem. Toda notícia a respeito desse tipo de ação pode levar à amplificação desse fenômeno e isso deveria ser visto com mais cuidado. Não podemos, enquanto sociedade, normalizar tamanho comportamento violento, mesmo que inconscientemente.


Acredito que esse tipo de conteúdo não deve ser reproduzido em massa. Não deve ser utilizado para fins políticos. Não deve levar a múltiplas acusações. Não deve ser levado como prova contra adversários de longa data. Existem tenebrosos efeitos contraproducentes nisso. É evidente que Renan Santos ganhou maior atenção midiática, mas a chuva de ânimos levou a acusações indesejáveis. Além disso, grupos que visam estabelecer pânico social agora possuem uma fórmula atitudinal, seja a fórmula vista no Leftypol, seja a fórmula vista em Brasília. Isso é extremamente indesejável e perigoso. Estamos abrindo territórios hostis e normalizando-os em nosso imaginário social.


É válido lembrar: ameaças explícitas de violência real são contra as regras da maioria desses espaços e costumam ser removidas ou banidas quando detectadas, embora possa se alegar que a moderação de um chan é muitas vezes inconsistente e a natureza anônima dificulte a prevenção. Até onde pude pesquisar, não há registro público de campanhas de violência ou atentados originados do Leftypol como coletivo. Isso é uma realidade extremamente diferente de alguns outros chans que já tiveram vínculos documentados com ataques reais.


Uma coisa, meus caros, é noticiar uma ameaça específica, investigar a sua autoria e eventual capacidade de concretização. Outra, de natureza bastante diferente, é transformar essa mesma ocorrência em uma caracterização abrangente de todo o espaço de discussão. Não estou dizendo que a postagem é, em si, inofensiva. Ela não é. Acontece que não creio, pelo longo histórico do Leftypol, que ele seja uma espécie de hub de radicalização operacional. Isso é, para mim, um marketing político com fins eleitorais movido à falsa equivalência.


A dinâmica de pânico midiático e marketing involuntário é clássica: "fórum de extrema-esquerda planeja assassinato de Renan Santos". Isso serve para criar um imaginário que se autorreforça, atraindo curiosos e novos radicais e, paradoxalmente, solidificando a própria narrativa de vitimização de um lado e de demonização de outro. O jornalismo de impacto, cabe lembrar, frequentemente privilegia o excepcional e o ameaçador sobre o cotidiano discursivo do espaço. O que, mais uma vez, não anula a gravidade da ameaça, todavia, explica a razão de um post isolado ter ganho escala nacional em pouquíssimas horas.


Digo, mais uma vez, que não venho acompanhando o caso de maneira aprofundada. Como já dito anteriormente, tenho me afastado do noticiário político brasileiro. Repito novamente que por motivos de saúde mental, preferi me afastar desse tipo de informação. É por essa razão que não pretendo apresentar como certeza aquilo que não pude verificar pessoalmente.


É importante dizer: acredito que há muito sensacionalismo nas reportagens a respeito de chans. Usualmente os episódios mais extremos são tratados como regra. Isso cria um imaginário social que pode levar, ao contrário do que muitos pensam, a esses ambientes se tornarem desejáveis figuras patologicamente indesejáveis. Termino meu argumento da seguinte forma: acredito que a responsabilidade por uma ameaça específica deve ser investigada, mas a atribuição dessa ameaça a uma coletividade inteira precisa ser demonstrada e não presumida.