sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 10)
sábado, 14 de fevereiro de 2026
NGL #44 — Por qual razão eu continuo sendo channer?
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Ser channer traz uma sensação psicológica única e indescritível. Essa sensação não pode ser sintetizada em termos literais, seja por questão de moralidade, seja por questão de não ser sintetizável em um vocabulário perfeito e inteligível. Por isso, peço que me acompanhe.
Pense que, de repente, toda a sua racionalidade esmorecesse. Você apenas vê um coelho a sua frente. Então você corre. Você não consegue confirmar isso, mas sente que tem quatro patas em vez de duas pernas e dois braços. Nessa sensação, você sente que quer caçar aquele coelho que foge de ti. Não é por fome. Não é por sobrevivência. É pelo prazer da pura caça.
O que eu quero dizer: há a identificação com a figura do predador, algo mais animalesco do que humano. Algo que faz a caça ser um fim em si mesmo, como a satisfação direta de algo impulsivo e predatório. Algo que é encarado, simultaneamente, como errado e, ao mesmo tempo, gratificante por si só e por ser errado. É como se o desligamento da racionalidade e a regressão a um estado primitivo fossem "autorecompensantes" na atmosfera lúdica de uma violência simbólica contra as normas e contra os valores instituídos. Em outras palavras, cada sessão dentro de um chan é um processo de desumanização temporária e recreativa onde a sombra se manifesta de forma mais plenificada.
É como uma dupla recompensa que aparece simultaneamente num gozo deliquente:
1- O prazer do instintivo, do primário, da caça e da predação. Tal como a realização do ID;
2- A violação consciente da lei a gerar o gozo extra. Como numa sensação de que se profana o que há de mais sagrado numa heresia dedicada ao corpo social.
Isto é, a racionalidade existe parcialmente, mas só existe para se ter plena certeza de que se viola alguma coisa, assim tornando o prazer da violação ainda mais intenso. Em outras palavras, a racionalidade existe perante o prazer de se violar algo que o corpo social considera sacro.
Quando entro dentro de um chan ou começo a agir dentro de uma estrutura comportamental channer não é como se eu estivesse numa psicose permanente, em vez disso, é como se a psicose fosse parte de um jogo decididamente iconoclasta. Tal como um carnaval em que o superego é temporariamente jogado fora em nome de um exercício lúdico que provisoriamente abole as leis normativamente instituídas.
Repito que: a sombra, dentro do chan, manifesta-se mais plenamente. Ali, dentro do chan, observa-se como lei a ausência de lei e de norma se formam. Ou, mais precisamente (e mais psicologicamente), a cultura channer é como um castelo feito com a sombra que socialmente se esconde — o inconsciente sombrio. Quando digo que o Castelo do Drácula do Castlevania representa muito bem a cultura channer, digo que a cultura channer só tem leis referentes ao inconsciente sombrio, seja pessoal ou coletivo, como num jogo jungiano onde a sombra não integrada encontra um local para exercer seu pleno domínio. Se existe um "Estado de exceção", onde o "Estado de Direito" é ignorado, a cultura channer é como um local em que o "estado psicológico de exceção" se plenifica.
A mesma analogia poderia ser feita com Silent Hill (outro jogo da Konami) poderia ser feita. Em Silent Hill, a cidade é composta pelo inconsciente sombrio ou pelo Dark Self. A cultura channer também é assim. É como um laboratório em que a sombra manifesta-se de forma pura e momentânea, dissolvendo a persona (pública) e o ego racional. O prazer é encontrado em ser a sombra, sentindo todo o veneno que a sombra, momentaneamente indomesticável, exerce.
A cultura channer é um jogo em que a racionalidade é rebaixada para uma função ancilar para que sirva ao impulso da anomia. Ou, mais visceralmente, para certificar a transgressão que está a se exercer. O que é algo substancialmente diferente da psicose, que é caracterizada pela perda do teste de realidade. Aqui podemos falar da hiperconsciência da realidade (na sua estrutura de normas, de valores, de sagrado), mas não no sentido de validar a norma social. A hiperconsciência existe em função da quebra da norma. Nesse quadro, o superego existe em função do ID. Nesse retrato, a persona existe em função da sombra. Tudo dentro de uma inversão hierárquica.
A diferença central entre o chan e o carnaval é a sua condição autotélica. Ou seja, se no carnaval a inversão reforça a ordem após o período de exceção, o chan não é funcional para o sistema: ele existe em função de si mesmo, tal como um gozo.
Pense, novamente, no Castelo do Drácula. O castelo reconfigura-se a cada noite, a cada aparição. A cultura channer reconfigura-se a cada thread, a cada meme, a cada piada interna. As leis da cultura channer funcionam como um inconsciente sombrio: a lógica adotada não é cartesiana, é uma lógica onírica, associativa e simbólica. Não existem regras fixas, apenas a manifestação do monstro que há dentro de nós. É como se a ordem fosse a oedem simbólica daquilo que é reprimido.
A cultura channer também é o espelho do inconsciente de quem entra. Toda cultura channer é povoada pelos demônios, culpas, traumas e desejos reprimidos dos seus usuários. A cultura channer é a sombra coletiva de seus usuários: tudo que a cultura mainstream ou normativa reprime, nega e silência torna-se a manifestação da cultura channer.
Se pensamos na terapia jungiana, a sombra quando integrada perde o seu poder destrutivo. No chan, a sombra não é integrada. Ela é encenada, perfomada, vivida. Tudo isso sem dor, visto que há o escudo lúdico do anonimato e do coletivo que a valida.
No "estado de exceção psicológico" da cultura channer, a sombra torna-se soberana para manifestar-se plenamente. É por isso que o ego racional e a persona (máscara social) são temporariamente dissolvidos. Pense como se o chan fosse um golpe de Estado psíquico em que o ID e a SOMBRA tornam-se senhores do palácio (ou do Castelo do Drácula).
A cultura channer é venenosa. Isso todo channer de qualidade e experiência assume. Ela é tóxica pois é a sombra. E a sombra é tóxica para o ego, para a persona e para o social. Todavia constitui o gozo channer sentir o veneno correndo dentro das veias sem morrer, visto que é temporário, visto que é lúdico, visto que é anônimo.
Pense a cultura channer como um parque temático do inconsciente sombrio (como Silent Hill ou Castlevania). Ela é um dispositivo de engajamento com o inconsciente sombrio. E é por essa razão que eu permaneço nos chans apesar de tudo.
Memória Cadavérica #40 — A CULTURA CHANNER SÓ EXISTE POR CONTA DO ERRO DA ESQUERDA
A CULTURA CHANNER SÓ EXISTE POR CONTA DO ERRO DA ESQUERDA
Essa alegação segue muito a lógica rodriguena. Isto é, afirma o absurdo para chamar a atenção e, por fim, chegar ao óbvio ululante que ninguém quer ver ou olhar por meio das suas análises.
Em 2013, a esquerda tinha o mundo nas mãos. Podia olhar pro movimento dos cinquenta centavos dentro da lógica esquerdista, isto é, da luta de classes. O movimento que pedia transporte público padrão fifa (primeiro mundo) foi encarado como direitista.
A esquerda podia encarar o movimento como "esquerda indie". Em vez disso, acusou a luta de ser reacionária. Naquele momento, a esquerda (por meio do PT) estava no poder e grande parte de uma geração que defendia transporte público de graça que poderia ser identificada como de esquerda — lembre-se do bordão: público, gratuito e de qualidade —, foi para direita magicamente e por vingança.
Digo isso por "eu mesmo". Eu tentei ser de esquerda. Sabe o que me disseram? "Só aceitamos os alunos das melhores universidades aqui", foi o que me disseram. Eu estava no ensino médio. Naquele momento, eu decidi ir pra uma faculdade particular e nunca pisar numa faculdade pública.
No mesmo ano, vários dos possíveis futuros membros da esquerda entraram em faculdades públicas. Sabe o que a esquerda fez depois de ter atacado até os black blocs (anarquistas radicais) como se eles fossem parte da extrema-direita? Chamou todos (que se manifestavam pelo transporte público) de extrema-direita (como sempre fez). Só que ali, durante as humilhações diárias, cresceu o movimento anti-esquerdista. É disso que surge parte do MBL: abandonados pela esquerda, decidem ir para direita.
A esquerda:
1. Atacou a própria esquerda;
2. Atacou quem estava ainda meio confuso ou que estava se encaminhando pra direita.
Mais tarde, a própria direita atacaria membros da direita que queriam o impeachment da Dilma. Esse ataque, vindo do próprio Olavo de Carvalho, gerou o ressentimento que o MBL (e depois o partido Missão) teriam pelos olavistas. A traição começa pela esquerda e depois vai pela própria direita, surgindo o meme "vocês traíram a lava jato e traíram a lava toga" (principal acusação do MBL contra o bolsonarismo/olavismo), mas essa não é a questão principal desse tópico.
Se a esquerda tivesse apoiado a luta pró-transporte público de graça, nada disso teria acontecido. Como a esquerda, sobretudo o petismo, traiu a própria POSSÍVEL base, o MBL pôde se alavancar em sua vingança.
Eu fui um dos múltiplos jovens que a esquerda poderia cooptar, mas a esquerda simplesmente ignorou por não ser "bom o suficiente" ou por não concordar o suficiente — o governismo, isto é, o governo sem freios Ideológicos, criou uma narrativa. Essa mesma narrativa chamou de "tucana" e "neoliberal" uma luta que era, propriamente, de esquerda.
A esquerda era, até então, associada com a revolução e com a revolta. Com o movimento catraca livre, a esquerda era o establishment (sobretudo na era da olimpíadas e da copa). Foi nessa época, precisamente, que o politicamente incorreto passou a lucrar como posição anti-establishment.
A cultura channer brasileira, que até então apoiava a esquerda indie (não me lembro de do PSTU ou do PCO), passa a forçar Bolsonaro como anti-establishment. Não por erro da própria direita (que lucrou com o ressentimento), mas por erro da própria esquerda.
Memória Cadavérica #39 — Antissemita?
Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.
Contexto: resposta deixada a um grupo católico.
>vocês
Eu estou apenas traçando a origem do termo.
Não estou dizendo algo que eu particularmente acredite, mas explicando como o termo surgiu dentro da lógica interna do grupo.
Se a teoria é antissemita, eu explico a lógica antissemita que está dentro do discurso. Do mesmo modo, se a teoria é feminista, conservadora, progressista, whatever. E é basicamente o que eu sempre fiz como intelectual. Seja analisando teologia judaica, teoria queer, islamismo, anarco-capitalismo, feminismo, catolicismo, etc.
Até porque o que eu sempre trabalhei foi a "engenharia mental reversa" adotada dentro da esfera da interpretação intelectual.
Se toda vez que eu fizesse alguma análise sobre algo, explicando como dada cosmovisão surge dentro de um universo própio, eu teria que ser ao mesmo tempo feminista, machista, judeu, católico, queer, tradicionalista, progressista, neopagão, anti-conspiracionista, pró-conspiracionista, antissemita, sionista, reacionário, comunista, etc.
Quando eu escrevo algo sobre o Olavo de Carvalho, estaria eu sendo olavista? Quando eu escrevo algo sobre Deng Xiaoping, estaria eu sendo um socialista de mercado? Duas coisas ao mesmo tempo? Do mesmo modo, quando eu explico o conspiracy warfare (guerra conspiratória), estaria eu sendo um teórico da conspiração?
Quando eu trago a obra do intelectual norueguês Egil Asprem, que é CRÍTICO DO ESOTERISMO A EXTREMA-DIREITA, seria eu um PROGRESSISTA DE ESQUERDA ATUANDO CONTRA A CONSPIRITUALIDADE SOMBRIA?
Aí é que está. Existe diferença entre a análise intelectual e a promoção doutrinária de algo.
Do mesmo modo, quando eu trago o Alain de Benoist, da direita francesa, eu teria que ser pagão e de direita, mas, no dia seguinte, ao trazer um artigo do Journal of Bisexuality, eu teria que ser um bissexual militante lutando contra o monossexismo de homossexuais e héteros. As duas hipóses teriam que ser dadas como verdadeiras.
Se formos adiante, ao analisar Nick Land eu seria um neorreacionário querendo o aceleracionismo ultracapitalista ao mesmo tempo que, no dia seguinte, eu teria que ser um tomista ao analisar os cursos tomistas.
Essa é a capacidade de sair do dogmatismo que o próprio Olavo de Carvalho falava. É a investigação livre dos demais diversos temas e a capacidade de formar um raciocínio não dentro de um prisma teológico (onde há a aceitação doutrinária), mas de uma análise filosófica do debate público (vendo o que concorda ou discorda pontualmente).
Leia Agnosticismo Metodológico:
https://cadaverminimal.blogspot.com/2021/10/agnosticismo-metodologico-ou-da.html
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 9)
Nome:
The Magical Theory of Politics: Meme Magic, the Cult of Kek, and How to Topple an Egregore
Autor:
Egil Asprem
Nessa parte do artigo, Egil Asprem começa a trabalhar mais com os conceitos de carisma (Max Weber) e efervescência coletiva (Emile Durkheim). Como essa parte é bastante curta, surgindo mais como um prólogo da discussão que virá a seguir, não me alongarei muito.
Na parte do carisma, Asprem trabalha com a importância da verve religiosa e discurso messiânico. Na parte da efervescência coletiva, Asprem trabalha a partir dos aspectos das ações coletivas, eventos emocionalmente arrebatadores e experiências na formação de uma identidade compartilhada, na criação de um propósito comum e na feitura de um senso de pertencimento. Em outras palavras, isso formará um subjetivo senso de mistério, a sensação de fazer parte de algo maior, o efeito de estas além do controle dos meros mortais.
Acabo de ler "The Magical Theory of Politics" de Egil Asprem (lido em inglês/Parte 8)






