Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.
Contexto: conversa com uma das minhas conhecidas mais inteligentes. Expandido para melhor exposição argumentativa.
Eu cheguei a conclusão de que sou completamente irrelevante e minhas visões estão fadadas ao erro, mas também cheguei a conclusão que outras pessoas também são irrelevantes quando olhamos para outras dimensões maiores.
Atualmente eu paro e penso: para que eu vou querer debater? O que eu ganho debatendo? Se a resposta for: satisfação do próprio ego e parabenização tribal, isso não significa absolutamente nada para mim. A resposta que me vem, quando penso em debate, é que há um grande nada. Tanto que eu mando um: "me faz um PIX aí que eu concordo com você!"
Eu fico me perguntando... Qual a lógica disso? Tipo... vamos supor que você goste da Itália e eu da França, aí entramos em um debate. Nesse debate, um tenta convencer o ponto do outro. No fim, a França e a Itália seguirão sendo as mesmas, não importando a nossa opinião sobre elas. A única coisa satisfeita seria o nosso próprio ego e do coletivo que fazemos parte — caso a gente faça parte de algum, não é mesmo? É meio que "estou feliz pois venci um debate na internet".
No exemplo dado, eu seria alguém do grupo de pessoas que gostam da França e você seria do grupo de pessoas que gostam da Itália. Se eu debato e venço, o pessoal do meu grupo me parabeniza e sente que venceu coletivamente numa ritualística tribal. Se você vence, segue-se o mesmo processo.
Nunca vi debates na Internet. O único debate que consumo é o The Munk Debates (do Canadá) quando sai em livro, mas faço isso apenas para compreender múltiplos pontos de vista. Não quero tomar um lado em si. Quero apenas apreciar diferentes inteligências se intercalando dialeticamente. Como o debate apresentado no The Munk Debates é de alta qualidade, e está em formado textual, considero isso apreciável. De resto, não tenho a menor pretensão de participar de um debate ou de debater. Sequer tenho gosto de ver debates tal como se eu assistisse um jogo de futebol.
Eu acordei hoje pensando nisso. Após refletir, cheguei a conclusão que já não me importo se as pessoas concordam ou discordam comigo. Antes eu queria provar meu ponto, hoje pela manhã parei de me importar. Eu apenas consumo o mundo intelectual, e escrevo sobre ele, pois gosto de estudar o mundo. Percebi que ao me importar demais em provar meu ponto, tal como ainda fazia até ontem, acabava caindo em comportamentos tolos. Percebi que a chave é não levar a si mesmo a sério e nem o adversário a sério, a não ser que eu seja pago ou esteja em um conflito ontológico para tal feito.
A partir de hoje, inauguro a era do: "beleza, me paga X e eu concordo com você". Se eu não me importar com minha opinião, nada que você disser contra ela me afetará. E eu poderia ler de tudo e estudar de tudo tranquilamente. Eu pensei o seguinte:
— Tá, mas se eu não me importasse em provar o meu ponto para pessoas no mundo e na internet, o que exatamente mudaria?
A resposta foi nada.
Eu acho que o blogspot é lido por eu ler de tudo e apresentar diferentes pontos de vista. E como ele funciona desse modo, ele traz os leitores que buscam esse tipo de conteúdo. Percebi que os leitores podem ser de esquerda, de direita, de centro, religiosos, irreligiosos, homens, mulheres, LGBTs, heterossexuais, tanto faz. Eles estão aqui pelo o que pouca gente oferece: múltiplos pontos do debate público e pontos inexplorados pelo debate público. Essa é a força desse blogspot. Eles nunca me leram por eu debater na Internet ou por eu ter provado alguma coisa.
