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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Acabo de ler "The King in Orange" de John Michael Greer (lido em inglês/Parte 2)

 


Nome:

The King in Orange: The Magical and Occult Roots of Political Power


Autor:

John Michael Greer 


Make America Great Again (Donald Trump) X I'm With Her (Hillary Clinton)

Se pensarmos bem, a frase da campanha de Donald Trump é muito mais evocativa que a campanha de Hillary Clinton. Donald Trump se comunicava para a vasta maioria dos americanos. Hillary Clinton procurava o consenso partidário.


As alegações para a vitória de Trump — a justificação para derrota —, como não poderiam deixar de ser, foram os lugares comuns e fetiches mentais de câmaras de eco:

- Racismo;

- Sexismo;

- Preconceito;

- A Rússia destruiu a eleição;

- A vitória do Trump veio pelo ódio.


Quando olhamos as causas reais da vitória do Trump, isto é, quando saímos das bolhas e seus vieses de confirmação, podemos encontrar as razões reais da vitória dele.


1- O Risco de Guerra:

Quando Hillary Clinton foi Secretária de Estado, ela atuou como desestabilizadora de regimes. Essa prática, sobretudo na Síria e na Líbia, causaram morticínios. Trump sugeriu romper o círculo de guerras.

2- O Desastre do Obamacare:

Mesmo que o programa seja dito popular, o aumento sem fim dos preços levou a uma revolta para com esse programa.

3- Trazer os empregos de volta:

O autor traz a ideia de quando as regulamentações eram mais modestas, quando havia substanciais tarifas e barreiras comerciais, além de proteção a indústria doméstica, havia mais emprego para os trabalhadores americanos. Fora isso, a imigração era mais controlada, o que assegurava emprego da população local. 

Hillary Clinton adotou em seu projeto aquilo que afastou os cidadãos americanos:

- Mais regulamentação;

- Mais acordos de livre comércio;

- Mais imigração. 

Trump fez o exato oposto e prometeu:

- Cortar regulamentações;

- Cortar ou renegociar acordos de livre comércio;

- Acabar com a imigração ilegal.

4- Punir o Partido Democrata:

Muitos eleitores do Bernie Sanders viram a forma com que o Partido Democrata sabotou Bernie Sanders como imoral e desonesta. Além disso, viam paralelos entre a política de Hillary com a de Bush. Além da hipocrisia histórica do Partido Democrata: eles criticavam as políticas que eles mesmos adotariam quando estivessem no poder.


Existe uma traição do imaginário e políticas que o Partido Democrata construiu através do tempo. Esse imaginário e essas políticas eram:

- Oposição a um militarismo aventureiro e sem sentido;

- Suporte a políticas que melhorassem o padrão de vida da classe trabalhadora americana;

- Políticas com transparência e integridade.


Indo mais adiante, o autor citará a obra de Ion P. Culianu intitulada "Eros and Magic in the Renaissance". Esse autor era um hábil leitor de Giordano Bruno, sobretudo da obra "Vinculis in Genere". Onde se nota que o "eros" é um aspecto central da mágica. Ou, em palavras mais modernas, que a manipulação da consciência através de imagens que evoquem o desejo eram possíveis.


É disso que surge a ideia de um Leviatã — remetendo a Hobbes — que não se imporia tanto através da força, mas pela manipulação do desejo. Um Estado Mágico seria um Estado em que a mídia de massa mainstream criaria um consenso artificial onde a distribuição do existente poder e riqueza seria justificada pela exclusão tácita de todas as outras alternativas.


Quando queremos compreender o que seria mágica, temos que remeter a ideia de Publicidade e Propaganda. Todo produto a ser vendido é intermediado por um conjunto de crenças e atitudes que fazem esse produto ser desejável. Um produto é apresentado de forma a evocar desejos como amor, amizade e popularidade. Ou seja, há uma conexão entre o desejo e o consumo. Mexer com o imaginário é a chave. A mágica é a manipulação do desejo.


Clinton não fez uma boa campanha pois focou no mal menor. Enquanto a vida cotidiana para a maioria dos americanos se tornava intolerável, ela apelou para o consenso partidário que já era rejeitado pela maioria dos americanos.


O autor conectará, por fim, com as reflexões de Oswald Spengler. Spengler dirá a razão pela qual as democracias morrem. Segundo ele, as democracias têm uma vulnerabilidade letal: a influência do dinheiro. Quando ricos percebem que podem simplesmente comprar o poder, logo uma plutocracia se estabelece. Nessa plutocracia, o desejo pelo enriquecimento pessoal e a gratificação se tornam regras do jogo. Nesse período, surgirá algum líder carismático que se oporá a essa plutocracia que vive em uma bolha. Geralmente esse líder sai de dentro da própria plutocracia. Um exemplo histórico disso, é Júlio César. 


Donald Trump foi brilhante em usar as próprias percepções e visões de mundo das elites americanas contra elas próprias. O modelo trumpista de campanha (de forma simplificada) era esse:

1- Trump fazia uma ação ou fala polêmica;

2- A mídia atacava;

3- Pessoas gostavam ainda mais de Donald Trump.


Um exemplo disso é a fala de que se os smartphones fossem produzidos nos Estados Unidos, as pessoas teriam que pagar mais por eles. Ora, a classe trabalhadora americana teria emprego nessas fábricas para suportarem as suas famílias. Ela não se importava com a classe média e a classe rica, ela queria empregos estáveis para viverem as suas vidas. Em outras palavras, Donald Trump percebeu um conflito de classes pois saiu da bolha e soube canalizar a revolta popular ao seu favor. Enquanto isso, a mídia e grande parte do establishment político não percebeu que ao atacar uma proposta como a de Trump, seria tida como inimiga da maioria dos americanos. Ela — a mídia — acreditava que a visão que ela tinha a respeito do mundo se refletia na visão da maioria dos cidadãos americanos. Essa desconexão com a realidade fez ela fortalecer o discurso de Trump toda vez que o atacava.


Veja que o assunto não é a efetividade das políticas de Trump ou se o modelo econômico almejado pela maioria dos americanos é funcional. Também não entro na questão se Trump fez ou não fez as suas promessas. A questão é o que está no imaginário das massas e o que está no imaginário das elites. A questão é como manipular os desejos em prol das próprias vontades.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Acabo de ler "The King in Orange" de John Michael Greer (lido em inglês/Parte 1)

 


Nome:

The King in Orange: The Magical and Occult Roots of Political Power


Autor:

John Michael Greer 


O autor começa a sua análise brincando com a autoimagem da sociedade contemporânea. Isto é, a ideia que vivemos num mundo racional e que o mundo nada mais é do que uma máquina sendo regida por leis deterministas. Essa crença nos diz que, se tivermos dados suficientes, podemos fazer com que essa máquina (mundo) vá em direção ao nosso desejo.


Acontece que as regras que acreditamos são apenas um compilado de narrativas. O mundo que acreditamos nos vem com pacotes de meias verdades e de evasivas confortáveis. Temos a necessidade psicológica de profetas, visto que necessitamos de um mundo onde tudo seja previsível e endireitado ao cumprimento de nosso desejo. Acontece que, ano após ano, todos  os políticos, os mais preparados, com seus dados e sua capacidade de mexer com a grande máquina do mundo falharam.


Nas eleições de 2016, os democratas viviam numa bolha, em uma câmara de eco da qual só podiam ouvir as próprias vozes ecoando infinitamente. Enquanto isso, Trump servia para mídia e para os seus adversários banquetes de polêmicas. Esses banquetes geravam hiperreatividade e Donald Trump usava essa energia hiperreativa como instrumento de guerra política.


As ações de Trump, a forma como tudo se encaixava no seu jogo, fazia com que as suas ações parecessem com uma espécie de mágica. Porém isso só poderia ser considerado impossível: como a mágica seria possível na moderna sociedade industrial? É com isso que o autor trabalhará.


Durante anos, aprendemos em nossas escolas, em nossas faculdades, em nossa querida mídia, que a mágica era algo do passado e estava morta. Acontece que nossa definição de mágica era absolutamente errônea. Isso também levava que nossas escolas, faculdades e mídias a atacarem um espantalho. A verdadeira definição de mágica não é outra, se não essa: mágica é a arte e a ciência de causar mudanças na consciência de acordo com a vontade. O autor nos dá essa frase baseado em seu estudo de Dion Fortune.


Como isso é possível? Se pensarmos bem, a parte de nós que é racional é a parte menos desenvolvida e recente de nossa mente. A grande parte ainda é dominada a linguagem do mito e do símbolo. É possível influenciar essa parte. Por exemplo, quando pensamos no slogan "MAGA" (Make America Great Again), não temos uma frase que signifique alguma coisa exata. A frase apenas diz: "Fazer a América Grande De Novo". Essa frase poderia ser um slogan até do Partido Democrata. Essa frase não foi feita para falar com o racional, mas com o imaginário afetivo.


Quando pensamos em Donald Trump nas eleições de 2026, entramos em mundo infamiliar onde as regras regulares não eram mais aplicáveis e estranhas formas surgiam das profundezas. O que Trump fazia era magia política (lembre-se da definição de mágica: "mágica é a arte e a ciência de causar mudanças na consciência de acordo com a vontade") e é por isso que Trump era uma anormalidade.