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terça-feira, 9 de junho de 2026

Acabo de ler "How the Right Lost Its Mind" de Charles J. Sykes (lido em inglês)


Nome:

How The Right Lost Its Mind


Autor:

Charles J. Sykes


Trabalhar com a ideia de antes e depois, sobretudo quando se escreve sobre o movimento intelectual, político e acadêmico que se ajudou a formar e de desacordo expressões são engolidas por emoções que devoram nossos corações. Falar sobre conservadorismo em nosso tempo é difícil. Muitos de nós sequer querem tentar explicar, isolam-se até para não lembrar. Primeiro vem a covardia, perante o que vemos. Depois, vem a vergonha perante os atos que cometem em nossa frente. No fim, vem o medo de que nossos antigos aliados tenham se tornado monstros.


Por vezes, me veem a cabeça a seguinte frase, a qual escrevo com um quê de luto: "eu não quero ser lembrado como parte de um movimento de imbecis". Sim, exatamente. Quando eu vejo gente toda, proferindo os maiores impropérios racistas, misóginos, antissemitas e LGBTfóbicos, tentando demonstrar uma radicalidade exuberante, que soa extremamente kitsch, não sei exatamente o que sinto. Há um misto de nojo, de constrangimento. E as perguntas vão surgindo e revirando-se em minha cabeça. Pergunto-me se sou realmente parte disso. Questiono-me se realmente quero que isso continue. Todavia, essas nem são as piores inquietações e inquietudes que surgem. O pior de tudo é quando vem aquela pergunta, extremamente específica e densamente incriminatória, que sinto até mesmo medo de escrever. A pergunta é: "Eu ajudei a criar isso?"


O livro me toca na mesma medida em que estive dentro da onda politicamente incorreta no Brasil. Como os leitores do Blogspot já estiveram por dentro disso múltiplas vezes, não vale a pena comentar novamente. Sugiro que os leitores busquem análises mais antigas. A natureza desse blogspot requer sempre uma espécie de eterno retorno. Muitos leitores não fazem isso, leem alguma coisa ou outra, tiram as suas conclusões e vão embora. Comecei nessa vida lendo ao acaso um livro de Pondé, creio que era "Contra um mundo melhor". Depois disso, vieram outros livros. Li e conheci bastante de Nelson Rodrigues.  Luiz Felipe Pondé é o motivo de eu ter cursado filosofia. Nelson Rodrigues é a razão de eu gostar tanto de teatro. O conservadorismo não marca tão somente algo em especial na minha mente, também marca algo em especial no meu coração.


Vamos voltar ao passado. O que os conservadores americanos estavam tentando fazer antes da revolução reaganiana? Eles queriam criar algo. Algo novo. Queriam criar uma direita de ideias, uma direita de sonhos, uma direita de esperanças. Uma direita que poderia se fazer entender perante a sociedade. Naquele tempo, o movimento intelectual dominante era o movimento liberal. Todo mundo que se formava queria ser liberal, visto que o liberalismo era a única tradição intelectual que podia ser vista, já que era majoritária nos campos acadêmicos, jornalísticos e institucionais. Ou seja, o empreendimento daqueles conservadores era o de criar uma direita elegante, intelectualizada, acadêmica e com soluções pensadas a partir de dados. Veio, em primeiro lugar, a revolução de Russell Kirk. Foi ele o primeiro a dar a robustez intelectual de que o conservadorismo precisava em seu "The Conservative Mind". Depois disso, viria um movimento com William F. Buckley Jr.


Conforme essa direita nascia, as pessoas iam pensando que estávamos finalmente de igual para igual com os progressistas. Minha geração cresceu após o surgimento dessa direita. A gente cresceu negando que o conservadorismo era um punhado de ignorante, de racistas, de radicais, de misóginos, de conspiracionistas, de tolos. Embora nunca se possa dizer que a direita brasileira teve alguma institucionalidade, podemos dizer que a direita americana assim o era. Queríamos ser que nem essa direita, tentamos estudar e provar que poderíamos ser bem articulados e bem pensantes. No fim, queríamos provar sobretudo que não éramos monstros. Queríamos provar que não éramos vilões, que apenas acreditávamos em pontos de vista distintos. No final, queríamos achar respostas para os anseios sociais tanto quanto os progressistas procuravam respostas para as necessidades da sociedade. Só que acreditávamos em diferentes caminhos.


A nova direita que vem surgindo existe para provar que todos os nossos esforços foram em vão. Se tentamos duramente provar que não odiamos mulheres, eles vão e provam que odiamos. Se tentamos provar que nossa visão de mundo não é racista, eles fazem campeonato para serem o grupo mais radicalmente racista do mundo. Se tentamos provar que nossa visão de mundo comporta pessoas de todas as sexualidades possíveis, eles declaram que é impossível ter a nossa visão e ser LGBT. Se certos grupos são retirados do movimento, é evidente que eles devem ir obrigatoriamente para outro. 


Hoje vemos até mulheres de direita sendo perseguidas pela legião de misóginos desmiolados que ajudamos a criar ou que profundamente ignoramos em sua gestação. Estamos nessa há anos: fingimos que esses grupos não existem. O motivo é muito simples: não queremos que nos acusem de não sermos de direita. Dia após dia, vemos uma legião de racistas se estabelecer na internet, como uma seita furiosa e numericamente numerosa. Mesmo que nosso país seja, por natureza, miscigenado, ignoramos esse problema. Quando começaram a atacar pessoas trans, muitos de nós acreditávamos que essas partes do movimento terminariam por aí. Tão logo estavam acusando todos os adversários e inimigos de serem homossexuais, na velha homofobia recreativa. Tão logo estavam praticando a bifobia. Se tudo começou querendo separar a sigla "T" do "LGB", logo separavam a sigla "B" e logo atacavam a sigla "L" e a sigla "G".


O mundo mudou muito. Não analisamos o cenário corretamente. Não reformamos nossas crenças à luz dos mais presentes acontecimentos. Precisamos notar que a globalização da tecnologia e da informação também é a globalização das teorias da conspiração, da desinformação, da guerra psicológica, da guerra informacional, da xenofobia, do racismo, da misoginia, da LGBTfobia. Além desses fatores, esquecemos que a descentralização dos meios de expressão por causa da internet também é a possibilidade de pessoas espalharem o seu ódio com mais eficiência e com mais impacto. Esse esquecimento foi crucial para a ascensão das piores correntes da direita política.


Isso tudo nos levará ao argumento de David Frum, outro conservador Never Trump:

"Talvez você não se importe muito com o futuro do Partido Republicano. Deveria. Os conservadores sempre estarão entre nós. Se os conservadores se convencerem de que não podem vencer democraticamente, não abandonarão o conservadorismo. Rejeitarão a democracia"

(David Frum, Trumpocracy: The Corruption of the American Republic)


Charles J. Sykes apresenta um diagnóstico de uma direita que trocou princípios intelectuais, prudência burkeana, factualidade e defesa da liberdade individual por tribalismo, entretenimento, ressentimento e uma realidade alternativa moldada por mídia de nicho. Como vimos em análises anteriores, recomendo ao leitor ou à leitora voltar às análises de David Frum, Rick Wilson, Stuart Stevens e Christopher Buckley. A direita pré-Trump era literária e institucional. Símbolos como William F. Buckley, National Review, Heritage Foundation ecoam em nossas mentes. Essas pessoas precisavam argumentar com dados e filosofia contra o establishment liberal dominante na academia e na mídia mainstream. A direita pós-literária se forma por memes, vídeos curtos, podcasts raivosos, personalidades do YouTube e Twitter, não por livros ou papers.


Como apresentado no parágrafo anterior, uma das noções centrais do livro, que é largamente comentada pelo autor, é a ideia de uma direita pós-literária. Isto é, não uma direita pautada em livros, mas sim uma direita que utiliza outros referenciais. Essa questão, a pós-textualidade, vem sendo marcante para muitas pessoas. Vários intelectuais, sejam esses de esquerda, centro ou direita, vêm tratando dessa questão. Muitos são os campos afetados por essa pós-literariedade, não só na direita, mas também na esquerda. De um modo geral, a pós-litariedade é uma condição que afeta múltiplos países. Aumentar os índices de leitura vem se tornando um drama de muitos países. 


As celebridades do antigo conservadorismo, que é de onde vem o núcleo duro dos Never Trumpers, são pessoas que leem muito e pertencem a uma camada que precisa apresentar defesas inteligentes do conservadorismo. O autor vem de uma época em que foi necessário construir um conservadorismo fortemente intelectualizado. Essa versão do conservadorismo americano começou a tomar força quando os conservadores criaram uma "arquitetura institucional". Exemplos notáveis disso são  "The Heritage Foundation", "The Badley Foundation" e "The American Enterprise Institute". Essa direita, muito diferente da direita trumpista, era uma direita fortemente institucionalizada, intelectualizada e academicizada. Era uma direita feita por responsáveis pelo debate público. Essa direita foi, diga-se de passagem, substituída. A razão? A internet retirou os freios que a mídia liberal colocava. 


O autor, em especial, criticará certos aspectos da Heritage Foundation. Ele afirmará que o braço militante da Heritage Foundation, a Heritage Action, atua em desconformidade com a tradição intelectual respeitável dessa instituição. Essa metamorfose gera um problema central: uma direita que deixa de ser aquela que defende uma primazia da liberdade individual e da consciência pessoal, mas passa a ser uma modeladora comportamental para seguir linhas de fidelidade mais radicais, o que leva a um fechamento epistêmico. Aliás, esse fechamento epistêmico se torna uma das principais condições da direita brasileira atual.


Vou analisar brevemente os consensos conservadores principais. 


- Consensos conservadores:

Existiram vários "consensos" conservadores. O autor se focou em dois até o momento:

- Pré-Reaganiano/Old Right (Velha Direita): existiam elementos anticapitalistas ou que eram opostos ao capitalismo em alguns aspectos. Setores mais tradicionalistas suspeitavam das dinâmicas capitalistas e acreditavam que eles eram uma ameaça. Exemplo disso é o Russell Kirk, ele via perigos na dinâmica capitalista para a ordem moral e comunitária;

- Reaganiano/New Right (Nova Direita): tenta uma síntese entre libertarianismo, conservadorismo e anticomunismo. Essa é a direita que surgiu com a revolução reaganiana. Foi uma direita bem-sucedida, uma direita de ideias que venceu a Guerra Fria e reconfigurou o debate.

Pós-consenso:

- Reformicon/Never Trump X MAGA, direita woke e populistas: atualmente, vemos a luta entre dois grupos, um bem menor, vindo de uma direita razoavelmente letrada e acadêmica, outro que vem majoritariamente. Traduzindo isso melhor, darei pequenas explicações de cada grupo. Os reformicons são mais intelectuais, preocupados com a classe trabalhadora, família e são contra o libertarianismo cru. Os Never Trumpers seriam defensores de normas institucionais e caráter. Já o MAGA é um movimento nacionalista e populista, de base usualmente trumpista, que é anti-establishment. Adiciono que estamos vendo rachaduras na direita MAGA.


Tive que pesquisar sobre o Tea Party para locupletar a minha visão a respeito do livro. Como ele é um movimento pré-MAGA e por muitas vezes considerado um prelúdio ou um capítulo prévio ao chamado nacional-conservadorismo e conservadorismo-populista, tive que estudar um pouco. Mesmo que meu estudo não seja, até o momento, satisfatório. O Tea Party (2009-2012) foi uma revolta fiscal e anti-Obama, com forte componente de protesto, financiado por bilionários e amplificado pela mídia conservadora (como a Fox). Era um movimento majoritariamente branco, de classe média e alta, preocupado com a dívida americana, com o governo grande e o "socialismo". Embora eu deva admitir que esse último item era enquadrado de uma forma meio estranha. Muitos analistas veem o Tea Party como ponte para o trumpismo: a mesma retórica anti-elite, a mesma desconfiança nas instituições, a mesma energia populista. Mas o Tea Party ainda tinha um verniz de constitucionalismo e conservadorismo fiscal. Trump acrescentou outros fatores. Tais como o personalismo, o protecionismo econômico, a imigração como eixo cultural e o desprezo aberto pelas normas. A base de apoiadores do Tea Party seria uma das mais leais a Trump.


Para dar uma contribuição melhor a interpretação do livro, vou adicionar outra camada. Uma situação histórica da direita é bem interessante. 


— Situação histórica da direita:

Olhando mais a fundo. Tenho que realizar paralelos históricos. Em primeiro lugar, preciso estabelecer que o conservadorismo não existe. O que existem são múltiplas escolas conservadoras. Porém, gostaria de diferenciar a linha conservadora que virá de Richard Hooker e a linha conservadora que se montará com John Locke.


Hooker trabalhará, em Of the Laws of Ecclesiastical Polity, com uma ideia orgânica da sociedade, com noções de teleologia, com a lei natural clássica e uma proximidade com o tomismo cristão. O central, em Hooker, é que a comunidade política não nasce de uma simples soma de indivíduos autônomos, mas sim de uma ordem moral que precede às escolhas individuais.


Locke, por sua vez, trabalhará com a ideia de que o indivíduo precede politicamente a comunidade, de que os direitos naturais têm centralidade, de que o primeiro plano é a propriedade e o consentimento, em que a sociedade política é vista mais como um contrato do que como uma continuidade histórica de um organismo.


A tradição Tory/conservadora canadense, na época de George Grant, era uma comunidade hookeriana. Ou seja, era pautada na deferência, no bem comum, na continuidade histórica, na autoridade legítima e na limitação ao economicismo liberal. A tradição conservadora americana tem como base o liberalismo lockeano, logo, é pautada na liberdade negativa, no individualismo, no mercado, nos direitos subjetivos e na tecnocracia expansionista. Nos Estados Unidos, liberalismo e conservadorismo compartilham a mesma metafísica básica. O que o conservador dos Estados Unidos quer conservar é uma versão mais tradicional do liberalismo.


É evidente que o conservadorismo dos Estados Unidos não seria inteiramente marcado por uma visão lockeana. Coube a Christopher Lasch ter uma visão mais aproximada de George Grant. Christopher Lasch perceberá que mesmo os conflitos de "direita" e "esquerda" partem de disputas internas do liberalismo. Ou seja, partem dum horizonte liberal comum. Lasch chegará à conclusão de que todos os cidadãos dos Estados Unidos são liberais de uma forma ou de outra. Visto que a discussão apontará para o primado do indivíduo, a suspeita diante de autoridades tradicionais, a centralidade dos direitos, o igualitarismo moral básico e a ideia de progresso. A crítica de Christopher Lasch faz sentido. O conservador dos Estados Unidos é um liberal clássico: liberal economicamente, constitucionalista, individualista, pró-mercado e defensor das liberdades negativas. Ou, mais precisamente, é um liberal clássico com sensibilidades culturais mais tradicionais. O que o conservador de lá está conservando é a Revolução Americana em sua filosofia lockeana, não uma ordem pré-liberal.


Se olharmos a argumentação do Red Tory inglês, o Phillip Blond, veremos que ele argumentará que o neoliberalismo econômico e progressismo cultural não são opostos reais, visto que ambos derivam do mesmo individualismo liberal. Além disso, ele notará que o mercado dissolve vínculos comunitários tanto quanto o Estado burocrático. Os dois, quando ligados, levarão à atomização social e produzirão simultaneamente consumismo e dependência estatal. Para Blond, diga-se de passagem, a direita liberal destrói comunidades via mercado e a esquerda liberal administra os destroços via burocracia estatal. A razão? Ambos compartilham a mesma antropologia individualista.


— Retornando a questão presente:


Muitos conservadores de verve mais intelectualizada e pessimista preferem deixar a direita que está aí se autodestruir. A tese isolacionista parece ser interessante. Se a direita moderna se resume a uma tribo inculta, cheia dos elementos mais nefastos, por qual razão não simplesmente esquecê-la e viver a própria vida? Isto é, deixar tudo para lá? De qualquer modo, eles vão defender que mulheres não devem ter o direito ao voto e perder o voto feminino. De qualquer modo, eles vão ser racistas e perder os votos das outras etnias. De qualquer modo, eles vão ser LGbTfóbicos e perder os votos LGBTs. Essa tese, até o presente momento, me parece a mais agradável. É uma das coisas que mais tenho feito. Para que fazer algo contra uma entidade política que vai se autoexplodir? 


Um dos principais tópicos do livro é a capacidade moderna de gerar um network de mídia alternativa que serve para gerar uma percepção alternativa da realidade. Essas mídias, mescladas às redes sociais, geram efeitos sociais não antes imaginados. Preciso ir além: precisamos urgentemente realizar um estudo sério a respeito da correlação entre mídias alternativas, vieses de confirmação, redes sociais, radicalização e psicose. Com base nisso, precisamos gerar uma regulamentação compreensiva. Isso seria estranho para outros conservadores, mas as reflexões dos Never Trumpers apontam para esse caminho.


Enquanto a nova direita não explode a si mesma por meio de suas pautas cada vez mais tresloucadas e pedidos de lealdade cada vez mais restritos, eu fico por aqui apenas lendo o que me agrada, sem fazer absolutamente nada. A ordem do dia mudou. Antes era: "salvar a direita da sua própria burrice". Agora é: "deixar a direita se afogar em sua própria burrice". Não estarei surpreso se, no Brasil, Lula ganhar o seu quarto mandato. Tampouco ficarei feliz se Flávio Bolsonaro ganhar o seu primeiro. No primeiro caso, já é uma tendência. No segundo caso, não fazemos parte da mesma linha de pensamento. O fato é: enquanto essa direita não se autodestrói, ela vai pouco a pouco destruindo instituições, espalhando desinformação, perseguindo minorias e corroendo as bases da democracia representativa. De qualquer modo, essa talvez não seja a solução. De qualquer maneira, preciso continuar a escrever sobre o universo referencial que venho olhado e acrescentar mais pontos que o autor não mencionou. Preciso escrever sobre a presente crise da democracia horizontal representativa (presente nos Estados Unidos e no Brasil) e a possibilidade de uma democracia vertical representativa.


Recentemente conversei muito com um amigo judeu. Falei sobre o antissemitismo crescente. Isso gerou uma reflexão histórica sobre a atuação de William F. Buckley Jr. Quando tendencias conspiracionistas cresciam, Buckley as expulsava. Buckley foi mais amorfo em relação ao racismo, isso foi um erro grave e deslocou negros para setores da esquerda. Atualmente, cresce no Brasil uma direita racista, misógina, antissemita e LGBTfóbica, essa direita é composta de duas frentes. Uma parte tenta ganhar simpatia de setores extremistas e do reacionarismo popular por puro oportunismo. Outra parte realmente acredita nas baboseiras que propaga. Uma retroalimenta a outra até que a outra se torna gradualmente majoritária. Ninguém acha nada errado nisso, visto que vê isso como uma base estratégica de crescimento eleitoral. De qualquer forma, o sonho populista se torna em projeto de poder e o reacionismo popular começa a cometer seus erros de sempre, o que leva a erosão de instituições democráticas e fomentação de políticas públicas não baseadas em dados... mas em teorias conspiratórias. Já tivemos uma dose bem alta disso no período da COVID-19.


A questão central que vai se desenvolvendo na lore de nossas instituições é a incapacidade cada vez mais crescente de conciliar políticas populistas e reacionárias insustentáveis com a permanência da democracia como regime possível. Dentro dessa condição, mecanismos meritocráticos e tecnocráticos são apresentados como solução política. Esses mesmos mecanismos não levam a uma melhora geral do quadro democrático, eles salopam a base democrática. Fala-se, em alguns setores acadêmicos, de democracia vertical e/ou democracia técnica. Nesse regime, só os melhores vereadores viram deputados estaduais, só os melhores deputados estaduais viram deputados federais e só os melhores deputados federais viram senadores. O mesmo se segue com o poder executivo: os melhores prefeitos viram governadores e os melhores governadores viram presidentes. Essa é uma solução que é encontrada diante da crise democrática. Isso seria uma forma de barrar a extrema-direita populista que cresce dia após dia.


A questão democrática, ou melhor, a questão da democracia representativa é uma constante em nossa época. A descentralização dos meios de expressão ocorreu graças a expansão da internet. Por meio dela, múltiplas visões se tornaram possíveis. Além disso, a rápida tradução de diversas ideias ao redor do mundo possibilitou uma expansão ainda maior de diferentes componentes ideológicos. Em meio a isso, a voz da população foi se tornando um fato político cada vez mais presente. Acontece que a celeridade dos eventos e a expressividade de teorias ou ideias deformadas se tornaram cada vez mais constantes. A expansão da voz populacional não foi só uma expansão de teorias cada vez mais rigorosas tecnicamente, mas também de teorias cada vez mais radicais e epistemologicamente frágeis. É em virtude disso que o mundo começa a parar de olhar tão somente para os Estados Unidos da América e começa a olhar para o sistema político chinês. Nele existe um componente mais tecnocrático em que critérios são apresentados para o crescimento político, fazendo com que só os políticos que mais cumpram as metas sejam capazes de ascender. No Brasil, vivemos em uma democracia horizontal, isto é, qualquer um pode se eleger a qualquer cargo executivo ou legislativo se cumprir critérios mínimos. Não se avalia a razoabilidade das suas ideias dos candidatos e nem se eles foram louváveis em cargos anteriores. Isso gera, de dois em dois anos, a eleição de pessoas que são intelectualmente e tecnicamente incapazes.


Quanto a possibilidade de uma república com um sistema de democracia vertical representativa, isso necessitaria provavelmente de uma nova constituição. Essa questão também levanta outra, a questão de quem define os melhores. Enquanto nenhuma solução é pensada para o sistema em si, a direita populista está pronta para substituir o princípio de realidade pelo princípio de lealdade tribal para cada acontecimento do dia. Nessa condição excepcional, quem ganha nunca é quem apresenta o maior estudo comparado de políticas públicas ou o maior conhecimento técnico sobre o papel que pretende desempenhar, mas sim que apresenta a narrativa mais cativante e a que mais prende, pouco importando se ela tenha alguma coisa a ver com a realidade que se apresenta como resposta.


Atualmente penso numa estrutura de uma democracia representativa diagonalista. Ou seja, um regime híbrido entre a democracia horizontal e democracia vertical.  Penso numa mescla entre o sistema brasileiro atual e um sistema chinês. Isto é, uma mescla entre democracia representativa horizontal e democracia representativa vertical. A estrutura seria mais ou menos essa:

1- Votação direta, cargo inicial de vereador;

2- Melhores vereadores podem se candidatar a deputados estaduais;

3- Melhores deputados estaduais podem se candidatar a deputados federais;

4- Melhores deputados federais podem se candidatar a senadores.

O mesmo se seguiria para cargos executivos:

1- Melhores prefeitos podem se candidatar a governadores;

2- Melhores governadores podem se candidatar a presidente.


Essa não é, evidentemente, a conclusão do autor, mas creio que o diagonalismo é a única forma de impedir o avanço das hordas populistas.

Acabo de ler "William F. Buckley Jr." de Lee Edwards (lido em inglês)

 


Nome:

William F. Buckley Jr.: the maker of a movement


Autor:

Lee Edwards


Estive muito tempo ocupado. Viagens e cursos ocuparam grande parte do meu tempo. Além disso, tive que treinar alguns tópicos que eram do meu interesse. Não pude, por infelicidade, me dedicar profundamente à leitura e à escrita. Todavia, garanto que retornarei ao meu vigor de outrora.


Lee Edwards é um homem fantástico. Estava procurando um bom historiador do movimento conservador dos Estados Unidos e me deparei com esse homem. A propósito, ele foi membro da Heritage Foundation. Uma instituição de que os leitores do blogspot já ouviram falar em diversas análises anteriores.


A razão de eu ter lido esse livro não poderia ter sido outra: ao ler bastante sobre os Never Trumpers, tive que me aprofundar em um estudo da história do movimento conservador nos Estados Unidos. Esse livro, para mim, serve como complemento para o entendimento das diversas configurações históricas do conservadorismo.


Buckley foi o pai do conservadorismo moderno, na sua configuração fusionista, isto é, em sua mistura de conservadorismo tradicionalista, libertarianismo e anticomunismo. Essa mistura criaria algo novo e que impulsionaria Ronald Reagan. William também seria pai do Intercollegiate Studies Institute e da revista National Review. Ler a sua biografia é compreender muito dos movimentos políticos que se formariam após ele.


Poderia escrever mais coisas, mas ainda estou me recuperando. Todavia, fica a recomendação desse autor e dessa obra.

Memória Cadavérica #51 — Aulas de Ortodoxia com Bolsonaristas?

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise curta sobre o que vem ocorrido no Reddit.


Bolsonaristas não tem direito de dar aula de "ortodoxia ideológica" pra ninguém!


BOLSONARISTAS NUNCA ESTUDARAM:


- Red Tory;


- Never Trump;


- Reformicon;


- Paleoconservadorismo;


- História do conservadorismo em outros países (como na América Latina, na América do Norte, na Europa, etc);


- Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo (American Compass).


É o tempo todo no Reddit: você fala qualquer coisa e aparece um bolsonarista aparece para lhe dar aula de "ortodoxia ideológica na direita brasileira". Eu fico pensando: "o cabra nunca fez um curso na Hillsdale College, nunca estudou as novas teorias da American Compass, nunca leu uma única revista da National Review, nunca estudou um único Red Tory, não sabe o que foi o Reformicon e nem o movimento Never Trumper, nunca viu um único curso na Christendom College e vem aí bancar o mega conservador".


Existem mais de vinte escolas de pensamento conservadoras, um paleoconservador não é o mesmo que um neoconservador, um conservatário não é a mesma coisa que um nacional-conservador, um federalista não é a mesma coisa que um originalista. Se bolsonarista falasse menos e estudasse mais, nem sequer seria bolsonarista.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Memória Cadavérica #46 — Aprovação de Donald Trump e conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa que ocorreu no grupo de WhatsApp de que faço parte a respeito do Donald Trump, do conservadorismo dos Estados Unidos e do conservadorismo no Brasil.


— MAGAtards will be the last group on the scene. Amigo, venho alertando que Trump é um imbecil há um ano e pouco. Quem leu os Never Trumpers e os Reformicons sabe disso.

— É o último mandato da vida del, você acha que ele realmente se importa com aprovação?

— Mesmo que ele não se importe, graças à excelente participação dele, o conservadorismo como movimento foi sacrificado em prol de seu nacional-populismo. Com os escândalos de Epstein, isso se torna ainda pior. Stuart Stevens falou com um homem endinheirado, ele disse isso em seu livro, esse homem lhe disse que gastaria uns milhões para salvar o conservadorismo depois do Trump. Já que os conservadores mais graudos e inteligentes já esperavam que ele destruísse tudo ao redor. No Brasil, isso não precisaria ser feito: quase não há um movimento conservador ilustre, acadêmico e institucionalizado para se preocupar.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Weirdposting #5 — I am just a misfit

 


>I take a breath another time

>readings that don't get over

>line after line

>I will write for /lit/ again

>thoughts without censorship

>beer after beer

>I travel so fast

>I don't know what love is

>George Grant after Christopher Buckley

>I can go

>I can pass to every topic

>NRx after Never Trumper

>my past is like a Saturn

>a great Ouroboros eating me

>girlfriend after girlfriend

>courses in Hillsdale College

>studies in Christendom College

>critical theory after tomism

>every anon wants to run the world

>I don't know why

>Dostoievski after Molière

>I can't touch the sky

>I am so serious in my ultimate thinking

>Nick Land after David Frum

>no girl really loved me

>no woman really loved me

>thread after thread

>I am just a misfit

>without a real love

>book after book 

>I take a breath another time

>readings that don't get over

sábado, 2 de maio de 2026

Weirdposting #1 — The High-T Middle Class Manifesto

 


>we, the middle class

>we will not use belts

>we will use suspenders

>we will not have sex

>we will make boudoir photography

>we will not use caps

>we will use top hats

>we will not support Trump

>we will support Never Trumpers

>we will not be socialists

>we will be Red Tories

>we will not drink IPAs

>we will drink single malt scotch

>we will not cancel people

>we will just sigh disappointedly

>we will not go to therapy

>we will retreat to the estate

>we will not eat the bugs

>we will eat grass-fed steak, medium-rare

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Caveira Casual #7 — The Cure, Almografia e Automutilação Emocional

 


Começo colocando o início do álbum "Faith" do The Cure. A começar pela música "The Holy Hour". Mais uma vez, impressiono-me com o baixo. Isso vem se tornando uma rotina. Colocar uma música e escrever. Mais uma vez, não me impressiono com o debate brasileiro e com como o Congresso impressionou Lula. Não tenho nada a dizer. Eu não espero nada do Congresso, eu não espero nada do Governo. Se não fosse por isso, não passaria a maior parte do meu tempo lendo e estudando a política de outros países. Os movimentos Never Trumper, Reformicon, Red Tory e a China me impressionam mais. Faço isso por causa do tédio. O debate brasileiro parece ser algo que eu já sei o que acontecerá. É como uma série na qual até mesmo mais violento spoiler não impressiona em nada e cheira a clichê.


"Primary" começa a tocar. Em um ritmo mais rápido, diga-se de passagem. Não perde a tonalidade sombria, mas o som vem mais agressivamente. É como correr bêbado no escuro em uma rua deserta de uma cidade urbana. É como rir bêbado no alto da calada da noite. Em uma espécie de efusão momentânea de algo que você não sabe o que é. Algo que vem como uma risada de desespero. Tal como a política brasileira, é como rir de algo ridículo que você já esperava mesmo. Não espero nada, não me entregam absolutamente nada. Não que eu seja niilista, a realidade é que é. Não luto contra ela, apenas bebo meu álcool e a esqueço. Vocês que insistem em citar Getúlio Vargas e Carlos Lacerda esperando que algo de mágico volte a ocorrer.


"Other Voices" começa a tocar. Sigo o ritmo alucinante da escrita surrealista. Escrevo sem parar para que tudo que tenha na minha mente possa vir a pipocar e quebrar por meio de palavras que formam frases. Tentando extrair cada canto obscuro do meu inconsciente. Tentando voltar ao pouco de originalidade que ainda me resta, visto que foi obrigado a sair de mim. Não paro, nem por um minuto, para que minha obsessão tome forma estilística. Escrever dessa forma é como escrever bêbado. Não sei se o leitor ou a leitora já tentou. Compreendo a razão dos /mu/tants do 4chan serem muitas vezes libertários.


"All Cats Are Grey", essa é a música que começa a vir. Tal como tudo na vida, é uma questão de instante. Mesmo que eu esteja cansado de escrever, preciso extrair de mim aquilo que me impede de escrever. Forçar uma revolução tal como se extrai um coração de um vampiro. E quem não é um vampiro? O vampiro não sai de dia, visto que pertence à noite. Pertence à noite, visto que não está no nosso mundo. O vampiro rejeita o alho, já que o alho é saudável. O vampiro vive em festas de mistérios, já que a festa o aliena da reflexão sobre si mesmo. O vampiro teme a cruz, tal como o diabo teme a cruz, visto que o que teme é o sofrimento. O vampiro existe para se vincular a tudo que é alienante. O vampiro existe para tomar sangue em sua natureza parasitária. Eu entendo isso, eu sou assim. Eu sou um vampiro há muito tempo. Sempre me escondo. Sempre vou embora. Não há nada que me livre dessa condição. 


"The Funeral Party". Essa é especial. Soa como um romance doce e inacabado de alguém que já partiu e nunca mais voltará. Ela traz o desejo de um retorno que nunca poderá retornar. Tristemente deliciosa em sua proporção. Evoca a mais tenra depressão. De alguém que chora com um misto de felicidade e tristeza. Felicidade, visto que lembra da pessoa amada. Tristeza, visto que a pessoa amada nunca voltará. Como tenho uma vida recheada de erros, sei como é sentir isso. Lembrar de cada fragmento de momento. Sabendo que errei em cada um deles. Sabendo que fiz partir quem profundamente amei por causa da minha natureza doentia. Conjecturo como seria minha vida se eu não tivesse errado tanto. Como seria se eu não fosse tão volátil? Como seria se eu não fosse tão doente, tão podre, tão errático. Deduzo, a partir de um cálculo psicológico e criminoso, que seria muito melhor. Seria melhor até mesmo se eu nunca tivesse existido. Seria melhor até mesmo se eu tivesse já partido.


"Doubt". É uma das mais violentas do álbum. Parece uma alcateia de lobos correndo atrás de um coelho assustado numa noite de Lua cheia recheada de neve. É como correr após desligar toda a mente na tentativa de descarregar todas as emoções do corpo. É o que tenho feito. Descarregar e descarregar. Mesmo quando termino de psicologicamente correr, os sentimentos e as memórias ainda estão infelizmente lá. Não importa quantas latas de cerveja, não importa quantas doses de cachaça, não importa com quantas pessoas eu fiquei, não importa quantos casos resolvidos, não importa quantas investigações eu faça. Eu sempre estou tentando explicar, demonstrar, fazer alguma coisa que prove que minha alma é real nesse universo de lixo.


"The Drowning Man". Essa é mais calma. É como estar numa praia na noite. Está chovendo e ventando de leve. Os coqueiros simplesmente balançam. Estou sozinho. Estou sozinho a desenhar o universo em desencanto. Minha mente se eleva para pintar cada quadro obsessivamente depressivo que surge das minhas dúvidas. Não há nada que eu possa fazer. Dói. Todavia, eu sinto que quero continuar nessa condição de esvaziamento melancólico. Tal como se eu não pudesse mais fazer nada. Eu sinto que preciso continuar. Sinto que estou a desenhar cada contorno torto de minha alma. Quero que tudo vá, para que eu possa ver a almografia da minha alma. Quero desenhar cada um dos meus pecados, quero desenhar cada um dos meus erros, quero desenhar cada beijo falso que dei na esperança torpe de tornar a minha falsidade real no coração de alguém. Sei que isso é arriscado. Sei que tudo isso soa depressivo. Todavia, a continuidade da dor é o remédio de que preciso para refazer esse espelho quebrado que chamo de chama da minha alma.


"Faith". Essa é a última música. Também é a música que dá nome ao álbum. Ela corre obsessiva e lenta, como os dedos carinhosos de mulher amada. Lembra-me dos cafunés que abandonei em prol dos novos erros da minha alma desalmada. Cada boca amorosa que abandonei na busca de curar o abandono que senti em minha infância apequenada. Cada abraço que fugi em prol de recordar que eu sempre serei só. Estou sempre a correr em círculos. É a dialética do ouroboros. Estou sempre a comer meus erros passados ao cometê-los de novo e de novo. Saturno sempre devora seus filhos. Eu sou Saturno dos meus erros. Cometo-os novamente, apenas para apreciá-los psicoticamente em cada dor que causam ao meu estômago. Sentir dor é, atualmente, a única coisa que me faz sentir que sou real. Ardentemente prossigo em minha automutilação emocional. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Caveira Casual #4 — Em Meio ao Ruído

 


Enquanto eu olhava para meus supostos aliados, pude identificar os mais distintos e irritantes grupos:


- O direitista-histérico-em-perpétua-indignação-moral:

Esse sujeito, que pode atualmente ser de qualquer sexo, aparece dia após dia, em formato de vídeo. Todo dia, ou toda semana, ele ou ela precisa metralhar a sua indignação moral contra algum objeto, sujeito ou acontecimento. Esse modelo é um modelo de sucesso quase que absoluto entre o chamado "direitista influencer". É muito comum em políticos. 


- Liveísta:

A direita liveísta é aquela que aparece todo dia ou toda semana com uma "live" (conteúdo transmitido ao vivo). O objetivo dela é usualmente fazer reação a todo tipo de conteúdo. Esse tipo de conteúdo, diga-se de passagem, é perturbador. Eu não aguento ver. Me parece um misto de falta de imaginação com preguiça. Além disso, esse tipo de formato só é acessível para quem tem tempo livre para ver isso. Algo que muito provavelmente não é a realidade de quem trabalha.


- Vendedor de Cursos:

Essa moda, cada vez mais presente, aparece por todos os cantos. Ao que parece, só a direita americana fornece cursos gratuitos por meio de instituições respeitáveis como a Hillsdale College e a Christendom College. É meio que "se você quer ser de direita, pague para nós". Esse tipo de direitista só existe quando ele é, em si mesmo, uma espécie de celebridade. Porém, sabemos que para ser uma "celebridade de direita" é preciso se tornar um "orgânico de partido" ou um "orgânico de movimento". Se você não consegue sacrificar a sua criticidade, esqueça esse caminho.


- Direita Woke:

Esse aqui é altamente encontrado pela internet. Ele serve para ficar o dia todo enchendo o saco. Ele também possui o estranho costume de ficar o dia todo atacando obras que a esquerda woke fez ou supostamente fez. Ele não percebe que é tão woke quanto a esquerda woke. É o típico direitista que pensa pertencer ao politicamente incorreto, quando na verdade está apenas a exigir que todo mundo siga o seu padrão moral. Outro hábito muito comum na direita woke é passar o dia todo praticando a chamada "LGBTfobia recreativa". A sua compulsão maior é a de acusar tudo o que não gosta de ser LGBT. O mais curioso é quando esse grupo tem que ofender o grupo adversário, na montanha de qualificativos negativos, ele coloca que ser LGBT é um "crime" tão absurdo quanto ser um assassino.


Eu estou aqui, lendo George Grant, anotando todos os principais insights no caderno em inglês e depois passando tudo para o português nesse blogspot. O resto da assim chamada "direita" muito provavelmente nem sabe quem é George Grant. Ou, quem sabe, prefere não dizer para não estragar a "excelente" parceria com a assim chamada "burguesia nacional". É muito feio ler Red Tory. Para piorar, o meu Blogspot também traz vários teóricos de esquerda. Além disso, não tive medo de trazer os Never Trumpers para cá. Ou seja, sou, no mínimo, um dos sujeitos mais suspeitos e questionáveis. Tal como um alienígena estacionando um disco voador na praia em pleno feriadão.


Poderia tentar fazer alguma coisa para ajudar em algo, mas isso seria problemático. Minhas visões particulares cavam um abismo entre mim e o restante da assim chamada direita nacional. Em vez disso, tenho a particular preferência por ficar a ler e a resenhar livros e artigos acadêmicos. Sigo uma política que poderia ser descrita nos seguintes termos: quanto à direita nacional, finjo que ela não existe. O hábito constante de querer


Como quero esquecer a existência da assim chamada direita nacional, volto a escrever sobre filmes. Os escritos anteriores dessa série (Caveira Casual) abordaram filmes; quero voltar a escrever sobre isso. O último filme a que assisti é outro Found Footage. É o Grave Encounters, filme canadense de 2011. Outro filme que encontrei no /tv/ do 4chan. Como podem ver, o homem nasce normie, a misantropia e o 4chan o tornam hipster. Hoje vou fazer algo diferente. Vou explicar o filme colocando-o em paralelo com a assim chamada "direita nacional".


Take 1: Grave Encounters


Grave Encounters, de 2011, é um filme que trabalha com assim chamada "indústria do paranormal". Ele não é apenas um terror de câmera na mão, um hipster found footage, ele é um comentário ácido sobre a encenação da realidade na televisão.


Take 1: Direita Nacional


O paralelo que podíamos ter seria o do típico direitista-histérico-em-perpétua-indignação-moral. O nosso protagonista (ou nossa protagonista) seria o(a) típico(a) charlatão (charlatã) que fica fazendo teatrinho nas redes sociais.


Take 2: Grave Encounters e a Desconstrução do Reality Show


Lance Preston, o nosso protagonista, representa o arquétipo de apresentador carismático e charlatão.


O horror real começa justamente quando a farsa profissional perde o controle. A ironia reside no fato de que Lance Preston e a sua equipe passaram anos fingindo contato com o além e, quando o contato finalmente ocorre, eles não têm ferramentas, nem emocionais, nem técnicas, para lidar com isso.


Take 2: Direita Nacional e a Desconstrução da Direita Woke


Um belo dia, nosso(a) querido(a) direitista woke seria obrigado, por razões de circunstâncias completamente ficcionais, a ser de direita de verdade. Nosso(a) protagonista logo descobriria que LGBTfobia não é argumento e que ele(a) precisaria produzir coisas maiores do que vídeos falando sobre a "hipocrisia da esquerda".


Talvez fosse obrigado(a) a alguma pauta concreta, como faculdades de artes liberais, articular diferentes escolas do pensamento de direita (como ordoliberalismo, Red Tory, paleoconservadorismo), fundação de institutos para geração de políticas públicas de direita pautadas em dados ou qualquer coisa que um(a) direitista de verdade faria. Coisa que nosso(a) protagonista não conseguiria, visto que é um(a) imbecil.


Take 3: Grave Encounters e o Espaço como Antagonista


Diferente de outros filmes de casas assombradas mais tradicionais, o filme Grave Encounters trabalha com a ideia de hospital psiquiátrico mal-assombrado que se comporta como um organismo vivo. Ele também trabalha com todo aquele imaginário psicológico dos manicômios. O espaço trabalha como adversário da seguinte forma: a arquitetura muda, as janelas desaparecem e os corredores se tornam infinitos.


Take 3: a Direita Woke e a Burrice como Antagonista


A direita woke teria que se lidar com uma das piores coisas que podem ocorrer com a direita nacional: uma população e uma mídia que realmente conhecem as múltiplas tradições do pensamento de direita. Coisa que, convenhamos, nunca virá a ocorrer no Brasil, mas como isso é um cenário absurdo e hipotético, dou-me a essa licença poética.


Em vez de entrevistas idiotas com lambedores de saco, o(a) direitista seria confrontado(a) com questões sobre ele(a) ser mais paleoconservador(a) ou neoconservador(a), se ele(a) seguirá uma agenda política mais Red Tory ou mais Blue Tory, se ele(a) assistiu o último vídeo da American Compass ou o último vídeo da Hoover Institution. Quando ele(a) percebesse, estaria levando uma surra argumentativa por não ser um(a) conservador(a), mas mais um(a) imbecil da direita woke.


Como podemos ver, o maior perigo para charlatãos do sobrenatural é que exista realmente um sobrenatural e que eles tenham que se lidar com isso. Como também podemos ver, o maior perigo para a direita charlatã brasileira não é a existência de uma esquerda, nem a existência de uma esquerda altamente letrada, mas sim de uma população e de uma mídia altamente educadas nas múltiplas tradições do pensamento de direita.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Memória Cadavérica #44 — Um Conservador Diferente

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: uma resposta breve e razoável.


Eu considero que o marxismo de Deng Xiaoping é o socialismo chinês que se conecta com o pensador Confúcio, uma espécie de conservadorismo confuciano que se mescla com marxismo. Isto é, mantêm-se certos aspectos do planejamento central, mas adicionam-se aspectos de mercado e de mentalidade confuciana. Christopher Lasch provou que é possível um conservadorismo que bebe das fontes do marxismo e da teoria crítica. Já George Grant traz um conservadorismo que bebe de Nietzsche, Hegel e Heidegger. Eu seria uma espécie de Red Tory moderno, conectado com os Never Trumpers e conservatário (conservador libertário, tal como Nelson Rodrigues e Christopher Buckley) nos costumes. Adquirindo aspectos rurbanistas de Gilberto Freyre e distributistas de G. K. Chesterton.


Christopher Lasch é, para mim, um caso paradigmático. Ele constrói o que chama de "populismo radical", uma crítica do progressismo liberal e do capitalismo de mercado que mantém a sensibilidade antimoderna do conservadorismo, mas herda a preocupação marxista com as consequências humanas do capitalismo desenfreado. Essa é uma tradição real que é dialogante com a tradição Red Tory. Lasch é influenciado pelo marxismo de E. P. Thompson e é crítico tanto do capitalismo de consumo quanto do progressismo liberal das elites. Apresenta noções como os limites humanos contra o progresso ilimitado, o valor do trabalho produtivo das classes médias e baixas, as comunidades locais e tradições contra a meritocracia globalizada e a nova classe de profissionais-gerentes.


George Grant, por sua vez, é representante de um conservadorismo que não teme Hegel ou Heidegger, isto é, que aceita a modernidade em seus termos filosóficos mais radicais, não como negação, mas como confronto. O socialismo chinês me aparece como um conservadorismo confuciano mesclado com marxismo. Há algo de extremamente conservador nessa leitura do marxismo pelo PCC (Partido Comunista Chinês): o confucionismo sempre priorizou a ordem hierárquica, a harmonia social, o papel do Estado como tutor moral. O PCC herdou essa estrutura de pensamento, apenas substituiu o Imperador pelo Partido. O que dialoga quase que perfeitamente com noções desenvolvidas pela tradição Red Tory do conservadorismo. Se o socialismo com características chinesas procura a harmonia social e apresenta o bem comum como objetivo, o Red Tory traz uma sensibilidade social que também atua na defesa da ordem, hierarquia e comunidade orgânica. O Estado não é inimigo da tradição, mas instrumento do bem comum contra o individualismo liberal-capitalista puro. George Grant será a integração da dialética e historicidade hegelianas, com a crítica da modernidade niilista de Nietzsche e a tecnologia como destino metafísico de Heidegger. Para Grant, o conservadorismo autêntico não negará a modernidade, mas enfrentará em seus termos mais profundos. Ele questiona a "vontade de vontade" tecnológica, visto que essa dissolve particularidades nacionais, tradições e limites morais.


Gilberto Freyre e G.K. Chesterton convergem em um ponto: ambos desconfiam da concentração, seja de terra, capital ou poder. O distributismo de Chesterton e o rurbanismo de Freyre compartilham uma intuição pré-capitalista: que a comunidade local, a propriedade difusa e a economia moral são superiores à lógica industrial abstrata. A síntese rurbanista-distributista é uma forma de conectar o Brasil rural e urbano, desconfiando da histórica concentração latifundiária no campo e da concentração oligopolista no meio urbano.


Nelson Rodrigues, por meio da sua dramaturgia, e Christopher Buckley, por meio de suas novelas, apresentam um conservadorismo que não é moralista, mas socialmente crítico do moralismo chauvinista de setores da direita. Eles representam o conservadorismo antimoralista, crítica do moralismo burguês, seja de esquerda ou de direita. Opõem-se ao falso pudor, enquanto defendem uma visão trágica e realista da natureza humana. Quando juntos, vemos um conservadorismo espirituoso, literário, cético quanto ao moralismo chauvinista. Isso evita um conservadorismo puritano que se afasta das realidades humanas mais complexas.


A minha conexão com os Never Trumpers se da pela conexão estética e estilista, isto é, a rejeição de um populismo grosseiro e a defesa de costumes ligados a academicidade e institucionalidade como norte político.


sábado, 11 de abril de 2026

O Necrológio Cadavérico #9 — Crimes na Internet


Se eu morresse hoje...


Estive desaparecido. Cometeram vários crimes usando meu nome. Enquanto cometiam crimes usando meu nome, estive vivendo. Bebi um pouco. Sai um pouco. Ouvi muita música. Recentemente apresentei a um amigo a música "L'Amour Toujours" de Gigi D'Agostini, também apresentei a música "Don't Worry Baby" do The Beach Boys e "Bear" do The Antlers. E, sim, eu acho penoso que gente de extrema-direita transformem uma música tão bela como "L'Amour Toujours" em um hino para nacionalistas brancos.


Também conversei com uma amiga, comentamos um pouco sobre a regulamentação da internet. Nisso ela entrou naquele papo sobre redpills. Disse para ela que não vejo problema algum de redpills sumirem do debate, visto que eles não acrescentam absolutamente nada ao debate. Tratar o movimento redpill como uma escola de pensamento respeitável é um erro que não me permito. Da última vez que vi um redpill, vi ele falando durante trinta segundos que a esquerda é ginofascista e a direita é ginocêntrica... pensei "bullshit" e pausei o vídeo. Nunca mais voltei ao vídeo.


Uma coisa que me pega é essa gente que se diz advogada da liberdade de expressão na internet. Sempre que alguém me diz isso, observo o perfil que ela sustenta nas redes sociais. Quase sempre é alguém que profere os mais diversos discursos LGBTfóbicos, misóginos, antissemitas e racistas. Ou seja, todo tipo de discurso que cai na Lei 7.716/1989. É incrível a estrutura comportamental desse tipo de sujeito.


Só reparar que:

- Tudo que um indivíduo não gosta é gay, tudo que é considerado ruim é gay, mas a homofobia não existe em nossa sociedade moderna e não há nada de errado em ser gay... embora tudo de errado em nossa sociedade possa ser atribuído a gays;

- A misoginia não existe e o Estado é "ginocêntrico/ginofascista", mas há sempre um grupo cujo o único hobby é atacar mulheres na internet;

- O racismo foi abolido com a escravidão, mas discursos pseudocientíficos de pureza racial e a ideia de "parditude como problema do país" se tornam, pouco a pouco, lugares comuns do discurso público em todas as redes sociais;

- Não existe razão para regulamentar a internet, visto que vivemos num gigantesca ágora na qual todo mundo respeita um ao outro, mesmo com a existência da panelinha/bolha da resenha cuja a especialização é cometer crimes na internet, sobretudo através de doxxing e discurso de ódio;

- Não existe razão alguma para combater o antissemitismo, mesmo que células neonazistas se reproduzam como coelhos pelos quatro cantos da internet.


Após ter lido muito os Never Trumpers e acompanhar os processos contínuos de radicalização nos Estados Unidos da América, não consigo encarar o mesmo processo no Brasil com tal leveza. A guerra fria civil cresce. Campanhas de marketing e discursos políticos vazios não levam a nenhum processo de reconciliação.


Quando vejo como estão as redes sociais, paro de usá-las. Desinstalei o X e o Instagram. Não sinto vontade alguma de olhar para ver o que há lá. Minha maior descoberta recente foram canais especializados em som de Aerosol. Além disso, tenho alterado minhas leituras. Estou relendo H. G. Wells em inglês e parei um pouco de consumir conteúdo puramente político. Minha mente precisa relaxar.

terça-feira, 10 de março de 2026

NGL #58 — Eu tomei posições mais centristas?

 



Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Eu me considero pragmático, pessimista e cético. Não alguém "ao centro", mas parte de uma tradição conservadora e reformista, não alinhada ao tradicionalismo moral.


Quanto ao suposto "centrismo", sempre fui alguém que gostava de ler muito. Livros de esquerda, de direita, de centro. Também sou alguém que gosta de ler publicações acadêmicas e científicas. Creio que quando você lê de tudo, você aprende a ver os mais diversos meios e as mais diversas pessoas. Isso impede que você cai numa desumanização do outro.


Creio que ter lido os Never Trumpers me marcou profundamente em tempos recentes. De algum modo, eu pude ver a toxicidade de tudo isso. Do mesmo modo, o mesmo pude ver ao estudar grupos radicalizados, guerras mentais e outros tantos assuntos. Também vejo a seitização social, que se enquadra na estrutura da guerra fria civil, como uma das maiores crises civilizacionais do século XXI.


Recomendo que leia essa análise em específico:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/acabo-de-ler-make-russia-great-again-do.html


Acho que as pessoas enxergam "centrismo" onde há aquele conservadorismo lento, construído por pragmatismo, pessimismo e ceticismo. Mas, de algum modo, a minha definição de conservador se parece muito com a definição de um centrista e a definição de conservador do brasileiro médio se parece muito com um tradicionalista ou um reacionário.


Também existem múltiplos outros pontos. Eu percebi o quanto teorias da conspiração, câmaras de eco, seitização, narrativismo em bolhas... eram nocivas para a sociedade. O pacto social se torna cada vez menos possível e as pessoas estão cada vez mais doentes.