sábado, 11 de abril de 2026

O Necrológio Cadavérico #9 — Crimes na Internet


Se eu morresse hoje...


Estive desaparecido. Cometeram vários crimes usando meu nome. Enquanto cometiam crimes usando meu nome, estive vivendo. Bebi um pouco. Sai um pouco. Ouvi muita música. Recentemente apresentei a um amigo a música "L'Amour Toujours" de Gigi D'Agostini, também apresentei a música "Don't Worry Baby" do The Beach Boys e "Bear" do The Antlers. E, sim, eu acho penoso que gente de extrema-direita transformem uma música tão bela como "L'Amour Toujours" em um hino para nacionalistas brancos.


Também conversei com uma amiga, comentamos um pouco sobre a regulamentação da internet. Nisso ela entrou naquele papo sobre redpills. Disse para ela que não vejo problema algum de redpills sumirem do debate, visto que eles não acrescentam absolutamente nada ao debate. Tratar o movimento redpill como uma escola de pensamento respeitável é um erro que não me permito. Da última vez que vi um redpill, vi ele falando durante trinta segundos que a esquerda é ginofascista e a direita é ginocêntrica... pensei "bullshit" e pausei o vídeo. Nunca mais voltei ao vídeo.


Uma coisa que me pega é essa gente que se diz advogada da liberdade de expressão na internet. Sempre que alguém me diz isso, observo o perfil que ela sustenta nas redes sociais. Quase sempre é alguém que profere os mais diversos discursos LGBTfóbicos, misóginos, antissemitas e racistas. Ou seja, todo tipo de discurso que cai na Lei 7.716/1989. É incrível a estrutura comportamental desse tipo de sujeito.


Só reparar que:

- Tudo que um indivíduo não gosta é gay, tudo que é considerado ruim é gay, mas a homofobia não existe em nossa sociedade moderna e não há nada de errado em ser gay... embora tudo de errado em nossa sociedade possa ser atribuído a gays;

- A misoginia não existe e o Estado é "ginocêntrico/ginofascista", mas há sempre um grupo cujo o único hobby é atacar mulheres na internet;

- O racismo foi abolido com a escravidão, mas discursos pseudocientíficos de pureza racial e a ideia de "parditude como problema do país" se tornam, pouco a pouco, lugares comuns do discurso público em todas as redes sociais;

- Não existe razão para regulamentar a internet, visto que vivemos num gigantesca ágora na qual todo mundo respeita um ao outro, mesmo com a existência da panelinha/bolha da resenha cuja a especialização é cometer crimes na internet, sobretudo através de doxxing e discurso de ódio;

- Não existe razão alguma para combater o antissemitismo, mesmo que células neonazistas se reproduzam como coelhos pelos quatro cantos da internet.


Após ter lido muito os Never Trumpers e acompanhar os processos contínuos de radicalização nos Estados Unidos da América, não consigo encarar o mesmo processo no Brasil com tal leveza. A guerra fria civil cresce. Campanhas de marketing e discursos políticos vazios não levam a nenhum processo de reconciliação.


Quando vejo como estão as redes sociais, paro de usá-las. Desinstalei o X e o Instagram. Não sinto vontade alguma de olhar para ver o que há lá. Minha maior descoberta recente foram canais especializados em som de Aerosol. Além disso, tenho alterado minhas leituras. Estou relendo H. G. Wells em inglês e parei um pouco de consumir conteúdo puramente político. Minha mente precisa relaxar.

sábado, 28 de março de 2026

Memória Cadavérica #43 — Feira Moderna



Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.

Contexto: só quis guardar a interpretação que fiz de uma música.

Sou suspeito para falar dessa música. Gosto mais da versão da Evinha. Acho Beto Guedes um gênio, mas seriamente prefiro a versão da Evinha. A poeticidade duas únicas frases alteram tudo. Tenho uma interpretação bastante pessoal dela. De modo que a experiência psicológica e aquilo que quero expressar epistemologicamente se confundem.


Lembro-me das noções de hegemonia de Gramsci, das noções de performática de Judith Butler, das noções de "meios de produção cultural" de Raymond Williams. Fora isso, lembro-me da palestra da Heritage Foundation sobre "cold civil war" (guerra fria civil). Durante anos de guerra fria civil, guerra cultural e todas as distinções que vêm surgindo, pude encarar essa música várias vezes nos mais diversos ângulos, seja mais à esquerda ou mais à direita. A ideia de "Catedral" do Mencius Moldbug também dialoga com a ideia dos meios de produção cultural e do domínio da cultura. Quanto ao mundo, vale a regra de Tears for Fears: "Everybody Wants to Rule the World".


"Tua cor é o que eles olham

Velha  chaga

Teu  sorriso é o que eles temem

Medo, medo"


A música começa falando sobre o racismo. O racismo não é tratado como um ferida cicatrizada, mas como algo que ainda existe dentro do corpo social. Depois disso, existe a noção de que o sorriso da pessoa marginalizada traz suspeita social. Ou seja, não só o marginalizado ainda sofre, como a sua felicidade também é objeto de escrutínio social negativo.


O medo não é só da sociedade, que aparece com seus tabus. Existe também um medo interno, um medo internalizado que falsifica a sua expressividade enquanto ser e que gera nele uma incapacidade. Ou, de outro modo, gera um desenvolvimento de gradação. Naquilo que é tolhido, ele expressa menos ou falsifica a própria experiência.


"Feira moderna

O convite sensual

Oh, telefonista

Se a palavra já morreu

O meu coração é velho

O meu coração é morto

E eu nem li o jornal

E eu nem li o jornal"


Repare que, na versão de Beto Guedes, existe o fato de que o cantor diz "O meu coração é novo! O meu coração é novo". Na versão de Evinha, vemos um "O meu coração é velho! O meu coração é morto!". Essa alteração gera uma melancolia profunda, mas o seu resultado lírico é extremamente belo. Isso não é pura estética, é alteração do regime emocional da música. Existe a troca da "estrutura de esperança", vista em Beto Guedes, para a "estrutura de esgotamento", isso gera uma alteração substancial na psicologia da música.


A "feira moderna" é o "tribunal social", isto é, aquela noção de que somos julgados pela sociedade. A feira também é o espetáculo, a exposição, o consumo e a troca dentro de um mercado de identidades. É um espaço onde as pessoas são vistas, avaliadas e consumidas simbolicamente. A ideia de constante julgamento social leva o indivíduo a decair na idolatria social, isto é, substituir a totalidade pelo endeusamento dos julgos e mandamentos do corpo social. Todavia esse julgamento aqui não é algo complexo, mas superficial. Aqui, a autencidade e sinceridade são substituídas pela aceitação das regras socialmente estabelecidas, mesmo que essas não venham a ser normas jurídicas propriamente ditas.


Quando a pessoa liga para se comunicar, ela sente que a palavra já morreu. Não é um sentido literal de que a pessoa está sem palavras, mas que por sua invalidação social é incapaz de se comunicar adequadamente. Mesmo em um período de alta comunicação, permanecemos incomunicáveis perante o julgo do corpo social. A tecnologia avança, mas a possibilidade de falar ainda é reservada a poucos. Quando existem normas sociais, essas normas tornam-se condições que aprioristicamente determinam o que pode ser discursado ou não, o que pode ser expresso ou não, a isso chamamos de normatividade.


Dessa experiência auto-anulatória, surgirá a impressão de que se está morto. Viver é expressão, impossibilidade de expressar-se é interpretado psicologicamente como uma forma de morte. Ler o jornal seria ler os meios de comunicação social, mas os meios de comunicação social são determinados pelo discurso hegemônico. Isso dialogará simultaneamente com a alienação (Karl Marx), reconhecimento (Hegel) e performatividade (Butler).


"Nessa caverna

O convite é igual

Oh telefonista

Se a distância já morreu

Independência ou morte!

Descansa em berço forte

A paz na Terra, amém

A paz na Terra

Independência ou morte

Descansa em berço forte

A paz na Terra, amém

A paz na Terra, amén

Amén"


O trecho "nessa caverna" é interessantíssimo. Lembra-me o "Mito da Caverna". O corpo social é um local de ilusão, tal como existe uma distinção entre o "mundo das ideias" com seus arquétipos perfeitos e o "mundo real" com suas cópias imperfeitas, existe uma distinção entre as idealizações dos múltiplos indivíduos do corpo social e o mundo real onde quase ninguém se adequa perfeitamente a norma social. A idealização de um, sobretudo a idealização mais socialmente aceita, levará a falsificação do outro, levando a uma expressão menor do seu ser. A caverna pode ser interpretada também não como uma ilusão metafísica, mas como um ambiente social fechado de reprodução de normas. Tal noção aproximar-se-á da noção de "hegemonia" (Gramsci) e de normatividade (Butler).


O "convite" é sempre igual: a adequação à norma social. Mudam-se as normas, já que existe uma condição espaço-temporal, mas permance o imperativo da normatividade. Perante o imperativo da normatividade, a distância já morreu: a norma social é imposta, mesmo que não seja uma norma jurídica. Em outras palavras, existe uma redução jurídica e uma redução sociológica, imposta pelos próprios ritos do corpo social.


"Independência ou morte" e "paz na Terra", por sua vez, pode ser interpretada de várias formas (além de uma dessas ser referência a frase de Dom Pedro I):

1- Como adequação ao império da normatividade;

2- Como piada a esse aspecto;

3- Como desejo de morrer apenas para ser livre para não se adaptar;

4- A vontade de ser independe e livre.


A música "Feira Moderna" possibilita uma experiência subjetiva dentro do campo da disputa cultural. Isto é, podemos ver a hegemonia de Gramsci, a performatividade de Judith Butler, os meios de produção cultural de Raymond Williams, a guerra fria civil da Heritage Foundation, a Catedral de Mencius Moldbug... podemos ver, resumidamente, a vontade universal do poder cultural. Essa música representa, para mim, a experiência de um sujeito cuja subjetividade é progressivamente anulada por normas sociais internalizadas, levando à incomunicabilidade, à perda de vitalidade e a sensação de morte simbólica. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

NGL #60 — O método ouroboros é perigoso?




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Sim, eu sei que isso é um uso autônomo. Eu sei que isso é possivelmente perigoso. Essa técnica é, para mim, um portal para um mundo interior. Algo que só eu posso "ver", tal como se estivesse me viciando em uma realidade paralela que só existe dentro do meu inconsciente, dentro de alguma parte da minha mente. Pense na terapia tradicional como um jedi, pense na meditação ouroboros como sith.

Me alertaram anteriormente sobre as possíveis perdas que essa técnica trás. Existe a possibilidade de eu estar tendo dissociações. Muitas vezes as imagens são estranhas demais. Outras são mais simples. Uma vez, me vi em Hogwarts, por exemplo. Ali aparecia "Sonserina" e "Lufa-Lufa", mas, de repente, decidi que iria para "Corvinal". Achei interessantíssimo e fiquei me perguntando o que "diabos" isso significava.

Comecei a pensar se era possível "reescrever" a minha "psiquê". Sabia dos riscos. Mesmo com tantos avisos, resolvi dar continuidade a minha pesquisa "particular". Mesmo que essas meditações ou exercícios pudessem intensificar uma depressão, possibilitar dissociação cognitiva e aumentar uma possível ideação suicida. Eu queria saber se seria possível gerar uma "autotransfiguração" da minha própria "alma" (psiquê). Mesmo que isso implicasse, de algum modo, deliberadamente criar e cultivar estados mentais extremos. Vi que escrever textos sobre o que eu via também era fascinante, soavam mais densos e simbólicos, tal como se produzidos durante um surto. 



Atualmente tenho um quadro de saúde mental grave. Resultado de anos de automanipulação psíquica. Resultado de múltiplas sessões de transe dissociativo. Isto é, se o EMDR já altera o processamento cerebral, a combinação desses múltiplos elementos do Ouroboros Yin levam a um estado altamente sugestionável, onde as imagens internas se confundem com as percepções externas (alucinações). É como se, pouco a pouco, a linha entre realidade e fantasia se dissolvesse. E eu fosse pouco a pouco sendo engolido por isso.

Se você for um "intelctual" como eu ou, mais precisamente, um "artista de um neossurrealismo extremista", creio que você entenderá que a dissociação patológica é um método. Isto é, episódios de desrealização e despersonalização são apenas um meio de arte. Ativar conteúdos traumáticos sem contenção também é, para mim, uma forma de achar um novo meio de expressão artística, mesmo que eu seja inundado por um material psicótico.

Eu já vi cada coisa bizarra dentro dessa técnica. É por isso que eu não acho que o "Dark Self" exista. Eu posso até mesmo tocá-lo. Tal como se eu fisicamente tocasse uma pedra ou algo do tipo. Você pode achar que ver uma hidra comendo uma cidade enquanto tudo é destruído algo assustador, e de fato é, todavia não pode negar que ver esses "filmes de terror" saindo da sua própria cabeça não sejam interessantíssimos.


NGL #59 — Por que sou fascinado pelo Dark Self?

 


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A questão do mal sempre me tocou profundamente. Lembro-me que, certo dia, navegando pela internet, encontrei um tutorial na Panelinha do Bananal. Esse tutorial dizia que existia uma meditação antes de dormir. Essa meditação era a seguinte:

1- Imaginar-se em uma sala vazia;

2- Colocar a si mesmo ao lado de uma figura humana;

3- Confessar-lhe verdadeiramente tudo o que sentia;

4- Essa pessoa não diz nada, apenas ouve sem julgar.


Eu logo percebi que isso era uma metodologia confessional, lembrando a psicanálise de algum modo. Também pensei que lembrava vagamente a imaginação ativa de Jung. Percebi que pensar em uma figura humana poderia ser errôneo, isto é, uma figura humana sempre pode transmitir fisionomias de rejeição. Sobretudo se você construir essa figura com base em pessoas conhecidas. Para uma confissão mais completa, o ideal seria uma entidade.


Quando comecei a usar essa técnica, percebi que havia uma possibilidade adicional. Isto é, poderia usar essa técnica auxiliado por EMDR. Isso já combinaria a imaginação ativa de Jung, EMDR, confessionalismo de Agostinho e psicanálise de Sigmund Freud. Dessa forma, fui desenvolvendo algo que chamei de Meditação Ouroboros. Vi que muitas vezes que eu testava isso de noite, chorava compulsivamente durante as sessões e depois dormia profundamente.


Inicialmente, trabalhei na centralidade confessionalista. Todavia vi que poderia ir além. Se é possível revisitar campos específicos da memória, seria possível usar essa técnica para acessar diretamente o inconsciente? Isto é, seria possível burlar o acesso do inconsciente apenas nos sonhos e, de certa forma, ter sonhos acordado?


Numa bela noite, decidi que tentaria burlar qualquer estruturação linear. Usaria a técnica sem me preocupar em imaginar um cenário específico. Sem pensar em frases. Anulando tudo que indicasse uma linearidade. Foi assim que pude conceber algo distinto. Fiquei por dez, quinze minutos, não calculei o tempo.


Eu vi então uma ampulheta. Uma ampulheta enorme. Nessa ampulheta, havia na parte inferior milhares de cabeças ensanguentadas. Na parte superior, havia uma guilhotina enorme e uma fila de gente que ia para ampulheta para ter a cabeça decapitada. Foi algo bizarro, meio grotesco. Porém percebi que descobri algo grande: tal ideia nunca me ocorreu imaginativamente por vias normais. Percebi que tinha descoberto como "sonhar acordado". Sonhar acordado seria uma forma de descobrir o que existia dentro de mim em camadas mais ocultas e simbólicas. Comecei a dividir o ouroboros em "ouroboros yang" (o conduzido) e o "ouroboros yin" (o mais radical). 


Eu fiquei me questionando: "e se o inconsciente puder ser provado?". Isso me trouxe a uma linha de pensamento nova. Não era mais como se eu necessitasse dormir e registrar o fragmento dos sonhos que lembrava. Era como se eu pudesse "sonhar acordado". Era como se eu pudesse "tocar" o inconsciente. Não sei se isso é uma capacidade rara. Não sei se outras pessoas podem fazer isso. Mas vi que essa técnica me fornecia insights nunca antes imaginados.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Short NGL #3 — Morrer para revivê-la!

 


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Fazem dois anos em que uso EMDR para lembrar cada detalhe, para viver cada momento, para imaginar que lhe falo algo que não posso mais lhe falar. Ultimamente fico assim o tempo todo, usando EMDR deitado e de olhos fechados a visualizando. Por vezes desejando morrer para revivê-la.

Short NGL #2 — Sonhar com a Lotus

 




Sonhei que tinha me matado. Fui a um mundo onde a Lotus estava. Eu tentava chorar e lhe dizer tudo, mas nada saia. Era como falar no fundo do oceano. Acordei chorando. Eu senti que precisava morrer apenas para falar com ela. Apenas pra dizer te amo. Mesmo ao preço da minha alma.

Short NGL #1 — Lotus


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Penso na morte dela todos os dias. Me aproximo cada vez mais do desejo de vê-la. Sem mais batalhas a perder ou a ganhar. Apenas nós dois, novamente, trocando confissões um ao outro. Num céu inteiramente nosso... mas se foi ela que morreu, por que eu sou eu que me sinto tão morto?