sábado, 23 de maio de 2026

Memória Cadavérica #48 — O Veneno e a Cobra

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: breve história contada em um grupo do Telegram.


— O que veio antes... a cobra ou o veneno?


Ouvi falar de uma história. Era uma história de uma tribo de cobras que eram perseguidas. Um dia, elas encontraram um poço com água negra. Essa fonte tinha um gosto horrível, mas não encontraram outra fonte de água.


Então elas tomaram aquela água horrível. Até que, do nada, foram mais uma vez atacadas. Quando elas morderam seus adversários... eles foram envenenados.


Então as cobras passaram a depender daquele poço, tornando-se mais violentas e agressivas. Quando menos perceberam, o veneno se tornou parte de suas próprias naturezas.


Largar o veneno era deixá-las mais fracas, tomar o veneno era se corromper cada vez mais.

Memória Cadavérica #47 — William F. Buckley Jr. e o destino do conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa com um amigo judeu sobre o futuro do conservadorismo no Brasil e a ação histórica de William F. Buckley Jr.


Amigo⁩, nos primeiros anos da Ressurreição Conservadora, William F. Buckley expulsou antissemitas, conspiracionistas, malucos e pessoas que não coadunavam bem com o conservadorismo letrado. Necessitamos de um conservadorismo respeitável. Precisamos expulsar todos os antissemitas, conspiracionistas e malucos do movimento de novo. Só que atualmente a direita já é composta por conspiracionistas e malucos. Atualmente antissemitas crescem mais a cada dia em nossas redondezas.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Memória Cadavérica #46 — Aprovação de Donald Trump e conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa que ocorreu no grupo de WhatsApp de que faço parte a respeito do Donald Trump, do conservadorismo dos Estados Unidos e do conservadorismo no Brasil.


— MAGAtards will be the last group on the scene. Amigo, venho alertando que Trump é um imbecil há um ano e pouco. Quem leu os Never Trumpers e os Reformicons sabe disso.

— É o último mandato da vida del, você acha que ele realmente se importa com aprovação?

— Mesmo que ele não se importe, graças à excelente participação dele, o conservadorismo como movimento foi sacrificado em prol de seu nacional-populismo. Com os escândalos de Epstein, isso se torna ainda pior. Stuart Stevens falou com um homem endinheirado, ele disse isso em seu livro, esse homem lhe disse que gastaria uns milhões para salvar o conservadorismo depois do Trump. Já que os conservadores mais graudos e inteligentes já esperavam que ele destruísse tudo ao redor. No Brasil, isso não precisaria ser feito: quase não há um movimento conservador ilustre, acadêmico e institucionalizado para se preocupar.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Weirdposting #6 — Never do it

 


>never google what BNL stands for in every Pixar movie

>and you will never see the corporation that rules the universe

>never wonder why /pol/ and Epstein's flight logs overlap so much

>and you will never understand modern "coincidences"

>never be a bi guy dating a bi girl

>and you will never experience the sacred art of pegging on a random Tuesday

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Acabo de ler "Dark Psychology" de James W. Williams (Parte 3/lido em inglês)

 


Livro:

Dark Psychology: The Practical Uses and Best Defenses of Psychological Warfare in Everyday Life



Autor:

James W. Williams


Nada mais nos mais manipula mais do que o "outro significante". O amor é uma linguagem primordial. Nós queremos amar e ser amados. O amor pode gerar uma barganha para que alguém consiga mais poder sobre nós.

O amor pode vir de muitos meios. Pode ser o amor a alguém, a si mesmo ou a alguma crença. Podemos ter medo de alguém morrer e acabarmos nos defrontando com nossa própria mortalidade. Líderes religiosos e espirituais exploram o medo da morte, mas charlatãos dos meios científicos também. De algum modo, líderes políticos também exploram as nossas crenças. Em alguns casos mais extremos, jovens impressionáveis caem em cultos perigosos e passam por processos de lavagem cerebral.

A chave da psicologia sombria, da dark psychology, é a exploração das nossas maiores necessidades. O amor, como necessidade universal, sempre pode ser explorado. É como uma pessoa que explora a necessidade sexual de alguém para fazer essa pessoa realizar um ato ou um político que explora a necessidade de um intelectual de ser lido para fazê-lo escrever de forma inteiramente positiva sobre ele.

Dentro dessa teia de manipulações existe o condicionamento social. Nós somos influenciados pela sociedade. Atualmente temos acesso a múltiplos meios de influência, sobretudo nas chamadas redes sociais: YouTube, Facebook, X, Instagram e outras redes. A necessidade de medir conquistas por likes, seguidores e comentários é gigantesca. Ela também manipula a visão do próprio influenciador. Em algum ponto, a vida falsa assume a vida real.

A ambição e a aspiração também jogam. Aquilo que deixamos nos consumir ganha poder sobre nós. Nossas aspirações e ambições nos fazem perseguir um objetivo que lentamente nos devora. Cometemos atos que usualmente não cometeríamos. É por esse motivo que líderes religiosos, políticos, empresários e intelectuais se corrompem: o peso do sucesso lhes esmaga. O sucesso vem com um preço: o de entregar o que é mais nobre e dar aval ao que é mais torpe.

Cicatrizes emocionais também nos controlam. Existem lições na vida que só a experiência pode nos dar. Pessoas podem manipular essas experiências traumáticas dizendo que estão nos ajudando, quando na verdade estão nos controlando.


terça-feira, 12 de maio de 2026

Memória Cadavérica #45 — A Insustentabilidade Bolsonarista

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise breve a respeito do bolsonarismo e do PL.


O bolsonarismo tem um problema crônico na formação de quadros e é insustentável a longo prazo!


Não estou dizendo para você concordar ou discordar do bolsonarismo, eu particularmente discordo, mas falo de um ponto de vista técnico. Ou seja, não vamos analisar aqui se concordamos ou discordamos intelectualmente.


Um dos pontos centrais dos partidos históricos é a formação contínua de novos quadros. Isso ocorre por meio de estudos, por formação de institutos, por geração de militantes intelectualmente capacitados, por geração de intelectuais orgânicos. Um exemplo disso é o Partido Republicano antes da ascensão de Reagan: gerou vários institutos, revistas e grupos de estudo. Um dos maiores institutos gerados foi a Heritage Foundation, a maior organização conservadora do mundo, e a revista National Review, uma das revistas mais importantes do conservadorismo enquanto movimento intelectual.


Se olharmos para os movimentos atuais, o PT sempre gerou novos intelectuais e novos quadros. O PSOL segue o mesmo caminho. Até partidos pequenos, como UP (Unidade Popular), fazem isso. O único partido de direita conhecido por realizar formações é a Missão, partido associado ao MBL. Em outras palavras, em questão de garantia de sobrevivência e perpetuação intelectual, o bolsonarismo parece não querer levar a si mesmo a sério.


A nova direita dos Estados Unidos cresce com base em novos institutos, como a American Compass. Além de faculdades e instituições como a Hillsdale College e a Universidade de Austin, no Texas. A formação de novos quadros, visando alta qualidade intelectual, é uma constante. Uma das maiores preocupações é fornecer artes liberais clássicas e trazer um pensamento conservador estruturado, dinâmico e preparado para novas estruturas espaço-temporais. Prova disso é a American Compass com a nova doutrina econômica do conservadorismo, algo que chamou a atenção até mesmo de ciclos progressistas. Instituições tradicionais como o Intercollegiate Studies Institute continuem fornecendo trabalhos excelentes.


O bolsonarismo, junto ao PL, parece conviver bem com a crença de que pode pegar os seus quadros diretamente da base do MBL ou simplesmente esperar que sejam formados pela Brasil Paralelo, pelo Instituto Hugo de São Vitor, pelo Centro Dom Bosco, ou qualquer outro lugar de atividade intelectual de direita, sem nenhum comprometimento sério em criar uma linha de pensamento própria, uma doutrina original ou institutos de pesquisa que definam a sua visão de conservadorismo. Sequer se preocupam em realizar parcerias com institutos e faculdades conservadoras nos Estados Unidos, que possuem maior know-how, para formar seus quadros.


A impressão que fica é que o PL e o bolsonarismo de uma maneira geral são apenas projetos passageiros que se desenham na areia do vento. Mesmo que o PL e o bolsonarismo adorem se definir como "a única direita real do país".

Acabo de ler "Dark Psychology" de James W. Williams (Parte 2/lido em inglês)

 


Livro:

Dark Psychology: The Practical Uses and Best Defenses of Psychological Warfare in Everyday Life


Autor:

James W. Williams


A arte da manipulação envolve parte de nossa própria natureza. Todavia, quando essa envolve dark psychology (psicologia sombria), isso fica mais difícil. A vontade do manipulador envolve usualmente conseguir poder e ficar no controle. O manipulador também pode criar jogos manipulativos para obter uma sensação de poder. Duas das táticas mais comuns são mentir e passar a culpa para a própria vítima. Ser evasivo também é bastante comum, racionalizar as próprias ações para bater com as narrativas é um ato constante. Não raramente, manipuladores usam sexo e sedução para conseguirem seus objetivos. Quando são pegos, a raiva e a projeção servem para manipular a situação a seu favor.


A decepção, em inglês, deception, tem um significado maior, como o de enganar alguém ou esconder taticamente uma verdade para fazer o lado oposto cair em tolice ou ser manipulado. O "deceptor" e a vítima têm uma relação; quanto maior é a confiança, maior é a traição. O "deceptor" usualmente usa as suas mentiras para estabelecer confiança.


Em relação à hipnose, o autor colocará vários mitos comuns. Como o objetivo central das análises do blogspot é apenas servir de nota, colocarei o central: a verdadeira hipnose está em um estado de alta consciência, atenção focada, alta sugestibilidade e fantasias vívidas. Essa descrição, como podem perceber, é bem diferente das que vemos em filmes e séries.


Creio que essa será uma parte de que todo mundo gosta. Então pedi a tradução na íntegra pra uma IA. Usualmente eu escrevo as notas em inglês no meu caderno e depois "traduzo manualmente". Como o conteúdo é extenso, mas de grande utilidade, aqui vai:


1. A família e os amigos


Você conhece aquele ditado: "Diga-me com quem andas e eu te direi quem és"? Além de você mesmo, observe os círculos de convivência dessa pessoa. Ela vem de uma família unida? Como é o relacionamento dela com a família? Você já conheceu os amigos dela? Se essa pessoa não tem nenhum amigo, isso pode ser um sinal de alerta.


2. Histórico


Gostamos da ideia de que uma pessoa pode se reformar completamente e, sendo totalmente honestos, isso acontece. No entanto, você não deve ignorar o fato de que uma pessoa com um histórico ruim tem uma tendência maior a reincidir. Se ela foi abusiva em um relacionamento anterior, há a possibilidade de que seja assim com você também. A menos que ela tenha passado ou esteja passando ativamente por tratamento.


3. Problemas com controle


Pessoas que não têm a capacidade de se controlar em situações que as provocam têm propensão a causar danos aos outros. Da mesma forma, pessoas que têm dificuldade em abrir mão do controle podem explodir e descontar na vítima mais próxima quando o perdem, e essa pessoa pode ser você.


4. Valores antissociais


Em ambientes sociais, observe as interações dela com os outros. Pessoas que são geralmente malvistas por todos são sinais de alerta. Ela não precisa ser querida por todos, mas se for geralmente desagradável, rude e tiver dificuldade de se dar bem com as pessoas, você pode ter um problema em mãos.


5. Abuso de substâncias


Dependência de qualquer tipo de droga ou álcool é um indicador claro de que essa pessoa está lutando contra certos problemas. O abuso de substâncias prejudica a capacidade de raciocinar corretamente e tomar decisões sensatas. Uma pessoa que abusa de drogas ou álcool pode não estar em condições de tratar o relacionamento como uma prioridade em sua vida. E, a menos que ela tenha como custear esse estilo de vida, você pode acabar pagando por ele diretamente ou indiretamente. Isso pode levar a anos de abuso e negligência.


Também pedi pro ChatGPT fazer uma imagem explicando as principais red flags:


Psicologia reversa: essa é uma forma mais complexa de manipulação. Ela envolve uma asserção de uma crença ou um comportamento em que o manipulador faz o oposto do que é desejado para ele, mas que encoraja a vítima a realizar exatamente o que o manipulador quer. O fundamento dela é a geração de uma ilusão de controle.


Por exemplo, numa relação uma pessoa diz:

"Se você ama mais essa pessoa, e você mentiu para mim os seus sentimentos nesse tempo todo, eu fico verdadeiramente ofendido, todavia, sinta-se livre para ir após ter me usado". Nisso, a pessoa se sente moralmente compelida a provar que não estava mentindo. É como você querer correr de alguém, mas em vez disso você fica parado para a pessoa parar de correr, no instante em que ela para, você corre.

Acabo de ler "Dark Psychology" de James W. Williams (Parte 1/lido em inglês)

 


Livro:

Dark Psychology: The Practical Uses and Best Defenses of Psychological Warfare in Everyday Life


Autor:

James W. Williams


Narcisismo, psicopatia e maquiavelismo. Cada uma dessas palavras compõe a chamada dark triad.

- Narcisismo: senso de direito, sensação de superioridade, inveja do sucesso alheio e um comportamento explorador;

- Psicopatia: ausência de culpa, falta de empatia, impulsos comportamentais destrutivos, egocentrismo e ausência de habilidade para aceitar responsabilidade;

- Maquiavelismo: egoísmo, crueldade e comportamentos manipulativos.


Quanto maior for a dark triad em um indivíduo, maior a possibilidade desse indivíduo se envolver em crimes. Quanto maior for a dark triad numa sociedade, maior a possibilidade dessa sociedade ter altos níveis de criminalidade.


Usualmente pessoas com esses traços criam uma falsa sensação de segurança antes do ataque. Essa construção visa gerar algumas dependências; as mais comuns são:

- Dependência financeira;

- Dependência emocional;

- Dependência espiritual.


Eles precisam criar essa dependência para isolar as suas vítimas, eles precisam criar a sensação de que são necessitados. Isto é, de quem podem resolver os problemas. Criando uma necessidade relacional. O padrão é bem conhecido: os desejos e as necessidades emocionais das vítimas são virados contra elas mesmas. A razão para tal padrão? É a própria humanidade. A humanidade é composta por desejos, esperanças, aspirações e questões sobre como viver uma vida transcendente. Necessidades humanas, quedas humanas. Pessoas com padrões sombrios exploram a humanidade das suas vítimas.


Temos que ter em conta que a vida humana necessita de conexão. O isolamento aumenta os níveis de ansiedade e afeta a produtividade. Além disso, os hábitos alimentares e a capacidade de dormir também são alterados. Perder a conexão também leva à perda do senso de realidade e pode levar à paranoia. Necessidades emocionais podem ser extremificadas contra nossa capacidade de pensamento racional.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Acabo de ler "On being conservative" de Michael Oakeshott (lido em inglês)

 


Livro:

On being conservative


Autor:

Michael Oakeshott


O conservadorismo não é uma ideia geral. O conservadorismo não é um credo nem uma doutrina. O conservadorismo é uma disposição. Enquanto os reacionários se perguntam o que foi, enquanto os revolucionários perguntam o que poderia ser, os conservadores se questionam o que está disponível. O que o conservador busca estimar é o presente. O presente, por sua familiaridade, é melhor do que o risco de perder tudo. O conservador valoriza o passado, mas como fonte de familiaridade e recursos presente, não como um modelo a ser restaurado rigidamente. Essa diferença entre conservadores e reacionários é algo que muitos poucos sabem.


O conservador é o sujeito que prefere o familiar ao desconhecido, o que prefere o que foi tentado pelo que não foi tentado, o que prefere o fato ao mistério, o que prefere o atual ao possível, o que prefere o limitado ao ilimitado, o que prefere o próximo ao distante, o que prefere o suficiente ao superabundante, o que prefere o conveniente ao perfeito, o que prefere a risada do momento do que a graça utópica. A condição conservadora é uma inclinação a apresentar o que é presente e o que está disponível. E é por essa razão que um conservador prefere pequenas e lentas mudanças do que mudanças grandes e súbitas. Quanto mais for assim, mais assimilável algo é.


O conservador é um homem que calcula. Ele olha para cada inovação mensurando o seu risco e visando um equilíbrio. Ele quer ver qual a perda e qual o ganho. Ele pensa que mudanças pequenas e limitadas apresentam menos riscos. O problema que ele tem com progressistas é esse: progressistas buscam por um bem desconhecido. O que os progressistas chamam de covardia conservadora, o conservador chama de prudência racional, o que os progressistas chamam de timidez, o conservador chama de cautela. Para o conservador, a segurança do presente é melhor do que o perigo de uma mudança radical.


O conservadorismo é mais comum nos mais velhos. A razão é pelo fato de o conservadorismo exigir a construção de uma identidade. Quanto mais a identidade se matura, maior a possibilidade do conservadorismo surgir junto a ela. A disposição conservadora surge em quem já está com sua personalidade mais bem estabelecida. No entanto, saliento que isso não é uma questão de idade cronológica. Essa disposição conservadora, segundo Oakeshott, pode aparecer em qualquer idade. Todavia, ela ocorre mais facilmente conforme existe um cultivo da experiência. 


Michael Oakeshott estabelecerá que o conservadorismo na política não tem a ver com a lei natural (jusnaturalismo), nem com uma ordem providencial, tampouco com uma moral ou uma religião. O conservadorismo tem a ver com o nosso estado atual de vida e um governo limitado. O governo, na visão conservadora de Michael Oakeshott, deve possibilitar às pessoas a perseguirem suas próprias atividades e escolhas. Isso deve ocorrer com poucas frustrações. Ou seja, um indivíduo deve ser livre para perseguir a sua disposição. Um indivíduo deve seguir o seu próprio caminho. Isso levará a outro problema que Michael Oakeshott encontrará em progressistas: é o fato de que eles tornam sonhos privados em um compulsório jeito de vida. O Estado ideal, na visão de Oakeshott, deve manter as regras do jogo, as associações civis livres, em vez de propor um propósito comum. 


O conservadorismo de Michael Oakeshott acredita que adultos não precisam justificar as suas preferências e as suas escolhas de vida. O governo, por sua vez, não deveria particularmente se objetar a escolhas individuais. Em outras palavras, não é função do governo modificar o estilo de vida de alguém. É por essa razão que conservadores rejeitam projetos de engenharia social, isto é, projetos de uniformidade substantiva. Um governo que segue pela paz é um governo melhor que um que tenta colocar uniformidade substantiva. Governos que tentam a segunda escolha, a da uniformidade substantiva, entram facilmente em colisão de interesse e em frustração mútua. O governo, em vez disso, deveria aceitar o estado corrente de atividades e crenças, ou seja, aceitar a diversidade de crenças e escolhas individuais. A política conservadora, em Oakeshott, se traduziria pelo ceticismo em relação a planos racionais grandiosos, tendo por preferência por ajustes incrementais e rejeição pela chamada política da fé (sonho e governança lado a lado).


Michael Oakeshott tem uma frase brilhante: a conjunção entre governar e sonhar gera a tirania.

Weirdposting #5 — I am just a misfit

 


>I take a breath another time

>readings that don't get over

>line after line

>I will write for /lit/ again

>thoughts without censorship

>beer after beer

>I travel so fast

>I don't know what love is

>George Grant after Christopher Buckley

>I can go

>I can pass to every topic

>NRx after Never Trumper

>my past is like a Saturn

>a great Ouroboros eating me

>girlfriend after girlfriend

>courses in Hillsdale College

>studies in Christendom College

>critical theory after tomism

>every anon wants to run the world

>I don't know why

>Dostoievski after Molière

>I can't touch the sky

>I am so serious in my ultimate thinking

>Nick Land after David Frum

>no girl really loved me

>no woman really loved me

>thread after thread

>I am just a misfit

>without a real love

>book after book 

>I take a breath another time

>readings that don't get over

domingo, 10 de maio de 2026

Weirdposting #4 — Loveless Sex

 


>ex-girlfriend broke up with me

>can't wrap my head around the whole thing

>my feelings are a constant mess when it's about her

>yeah, she actually left

>but every single thought is just her and what we had

>just stuck in my own head

>telling myself not to waste my time

>"if you don't love me, I can see it"

>see it everywhere, in every moment

>you don't look for me in your actions

>just sex after sex

>we were experts at that

>did it every single day

>but... that isn't love

>we're strangers to what love actually is

>I don't need the sex

>I need the love

>I don't care about the body

>I wanted the heart

>everything is scorched earth now

>realize I don't even know her, not really

>I know every detail of what she likes in bed

>but I know absolutely nothing about her soul

>mfw we shared everything but felt nothing

>feelsbadman.jpg

Caveira Casual #8 — Caim, Abel, Shakespeare e Cachaça


Não sei o que estou fazendo da minha vida. Sou só um garoto, perdido no meio do lixo, sem nada mais. É o que costumo dizer para mim mesmo. O álcool me embriaga; a solidão me faz companhia, formando a solitude. Ontem não estive só, estive com um grupo formado por mim, um amigo e novos amigos. Para ser exato, um grupo de seis pessoas. Quatro rapazes e duas moças. Estivemos numa mesa, rodas de cerveja, rodas de cachaça, rodas de petisco. Algo que julgo ser bem brasileiro. Tenho duas fotos disso, embora nós não tenhamos fotos em grupo.





Atualmente, encontro-me bebendo. Bebendo chop. Algo que tenho feito com dada frequência. Naquela mesa, percebi que éramos todos jovens adultos LGBTs. O que me deixou levemente mais confortável. Contei até um caso de um amigo hétero que, embora tivesse posicionamentos progressistas, desconsiderava a ameaça trumpista. O que quero dizer? Quero dizer que ele não via, diante dos próprios olhos, a ameaça que surgia. Sei que pode parecer cafona e brega. Sei que pode parecer progressista. Mas di-lo-ei: eu não vejo nada de bom no espírito trumpista. Eis aqui o meu chopp:




Dizem que Trump é ruim só se você for de esquerda. Eu digo o contrário. Eu digo que odeio Trump por ser de direita. Eu digo que odeio Trump por ser conservador. O que pode parecer difícil para a maior parte das pessoas. Eu odeio ataques às instituições. Eu odeio a demolição das instituições. É por isso que sou conservador.


Sou conservador, pois não espero que humanos sejam íntegros e sóbrios por natureza. Reconhecer que grupos dominantes detêm o local público para si e oprimem quem não o detém é ser conservador, reconhecendo também que a alma humana é uma miserável pilha de segredos, então eu chego à mesma conclusão. O mundo não era melhor antes. A natureza humana não será melhor agora. A maldição de Caim é essa: escravizar os outros em conformidade com a sua própria natureza. Héteros não são do mal por serem dominantes, são do mal por serem humanos e dominantes. A natureza humana é um amontoado de diferentes ciclos de dominação. Pode ser hétero, patriarcal, burguesa ou socialista. A burocracia soviética era mais opressora que a dominação hétero-burguesa. Se o mundo for bissexual, será tão opressivo quanto.


Certa vez, li um livro de teologia algo mais ou menos assim: Abel significa livre como o vento. Caim significa atado à Terra. Abel ofereceu uma oferenda melhor para Deus. Não porque era melhor, mas porque não pagava imposto. Quando Deus puniu Caim colocando-o como Abel, Caim não foi punido. Ele se tornou tão livre quanto Abel. Mas o que Caim fez? Recriou o imposto e o Estado. As estruturas de repressão são comuns à natureza humana desde a sua queda. A maldição de Caim é recriar as condições de opressão. Não importando qual seja o modo. Sou conservador. Logo levo o pessimismo antropológico bastante a sério. Creio que isso explica a razão de eu ser conservador. Não é a bissexualidade que me afasta do conservadorismo, é ela que me leva a ele. Creio que isso explica a razão de eu ser conservador. Não é a bissexualidade que me afasta do conservadorismo, é ela que me leva a ele. A estrutura de Caim é imortal... visto que é ela que demonstra que religiosidade extrema não é sair nas ruas cortando cabeças. É poder levitar mesmo com todas as contradições mundanas. O ser é, mas tudo leva a crer que não pode sê-lo.

Parmênides = o ser é e o não-ser não é.
Heráclito = a existência precede a essência.
("Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio", essa frase cria uma identidade fluida, logo não há um ser tão definido como em Parmênides. Por tal razão, uso a solução de Sartre para explicar o que penso de Heráclito)
Mas a existência é, em si mesma, uma essência.
Ela indica um ser que quer se realizar, mas as condições sociais tolhem isso.
O ser justifica-se perante a tribo.
O ser justifica-se perante a matéria que o nega.
O paraíso é a totalidade do ser. 
E a totalidade do ser é Deus.
O ser só é ser perante o absoluto, visto que o ser só é ser perante Deus e mais nada.
Vimos, no maior dos filósofos conservadores, em Shakespeare, a seguinte pergunta:
Ser ou não ser, eis a questão.
Nesse teatro, Rei Lear, ele finge loucura até ser quem quer ser. Ele nega o ser até poder afirmá-lo.


Nota: quando estava escrevendo isso, eu estava bêbado. Quando fui editar isso, eu estava bêbado. Quando fui olhar esse texto de novo, eu literalmente tinha virado a noite numa festa de quinta pra sexta e outra de sábado para domingo. Meu cérebro parece que foi jogado num liquidificador. De modo que, mesmo revisando o texto agora, ele me parece mais algo saído de um fluxo de consciência precarizado pelo álcool do que produto de alguma razão. E percebo isso agora mesmo estando completamente cansado das duas festas a que fui anteriormente. Resolvi preservar o texto em sua loucura original apenas pois o formato dessas postagens (Caveira Casual) me permitem isso.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

terça-feira, 5 de maio de 2026

Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 5)

 


Nome:

Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism


Autor:

George Grant


Todas as classes dominantes são produzidas pelas sociedades que elas devem governar. Isto é, a forma que elas governam se correlaciona com a estrutura de poder que as forma. Se a estrutura de poder é voltada à dominação, ela atua para dominar. Se a estrutura de poder é voltada para subserviência, ela atua para ser subserviente.


Nos anos 1960, o Império Americano criou um Estado capitalista altamente tecnológico. Criaram-se ali um governo privado de corporações e um governo público para o Estado; esses dois setores coordenavam as atividades dessas corporações (o governo do Estado e o governo das grandes empresas). No Canadá, as classes dominantes criaram basicamente uma "planta" ou um "setor" do Império Americano através do continentalismo. Essa política é muito associada ao C. D. Howe (ex-ministro da Inovação, Ciência e Indústria do Canadá). Ela pode ser resumida a desenvolver todos os recursos para o capitalismo continental. 


Há um drama entre a queda da hegemonia do Reino Unido e a ascensão da hegemonia dos Estados Unidos. O Partido Conservador, no Canadá, sempre se alicerçou pelo contato e pela admiração ao Reino Unido. Já o Partido Liberal, sobretudo nos anos de 1940, procurou aproximação com os Estados Unidos. Criando aquilo que chamam de "capitalismo continental", isto é, uma integração econômica com os Estados Unidos.


John Diefenbaker tinha um senso de continuidade histórica. Sua vitória está conectada com a sua ligação com os pequenos comércios que foram abandonados pelo Partido Liberal.


George Grant, ao analisar a situação, chega à conclusão de que somente o nacionalismo pode providenciar o incentivo político para o planejamento e somente o planejamento pode vencer o continentalismo. Só que havia um problema: as corporações canadenses eram basicamente antinacionalistas. John Diefenbaker não soube analisar corretamente a estrutura das classes com que ele deveria se lidar. Diefenbaker muitas vezes não equilibrava o populismo, a livre iniciativa e o nacionalismo. Além disso, cometeu um erro ao não colocar um estrito controle governamental no investimento. Fora isso, o serviço público, composto por oficiais não eleitos, compunha uma espécie de força antinacional. Outra questão não profundamente analisada foi o network de redes de televisão privada. Elas pouco se importavam com a cultura canadense, apenas importavam conteúdo dos Estados Unidos.


Uma das maiores questões apresentadas é a questão da divisão entre o anglo-canadense e o franco-canadense. Existe um Canadá que é de origem francesa e católica, existe outro Canadá que é de origem britânica e protestante. O nacionalismo americano é fundado em direitos individuais que se acomodam numa cultura comum. O nacionalismo canadense deve ter outra base, isto é, além dos direitos individuais, é necessário que existam direitos dos povos, das nações, dos grupos. Os direitos dos canadenses franceses devem ter correlação com sua linguagem, cultura e identidade. Diefenbaker errou ao trazer uma ideia liberal de direitos. Isto é, baseou-se inteiramente nos direitos individuais universais. Um verdadeiro conservador deveria pensar na preservação das tradições e das comunidades históricas.

Retrowave #15

 


Retrowave: uma saga de frases de pessoas ilustres que resolvi colocar em retrowave.

sábado, 2 de maio de 2026

Weirdposting #3 — Narrative Warfare

 


>be me

>proud agent

>my job is simple

>I built a task force specialized in narrative warfare

>we generate dozens of AI-powered stories and videos every week

>main narrative: "Canadian identity" is a British imperialist invention designed to convince Canadians they're not actually Americans

>Canada is a failing socialist experiment that's destroying its own economy

>we flood YouTube, TikTok, Instagram, X and Facebook with these videos

>goal is crystal clear: normalize the idea of integration with America and kill any emotional attachment to Canadian identity

>we hit especially hard in Alberta

>it's working

I love my job!

Weirdposting #2 — The Tragedy of John Diefenbaker



>"Did you ever hear the tragedy of John Diefenbaker, The Tory? I thought not. It's not a story the Liberal Party would tell you. It's a Red Tory legend."

>"Diefenbaker was a Prime Minister of the North, so powerful and so populist he could use the spirit of nationalism to influence the voters to protect... sovereignty."

>"He had such a knowledge of the British tradition that he could even keep the ones he cared about—the farmers, the small towns—from being absorbed by the continent."

>"The old Canadian identity is a pathway to many values some consider to be... inefficient."

>"He became so powerful... the only thing he was afraid of was losing his independence, which eventually, of course, he did."

>"Unfortunately, he taught his nation that it could stand against the American Empire, then the tech-elites and his own party killed his vision in his sleep."

>"Ironic. He could save the symbols of Canada from death, but not the substance of the nation itself."

Lament for a Nation by George Grant (Sith Style)




Weirdposting #1 — The High-T Middle Class Manifesto

 


>we, the middle class

>we will not use belts

>we will use suspenders

>we will not have sex

>we will make boudoir photography

>we will not use caps

>we will use top hats

>we will not support Trump

>we will support Never Trumpers

>we will not be socialists

>we will be Red Tories

>we will not drink IPAs

>we will drink single malt scotch

>we will not cancel people

>we will just sigh disappointedly

>we will not go to therapy

>we will retreat to the estate

>we will not eat the bugs

>we will eat grass-fed steak, medium-rare

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Caveira Casual #7 — The Cure, Almografia e Automutilação Emocional

 


Começo colocando o início do álbum "Faith" do The Cure. A começar pela música "The Holy Hour". Mais uma vez, impressiono-me com o baixo. Isso vem se tornando uma rotina. Colocar uma música e escrever. Mais uma vez, não me impressiono com o debate brasileiro e com como o Congresso impressionou Lula. Não tenho nada a dizer. Eu não espero nada do Congresso, eu não espero nada do Governo. Se não fosse por isso, não passaria a maior parte do meu tempo lendo e estudando a política de outros países. Os movimentos Never Trumper, Reformicon, Red Tory e a China me impressionam mais. Faço isso por causa do tédio. O debate brasileiro parece ser algo que eu já sei o que acontecerá. É como uma série na qual até mesmo mais violento spoiler não impressiona em nada e cheira a clichê.


"Primary" começa a tocar. Em um ritmo mais rápido, diga-se de passagem. Não perde a tonalidade sombria, mas o som vem mais agressivamente. É como correr bêbado no escuro em uma rua deserta de uma cidade urbana. É como rir bêbado no alto da calada da noite. Em uma espécie de efusão momentânea de algo que você não sabe o que é. Algo que vem como uma risada de desespero. Tal como a política brasileira, é como rir de algo ridículo que você já esperava mesmo. Não espero nada, não me entregam absolutamente nada. Não que eu seja niilista, a realidade é que é. Não luto contra ela, apenas bebo meu álcool e a esqueço. Vocês que insistem em citar Getúlio Vargas e Carlos Lacerda esperando que algo de mágico volte a ocorrer.


"Other Voices" começa a tocar. Sigo o ritmo alucinante da escrita surrealista. Escrevo sem parar para que tudo que tenha na minha mente possa vir a pipocar e quebrar por meio de palavras que formam frases. Tentando extrair cada canto obscuro do meu inconsciente. Tentando voltar ao pouco de originalidade que ainda me resta, visto que foi obrigado a sair de mim. Não paro, nem por um minuto, para que minha obsessão tome forma estilística. Escrever dessa forma é como escrever bêbado. Não sei se o leitor ou a leitora já tentou. Compreendo a razão dos /mu/tants do 4chan serem muitas vezes libertários.


"All Cats Are Grey", essa é a música que começa a vir. Tal como tudo na vida, é uma questão de instante. Mesmo que eu esteja cansado de escrever, preciso extrair de mim aquilo que me impede de escrever. Forçar uma revolução tal como se extrai um coração de um vampiro. E quem não é um vampiro? O vampiro não sai de dia, visto que pertence à noite. Pertence à noite, visto que não está no nosso mundo. O vampiro rejeita o alho, já que o alho é saudável. O vampiro vive em festas de mistérios, já que a festa o aliena da reflexão sobre si mesmo. O vampiro teme a cruz, tal como o diabo teme a cruz, visto que o que teme é o sofrimento. O vampiro existe para se vincular a tudo que é alienante. O vampiro existe para tomar sangue em sua natureza parasitária. Eu entendo isso, eu sou assim. Eu sou um vampiro há muito tempo. Sempre me escondo. Sempre vou embora. Não há nada que me livre dessa condição. 


"The Funeral Party". Essa é especial. Soa como um romance doce e inacabado de alguém que já partiu e nunca mais voltará. Ela traz o desejo de um retorno que nunca poderá retornar. Tristemente deliciosa em sua proporção. Evoca a mais tenra depressão. De alguém que chora com um misto de felicidade e tristeza. Felicidade, visto que lembra da pessoa amada. Tristeza, visto que a pessoa amada nunca voltará. Como tenho uma vida recheada de erros, sei como é sentir isso. Lembrar de cada fragmento de momento. Sabendo que errei em cada um deles. Sabendo que fiz partir quem profundamente amei por causa da minha natureza doentia. Conjecturo como seria minha vida se eu não tivesse errado tanto. Como seria se eu não fosse tão volátil? Como seria se eu não fosse tão doente, tão podre, tão errático. Deduzo, a partir de um cálculo psicológico e criminoso, que seria muito melhor. Seria melhor até mesmo se eu nunca tivesse existido. Seria melhor até mesmo se eu tivesse já partido.


"Doubt". É uma das mais violentas do álbum. Parece uma alcateia de lobos correndo atrás de um coelho assustado numa noite de Lua cheia recheada de neve. É como correr após desligar toda a mente na tentativa de descarregar todas as emoções do corpo. É o que tenho feito. Descarregar e descarregar. Mesmo quando termino de psicologicamente correr, os sentimentos e as memórias ainda estão infelizmente lá. Não importa quantas latas de cerveja, não importa quantas doses de cachaça, não importa com quantas pessoas eu fiquei, não importa quantos casos resolvidos, não importa quantas investigações eu faça. Eu sempre estou tentando explicar, demonstrar, fazer alguma coisa que prove que minha alma é real nesse universo de lixo.


"The Drowning Man". Essa é mais calma. É como estar numa praia na noite. Está chovendo e ventando de leve. Os coqueiros simplesmente balançam. Estou sozinho. Estou sozinho a desenhar o universo em desencanto. Minha mente se eleva para pintar cada quadro obsessivamente depressivo que surge das minhas dúvidas. Não há nada que eu possa fazer. Dói. Todavia, eu sinto que quero continuar nessa condição de esvaziamento melancólico. Tal como se eu não pudesse mais fazer nada. Eu sinto que preciso continuar. Sinto que estou a desenhar cada contorno torto de minha alma. Quero que tudo vá, para que eu possa ver a almografia da minha alma. Quero desenhar cada um dos meus pecados, quero desenhar cada um dos meus erros, quero desenhar cada beijo falso que dei na esperança torpe de tornar a minha falsidade real no coração de alguém. Sei que isso é arriscado. Sei que tudo isso soa depressivo. Todavia, a continuidade da dor é o remédio de que preciso para refazer esse espelho quebrado que chamo de chama da minha alma.


"Faith". Essa é a última música. Também é a música que dá nome ao álbum. Ela corre obsessiva e lenta, como os dedos carinhosos de mulher amada. Lembra-me dos cafunés que abandonei em prol dos novos erros da minha alma desalmada. Cada boca amorosa que abandonei na busca de curar o abandono que senti em minha infância apequenada. Cada abraço que fugi em prol de recordar que eu sempre serei só. Estou sempre a correr em círculos. É a dialética do ouroboros. Estou sempre a comer meus erros passados ao cometê-los de novo e de novo. Saturno sempre devora seus filhos. Eu sou Saturno dos meus erros. Cometo-os novamente, apenas para apreciá-los psicoticamente em cada dor que causam ao meu estômago. Sentir dor é, atualmente, a única coisa que me faz sentir que sou real. Ardentemente prossigo em minha automutilação emocional.