Nome:
How The Right Lost Its Mind
Autor:
Charles J. Sykes
Trabalhar com a ideia de antes e depois, sobretudo quando se escreve sobre o movimento intelectual, político e acadêmico que se ajudou a formar e de desacordo expressões são engolidas por emoções que devoram nossos corações. Falar sobre conservadorismo em nosso tempo é difícil. Muitos de nós sequer querem tentar explicar, isolam-se até para não lembrar. Primeiro vem a covardia, perante o que vemos. Depois, vem a vergonha perante os atos que cometem em nossa frente. No fim, vem o medo de que nossos antigos aliados tenham se tornado monstros.
Por vezes, me veem a cabeça a seguinte frase, a qual escrevo com um quê de luto: "eu não quero ser lembrado como parte de um movimento de imbecis". Sim, exatamente. Quando eu vejo gente toda, proferindo os maiores impropérios racistas, misóginos, antissemitas e LGBTfóbicos, tentando demonstrar uma radicalidade exuberante, que soa extremamente kitsch, não sei exatamente o que sinto. Há um misto de nojo, de constrangimento. E as perguntas vão surgindo e revirando-se em minha cabeça. Pergunto-me se sou realmente parte disso. Questiono-me se realmente quero que isso continue. Todavia, essas nem são as piores inquietações e inquietudes que surgem. O pior de tudo é quando vem aquela pergunta, extremamente específica e densamente incriminatória, que sinto até mesmo medo de escrever. A pergunta é: "Eu ajudei a criar isso?"
O livro me toca na mesma medida em que estive dentro da onda politicamente incorreta no Brasil. Como os leitores do Blogspot já estiveram por dentro disso múltiplas vezes, não vale a pena comentar novamente. Sugiro que os leitores busquem análises mais antigas. A natureza desse blogspot requer sempre uma espécie de eterno retorno. Muitos leitores não fazem isso, leem alguma coisa ou outra, tiram as suas conclusões e vão embora. Comecei nessa vida lendo ao acaso um livro de Pondé, creio que era "Contra um mundo melhor". Depois disso, vieram outros livros. Li e conheci bastante de Nelson Rodrigues. Luiz Felipe Pondé é o motivo de eu ter cursado filosofia. Nelson Rodrigues é a razão de eu gostar tanto de teatro. O conservadorismo não marca tão somente algo em especial na minha mente, também marca algo em especial no meu coração.
Vamos voltar ao passado. O que os conservadores americanos estavam tentando fazer antes da revolução reaganiana? Eles queriam criar algo. Algo novo. Queriam criar uma direita de ideias, uma direita de sonhos, uma direita de esperanças. Uma direita que poderia se fazer entender perante a sociedade. Naquele tempo, o movimento intelectual dominante era o movimento liberal. Todo mundo que se formava queria ser liberal, visto que o liberalismo era a única tradição intelectual que podia ser vista, já que era majoritária nos campos acadêmicos, jornalísticos e institucionais. Ou seja, o empreendimento daqueles conservadores era o de criar uma direita elegante, intelectualizada, acadêmica e com soluções pensadas a partir de dados. Veio, em primeiro lugar, a revolução de Russell Kirk. Foi ele o primeiro a dar a robustez intelectual de que o conservadorismo precisava em seu "The Conservative Mind". Depois disso, viria um movimento com William F. Buckley Jr.
Conforme essa direita nascia, as pessoas iam pensando que estávamos finalmente de igual para igual com os progressistas. Minha geração cresceu após o surgimento dessa direita. A gente cresceu negando que o conservadorismo era um punhado de ignorante, de racistas, de radicais, de misóginos, de conspiracionistas, de tolos. Embora nunca se possa dizer que a direita brasileira teve alguma institucionalidade, podemos dizer que a direita americana assim o era. Queríamos ser que nem essa direita, tentamos estudar e provar que poderíamos ser bem articulados e bem pensantes. No fim, queríamos provar sobretudo que não éramos monstros. Queríamos provar que não éramos vilões, que apenas acreditávamos em pontos de vista distintos. No final, queríamos achar respostas para os anseios sociais tanto quanto os progressistas procuravam respostas para as necessidades da sociedade. Só que acreditávamos em diferentes caminhos.
A nova direita que vem surgindo existe para provar que todos os nossos esforços foram em vão. Se tentamos duramente provar que não odiamos mulheres, eles vão e provam que odiamos. Se tentamos provar que nossa visão de mundo não é racista, eles fazem campeonato para serem o grupo mais radicalmente racista do mundo. Se tentamos provar que nossa visão de mundo comporta pessoas de todas as sexualidades possíveis, eles declaram que é impossível ter a nossa visão e ser LGBT. Se certos grupos são retirados do movimento, é evidente que eles devem ir obrigatoriamente para outro.
Hoje vemos até mulheres de direita sendo perseguidas pela legião de misóginos desmiolados que ajudamos a criar ou que profundamente ignoramos em sua gestação. Estamos nessa há anos: fingimos que esses grupos não existem. O motivo é muito simples: não queremos que nos acusem de não sermos de direita. Dia após dia, vemos uma legião de racistas se estabelecer na internet, como uma seita furiosa e numericamente numerosa. Mesmo que nosso país seja, por natureza, miscigenado, ignoramos esse problema. Quando começaram a atacar pessoas trans, muitos de nós acreditávamos que essas partes do movimento terminariam por aí. Tão logo estavam acusando todos os adversários e inimigos de serem homossexuais, na velha homofobia recreativa. Tão logo estavam praticando a bifobia. Se tudo começou querendo separar a sigla "T" do "LGB", logo separavam a sigla "B" e logo atacavam a sigla "L" e a sigla "G".
O mundo mudou muito. Não analisamos o cenário corretamente. Não reformamos nossas crenças à luz dos mais presentes acontecimentos. Precisamos notar que a globalização da tecnologia e da informação também é a globalização das teorias da conspiração, da desinformação, da guerra psicológica, da guerra informacional, da xenofobia, do racismo, da misoginia, da LGBTfobia. Além desses fatores, esquecemos que a descentralização dos meios de expressão por causa da internet também é a possibilidade de pessoas espalharem o seu ódio com mais eficiência e com mais impacto. Esse esquecimento foi crucial para a ascensão das piores correntes da direita política.
Isso tudo nos levará ao argumento de David Frum, outro conservador Never Trump:
"Talvez você não se importe muito com o futuro do Partido Republicano. Deveria. Os conservadores sempre estarão entre nós. Se os conservadores se convencerem de que não podem vencer democraticamente, não abandonarão o conservadorismo. Rejeitarão a democracia"
(David Frum, Trumpocracy: The Corruption of the American Republic)
Charles J. Sykes apresenta um diagnóstico de uma direita que trocou princípios intelectuais, prudência burkeana, factualidade e defesa da liberdade individual por tribalismo, entretenimento, ressentimento e uma realidade alternativa moldada por mídia de nicho. Como vimos em análises anteriores, recomendo ao leitor ou à leitora voltar às análises de David Frum, Rick Wilson, Stuart Stevens e Christopher Buckley. A direita pré-Trump era literária e institucional. Símbolos como William F. Buckley, National Review, Heritage Foundation ecoam em nossas mentes. Essas pessoas precisavam argumentar com dados e filosofia contra o establishment liberal dominante na academia e na mídia mainstream. A direita pós-literária se forma por memes, vídeos curtos, podcasts raivosos, personalidades do YouTube e Twitter, não por livros ou papers.
Como apresentado no parágrafo anterior, uma das noções centrais do livro, que é largamente comentada pelo autor, é a ideia de uma direita pós-literária. Isto é, não uma direita pautada em livros, mas sim uma direita que utiliza outros referenciais. Essa questão, a pós-textualidade, vem sendo marcante para muitas pessoas. Vários intelectuais, sejam esses de esquerda, centro ou direita, vêm tratando dessa questão. Muitos são os campos afetados por essa pós-literariedade, não só na direita, mas também na esquerda. De um modo geral, a pós-litariedade é uma condição que afeta múltiplos países. Aumentar os índices de leitura vem se tornando um drama de muitos países.
As celebridades do antigo conservadorismo, que é de onde vem o núcleo duro dos Never Trumpers, são pessoas que leem muito e pertencem a uma camada que precisa apresentar defesas inteligentes do conservadorismo. O autor vem de uma época em que foi necessário construir um conservadorismo fortemente intelectualizado. Essa versão do conservadorismo americano começou a tomar força quando os conservadores criaram uma "arquitetura institucional". Exemplos notáveis disso são "The Heritage Foundation", "The Badley Foundation" e "The American Enterprise Institute". Essa direita, muito diferente da direita trumpista, era uma direita fortemente institucionalizada, intelectualizada e academicizada. Era uma direita feita por responsáveis pelo debate público. Essa direita foi, diga-se de passagem, substituída. A razão? A internet retirou os freios que a mídia liberal colocava.
O autor, em especial, criticará certos aspectos da Heritage Foundation. Ele afirmará que o braço militante da Heritage Foundation, a Heritage Action, atua em desconformidade com a tradição intelectual respeitável dessa instituição. Essa metamorfose gera um problema central: uma direita que deixa de ser aquela que defende uma primazia da liberdade individual e da consciência pessoal, mas passa a ser uma modeladora comportamental para seguir linhas de fidelidade mais radicais, o que leva a um fechamento epistêmico. Aliás, esse fechamento epistêmico se torna uma das principais condições da direita brasileira atual.
Vou analisar brevemente os consensos conservadores principais.
- Consensos conservadores:
Existiram vários "consensos" conservadores. O autor se focou em dois até o momento:
- Pré-Reaganiano/Old Right (Velha Direita): existiam elementos anticapitalistas ou que eram opostos ao capitalismo em alguns aspectos. Setores mais tradicionalistas suspeitavam das dinâmicas capitalistas e acreditavam que eles eram uma ameaça. Exemplo disso é o Russell Kirk, ele via perigos na dinâmica capitalista para a ordem moral e comunitária;
- Reaganiano/New Right (Nova Direita): tenta uma síntese entre libertarianismo, conservadorismo e anticomunismo. Essa é a direita que surgiu com a revolução reaganiana. Foi uma direita bem-sucedida, uma direita de ideias que venceu a Guerra Fria e reconfigurou o debate.
Pós-consenso:
- Reformicon/Never Trump X MAGA, direita woke e populistas: atualmente, vemos a luta entre dois grupos, um bem menor, vindo de uma direita razoavelmente letrada e acadêmica, outro que vem majoritariamente. Traduzindo isso melhor, darei pequenas explicações de cada grupo. Os reformicons são mais intelectuais, preocupados com a classe trabalhadora, família e são contra o libertarianismo cru. Os Never Trumpers seriam defensores de normas institucionais e caráter. Já o MAGA é um movimento nacionalista e populista, de base usualmente trumpista, que é anti-establishment. Adiciono que estamos vendo rachaduras na direita MAGA.
Tive que pesquisar sobre o Tea Party para locupletar a minha visão a respeito do livro. Como ele é um movimento pré-MAGA e por muitas vezes considerado um prelúdio ou um capítulo prévio ao chamado nacional-conservadorismo e conservadorismo-populista, tive que estudar um pouco. Mesmo que meu estudo não seja, até o momento, satisfatório. O Tea Party (2009-2012) foi uma revolta fiscal e anti-Obama, com forte componente de protesto, financiado por bilionários e amplificado pela mídia conservadora (como a Fox). Era um movimento majoritariamente branco, de classe média e alta, preocupado com a dívida americana, com o governo grande e o "socialismo". Embora eu deva admitir que esse último item era enquadrado de uma forma meio estranha. Muitos analistas veem o Tea Party como ponte para o trumpismo: a mesma retórica anti-elite, a mesma desconfiança nas instituições, a mesma energia populista. Mas o Tea Party ainda tinha um verniz de constitucionalismo e conservadorismo fiscal. Trump acrescentou outros fatores. Tais como o personalismo, o protecionismo econômico, a imigração como eixo cultural e o desprezo aberto pelas normas. A base de apoiadores do Tea Party seria uma das mais leais a Trump.
Para dar uma contribuição melhor a interpretação do livro, vou adicionar outra camada. Uma situação histórica da direita é bem interessante.
— Situação histórica da direita:
Olhando mais a fundo. Tenho que realizar paralelos históricos. Em primeiro lugar, preciso estabelecer que o conservadorismo não existe. O que existem são múltiplas escolas conservadoras. Porém, gostaria de diferenciar a linha conservadora que virá de Richard Hooker e a linha conservadora que se montará com John Locke.
Hooker trabalhará, em Of the Laws of Ecclesiastical Polity, com uma ideia orgânica da sociedade, com noções de teleologia, com a lei natural clássica e uma proximidade com o tomismo cristão. O central, em Hooker, é que a comunidade política não nasce de uma simples soma de indivíduos autônomos, mas sim de uma ordem moral que precede às escolhas individuais.
Locke, por sua vez, trabalhará com a ideia de que o indivíduo precede politicamente a comunidade, de que os direitos naturais têm centralidade, de que o primeiro plano é a propriedade e o consentimento, em que a sociedade política é vista mais como um contrato do que como uma continuidade histórica de um organismo.
A tradição Tory/conservadora canadense, na época de George Grant, era uma comunidade hookeriana. Ou seja, era pautada na deferência, no bem comum, na continuidade histórica, na autoridade legítima e na limitação ao economicismo liberal. A tradição conservadora americana tem como base o liberalismo lockeano, logo, é pautada na liberdade negativa, no individualismo, no mercado, nos direitos subjetivos e na tecnocracia expansionista. Nos Estados Unidos, liberalismo e conservadorismo compartilham a mesma metafísica básica. O que o conservador dos Estados Unidos quer conservar é uma versão mais tradicional do liberalismo.
É evidente que o conservadorismo dos Estados Unidos não seria inteiramente marcado por uma visão lockeana. Coube a Christopher Lasch ter uma visão mais aproximada de George Grant. Christopher Lasch perceberá que mesmo os conflitos de "direita" e "esquerda" partem de disputas internas do liberalismo. Ou seja, partem dum horizonte liberal comum. Lasch chegará à conclusão de que todos os cidadãos dos Estados Unidos são liberais de uma forma ou de outra. Visto que a discussão apontará para o primado do indivíduo, a suspeita diante de autoridades tradicionais, a centralidade dos direitos, o igualitarismo moral básico e a ideia de progresso. A crítica de Christopher Lasch faz sentido. O conservador dos Estados Unidos é um liberal clássico: liberal economicamente, constitucionalista, individualista, pró-mercado e defensor das liberdades negativas. Ou, mais precisamente, é um liberal clássico com sensibilidades culturais mais tradicionais. O que o conservador de lá está conservando é a Revolução Americana em sua filosofia lockeana, não uma ordem pré-liberal.
Se olharmos a argumentação do Red Tory inglês, o Phillip Blond, veremos que ele argumentará que o neoliberalismo econômico e progressismo cultural não são opostos reais, visto que ambos derivam do mesmo individualismo liberal. Além disso, ele notará que o mercado dissolve vínculos comunitários tanto quanto o Estado burocrático. Os dois, quando ligados, levarão à atomização social e produzirão simultaneamente consumismo e dependência estatal. Para Blond, diga-se de passagem, a direita liberal destrói comunidades via mercado e a esquerda liberal administra os destroços via burocracia estatal. A razão? Ambos compartilham a mesma antropologia individualista.
— Retornando a questão presente:
Muitos conservadores de verve mais intelectualizada e pessimista preferem deixar a direita que está aí se autodestruir. A tese isolacionista parece ser interessante. Se a direita moderna se resume a uma tribo inculta, cheia dos elementos mais nefastos, por qual razão não simplesmente esquecê-la e viver a própria vida? Isto é, deixar tudo para lá? De qualquer modo, eles vão defender que mulheres não devem ter o direito ao voto e perder o voto feminino. De qualquer modo, eles vão ser racistas e perder os votos das outras etnias. De qualquer modo, eles vão ser LGbTfóbicos e perder os votos LGBTs. Essa tese, até o presente momento, me parece a mais agradável. É uma das coisas que mais tenho feito. Para que fazer algo contra uma entidade política que vai se autoexplodir?
Um dos principais tópicos do livro é a capacidade moderna de gerar um network de mídia alternativa que serve para gerar uma percepção alternativa da realidade. Essas mídias, mescladas às redes sociais, geram efeitos sociais não antes imaginados. Preciso ir além: precisamos urgentemente realizar um estudo sério a respeito da correlação entre mídias alternativas, vieses de confirmação, redes sociais, radicalização e psicose. Com base nisso, precisamos gerar uma regulamentação compreensiva. Isso seria estranho para outros conservadores, mas as reflexões dos Never Trumpers apontam para esse caminho.
Enquanto a nova direita não explode a si mesma por meio de suas pautas cada vez mais tresloucadas e pedidos de lealdade cada vez mais restritos, eu fico por aqui apenas lendo o que me agrada, sem fazer absolutamente nada. A ordem do dia mudou. Antes era: "salvar a direita da sua própria burrice". Agora é: "deixar a direita se afogar em sua própria burrice". Não estarei surpreso se, no Brasil, Lula ganhar o seu quarto mandato. Tampouco ficarei feliz se Flávio Bolsonaro ganhar o seu primeiro. No primeiro caso, já é uma tendência. No segundo caso, não fazemos parte da mesma linha de pensamento. O fato é: enquanto essa direita não se autodestrói, ela vai pouco a pouco destruindo instituições, espalhando desinformação, perseguindo minorias e corroendo as bases da democracia representativa. De qualquer modo, essa talvez não seja a solução. De qualquer maneira, preciso continuar a escrever sobre o universo referencial que venho olhado e acrescentar mais pontos que o autor não mencionou. Preciso escrever sobre a presente crise da democracia horizontal representativa (presente nos Estados Unidos e no Brasil) e a possibilidade de uma democracia vertical representativa.
Recentemente conversei muito com um amigo judeu. Falei sobre o antissemitismo crescente. Isso gerou uma reflexão histórica sobre a atuação de William F. Buckley Jr. Quando tendencias conspiracionistas cresciam, Buckley as expulsava. Buckley foi mais amorfo em relação ao racismo, isso foi um erro grave e deslocou negros para setores da esquerda. Atualmente, cresce no Brasil uma direita racista, misógina, antissemita e LGBTfóbica, essa direita é composta de duas frentes. Uma parte tenta ganhar simpatia de setores extremistas e do reacionarismo popular por puro oportunismo. Outra parte realmente acredita nas baboseiras que propaga. Uma retroalimenta a outra até que a outra se torna gradualmente majoritária. Ninguém acha nada errado nisso, visto que vê isso como uma base estratégica de crescimento eleitoral. De qualquer forma, o sonho populista se torna em projeto de poder e o reacionismo popular começa a cometer seus erros de sempre, o que leva a erosão de instituições democráticas e fomentação de políticas públicas não baseadas em dados... mas em teorias conspiratórias. Já tivemos uma dose bem alta disso no período da COVID-19.
A questão central que vai se desenvolvendo na lore de nossas instituições é a incapacidade cada vez mais crescente de conciliar políticas populistas e reacionárias insustentáveis com a permanência da democracia como regime possível. Dentro dessa condição, mecanismos meritocráticos e tecnocráticos são apresentados como solução política. Esses mesmos mecanismos não levam a uma melhora geral do quadro democrático, eles salopam a base democrática. Fala-se, em alguns setores acadêmicos, de democracia vertical e/ou democracia técnica. Nesse regime, só os melhores vereadores viram deputados estaduais, só os melhores deputados estaduais viram deputados federais e só os melhores deputados federais viram senadores. O mesmo se segue com o poder executivo: os melhores prefeitos viram governadores e os melhores governadores viram presidentes. Essa é uma solução que é encontrada diante da crise democrática. Isso seria uma forma de barrar a extrema-direita populista que cresce dia após dia.
A questão democrática, ou melhor, a questão da democracia representativa é uma constante em nossa época. A descentralização dos meios de expressão ocorreu graças a expansão da internet. Por meio dela, múltiplas visões se tornaram possíveis. Além disso, a rápida tradução de diversas ideias ao redor do mundo possibilitou uma expansão ainda maior de diferentes componentes ideológicos. Em meio a isso, a voz da população foi se tornando um fato político cada vez mais presente. Acontece que a celeridade dos eventos e a expressividade de teorias ou ideias deformadas se tornaram cada vez mais constantes. A expansão da voz populacional não foi só uma expansão de teorias cada vez mais rigorosas tecnicamente, mas também de teorias cada vez mais radicais e epistemologicamente frágeis. É em virtude disso que o mundo começa a parar de olhar tão somente para os Estados Unidos da América e começa a olhar para o sistema político chinês. Nele existe um componente mais tecnocrático em que critérios são apresentados para o crescimento político, fazendo com que só os políticos que mais cumpram as metas sejam capazes de ascender. No Brasil, vivemos em uma democracia horizontal, isto é, qualquer um pode se eleger a qualquer cargo executivo ou legislativo se cumprir critérios mínimos. Não se avalia a razoabilidade das suas ideias dos candidatos e nem se eles foram louváveis em cargos anteriores. Isso gera, de dois em dois anos, a eleição de pessoas que são intelectualmente e tecnicamente incapazes.
Quanto a possibilidade de uma república com um sistema de democracia vertical representativa, isso necessitaria provavelmente de uma nova constituição. Essa questão também levanta outra, a questão de quem define os melhores. Enquanto nenhuma solução é pensada para o sistema em si, a direita populista está pronta para substituir o princípio de realidade pelo princípio de lealdade tribal para cada acontecimento do dia. Nessa condição excepcional, quem ganha nunca é quem apresenta o maior estudo comparado de políticas públicas ou o maior conhecimento técnico sobre o papel que pretende desempenhar, mas sim que apresenta a narrativa mais cativante e a que mais prende, pouco importando se ela tenha alguma coisa a ver com a realidade que se apresenta como resposta.
Atualmente penso numa estrutura de uma democracia representativa diagonalista. Ou seja, um regime híbrido entre a democracia horizontal e democracia vertical. Penso numa mescla entre o sistema brasileiro atual e um sistema chinês. Isto é, uma mescla entre democracia representativa horizontal e democracia representativa vertical. A estrutura seria mais ou menos essa:
1- Votação direta, cargo inicial de vereador;
2- Melhores vereadores podem se candidatar a deputados estaduais;
3- Melhores deputados estaduais podem se candidatar a deputados federais;
4- Melhores deputados federais podem se candidatar a senadores.
O mesmo se seguiria para cargos executivos:
1- Melhores prefeitos podem se candidatar a governadores;
2- Melhores governadores podem se candidatar a presidente.
Essa não é, evidentemente, a conclusão do autor, mas creio que o diagonalismo é a única forma de impedir o avanço das hordas populistas.
