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terça-feira, 9 de junho de 2026

Acabo de ler "How the Right Lost Its Mind" de Charles J. Sykes (lido em inglês)


Nome:

How The Right Lost Its Mind


Autor:

Charles J. Sykes


Trabalhar com a ideia de antes e depois, sobretudo quando se escreve sobre o movimento intelectual, político e acadêmico que se ajudou a formar e de desacordo expressões são engolidas por emoções que devoram nossos corações. Falar sobre conservadorismo em nosso tempo é difícil. Muitos de nós sequer querem tentar explicar, isolam-se até para não lembrar. Primeiro vem a covardia, perante o que vemos. Depois, vem a vergonha perante os atos que cometem em nossa frente. No fim, vem o medo de que nossos antigos aliados tenham se tornado monstros.


Por vezes, me veem a cabeça a seguinte frase, a qual escrevo com um quê de luto: "eu não quero ser lembrado como parte de um movimento de imbecis". Sim, exatamente. Quando eu vejo gente toda, proferindo os maiores impropérios racistas, misóginos, antissemitas e LGBTfóbicos, tentando demonstrar uma radicalidade exuberante, que soa extremamente kitsch, não sei exatamente o que sinto. Há um misto de nojo, de constrangimento. E as perguntas vão surgindo e revirando-se em minha cabeça. Pergunto-me se sou realmente parte disso. Questiono-me se realmente quero que isso continue. Todavia, essas nem são as piores inquietações e inquietudes que surgem. O pior de tudo é quando vem aquela pergunta, extremamente específica e densamente incriminatória, que sinto até mesmo medo de escrever. A pergunta é: "Eu ajudei a criar isso?"


O livro me toca na mesma medida em que estive dentro da onda politicamente incorreta no Brasil. Como os leitores do Blogspot já estiveram por dentro disso múltiplas vezes, não vale a pena comentar novamente. Sugiro que os leitores busquem análises mais antigas. A natureza desse blogspot requer sempre uma espécie de eterno retorno. Muitos leitores não fazem isso, leem alguma coisa ou outra, tiram as suas conclusões e vão embora. Comecei nessa vida lendo ao acaso um livro de Pondé, creio que era "Contra um mundo melhor". Depois disso, vieram outros livros. Li e conheci bastante de Nelson Rodrigues.  Luiz Felipe Pondé é o motivo de eu ter cursado filosofia. Nelson Rodrigues é a razão de eu gostar tanto de teatro. O conservadorismo não marca tão somente algo em especial na minha mente, também marca algo em especial no meu coração.


Vamos voltar ao passado. O que os conservadores americanos estavam tentando fazer antes da revolução reaganiana? Eles queriam criar algo. Algo novo. Queriam criar uma direita de ideias, uma direita de sonhos, uma direita de esperanças. Uma direita que poderia se fazer entender perante a sociedade. Naquele tempo, o movimento intelectual dominante era o movimento liberal. Todo mundo que se formava queria ser liberal, visto que o liberalismo era a única tradição intelectual que podia ser vista, já que era majoritária nos campos acadêmicos, jornalísticos e institucionais. Ou seja, o empreendimento daqueles conservadores era o de criar uma direita elegante, intelectualizada, acadêmica e com soluções pensadas a partir de dados. Veio, em primeiro lugar, a revolução de Russell Kirk. Foi ele o primeiro a dar a robustez intelectual de que o conservadorismo precisava em seu "The Conservative Mind". Depois disso, viria um movimento com William F. Buckley Jr.


Conforme essa direita nascia, as pessoas iam pensando que estávamos finalmente de igual para igual com os progressistas. Minha geração cresceu após o surgimento dessa direita. A gente cresceu negando que o conservadorismo era um punhado de ignorante, de racistas, de radicais, de misóginos, de conspiracionistas, de tolos. Embora nunca se possa dizer que a direita brasileira teve alguma institucionalidade, podemos dizer que a direita americana assim o era. Queríamos ser que nem essa direita, tentamos estudar e provar que poderíamos ser bem articulados e bem pensantes. No fim, queríamos provar sobretudo que não éramos monstros. Queríamos provar que não éramos vilões, que apenas acreditávamos em pontos de vista distintos. No final, queríamos achar respostas para os anseios sociais tanto quanto os progressistas procuravam respostas para as necessidades da sociedade. Só que acreditávamos em diferentes caminhos.


A nova direita que vem surgindo existe para provar que todos os nossos esforços foram em vão. Se tentamos duramente provar que não odiamos mulheres, eles vão e provam que odiamos. Se tentamos provar que nossa visão de mundo não é racista, eles fazem campeonato para serem o grupo mais radicalmente racista do mundo. Se tentamos provar que nossa visão de mundo comporta pessoas de todas as sexualidades possíveis, eles declaram que é impossível ter a nossa visão e ser LGBT. Se certos grupos são retirados do movimento, é evidente que eles devem ir obrigatoriamente para outro. 


Hoje vemos até mulheres de direita sendo perseguidas pela legião de misóginos desmiolados que ajudamos a criar ou que profundamente ignoramos em sua gestação. Estamos nessa há anos: fingimos que esses grupos não existem. O motivo é muito simples: não queremos que nos acusem de não sermos de direita. Dia após dia, vemos uma legião de racistas se estabelecer na internet, como uma seita furiosa e numericamente numerosa. Mesmo que nosso país seja, por natureza, miscigenado, ignoramos esse problema. Quando começaram a atacar pessoas trans, muitos de nós acreditávamos que essas partes do movimento terminariam por aí. Tão logo estavam acusando todos os adversários e inimigos de serem homossexuais, na velha homofobia recreativa. Tão logo estavam praticando a bifobia. Se tudo começou querendo separar a sigla "T" do "LGB", logo separavam a sigla "B" e logo atacavam a sigla "L" e a sigla "G".


O mundo mudou muito. Não analisamos o cenário corretamente. Não reformamos nossas crenças à luz dos mais presentes acontecimentos. Precisamos notar que a globalização da tecnologia e da informação também é a globalização das teorias da conspiração, da desinformação, da guerra psicológica, da guerra informacional, da xenofobia, do racismo, da misoginia, da LGBTfobia. Além desses fatores, esquecemos que a descentralização dos meios de expressão por causa da internet também é a possibilidade de pessoas espalharem o seu ódio com mais eficiência e com mais impacto. Esse esquecimento foi crucial para a ascensão das piores correntes da direita política.


Isso tudo nos levará ao argumento de David Frum, outro conservador Never Trump:

"Talvez você não se importe muito com o futuro do Partido Republicano. Deveria. Os conservadores sempre estarão entre nós. Se os conservadores se convencerem de que não podem vencer democraticamente, não abandonarão o conservadorismo. Rejeitarão a democracia"

(David Frum, Trumpocracy: The Corruption of the American Republic)


Charles J. Sykes apresenta um diagnóstico de uma direita que trocou princípios intelectuais, prudência burkeana, factualidade e defesa da liberdade individual por tribalismo, entretenimento, ressentimento e uma realidade alternativa moldada por mídia de nicho. Como vimos em análises anteriores, recomendo ao leitor ou à leitora voltar às análises de David Frum, Rick Wilson, Stuart Stevens e Christopher Buckley. A direita pré-Trump era literária e institucional. Símbolos como William F. Buckley, National Review, Heritage Foundation ecoam em nossas mentes. Essas pessoas precisavam argumentar com dados e filosofia contra o establishment liberal dominante na academia e na mídia mainstream. A direita pós-literária se forma por memes, vídeos curtos, podcasts raivosos, personalidades do YouTube e Twitter, não por livros ou papers.


Como apresentado no parágrafo anterior, uma das noções centrais do livro, que é largamente comentada pelo autor, é a ideia de uma direita pós-literária. Isto é, não uma direita pautada em livros, mas sim uma direita que utiliza outros referenciais. Essa questão, a pós-textualidade, vem sendo marcante para muitas pessoas. Vários intelectuais, sejam esses de esquerda, centro ou direita, vêm tratando dessa questão. Muitos são os campos afetados por essa pós-literariedade, não só na direita, mas também na esquerda. De um modo geral, a pós-litariedade é uma condição que afeta múltiplos países. Aumentar os índices de leitura vem se tornando um drama de muitos países. 


As celebridades do antigo conservadorismo, que é de onde vem o núcleo duro dos Never Trumpers, são pessoas que leem muito e pertencem a uma camada que precisa apresentar defesas inteligentes do conservadorismo. O autor vem de uma época em que foi necessário construir um conservadorismo fortemente intelectualizado. Essa versão do conservadorismo americano começou a tomar força quando os conservadores criaram uma "arquitetura institucional". Exemplos notáveis disso são  "The Heritage Foundation", "The Badley Foundation" e "The American Enterprise Institute". Essa direita, muito diferente da direita trumpista, era uma direita fortemente institucionalizada, intelectualizada e academicizada. Era uma direita feita por responsáveis pelo debate público. Essa direita foi, diga-se de passagem, substituída. A razão? A internet retirou os freios que a mídia liberal colocava. 


O autor, em especial, criticará certos aspectos da Heritage Foundation. Ele afirmará que o braço militante da Heritage Foundation, a Heritage Action, atua em desconformidade com a tradição intelectual respeitável dessa instituição. Essa metamorfose gera um problema central: uma direita que deixa de ser aquela que defende uma primazia da liberdade individual e da consciência pessoal, mas passa a ser uma modeladora comportamental para seguir linhas de fidelidade mais radicais, o que leva a um fechamento epistêmico. Aliás, esse fechamento epistêmico se torna uma das principais condições da direita brasileira atual.


Vou analisar brevemente os consensos conservadores principais. 


- Consensos conservadores:

Existiram vários "consensos" conservadores. O autor se focou em dois até o momento:

- Pré-Reaganiano/Old Right (Velha Direita): existiam elementos anticapitalistas ou que eram opostos ao capitalismo em alguns aspectos. Setores mais tradicionalistas suspeitavam das dinâmicas capitalistas e acreditavam que eles eram uma ameaça. Exemplo disso é o Russell Kirk, ele via perigos na dinâmica capitalista para a ordem moral e comunitária;

- Reaganiano/New Right (Nova Direita): tenta uma síntese entre libertarianismo, conservadorismo e anticomunismo. Essa é a direita que surgiu com a revolução reaganiana. Foi uma direita bem-sucedida, uma direita de ideias que venceu a Guerra Fria e reconfigurou o debate.

Pós-consenso:

- Reformicon/Never Trump X MAGA, direita woke e populistas: atualmente, vemos a luta entre dois grupos, um bem menor, vindo de uma direita razoavelmente letrada e acadêmica, outro que vem majoritariamente. Traduzindo isso melhor, darei pequenas explicações de cada grupo. Os reformicons são mais intelectuais, preocupados com a classe trabalhadora, família e são contra o libertarianismo cru. Os Never Trumpers seriam defensores de normas institucionais e caráter. Já o MAGA é um movimento nacionalista e populista, de base usualmente trumpista, que é anti-establishment. Adiciono que estamos vendo rachaduras na direita MAGA.


Tive que pesquisar sobre o Tea Party para locupletar a minha visão a respeito do livro. Como ele é um movimento pré-MAGA e por muitas vezes considerado um prelúdio ou um capítulo prévio ao chamado nacional-conservadorismo e conservadorismo-populista, tive que estudar um pouco. Mesmo que meu estudo não seja, até o momento, satisfatório. O Tea Party (2009-2012) foi uma revolta fiscal e anti-Obama, com forte componente de protesto, financiado por bilionários e amplificado pela mídia conservadora (como a Fox). Era um movimento majoritariamente branco, de classe média e alta, preocupado com a dívida americana, com o governo grande e o "socialismo". Embora eu deva admitir que esse último item era enquadrado de uma forma meio estranha. Muitos analistas veem o Tea Party como ponte para o trumpismo: a mesma retórica anti-elite, a mesma desconfiança nas instituições, a mesma energia populista. Mas o Tea Party ainda tinha um verniz de constitucionalismo e conservadorismo fiscal. Trump acrescentou outros fatores. Tais como o personalismo, o protecionismo econômico, a imigração como eixo cultural e o desprezo aberto pelas normas. A base de apoiadores do Tea Party seria uma das mais leais a Trump.


Para dar uma contribuição melhor a interpretação do livro, vou adicionar outra camada. Uma situação histórica da direita é bem interessante. 


— Situação histórica da direita:

Olhando mais a fundo. Tenho que realizar paralelos históricos. Em primeiro lugar, preciso estabelecer que o conservadorismo não existe. O que existem são múltiplas escolas conservadoras. Porém, gostaria de diferenciar a linha conservadora que virá de Richard Hooker e a linha conservadora que se montará com John Locke.


Hooker trabalhará, em Of the Laws of Ecclesiastical Polity, com uma ideia orgânica da sociedade, com noções de teleologia, com a lei natural clássica e uma proximidade com o tomismo cristão. O central, em Hooker, é que a comunidade política não nasce de uma simples soma de indivíduos autônomos, mas sim de uma ordem moral que precede às escolhas individuais.


Locke, por sua vez, trabalhará com a ideia de que o indivíduo precede politicamente a comunidade, de que os direitos naturais têm centralidade, de que o primeiro plano é a propriedade e o consentimento, em que a sociedade política é vista mais como um contrato do que como uma continuidade histórica de um organismo.


A tradição Tory/conservadora canadense, na época de George Grant, era uma comunidade hookeriana. Ou seja, era pautada na deferência, no bem comum, na continuidade histórica, na autoridade legítima e na limitação ao economicismo liberal. A tradição conservadora americana tem como base o liberalismo lockeano, logo, é pautada na liberdade negativa, no individualismo, no mercado, nos direitos subjetivos e na tecnocracia expansionista. Nos Estados Unidos, liberalismo e conservadorismo compartilham a mesma metafísica básica. O que o conservador dos Estados Unidos quer conservar é uma versão mais tradicional do liberalismo.


É evidente que o conservadorismo dos Estados Unidos não seria inteiramente marcado por uma visão lockeana. Coube a Christopher Lasch ter uma visão mais aproximada de George Grant. Christopher Lasch perceberá que mesmo os conflitos de "direita" e "esquerda" partem de disputas internas do liberalismo. Ou seja, partem dum horizonte liberal comum. Lasch chegará à conclusão de que todos os cidadãos dos Estados Unidos são liberais de uma forma ou de outra. Visto que a discussão apontará para o primado do indivíduo, a suspeita diante de autoridades tradicionais, a centralidade dos direitos, o igualitarismo moral básico e a ideia de progresso. A crítica de Christopher Lasch faz sentido. O conservador dos Estados Unidos é um liberal clássico: liberal economicamente, constitucionalista, individualista, pró-mercado e defensor das liberdades negativas. Ou, mais precisamente, é um liberal clássico com sensibilidades culturais mais tradicionais. O que o conservador de lá está conservando é a Revolução Americana em sua filosofia lockeana, não uma ordem pré-liberal.


Se olharmos a argumentação do Red Tory inglês, o Phillip Blond, veremos que ele argumentará que o neoliberalismo econômico e progressismo cultural não são opostos reais, visto que ambos derivam do mesmo individualismo liberal. Além disso, ele notará que o mercado dissolve vínculos comunitários tanto quanto o Estado burocrático. Os dois, quando ligados, levarão à atomização social e produzirão simultaneamente consumismo e dependência estatal. Para Blond, diga-se de passagem, a direita liberal destrói comunidades via mercado e a esquerda liberal administra os destroços via burocracia estatal. A razão? Ambos compartilham a mesma antropologia individualista.


— Retornando a questão presente:


Muitos conservadores de verve mais intelectualizada e pessimista preferem deixar a direita que está aí se autodestruir. A tese isolacionista parece ser interessante. Se a direita moderna se resume a uma tribo inculta, cheia dos elementos mais nefastos, por qual razão não simplesmente esquecê-la e viver a própria vida? Isto é, deixar tudo para lá? De qualquer modo, eles vão defender que mulheres não devem ter o direito ao voto e perder o voto feminino. De qualquer modo, eles vão ser racistas e perder os votos das outras etnias. De qualquer modo, eles vão ser LGbTfóbicos e perder os votos LGBTs. Essa tese, até o presente momento, me parece a mais agradável. É uma das coisas que mais tenho feito. Para que fazer algo contra uma entidade política que vai se autoexplodir? 


Um dos principais tópicos do livro é a capacidade moderna de gerar um network de mídia alternativa que serve para gerar uma percepção alternativa da realidade. Essas mídias, mescladas às redes sociais, geram efeitos sociais não antes imaginados. Preciso ir além: precisamos urgentemente realizar um estudo sério a respeito da correlação entre mídias alternativas, vieses de confirmação, redes sociais, radicalização e psicose. Com base nisso, precisamos gerar uma regulamentação compreensiva. Isso seria estranho para outros conservadores, mas as reflexões dos Never Trumpers apontam para esse caminho.


Enquanto a nova direita não explode a si mesma por meio de suas pautas cada vez mais tresloucadas e pedidos de lealdade cada vez mais restritos, eu fico por aqui apenas lendo o que me agrada, sem fazer absolutamente nada. A ordem do dia mudou. Antes era: "salvar a direita da sua própria burrice". Agora é: "deixar a direita se afogar em sua própria burrice". Não estarei surpreso se, no Brasil, Lula ganhar o seu quarto mandato. Tampouco ficarei feliz se Flávio Bolsonaro ganhar o seu primeiro. No primeiro caso, já é uma tendência. No segundo caso, não fazemos parte da mesma linha de pensamento. O fato é: enquanto essa direita não se autodestrói, ela vai pouco a pouco destruindo instituições, espalhando desinformação, perseguindo minorias e corroendo as bases da democracia representativa. De qualquer modo, essa talvez não seja a solução. De qualquer maneira, preciso continuar a escrever sobre o universo referencial que venho olhado e acrescentar mais pontos que o autor não mencionou. Preciso escrever sobre a presente crise da democracia horizontal representativa (presente nos Estados Unidos e no Brasil) e a possibilidade de uma democracia vertical representativa.


Recentemente conversei muito com um amigo judeu. Falei sobre o antissemitismo crescente. Isso gerou uma reflexão histórica sobre a atuação de William F. Buckley Jr. Quando tendencias conspiracionistas cresciam, Buckley as expulsava. Buckley foi mais amorfo em relação ao racismo, isso foi um erro grave e deslocou negros para setores da esquerda. Atualmente, cresce no Brasil uma direita racista, misógina, antissemita e LGBTfóbica, essa direita é composta de duas frentes. Uma parte tenta ganhar simpatia de setores extremistas e do reacionarismo popular por puro oportunismo. Outra parte realmente acredita nas baboseiras que propaga. Uma retroalimenta a outra até que a outra se torna gradualmente majoritária. Ninguém acha nada errado nisso, visto que vê isso como uma base estratégica de crescimento eleitoral. De qualquer forma, o sonho populista se torna em projeto de poder e o reacionismo popular começa a cometer seus erros de sempre, o que leva a erosão de instituições democráticas e fomentação de políticas públicas não baseadas em dados... mas em teorias conspiratórias. Já tivemos uma dose bem alta disso no período da COVID-19.


A questão central que vai se desenvolvendo na lore de nossas instituições é a incapacidade cada vez mais crescente de conciliar políticas populistas e reacionárias insustentáveis com a permanência da democracia como regime possível. Dentro dessa condição, mecanismos meritocráticos e tecnocráticos são apresentados como solução política. Esses mesmos mecanismos não levam a uma melhora geral do quadro democrático, eles salopam a base democrática. Fala-se, em alguns setores acadêmicos, de democracia vertical e/ou democracia técnica. Nesse regime, só os melhores vereadores viram deputados estaduais, só os melhores deputados estaduais viram deputados federais e só os melhores deputados federais viram senadores. O mesmo se segue com o poder executivo: os melhores prefeitos viram governadores e os melhores governadores viram presidentes. Essa é uma solução que é encontrada diante da crise democrática. Isso seria uma forma de barrar a extrema-direita populista que cresce dia após dia.


A questão democrática, ou melhor, a questão da democracia representativa é uma constante em nossa época. A descentralização dos meios de expressão ocorreu graças a expansão da internet. Por meio dela, múltiplas visões se tornaram possíveis. Além disso, a rápida tradução de diversas ideias ao redor do mundo possibilitou uma expansão ainda maior de diferentes componentes ideológicos. Em meio a isso, a voz da população foi se tornando um fato político cada vez mais presente. Acontece que a celeridade dos eventos e a expressividade de teorias ou ideias deformadas se tornaram cada vez mais constantes. A expansão da voz populacional não foi só uma expansão de teorias cada vez mais rigorosas tecnicamente, mas também de teorias cada vez mais radicais e epistemologicamente frágeis. É em virtude disso que o mundo começa a parar de olhar tão somente para os Estados Unidos da América e começa a olhar para o sistema político chinês. Nele existe um componente mais tecnocrático em que critérios são apresentados para o crescimento político, fazendo com que só os políticos que mais cumpram as metas sejam capazes de ascender. No Brasil, vivemos em uma democracia horizontal, isto é, qualquer um pode se eleger a qualquer cargo executivo ou legislativo se cumprir critérios mínimos. Não se avalia a razoabilidade das suas ideias dos candidatos e nem se eles foram louváveis em cargos anteriores. Isso gera, de dois em dois anos, a eleição de pessoas que são intelectualmente e tecnicamente incapazes.


Quanto a possibilidade de uma república com um sistema de democracia vertical representativa, isso necessitaria provavelmente de uma nova constituição. Essa questão também levanta outra, a questão de quem define os melhores. Enquanto nenhuma solução é pensada para o sistema em si, a direita populista está pronta para substituir o princípio de realidade pelo princípio de lealdade tribal para cada acontecimento do dia. Nessa condição excepcional, quem ganha nunca é quem apresenta o maior estudo comparado de políticas públicas ou o maior conhecimento técnico sobre o papel que pretende desempenhar, mas sim que apresenta a narrativa mais cativante e a que mais prende, pouco importando se ela tenha alguma coisa a ver com a realidade que se apresenta como resposta.


Atualmente penso numa estrutura de uma democracia representativa diagonalista. Ou seja, um regime híbrido entre a democracia horizontal e democracia vertical.  Penso numa mescla entre o sistema brasileiro atual e um sistema chinês. Isto é, uma mescla entre democracia representativa horizontal e democracia representativa vertical. A estrutura seria mais ou menos essa:

1- Votação direta, cargo inicial de vereador;

2- Melhores vereadores podem se candidatar a deputados estaduais;

3- Melhores deputados estaduais podem se candidatar a deputados federais;

4- Melhores deputados federais podem se candidatar a senadores.

O mesmo se seguiria para cargos executivos:

1- Melhores prefeitos podem se candidatar a governadores;

2- Melhores governadores podem se candidatar a presidente.


Essa não é, evidentemente, a conclusão do autor, mas creio que o diagonalismo é a única forma de impedir o avanço das hordas populistas.

Acabo de ler "William F. Buckley Jr." de Lee Edwards (lido em inglês)

 


Nome:

William F. Buckley Jr.: the maker of a movement


Autor:

Lee Edwards


Estive muito tempo ocupado. Viagens e cursos ocuparam grande parte do meu tempo. Além disso, tive que treinar alguns tópicos que eram do meu interesse. Não pude, por infelicidade, me dedicar profundamente à leitura e à escrita. Todavia, garanto que retornarei ao meu vigor de outrora.


Lee Edwards é um homem fantástico. Estava procurando um bom historiador do movimento conservador dos Estados Unidos e me deparei com esse homem. A propósito, ele foi membro da Heritage Foundation. Uma instituição de que os leitores do blogspot já ouviram falar em diversas análises anteriores.


A razão de eu ter lido esse livro não poderia ter sido outra: ao ler bastante sobre os Never Trumpers, tive que me aprofundar em um estudo da história do movimento conservador nos Estados Unidos. Esse livro, para mim, serve como complemento para o entendimento das diversas configurações históricas do conservadorismo.


Buckley foi o pai do conservadorismo moderno, na sua configuração fusionista, isto é, em sua mistura de conservadorismo tradicionalista, libertarianismo e anticomunismo. Essa mistura criaria algo novo e que impulsionaria Ronald Reagan. William também seria pai do Intercollegiate Studies Institute e da revista National Review. Ler a sua biografia é compreender muito dos movimentos políticos que se formariam após ele.


Poderia escrever mais coisas, mas ainda estou me recuperando. Todavia, fica a recomendação desse autor e dessa obra.

Memória Cadavérica #51 — Aulas de Ortodoxia com Bolsonaristas?

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise curta sobre o que vem ocorrido no Reddit.


Bolsonaristas não tem direito de dar aula de "ortodoxia ideológica" pra ninguém!


BOLSONARISTAS NUNCA ESTUDARAM:


- Red Tory;


- Never Trump;


- Reformicon;


- Paleoconservadorismo;


- História do conservadorismo em outros países (como na América Latina, na América do Norte, na Europa, etc);


- Nova Doutrina Econômica do Conservadorismo (American Compass).


É o tempo todo no Reddit: você fala qualquer coisa e aparece um bolsonarista aparece para lhe dar aula de "ortodoxia ideológica na direita brasileira". Eu fico pensando: "o cabra nunca fez um curso na Hillsdale College, nunca estudou as novas teorias da American Compass, nunca leu uma única revista da National Review, nunca estudou um único Red Tory, não sabe o que foi o Reformicon e nem o movimento Never Trumper, nunca viu um único curso na Christendom College e vem aí bancar o mega conservador".


Existem mais de vinte escolas de pensamento conservadoras, um paleoconservador não é o mesmo que um neoconservador, um conservatário não é a mesma coisa que um nacional-conservador, um federalista não é a mesma coisa que um originalista. Se bolsonarista falasse menos e estudasse mais, nem sequer seria bolsonarista.

sábado, 23 de maio de 2026

Memória Cadavérica #47 — William F. Buckley Jr. e o destino do conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa com um amigo judeu sobre o futuro do conservadorismo no Brasil e a ação histórica de William F. Buckley Jr.


Amigo⁩, nos primeiros anos da Ressurreição Conservadora, William F. Buckley expulsou antissemitas, conspiracionistas, malucos e pessoas que não coadunavam bem com o conservadorismo letrado. Necessitamos de um conservadorismo respeitável. Precisamos expulsar todos os antissemitas, conspiracionistas e malucos do movimento de novo. Só que atualmente a direita já é composta por conspiracionistas e malucos. Atualmente antissemitas crescem mais a cada dia em nossas redondezas.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Memória Cadavérica #46 — Aprovação de Donald Trump e conservadorismo

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: conversa que ocorreu no grupo de WhatsApp de que faço parte a respeito do Donald Trump, do conservadorismo dos Estados Unidos e do conservadorismo no Brasil.


— MAGAtards will be the last group on the scene. Amigo, venho alertando que Trump é um imbecil há um ano e pouco. Quem leu os Never Trumpers e os Reformicons sabe disso.

— É o último mandato da vida del, você acha que ele realmente se importa com aprovação?

— Mesmo que ele não se importe, graças à excelente participação dele, o conservadorismo como movimento foi sacrificado em prol de seu nacional-populismo. Com os escândalos de Epstein, isso se torna ainda pior. Stuart Stevens falou com um homem endinheirado, ele disse isso em seu livro, esse homem lhe disse que gastaria uns milhões para salvar o conservadorismo depois do Trump. Já que os conservadores mais graudos e inteligentes já esperavam que ele destruísse tudo ao redor. No Brasil, isso não precisaria ser feito: quase não há um movimento conservador ilustre, acadêmico e institucionalizado para se preocupar.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Memória Cadavérica #45 — A Insustentabilidade Bolsonarista

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que esses não se perdessem.


Contexto: uma análise breve a respeito do bolsonarismo e do PL.


O bolsonarismo tem um problema crônico na formação de quadros e é insustentável a longo prazo!


Não estou dizendo para você concordar ou discordar do bolsonarismo, eu particularmente discordo, mas falo de um ponto de vista técnico. Ou seja, não vamos analisar aqui se concordamos ou discordamos intelectualmente.


Um dos pontos centrais dos partidos históricos é a formação contínua de novos quadros. Isso ocorre por meio de estudos, por formação de institutos, por geração de militantes intelectualmente capacitados, por geração de intelectuais orgânicos. Um exemplo disso é o Partido Republicano antes da ascensão de Reagan: gerou vários institutos, revistas e grupos de estudo. Um dos maiores institutos gerados foi a Heritage Foundation, a maior organização conservadora do mundo, e a revista National Review, uma das revistas mais importantes do conservadorismo enquanto movimento intelectual.


Se olharmos para os movimentos atuais, o PT sempre gerou novos intelectuais e novos quadros. O PSOL segue o mesmo caminho. Até partidos pequenos, como UP (Unidade Popular), fazem isso. O único partido de direita conhecido por realizar formações é a Missão, partido associado ao MBL. Em outras palavras, em questão de garantia de sobrevivência e perpetuação intelectual, o bolsonarismo parece não querer levar a si mesmo a sério.


A nova direita dos Estados Unidos cresce com base em novos institutos, como a American Compass. Além de faculdades e instituições como a Hillsdale College e a Universidade de Austin, no Texas. A formação de novos quadros, visando alta qualidade intelectual, é uma constante. Uma das maiores preocupações é fornecer artes liberais clássicas e trazer um pensamento conservador estruturado, dinâmico e preparado para novas estruturas espaço-temporais. Prova disso é a American Compass com a nova doutrina econômica do conservadorismo, algo que chamou a atenção até mesmo de ciclos progressistas. Instituições tradicionais como o Intercollegiate Studies Institute continuem fornecendo trabalhos excelentes.


O bolsonarismo, junto ao PL, parece conviver bem com a crença de que pode pegar os seus quadros diretamente da base do MBL ou simplesmente esperar que sejam formados pela Brasil Paralelo, pelo Instituto Hugo de São Vitor, pelo Centro Dom Bosco, ou qualquer outro lugar de atividade intelectual de direita, sem nenhum comprometimento sério em criar uma linha de pensamento própria, uma doutrina original ou institutos de pesquisa que definam a sua visão de conservadorismo. Sequer se preocupam em realizar parcerias com institutos e faculdades conservadoras nos Estados Unidos, que possuem maior know-how, para formar seus quadros.


A impressão que fica é que o PL e o bolsonarismo de uma maneira geral são apenas projetos passageiros que se desenham na areia do vento. Mesmo que o PL e o bolsonarismo adorem se definir como "a única direita real do país".

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Acabo de ler "On being conservative" de Michael Oakeshott (lido em inglês)

 


Livro:

On being conservative


Autor:

Michael Oakeshott


O conservadorismo não é uma ideia geral. O conservadorismo não é um credo nem uma doutrina. O conservadorismo é uma disposição. Enquanto os reacionários se perguntam o que foi, enquanto os revolucionários perguntam o que poderia ser, os conservadores se questionam o que está disponível. O que o conservador busca estimar é o presente. O presente, por sua familiaridade, é melhor do que o risco de perder tudo. O conservador valoriza o passado, mas como fonte de familiaridade e recursos presente, não como um modelo a ser restaurado rigidamente. Essa diferença entre conservadores e reacionários é algo que muitos poucos sabem.


O conservador é o sujeito que prefere o familiar ao desconhecido, o que prefere o que foi tentado pelo que não foi tentado, o que prefere o fato ao mistério, o que prefere o atual ao possível, o que prefere o limitado ao ilimitado, o que prefere o próximo ao distante, o que prefere o suficiente ao superabundante, o que prefere o conveniente ao perfeito, o que prefere a risada do momento do que a graça utópica. A condição conservadora é uma inclinação a apresentar o que é presente e o que está disponível. E é por essa razão que um conservador prefere pequenas e lentas mudanças do que mudanças grandes e súbitas. Quanto mais for assim, mais assimilável algo é.


O conservador é um homem que calcula. Ele olha para cada inovação mensurando o seu risco e visando um equilíbrio. Ele quer ver qual a perda e qual o ganho. Ele pensa que mudanças pequenas e limitadas apresentam menos riscos. O problema que ele tem com progressistas é esse: progressistas buscam por um bem desconhecido. O que os progressistas chamam de covardia conservadora, o conservador chama de prudência racional, o que os progressistas chamam de timidez, o conservador chama de cautela. Para o conservador, a segurança do presente é melhor do que o perigo de uma mudança radical.


O conservadorismo é mais comum nos mais velhos. A razão é pelo fato de o conservadorismo exigir a construção de uma identidade. Quanto mais a identidade se matura, maior a possibilidade do conservadorismo surgir junto a ela. A disposição conservadora surge em quem já está com sua personalidade mais bem estabelecida. No entanto, saliento que isso não é uma questão de idade cronológica. Essa disposição conservadora, segundo Oakeshott, pode aparecer em qualquer idade. Todavia, ela ocorre mais facilmente conforme existe um cultivo da experiência. 


Michael Oakeshott estabelecerá que o conservadorismo na política não tem a ver com a lei natural (jusnaturalismo), nem com uma ordem providencial, tampouco com uma moral ou uma religião. O conservadorismo tem a ver com o nosso estado atual de vida e um governo limitado. O governo, na visão conservadora de Michael Oakeshott, deve possibilitar às pessoas a perseguirem suas próprias atividades e escolhas. Isso deve ocorrer com poucas frustrações. Ou seja, um indivíduo deve ser livre para perseguir a sua disposição. Um indivíduo deve seguir o seu próprio caminho. Isso levará a outro problema que Michael Oakeshott encontrará em progressistas: é o fato de que eles tornam sonhos privados em um compulsório jeito de vida. O Estado ideal, na visão de Oakeshott, deve manter as regras do jogo, as associações civis livres, em vez de propor um propósito comum. 


O conservadorismo de Michael Oakeshott acredita que adultos não precisam justificar as suas preferências e as suas escolhas de vida. O governo, por sua vez, não deveria particularmente se objetar a escolhas individuais. Em outras palavras, não é função do governo modificar o estilo de vida de alguém. É por essa razão que conservadores rejeitam projetos de engenharia social, isto é, projetos de uniformidade substantiva. Um governo que segue pela paz é um governo melhor que um que tenta colocar uniformidade substantiva. Governos que tentam a segunda escolha, a da uniformidade substantiva, entram facilmente em colisão de interesse e em frustração mútua. O governo, em vez disso, deveria aceitar o estado corrente de atividades e crenças, ou seja, aceitar a diversidade de crenças e escolhas individuais. A política conservadora, em Oakeshott, se traduziria pelo ceticismo em relação a planos racionais grandiosos, tendo por preferência por ajustes incrementais e rejeição pela chamada política da fé (sonho e governança lado a lado).


Michael Oakeshott tem uma frase brilhante: a conjunção entre governar e sonhar gera a tirania.

domingo, 10 de maio de 2026

Caveira Casual #8 — Caim, Abel, Shakespeare e Cachaça


Não sei o que estou fazendo da minha vida. Sou só um garoto, perdido no meio do lixo, sem nada mais. É o que costumo dizer para mim mesmo. O álcool me embriaga; a solidão me faz companhia, formando a solitude. Ontem não estive só, estive com um grupo formado por mim, um amigo e novos amigos. Para ser exato, um grupo de seis pessoas. Quatro rapazes e duas moças. Estivemos numa mesa, rodas de cerveja, rodas de cachaça, rodas de petisco. Algo que julgo ser bem brasileiro. Tenho duas fotos disso, embora nós não tenhamos fotos em grupo.





Atualmente, encontro-me bebendo. Bebendo chop. Algo que tenho feito com dada frequência. Naquela mesa, percebi que éramos todos jovens adultos LGBTs. O que me deixou levemente mais confortável. Contei até um caso de um amigo hétero que, embora tivesse posicionamentos progressistas, desconsiderava a ameaça trumpista. O que quero dizer? Quero dizer que ele não via, diante dos próprios olhos, a ameaça que surgia. Sei que pode parecer cafona e brega. Sei que pode parecer progressista. Mas di-lo-ei: eu não vejo nada de bom no espírito trumpista. Eis aqui o meu chopp:




Dizem que Trump é ruim só se você for de esquerda. Eu digo o contrário. Eu digo que odeio Trump por ser de direita. Eu digo que odeio Trump por ser conservador. O que pode parecer difícil para a maior parte das pessoas. Eu odeio ataques às instituições. Eu odeio a demolição das instituições. É por isso que sou conservador.


Sou conservador, pois não espero que humanos sejam íntegros e sóbrios por natureza. Reconhecer que grupos dominantes detêm o local público para si e oprimem quem não o detém é ser conservador, reconhecendo também que a alma humana é uma miserável pilha de segredos, então eu chego à mesma conclusão. O mundo não era melhor antes. A natureza humana não será melhor agora. A maldição de Caim é essa: escravizar os outros em conformidade com a sua própria natureza. Héteros não são do mal por serem dominantes, são do mal por serem humanos e dominantes. A natureza humana é um amontoado de diferentes ciclos de dominação. Pode ser hétero, patriarcal, burguesa ou socialista. A burocracia soviética era mais opressora que a dominação hétero-burguesa. Se o mundo for bissexual, será tão opressivo quanto.


Certa vez, li um livro de teologia algo mais ou menos assim: Abel significa livre como o vento. Caim significa atado à Terra. Abel ofereceu uma oferenda melhor para Deus. Não porque era melhor, mas porque não pagava imposto. Quando Deus puniu Caim colocando-o como Abel, Caim não foi punido. Ele se tornou tão livre quanto Abel. Mas o que Caim fez? Recriou o imposto e o Estado. As estruturas de repressão são comuns à natureza humana desde a sua queda. A maldição de Caim é recriar as condições de opressão. Não importando qual seja o modo. Sou conservador. Logo levo o pessimismo antropológico bastante a sério. Creio que isso explica a razão de eu ser conservador. Não é a bissexualidade que me afasta do conservadorismo, é ela que me leva a ele. Creio que isso explica a razão de eu ser conservador. Não é a bissexualidade que me afasta do conservadorismo, é ela que me leva a ele. A estrutura de Caim é imortal... visto que é ela que demonstra que religiosidade extrema não é sair nas ruas cortando cabeças. É poder levitar mesmo com todas as contradições mundanas. O ser é, mas tudo leva a crer que não pode sê-lo.

Parmênides = o ser é e o não-ser não é.
Heráclito = a existência precede a essência.
("Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio", essa frase cria uma identidade fluida, logo não há um ser tão definido como em Parmênides. Por tal razão, uso a solução de Sartre para explicar o que penso de Heráclito)
Mas a existência é, em si mesma, uma essência.
Ela indica um ser que quer se realizar, mas as condições sociais tolhem isso.
O ser justifica-se perante a tribo.
O ser justifica-se perante a matéria que o nega.
O paraíso é a totalidade do ser. 
E a totalidade do ser é Deus.
O ser só é ser perante o absoluto, visto que o ser só é ser perante Deus e mais nada.
Vimos, no maior dos filósofos conservadores, em Shakespeare, a seguinte pergunta:
Ser ou não ser, eis a questão.
Nesse teatro, Rei Lear, ele finge loucura até ser quem quer ser. Ele nega o ser até poder afirmá-lo.


Nota: quando estava escrevendo isso, eu estava bêbado. Quando fui editar isso, eu estava bêbado. Quando fui olhar esse texto de novo, eu literalmente tinha virado a noite numa festa de quinta pra sexta e outra de sábado para domingo. Meu cérebro parece que foi jogado num liquidificador. De modo que, mesmo revisando o texto agora, ele me parece mais algo saído de um fluxo de consciência precarizado pelo álcool do que produto de alguma razão. E percebo isso agora mesmo estando completamente cansado das duas festas a que fui anteriormente. Resolvi preservar o texto em sua loucura original apenas pois o formato dessas postagens (Caveira Casual) me permitem isso.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Acabo de ler "Lament for a Nation" de George Grant (lido em Inglês/Parte 1)

 


Nome:
Lament for a Nation: The Defeat of Canadian Nationalism

Autor:
George Grant

Autor do prefácio:
Andrew Potter

George Grant alertava que as classes dominantes canadenses buscavam livros fora do país, geralmente nos Estados Unidos, como autoridade final na condução da política e da cultura. A elite canadense tem uma orientação continentalista, voltando-se a aquilo que acreditaram ser o império ocidental. Em um tempo, valiam-se do império inglês. Em outro, valiam-se do império americano. Em outras palavras, são uma elite alienada em relação ao próprio país. O leitor, conhecendo as elites brasileiras, pode chegar a uma conclusão razoavelmente semelhante acerca das elites brasileiras.

George Grant era cético para com a modernidade. Ele via a modernidade e a modernização por extensão lógica, como um processo de apagamento. Isto é, havia o modelo universal e homogêneo e as culturas locais que deveriam ser apagadas para que esse modelo fosse implementado. O Canadá, por sua vez, era uma cultura local situada ao lado do coração mais potente da modernidade: os Estados Unidos da América. Os canadenses acreditavam piamente na modernização e que o Canadá necessitava desse processo. A aceitação desse processo poderia levar ao apagamento da identidade canadense. 

O consenso das ciências sociais, nos anos 60 e nos anos 70, era que a tecnologia era uma força universalmente homogenizante. O que levava à conclusão de que todas as culturas particulares não deveriam existir ou deixariam de existir diante desse processo uniformizador. O império americano acreditava que a vontade humana é radicalmente livre para alterar o mundo e o pensamento liberal levava todos os valores para a esfera privada.

Para Grant, uma sociedade conservadora era baseada na hierarquia, deferência, tradição e moralidade pública. O conservadorismo canadense era pré-lockeano. Era um conservadorismo baseado em Richard Hooker (1554-1600). Hooker foi um teólogo, um humanista cristão e estudioso das obras de São Tomás de Aquino. Ele acreditava na conexão íntima entre o Estado e a Igreja. Esse tipo de visão marcou Grant em sua forma de ver o mundo.

O conservadorismo canadense, naquela época, poderia ser descrito como portador das seguintes características:
- Senso de comunidade;
- Ordem pública;
- Autorrestrição;
- Lealdade ao Estado.

O lema era: "paz, ordem e bom governo". Havia a crença de um Estado centralizado para promover o desenvolvimento político e econômico. Adicionando-se que a liberdade individual deveria ser restrita em nome do bem comum. A sociedade era encarada como um organismo em que cada parte era responsável pelo bem-estar do conjunto. A tradição conservadora canadense, naquele ponto, defendia um Estado intervencionista e rejeitava o continentalismo econômico. O continentalismo econômico era a integração com os Estados Unidos da América.

Podemos colocar as seguintes características:
- Comunidade acima do indivíduo;
- Hierarquia;
- Lei e ordem;
- Tradição;
- Mudanças orgânicas.

Se pensarmos bem nessa estrutura, esse conservadorismo é bastante diferente do neoconservadorismo que seria aplicado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Brian Mulroney. Aqui, é preciso estabelecer ao leitor brasileiro quem é Brian Mulroney. Brian Mulroney foi o décimo oitavo primeiro-ministro do Canadá, durante o período de 1984 a 1993, liderando o Partido Conservador Progressista e aplicou uma agenda econômica neoliberal, algo muito semelhante ao neoconservadorismo de Ronald Reagan nos EUA e de Margaret Thatcher no Reino Unido.

Durante muito tempo, a divisão política no Canadá era mais ou menos essa:
1. Partido Conservador: era mais tradicionalista, era mais nacionalista, tendia a usar mais o poder do Estado para promover o bem coletivo;
2. Partido Liberal: era mais favorável ao livre mercado e tinha uma orientação mais continentalista, isto é, mais alinhada à integração econômica com os Estados Unidos da América.

Atualmente o conservadorismo canadense é mais semelhante ao modelo americano. Os conservadores são religiosos que visam o tradicionalismo moral e são a favor de mais livre mercado.

Uma das maiores críticas de George Grant ao liberalismo é o fato de ele ter trocado o bem aristotélico pelo bem lockeano. O bem aristotélico era baseado numa hierarquia, isto é, com subordinação e superordinação. O bem lockeano é criado pela escolha subjetiva dos agentes. Ou seja, o bem liberal é algo que perseguimos de acordo com os nossos valores privados. É a liberdade de escolher o que quiser.

Grant faz uma leitura política de Nietzsche, no sentido de ver no liberalismo uma espécie de niilismo. O contratualismo surge como algumas leis e instituições coercitivas que servem para preservar as liberdades das múltiplas partes. O projeto liberal inteiro pode ser descrito a partir de seu subjetivismo niilista que não adentra um projeto maior. O projeto liberal tem como fundamento a maximização da liberdade humana como bem central. Os valores últimos são criados pela conveniência do momento ou uma noção vaga sobre o que consiste a qualidade da vida. Tudo se torna instrumental e o indivíduo calcula por si mesmo qual valor escolherá no momento. Todavia, nunca é questionado o que é substancialmente verdade.

A sanha liberal pela liberação humana será completada pela tecnologia. Se a tecnologia serve para a liberação humana, ela cumpre a sua função dentro de uma sociedade liberal. Isso criará o liberalismo tecnocrata.

George Grant trabalhará em suas obras a interconexão entre liberalismo, tecnologia e império. A base da interpretação dessa interconexão será bastante semelhante à ideia marxista de superestrutura. Na análise marxista, é a base econômica que determina as condições da superestrutura. Para quem não está acostumado à análise marxista, a superestrutura é o conjunto de instituições do Estado, do direito, de ideologias, de crenças, cultura e de práticas sociais que emergem e se sustentam sobre a infraestrutura econômica. E dentro da análise marxista, a infraestrutura é quem dita como será a superestrutura. A infraestrutura corresponde a um dado nível de desenvolvimento das forças produtivas e a relações de produção específicas.

Andrew Potter termina a sua introdução alertando que George Grant não conseguiu estabelecer uma resposta positiva para criar uma conexão entre a tecnologia do século XX e a justiça do século XX. Isto é, seria necessário um programa positivo que integrasse de forma justa diagnóstico e solução. Grant focou mais no diagnóstico. Além disso, os canadenses não conseguem estruturar uma identidade nacional. O Canadá é visto como yin e os Estados Unidos como yang. Torna-se uma espécie de antinação, um país marcado pela impermanência, mutabilidade, plasticidade e fragilidade. Fala-se de nacionalismo pós-moderno, mas chega-se à conclusão de que o Canadá se tornou algo. Tal como se fosse um Estado comunicacional em que as pessoas continuassem se comunicando sem chegar a alguma conclusão. O Canadá é atualmente um "Estado em progresso" sem identidade estável. Enquanto os americanos se tornam uma sociedade hobbesiana, marcada pela paranoia e pelo isolamento, a sociedade canadense experimenta valores cosmopolitas.

Vale lembrar que, hoje em dia, muitos dos aspectos hobbesianos vêm sido transferidos para a sociedade canadense. Já surgem grupos ao estilo MAGA no Canadá.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Memória Cadavérica #44 — Um Conservador Diferente

 


Memórias Cadávericas: um acervo de textos aleatórios que resolvi salvar (no blogspot) para que essas não se perdessem.


Contexto: uma resposta breve e razoável.


Eu considero que o marxismo de Deng Xiaoping é o socialismo chinês que se conecta com o pensador Confúcio, uma espécie de conservadorismo confuciano que se mescla com marxismo. Isto é, mantêm-se certos aspectos do planejamento central, mas adicionam-se aspectos de mercado e de mentalidade confuciana. Christopher Lasch provou que é possível um conservadorismo que bebe das fontes do marxismo e da teoria crítica. Já George Grant traz um conservadorismo que bebe de Nietzsche, Hegel e Heidegger. Eu seria uma espécie de Red Tory moderno, conectado com os Never Trumpers e conservatário (conservador libertário, tal como Nelson Rodrigues e Christopher Buckley) nos costumes. Adquirindo aspectos rurbanistas de Gilberto Freyre e distributistas de G. K. Chesterton.


Christopher Lasch é, para mim, um caso paradigmático. Ele constrói o que chama de "populismo radical", uma crítica do progressismo liberal e do capitalismo de mercado que mantém a sensibilidade antimoderna do conservadorismo, mas herda a preocupação marxista com as consequências humanas do capitalismo desenfreado. Essa é uma tradição real que é dialogante com a tradição Red Tory. Lasch é influenciado pelo marxismo de E. P. Thompson e é crítico tanto do capitalismo de consumo quanto do progressismo liberal das elites. Apresenta noções como os limites humanos contra o progresso ilimitado, o valor do trabalho produtivo das classes médias e baixas, as comunidades locais e tradições contra a meritocracia globalizada e a nova classe de profissionais-gerentes.


George Grant, por sua vez, é representante de um conservadorismo que não teme Hegel ou Heidegger, isto é, que aceita a modernidade em seus termos filosóficos mais radicais, não como negação, mas como confronto. O socialismo chinês me aparece como um conservadorismo confuciano mesclado com marxismo. Há algo de extremamente conservador nessa leitura do marxismo pelo PCC (Partido Comunista Chinês): o confucionismo sempre priorizou a ordem hierárquica, a harmonia social, o papel do Estado como tutor moral. O PCC herdou essa estrutura de pensamento, apenas substituiu o Imperador pelo Partido. O que dialoga quase que perfeitamente com noções desenvolvidas pela tradição Red Tory do conservadorismo. Se o socialismo com características chinesas procura a harmonia social e apresenta o bem comum como objetivo, o Red Tory traz uma sensibilidade social que também atua na defesa da ordem, hierarquia e comunidade orgânica. O Estado não é inimigo da tradição, mas instrumento do bem comum contra o individualismo liberal-capitalista puro. George Grant será a integração da dialética e historicidade hegelianas, com a crítica da modernidade niilista de Nietzsche e a tecnologia como destino metafísico de Heidegger. Para Grant, o conservadorismo autêntico não negará a modernidade, mas enfrentará em seus termos mais profundos. Ele questiona a "vontade de vontade" tecnológica, visto que essa dissolve particularidades nacionais, tradições e limites morais.


Gilberto Freyre e G.K. Chesterton convergem em um ponto: ambos desconfiam da concentração, seja de terra, capital ou poder. O distributismo de Chesterton e o rurbanismo de Freyre compartilham uma intuição pré-capitalista: que a comunidade local, a propriedade difusa e a economia moral são superiores à lógica industrial abstrata. A síntese rurbanista-distributista é uma forma de conectar o Brasil rural e urbano, desconfiando da histórica concentração latifundiária no campo e da concentração oligopolista no meio urbano.


Nelson Rodrigues, por meio da sua dramaturgia, e Christopher Buckley, por meio de suas novelas, apresentam um conservadorismo que não é moralista, mas socialmente crítico do moralismo chauvinista de setores da direita. Eles representam o conservadorismo antimoralista, crítica do moralismo burguês, seja de esquerda ou de direita. Opõem-se ao falso pudor, enquanto defendem uma visão trágica e realista da natureza humana. Quando juntos, vemos um conservadorismo espirituoso, literário, cético quanto ao moralismo chauvinista. Isso evita um conservadorismo puritano que se afasta das realidades humanas mais complexas.


A minha conexão com os Never Trumpers se da pela conexão estética e estilista, isto é, a rejeição de um populismo grosseiro e a defesa de costumes ligados a academicidade e institucionalidade como norte político.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Caveira Casual #2 — É raro, mas sempre acontece!

 


Certas coisas na minha vida são raras, mas sempre acontecem. Se eu olhar como são meus amigos, a maioria deles é bissexual. Isso não ocorre por alguma predileção específica, mas é algo que sempre ocorre nos meus círculos. Do mesmo modo, minhas últimas três namoradas tinham as seguintes características:
- Pansexuais;
- Comunistas.

Poderia dizer que eram poliamoristas, mas a última certamente não era, visto que era uma monogâmica de carteirinha. Só tive dois namorados, um homem cis e um homem trans. Já namorei mulher trans. Acho que já fechei o bingo: homem cis, homem trans, mulher cis, mulher trans, não-binário. O mundo não é tão inovador e vejo mais a singularidade e a personalidade de quem amo e de quem amei do que o gênero. 

Durante uma conversa com um amigo meu, que também é bissexual, conversamos sobre política enquanto estávamos no metrô. Disse-lhe que atualmente prefiro uma política baseada em uma análise sistemática e combinatória de diferentes estudos acadêmicos e científicos. Pensar isso no Brasil é algo raro, mas que sempre me acontece. Digo que é raro, pois até as doutrinas políticas surgem aqui, surgem com nome de alguém: bolsonarismo e lulismo são capítulos recentes de nossa história.

De uma maneira geral, lido-me bem com o pensamento progressista. Estou sempre a consumi-lo. Também frequento locais progressistas e liberais. É raro, mas sempre acontece de eu estar numa roda de prosa larga, discutindo os rumos nacionais com colegas e amigos da esquerda. Lido-me bem com a esquerda, participo de um podcast de saúde mental vinculado à esquerda e estou a participar na construção de uma ONG de caráter popular. Já fui em festas políticas, a maioria delas vinculada à esquerda. Até mesmo em festas de políticos de esquerda, só vou mencionar que eram do PSOL e do PT. De uma maneira geral, percebi que quando você tem um diálogo sincero, as fronteiras políticas se dobram e unificam-se. Nelson Rodrigues e G. K. Chesterton, dois dos meus autores prediletos, eram capazes disso.

Não sou um personalista nem um seitista. Lido-me bem com a diversidade. Vejo no PT e no PSOL organizações políticas que trazem uma série de estudos e o que eu gosto é de política com dados, estudos, institutos e acadêmicos. Posso discordar de como você pensa, mas não posso discordar da forma que você estrutura seu pensar se ela for institucionalmente, academicamente e intelectualmente adequada. É por isso que respeito mais o PT e o PSOL que o bolsonarismo, visto que eles ao menos se formam através de análise dedicada e contínua. A continuidade de um grupo político, a consistência e a maturidade dele são articuladas, geradas e mantidas através da formação e do estudo. Isso é algo que sempre foi raso ou pouco no bolsonarismo. Enquanto os conservadores americanos fazem faculdades e institutos, mesmo que esses briguem entre si, os bolsonaristas preferem vociferar contra a academicidade que dá a institucionalidade de que a política (e também a direita) precisa. Você pode discordar de alguém que cursa ciências humanas, mas querer destruir as ciências humanas é um absurdo. Prefiro conservadores americanos, pois eles têm uma solução: faculdades focadas em artes liberais clássicas e no cânon ocidental. Isso é infinitamente mais razoável do que o conservadorismo brasileiro que quer tornar tudo numa gigantesca fábrica dos cursos técnicos.

Quanto às saídas, costumo sair. Não tenho destino fixo. Já caminhei por todas as regiões de São Paulo e por alguma da Grande São Paulo. Já viajei também. Minha última viagem foi para o Rio de Janeiro. Fui para Rio das Ostras e depois para o Campo dos Goytacazes. Confesso que preferi Rio das Ostras. Campo dos Goytacazes tem um clima universitário e é um local mais cosmopolita, viajei por querer esquecer um pouco da pauliceia desvairada e não recordá-la. Rio das Ostras me trouxe a mesma paz que cinto em Mariporã, apenas adicionando o fato de que lá havia uma praia. Quando viajei pra São Vicente, vi que lá parecia o centro de São Paulo, mas que também havia uma praia, o que é uma adição bastante agradável, já que remete ao regionalismo underground paulista que tanto amo. Itanhaém é um local meio estranho para mim, passo horas lendo e comendo sorvete com vinho seco. Além das sessões contínuas de cervejas puro malte que tanto amo. Essas coisas também são raras, mas sempre me acontecem.

Já perdi a conta da quantidade de vezes que tive que comprar pílulas do dia seguinte para mulheres com quem eu estava. Muitas vezes, ligava no meio da noite para minha mãe e falava sobre essa constante inconveniência que sempre me fazia pedir dinheiro. Isso ocorre três vezes ao ano, algo que segue religiosamente. Isso é um fenômeno numerológico que é raro, mas sempre me acontece. Tal como no de 2025, no qual prometi não namorar ninguém e acabei ficando com duas pessoas que já tinha namorado e duas americanas. Claro, fiquei com mais gente. Sou um sujeito bem liberal e fluido nesse tipo de coisa. Nesse ano, prometi que não diria nada sobre não ficar com ninguém, vá que ocorra e isso me leve a ser chamado de hipócrita? É algo raro, mas sempre acontece.

terça-feira, 10 de março de 2026

NGL #58 — Eu tomei posições mais centristas?

 



Envie as suas perguntas anônimas: https://ngl.link/perguntanonimablogspot


Eu me considero pragmático, pessimista e cético. Não alguém "ao centro", mas parte de uma tradição conservadora e reformista, não alinhada ao tradicionalismo moral.


Quanto ao suposto "centrismo", sempre fui alguém que gostava de ler muito. Livros de esquerda, de direita, de centro. Também sou alguém que gosta de ler publicações acadêmicas e científicas. Creio que quando você lê de tudo, você aprende a ver os mais diversos meios e as mais diversas pessoas. Isso impede que você cai numa desumanização do outro.


Creio que ter lido os Never Trumpers me marcou profundamente em tempos recentes. De algum modo, eu pude ver a toxicidade de tudo isso. Do mesmo modo, o mesmo pude ver ao estudar grupos radicalizados, guerras mentais e outros tantos assuntos. Também vejo a seitização social, que se enquadra na estrutura da guerra fria civil, como uma das maiores crises civilizacionais do século XXI.


Recomendo que leia essa análise em específico:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/10/acabo-de-ler-make-russia-great-again-do.html


Acho que as pessoas enxergam "centrismo" onde há aquele conservadorismo lento, construído por pragmatismo, pessimismo e ceticismo. Mas, de algum modo, a minha definição de conservador se parece muito com a definição de um centrista e a definição de conservador do brasileiro médio se parece muito com um tradicionalista ou um reacionário.


Também existem múltiplos outros pontos. Eu percebi o quanto teorias da conspiração, câmaras de eco, seitização, narrativismo em bolhas... eram nocivas para a sociedade. O pacto social se torna cada vez menos possível e as pessoas estão cada vez mais doentes.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Acabo de ler "The Rise of Populism" de Stephen Bannon e David Frum (lido em inglês)

 



Nome:

The Rise of Populism


Debatedores:

Stephen K. Bannon

David Frum


Intermediador:

Rudyard Griffiths


Eu li o livro, mas quem quiser acessar o canal canadense de debates, aqui está o link:

https://youtube.com/@themunkdebates?si=vPT_Rvph0D0eb8tX

Agora se estiver interessado em ouvir o debate, aqui está o link:

https://youtu.be/3nXt2YXrOL4?si=s4N355iN3YCmZ_V5

Se tiver interesse no site:

https://munkdebates.com/


Li esse livro enquanto ficava jogando vinho seco no sorvete e tomando repetidos banhos gelados por causa do calor. Quando fui para praia, acreditei que daria uma folga a minha cabecinha depressiva, mas, na verdade, mergulhei-me em uma série de reflexões e em uma série de leituras. Acho que um grande problema que tenho é esse... eu nunca paro.


Esse livro é bem impressionante, o debate em si é bem impressionante. Usualmente a mídia pinta uma imagem inculta do Bannon, quando vi esse debate, percebi que ele tinha uma intelectualidade mais vibrante do que eu imaginava. David Frum é um "novo conhecido" do blogspot, visto que analisei um livro dele recentemente.


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Bannon, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/06/acabo-de-ler-devils-bargain-de-joshua.html


Caso tenham interesse em uma análise anterior que fale de Frum, leiam essa aqui:

https://cadaverminimal.blogspot.com/2025/12/acabo-de-ler-trumpocracy-de-david-frum.html?m=1


Creio que essas duas figuras são extremamente interessantes. Um faz parte do MAGA (Bannon). Outro faz parte do Never Trump (Frum). Podemos dizer que os dois são conservadores, mas vão em linhas bem opostas. Se Bannon crê no futuro do populismo como uma tática boa, Frum crê que o anti-populismo é o melhor caminho.


David Frum ataca o trumpismo e o MAGA várias vezes, colocando múltiplas vezes como um movimento autocrático, cleptocrático e corrupto. Bannon, múltiplas vezes, diz que é claramente um antifascista, que o movimento MAGA não se importa com cor, sexualidade, gênero, mas com cidadania, além de evitar qualquer coligação com o nacionalismo branco.


Os dois tiveram um desempenho intelectual extremamente ímpar nesse debate. Múltiplas vezes vi Frum ser elogioso para com a administração Obama, além de citar uma série de dados sobre os governos de Bush, Obama e Trump comparativamente. Bannon tomou vantagem nas partes em que dizia que o movimento republicano antigo não ganhava voto e nem tração. Frum rebateu citando dados demográficos, coligando a imagem pública antimigração com a perda de votos futuros graças as políticas de Trump.


Menção especial: Jair Messias Bolsonaro foi mencionado por Bannon e Frum. Além disso, outros presidentes de ligação ao conservadorismo populista foram mencionados.


Creio que muitas pessoas, em todo o Brasil, não sabem as diferenças entre as linhas conservadoras nos Estados Unidos e, por tal razão, acreditam que é tudo a mesma coisa. Quando lemos livros como esses, vemos que nada é tão simples quanto parece. A diferença entre os conservadores são gigantescas.